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quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Ouvintes e falantes que somos...



Andamos em tempo de discursos promissores do paraíso na terra (sem que se diga como) e repletos de observações sobre os outros (que são os potenciais adversários), replicados e anotados em não menor estilo de campanha por quem se diz ser comentador... Vem à memória, para contrariar, um poema que corria nos manuais escolares da escola primária, “Vozes dos Animais”, jogo com os verbos que designam as vozes de quase quarenta animais e conclui com o humano: “A fala foi dada ao homem, / Rei dos outros animais. / Nos versos lidos acima, / Se encontram, em pobre rima, / As vozes dos principais.” O autor não se tinha em grande conta como poeta, mas o texto vingou e permaneceu e, em 1883, Antero de Quental, na sua recolha Tesouro Poético da Infância, incluía este poema de Pedro Dinis (1839-1896), nome de quem pouco se sabe. Camilo Castelo Branco também o antologiara no seu Cancioneiro Alegre (1879), escolhendo um outro texto, mas mencionando ser “Vozes dos Animais” o seu mais conhecido poema, um conjunto “de quadrinhas recitadas pelos nossos pequenos” onde “destila dos seios o leite da instrução primária em apojadura copiosa”.

Ao destacar o homem por ser a criatura que fala, Pedro Dinis intuía que tal superioridade advinha do acto de pensar e do saber, fases primeiras para que a fala seja consistente, fundamentada. Apesar de se saber isso, a verdade é que o esquecimento nos atraiçoa muitas vezes. Assim, na lembrança sobre a oportunidade da fala, recorra-se a Julian Barnes, que nos transmite, quase proverbialmente, o que deveria ser levado como máxima de vida: “Sobre aquilo de que não sabemos falar devemos guardar silêncio.” (in O Sentido do Fim, 2011) Contudo, atrever a incluir este princípio na argumentação é difícil... pois a qualidade da argumentação na discussão e partilha de opiniões nem sempre é preocupação e os hábitos legitimam o falar “porque sim”, confundindo as noções de direito adquirido, liberdade de expressão e ignorância.

Uma outra farpa no discurso é a das condicionantes com que o querem formatar, mais com o objectivo de destruir ideias ou quem as profere. Na narrativa Desisto (2006), Philippe Claudel chamou a atenção para isso, ao dizer: “Hoje em dia, toda a gente evita chamar as coisas pelos nomes: um cego é um invisual, um animador de televisão um artista, os mortos em breve serão não-vivos.” Esta observação ganha acuidade hoje, tempo em que os cuidados em torno dos substantivos (prefiro esta designação àquela que a gramática instituiu, designando-os como “nome”) e dos adjectivos utilizados condicionam a expressão e facilmente servem para fazer desmoronar uma ideia ou para se ser acusado de coisas que nem tinham passado pela cabeça do falante.

Com mais ou menos habilidade, quem fala facilmente pode chegar à falácia (um raciocínio incoerente e não fundamentado, aparentemente verdadeiro) e o objectivo do discurso como forma de aproximação entre humanos facilmente se esvai, com proveito apenas para uma das partes. Deve-se a Eurípedes, na peça teatral As Bacantes, uma análise como esta: “Quando falta o bom senso ao homem audaz e simultaneamente poderoso e hábil na palavra, ele torna-se um cidadão perigoso.” Eurípedes, vivendo no século V antes de Cristo, sabia o que pode um discurso hábil fazer, mesmo que assente sobre erros ou mentiras, sobretudo se não houver o discernimento necessário à análise e reflexão sobre o mundo. O papel do ouvinte, muitas vezes passivo ou na pele do adepto fervoroso, presta-se à situação, sobretudo se se valorizar o espectáculo ou o sentir grupal (venha ele por razões sociais, profissionais, políticas, desportivas ou outras). A verdade é que a responsabilidade do ouvinte é grande, mas, muitas vezes, anulada, como se infere do que escreveu Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis (1972): “Eu falo falo, mas quem me ouve só fixa as palavras que deseja. (…) Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido.” Será pouco, convenhamos, para aquilo que deve ser um ouvinte...

Foi Ruben A. (falecido há meio século), com a sua causticidade e análise provocatória, que, no segundo volume do relato autobiográfico O Mundo à Minha Procura (1966), gravou este pensamento: “Sempre notei que na vida portuguesa não há qualquer relação entre os discursos que se proferem, parangonas que os jornais estampam, e a vida real do País. (...). Em discursos devemos ser o primeiro país do mundo, não só pela quantidade, mas pela diversidade de estilos e de assuntos que cada ser genial abarca diante de um público numeroso e atentamente interessado.”

Um olhar assim condicionado sobre a vida leva a que se siga o que Oscar Wilde desmascarou: “Aquilo de que se não fala nunca aconteceu. É apenas a expressão que dá realidade às coisas.” (in O Retrato de Dorian Gray, 1891) O problema parece residir, então, na selecção dos (prováveis) acontecimentos. E, consequência disso, com frequência, a discussão da actualidade passa pela discussão do que foi dito e como foi dito e não pelo tema do que foi feito ou do que falta ou do que deveria ser feito. E, já agora, do “como” deveria ser feito, uma tónica em que o discurso político é sempre hábil na arte da fuga e na arte (pouco) argumentativa...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1617, 2025-10-08, pg. 2.

     

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Sobre o que as televisões mostram e dizem da pandemia...

 

Surge assinada por cerca de 40 nomes a "Carta aberta às televisões generalistas nacionais", documento divulgado hoje na imprensa - no caso, a transcrição é feita a partir da edição do Público.

Lê-se a "Carta" e há um sentir que nos é comum. As imagens e as opiniões com que temos sido bombardeados são opressoras, primam pela repetição até à náusea, nem sempre são esclarecedoras, quase nunca acrescentam nada ao já sabido, extrapolam para áreas que não têm relação com a saúde ou com o bem-estar, fomentam a angústia, mexem de forma inoportuna com quem trabalha, contentam-se com o estado do caos.

Não era preciso que a comunicação fosse isto. Não era. Daí que a "Carta" seja oportuna. Mesmo que não venha a ter efeitos, porque o mundo dos "media" é o que é (e nem sempre é bom). De facto, ética, sobriedade e contenção deveriam ser três elementos basilares da construção da informação sobre a pandemia! Lamentavelmente, não é o que nos servem todos os dias!...


domingo, 10 de novembro de 2013

Fernando Madrinha e o negócio do ensino (a propósito de uma reportagem da TVI)


A reportagem da TVI transmitida na semana passada, assinada por Ana Leal e por Gonçalo Prego, sobre o financiamento do Estado ao ensino particular não pode deixar ninguém indiferente. Absolutamente ninguém. Quer pelo que se fica a saber, quer pelas injustiças cometidas, quer pelas questões ideológicas subjacentes ao que está a acontecer, quer pela pobreza de argumentos de muitos dos envolvidos (dados assim como quem assobia para o lado), quer por todos nós, por este Portugal que é o meu país.
Fernando Madrinha, colunista do Expresso, na edição de ontem, acentuou a tónica da "promiscuidade". Vale a pena ler.


domingo, 13 de outubro de 2013

Invocar a educação em vão - Não é pecado, mas devia ser...



Filinto Lima escreve no Público de hoje sobre um tema que deveria ser pecado, isto é, que deveria ser lamentado por todos os portugueses: o facto de a educação, especialmente a escola pública, ser pau para toda a colher e de sobre ela se dizerem (e cometerem) aberrações e atrocidades.

sábado, 19 de janeiro de 2013

Marçal Grilo e Oliveira Martins: o pacto da educação

A propósito de bons resultados obtidos pelos alunos portugueses em estudos internacionais, nas áreas da ciência e da leitura, Eduardo Marçal Grilo e Guilherme d’Oliveira Martins (que já foram ministros da educação) assinam no Expresso de hoje pequeno texto (“A qualidade é notícia”, pg. 30) que contém princípios que deveriam ser orientadores para a educação em Portugal. 

Reproduzo três excertos, a todos valorizando por igual, porque acredito nos princípios neles consignados e porque exigem uma responsabilidade partilhada e vasta e uma coerência e coesão que vão muito para lá dos mandatos parlamentares, dos governos ou do silêncio e dos medos para que vamos sendo remetidos.


Conhecimentos e atitudes – “(.…) No mundo tão complexo em que vivemos, o que importa é que os jovens portugueses sejam preparados numa perspectiva integrada em que os conhecimentos são muito relevantes, mas em que as atitudes e os comportamentos de cada um no tocante ao pensamento autónomo, responsabilidade, liderança e espírito de iniciativa são tão relevantes quanto os saberes e conhecimentos científicos. (…)”

Valores – “(…) Portugal precisa de políticas claras, estáveis e de longo prazo em matéria de educação. A crise e as dificuldades financeiras não devem retirar-nos a capacidade para enfrentar os problemas da educação além dos aspectos meramente quantitativos que resultam dos cortes orçamentais. Famílias, pais, professores, directores das escolas, estudantes precisam de estímulos e de acreditar que só através do estudo, do trabalho e do esforço seremos capazes de vencer a crise e sair da angústia em que o país vive mergulhado. (…)”

Outros rumos – “(…) Portugal sairá da crise, recusando a mediocridade e dando à educação, à cultura e à ciência a prioridade que exigem. O país está cansado dos discursos sem consistência que nos debilitam e nos tiram a esperança. Ninguém pode viver sem esperança e sem ânimo para o dia de amanhã.”

sábado, 4 de agosto de 2012

Uns... e os outros: uma crónica sobre Miguel Relvas


No Expresso de hoje, Daniel Oliveira publicou a crónica “O bom malandro”, sujeita ao tema de Miguel Relvas e por causa do que a revista Visão sobre ele escreveu. Vou buscar a crónica de Daniel Oliveira porque ele sintetiza aquilo que penso de toda esta história em torno do ministro que temos, um cidadão com um percurso normal num país em que os valores se pautam como se vê e como sabemos.
Transcrevo um excerto, do final da crónica, por me parecer lapidar: “Ao olhar para a vida de Relvas, revejo a vida de muita gente. Nos partidos, nas empresas, nas famílias. Gente que tem na falta de exigência ética o segredo do seu sucesso. (…) Ainda me revolv[e] as entranhas saber que o meu futuro pode depender de gente assim. É verdade que não há, na vida de Relvas, nada de extraordinariamente chocante. Não se trata de um genial canalha. É apenas mais um fura-vidas. Mas é precisamente a sua vulgaridade, como retrato do poder, que me deprime.”
Não sei que acrescentar. Ah, ainda uma coisa: aquando da primeira fase dos exames do 12º ano deste ano, um ex-aluno virava-se para mim (andava o caso da licenciatura do ministro no auge) e dizia-me: “Está a ver, professor? Para quê estar sempre a dizer-nos para trabalhar e para estudar? A gente faz umas coisas, pede equivalências e chega lá… até a ministro, se preciso for…” A única coisa que alterei na reprodução do discurso do jovem foi a palavra “coisas”, porque o seu termo foi mais vulgar…

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Cidades sem qualidades? (continuação)



Esta notícia, surgida na edição online Rostos de ontem, apresenta uma questão pertinente, que em nada se afasta da opinião já aqui veiculada a partir do blogue de José Teófilo Duarte.
Nestas coisas de ordenações e de rankings baseados em apreciações pessoais e pontuais, há que ter reservas. Um amigo que participou neste inquérito promovido pela Deco como inquirido dizia-me hoje que não se admirava dos resultados, sobretudo se se pensar que estaria ao alcance de qualquer inquirido denegrir a apreciação. “Não me admira que tenha havido gente que respondeu como oportunidade para derreter a imagem de Setúbal”, dizia-me ele.
Nestas coisas, como nos comentários abertos que pululam aí pela net, há que manifestar reservas. Liberdade de opinião, sim; seriedade nas abordagens, também; justificações certas e comprovadas para as opiniões, indispensáveis. O resto pode dar misturas em que, no final, ninguém se revê – nem os próprios inquiridos, nem os opinadores, que, juntos ou separados, julgavam ter uma visão representativa!...
Já agora, os resultados do inquérito intitulado “Qualidade de vida em 124 cidades de 5 países” podem ser vistos aqui.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

N'«O Setubalense» de hoje - Pelo feriado de 1 de Dezembro


A crónica de opinião publicada na edição d'O Setubalense de hoje, sob o título "Pelo feriado de 1 de Dezembro - Ribeiro e Castro e a afirmação da independência", pode ser lida aqui ou aqui.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

N'«O Setubalense» de ontem - Professor

Antes de mais, uma declaração de interesses: sou professor. Por gosto, por prazer, por necessidade de aprender cada vez mais. Tenho de muitos dos meus professores gratas recordações, porque com eles aprendi muito, porque me ajudaram a ter do professor a imagem que tenho, positiva. Recordo muitos deles, sejam da escola primária (era assim que se chamava), do ensino secundário ou do ensino superior. Recordo-os com boas lembranças e, quando os encontro, faço também questão de lhes mostrar essa ligação. De alguns fiquei amigo, de convívio frequente; de outros, sei deles pela memória.
De igual forma, tenho tido alunos que me têm lembrado a importância de nos termos encontrado. Como haverá outros que nem se lembram ou que quiseram esquecer rapidamente. Leis da vida e das conjunturas, pois educar e ensinar não é simples, embora seja uma área sobre a qual é fácil dar palpites, talvez porque todos temos algo a ensinar ou a aprender. Sebastião da Gama dizia isso mesmo aos seus alunos, conforme o recorda no Diário: «Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras.» Revolucionário para a época, em Janeiro de 1949? Não, apenas natural, como continua a ser natural hoje, mas com sabor a aprendizagem e a ensinamento.
Vem tudo a propósito de um texto que vi escrito num saco. É verdade: num saco. Começou o período da apresentação de manuais escolares e, há dias, numa sessão promovida pela Porto Editora, por facilidade de arrumação, os vários componentes dos respectivos projectos eram entregues dentro de um saco, em cujo corpo se podia ler o seguinte texto, dirigido aos professores: “Pela sua paixão, pela sua dedicação e pela sua coragem. Por nos mostrar o mundo. Por nos abrir os olhos. Por nos fazer pensar, imaginar e sonhar. Por cada aula. Pelas letras e pelos números. Pelos pensadores, pelos construtores e pelos inventores. Por nos mostrar o caminho e por caminhar ao nosso lado. Por ensinar as nossas crianças. Por abrir horizontes a Portugal. Obrigado.”
Poder-se-á dizer que a mensagem corresponde à dimensão poética do que pode conter o texto publicitário; poder-se-á dizer que é a boa promoção de uma marca. Certo. Mas não é menos certo que, depois do que tem sido, nos últimos anos, a forma de tratar este grupo profissional, sabe bem ler isto. Todos nós, professores, nos sentimos perto do que esta mensagem diz, às vezes; noutros momentos, sentimos a distância porque não conseguimos chegar ali. Contingências de sermos humanos…
De ser professor gostaria de ter uma recordação como aquela que George Steiner enunciou uma vez, quando lhe perguntaram qual a recompensa possível para um professor: «A recompensa suprema é a de encontrar um aluno muito mais dotado que nós mesmos, que vai avançar mais do que nós, que vai criar a obra que um futuro professor vai ensinar.»

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

sábado, 20 de novembro de 2010

TAS levou Gil Vicente à escola


Auto da Barca do Inferno, pelo TAS - Diabo e Companheiros (cena inicial)

Auto da Barca do Inferno, pelo TAS - Anjo e Parvo(s) (cena final)

Na tarde de quinta-feira, o Teatro Animação de Setúbal (TAS) foi à minha escola representar o vicentino Auto da Barca do Inferno. Texto adaptado por Pompeu José e encenado por Pompeu José e Carlos Curto, que alterou a ordem de entrada das personagens em cena e que eliminou mesmo os cavaleiros (que Gil Vicente pôs no final), teve uma representação que surpreendeu também pelos escassos recursos humanos – três actores (a Isabel Ganilho, o Miguel Assis e a Sónia Martins) foram suficientes para dar corpo a toda a trama da peça. Deixo alguns excertos de comentários dos meus alunos.
A.V.: “Achei que a peça se adequava perfeitamente a pessoas da nossa idade, pois a forma como as personagens se exprimiam e falaram conquistou a atenção de todos. Por outro lado, achei interessante o facto de terem alterado a última parte da história, pois não apareceram os cavaleiros e surgiram dois parvos. (…) A actriz que mais gostei de ver em cena foi a Sónia Martins, que representava o Diabo e o Anjo, pois ela mudava de uma personagem para outra tão bem, mudando a voz e a expressão.
I. D.: “Achei interessante a forma como a peça foi representada. Gostei do facto de serem apenas três pessoas a representar a peça. Como um actor referiu, a esfera representava, de certa forma, o globo, o mundo, o que, na minha opinião, foi um aspecto de que gostei muito, porque, em vez da haver as duas típicas barcas, havia uma esfera única, que representava a barca do Inferno ou a do Céu, consoante a cena e a iluminação.
S. S.: “Gostei bastante da representação. O cenário e as roupas estavam diferentes daquilo que tinha em mente quando li a peça, mas surpreenderam-me pela positiva. A peça mostrou-se mais contemporânea do que parecia no papel e eu gostei disso.
A. B. S.: “Gostei do efeito das luzes, porque a mudança de cor fazia mesmo parecer que estávamos no Inferno ou no Céu.
I. P.: “Surpreendeu-me o facto de a actriz que fazia de Anjo e de Diabo mudar tão rapidamente a voz. (…) Não tive nenhum actor preferido, pois acho que todos fizeram um excelente trabalho. Do ponto de vista cénico, estava muito bom, pois gostei da decoração e do efeito das luzes, que mudavam de cor, consoante fosse a barca do Inferno ou do Paraíso.
T. C.: “Gostei muito de ver esta representação. Acho que as alterações introduzidas na peça foram bem conseguidas, pois, como já a conhecia, fiquei sempre na expectativa para ver como era feira a representação dessas mesmas personagens e cenas. Na minha opinião, os actores estiveram muito bem. A expressividade nas suas falas e a criação das personagens cativaram o público. A personagem que mais apreciei foi o Diabo, pois acho que as falas eram muito cómicas e a representação desta personagem estava espectacular, pois os seus actos diziam mais do que as palavras.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O deslumbramento, segundo Carrilho

Manuel Maria Carrilho. "Será o deslumbramento uma política?". Diário de Notícias: 30.Set.2010

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mário Soares em entrevista

Foi a primeira de uma dúzia de entrevistas que o Público divulgou hoje. Objectivo? "Reflectir sobre o futuro do país, num mundo em profunda mudança". O primeiro a dizer de sua justiça e de sua sabedoria foi Mário Soares, entrevistado por Teresa de Sousa. Eis algumas das reflexões, postas por ordem alfabética dos temas que não pela ordem sequencial da entrevista.
BLOQUEIOS – "Em primeiro lugar, na Justiça. Sem uma Justiça séria e eficaz não podemos avançar. Depois, é indispensável lutarmos contra as desigualdades sociais, a pobreza, o desemprego, o trabalho precário. E só a seguir importa controlar o défice, diminuir o despesismo, acabar com a impunidade dos corruptos, responsáveis pela situação em que nos encontramos. (…) Temos de encontrar e criar empregos para os jovens. O drama do desemprego juvenil tem a ver com o desespero e a depressão. Temos de perceber que a coesão social pode ser posta em causa. Se não fazemos as reformas sociais, estamos, inconscientemente, a criar revoltas, difíceis de controlar."
CRISE(S) – "Estamos hoje a viver no mundo uma crise do capitalismo financeiro-especulativo, política, social e de civilização. (…) Só se fala de quê? Das crises, das nossas fragilidades, do derrotismo nacional, que entrou em moda. E, obviamente, das escutas ilegais, dos escândalos, das roubalheiras. Mas não se discute como é possível combater tudo isso... (…) Carecemos de princípios éticos estritos e obrigatórios para que um capitalismo diferente, com dimensão social e ambiental, possa sobreviver..."
ESPANHA – "Deveríamos entender-nos a fundo com a Espanha nesse sentido. Fazer da Península Ibérica, cujo papel na história universal não é preciso recordar, um centro de reflexão, de ideias novas - e de iniciativas - para o futuro da Europa, como agente global na cena internacional. Temos boas condições para que as relações entre os dois Estados ibéricos se articulem nesse sentido. Devemos ter políticas europeias convergentes. Temos de pôr a Península Ibérica a falar e a fazer-se ouvir."
EUROPA – "Sou um europeísta convicto, como muito bem sabe. Defendo os Estados Unidos da Europa. Penso que deveríamos estar a avançar nesse sentido. Mas não estamos. Tenho hoje muitas dúvidas acerca do futuro da Europa. Os actuais dirigentes europeus não têm visão de futuro. Não sei se reparou que a maioria deixou de falar de construção europeia, como se a União fosse um projecto acabado. Não é. Ninguém se interessa em saber para onde vamos. Aos líderes europeus interessa manter o statu quo, que é a situação que mais lhes convém para se manterem no poder. Não querem reformas nem querem acreditar que o mundo deixou de ser unilateral, que o Ocidente deixou de ser o que foi. O mundo é hoje multilateral e passou a ser global. (…) O ideal da construção europeia é tão rico, significou um tal avanço para o mundo inteiro, que, a perder-se, seria uma verdadeira tragédia para a humanidade."
JUSTIÇA – "Não é aceitável que os juízes, que tinham antigamente uma distância necessária em relação aos outros cidadãos, que os tornava uma referência, se banalizem, ocupem em força as televisões para ver quem lá vai mais vezes e diz maiores dislates. Só para dar nas vistas. Convencidos de que se prestigiam muito, porque vão ao barbeiro ou ao café e as pessoas conhecem-nos. Viram-nos nas televisões..."
NOTÍCIAS E BANALIZAÇÃO – "Repetir as mesmas notícias, mostrar as mesmas imagens, dizer sempre o mesmo, durante dias seguidos. É a banalização! Se, em vez da Madeira, for outra desgraça que nos emocione - uma criança que desapareceu, um incêndio, a morte de um pescador - é a mesma coisa. Só se fala disso. À saciedade. Sem critério. Não porque não haja novidades e outros assuntos mais interessantes a relatar. Mas por ser mais fácil. Repetir mil vezes a mesma coisa, alimentando as audiências e as páginas dos jornais. Se for um escândalo, ainda melhor."
OBAMA – "Obama está a fazer o que pode, apesar das dificuldades imensas que enfrenta. Está-lhe a cair em cima o peso do mundo. Tem uma oposição interna extremamente aguerrida. Há quem comece a gritar contra Obama, porque os decepcionou. Como se pudesse fazer milagres. Não pode. É preciso ajudá-lo, sobretudo a Europa. É um suicídio se o não faz."
PARTIDOS – "A política, hoje, quase está resumida à actividade dos partidos que fazem uma guerrilha artificial entre si. Não se discutem ideias nem se alimentam relações de cordialidade entre os líderes. (…) Não vejo razões para esta luta feroz entre os partidos continuar. Todos têm culpas no cartório. São comportamentos vazios de conteúdo, artificiais. Os nossos líderes - todos -, para se imporem e serem respeitados pelo eleitorado, têm de mudar. Ser mais flexíveis, tolerantes e menos dogmáticos. Ninguém - nenhum partido -, por si só, é o exclusivo detentor da verdade ou do patriotismo. Têm que se entender e respeitar mutuamente. A democracia vive da alternância. E durante as crises - mormente tão graves como a actual - os partidos e os políticos devem fazer um esforço de entendimento. É o que desejam os eleitores. E são os meus votos muito sinceros."
POLÍTICA HOJE – "[Há] uma certa degradação da política - a sua mediatização, a sujeição ao marketing... Dominada pelo dinheiro, sem princípios éticos, nem visão global. (…) A crise política em que hoje vivemos é, em grande parte, artificial. Decorre directamente da forma como os partidos se digladiam. A ambição do poder pelo poder ultrapassa tudo o resto. Ironicamente, numa altura em que o poder político - ao contrário do que devia - é e continua a comportar-se como um poder menor em relação ao poder dos interesses, das grandes empresas multinacionais e nacionais e dos bancos. (…) A política virou-se contra si própria, ajoelhou-se perante o "bezerro de ouro" e afastou-se do jornalismo sério. A ideia de que os políticos não prestam, são venais, só querem tratar das suas vidas, está generalizada ma2s não corresponde à verdade. Há casos conhecidos em que é assim, mas não são generalizáveis."
POLÍTICA E NEGÓCIOS – "A política e o mundo dos negócios devem ser completamente separados. Deve ser um ponto de honra para qualquer político. O Estado não tem que fazer negócios. Deve ocupar-se da segurança, da Justiça, das questões sociais, dos problemas de cidadania, da posição de Portugal no mundo, da defesa das instituições democráticas, da coesão e unidade dos portugueses. E dar confiança ao país. Não somos um país pequeno e sem recursos. Temos uma história que nos honra, uma língua em expansão, a terceira mais falada na Europa. Hoje, há 250 milhões de seres humanos que falam português, em todos os continentes. Se juntarmos a isso os 500 milhões que falam espanhol, percebemos o que a Península Ibérica pode - e deve - representar no mundo: uma força."
POR UMA OUTRA POLÍTICA – "A política sem ideias e sem causas não tem sentido. É preciso mudar as coisas para melhor. Sabe, estou convencido de que é como nos vinhos: há anos bons e anos maus. Na política, passa-se o mesmo: há gerações boas e há outras menos boas. (…) Quando falo das gerações, boas e más, como o vinho, é para me dar a mim próprio a alegria de pensar que o mundo muda e muda para melhor. As actuais gerações de políticos, formados na escola do neoliberalismo, não serão excelentes, com as devidas excepções. Mas vão vir outras, seguramente melhores. A necessidade obriga. Acredito nisso. E acredito que, por efeito da crise actual, as novas gerações serão diferentes. A que foi contemporânea dos dois mandatos do Bush foi ensinada a pensar que o importante, na vida, é ganhar dinheiro. O que é importante na política, é o marketing. O que é importante é parecer, mais do que ser... Foi, em parte, esse delírio do lucro fácil que conduziu à crise mundial. As pessoas perderam a sensibilidade para os valores morais e para perceber a importância do que é essencial para o futuro dos seres humanos. Só sentem a necessidade de ganhar dinheiro, de qualquer maneira..."
VERGONHAS – "É a maior vergonha que temos: as desigualdades sociais, as manchas de pobreza, o crescimento do desemprego. São a prioridade para a mudança. Mas isso não nos deve transformar em profetas da desgraça. Já temos muitos... Ouve-se muita gente a dizer que estamos perdidos, que não vamos recuperar, que o país não tem conserto. Se, pelo menos, essa gente fosse capaz de apresentar ideias e soluções. Mas não. Dizem mal e vão para casa, todos satisfeitos. Desabafaram..."

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Que democracia em Portugal?

Público: 03.Julho.2009. (para ler, clicar sobre a imagem)
Um estudo intitulado "A Qualidade da Democracia em Portugal: A Perspectiva dos Cidadãos", dirigido por Pedro Magalhães, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e promovido pela SEDES, com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e da Intercampus, foi divulgado hoje, tendo o Público adiantado as principais conclusões. Os dados técnicos referem que o inquérito foi realizado pela Intercampus entre os dias 13 e 23 de Março de 2009, com 1003 inquiridos, representativos da população com 18 ou mais anos residentes no continente, seleccionados através do método de quotas, com base numa matriz que cruzou as variáveis sexo, idade (5 grupos), instrução (2 grupos), ocupação (2 grupos), região (7 regiões GFK Metris) e habitat/dimensão dos agregados populacionais (6 grupos) e que a informação foi recolhida presencialmente na residência.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Um outro olhar sobre a Bela Vista (Setúbal)

Somos alguém
«Podemos ser pobres, mas somos alguém. A Dulce, do café, a Carla do CCA, a Felismina da Associação Cabo-verdiana, a Mena do Supermercado, são alguém. O Tony e o Toninho mortos pela polícia, apesar de já não estarem entre nós, também eram alguém.
O Bairro da Bela Vista, em Setúbal, é muito mais que a violência relatada na imprensa, por estes dias. Esta ideia de que a Bela Vista e outros bairros pobres são uma ameaça social é, justamente, construída pela forma como são veiculadas as notícias relativamente aos mesmos, o que contribui, sem dúvida, para o aumento da sua estigmatização.
É preciso lembrar que no meio daquele caos urbanístico moram homens, mulheres e crianças que vivem com dificuldades a vários níveis - social, educativo, laboral - e estão limitados nos seus direitos políticos. Estas pessoas esforçam-se, diariamente, por uma vida melhor e não necessitam da tolerância dos outros, mas sim da garantia dos seus direitos.
Porém, estes não fazem as primeiras páginas de jornais. O que as faz são as rusgas, os bloqueios policiais e a violência.Não é fácil conviver com estes cenários. Por mais que as pessoas do bairro estejam habituadas, é sempre uma profunda humilhação ser-se recorrentemente revistado na rua, viver com recolheres obrigatórios e perímetros de segurança, proibido de ir trabalhar, de ir estudar, como se não bastasse a carência e a exclusão.
O problema da Bela Vista não se resolve com rusgas e bloqueios policiais, mas sim através de políticas públicas transversais que resultem de uma profunda articulação entre os vários actores sociais: a população do bairro, a autarquia, as associações, as escolas, a segurança pública, etc. A Bela Vista sofre de problemas sociais estruturais que vêm de anos de invisibilidade, isolamento e discriminação, para além de padecer de uma enorme falta de auto-estima.Perante esta realidade é urgente requalificar o bairro, garantir mais respostas sociais, novas infra-estruturas e coisas simples como melhorar a iluminação, a recolha do lixo, a limpeza, etc.
É preciso quebrar o ciclo de pobreza, apostar na formação e diminuir a precariedade laboral e o desemprego. Ao invés de demonizar, ainda mais, o bairro, espero que estes episódios sirvam para reflectir sobre os problemas da Bela Vista, criando respostas e soluções que contribuam para melhorar a vida dos seus habitantes, aqueles que não fazem as primeiras páginas dos jornais. Quando o reverendo Jesse Jackson escreveu o poema I am somebody fê-lo com a intenção de promover o respeito e o diálogo intercultural. As pessoas da Bela Vista são alguém, não podem ser rejeitadas, discriminadas e têm direitos. É só isso que os moradores da Bela Vista querem.»
Mónica Frechaut. "Somos alguém". Público: 14.Maio.2009

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Novidades?

A gente lê os jornais e o que fica da moção apresentada por José Sócrates no Centro Cultural de Belém, documento que deverá ser orientador para uma política do PS no caso de obter maioria absoluta nas próximas eleições legislativas, é pouco: continuação das grandes obras públicas (como se não se soubesse já da insistência nesta linha!), escolaridade obrigatória até ao 12º ano (algo de que já se vem falando há muito), alívio da carga fiscal da classe média (rica classe, que tantos votos dá!), regionalização (mais gente no poder) e casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Ah, e pedido de maioria absoluta, claro!
É evidente que os comentários de hoje fugiram para a história do casamento. Muito mais fácil para deixar as agruras da vida, muito mais expedita para que os debates ajudem a desviar atenções da dificuldade que se sente! Estratégico quase.
É também por isto que se vai ouvindo a voz da descrença. Porque existe a noção da política como jogo e pouco mais. Ainda hoje, na emissão aberta da Antena 1, passou um ouvinte que apelou à abstenção, em nome da recusa em pactuar com os políticos que têm servido Portugal. Obviamente, é um ponto de vista bem escorregadio, porque os partidos continuarão a reivindicar as decisões através de votos e os votos só para si. Obviamente, o ouvinte não tinha razão porque, devido a tão elevada abstenção, é que os resultados eleitorais têm sido o que são. A diminuição da abstenção implicaria resultados diferentes e as maiorias poderiam ser mais equilibradas. Já deu para perceber que, em Portugal, as maiorias absolutas têm uma linha de fronteira muito ténue com o autoritarismo, além de o mundo assumir mais um estatuto de encenação do que de realidade e só a verdade da governação contar.
Não há dúvidas de que a campanha eleitoral está em marcha. E os problemas também. E a classe média (querida classe média, sempre lembrada quando convém!...) ouvirá cantos de sereia a preceito.

sábado, 17 de janeiro de 2009

O comentário de D. Manuel Martins

No costumeiro “Bilhete Postal” que sai semanalmente no Notícias de Setúbal, D. Manuel Martins (bispo emérito de Setúbal) escreve, na edição desta semana, sobre três assuntos: a desigualdade, que atinge os direitos humanos, provocada pelo facto de 85% dos bens pertencerem a 15% de pessoas; a atitude do Arcebispo de Milão, que criou um fundo para ajudar os carenciados, aí depositando os seus bens pessoais; a instabilidade institucional, a nível de topo, que se tem feito sentir em Portugal. Palavras certeiras, todas elas. Com destinatários não menos certos. E para que todos pensemos.

D. Manuel Martins. "Bilhete Postal". Notícias de Setúbal: nº 338, 16.Jan.2009.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A propósito do texto de Lídia Jorge sobre a excelência da educação que (não) se tem discutido

Há dias, no Público, Lídia Jorge escreveu um texto excelente (a meu ver e, por isso, aqui o reproduzi) sobre a escola e os critérios de excelência, bem elucidativo sobre o que se tem passado nas escolas portuguesas quanto a esse fenómeno (porque assim o têm tratado) que vai sendo a avaliação de desempenho docente. Hoje, nas cartas dos leitores, o Público editou a opinião de António Reis, de Santa Maria da Feira, que eu perfilho. Também por isso, aqui a transcrevo.
«Estas palavras que aqui escrevo são motivadas pelo texto de Lídia Jorge publicado neste jornal, página 38, no dia 9 de Janeiro. Aí Lídia Jorge escreve sobre a política educativa do Ministério da Educação e, particularmente, sobre as medidas ministeriais relativas ao estatuto e carreira profissional dos professores, e, simultaneamente, sobre a função desempenhada por estes profissionais na escola de hoje. Depois de ler e ouvir tantas opiniões, mais ou menos informadas, alternadas com escritos desprovidos de sentido e de propósito, muitas vezes veículo de mentiras de tão desinformados, eis que leio um texto bem escrito, como só uma grande escritora o poderia escrever, mas, para mim mais premente, fundamental, um texto sensato e razoável, não porque ataque figuras do Governo e as suas políticas, como se ser-se "do contra" justifique, só por si, a crítica, mas porque o faz argumentando com razões e factos, transmitindo, assim, uma crítica fundamentada. Estou certo de que Lídia Jorge deixou muita gente perturbada; muitos, até, amantes da sua escrita literária. Num instante ocorre-me lembrar esse outro escritor que, quando opina sobre os professores, despeja, descontroladamente, críticas e adjectivos azedos, sem tino nem razão. Nunca lhe ouvi, nem li, uma crítica onde demonstrasse conhecer a realidade da escola e do trabalho do professor e um qualquer conhecimento teórico ou prático que o autorizasse, pelo saber, a falar e escrever, a pensar até, dessa forma sobre os professores. Que diferença, então, para estas palavras que Lídia Jorge nos deixou.Com este contributo, Lídia Jorge mostra-nos que os escritores, pensadores pela palavra escrita, ao escreverem sobre a sociedade real, devem usar essa arma com saber, razão, sensatez, enfim, com argumento válido e a propósito. Ela ensina-nos a sermos cidadãos da única forma que se pode ser: colaborarmos com as nossas capacidades para a a construção de um país e de uma sociedade onde se viva com dignidade.»

sábado, 22 de novembro de 2008

terça-feira, 11 de novembro de 2008

As palavras de Manuel Alegre na "OPS"

«(...) Confesso que me chocou profundamente a inflexibilidade da Ministra e o modo como se referiu à manifestação, por ela considerada como forma de intimidação ou chantagem, numa linguagem imprópria de um titular da pasta da educação e incompatível com uma cultura democrática.
Confesso ainda que, tendo nascido em 1936 e tendo passado a vida a lutar pela liberdade de expressão e contra o medo, estou farto de pulsões e tiques autoritários, assim como de aqueles que não têm dúvidas, nunca se enganam, e pensam que podem tudo contra todos.
O Governo redefiniu a reforma da educação como uma prioridade estratégica. Mas como reformar a educação, sem ou contra os professores? Em meu entender, não é possível passar do laxismo anterior a um excesso de burocracia conjugada com facilitismo. Governar para as estatísticas não é reformar. A falta da exigência da Escola Pública põe em causa a igualdade de oportunidades. Por outro lado, tudo se discute menos o essencial: os programas e os conteúdos do ensino. A Escola Pública e as Universidades têm de formar cidadãos e não apenas quadros para as necessidades empresariais. No momento em que começa a assistir-se no mundo a uma mudança de paradigma, esta é a questão essencial. É preciso apostar na qualificação como um recurso estratégico na economia do conhecimento, através da aquisição de níveis de preparação e competências alargados e diversificados. Não é possível avançar na democratização e na qualificação do sistema escolar se não se valorizar a Escola Pública, o enraizamento local de cada escola, a participação de todos os interessados na sua administração, a autonomia e responsabilidade de cada escola na aplicação do currículo nacional, a educação dos adultos, a autonomia das universidades e politécnicos.
Não aceito a tentativa de secundarizar e diminuir o papel do Estado no desenvolvimento educacional do nosso país. Sou a favor da gestão democrática das escolas, com participação dos professores, dos estudantes, dos pais, das autarquias. Defendo um forte financiamento público e um razoável valor de propinas, no ensino superior, acompanhado de apoio social correctivo sempre que necessário. E sou a favor do aumento da escolaridade obrigatória para doze anos. Devem ser criadas condições universais de acesso à escolaridade obrigatória, nomeadamente através de transporte público gratuito e fornecimento de alimentação. O abandono escolar precoce deve ser combatido nas suas causas sociais, culturais e materiais.
Não se pode reformar a educação tapando os ouvidos aos protestos e às críticas. É preciso saber ouvir e dialogar. É preciso perceber que, mesmo que se tenha uma parte da razão, não é possível ter a razão toda contra tudo e contra todos. Tal não é possível em Democracia.»
in OPS! - Revista de opinião socialista. Nº 2, Novembro.2008.