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domingo, 15 de julho de 2007

Cinco livros - considerações e convites

As "dicas" sobre os "cinco livros" vieram de uma proposta de José Teófilo Duarte, que terá começado por ser de um autor de blog que escreveu sobre cinco livros e depois convidou cinco outros autores de blog para cada qual escrever sobre cinco livros e assim sucessivamente... Como achei a ideia interessante, aderi e agradeço ao José Teófilo Duarte o ter-me interpelado.
Agora, lanço eu os convites para a Céu Couto, para a Teresa Lopes, para o Nuno Sousa, para o João Aldeia e para o Miguel Castelo Branco entrarem nessa rede, se assim o entenderem!

Cinco livros - o(s) quinto(s)

É lapaliciano dizer que as guerras evoluíram na forma de serem concebidas e de serem realizadas. Mas uma questão que raramente vem à tona é a da experiência dos guerreiros (ou dos combatentes, como se queira), ainda que a ficção e o cinema com frequência a elejam como motivo. Ernst Jünger (1895-1998) esteve nas trincheiras da “frente” da I Grande Guerra (1914-1918) pelo lado alemão, tendo sido ferido em combate muitas vezes (duas dezenas de cicatrizes) mas sempre regressando às linhas.
Em 1922, publicou Der Kampf als inneres Erlebnis, recentemente traduzido para português sob o título A Guerra como Experiência Interior (Lisboa: Ulisseia, 2005). É um escrito que enaltece a memória da guerra, a reflexão sobre as memórias, questionando e explicando os homens, as atitudes, esse assumir cada vez mais completo e feito de forma imperceptível do que é estar-se dentro de uma guerra, fazendo-a. A linguagem usada, sem ser para contar histórias, não esquece essa marca da escrita da guerra, com um vocabulário próprio (logo a partir do primeiro parágrafo do “Preâmbulo”) que toma como referente a destruição e invoca as vivências na trincheira perante o assalto do fogo, das armas, da guerra na sua visão mais próxima. Não foi por acaso que o anterior livro de Jünger sobre a sua experiência nesse conflito se chamou Tempestades de Aço (1920)!...
Os títulos dos capítulos deste A Guerra como Experiência Interior são, de resto, lacónicos na quantidade de palavras, mas expressivos na mensagem, quase sendo propostos ao leitor como se no meio da guerra estivesse, em “flashes” de destruição: “Sangue”, “Horror”, “Trincheira”, “Bravura”, “Fogo”, “Angústia”, para só citar alguns.
A literatura portuguesa sobre a I Grande Guerra existe e o leitor sempre poderá ler Jaime Cortesão, nas suas Memórias da Grande Guerra (Porto: Renascença Portuguesa, 1919), ao mesmo tempo que lê Jünger, mesmo porque são duas experiências da “frente" e da trincheira, uma de cada lado da “no man’s land”! Se a curiosidade nos levar a questionar quanto à origem da guerra, bem podemos ainda seguir a correspondência entre Albert Einstein (1879-1955) e Sigmund Freud (1856-1939), datada de 1932, inserida em Porquê a Guerra?, que teve recente edição portuguesa (Mem Martins: Publicações Europa-América, 2007).

Cinco livros - o quarto

Retábulo das Matérias, de Pedro Tamen (n. 1934), constrói-se sobre o altar das palavras e dos títulos de livros de 45 anos de poesia, desde que, em 1956, saiu o Poema para todos os Dias. É, aliás, nesse primeiro livro que Tamen apresenta a escrita da poesia como elemento fixador e memorizador - "Ontem / (ainda ontem) / aconteciam verdadeiras coisas, / aconteciam muitas e sérias coisas. / E, agora, neste seco papel, / tudo volta, e eu vejo." Neste retábulo, torna-se evidente a força da palavra - "Não há montanhas se não há palavras" -, a capacidade de surpreender o leitor pela palavra intrometida - "Não penso, faço, / não estrada, sigo" -, o apelo aos jogos de sonoridades - "e o dia perto, porto, parto ferido" - e mesmo o engenho de (re)inventar a palavra - "aleluia-se um gesto".
Presentes também estão os temas do amor - "em ti não busco mais do que pensar-te" - e do tempo - "o tempo todo corre num cigarro, / no suor a cair, e no ficar." Interessantes são ainda as marcas de autor, num processo quase hitchcockiano de assinatura da obra, aqui e ali saltando para o poema - "formado em direito e em solidão" ou "Sentidos frios de pesadas frases / Ai Pedro, Pedro, tu que frases fazes?" Finalmente, assinalarei a subtileza na forma de apresentar, de visitar e de escrever a poesia: "Em segredo, como quem vai ao armário de si próprio, / rodo a fechadura (range) e abro."
Depois de reunir a obra completa neste Retábulo das Matérias (Lisboa: Gótica, 2001), de Pedro Tamen foi editado Analogia e Dedos (Lisboa: Oceanos, 2006), quando passavam os seus 50 anos de vida literária (em poesia).

sábado, 14 de julho de 2007

Cinco livros - o terceiro

Há um livro de Sebastião da Gama (1924-1952) que sempre me fascinou e de que nem sempre se fala – é O Segredo é Amar, publicação póstuma organizada por Matilde Rosa Araújo que teve estreia editorial em 1969. É um livro onde cabem textos em prosa multifacetados e de interesses diversos: o leitor ora se confronta com histórias, ora com páginas diarísticas, ora com notas de viagem (bem interessante o relato da visita a França, ainda que não narre toda a viagem, e, igualmente belo, “A Região dos Três Castelos”, o melhor que até hoje se escreveu sobre esta zona da Península de Setúbal em termos de divulgação e de proposta turística, ainda com actualidade), ora com artigos de jornal (aí havendo talvez dos mais afectuosos dizeres sobre Estremoz…), ora com textos de apreciação literária (agradável e de grande sensibilidade é o que se intitula “Lugar de Bocage na nossa Poesia de Amor”, que constituiu uma conferência, e não menos interessante é o texto “Apontamentos sobre a Poesia Social no Século XIX”, que constituiu a sua dissertação de licenciatura). Por aqui surgem experiências, estudo da poesia, capacidade de invento, simplicidade de escrita. E a gente percebe que Sebastião da Gama não era o poeta repentino e de acaso, mas um poeta em formação, sustentado no conhecimento das teorias e da tradição literária portuguesa.
O Segredo é Amar contém ainda aquele que foi o último texto que Sebastião da Gama escreveu – uma pequena crónica intitulada “Encarcerar a Asa”, datada de 25 de Janeiro de 1952 (o poeta faleceria 13 dias depois), de Estremoz. Apesar da doença que já o dominava, Sebastião da Gama não desperdiçou a oportunidade de louvar a Vida e os homens – “Os meus vizinhos têm um bicho numa gaiola. Um pintassilgo. Pois se eu andasse zangado com a Vida, que não ando (apesar de tanto mal que me tem feito, há tantas coisas boas que a Vida dá e me dá!), era por causa do pintassilgo que me reconciliaria com ela. Com ela e com os homens – se eu andasse zangado com os homens…

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Cinco livros - o segundo

Conjunto dos dias experimentados entre 3 de Janeiro de 1932 e 10 de Dezembro de 1993 e projecto de escrita de autor levado a cabo com a minúcia do tempo e da vida, o Diário, de Miguel Torga (1907-1995), é uma das mais extensas práticas diarísticas que existe na escrita autobiográfica portuguesa. Tomando como máxima uma citação de Amiel ("Chaque jour nous laissons une partie de nous-mêmes en chemin"), Torga inscreveu nesta obra (publicada entre 1941 e 1993) os seus momentos de poesia, de dureza, de histórias, de afectos, de cenas, de trajectos, de retratos, de desabafos, de vivências, aí ressaltando o homem (na sua experiência e no seu encarar a vida) mas também o escritor (na forma como selecciona os momentos e como inscreve a vida na literatura). Entre o primeiro e o 16º volumes, há o itinerário entre dois poemas, ambos escritos em Coimbra: "Santo e senha", que inicia o volume inaugural (em 3 de Janeiro de 1932), abertura para o caminho - "Deixem passar quem vai na sua estrada" diz o primeiro verso - e "Requiem por mim", que finaliza o derradeiro volume (em 10 de Dezembro de 1993), ponto final na escrita - "Aproxima-se o fim. / (...) / Longo foi o caminho e desmedidos / Os sonhos que nele tive. / Mas ninguém vive / Contra as leis do destino."
Percurso de um narrador que se move entre S. Martinho da Anta e o Mundo, o Diário de Torga é uma das mais belas e interessantes obras que li, ainda na apresentação em 16 volumes, de folhas cujo corte exigia a participação do leitor, numa edição simples e sóbria [há edição recente do Diário em dois volumes].

Cinco livros - o primeiro

O José Teófilo Duarte deixou o convite [10 de Julho] para cinco livros. Os cinco de que direi são estes, mas poderiam ser outros, etc., etc., etc. Por agora, mostrarei Colóquio-Letras, uma publicação institucional no âmbito da literatura (da Fundação Calouste Gulbenkian). Os cinco últimos tomos (abrangendo os números 163, 164, 165, 166/167 e 168/169) são de consulta (e leituras) obrigatórias para quem goste de poesia, de ensaio sobre poesia, de David Mourão-Ferreira (1927-1996).
Os três primeiros submetem-se ao título de "Vozes da Poesia Europeia" e contêm traduções de poetas de um tempo entre Homero (séc. VIII aC) e Tomás Segovia (n. 1927), feitas por David Mourão-Ferreira; os dois tomos duplos registam os textos de David que serviram de roteiro ao programa televisivo "Imagens da Poesia Europeia", contendo ainda o último volume um dvd com "Imagens de David" (excertos de programas, de entrevistas, etc.).
No conjunto, são cerca de 1700 páginas com poesia e sobre poesia, sem a obrigatoriedade de ler de seguida, mas para consultar, para parar, para obter informação, para guardar, para intervalar. Habituados que estamos ao universo poético e romanesco de David Mourão-Ferreira, ficamos agora com a sua sensibilidade e saber de tradutor e com alguma da sua ensaística, lembrando o tom de tertúlia que ele punha nas conversas sobre literatura e sobre poesia, tratando-as como fazendo parte da sua vida, como sendo a sua vida.
Brevemente, falarei dos outros quatro e... passarei a bola a cinco convidados.