sábado, 23 de maio de 2026

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (1)



Quando José Saramago, em 1982, publicou Memorial do Convento, uma das personagens intensas que inseriu na obra foi a do padre Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), imagem das novas ideias a provocarem estranheza no meio português. O inventor do aeróstato surge no capítulo VI, apresentado com 26 anos (mesma idade de Baltasar Sete-Sóis, outra personagem importante para a narrativa): “no Brasil nasceu e novo veio pela primeira vez a Portugal, de tanto estudo e memória que, sendo moço de quinze anos, prometia, e muito fez do que prometeu, dizer de cor todo Virgílio, Horácio, Ovídio, Quinto Cúrcio, Suetónio, Mecenas e Séneca, para diante e para trás, ou donde lhe apontassem, e dar a definição de todas as fábulas que se escreveram, e a que fim as fingiram os gentios gregos e romanos, e também dizer quem foram os autores de todos os livros de versos, antigos e modernos, até ao ano de mil e duzentos, e se alguém lhe dissesse uma poesia, logo responderia a propósito com dez versos seus ali mesmo compostos, e prometia também justificar e defender toda a filosofia e os pontos mais intricados dela, e explicar a parte de Aristóteles (...) e responder a toda as dúvidas da Sagrada Escritura.” 

O que pode parecer um panegírico saramaguiano do sacerdote-inventor nascido em Santos (Brasil) corresponde à pluralidade e riqueza da obra do mesmo, recentemente dada a conhecer pelo investigador Daniel Pires (n. 1951) sob o título Obra de Bartolomeu de Gusmão (Imprensa Nacional, 2025), que teve a colaboração de António Mateus Vilhena para a tradução de documentos em latim.

Na abertura do texto prefacial, Daniel Pires justifica a pertinência da publicação desta obra: “Dois imperativos presidiram à elaboração deste volume: reunir a obra de Bartolomeu de Gusmão e contribuir para demonstrar que, neste importante nome da cultura portuguesa, ao contrário do que as autoridades mais poderosas e os indivíduos movidos pelo preconceito e pela inveja afirmaram, convergiam o idealismo, a procura da transcendência, o visionarismo, a erudição, a criatividade e o espírito científico.” De uma penada, Daniel Pires defende a qualidade da obra e do pensamento de Bartolomeu de Gusmão, sobrevalorizando-a a todas as diatribes orquestradas — desde a perseguição movida pelo Santo Ofício até às ironias de Tomás Pinto Brandão (1664-1743) e de outros, não esquecendo as de proveniência anónima.

Os textos de Gusmão surgem organizados em vários grupos, numa divisão por géneros que, só por si, mostra a diversidade de interesses e de discurso que Gusmão praticou — “cientista, jurista, historiador, poeta e autor de ensaios filosóficos, bibliófilo, orador sacro” —, sendo cada grupo antecedido de uma nota explicativa, com anotações histórico-biográficas, da responsabilidade do organizador do volume.

O primeiro grupo é ocupado com textos abordando temáticas diversas: o projecto da “máquina para se navegar pelo ar”, a construção do sextante, a ideia para uma planta do Observatório Português, o uso de “um invento de fazer subir água”, os modos de extrair água das naus, a obtenção de carvão a partir de terra artificial, os processos de fazer um moinho moer ainda mais.

Nestes textos, as explicações e as construções argumentativas de Gusmão são cuidadas e até imaginativas. Repare-se nas vantagens de existir a máquina voadora: “ter-se-ão notícias a todo o tempo, tanto dos desígnios como dos exércitos inimigos, sem risco, poderão as praças sitiadas mandar avisos, ser socorridas e retirar-se delas as pessoas que quiserem sem perigo; descobrir-se-ão as terras que ficam debaixo dos pólos do mundo, por cessarem no ar os impedimentos que por mar tem havido. Em uma palavra para todo o comércio, levar cartas, fazer jornadas, passar letras, transportar riquezas e acudir a qualquer negócio, nem se pode imaginar caminho nem mais seguro nem mais breve.” A este rol de conveniências, Gusmão faz acrescer ainda outras características como, por exemplo, a rapidez da comunicação — “no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e a terras mui remotas quase no mesmo tempo em que se resolverem”. E o interesse do “invento de fazer subir água”? Com tal equipamento “se podem trazer águas muito distantes e baixar a altura necessária para se fazerem chafarizes e fontes públicas para o mato das cidades e conveniências dos povos”. A resolução do problema da extracção das águas do interior das naus mereceu também uma proposta de Bartolomeu de Gusmão, aproveitando quatro princípios da física e da natureza — “primeiro, o vento; segundo, a correnteza da água que o navio vai cortando; terceiro, o movimento que a nau tem no mar livre; quarto, finalmente, a perpétua inquietação das ondas.”

Observador, curioso e pragmático, Gusmão apresenta os seus projectos de forma quase irrebatível, recorrendo à experiência, às leis da física e à vontade de colocar todo o seu saber ao serviço do desenvolvimento.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1762, 2026-05-20, pg. 10.

 

terça-feira, 19 de maio de 2026

O exílio existiu e fez parte do caminho (3)

 


Resulta dos testemunhos recolhidos em O que muitos andaram para aqui chegarmos (edição Poemar, 2025) que, com as vidas retomadas e construídas na Bélgica durante o exílio, o retorno não foi para a maioria uma prioridade e Portugal passou a ser destino regular de visita (depois de 1974), mas sem a obrigação de ser o ponto final de nada: há quem venha a Portugal visitar a família, quem viva entre os dois países, quem tenha regressado, quem oscile entre a raiz e o país de acolhimento, “de coração”. Mas, quando a conversa gira para o que significa hoje o país onde nasceram, as respostas parecem revestir-se mais de nostalgia — Manuela Pereira explica, talvez, esse sentimento que lhe foi dado testemunhar com o marido: “trazia sempre um papel no bolso que dizia que, se morresse, queria ser sepultado na Bélgica e não no país que o obrigou a sair do que considerava ser a sua casa”. E, quando lhe perguntam em qual dos dois países quer ficar, responde, algo laconicamente: “Para mim, é igual: onde estiver, fico.”

Maioritariamente, a parte mais densa destes testemunhos assenta nas razões que conduziram à partida, melhor, à fuga de Portugal, numa quase necessidade de serem explicadas as razões, de ser revivido o contexto, quase para dar sentido à mudança, para justificar a vida. Outra parte significativa é ocupada com as possibilidades que cada um teve de inclusão na nova sociedade e de desenvolvimento dos projectos pessoais, sentindo-se o tom de agradecimento ao país que os recebeu e a conquista da estabilidade pessoal e social, apesar de também ter havido episódios de segregação.

Se as memórias são o ponto nevrálgico que sustenta este livro, ele existe também para celebrar a memória — o último capítulo intitula-se significativamente “In Memoriam” e lembra uma dezena de nomes, companheiros de percurso, nascidos entre 1940 e 1951 e exilados na década de 1960, mencionados pelos entrevistados no cruzamento das histórias, por aqui passando o poeta Al Berto, António Lacerda Setas (“o primeiro português a receber o estatuto de refugiado político da ONU na Bélgica”), António Moura (paladino do movimento associativo dos emigrantes em Liège), Jorge Ramos Tavares da Silva (que divulgou a cozinha portuguesa tradicional), José Neves Morgado (formado em Filosofia em Bruxelas e quadro da RTP), Luís Rosado de Sousa (trabalhador na indústria hoteleira e taxista), Manuel Costa Neves (associativista, empreendedor na restauração, galerista e pintor), Mário Gastão Martins da Costa (autor de ilustrações e de desenhos animados), Raul Sabrosa (ligado à indústria hoteleira e, regressado a Portugal após o 25 de Abril, formado em enfermagem) e Rui Veiga Pinto (advogado e co-autor de um documento aquando do 25 de Abril que afirmava que esta data só se cumpriria com o fim da guerra colonial).

Seja dada ainda nota de algumas relações que os testemunhos recolhidos nesta obra têm com Setúbal. Em primeiro lugar, porque uma das organizadoras, membro do grupo “Poemar”, tem fortes ligações a Setúbal — Maria Manuel Gandra (n. 1944), setubalense por adopção, aqui leccionou no ensino secundário e foi professora acompanhante de estágios de profissionalização na Escola Superior de Educação de Setúbal. Depois, porque dois dos nomes que deram o seu testemunho sobre o exílio tiveram ligação a esta cidade num dado momento das suas vidas: Joaquim Tenreira (n. 1945), natural de Sabugal, diplomado em Teologia, procurou o exílio em 1972, mas, enquanto seminarista na Guarda, acompanhou os movimentos em prol de uma igreja progressista e integrou “uma equipa de padres operários, em Setúbal”, tendo trabalhado “numa fábrica de montagem de automóveis de 1968 a 1970” (experiência de que existe relato na obra Presença e Missão, de Elisário de Sousa, publicada em 1998, referindo o caso da Movauto, onde este grupo de padres operários a que esteve ligado Tenreira interveio); Domingos Ribeiro de Campos (n. 1941), barcelense, chegou ao exílio em 1963 e só voltou à casa da família em 1974, mas, nesse período, chegou a vir a Setúbal “fazer uma acção clandestina” sobre a qual não deu pormenores.

O que muitos andaram para aqui chegarmos é um título eficaz. Inspirado num verso da canção “Eu vim de longe”, de José Mário Branco, ele próprio um exilado pelas mesmas razões que vários dos intervenientes nesta obra o foram, este título homenageia a quantidade de vidas que se alteraram em defesa da liberdade e em busca da esperança, ao mesmo tempo que faz assentar a responsabilidade da manutenção dessa mesma liberdade sobre o presente, quase elaborando um mapa dos riscos, vencidos pela tenacidade de uns tantos corajosos para hoje sermos o que somos.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1757, 2026-05-13, pg. 10.


domingo, 10 de maio de 2026

O exílio existiu e fez parte do caminho (2)

 


As memórias sobre o exílio recolhidas pelo grupo “Poemar” para a obra O que muitos andaram para aqui chegarmos começam com as partidas. Do acto de partir ficou o sentimento do risco a correr, do medo, da decisão quase repentina — “Foi muito difícil... estava cheia de medo... mas, naquele momento, o desejo de sair era já maior que o medo! Deram-nos bilhetes, tínhamos de ir disfarçados, eu tinha pintado o cabelo e o Joaquim usava uma peruca e um bigode... o nosso medo era que, se fôssemos apanhados em Espanha, seríamos extraditados imediatamente para Portugal.”, lembra Mariana Xufre. Do acto de partir ficou a ideia do afastamento dos amigos, da família, do país — esse corte é assim relembrado por Manuela Pereira, que fugiu com o marido rumo a Bruxelas, depois de ter obtido um passaporte com a desculpa de querer ir ver um jogo no estrangeiro: “No dia anterior à partida, o meu marido, de noite (porque um colega seu que era da PIDE morava em frente à nossa casa), levou as malas, uma minha e outra dele, para casa da minha mãe, que morava na Baixa em Lisboa, e foi de lá que saímos para a estação. Deixámos a casa tal como estava. Deixámos a família. Deixámos a nossa Lisboa maravilhosa, o nosso país, a língua. E agora desembrulhem-se! Tudo novo! A questão é que, se a tua vida corre perigo, tens de mudar...” Do acto de partir ficou também a justificação da revolta, enviada ao Chefe de Estado, como aconteceu na história de que Ribeiro de Campos foi protagonista — “Prepara-se para a saída, em segredo, falando apenas com um amigo (...). Tem, então, um gesto de grande ousadia que revela bem o seu carácter, as suas convicções e a sua coragem: na véspera da partida, prepara uma encomenda com a sua farda de furriel e vai aos correios enviá-la ao Presidente do Conselho António Oliveira Salazar... correndo o sério risco de ser apanhado pela PIDE!”

Neste livro, Bruxelas foi o destino imediato para uns, enquanto outros tiveram ainda a passagem por Paris. E foi a urgência dos apoios de amigos, da solidariedade, do início de trabalho (fosse o que fosse — cuidadora de bebés, taxista, cabeleireira, prestador de cuidados a acamados, operador de máquina de picotagem, etc.), do recomeço dos estudos ou da formação profissional. E foi ainda o receber apoio de muitos e dar apoio a outros tantos, à medida que iam chegando. E foi a procura de uma actividade que os realizasse e em que se afirmassem. E foi a descoberta de referências de Portugal para o mundo, como aconteceu com o conhecimento que João Corrêa obteve da história e do papel de Aristides de Sousa Mendes, figura que divulgou grandemente e cuja memória resgatou. E foi a manutenção das relações políticas com os companheiros de Portugal ou a intervenção política em terras da Bélgica. E foi a esperança sempre à espreita de que, um dia, talvez, quem sabe...

Alguns dos textos foram compostos em cima do cinquentenário do 25 de Abril, o que seria motivo para haver a associação ao que aconteceu em 1974. Mas essa lembrança perpassa por todos os testemunhos ou não tivesse esse dia sido o tal que concretizou a esperança... “Soubemos pela rádio, pela família... Quando soubemos foi inesperado... nem sabíamos muito bem o que pensar... eu já não esperava... eu nunca imaginei que fosse acontecer tão rapidamente... Apetecia-me gritar!” — relembra Mariana Xufre. “O facto de se ter instalado a democracia é a maior riqueza que eu senti... ver nascer a liberdade em 1974. Conseguir-se fazer a democracia foi o que mais profundamente me tocou. Sobretudo, porque, antes, sentíamo-nos encolhidos, diminuídos por dentro e depois houve aquele dia mágico, irrepetível, que nos fez sentir inteiros...” — explica Fernando Gameiro. Face a uma primeira reacção de incredulidade, outra surgiu de aceitação e de recompensa, mesmo apesar de não poderem, de imediato, regressar ou vir ver o que aconteceu. Contudo, a passagem dos anos trouxe alguma desilusão face ao alvorecer promissor e ao balanço depois feito ­— “Acho que os partidos políticos ainda não adquiriram a maturidade política para fazerem as grandes reformas necessárias em Portugal. À medida que nos distanciamos do projecto inicial de fazer um Estado moderno ao serviço dos cidadãos, Portugal crispou-se muito, cada um defende a sua capelinha, o seu partido. Uns contra os outros. Por tudo e por nada, faz-se um enorme problema.” — critica Tenreira Martins.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1752, 2026-05-06, pg. 2.