As memórias sobre o exílio recolhidas pelo grupo “Poemar” para a obra O que muitos andaram para aqui chegarmos começam com as partidas. Do acto de partir ficou o sentimento do risco a correr, do medo, da decisão quase repentina — “Foi muito difícil... estava cheia de medo... mas, naquele momento, o desejo de sair era já maior que o medo! Deram-nos bilhetes, tínhamos de ir disfarçados, eu tinha pintado o cabelo e o Joaquim usava uma peruca e um bigode... o nosso medo era que, se fôssemos apanhados em Espanha, seríamos extraditados imediatamente para Portugal.”, lembra Mariana Xufre. Do acto de partir ficou a ideia do afastamento dos amigos, da família, do país — esse corte é assim relembrado por Manuela Pereira, que fugiu com o marido rumo a Bruxelas, depois de ter obtido um passaporte com a desculpa de querer ir ver um jogo no estrangeiro: “No dia anterior à partida, o meu marido, de noite (porque um colega seu que era da PIDE morava em frente à nossa casa), levou as malas, uma minha e outra dele, para casa da minha mãe, que morava na Baixa em Lisboa, e foi de lá que saímos para a estação. Deixámos a casa tal como estava. Deixámos a família. Deixámos a nossa Lisboa maravilhosa, o nosso país, a língua. E agora desembrulhem-se! Tudo novo! A questão é que, se a tua vida corre perigo, tens de mudar...” Do acto de partir ficou também a justificação da revolta, enviada ao Chefe de Estado, como aconteceu na história de que Ribeiro de Campos foi protagonista — “Prepara-se para a saída, em segredo, falando apenas com um amigo (...). Tem, então, um gesto de grande ousadia que revela bem o seu carácter, as suas convicções e a sua coragem: na véspera da partida, prepara uma encomenda com a sua farda de furriel e vai aos correios enviá-la ao Presidente do Conselho António Oliveira Salazar... correndo o sério risco de ser apanhado pela PIDE!”
Neste livro, Bruxelas foi o destino imediato para uns, enquanto outros tiveram ainda a passagem por Paris. E foi a urgência dos apoios de amigos, da solidariedade, do início de trabalho (fosse o que fosse — cuidadora de bebés, taxista, cabeleireira, prestador de cuidados a acamados, operador de máquina de picotagem, etc.), do recomeço dos estudos ou da formação profissional. E foi ainda o receber apoio de muitos e dar apoio a outros tantos, à medida que iam chegando. E foi a procura de uma actividade que os realizasse e em que se afirmassem. E foi a descoberta de referências de Portugal para o mundo, como aconteceu com o conhecimento que João Corrêa obteve da história e do papel de Aristides de Sousa Mendes, figura que divulgou grandemente e cuja memória resgatou. E foi a manutenção das relações políticas com os companheiros de Portugal ou a intervenção política em terras da Bélgica. E foi a esperança sempre à espreita de que, um dia, talvez, quem sabe...
Alguns dos textos foram compostos em cima do cinquentenário do 25 de Abril, o que seria motivo para haver a associação ao que aconteceu em 1974. Mas essa lembrança perpassa por todos os testemunhos ou não tivesse esse dia sido o tal que concretizou a esperança... “Soubemos pela rádio, pela família... Quando soubemos foi inesperado... nem sabíamos muito bem o que pensar... eu já não esperava... eu nunca imaginei que fosse acontecer tão rapidamente... Apetecia-me gritar!” — relembra Mariana Xufre. “O facto de se ter instalado a democracia é a maior riqueza que eu senti... ver nascer a liberdade em 1974. Conseguir-se fazer a democracia foi o que mais profundamente me tocou. Sobretudo, porque, antes, sentíamo-nos encolhidos, diminuídos por dentro e depois houve aquele dia mágico, irrepetível, que nos fez sentir inteiros...” — explica Fernando Gameiro. Face a uma primeira reacção de incredulidade, outra surgiu de aceitação e de recompensa, mesmo apesar de não poderem, de imediato, regressar ou vir ver o que aconteceu. Contudo, a passagem dos anos trouxe alguma desilusão face ao alvorecer promissor e ao balanço depois feito — “Acho que os partidos políticos ainda não adquiriram a maturidade política para fazerem as grandes reformas necessárias em Portugal. À medida que nos distanciamos do projecto inicial de fazer um Estado moderno ao serviço dos cidadãos, Portugal crispou-se muito, cada um defende a sua capelinha, o seu partido. Uns contra os outros. Por tudo e por nada, faz-se um enorme problema.” — critica Tenreira Martins.
* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1752, 2026-05-06, pg. 2.

