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sábado, 9 de dezembro de 2017

Francisco Borba: Contar a história do Balneário Doutor Paula Borba por documentos, imagens e afectos



O livro O Balneário - Memória de Setúbal, de Francisco Borba (Setúbal: ed. Autor, 2017), pode (e deve) ser lido tendo em consideração diversos ângulos: o da história local, o do jogo que os documentos fazem com o tempo, o do contributo dos arquivos familiares para a memória colectiva.
Na primeira abordagem, a da história local, não restam dúvidas da intenção do autor, que fez questão de, em subtítulo, deixar registado tratar-se de uma “Memória de Setúbal”. Lermos sobre o Balneário Doutor Paula Borba neste registo de memória exige o contar a história, bem como implica a preservação do espaço edificado. E a história da construção cruza-se com a narrativa da saúde pública em Setúbal: a falta de cuidados de higiene gerava, antes da existência do balneário, uma sarna atenuada, por aqui designada como “pica-pica”, impossível de ser debelada porque faltava o antídoto essencial - o banho.
O pretexto para ajudar à resolução do problema surgiu pelo contexto histórico. Desde 1898 que o Dr. Paula Borba exercia clínica em Setúbal, frequentemente ajudando os mais necessitados, o que lhe valeu o título de “pai dos pobres de Setúbal”, como os autores Rodrigues Marques e Manuel Marques registaram na sua obra Subsídios para a História dos Hospitais de Setúbal (Setúbal: ed. Autores, 1984) e como Rogério Claro referiu na biografia que, dois anos depois, fez sobre este médico, sadino de adopção, mas açoriano por nascimento (Dr. Francisco de Paula Borba - 1º Cidadão Honorário de Setúbal. Setúbal: ed. Autor, 1986).
Em Agosto de 1917, tempo da Grande Guerra, em que Portugal lutava nas frentes africanas de Angola e de Moçambique e na frente europeia, na Flandres, o médico Paula Borba era notificado para ser incorporado no exército português como alferes médico miliciano. A reacção da Santa Casa da Misericórdia, detentora do hospital que então existia, e a atitude dos setubalenses, que consideravam a obra e o papel deste clínico indispensáveis para a cidade, não se fizeram esperar e uma comissão foi criada para ir junto dos ministérios, a Lisboa, pedir a revogação da decisão. Certo foi que, seis dias depois da convocatória, em 29 de Agosto, Setúbal recebia a notícia da desconvocação do seu benfeitor e logo uma manifestação popular tomou a rua para se congratular com a decisão. Tal alegria iria ainda ser selada por uma subscrição pública com o objectivo de ser oferecida ao Dr. Borba uma obra de arte como sinal de agradecimento. Mas o homenageado tomou a dianteira e, ao conhecer o espírito da iniciativa, pediu que o valor da subscrição pública fosse encaminhado para a construção de um balneário nas imediações do Hospital da Misericórdia.
A Comissão informou a população sobre esta intenção e, no início de Fevereiro de 1918, decidiu avançar com a construção do dito balneário, que teve colocação da primeira pedra em 4 de Maio de 1919. Dificuldades financeiras levaram a que a obra fosse entregue à Santa Casa da Misericórdia de Setúbal e a que houvesse interrupção nas obras, antes da chegada do dia 31 de Maio de 1926, data de inauguração do balneário, que previamente fora definido dever receber o nome do médico como patrono, decisão que foi comunicada à Misericórdia como tendo validade perpétua.
Esse final de Maio foi data festiva pela concretização da obra, com direito a publicação de um número único do jornal O Balneário, visando contar a epopeia da construção, fazer a memória descritiva do edifício e da sua importância e enaltecer o seu patrono, a comunidade e os trabalhadores e benfeitores que contribuíram para que o sonho se transformasse em realidade.
Sobre qual foi a importância do balneário para a cidade bem a pode testemunhar a estatística que Francisco Borba apresenta, relativa à frequência entre 1926 e 1952, período em que cumpriu a função a que se destinava - das 6343 utilizações em 1926 até às 10490 em 1952, com os anos de 1946 a 1950 a terem utilizações anuais acima das 12400 (o ano em que a frequência bateu o record foi o de 1948, que atingiu as 13383 utilizações). Em 26 anos de funcionamento, o total de utilizações foi superior às 240 mil (241196, mais precisamente).
A segunda perspectiva de leitura, a do jogo que os documentos fazem com o tempo, é uma das vantagens deste livro. Se, num primeiro momento, Francisco Borba conta partes da história, chamando a atenção para os aspectos mais importantes do investimento, mostrando reproduções de vários documentos (correspondência, contabilidade, auto da colocação da primeira pedra, entre outros), já a segunda parte é constituída pelo conjunto fac-similado de fontes importantes para o conhecimento da história do Balneário, como: o prospecto de apresentação das intenções e da memória descritiva do balneário, editado pela Comissão responsável pela construção em 1918 (assinado por Carlos Manito Torres); o número único do jornal  O Balneário; a reprodução dos oito postais comemorativos da inauguração desta valência; finalmente, o acervo fotográfico de Carlos Manito Torres relativo ao interior do edifício.
O leitor passa por estes documentos e experimenta o contacto com as fontes que contam a narrativa do Balneário, quase como se lhe fosse dado viver o momento, participar na obra colectiva, assistir à construção.
O documento de 1918 justifica-se logo no início com a intenção de “esclarecer os interessados acerca dos motivos” que impediam o andamento célere da obra, historiando as tomadas de decisões e justificando a insistência na vertente do auxílio público. Depois de apresentar as contas, surge a “Memória Descritiva e Justificativa” que advoga a simplicidade da construção - “Nenhum género de edifício, mais do que o destinado a um balneário, se presta à exibição de pompas e grandezas arquitectónicas”, diz Manito Torres, justificando com a fama dos balneários da antiguidade clássica. Contudo, a opção seguida foi diferente da que a tradição dessa antiguidade nos fez chegar, como justifica o mesmo autor: “A obra que se projecta terá um cunho de simplicidade e modéstia absolutas”, acrescentando que reduziu “tudo quanto, na estrutura e na aparência do edifício, podia reduzir-se, sem prejuízo das suas funções principais”. Poucas linhas adiante, esclarece que “as dimensões se limitaram ao mínimo, o interior mostra uma modesta singeleza e a fachada foi projectada com a máxima simplicidade”. Todos estes considerandos nos fazem hoje compreender o ar espartano que o exterior do edifício apresenta... Se associarmos a isto a impecável reprodução das fotografias feitas por Manito Torres cerca de oito anos depois, a preto e branco, bem podemos verificar que a intenção do projectista foi levada a bom termo...
O jornal de 1931, reunindo as colaborações de Carlos Manito Torres, de Fernando Garcia (neto de Garcia Peres), de Eloy do Amaral, de Manuel Gamito, de Edmundo Motrena e de Oscar Paxeco, visou enaltecer a conclusão da obra e os seus heróis. Daí que não seja de espantar o tom encomiástico e laudatório, em primeiro lugar para homenagear o Dr. Francisco Paula Borba, mas também para enaltecer todos os obreiros envolvidos, desde os membros da Comissão responsável até aos trabalhadores e respectivas chefias de especialidade. Do Dr. Paula Borba é reproduzido nesse jornal o fac-símile de uma carta, datada desse Maio de 1926, dirigida ao engenheiro Manito Torres, a escusar-se da responsabilidade de escrever sobre o balneário, desculpa que apresenta num tom elevado e digno: “Devia, como pedes, escrever algumas palavras para o número comemorativo O Balneário, mas não tenho o temperamento necessário para enaltecer uma obra que a generosidade de bons amigos apelidou com o meu modesto nome.” E, depois de agradecer a todos os colaboradores, insiste, em tom de sublime modéstia: “Um só defeito lhe encontramos: o apelido que lhe deram, porque, acima de um nome, está a população de uma cidade.”
Num estilo publicista, dado pelo próprio título do seu texto - “Pró-Setúbal” -, Eloy do Amaral enaltece a cidade e apela à participação de todos para que a modernização de Setúbal passe pela preocupação com o turismo, destacando algumas boas realizações já existentes na cidade (casos, na cultura, da revista Cetóbriga e do Clube Setubalense; no desporto, do Vitória Futebol Clube e do Clube Naval; no empreendedorismo, de um hotel) para concluir com o encantamento que sentiu ao visitar as instalações do balneário, “obra admirável” e um “relevantíssimo serviço”.
O mesmo tom publicista usará Oscar Paxeco ao contar a história da assistência e da prática caritativa em Setúbal e realçar que a inauguração do balneário vinha “preencher uma falta que de há muito entre nós se fazia sentir”.
Carlos Manito Torres, como autor do projecto, retoma neste jornal a descrição da obra feita, salientando a qualidade da mesma e acentuando a marca portuguesa: “Resta acrescentar”, diz a finalizar um dos seus textos, “que, à excepção da caldeira, das tinas de ferro e de alguma tubagem, tudo o mais pertence à indústria nacional. Mosaicos, azulejos, louças, tinas de cimento e aparelhagem metálica, tudo isso é português”. O último texto de Manito Torres é uma homenagem aos colaboradores do Balneário, mencionando os mestres, o trabalhador do escritório, os mestres-operários, as empresas colaboradoras e recordando que o mais antigo operário fora o Evaristo, mudo, jovem de 16 anos adoptado pela Misericórdia, assumido como mascote do empreendimento e que teve a honra de ser o seu primeiro utilizador e também o seu primeiro divulgador experimentado - “no dia seguinte”, narra Manito Torres, “solicitou novo duche e, tomado ele, de novo se dedicou, em plena cerca, à propaganda da hidroterapia”.
Com o acesso a estes textos, o leitor percorre os caminhos da investigação, sendo árbitro de um jogo que os documentos fazem com o tempo.
Quanto ao contributo dos arquivos familiares para a memória colectiva, a terceira abordagem que proponho, podemos fixar-nos na curta “Introdução” com que Francisco Borba abre o livro, aí revelando que os documentos que apresenta são oriundos da sua biblioteca e foram compilados por seu avô, Francisco de Paula Borba, e por seu pai, João Botelho Moniz Borba, tendo o primeiro sido o protagonista e criador do Balneário e tendo tido o segundo um papel fulcral na história cultural setubalense.
Se esta indicação é também um gesto de homenagem (e Francisco Borba já teve idêntica atitude quando, em 2010, publicou a obra Museu de Setúbal e o seu Fundador João Botelho Moniz Borba), também o próprio acto de disponibilização dos fundos arquivísticos se pauta por uma atitude de partilha com a comunidade, por uma atitude de cumprimento e de oferta para a memória colectiva. E esta leitura, porque nos ensina, porque nos lembra, não é menos importante do que qualquer outra, sobretudo porque é ela que nos permite todas as outras e é ela que se afirma como um contributo cívico para a identidade, com que nos devemos congratular. Obrigados ficamos ao autor.
Mas esta possibilidade de leitura interpela-nos também para um sentido de responsabilidade que vai além do gesto de partilhar: é que o edifício foi construído para resolver um problema da população, com a ajuda e o empenho dos setubalenses. Passados anos, passadas tantas voltas, seria bom que se pudesse contar com a permanência deste marco de altruísmo, de generosidade e de saúde e que, independentemente de outras finalidades que lhe possam ser cometidas, ali fosse albergado um núcleo museológico sobre a prática da saúde e da assistência em Setúbal, uma hipótese que Francisco Borba aflora quase em sussurro no final do seu escrito. Seria uma boa forma de preservar a história, de mostrar a importância que Setúbal teve neste plano e de cultivar a memória!
(Texto da apresentação do livro, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, hoje)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Para a agenda: A história do Balneário Paula Borba em livro evocativo



Em Agosto de 1917, em Setúbal, uma homenagem a um médico transformou-se numa iniciativa cívica em prol da saúde dos sadinos: nascia a ideia do balneário público que, depois, viria a ficar consignado documentalmente que se chamaria para sempre Balneário Paula Borba.
Um século depois, Francisco Borba, neto do patrono, conta a história desta instituição no livro O Balneário - Memória de Setúbal, obra prefaciada por António Cunha Bento e apresentada por João Reis Ribeiro. No dia 9 de Dezembro, pelas 16h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal. Para a agenda!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Rostos (192) - Francisco Paula Borba



Francisco Paula Borba, em Setúbal, por Leopoldo de Almeida (1935)

sexta-feira, 15 de março de 2013

Francisco Paula Borba - um benfeitor de Setúbal



Em 24 de Março de 1935 foi inaugurado, no jardim do então Asilo Bocage, em Setúbal, um monumento ao seu fundador, Dr. Francisco Paula Borba, médico açoriano que se radicou na cidade do Sado em 1898 e aí viria a terminar os seus dias em 1934. A escolha da data para a inauguração do monumento revestiu-se de elevada carga simbólica para os que conheceram Paula Borba, porquanto o seu falecimento, ocorrido seis meses antes (em 27 de Setembro), ainda não remetera o nome do clínico para o esquecimento e porque a data de 24 de Março era também a do seu nascimento, que ocorrera em 1872.
Para a homenagem a Paula Borba, a Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal fez publicar na edição de O Setubalense de 21 de Março um convite dirigido à população para "assistir a esses actos, afirmando assim, mais uma vez, com a sua presença, a sua grande saudade por quem tão dedicadamente o serviu e a sua admiração e reconhecimento pela obra de assistência" que deixou.
O programa, publicado em outra página do mesmo jornal, abrangeria todo o dia de 24 de Março. Depois de a manhã ser ocupada com uma missa em S. Julião e com romagem ao cemitério, a tarde começaria com a aposição de uma placa toponímica naquela que, a partir dessa data, passaria a ser a rua Paula Borba (espaço que até aí pertencera à rua Serpa Pinto) e haveria ainda lugar para a inauguração do monumento e de uma exposição no Asilo Bocage e para a admissão de uma dezena de internados na mesma instituição.
Em 23 de Março, O Setubalense usou toda a primeira página para assinalar a homenagem ao Dr. Paula Borba, reproduzindo o quadro da autoria do pintor sadino Fernando Santos alusivo ao homenageado. O quadro passaria a figurar no Asilo Bocage, a fim de a presença do seu fundador ser ali sempre lembrada. Em jeito de legenda, o jornal evocava a personalidade de Paula Borba dizendo que em "cada dia que passa mais se agiganta a sua figura". Este gesto levado a cabo pelo jornal conduziu a que a edição se esgotasse no próprio dia da saída, acontecimento que obrigou o jornal a publicar reproduções do quadro alusivo a Paula Borba, cujo produto de venda reverteu a favor do asilo.
O busto, da autoria de Leopoldo de Almeida e assente em plinto arquitectado por Abel Pascoal, foi descerrado por João Borba, filho do homenageado. O Setubalense de 25 de Março referiu que a festa contou com "a assistência de muitas pessoas e com a colaboração das bandas das sociedades Capricho e União Setubalense". Presentes as mais altas individualidades, no busto foi colocada a medalha da cidade pelo representante da Câmara Municipal e, de entre os discursos proferidos, ganhou ênfase a expressão de Botelho Moniz, ao dizer que "a morte havia arrebatado o Dr. Paula Borba, mas o seu coração não morrera".

Luto sobre Setúbal

Várias páginas de diversas edições do jornal O Setubalense foram ocupadas com referências ao Dr. Paula Borba aquando do seu falecimento, ocorrido às 13h30 de 26 de Setembro de 1934. Logo nesse dia, o periódico fez sair uma edição, ocupando a primeira página com a reprodução de um retrato do benfeitor desaparecido e deixando perpassar uma sensação de perda para a cidade e para a população: "Os crepes dum luto rigoroso cobrem hoje a cidade de Setúbal. Morreu o ilustre médico Sr. Dr. Paula Borba, cidadão honorário da cidade e director da Assistência setubalense". O jornalista não escondia do seu público que estava a escrever "debaixo de uma formidável impressão de tristeza". O testemunho dado era comovente, ao mesmo tempo que homenageava as virtudes de Paula Borba. Foi através do jornal, aliás, que a notícia se espalhou, uma vez que, logo que foi sabido o passamento do médico benfeitor, a sede d' O Setubalense colocou bandeira a meia haste.
Instituições como a Santa Casa da Misericórdia, a Sociedade Musical União Setubalense e a Associação Comercial de Setúbal fizeram publicar notas lutuosas a convidar os seus associados a participar no funeral, sendo proposto aos comerciantes que encerrassem os estabelecimentos; o Liceu de Bocage e a Escola Comercial e Industrial João Vaz solicitaram aos alunos e à Academia que se concentrassem nos respectivos estabelecimentos para integrarem o cortejo fúnebre.
No dia do funeral, em 27 de Setembro, O Setubalense voltava a ser quase totalmente ocupado com referências a Paula Borba, fosse através de textos de autores setubalenses, fosse mediante a reprodução de testemunhos colhidos na imprensa de Lisboa. A impressão vivida na cidade pode ser avaliada pelo conteúdo de um parágrafo que funciona como subtítulo na primeira página dessa edição: "O luto da cidade de Setúbal, em homenagem ao distinto médico Dr. Francisco de Paula Borba, não só a enobrece como a dignifica". O jornal procurava tudo relatar, chegando mesmo ao ponto de referir quem tinha feito chegar mensagens de condolências à residência da família Borba, sita na Avenida 5 de Outubro, reproduzindo mesmo o conteúdo de algumas, como a do Presidente da República, Óscar Carmona: "Com a expressão sincera do meu maior pesar, envio a V. Exª as mais sentidas condolências".
Todas as instituições sadinas se fizeram representar nas exéquias de Paula Borba, integrando um cortejo que passou por pontos da cidade a que o extinto tinha estado ligado, com paragens frente ao Asilo Bocage, ao Hospital e ao Asilo Barradas.
As referências ao médico na imprensa prolongaram-se por várias edições e por vários jornais. A ideia de uma homenagem a Paula Borba começou a tomar corpo logo na edição d' O Setubalense de 29 de Setembro, onde era dito que se projectava para 26 de Outubro, quando decorreriam trinta dias sobre o falecimento, "uma grande sessão de homenagem". José Maria da Silva assinava nessa edição um soneto dedicado a Paula Borba, realçando-lhe as virtudes: "tu foste um bom, foste um santo / que a todos socorrias e o pranto / enxugavas ao pobre, dia a dia". No entanto, a grande homenagem viria a ter lugar mais tarde, quando, em Março seguinte, passasse a data de nascimento de Paula Borba.

Biografias

Quando, em 1947, Manuel Envia publicou o seu livro Coisas de Setúbal, o nome e a figura do Dr. Paula Borba tiveram aí direito a uma nota biográfica de cinco páginas. Chegado a Setúbal em 1898, Paula Borba começou por oferecer gratuitamente os seus serviços clínicos ao hospital da Misericórdia. Ao longo das quase quatro décadas que passou na cidade, distinguiu-se pelo apoio médico-sanitário e pela benemerência, tendo obtido o título de "cidadão honorário" de Setúbal em 1927, além de outras menções honoríficas que lhe foram atribuídas. Impulsionador de uma obra assistencial vasta, a sua vida ficaria para sempre ligada à Misericórdia de Setúbal, organismo de que foi, aliás, provedor desde 1917 até à sua morte.
O Asilo Bocage, assim denominado aquando da sua fundação em 1913 graças ao facto de os fundos existentes no Montepio resultantes do remanescente da verba das despesas do centenário de Bocage (ocorrido em 1905) terem revertido para a construção do Asilo (conforme acta que foi publicada em O Elmano, de 13 de Setembro de 1913), passaria, nos anos 40, a deter o nome do seu fundador Paula Borba.
A mais completa biografia deste médico que adoptou Setúbal até hoje publicada é da autoria de Rogério Claro e data de 1986. Dr. Francisco de Paula Borba - 1º Cidadão Honorário de Setúbal é uma narração de cerca de oitenta páginas sobre os feitos públicos do biografado, com referências à imprensa e algumas reproduções fotográficas de documentos alusivos a Paula Borba e à história da cidade. Do retrato traçado ressalta, além da benemerência, o valor da coragem, que na forma como o médico levou até final a sua doença, quer na maneira como se entregou à causa da saúde dos mais desprotegidos em Setúbal, quer na verticalidade com que assumiu as obras a que se meteu. Grande impulsionador do Congresso das Misericórdias que conseguiu trazer a Setúbal em 1932, ficou célebre o discurso feito na abertura, em que disse, referindo-se à obra do Asilo: "Nada se pediu ao Estado; seria perder a autonomia que queremos!" Para Rogério Claro, o nome de Francisco de Paula Borba é o de "um Homem que, não sendo de Setúbal, a serviu como raros, de si e dela deixando memória notável".

[Este texto foi originalmente publicado no Jornal da Região - Setúbal / Palmela, em Julho de 2000. Reproduzo-o hoje, depois de ter ouvido a excelente palestra sobre a figura de Paula Borba feita pelo seu neto, o eng. Francisco Borba, que, num discurso comedido, equilibrando a emoção de biografar um familiar e o rigor da investigação, apresentou muitas pistas para uma mais completa biografia deste açoriano que foi uma das figuras importantes do primeiro terço do século XX setubalense.]

quinta-feira, 14 de março de 2013

Para a agenda - Sobre Francisco Paula Borba


A figura do médico Francisco Paula Borba vai ser apresentada, em 15 de Março, na Biblioteca Municipal de Setúbal, por Francisco Borba, numa organização do Centro de Investigação Manuel Medeiros, da UNISETI. Para a agenda!