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terça-feira, 30 de julho de 2024

Palavra de escritor nas entrevistas de Luís Souta

 


Uma dezena e meia de escritores surgem reunidos, trazidos pela persistência e curiosidade de Luís Souta, na obra Vozes da Escrita - 15 Entrevistas a Escritores Portugueses (Edições Ex-Libris, 2024), sob o pretexto inicial de descoberta do “olhar que emergia do campo literário sobre o processo educativo”.

As entrevistas, maioritariamente realizadas entre 2001 e 2002 (distância que leva a que já só cinco dos entrevistados estejam entre nós), trazem-nos nomes bem conhecidos como: Matilde Rosa Araújo e Natália Nunes (nascidas em 1921), Fernando Miguel Bernardes (n. 1929), Maria Rosa Colaço (n. 1935), Júlio Conrado e Mário Ventura (n. 1936), Altino do Tojal (n. 1939), Cristóvão de Aguiar (n. 1940), António Damião (que usou o pseudónimo de Henrique Nicolau para as obras policiais, n. 1941), Fernando Venâncio e Mário de Carvalho (n. 1944), Fernando Dacosta (n. 1945) e Alice Vieira, Eduarda Dionísio e Ricardo França Jardim (n. 1946).

A anteceder as entrevistas, Luís Souta explica os critérios de escolha, de que se destacam: as referências mais ou menos autobiográficas nos retratos e episódios que as respectivas obras mostram sobre a escola; a perspectiva da vida escolar a partir dos pontos de vista do aluno ou do professor (uma vez que vários dos entrevistados tiveram o ensino como profissão e muitos dos relatos literários assentam no olhar e nas marcas que ficaram do tempo de alunos) e do romancista ou do pedagogo; a acção dialogante entre os escritores e a escola.

No entanto, não são apenas essas as pistas deixadas nas conversas — os escritores acabaram também por falar do mundo que tem entrado nas suas obras e das próprias condições de edição e do universo da leitura, em segmentos tão diversos como a crítica literária, os movimentos culturais e artísticos, o papel do professor, o valor da memória para a criação escrita, entre outros, chegando, muitas vezes, a conversa a revelar aspectos menos conhecidos do viver de cada um, fornecendo apontamentos de enriquecimento das respectivas biografias.

Pelo caminho, ficam-nos retratos de muita humanidade, coloridos com a experiência da vida e com o gosto de (re)construir ambientes e personagens. É assim que nos tocam observações sobre o que é ser professor, como a de Cristóvão de Aguiar (que também foi professor), ao dizer: “Não acredito que um professor, para ser bom, tenha de estudar muita pedagogia. Ela ajuda quem já possui vocação. Ser professor é uma arte, como a de actor. Não se aprende, nasce connosco, pode apenas aperfeiçoar-se. A pedagogia não constrói um professor. Aperfeiçoa-lhe o talento.” Ou ainda a de Maria Rosa Colaço (a escritora alcacerense, autora desse ainda hoje inovador livro que foi A Criança e a Vida): “Cabe ao professor (...) a semente destes valores essenciais à Paz, à Fraternidade, ao Entendimento dos Povos que devia ser preocupação primordial de todos os agentes de ensino.” É assim que nos entusiasmam reflexões tão pertinentes quanto as de Eduarda Dionísio (professora e filha de professores) sobre a distância que vai entre a certeza e a dúvida: “O meu itinerário foi sempre o da dúvida, ao contrário da geração do meu pai que precisava de certezas e por isso era um grande drama quando a certeza desaparecia... (...) O drama vem quando deixa de haver um número significativo de pessoas (...) que não acha que a dúvida faz avançar o mundo.” É assim que também a postura cívica do leitor fica preparada para falhas da sociedade, como no momento em que Júlio Conrado (que enaltece o papel exercido na sua formação por professores como Virgílio Couto e Xavier Roberto, mestres que também o foram de Sebastião da Gama e de Matilde Rosa Araújo), falando de um dos seus romances, revela: “A corrupção é um fenómeno permanente na vida das sociedades que não é propriedade exclusiva deste ou daquele grupo social. A arte de furtar é de sempre e as suas denúncia e crítica também.” É assim que uma verdade essencial sobre a função da literatura nos impressiona, trazida pela voz de Mário Ventura (escritor que viveu em Setúbal e que, na conversa, relembra também a origem do Festival de Cinema de Tróia por si proposto): “Sem uma literatura não há um povo culto. (...) Hoje em dia, é a literatura, e não só a portuguesa, que discute o Mundo, que o analisa e teoriza sobre ele. Os políticos são incompetentes, impróprios para consumo intelectual. Os filósofos também não são de consumo fácil. Por isso, penso que a literatura é o melhor (senão o único) veículo para compreender o Mundo.” É assim que nos deixamos enternecer por uma entrevistada como Matilde Rosa Araújo, que faz das suas respostas um prolongamento dos seus poemas e das suas histórias.

Luís Souta soube ser a possibilidade equilibrada de fazer chegar estas vozes, sem condicionamentos, sem imposição do seu intuito, mostrando que a vida não prescinde do pensamento e que há verdades que passam além do tempo em que são proferidas. Só assim se compreende como entrevistas com mais de vinte anos mantêm a sua pertinência na actualidade...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1352, 2024-07-30, pg. 10.

 

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Palavra(s) de Alexandre O’Neill



São do poema “Entrevista”, saído em 1979 no livro Uma saca de orelhas, os versos “Diz-lhe que estás ocupado / a entrevistar-te a ti mesmo / mesmo porque se não / o pões desde já porta / fora estás quilhado vai / espiolhar-te apalpar-te (...)”. Quem assim escrevia era Alexandre O’Neill (1924-1986), poeta vindo do Surrealismo, neto de escritora (Maria O’Neill) e trineto de Carlos O’Neill e de Adelaide Custance, proprietários da Quinta dos Bonecos, em Setúbal, quando Andersen lá esteve (1866).

Neste poema se inspirou Joana Meirim para o título de ‘Diz-lhes que estás ocupado’ - Conversas com Alexandre O’Neill (Tinta-da-China, 2021), dezasseis entrevistas, entre 1944 e 1985, assinadas por nomes como Adelino Gomes, António Mega Ferreira, Baptista-Bastos, Clara Ferreira Alves ou Fernando Assis Pacheco, entre outros.

Assumindo-se, em 1944, como poeta “por tendência própria e por educação”, logo ali dirá: “Desde cedo que leio bons poetas”, princípio que se manteve, como repetiu em 1977 - “um poeta ler outro poeta é muito importante: coloca-nos em confronto com outras experiências.” Da mesma forma, os poetas importantes se mantiveram na sua lista, logo apresentada na primeira entrevista - Pessoa, Nemésio, Torga, por Portugal; Bandeira, Drummond, Cecília Meireles e outros, pelo Brasil. Referências importantes porque a poesia é trabalhosa, como explicava em 1959 - “Na inspiração guedelha-ao-vento e soltura não acredito. Só para filmes e biografias romanceadas. A disposição irresistível para escrever, o rumor anterior ao ritmo, podem chamar-se momentos de inspiração, mas só a atenção contínua ao rumor, o abrir o ouvido para dentro, leva pouco a pouco ao ritmo e do ritmo ao verso.” E, em 1968, a sua identificação como poeta: “Sou parecidíssimo com a minha poesia. (...) Escrevo para registar o que é fugaz. Para deter as coisas. Para registar certos factos. Parece-me que é isto. Escrevo para registar, para fixar, para demorar.”

Poeta bem conhecido, O’Neill era, no entanto, crítico relativamente ao mundo dos escritores, como justificou em 1973: “Isso está directamente relacionado com o meio literário português. É a reacção a certo empolamento que há em muitos escritores. Certa importanticidade sumamente ridícula.”

As entrevistas com Alexandre O’Neill não eram fáceis - Eduardo Guerra Carneiro, em 1973, escrevia no preâmbulo: “Se não foi difícil encontrar o entrevistado, fácil não foi a entrevista. Mas, mesmo aos soluções, a entrevista fez-se. Depois, tesoura de um lado, cola do outro: a montagem. Talvez não seja a melhor, mas foi o que se pôde arranjar.” E, quatro anos depois, seria Francisco Dionísio Domingos a explicar: “É difícil falar com Alexandre O’Neill”, pois “fala como se estivesse a fazer um ou vários poemas, mudando aqui e acolá de tom.”

Pelas conversas aqui apresentadas passam referências ao Surrealismo em Portugal e às suas dissidências; ao tom muito rural do Neo-Realismo, sem ter havido, por exemplo, um romance citadino; à operação exercida pela censura e aos actos de auto-censura; à crítica aos recitadores de poesia que fazem dela “um acto fúnebre” (1983); aos efeitos da abordagem académica da literatura, pois “quando há tese, há cadáver” (1982); aos trocadilhos da sua poesia e à influência na publicidade, área em que trabalhava; a um olhar nem sempre feliz sobre a sociedade e sobre a solidão, apesar de “a descoberta da poesia ser sempre uma coisa extremamente solitária” (1983).

Prolongamento da própria poesia de O’Neill, estas entrevistas são também um testemunho sobre o viver, como, em 1985, ilustrava na última entrevista recolhida: “A vida interessa-me, o que não me interessa é a vidinha. (...) Videirar, ou videirunha. O viveter francês, ou seja, ir vivendo.”

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 731, 2021-11-10, p. 9.


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Viriato Soromenho-Marques: Entre a normalidade e a salvação do planeta



Vale a pena ler a entrevista que Sílvia Júlio fez a Viriato Soromenho-Marques, publicada na edição do jornal Tempo Livre (nº 25, 2020-09, pp. 12-13), editado pelo INATEL (e disponível no seu "site", em acesso livre). Intitulada "Nós somos hóspedes do tempo", a entrevista incide sobre o actual momento, dominado pela pandemia, e o encontro de uma "normalidade" que seja consentânea com o planeta.

Entrevista de linguagem acessível, directa, quase como se estivéssemos a assistir a uma conferência ou aula sobre ética, com recurso a vários pensadores e tirando da História o que podem ser exemplos para o nosso 'saber estar', a conversa aborda a principal questão da nossa actualidade e da nossa preocupação de forma a envolver cada leitor na responsabilidade máxima. Uma leitura que se impõe.

 

Fica o registo de três momentos:

Normalidade - “Não estamos permanentemente preparados para o trágico, ou seja, para a possibilidade de acontecerem coisas terríveis - como acontecem. Temos de amaciar essa aspereza trágica da realidade, construindo a tal ‘normalidade’ (...) uma ficção, uma construção que fazemos para tornar a nossa vida mais suportável e menos angustiada. No fundo, é dar um padrão de certeza que, de facto, a vida não tem.”

Viver - “Os seres humanos não são donos do mundo, não são donos do tempo, não são donos do futuro. Nós somos hóspedes do tempo. A melhor forma de vivermos no tempo é percebermos as nossas limitações, porque nem os reis conseguem desfiar o destino. (...) Temos de aprender a viver aceitando a nossa falta de controle sobre a nossa própria vida. (...) O melhor sentido da vida que podemos retirar daqui é viver com autenticidade, intensidade e verdade o tempo que nos é dado viver.”

Técnica - “A nossa civilização já não acredita na ética, acredita na técnica. Como não queremos mudar o nosso comportamento, queremos mudar a forma como controlamos a realidade. E como é que fazemos isso? Com a tecnologia. E o mercado é a máquina de fazer tecnologia. Inventámos o mercado com as características modernas.”

Planeta (salvar o) - “Neste momento, o principal problema é salvar o palco da História: o planeta. Este é único - não conhecemos outro, nem no sistema solar, nem na galáxia. Tivemos uma sorte da qual não estamos a ser dignos. (...) Um dos grandes males que nos aconteceu foi a arrogância do controle, a arrogância do saber, a arrogância de que nós resolvemos tudo. Não podemos substituir a arrogância de um optimismo idiota por arrogância de um pessimismo sem esperança. Temos de ter um optimismo crítico, um optimismo activo, um optimismo transformador, um optimismo voluntarista. Temos de acreditar no futuro através de actos que acompanhem e realizem as palavras.”

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Tarquínio Reis: referência maior de Palmela



Tarquínio Reis é figura incontornável para se contar a vida de Palmela. Nascido no início de Dezembro de 1925, Tarquínio Reis tem sido um homem que tem preservado as tradições, que se dedicou ao movimento associativo (como dirigente, como associado, como fundador de associações) e à solidariedade social.
Desde que o conheci, há uns 30 anos, sempre o vi com enorme admiração. Aprendi com ele, estive com ele na direcção do Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela (GACP), somos amigos.
Esta gravação, da responsabilidade do Museu de Palmela, contém cerca de 8 minutos de entrevista feita a Tarquínio Reis por Pedro Ralo e Teresa Sampaio, em que o destaque vai para as histórias em torno das músicas de Palmela, terra de duas sociedades filarmónicas. Excelente contador de histórias, este Tarquínio, não só porque as sabe contar, mas também porque as viveu e porque delas foi protagonista.

sábado, 30 de setembro de 2017

Vinhos da Casa Ermelinda Freitas: Uma história feita de sentido



A revista do Expresso de hoje traz entrevista com Leonor Freitas (nº 2344, 2017-09-29, pp. 56-63), o rosto e a vontade que, nas duas últimas décadas, criou e desenvolveu a marca Ermelinda Freitas no mercado vitivinícola a partir da região de Palmela-Setúbal.
Vale a pena ler a entrevista em que se percebe a história da empresa e da marca, aliada à história da família, numa conversa conduzida por Carolina Reis em que se evidencia também o papel da vontade, da humildade, da coragem e do testemunho. O percurso de Leonor Freitas é a corrida atrás de um sonho e de uma identidade, por onde correm lágrimas, esforço e um incondicional apego às raízes. Sentimos o prazer de ser contada uma história em que mesmo as designações comerciais para os vinhos têm uma justificação: "Tudo tem história, tudo é sentido!" é a última frase da entrevistada, que podia ser a primeira, de tal forma a entrevista é coerente. A ler!

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Nuno Gil - Quando a doçaria se mistura com a identidade



Ele quer mostrar marcas da identidade através da doçaria, arte em que mistura sabores e aromas, ginja e moscatel, laranja e mel, queijo e feijão. Doçuras, claro, mas que carregam símbolos e outras artes! Ele mistura aos doces o saber das histórias locais e a poesia. E tudo conflui numa sensação de prazer em que o gostar se faz a partir do degustar... Ele é Nuno Gil, pasteleiro em Palmela, na Confeitaria S. Julião, autor de gulodices como os bolos “D. Filipe”, “Santiago”, “Pastel de Laranja de Setúbal”, “Pastel de Ginja”, “Queijada do Anjo”, “Caramelos”, “Brisas do Sado” e, agora, o “Bombom de Moscatel de Setúbal”. Tudo à venda por aí: no “Retiro Azul” e na Casa Mãe da Rota dos Vinhos, em Palmela, e na Casa da Baía, em Setúbal, por exemplo.
Para dar a conhecer a obra e as motivações, vale a pena ler a entrevista feita por Jorge Andrade, publicada aqui em 14 de Agosto. Depois, se ainda não o fez, vale mesmo a pena ir provar e apreciar!...

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (6)



Dois falantes de língua portuguesa, uma de Portugal e outro do Brasil, entram no último lote de dez entrevistados que constituem o derradeiro volume de Grandes Entrevistas da História, abrangendo o período de 2007 a 2014 – Paula Rego (Eunice Goes, Expresso, 15-09-2007) e Chico Buarque (Ana Cristina Leonardo, Expresso, 08-08-2009). Os restantes entrevistados são: Stephen Hawking (Xavi Ayén, La Vanguardia, 25-09-2008), Ferran Adrià (Cristina Jolonch, Magazine, 21-02-2010), Bernard Madoff (Steve Fishman, New York Magazine, 27-02-2011), Mikhail Gorbatchov (Jonathan Steele, The Guardian, 16-08-2011), Barack Obama (Susan Page, USA Today, 03-09-2012), Salman Rushdie (Clara Ferreira Alves, Expresso, 22-09-2012), Tim Berners-Lee (Paul Sagan, projecto Riptide da Nieman Foundation for Journalism, da Universidade de Harvard, Abril de 2003) e Mark Zuckerberg (Farhad Manjoo, The New York Times, 16-04-2014).
A conversa com Paula Rego mostra o apego da artista a marcas de um Portugal rural – “gosto da estética das feiras, das festas, do bobo da festa, e das pessoas que lá trabalhavam” –, justificando a sua preferência pela figura feminina “por causa dos fatos, das cinturas” e porque “há mais cumplicidade”, e assumindo a situação de compromisso cívico que os seus quadros têm, através de evidentes marcas contra a injustiça e retratando as relações de poder. A entrevista com Chico Buarque debruça-se também sobre a arte, a literatura, e surge a propósito da edição do seu livro Leite derramado (2007). Mesmo dizendo que não é escritor, Chico Buarque consegue entender a literatura como uma construção, aspecto muito mais interessante do que a história que é contada – “eu, na verdade, o que menos me atrai na escrita de um romance é a história. Me interessa mais trabalhar com a forma, a forma de contar aquela história. A história em si não é nada, muitas vezes não é nada.” No entanto, a sua vertente de leitor e de construtor de histórias leva-o a que se apaixone por uma das suas personagens, o velho Eulálio, porque a conversa de velhos tem sempre uma “memória selectiva, as fugas, as tergiversações, mesmo aquelas mentirinhas ou lapsos de memória, coisas que voltam não exactamente como eram..”
De outras três áreas da cultura são os entrevistados Stephen Hawking, Ferran Adrià e Salman Rushdie. O físico que fala através do computador (“à razão de uma palavra por minuto”) paira numa entrevista, para nós curta, mas longa para ele, atendendo às suas condições físicas. Aí, glorifica a ciência e conjuga-a com Deus (“Se quisermos podemos chamar Deus às leis científicas, mas estas não são um Deus pessoal que podemos interpelar”), ao mesmo tempo que não se põe de lado em relação à política e que relança o seu permanente desafio à descoberta. Ferran Adrià, o cozinheiro catalão, que “está para a culinária como Steve Jobs está para a tecnologia” (no dizer do organizador do volume), surge-nos através de uma peça que mais se aproxima do género reportagem, com o objectivo de ser traçado o retrato do homem que esteve à frente do restaurante madrileno “El Bulli”. O texto é baseado em conversas com o próprio retratado e com amigos e familiares, o que o distancia do género entrevista, que originou esta obra. Fica, porém, a partilha de aprendizagens importantes, como aquela que o levou a descobrir que, “no âmbito profissional, mesmo que nos esforcemos, não somos o que pensamos ser, mas sim o que os outros pensam que somos.” Salman Rushdie, o escritor que teve um longo período de vida clandestina por razões de sobrevivência e por causa da obra Versículos satânicos (1988), é entrevistado a propósito de uma obra autobiográfica em que relata esse tempo de clandestinidade a que foi obrigado pelo fundamentalismo. Ressaltam as convicções, o papel da escrita, o valor das amizades, a tristeza pelos que viram costas, mas salva-se o escritor – “Sou o mesmo escritor. Uma vitória.”
O domínio da política encontra dois nomes representativos do que foi a alteração das relações políticas no mundo no início do século que vivemos – Mikhail Gorbatchov e Barack Obama. O político russo estará para sempre associado à “perestroika” e apresenta-se numa entrevista que está entre o balanço, alguma paz de espírito e relativa amargura. Reconhece erros cometidos (não se ter demitido do Partido Comunista e ter criado um partido reformista democrático, não ter começado mais cedo a reforma da URSS e não ter dado mais poderes às quinze repúblicas, não ter afastado através da diplomacia Ieltsin da cena política). Na sua visão, surge a crença na reforma da China, bem como a rejeição dos métodos de Putin, designadamente a mudança no sistema eleitoral. Gorbatchov mantém o espírito de família e as marcas de proximidade, não escondendo o seu afecto por Raisa, a mulher (já falecida na altura da entrevista), que gostava de o ouvir cantar. Uma entrevista que é também um pouco das memórias de um homem que contribuiu para que o mundo fosse diferente… Do ocidente chega a entrevista com Barack Obama, conhecido como o primeiro negro que chegou à presidência dos Estados Unidos, feita na altura em que ele era candidato à reeleição. Obama, já não com a força do “yes, we can”, demonstra as dificuldades, entre um mundo em convulsão, o apego à família (as filhas “são um grande antídoto para evitar que me leve demasiado a sério”), e respeito pelo adversário e as aprendizagens da política, ainda que aparentemente simples, como perceber “a necessidade de se preocupar mais em convencer as pessoas do país inteiro sobre as medidas que quer tomar, do que os membros do Congresso na outra ponta da Pennsylvania Avenue”.
O mundo das tecnologias ligadas ao poder da informática aparece representado pelos nomes Tim Berners-Lee e Mark Zuckerberg, criadores da web e do facebook, respectivamente. Berners-Lee relembra a motivação que o levou a pensar na necessidade de criar um “hiperespaço aberto” e conclui com uma mensagem forte: as tecnologias deverão permitir resolver problemas “sem cortar tantas árvores para obter madeira e fabricar papel”, uma lição para os tempos de burocracia em que, além de os documentos existirem virtualmente (o que parecia que iria acontecer na sequência do uso generalizado dos computadores), vai havendo orientações em muitos serviços no sentido de os mesmos serem impressos… numa duplicação absolutamente acrónica. Zuckerberg, o criador da “maior nação digital da internet”, é entrevistado com o objectivo de ser questionada a capacidade de a empresa criar novos produtos, sabendo-se que alguns deles não têm tido o sucesso esperado. A conversa liga-se também à discussão do privado e do anonimato em termos de comunicação, acreditando o entrevistado que, de uma forma ou de outra… se visa criar laços. Boas intenções!...
Bernard Madoff, o nome que surge fortemente associado aos tempos de crise que vivemos, um género de “dona Branca” gigante, é entrevistado a partir da prisão, numa peça que é reconstituída sobre conversas telefónicas várias de Madoff para o jornalista, ainda que todas elas pagas no destino. Há ainda os testemunhos de familiares do preso e, por vezes, os desabafos veiculados por amigos, que confidenciaram os sentimentos dos filhos de Madoff. A entrevista é o retrato de um “arrependido”, que, explicando-se, tem dúvidas em aceitar-se, como se vê logo pela abertura da peça jornalística, que reproduz o entrevistado em discurso directo: “Como é que fui capaz de fazer o que fiz? Estava a ganhar muito dinheiro. Não precisava de o ter feito.”
Grandes Entrevistas da História, obra editada pelo semanário Expresso, conclui com este volume o lote de setenta conversas com outros tantos entrevistados, havidas num período entre 1865 e 2014. Todos os nomes que por estas páginas passaram tiveram (têm) o seu papel no mundo que conhecemos, uns associados ao bem, outros nem por isso, dependendo esta categorização da nossa margem de simpatias. São estes setenta como poderiam ser outros, mas as nossas curiosidades alimentam-se disto: a vontade de percebermos como os protagonistas do nosso tempo chegaram aos limites que chegaram e em nome de quê. Se nem tudo é dito nas entrevistas, ficam-nos, pelo menos, os retratos dos heróis sobre os momentos em que foram considerados determinantes, porque a História é feita desses mesmos momentos. E a História, podemos antologiá-la ou contá-la, mas não a podemos prever…

Sublinhados

Existência – “Não existe maior emoção do que a da descoberta, a de procurar incessantemente as respostas às nossas perguntas mais importantes: quem somos? De onde viemos?” [Stephen Hawking. Entrevista a Xavi Ayén, em La Vanguardia (25-09-2008). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 21]
Perguntas – “As perguntas hipotéticas não servem de muito.” [Mikhail Gorbatchov. Entrevista a Jonathan Steele, em The Guardian (16-08-2011). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 79]
Medo – “O medo faz as pessoas fazer coisas más.” [Salman Rushdie. Entrevista a Clara Ferreira Alves, em Expresso (22-09-2012). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 104]

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (5)



Entrevistas realizadas na última década do século XX e no primeiro lustro do século XXI constituem o sexto volume de Grandes Entrevistas da História, que o semanário Expresso está a publicar, sendo protagonistas desta série: José Saramago (Clara Ferreira Alves, Expresso, 02-11-1991), João Havelange (Andrés Mercé Varela, La Vanguardia, 17-04-1994), António de Spínola (José Pedro Castanheira, Expresso, 30-04-1994), Osama Bin Laden (Robert Fisk, The Independent, 22-03-1997), Michael Jackson (Edna Gundersen, USA Today, 14-12-2001), Gilberto Gil (Joaquim Ibarz, La Vanguardia, 05-01-2003), Hugh Hefner (Lluís Amiguet, Magazine, 13-04-2003), Bansky (Simon Hattnestone, The Guardian, 17-07-2003), Dalai Lama (Luke Harding, The Guardian, 05-09-2003) e Tony Blair (Jeremy Webb, New Scientist, 01-11-2006).
A entrevista de José Saramago tem como pretexto a publicação do seu romance (que gerou polémica) O Evangelho segundo Jesus Cristo e serve para o autor falar de cristianismo, de comunismo, de ideologia e da história do mundo. Na conversa, Saramago explica-se: “A tese escondida é a de que eu digo, em primeiro lugar, que o cristianismo não valeu a pena; e em segundo, que se não tivesse havido cristianismo, se tivéssemos continuado com os velhos deuses, não seríamos muito diferentes daquilo que somos”. Se se justifica quanto ao livro e quanto às ideias feitas sobre a religião, também se afirma relativamente ao Partido Comunista e à ideologia – “a União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política ou ideológica”, chegando a afirmar que sairá do partido “se um dia se sentir mal”. A questão da sua escrita no que se relaciona com a dimensão histórica, do tempo, também lhe merece aprofundamento: “Agrada-me pensar que o tempo não é essa diacronia, essa sucessão de momentos, agrada-me pensar no tempo como uma espécie de imensa tela onde se projectam e se fixam os acontecimentos.”
O outro português sentado nesta mesa das entrevistas é António Spínola, o homem que povoou as primeiras páginas dos jornais durante muito tempo, sobretudo a propósito dos acontecimentos decorrentes  do 25 de Abril de 1974. É uma entrevista de memórias quanto ao que se passara anos antes, oscilando entre a dedicação ao 25 de Abril e um certo ajuste de contas com políticos e sectores, como o MFA (Movimento das Forças Armadas) e o PCP. Nem tudo é pormenorizado ao ponto de o leitor poder avaliar as posições. Certo é que o militar se sobrepõe ao político. Não escondendo a razão de ser do monóculo (algo que usava por tradição recebida dos oficiais de cavalaria), explica-se quanto ao que viveu na Guiné e quanto à emergência que era a independência daquele território. Personalidades como Costa Gomes, Rosa Coutinho ou Vasco Gonçalves não são poupadas e, na história política que viveu, não esqueceu a parte do MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal). Ao seleccionar o seu maior sucesso político, optou: “ter colaborado abertamente nos objectivos previstos no 25 de Abril, que, em última análise, se resumiram à restituição da liberdade e da democracia ao povo português”. E quanto ao sucesso militar, destaca, a fechar a entrevista: “ter participado como voluntário na Guerra do Ultramar, onde tive o privilégio de correr riscos ao lado dos nossos extraordinários soldados, lídimos representantes do ancestral patriotismo do povo português”.
Do Brasil, foram convocados também dois nomes: primeiro, o de João Havelange, fluminense que presidiu à FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado) entre 1974 e 1998, numa conversa que passa pelo vasto mundo do futebol a nível mundial, com ideias sobre inovações, com responsabilidades, tocando, entre outros, os problemas da massificação e da arbitragem. A fechar o encontro, Havelange refere: “penso no futebol, que é a grande paixão do mundo actual, e tento dar o equilíbrio para que esta paixão seja um elemento civilizador da nossa sociedade”. O outro entrevistado é Gilberto Gil, músico e político do governo de Lula da Silva (em que interveio como Ministro da Cultura), em conversa tida com o jornalista no dia em que tomou posse no cargo. A conversa ficará marcada por esse momento, uma vez que o tema foi a política cultural a implementar, com destaque para o fomento da criatividade, uma vez que “a política cultural não pode deixar todos os seus trunfos à mercê de ventos, sabores e caprichos do deus Mercado”.
Da área da política aparecem mais três nomes: Dalai Lama, Tony Blair e Osama Bin Laden. Quanto ao primeiro, o décimo-quarto Dalai Lama do Tibete, um monarca que perdeu o reino por imposição do governo chinês, deixa uma entrevista pincelada pela amargura do exílio forçado e pela dúvida quanto ao futuro no que toca ao sucessor. Apesar destes traços, o discurso é apaziguador – “a melhor solução para um problema consegue-se através do diálogo”. No caso de Tony Blair, a conversa, atendendo à publicação que a reproduziu, toca um tema candente como seja a ligação da política com a ciência, defendendo Blair a necessidade de a política britânica ter de considerar “a ciência tão importante como a estabilidade económica”, assim como a urgência de académicos e empresários irem à escola com o objectivo de despertarem “entusiasmo nos alunos, não só pelas descobertas científicas, mas também pela infinidade de oportunidades laborais” existentes na área. O tema vinha a propósito de acontecimentos ocorridos no tempo da governação de Blair – a clonagem, as culturas transgénicas e as recusas por parte da população na administração de algumas vacinas. O terceiro entrevistado, Bin Laden, faz girar a conversa em torno da guerra santa contra os Estados Unidos, quase único inimigo, bem como a dose de ameaças relativamente à América, que o entrevistador não sublinhou convenientemente, só a tendo valorizado após o 11 de Setembro. A peça jornalística, cujo autor chegou três vezes à fala com Bin Laden, oscila entre os géneros entrevista e reportagem, já que também narra, com algum pormenor, a viagem ao encontro do dirigente fundamentalista.
Do mundo do espectáculo e da arte são os outros três entrevistados: Michael Jackson, Hugh Hefner e Bansky. O encontro com Jackson resulta numa entrevista fortemente condicionada, já que a conversa teve a presença de assessores do artista, que impediram que algumas perguntas fossem feitas ou desviaram a atenção das respostas, sobretudo quando relacionadas com a vida privada do artista ou com os escândalos que o acompanharam. Jackson aceitou apenas falar de música, de “show”, ainda que se deslumbre a falar dos filhos e que tenha confessado ter tido uma infância perdida. A razão de entrevista tão condicionada é exposta por Jackson: “se aceitasse entrar na esfera pessoal, seria o único assunto de que as pessoas falariam”. Assim, forte é a paixão pela música e pelo reviver de alguns momentos em palco e com os seus fãs. Hugh Hefner surge entrevistado sem ser para a publicação que fundou e com que alcançou fama e sucesso, apesar de o pretexto da entrevista serem os 50 anos sobre a fundação dessa revista, a Playboy. Assim, o diálogo versa sobre as vitórias e dificuldades do projecto, visando uma nova ideia do homem moderno, em muito criado e vivido na própria personalidade do fundador Hefner. Com o ar mais solene, o entrevistado comenta: “Sempre disse que a Playboy não é uma revista de sexo, mas sim uma publicação sobre estilos de vida que dedica especial atenção ao sexo, porque o sexo é uma parte importante da vida”. E uma curiosidade: a revelação de que o primeiro número da publicação não teve data registada porque, por razões económicas, não havia a certeza de vir a ser feito um segundo número…
O último entrevistado deste lote é Banksy, o artista de paredes que ninguém identifica. Sem fotografia, Banksy ajuda a construir o seu próprio anonimato, tomando posições contra marcas e códigos, comprazendo-se com o viver no fio da navalha para não ser descoberto. Com orgulho, afirma: “a lista dos trabalhos que recusei é muito mais extensa do que a dos trabalhos que fiz. É como um currículo ao contrário, é estranho.” Depois, é o desenrolar de histórias sobre os desenhos em paredes, seguindo o princípio do graffiti quanto à efemeridade, mas com a eficácia da crítica e do fazer pensar, porque “a graça está em dedicar menos tempo a fazer o desenho do que as pessoas a observá-lo”.
Tempos de crise, de mudanças, de reflexão sobre o tempo e a forma de se estar constituem esta dezena de entrevistas, que acentua a quantidade de questões que o século XXI tem ainda para resolver, se é que essa vai ser uma preocupação…

Sublinhados
Música – “A música é um mantra que alivia a alma. É terapêutica. É algo necessário para o corpo, como o alimento. É muito importante compreender o poder da música. Seja onde for, num elevador ou numa loja, a música influencia a forma de comprar ou a forma como tratamos a pessoa que temos a nosso lado.” [Michael Jackson. Entrevista a Edna Gundersen, em USA Today (14.Dezembro.2001). Grandes Entrevistas da História 1991-2006. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 70]

Religião – “As religiões tanto servem para sobreviver às perseguições como para fazer perseguições, e os perseguidos vão por seu turno refugiar-se noutra religião que fará outros perseguidos.” [José Saramago. Entrevista a Clara Ferreira Alves, em Expresso (02.Novembro.1991). Grandes Entrevistas da História 1991-2006. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 17]

[Com a próxima edição do Expresso, o último volume da série, o nº 7]


sábado, 6 de dezembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (4)



As dez personagens reveladas no quinto volume de Grandes Entrevistas da História (em publicação a cargo do semanário Expresso), que abrange o espaço temporal entre 1971 e 1990, são: Margaret Thatcher (Terry Coleman, The Guardian, 02-11-1971), Stanley Kubrick (Gene Siskel, Chicago Tribune, 13-02-1972), Yasser Arafat (Oriana Fallaci, Intervista con la Storia, 1974), Álvaro Cunhal (Oriana Fallaci, L’Europeo, 06-06-1975), Amália Rodrigues (Miguel Esteves Cardoso, Se7e, 24-11-1982), Pablo Escobar (Yolanda Ruiz, RCN Radio, 1988), Steve Jobs (Bob Burlingham e George Gendron, Inc., 04-1989), Jack Nicholson (Gene Siskel, Chicago Tribune, 12-08-1990), Luciano Pavarotti (Màrius Carol, Magazine, 02-09-1990) e Ayrton Senna (Gerald Donaldson, McLaren, 09-1990).
Na entrevista com Amália, além de surpreender o tom de abertura e de rapidez com que a conversa se desenrola, é ainda de enaltecer o formato de texto devido a Miguel Esteves Cardoso, perguntas e respostas segmentadas em dez partes, cada uma delas tendo como título um mandamento, resultante do conteúdo e da dose de revelação que surge nas respectivas respostas. Uma estratégia coerente, pois que o jornalista se metaforiza em profeta, logo no início do texto: “A partir de hoje, podem chamar-me Moisés. Subi à montanha de São Bento e a Deusa falou-me e transmitiu-me os seus Mandamentos. Agora esculpo-os numa pedra. Numa pedrada de divindade e de Fado.” A entrevistada surge em diálogo com as marcas que já lhe eram habituais, sem certezas, mas num tom pessoal expressivo. Cantora ou fadista? “Nem uma coisa nem outra. Não sei se sou fadista, se não sou. Era pequenina e cantava. Um dia disseram-me que aquilo era fado. Disseram-me que era fado… mas eu não faço questão.” Falará das músicas, de trivialidades, de histórias, da simbologia que lhe foi atribuída, de poemas e do que de si ficará para a memória: “Sim, vai em mim essa pieguice, de querer continuar nas pessoas. A coisa mais bonita que podem dizer de mim, depois de morta, seria ‘Coitadinha da Amália, já morreu…’! ‘Tadinho’ é uma das palavras mais portuguesas, gosto muito dela. Tenho essa pieguice porque sei que, depois de morrer, o universo acaba comigo.” E, no final, um humor brilhante: Esteves Cardoso quer inverter os papéis e, em vez de lhe pedir uma mensagem final: “A senhora quer fazer a última pergunta?” Resposta imediata, certeira: “Obrigada, mas não pergunto nada, com medo das respostas.”
O outro português entrevistado nesta obra, Álvaro Cunhal, deve a sua entrada ao trabalho da jornalista italiana Oriana Fallaci. É uma entrevista dura porque Fallaci assume contestar muitas afirmações de Cunhal, que profere afirmações polémicas do ponto de vista político (que, aliás, mereceram muitas reservas em várias latitudes, depois de conhecida a publicação) e mantém um secretismo assumido quanto à sua vida pessoal. A entrevista tem uma longa introdução, que a autora preparou para a integrar no seu livro Intervista com la Storia, em que o político português é retratado e biografado, numa tentativa de explicação da personagem, chegando Fallaci a interpretar o silêncio sobre o privado como o “gosto pelo mistério [que] surgiu em consequência do seu passado como conspirador e, também, da tal renúncia que é tão típica de alguns comunistas”. Cunhal mostrou convicções que, lidas hoje, acentuam as marcas epocais no vocabulário usado – “nós, comunistas, não aceitamos o jogo das eleições”, já que elas “pouco ou nada têm a ver com a dinâmica revolucionária”; “garanto-lhe que em Portugal não haverá um Parlamento”; “Portugal já não tem qualquer hipótese de estabelecer uma democracia ao estilo das que vocês têm na Europa ocidental”; “o 25 de Abril não foi um golpe (…) foi um movimento de forças democráticas no seio do Exército”; “Portugal não será um país com as liberdades democráticas e os monopólios, não será companheiro de viagem das vossas democracias burguesas”. Assumiu a sua concordância com a intervenção soviética na Checoslováquia, a frontalidade com que respondeu ao embaixador americano sobre a permanência de Portugal na NATO, dizendo-lhe: “por agora, não queremos discutir esse problema”. Em vários momentos, a conversa mais parece um jogo de fuga: Fallaci quer saber de onde veio Cunhal quando chegou a Portugal em 1974 e a resposta mostra-se evasiva  –  “Não lhe digo onde estava. Vocês, os jornalistas, gostam tanto do  mistério como nós, os comunistas”; noutro passo, a jornalista insiste com a ideia do “imperialismo soviético” e a refutação surge sob a forma de alteração das regras – “Um dia hei-de entrevistá-la a si acerca do imperialismo soviético”.
De Oriana Fallaci é ainda a entrevista com Arafat, outro encontro em que as respostas constituem um enigma sobre a personagem. Uma parte significativa do texto, no início é a reconstituição possível da história do líder palestiniano nascido egípcio, que, na conversa, rejeitas várias vezes responder a perguntas sobre a sua vida pessoal e centra o discurso num jogo em que foge, frequentemente, ao que lhe é perguntado, mais interessado na luta contra Israel – “só agora começámos a preparar-nos para o que será uma longa, longuíssima guerra, uma guerra destinada a prolongar-se por gerações”; “deve perguntar até onde poderão resistir os israelitas, porque não pararemos até ao dia em que possamos regressar a casa e tenhamos destruído Israel”. A própria jornalista é vista como uma representante dos adversários e é desafiada – “Se têm assim tanto interesse em dar uma pátria aos judeus, dêem-lhes a vossa. Há muita terra na Europa, na América.” E termina o diálogo com uma quase confissão: “Nunca encontrei a mulher certa. E agora não é o momento. Casei-me com uma mulher chamada Palestina.”
O universo da política tem ainda encontro com Margaret Thatcher, numa entrevista dominada pelos acontecimentos do momento, a do leite nas escolas, apoio cortado pelo governo, e pela imagem que da governante se faria. Ressalta uma figura enérgica, contrapondo às marcas negativas do seu retrato as decisões tomadas em prol das melhorias, às questões mais problemáticas uma explicação que finda com a pergunta “não é?”, ao mundo das dificuldades o seu próprio percurso, aos comentários dos adversários uma certeza – “os insultos dizem mais sobre quem os profere do que sobre quem é alvo deles, não é?”
Pretendendo ter intervenção política, sobretudo pelo condicionamento que fez nessa área, surge Pablo Escobar, o colombiano que associou o seu país ao narcotráfico, com um discurso que, conjugado com o que se sabia e se veio a saber sobre o entrevistado, configura situações de vitimização, de paradoxo, de representação, de discurso para tratar a imagem perante o seu país e o estrangeiro – “sou uma pessoa que respeita muito as ideias alheias”; “sempre estivemos abertos ao diálogo e pessoalmente considero que a falta de diálogo é a causa principal da violência no país”; “existe uma preocupação com o consumo de drogas”; “as drogas vieram para ficar”; “todas as pessoas acusadas publicamente de pertencer ao narcotráfico são, na verdade, as únicas pessoas que investem no país, isto é, as únicas que dão trabalho ao povo da Colômbia”.
Do mundo do cinema, o encontro é com um realizador, Kubrick, numa entrevista curta que toma como referência o filme Laranja Mecânica e a opinião sobre política e ambiente social, sempre na perspectiva de que a autoridade pode levar à repressão. O outro entrevistado é Nicholson, o actor que demonstra uma forma sadia de lidar com a fama e com o sofrimento (real, por razões familiares), bem como com a felicidade (na ternura com que fala da filha bebé que lhe nascera aos 53 anos, por altura da entrevista) ou com a opção de viver sozinho. Ainda do mundo do espectáculo é Pavarotti, o tenor que trouxe a música clássica para os estádios, falando dos seus prazeres, da sua música e da sua pintura, revelando-se sempre um imperfeito, um trabalhador incansável a lidar com os seus dotes, um “superperfeccionista” – “acho sempre que tudo aquilo que faço, por muito bem que esteja, pode sempre ser melhorado”.
A entrevista com Ayrton Senna é um encontro com um homem do risco e das manobras arriscadas. Senna é apresentado como um tímido muito por responsabilidade do próprio autor da entrevista, que reproduz toda a conversa em discurso indirecto, só dando a palavra ao entrevistado no final, numa mensagem. Apresentado com grande dose de humanismo e de carinho pelos seus fãs, Senna mostra-se em reflexão, oscilando entre o risco e uma maneira própria de lidar com a fama. No final do encontro, comove-se e fala dos artistas enquanto símbolo: “Em muitos aspectos, não somos uma realidade para as pessoas, mas um sonho. É uma coisa que nos fica gravada no pensamento. Mostra-nos até que ponto podemos ter impacto na vida das pessoas. E, por mais que tentemos dar qualquer coisa a essas pessoas, nunca será nada, comparado com o que elas sentem por nós dentro delas e nos seus sonhos. E isso é muito especial… é muito, muito especial para mim.” Como se sabe, Senna morreria em prova cerca de quatro anos depois, em 1 de Maio de 1994, no circuito de Imola.
Steve Jobs não pertence a nenhum dos mundos das outras personagens deste volume. Ligado às tecnologias, a marcas extraordinárias no universo da informática, Jobs apresenta-se na luta pela democratização das tecnologias numa perspectiva de que o público exigirá sempre mais, de inovação nas empresas, de aposta na criatividade dos colaboradores de abertura para a surpresa da vida. Não é da entrevista (gerada em 1989), mas o organizador do volume, em nota final, retoma um pensamento de Jobs, produzido em Junho de 2005, proferido na Universidade de Stanford, quando ele já sabia estar doente, sem hipótese de recuperar: “Lembrar-me de que em breve estarei morto é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões da minha vida. (…) Lembrarmo-nos de que vamos morrer é a melhor forma que conheço de evitarmos o engano de acharmos que temos algo a perder.”
Vinte anos de esperanças, de crenças, de contradições. Um tempo que oscilou entre os grandes avanços no domínio da tecnologia e as instabilidades oriundas da política a céu aberto…

Sublinhados
Computador – “Os seres humanos são basicamente fabricantes de ferramentas, e o computador é a ferramenta mais extraordinária que construímos até hoje.” [Steve Jobs. Entrevista a Bob Burlingham e George Gendron em Inc. (Abril de 1989). Grandes Entrevistas da História 1971-1990. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 108]
Experiência – “Se não adquirirmos um pouco de bom gosto e de experiência enquanto jovens, nunca mais o faremos. A experiência faz aumentar o prazer…” [Jack Nicholson. Entrevista a Gene Siskel em Chicago Tribune (12-08-1990). Grandes Entrevistas da História 1971-1990. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 125]
Melhor – “As pessoas ficam mais motivadas a fazer coisas o melhor possível do que a fazê-las de forma simplesmente correcta.” [Steve Jobs. Entrevista a Bob Burlingham e George Gendron em Inc. (Abril de 1989). Grandes Entrevistas da História 1971-1990. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 112]
Passado – “Quando um homem tem um passado extraordinário, este vem ao de cima mesmo que ele o esconda, pois o passado está gravado no rosto, nos olhos.” [Oriana Fallaci. Introdução à entrevista de Yasser Arafat, em Intervista com la Storia (1974). Grandes Entrevistas da História 1971-1990. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 36]

Com o Expresso de hoje, o 6º volume

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (3)



Seis políticos, um cientista e três artistas constituem o leque de conversadores no quarto volume de Grandes Entrevistas da História (em publicação pelo semanário Expresso), cujas peças jornalísticas foram publicadas entre 1952 e 1970: António de Oliveira Salazar (Christine Garnier, Férias com Salazar, 1952), Albert Einstein (Bernardo Cohen, Scientific American Magazine, Julho de 1955), Alfred Hitchcock (Pete Martin, The Saturday Evening Post, 27-07-1957), Humberto Delgado (Artur Inez, República, 10-05-1958), Salvador Dalí (Ana Nadal de Sanjúan, La Vanguardia, 19-11-1958), Fidel Castro (Clark Hewitt Galloway, U.S. News & World Report, 1959), Francisco Franco (Luis de Galinsoga, La Vanguardia, 01-10-1959), Norman Mailer (Eve Auchincloss e Nancy Lybch, Mademoiselle, Fevereiro de 1961), Nelson Mandela (Brian Widlake, Independent Television News, Maio de 1961) e John F. Kennedy (Aleksei Adzhubei, Izvestia, 25-11-1961).
Os dois políticos portugueses, rivais, foram entrevistados com seis anos de diferença. A conversa com Salazar teve lugar em Santa Comba Dão e é extraída do final de obra publicada em França e em Portugal, que permitiu a sugestão de um romance entre o político e a jornalista Garnier. Comentando a visitante que de Portugal levava uma imagem de “excessiva calma”, de “entorpecimento”, Salazar responde: “Essa calma que a impressiona é intencional. Aplicamo-nos em protegê-la contra tudo o que a possa ferir, o que não impede o povo português, que não é inconsciente nem indiferente, de estar atento aos acontecimentos mundiais. (…) Considero esta calma como uma das características do povo português na época actual. A outra, é uma forte tendência para o humanismo.” Ao longo da conversa, Salazar vai passando uma imagem rústica e de relativa suavidade do povo português, de tal forma que Christine Garnier é levada a comentar: “Tal como os apresenta, Sr. Presidente, os portugueses parecem bastante maleáveis.” Esta observação servirá ao político para expor a relação dos lusitanos com a autoridade e com a obediência: “Só têm com a autoridade relações baseadas na desconfiança. A obediência é mais receosa que cívica e sempre discutida.” A questão do medo vai estar presente também na entrevista de Humberto Delgado, publicada um mês antes das eleições presidenciais cujos resultados exactos nunca se saberão e em que o general foi vencido. À pergunta, no final da entrevista, se tinha “mais alguma coisa a declarar ao país” o então candidato a presidente respondeu: “Sim. Que o país deixe de ter medo.” Já ao longo da conversa tinha criticado o regime vigente em Portugal, dizendo: “A Nação asfixiada, mutilada no que de mais belo Deus gerou – a alma dos homens – arrasta-se ignominiosamente brincando às eleições de quando em quando, numa soturna apatia, (…) escondendo dos países sob regime democrático o absolutismo em que nós vivemos sob o título jocoso e insultivo de ditadura paternal.” A solução política que defendia era a de uma democracia para Portugal, porque pensava ser ela, “adentro das imperfeições dos homens, o melhor compromisso para viver com dignidade e felicidade”. Nunca o general Delgado iria ver esse seu desejo cumprido no seu país, porquanto, em meados de Fevereiro de 1965, próximo de Badajoz, foi assassinado.
Outros dois entrevistados rivais na política, embora de países diferentes, são Fidel Castro e John Kennedy. A peça que nos traz a mensagem do presidente cubano mostra-nos uma personagem que balança no jogo para impressionar os Estados Unidos, insistindo não ser comunista, bem como outros países de onde possa chegar capital. Por outro lado, vai contornando aquelas que poderiam ser questões mais problemáticas, como a possível oferta de produtos a Cuba por parte de países comunistas ou a base naval americana de Guantánamo… Datada de cerca de dois anos depois da de Castro, a entrevista Kennedy é feita por um jornalista da União Soviética que era mais do que jornalista – a política, a militância partidária, o relacionamento familiar com dirigentes soviéticos, eis os ingredientes que formavam a personalidade de Adzhubei, o entrevistador, que se assume muito mais como um emissário dos pontos de vista do seu país até ao ponto de discordar das opiniões do político americano ou de lhe dizer: “Gostaríamos muito que o Sr. Presidente declarasse que a ingerência nos assuntos de Cuba foi um erro.” Pelo meio, houve as referências ao relacionamento entre as duas potências, à questão da Alemanha e de Berlim, à questão da NATO, com as derradeiras palavras de Kennedy a desejar que a entrevista pudesse contribuir “para melhorar o entendimento e para a paz”, sobretudo no interesse de ambas as frentes.
Em 1959, Franco, em Espanha, tinha como preocupações as dificuldades do povo espanhol e a recuperação que estava a ser feita, a luta contra o comunismo e a união da Europa “contra os perigos” que a ameaçavam. Muito embora a questão da União Soviética ocupe a maior parte da entrevista, é no final que Franco fala do esforço que o seu país está a fazer e dos resultados que estão a ser obtidos no plano do aumento da produção nas áreas da indústria e da agricultura.
O outro político entrevistado neste volume é Mandela, naquela que foi a sua primeira entrevista a um canal de televisão internacional e também a última entrevista que deu antes de ser preso. A conversa é curta e tem como linhas orientadoras a exigência do sufrágio universal, a convivialidade rácica, a possibilidade de organização de campanhas de não-cooperação e termina com uma questão: “Creio que chegou a hora de nos perguntarmos, à luz das nossas experiências (…), se os métodos utilizados até agora são os mais adequados”. Uma dúvida que respondia à pergunta sobre a possibilidade de ocorrerem na África do Sul actos de violência por parte do Congresso Nacional Africano, que, até ali, promovia campanhas de resistência pacífica.
O cinema e os recursos que usa são o tema da conversa com Hitchcock, um realizador cheio de imaginação e de humor. O que diz sobre os seus filmes é uma chave para um novo visionamento, tão calculadas são as situações e os métodos: “O segredo está no modo de articular a história. No meu caso, cada fragmento e cada situação da obra têm de estar planeados e decididos antes de começar a rodagem. Às vezes, planifico mais de seiscentas posições para a câmara antes de começar a filmar. Se tentasse improvisar uma estrutura para o enredo à medida que avançamos, não conseguiria os efeitos nem as reacções que pretendo.” De reacções e efeitos se fala também na entrevista com outro artista, o pintor espanhol Dalí. A jornalista antecipa na apresentação que “em Dalí tudo é pose, excepto o lado temperamental”. O diálogo comprovará a apreciação: “A única coisa que me interessa é que falem de mim”, afirma, considerando-se “o maior génio deste século”. E conta uma situação que comprova até à exaustão essa necessidade de se saber falado: “Tenho agentes em vários pontos de Espanha e do estrangeiro que recolhem tudo o que é publicado sobre mim. Enviam-mo e, quando recebo os envelopes, consigo perceber se as coisas correm bem ou mal. Quanto mais pesados e mais volumosos, mais propaganda contêm. Digo isto porque os atiro para a lareira sem os abrir.” O terceiro artista é escritor, Norman Mailer, que se assume na sua diferença de estilo e de forma de intervir, que se assume como “extremista”, ora falando da sua obra, ora da política. Ao autocaracterizar-se relativamente aos outros homens, diz: “Sou menos forte, mais inquieto, mais decidido, mais inepto, tenho mais sucesso. Não gosto de mim o suficiente para me deixar levar pelos meus instintos como deveria.”
A entrevista de Einstein foi a última que deu, tendo ocorrido duas semanas antes da sua morte, embora só tenha sido publicada posteriomente. Entendendo a dificuldade do jornalista para formular a primeira pergunta, o cientista confessa: “Há tantos problemas para resolver no campo da Física.. Há tantas coisas que não sabemos… As nossas teorias estão muito longe de ser suficientes.” Fala da importância de outros cientistas, como Newton ou Benjamin Franklin, sob o pretexto do conhecimento e do saber do entrevistador, chegando a confessar que “quem pior documenta a forma como se realizam as descobertas é o próprio descobridor”, pois “sempre se tinha considerado a si próprio uma má fonte de informação sobre a génese das suas ideias.” No final da conversa, Einstein ainda vai mostrar a Cohen a experiência para provar o princípio da equivalência a partir de uma oferta que lhe fizera um amigo, Eric Rogers. E o visitante sai comovido desta conversa pela afabilidade e simplicidade que Einstein demonstrara.

Sublinhados
Ciência – “A História é menos objectiva do que a Ciência. Por exemplo, se dois homens tivessem de estudar o mesmo tema histórico, cada um destacaria o aspecto que mais lhe interessa ou chama a atenção.” [Albert Einstein. Entrevista a Bernard Cohen, em Scientific American Magazine (Julho de 1955). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 30]
Coragem – “A coragem é algo que implica um enorme risco, sem se ter a certeza de que se vai sair vitorioso.” [Norman Mailer. Entrevista a Eve Auchincloss e Nancy Lynch, em Mademoiselle (Fevereiro.1961). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 106]
Democracia – “Adentro das imperfeições dos homens, penso que a Democracia é o melhor compromisso para viver com dignidade e felicidade.” [Humberto Delgado. Entrevista a Artur Inez, em República (10 de Maio de 1958). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 58]
Vaidade – “Quem afirma que não é vaidoso demonstra também uma forma de vaidade, ao orgulhar-se da sua declaração.” [Albert Einstein. Entrevista a Bernard Cohen, em Scientific American Magazine (Julho de 1955). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 32]
Vontade – “A vontade sem ternura é uma das coisas mais perigosas do mundo. A vontade sem a capacidade de reconhecer nada para além da própria vontade é algo que deve ser erradicado.” [Norman Mailer. Entrevista a Eve Auchincloss e Nancy Lynch, em Mademoiselle (Fevereiro.1961). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 107]
[Com a próxima edição do Expresso sai o volume 5 desta obra]

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (2)



Constituem o terceiro volume da obra Grandes Entrevistas da História (Lisboa: “Expresso”, 2014, em publicação) as entrevistas feitas no período 1931-1951 a George Bernard Shaw (Hayden Church, Liberty, 07-02-1931), Al Capone (Cornelius Vanderbilt Jr., Liberty, 17-10-1931), Adolf Hitler (George Sylvester Viereck, Liberty, 07-1932), Josef Estaline (H. G. Wells, The New Statesman and Nation, 27-10-1934), Fernando Pessoa (Artur Portela, Diário de Lisboa, 14-12-1934), Federico García Lorca (Luis Bagaría, El Sol, 10-06-1936), Mao Tsé-Tung (James Munro Bertram, Jiefang Ribao, 23-11-1937), Walt Disney (S. J. Woolf, The New York Times, 10-07-1938), Mahatma Gandhi (H. N. Brailsford, Harijan, 14-04-1946) e Egas Moniz (Armindo Blanco, O Século Ilustrado, 05-11-1949).
Se começarmos pelos entrevistados portugueses, veremos que Egas Moniz, tendo tido a atribuição do Nobel da Medicina em 27 de Outubro, era o homem do momento – só tinham passado nove dias até à publicação da entrevista e, além disso, era o primeiro português nobelizado, ponto cimeiro de um percurso que já tinha levado o nome deste médico a ser proposto para o galardão noutras ocasiões. Nesta fase da sua vida, aos 75 anos, o entrevistador deixa-se entusiasmar com o ritmo de vida do seu interlocutor, entre as consultas públicas e privadas, a escrita, a investigação, a ida ao cinema e a leitura, simultaneidade que conduzirá à questão do tempo e à explicação: “É necessário colocar um pouco de método nos nossos hábitos, para que o excesso de tempo de que dispomos possa dar para tudo.” O outro português da lista é Fernando Pessoa, numa curta conversa que sucedeu à publicação da sua única obra em português editada em vida, Mensagem, que tinha acontecido em 1 de Dezembro de 1934, duas semanas antes da divulgação da entrevista. A rápida conversa de Pessoa com Artur Portela no “Martinho da Arcada” evidencia a capacidade descritiva do jornalista e a enigmática personagem que o poeta é. O texto inicia-se com o retrato do entrevistado: “A calva socrática, os olhos de corvo de Edgar Poe, e um bigode risível, chaplinesco – eis a traços tão fortes como precisos a máscara de Fernando Pessoa.” Tal entrada será porventura o eco das próprias respostas do escritor, com uma dose de mistério apreciável, talvez na linha do “fingimento”: sobre Mensagem, dirá que “é um livro escrito em mim há muito tempo”; sobre a sua escrita, reflectirá que tem “várias maneiras de escrever, nunca uma”. O resultado sobre Portela é uma apresentação de Pessoa como um poeta que fala “como as cavernas, com boca de mistério”, e que, no final, “desaparece à nossa vista, num céu constelado de enigmas e de belas imagens”.
Mais dois escritores povoam este grupo de entrevistados: Shaw e Lorca. Nos seus 75 anos, o escritor irlandês fala sobre a sua obra e as leituras dela feitas e sobre a sociedade, não escondendo a sua veia de crítico social que também foi e o seu tom humorístico, dando, por vezes, a volta às perguntas. Quando inquirido sobre o futuro económico da Inglaterra, interroga-se se “conseguirá a civilização safar-se” e responde: “A lista de civilizações extintas está sempre a aumentar, tal como a lista de estrelas escuras descobertas pelos astrónomos. Qualquer estudioso do tema sabe que a estabilidade de uma civilização depende, em última instância, da sabedoria com que esta partilha a sua riqueza e distribui a carga de trabalho, bem como da veracidade da educação que ministra às crianças.” No final da entrevista, a propósito de pergunta sobre a razão de ser das “recentes derrotas que as mulheres infligem aos homens em todas as frentes”, espanta-se com a surpresa, considera a mulher tão apta e inteligente para lidar com qualquer máquina como o homem e desafia: “Se consultar os jornais de ontem, verá que várias mulheres tiveram filhos sem a ajuda de qualquer máquina. Mostre-me um homem que tenha levado a cabo uma proeza tão assombrosa e árdua e sentar-me-ei a debater consigo com toda a seriedade o significado de tamanho triunfo.” Já a entrevista de García Lorca é sobretudo uma conversa entre dois poetas, ambos tratando-se por “tu”, ambos recorrendo a uma linguagem metafórica, mais do domínio da poesia, chegando-se ao ponto de, a meio da entrevista, o rumo da conversa mudar e passar Lorca a entrevistador e Bagaría a entrevistado. No decurso, fala-se da construção poética, do papel da poesia, do afecto à Espanha, de música e do canto cigano, da literatura espanhola (em que Lorca manifesta admiração por Antonio Machado e por Ramón Jimenez). Cerca de dois meses depois desta publicação, em 18 de Agosto, o poeta granadino terá sido fuzilado.
Ainda no campo das artes, surge a voz de Walt Disney, que, aos 37 anos, era já um nome de sucesso no mundo do cinema (depois de ter distribuído jornais, de ter sido carteiro, de ter conduzido ambulâncias da Cruz Vermelha na Grande Guerra, de ter trabalhado em publicidade), respondendo a uma questão sobre “o que é a arte” de forma quase desconcertante: “O que é a arte? Eu sei lá! Somos apenas produtores cinematográficos. O nosso objectivo é divertir. Se conseguimos, sentimos que cumprimos o nosso objectivo e, se o público gosta do que mostramos, simplesmente erguemos os polegares e consideramo-nos afortunados.” O que estava em causa para Disney era a capacidade de aliar a engenharia e a comoção: “Se o homem o conseguir fazer, será um artista, mas, se não souber desenhar, se não conhecer a gramática da sua arte, não acredito que consiga expressar a sua emoção.”
A figura de Al Capone, chefe de organização criminosa, convive nesta mesa de entrevistados através da entrevista que saiu a público justamente no dia em que foi julgado e condenado a onze anos de prisão. O discurso do entrevistado assume-se como um discurso político, apelando à abertura “dos cordões à bolsa” porque eram necessários “fundos para combater a fome”. E o jornalista vai-se surpreendendo de intervenção em intervenção. “Nos dias que correm, as pessoas não respeitam nada. Antes, púnhamos num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei. Veja só o caos em que transformámos a nossa vida!”. E mais adiante: “Todas as nossas principais prioridades estão invertidas. Os banqueiros corruptos que aceitam o dinheiro dos clientes, que estes ganham com o suor do rosto, em troca de acções que sabem não ter valor seriam inquilinos muito mais adequados das instituições penitenciárias do que o pobre homem que rouba para alimentar a mulher e os filhos.” Tal candura e tal convicção vão adensando a entrevista ao ponto de o seu remate ser tão solitário quanto isto: “A porta de ferro do gabinete fechou-se. A minha entrevista mais surpreendente de sempre chegou ao fim.” Quase fica Vanderbilt sem palavras…
Os quatro restantes entrevistados são oriundos do mundo da política: Josef Estaline, Mao Tsé-Tung, Adolf Hitler e Mahatma Gandhi. No caso dos dois primeiros, o discurso não deixa que os jornalistas atravessem as muralhas que blindam os entrevistados; na mente dos entrevistadores ficam admirações e uma adesão à figura com quem acabaram de falar. H. G. Wells manifestará mesmo a Estaline um agradecimento no final da entrevista, declarando: “Actualmente, só existem dois homens no mundo cujas opiniões, cujas palavras merecem a atenção de milhões de pessoas: o senhor e Roosevelt.” Mas, logo a seguir, usa alguma cautela, dizendo a Estaline: “Ainda não pude apreciar o que fizeram no seu país, porque acabei de chegar ontem. Mas já tive ocasião de ver rostos felizes de homens e mulheres saudáveis e estou convencido de que aqui está a acontecer algo de proporções consideráveis.” Wells completamente rendido a Estaline! Com a entrevista de Mao acontece um pouco a mesma coisa: estando num menos bom momento político, o chefe chinês não sai do domínio da política e tenta justificar toda a sua acção e contra-atacar os adversários, fortemente apoiado pela explicação do que se passa no seu país e do modo de funcionamento da política e das instituições. Semelhante fascínio exerceu Hitler sobre Viereck, que, regressado aos Estados Unidos, tornou-se militante pró-alemão e chegou a ser activista da Alemanha nazi. Refugiando-se num discurso anti-marxista e profundamente germânico, Hitler defende os seus ideais e chega a encolerizar-se – “As veias da fronte de Hitler incharam ameaçadoramente. A sua voz enchia a divisão” foi o registo final do jornalista. Pelo caminho, muitos apelos, condensados num só: “Queremos uma grande Alemanha que unifique todas as tribos germânicas. (…) É imperativo despertar o espírito alemão. (…) Na minha visão do Estado alemão, não haverá lugar para o estrangeiro, o esbanjador, o agiota ou o especulador, nem para ninguém que seja incapaz de levar a cabo um trabalho produtivo.” Já a entrevista de Gandhi é a procura de consenso, uma busca de entendimento com a Grã-Bretanha para que a Índia seguisse o seu caminho: “Quando a Índia desfrutar do calor da independência, provavelmente aderirá a um acordo [de carácter defensivo], de livre e espontânea vontade. A amizade espontânea entre a Grã-Bretanha e a Índia estender-se-ia então a outras potências e entre todas manteriam o equilíbrio, visto que apenas elas deteriam a força moral para o fazer. Desejaria viver mais vinte e cinco anos para ver esta visão tornar-se realidade.” Infelizmente, assim não aconteceu e, ainda não eram passados dois anos sobre esta entrevista, em Janeiro de 1948, um extremista hindu assassinou Gandhi.
Entrevistas de formas de ser, de análises pessoais, de disfarce, de sonhos, de afirmação perante os outros, de sedução perante os jornalistas, independentemente da sua experiência, de tudo acontece neste lote de dez momentos em que o jornalismo se encontrou com a História e em que o mundo foi sendo construído…

Sublinhados
Audácia – “Quando alguém se propõe ir além do poder, tem de o fazer com audácia.” [Mahatma Gandhi. Entrevista a H. N. Brailsford, em Harijan (14-04-1946). Grandes Entrevistas da História 1931-1951. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 106]

Personagem – “Só a História dirá até que ponto foi importante esta personagem ou aquela.” [Josef Estaline. Entrevista a H. G. Wells, em The New Statesman and Nation (27-10-1934). Grandes Entrevistas da História 1931-1951. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 50]

[com a edição do próximo sábado do Expresso, o nº 4 desta obra]