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quarta-feira, 3 de março de 2021

Paulo Guinote: ser professor e pai num diário da pandemia


    

Baluarte, discute-se a escola porque se está informado e se quer contribuir com ideias ou pela ligação que com ela houve e vem sempre à superfície. Paulo Guinote sublinha: “Mesmo quando em conversas ocasionais ou com maior pretensão reflexiva se criticam as escolas, em particular as da rede pública, a verdade é que se tem como dado adquirido que elas estão lá e funcionam.” Se dúvidas houvesse, a pandemia esclareceu-as - ainda Paulo Guinote: “As escolas fecharam e, em pouco tempo, esse tornou-se um tema de conversa e debate mediático quase permanente (...). Por muito mal que se diga que funcionam, sem as escolas abertas a sociedade perde uma das suas âncoras.” Estas considerações constam no livro Quando as escolas fecharam - Cadernos da pandemia, assinado por Paulo Guinote (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2021).

Em 2020, entre 11 de Março (quando começou a intensificar-se a ideia do encerramento das escolas) e 18 de Maio (quando os alunos com exames do secundário regressaram à escola), foram 66 os dias de registo sobre o reflexo pandémico na vida da escola e da família - a escrita só esteve ausente em três dias desse período, havendo ainda um texto de “meados de Junho”, epílogo do livro. A forma de diário que o escrito assume verifica-se na indicação das datas, a que se podem sobrepor os acontecimentos evocados e motivadores das reflexões, entradas determinadas ainda por um título, que, muitas vezes, assume o tom crítico, que é uma das linhas deste diário.

Não se está apenas perante um relato mais ou menos cronológico e factual do que aconteceu no primeiro confinamento, pois as marcas do diarista abundam aqui e ali, conferindo um cunho pessoal às notas do quotidiano - o ambiente familiar, episódios vividos, convicções próprias, pequenas histórias (em torno da gata ou do telemóvel, por exemplo), olhar sobre o meio em que vive, fragilidades sentidas. O texto, sublinhado muitas vezes pelas referências à própria experiência como professor ou pela observação do que a informação privada ou pública trouxe ao diarista, adquire, com essas marcas pessoais e com um olhar de análise sobre o sistema e sobre a educação, um ritmo que o coloca no plano do testemunho sobre esse primeiro confinamento causado pela covid-19, salvaguardando-o como elemento histórico importante.

Perante tudo o que foi a surpresa, a descoberta, a vivência e a construção de uma nova forma de viver, as notas de Paulo Guinote fundem os sentimentos do pai, do professor e do cidadão crítico, numa construção que não esconde a tensão entre essas três dimensões, exacerbada numa sociedade mais habituada ao corporativismo do que à parceria e ao entendimento. Por aqui passam as medidas políticas nem sempre compreensíveis, o ziguezaguear dos discursos, o deslumbramento perante as tecnologias, o estado dos serviços públicos, as escolas entregues a si mesmas, os pequenos poderes, a servidão digital, o abalo sobre o sistema educativo, a fragilidade de conceitos aparentemente modernos mas inconsistentes, a ausência de perspectivas para o que possa ser uma outra normalidade ao nível da escola, o remeter para resolver na escola questões que deveriam ser solucionadas (também) fora dela, a importância que as famílias dão à escola, etc.

À distância de quase um ano sobre os acontecimentos registados, este diário é a revisitação do que solidariamente vivemos e a prova de que, como ensaio, essa experiência foi escassamente aproveitada para melhorar o desempenho do sistema. Obra a ler - para nos revermos e não nos deixarmos abater pela inércia...

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 571, 2021-03-03, p. 5.


quarta-feira, 13 de maio de 2020

A sala de aula: Entre os apeadeiros e a gare central



Uma centena de páginas para vinte cartas entre dois correspondentes, produzidas entre Outubro de um ano e Dezembro do ano seguinte, constroem Autobiografia de uma sala de aula, assinada por Christopher Damien Auretta e João Rodrigo Simões (Lisboa: Edições Colibri, 2020), ambos professores, um no ensino superior, outro no ensino secundário, ambos a trabalhar a sul do Tejo. Como subtítulo, uma indicação compromissiva remete para referências na área da educação e para certa forma de sentir o mundo, vivido entre a totalidade e os diferentes caminhos que nela se percorrem - “Entre Ítaca e Babel com Paulo Freire”.
Começa a primeira carta, subscrita por João: “A manhã, o despertar, o ruído, o autocarro, o metro, o autocarro e o ruído e a rotina e o ruído e o autocarro e o metro e o autocarro e o ruído e a metrópole e o ruído e as Pessoas e os sítios e o ruído e a noite... E Nós? E Eu?” Esta sucessão, cheia de repetições, sintetizando um dia de massificação, só podia terminar por perguntas curtas que vão ao essencial: o lugar do humano para ser, mote para a reflexão sobre a escola no seu quotidiano, na sua dimensão humana entre cidadãos, sujeitos, pessoas.
Estas cartas não são um manifesto, muito embora a palavra por lá passe e o pudessem ser. São a pausa para a revisão e para as consequências desse olhar, necessárias para que o professor se repense e encontre um fio de humanidade no que faz. No limite, seria a reflexão que cada professor deveria fazer, se tivesse (ou quisesse ter) tempo para tal, sem peias, ainda que podendo chegar a diversas conclusões.
Pelas mensagens vai passando o que deveria ser a escola: “motor de curiosidade”, criadora de “laços de solidariedade entre os seres”, tempo para criação nos jovens de uma “relação passional com o conhecimento” e para promover a reflexão e o espírito crítico. Também circulam linhas do que não deve ser a escola: o espaço do “auto-elogio do poder instituído”, o campo de “culpabilização dos alunos”, o território dos “testes contínuos” e da memorização oportunista, o local de “escravização de alunos e docentes”. Para tudo isto, há um argumento de peso, que toca a todos, como refere Christopher, ao concluir uma das missivas: “O que é que está em jogo na Escola? Tudo: os destinos dos jovens e o destino da comunidade humana.”
Saltam para a conversa questões como a pertinência e actualidade dos programas, a ausência de tempos em que “os alunos se deparem com o não-ter-nada-para-fazer”, a “saudável utilização da tecnologia”, o sistema de avaliação (que muitas vezes compromete o futuro e as profissões sonhadas), a relação entre as escolas secundárias e as universidades... numa escola tantas vezes distante da educação “com afectividade e com alegria”.
Defendem os dois autores uma reinvenção da escola, que é “ora um dos apeadeiros na vida dos alunos, ora a gare central na vida dos docentes”. No centro desta visão está a necessidade de se criar e humanizar a sala de aula, porque ela “é também isto: a arte da escuta, a partitura dos afectos, a autobiografia íntima da espécie.” Um livro a ser assumido para que a sala de aula aconteça!
* "500 Palavras". O Setubalense: nº 393, 2020-05-13, pg. 10

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Helena Buescu e Inger Enkvist: duas opiniões sobre educação a ler hoje


No Público de hoje, dois bons textos sobre educação que merecem uma leitura e um olhar atentos.

   

O primeiro, de Helena Carvalhão Buescu (a ler aqui), sobre as aprendizagens essenciais, sobretudo no domínio do Português do ensino secundário. Um texto de preocupações que, mais do que serem dos professores, deviam ser dos pais, das famílias e da sociedade. Reduzir o ensino secundário ao “essencial”, seja isso o que for, é dar uma machadada no espírito crítico tão necessário, é deixar ao livre arbítrio dos níveis de exigência (não da exigência em si) a preparação e o apoio aos alunos, á ajudar a que se pense e conheça cada vez menos. Os argumentos de Buescu, que subscrevo (para que dúvidas não restem), fazem-me lembrar uma história passada com um colega, professor de Português, há uns anos: uma mãe de um seu aluno de 11º ano encontrou-o e, feliz, contou-lhe que o filho estava a estudar Os Maias. Quando o colega quis saber como era feito esse estudo (que só podia ser através da leitura da obra, obviamente), a progenitora explicou que, todos os dias, à noite, lhe lia um bocadinho do romance até ele adormecer...

O segundo texto é uma entrevista feita por Bárbara Wong à professora universitária sueca Inger Enqvist (que pode ser lido aqui), que, nos seus 71 anos de saber e com uma simplicidade impressionante, diz verdades fundamentais que variadas correntes têm andado a contestar e a alastrar essa oposição, estando a deixar marcas nos sistemas educativos. Marcas que, como sabemos, são fenómenos de moda e que deixarão resquícios de que nos viremos a arrepender, por certo. Vale a pena ler a entrevista na íntegra, independentemente de nos situarmos na sociedade como pais, como professores ou como educadores. Acho que serve para todos, sem excepção. Deixo algumas citações:
“Aprender a aprender”- O “aprender a aprender” dá a ideia de que se aprendeu alguma coisa que se pode usar noutras situações, mas a investigação diz que não. É preciso aprender os factos para se ser capaz de pensar, compreender e chegar a conclusões. É preciso ter muito conhecimento para ser capaz de pensar bem. 
“Em Portugal ou no Reino Unido, ninguém quer ser professor” -É um problema também noutros países. Em comum, têm o facto de terem introduzido a “nova pedagogia” que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, quando pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, ou pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, ninguém quer ser professor.
Perfil de um bom professor- Para ter bons professores é preciso ter um Governo que imponha boas regras. Um bom professor tem de ter uma boa preparação, em termos da língua e do conhecimento, e gostar de aprender. Mas é preciso aceitar que qualquer aluno possa estar em turmas de diferentes níveis. 
Os pais nunca devem falar mal dos professores?- Nunca. Podem dizer: “Se fosse eu, não faria assim, mas aprende tudo o que puderes com essa pessoa.”
Nas férias do Verão, os alunos devem continuar a estudar?-Primeiro, é necessário ir com eles para a rua, depois pô-los a ler. Ler pelo prazer. Até podem oferecer uma recompensa: “Lê dez livros e oferecemos-te uma viagem.” Se não forem bons leitores, não serão bons alunos.

domingo, 8 de outubro de 2017

A escola e o "susto" das provas de aferição



Ao ler a missiva de Rui Silvares, divulgada nas “Cartas ao Director” no jornal Público de hoje, cruzei-me com a reacção que tive quando li a notícia, há dias, segundo a qual iria haver mais formação para professores porque os resultados dos alunos nas provas de aferição não tinham sido satisfatórios.
É bem o que diz o signatário da carta: os resultados são o que são e quem tem de ser formado são os professores, independentemente da sua experiência, do seu tempo de serviço, dos resultados que vão obtendo num espaço em que, frequentemente, estão sós. É sempre assim: os professores têm de receber formação para isto, para aquilo, para aqueloutro, até para corrigirem testes (mesmo que sejam exames), que é uma coisa que fazem várias vezes ao longo de cada ano lectivo e milhares de vezes ao longo da sua profissão... e quem está de fora fica sempre desresponsabilizado!
“Politicamente correcto” é o que se pode dizer desta medida de “formação”. Mas isso esconde o essencial - o que é a escola, o que a sociedade tem feito da escola e permite que continue a ser feito. O número de alunos por turma, as regras, o facilitismo, as pressões de todos os lados, a ausência de uma valorização da escola, as inconstâncias e as indefinições, a falta de um pacto social educativo... tanta coisa! E tanta gente continua a falar de educação como se estivéssemos entre treinadores de bancada...

É claro que olhar a educação de uma forma administrativa é sempre mais fácil; todavia, como sabemos, é também a forma mais imediata para que não sejam resolvidos problemas...

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Manuel Nunes: Ser professor, reflectir a vida


Diana é professora, autora e narradora de umas páginas de diário durante uma manhã, no tempo que medeia entre a presença num funeral (da mãe de uma aluna, que ligava mais às drogas e ao álcool do que à filha) e o início das aulas que nesse dia tem de leccionar.
Diana é professora e aproveita esse tempo que antecede as aulas para se pôr em dia, reflectindo a profissão a partir de uma notícia televisiva que transmite uma manifestação de professores, alunos e pais ligados ao ensino particular.
Diana é professora e passeia-se pela forma de encarar a escola e a sua acção, pela recordação de coisas lidas e ouvidas, pela mensagem veiculada pelo seu mestre, companheiro ausente mas com um legado de ensinamentos e reflexões que o torna presente, pela tentativa de posicionamento entre a sua prática, os alunos e as políticas, num trânsito entre as figuras que povoam o título da obra.
Manuel Nunes faz-nos chegar esta narrativa-ensaio intitulada A professora, os porcos e os cisnes (Lisboa: Gradiva, 2012) e não se pode ficar indiferente a um mundo de problemas que é o universo do professor, na gestão pedagógica dos conflitos e das tensões consigo e com os outros - os alunos, os outros professores, as decisões do(s) poder(es).
A narrativa cruza a experiência de Diana com as reflexões do mestre, obtidas a partir do seu diário ou do registo gravado das acções de formação a que assistiu. O olhar sobre o estado da escola não resulta num retrato feliz, o que justifica o próprio subtítulo da obra - “O pântano da educação em Portugal” -, associado, naturalmente, ao tempo em que foi escrito e ao contexto por então vivido na área do ensino.
A profissão do professor é esse movimento pendular entre os porcos e os cisnes, uns e outros figuras simbólicas ricas, definidoras das aspirações humanas já desde a Antiguidade: os porcos, seres em que foram transformados os companheiros de Ulisses por só reagirem instintivamente ao mundo, no sentido da satisfação não pensada dos desejos; os cisnes, recolhidos de Platão e da forma nobre como Sócrates encarou o seu fim, epílogo injusto mas sem abdicação.
Muitas páginas desta obra mexem connosco, seja pelo tom utilizado (parecendo frequentemente que se trata de situações em que participamos), seja pela pertinência dos casos evocados. Haja em vista, por exemplo, o texto de considerações sobre a fórm(ul)a encontrada por alguns docentes para justificarem a avaliação que atribuem aos alunos, apoiada no “excel”, num engodo para tornar objectivo o que parte da subjectividade, numa ilusão de que o processo de avaliação que seguem é matemático, rigoroso, imbatível... A citação é longa, mas vale a pena...
       “Hoje aqueles tipos conseguiram irritar-me! Como é que é possível tal cegueira colectiva de um colectivo de pessoas? Olham para um pormenorzinho, fixam-se nele e estão plenamente convencidos de que é ali que reside a verdade! Nem sequer conseguem compreender que, ao fixarem-se no pormenor, perdem de vista o horizonte dentro do qual (e só dentro do qual) se torna possível a visão do pormenor!... No fundo, não são diferentes do meu cão quando, apontando eu o dedo na direcção de algo que tento mostrar-lhe, se põe, apalermado, a olhar para o meu dedo em vez de olhar para a realidade indicada pelo dedo!...
       Aqueles tipos estavam todos cegos: se as contas do Excel davam 17,44, então a nota final do aluno tinha de ser 17 e só 17 e nada mais do que 17, nunca 18, muito menos 19, não podia ser nem mais nem menos do que 17!... Ainda se, ao menos, as contas do Excel dessem 17,45, então ainda se poderia esticar um bocadinho, mas contas são contas, é pena mas é assim, aliás, se fosse num exame, também seria assim!...
       Como se a capacidade e o poder de avaliar pertencesse ao Excel e não ao professor (ou melhor, aos professores do Conselho de Turma)! Todos submetidos, em regime de vassalagem feudal, à tirania do Senhor Absoluto, Omnipotente e Omnisciente Excel! Todos ali, contagiados por uma cegueira colectiva, esquecidos dos pressupostos e das exigências do sistema de avaliação sistemática e contínua! Todos ali, cegos dentro da caverna escura da ignorância (ah, caro Platão, com tu tinhas razão!), a confundir a verdade da avaliação com a exactidão matemática do Omnisciente Excel, esquecidos de que não há nenhuma fórmula do Excel capaz de nos dar a verdade do invisível, do inescutável, do indizível e do inefável do aluno! Impressionante! Arrepiante! Assustador!...
       Esta é uma das grandes tragédias da escola portuguesa: há muitas pessoas (muitas mais do que eu quero admitir) a quem falta a visão do todo e que, por isso, cometem erros pedagógicos de uma gravidade criminosa!...”
Depois deste relato, será caso para perguntar se há alguém ligado à educação que ainda não tenha presenciado situações como a apresentada... e, já agora, se não se revoltou com o que (ou)viu em termos de argumentação (se se lhe pode chamar argumentação...)?
Mas o que mais impressiona neste texto de Manuel Nunes é a própria ideia apontada do que é ser professor, do que a narradora entende que seja o professor, o seu ideal no fim de contas - meta nunca conseguida mas sempre perseguida, porque sempre sentida e adivinhada, porque tentada no quotidiano, porque estabelecedora de marca, porque exemplo ou objectivo que pretende ser. Sublinho três exemplos, que são outras tantas citações adequadas, que poderiam ser outros tantos princípios a serem tidos em conta na escola do dia a dia. O primeiro, sobre o professor: “Quem é professor ou professora tem o dever de nunca ser vulgar. Tem o dever de nunca agir nem reagir de forma vulgar. Em nenhuma circunstância!”. O segundo, sobre o acto de educar: “O educador tem o dever de, perante o educando, ser arauto de Apolo. O horizonte último do humano é a luz e é para esse horizonte que o educador tem o dever de orientar toda a acção educativa.” O terceiro, sobre a Escola: “A escola existe para educar para o sublime. A sua missão consiste em conduzir para o mais alto do mais alto. Ela tem a obrigação moral de ter como meta e como horizonte a perfeição.”

Desconte-se neste livro o que pode ser uma marca do tempo (publicado em 2012, o que, não sendo pormenor de somenos, não impede uma leitura do essencial, que vai muito além das marcas de datação) e veja-se o que poderia ser um manifesto ou um código a ser subscrito por cada professor naquilo que de reflexões o povoam, aí incluindo as dúvidas e as práticas, a imagem social que do professor foi criada (pela política ou pelos próprios professores), o real quotidiano da vida na escola: uma profissão contra a “mesmice”, questionadora da falta de sentido do mecânico em que muitas aulas se tornam, promotora de humanidade, de saber e de auto-exigência e impulsionadora da paixão. É pedir muito?