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sábado, 30 de setembro de 2017

Vinhos da Casa Ermelinda Freitas: Uma história feita de sentido



A revista do Expresso de hoje traz entrevista com Leonor Freitas (nº 2344, 2017-09-29, pp. 56-63), o rosto e a vontade que, nas duas últimas décadas, criou e desenvolveu a marca Ermelinda Freitas no mercado vitivinícola a partir da região de Palmela-Setúbal.
Vale a pena ler a entrevista em que se percebe a história da empresa e da marca, aliada à história da família, numa conversa conduzida por Carolina Reis em que se evidencia também o papel da vontade, da humildade, da coragem e do testemunho. O percurso de Leonor Freitas é a corrida atrás de um sonho e de uma identidade, por onde correm lágrimas, esforço e um incondicional apego às raízes. Sentimos o prazer de ser contada uma história em que mesmo as designações comerciais para os vinhos têm uma justificação: "Tudo tem história, tudo é sentido!" é a última frase da entrevistada, que podia ser a primeira, de tal forma a entrevista é coerente. A ler!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Fragmentos 02 - Incertezas


Estou a pagar no posto de abastecimento e o indivíduo aproxima-se de mim. “Bem me parecia que conheci esta voz”, diz-me, no prazer do reencontro depois de muitos anos de desencontro.
Era PC, meu aluno de há vinte e tal anos, outros tantos de tempo sem nos vermos. “Que fazes?” E desfiou-me o rol dos seus projectos, que sempre fora um rapaz de aventura, dinâmico, imparável. Negócios, projectos empresariais, alguma sorte na vida, negócios de família. “Tenho um amigo suíço que desafiei para meu sócio. Quer saber a resposta?” Perante o meu ar de curioso, acabou a história: “Ó pá, entrar na constituição de uma empresa em Portugal? Então a gente nunca sabe o que vai ser isto!... Os impostos são uma coisa de manhã, outra à tarde e outra no dia seguinte… Quem se governa assim? Há empresa que se sustente?”
Ainda conversámos mais. Mas a tónica da conversa estava na contrariedade que se oferece aos projectos empresariais. “Sabe, professor? Dou um ano para isto… Caso não haja resultados, vou-me embora. Já estive de malas feitas para Moçambique e resisti, mas não sei por quanto tempo mais!...”

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Gabriel García de Oro: "Storytelling", o saber que as histórias desvendam


Terão as histórias efeito mágico? Poderão elas integrar uma rede responsável pelo reforço relacional, um poço de saberes úteis para a vida e para os sistemas a que pertencemos?
Lê-se Storytelling, de Gabriel García de Oro (Lisboa: Gestãoplus Edições, 2011), e regressa-se ao tempo em que as fábulas e as pequenas histórias povoavam o nosso imaginário. Com uma diferença: na infância pretendia-se criar um mundo mágico, universo infantil povoado por seres extraordinários, com algumas moralidades que eram entendidas de imediato mas cujo alcance ficava para um futuro; agora, as conclusões constituem o mais importante nicho que rodeia as histórias, anedotas umas, episódios verdadeiros ou verosímeis outros, narrativas da antiguidade e de livros sagrados ainda outras, quadros banais e quotidianos alguns. O subtítulo do livro, “A Magia das Palavras”, valoriza a força do verbo; o balão promocional que se lhe segue apresenta o género – “fábulas, anedotas e histórias dos melhores MBAs”.
São quase cinquenta histórias, que dão outros tantos capítulos, acompanhadas por comentários e moralidades, vocacionados para a orientação das relações no mundo do trabalho, da empresa, ou apenas para orientação na vida.
No final, um guia temático, metaforicamente chamado “Caixa de primeiros socorros da empresa”, serve como roteiro que alia cada uma das histórias a uma das áreas de intervenção abordadas – informação, segurança em si mesmo, preconceitos, ganhos, estratégia, sucesso, gestão de equipas, pensamento lateral / criatividade, gestão do tempo, gestão do poder, crises, atitude, planificação, males da empresa e negociação.
O livro é de leitura fácil, dada a curta extensão de cada capítulo e o facto de os comentários irem ao essencial. Torna-se eficaz e directo, surpreendendo o leitor pela pertinência das reflexões a partir de histórias por vezes banais ou que poderiam não ir além da anedota.
Um exemplo?
Quando ele e ela estavam a tomar banho, a campainha tocou. Acedendo ao pedido dele, foi ela quem se enrolou na toalha e se dirigiu à porta. Abriu, porque era pessoa conhecida, vizinho. Ao vê-la, disse-lhe que lhe daria mil euros se deixasse cair a toalha, oferta que fez a mulher pensar. A insistência foi até ao ponto de o vizinho exibir as duas notas de 500 euros. A tentação dominou-a e a toalha caiu. Ele contemplou a mulher, remirou-a, deu-lhe o valor prometido e despediu-se. Quando chegou à casa de banho, explicou ao marido quem tinha vindo bater à porta. “Ainda bem… Devolveu-te os mil euros que lhe emprestei?”, perguntou ele.
Todos somos levados a pensar, e com razão, que ela passou por uma situação ridícula. Mas só chegamos aí depois de conhecermos a pergunta final, isto é, apercebemo-nos do ridículo quando a mulher o sente também.
Que comentários suscita esta história ao autor? Todos vão no sentido da partilha da informação e da necessidade de se estar informado. E a conclusão de García de Oro é: “Partilhar e estar na posse de toda a informação necessária evita que nos exponhamos ao ridículo e que nos vejamos em situações de clara desvantagem.” Na tal caixa de primeiros socorros, esta história tem entrada em dois grupos – o da informação e o dos males da empresa.
A vantagem deste livro advém da força das curtas narrativas, que valem mais, muito mais, do que as largas considerações sobre as melhores formas de se agir.

sábado, 18 de abril de 2009

Ética e responsabilidade chamadas pelo Presidente da República

«A responsabilidade ética e social das empresas, dos empresários e dos gestores é uma questão que tem vindo a adquirir uma relevância crescente, devendo ser reconhecida e tratada como um dos elementos centrais de qualquer processo de desenvolvimento. (…)
É hoje seguro afirmar que, na génese da crise financeira e económica que o mundo enfrenta, muito pesaram a violação de normas éticas e a adopção de comportamentos de risco cujo impacto sobre o sistema financeiro e o bem-estar das populações não foi devidamente ponderado. (…)
Por detrás das estatísticas e dos gráficos que identificam a crise estão trabalhadores que perderam o emprego e investidores que perderam as poupanças de uma vida e cujos projectos e ambições foram destruídos num ápice.
Quando os benefícios são exclusivos de alguns mas a contrapartida é uma provável socialização das perdas, exige-se que sejam impostas condições muito rigorosas à tomada de riscos e que se adopte uma vigilância determinada sobre a gestão desses riscos – por parte dos reguladores, mas também por parte das próprias instituições financeiras.
Creio que faltou vontade política e económica para questionar o caminho que estava a ser seguido e que há muito suscitava reservas. É legítimo, por isso, dizer que a ausência de valores nos mercados, na política e nas instituições financeiras terá sido uma das razões de fundo explicativas desta crise. (…)
Seria um erro muito grave, verdadeiramente intolerável, que, na ânsia de obter estatísticas económicas mais favoráveis e ocultar a realidade, se optasse por estratégias de combate à crise que ajudassem a perpetuar os desequilíbrios sociais já existentes ou que hipotecassem as possibilidades de desenvolvimento futuro e os direitos das gerações mais jovens. Este é um risco efectivo. Muitos dos agentes que beneficiaram do status quo – e que tiveram um papel activo nesta crise financeira – continuam a ser capazes de condicionar as políticas públicas, quer pela sua dimensão económica quer pela sua proximidade ao poder político.Acresce que, num cenário de dificuldades, e sob a pressão da necessidade urgente de agir, as decisões nem sempre são ponderadas devidamente, acabando por abrir espaço para o desperdício de recursos públicos ou para a concentração desses recursos nas mãos de uns poucos, precisamente aqueles que detêm já maior influência junto dos decisores. (…)
Seria um erro, no entanto, pensar que a obrigação de acautelar os princípios de justiça, de equidade e de coesão recai apenas sobre os decisores políticos. É nas empresas e no diálogo entre elas e dentro delas que começa esta responsabilidade.Nos últimos anos, assistiu-se, em muitos países desenvolvidos, a uma crescente fragilização do tecido social, resultado de uma enorme complacência face às desigualdades de rendimentos e de direitos e aos ganhos desproporcionados auferidos por altos dirigentes de empresas.Este é um quadro insustentável e que urge alterar. Seria política e socialmente perigoso e eticamente condenável que a crise fosse aproveitada para acentuar esta fragilidade, repercutindo os custos da actual situação económica sobre os mais desprotegidos. Pelo contrário, este momento deve ser assumido como um ponto de viragem. Mudaram a percepção e o juízo que os cidadãos fazem daqueles que comandam a política, a economia e a finança. Sem uma liderança clara na projecção e defesa de um sistema de valores, muito dificilmente será recuperada a confiança necessária para vencer a crise.
É preciso ter coragem de, em vários domínios, começar de novo.É urgente que os decisores reajustem as prioridades e corrijam as injustiças e os erros que a crise desmascarou. Devem fazê-lo com sentido de humildade. É urgente colocar no topo da agenda, ao lado da liberdade, a responsabilidade, a solidariedade e a coesão sociais, e compreender a importância que a verdade, a transparência e os princípios éticos têm no bom funcionamento de uma economia e no desenvolvimento de uma sociedade.
Valores como o humanismo, a justiça, a generosidade e o espírito público fundaram o pensamento económico pioneiro de Adam Smith. Neste momento, é crucial que os empresários e gestores, primeiros beneficiários deste pensamento, não esqueçam a sua lição. (…)
Este é um período em que se pede ao Estado um maior activismo.No entanto, esta não é altura para intervencionismos populistas ou voluntarismos sem sentido. Os recursos do País são escassos e é muito o que há ainda por fazer. É preciso garantir o máximo de transparência na utilização dos dinheiros públicos. Desde logo, por uma questão de respeito para com os contribuintes.
Não podemos desperdiçar recursos em respostas que mais não fazem do que deixar tudo na mesma ou tornar ainda mais apertado o caminho do nosso desenvolvimento futuro. Pelo contrário, é crucial que a intervenção pública seja ponderada e rigorosa, visando claramente a resolução de problemas concretos e a preparação dos desafios futuros.Este é também um tempo em que às empresas portuguesas se exige rigor económico, visão estratégica e, igualmente, clarividência social.É importante que a responsabilidade das empresas não se esgote na sua área específica de negócio e inclua a promoção da justiça, da equidade e da valorização humana.Há que aproveitar as potencialidades do diálogo no interior da empresa, entre gestores e trabalhadores, no sentido de promover respostas articuladas à crise e de aproveitar ao máximo os recursos humanos disponíveis. (…)
O caminho passa por acudir àqueles que mais sofrem com a crise, mas também pela preparação do Portugal que queremos para o futuro.Há que actuar sobre os factores que são críticos para o nosso crescimento futuro e preparar o País para estar na primeira linha da recuperação da economia mundial. Isto exige políticas públicas adequadas, mas também uma atitude responsável e competente por parte das empresas. (…)
O pior que nos poderia acontecer era a crise acentuar a tendência, bem nociva para o País, de algumas empresas procurarem a protecção ou o favor do Estado para a realização dos seus negócios.Empresários e gestores submissos em relação ao poder político não são, geralmente, empresários e gestores com fibra competitiva e com espírito inovador. Preferem acantonar-se em áreas de negócio protegidas da concorrência, com resultado garantido.É crucial que os empresários e gestores percebam que a sua autonomia em relação ao poder político é, a médio prazo, decisiva para o seu sucesso e garantam que as suas empresas sejam inovadoras à escala global e não apenas aproveitadoras das oportunidades existentes no mercado português. (…)Não ignoro que Portugal pode vir a enfrentar um período de contracção ou estagnação económica e de aumento do desemprego mais prolongado do que muitos pensariam no início da crise. Esta é uma possibilidade para a qual devemos estar preparados e que exige uma atenção por parte dos empresários, gestores e responsáveis públicos que deve ir muito além do mero desempenho empresarial ou pessoal.Trata-se, sobretudo, de um desafio de natureza ética, agora com exigência acrescida.A responsabilidade social das empresas não pode ser um conceito vão ou uma estratégia de conveniência. É pela interiorização e aplicação desta ideia, de par com o reforço dos valores na vida pública, que passa a resposta aos desafios do presente e a construção do futuro de Portugal.»
Excertos do discurso do Presidente da República na Sessão de Abertura do 4º Congresso
da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), ontem