segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Visitar a Arrábida em 1903 (2)

 

            

A “Notícia Histórica” com que Sousa Gonçalves abre o livro Uma Excursão à Serra da Arrábida prossegue com o elogio a Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), figura indispensável neste trajecto, porquanto a montanha “está tão cheia de recordações do inspirado vate que é de justiça esboçar o seu perfil de asceta, cheio de talento”. Tendo a consciência da importância do frade arrábido, o texto é enriquecido com a transcrição de um artigo datado de 1872 assinado por Bulhão Pato (1828-1912), centrado nas vivências do místico franciscano na Arrábida e nas suas composições poéticas, figura aureolada de santidade — “Catorze anos durou o seu voluntário exílio. A serra, o mar, a lua, as estrelas e as carregadas nuvens, os relâmpagos e as tormentas, foram alternadamente testemunhas das suas dores, das suas santas alegrias, dos seus desalentos e dos seus êxtases místicos! A morte recebeu-o nos braços meiga, risonha e solícita, como um anjo de redenção. O povo, numa piedosa lenda, contava que, ao tirarem o retrato, depois de morto, sorrira alegremente o bem-aventurado monge, concluindo, deste suposto facto, que não era só um bom padre o eremita da serra, mas um inspirado e um santo.” Para Sousa Gonçalves, imperativo se torna visitar a cela que o frade habitou, conforme explica numa rápida justificação em que não estão alheias as suas próprias descobertas e emoções — “O excursionista da Academia de Estudos Livres que chegar até estas paragens por certo relembrará a vida do grande poeta, tão cheio da delicadeza do verdadeiro artista como despido de todos os preconceitos que a vaidade humana acaricia! Um instante de recolhimento, dedicado à memória do asceta retemperará o nosso espírito fortalecendo-o para as lutas da vida. É sempre consoladora a contemplação duma vida pura e desinteressada.”

Sugere depois a “Notícia Histórica” uma visita à Lapa de Santa Margarida, “uma das maiores curiosidades” da Arrábida, com as suas duas entradas (pelo lado da serra e pelo lado do mar), à época, ponto de devoção dos pescadores do Cabo, espaço que alojaria meio milhar de pessoas. Também neste ponto a emoção do narrador se evidencia: “Na hora do maior calor goza-se ali uma frescura deliciosa, ouvindo-se apenas o quebrar monótono das ondas, que, através da boca voltada para o oceano, vêm espraiar-se quase até ao pé do altar. Sentimos então um bem-estar indefinível, acodem-nos ao espírito lembranças acariciadoras da vida passada. É a natureza na manifestação pacífica da sua força, como a incutir-nos pensamentos de paz e amor. Estamos bem longe, então, dos desenganos da vida, embalados pela música das ondas, que maestro algum ainda soube fixar em página genial.” Neste divagar, há ainda espaço para uma nota de cunho científico, ao dar ao leitor “uma ligeira ideia do que são e como se formam essas singulares incrustações calcárias” que são as estalactites e as estalagmites presentes na gruta, umas e outras “produzindo efeitos tão surpreendentes como característicos”.

O final do texto de Sousa Gonçalves para este roteiro de 1903 enuncia os objectivos da apresentação: “despertar o gosto pelas excursões na famosa serra”. Referindo que os muito populares guias Baedeker (existentes desde final da década de 1820) não devem ser “servilmente” seguidos por quem os consulte e goste de “percorrer caminhos novos”, conclui com dois desafios: o primeiro, exigindo a colaboração do leitor excursionista ao dar-lhe “a liberdade de seguir o itinerário que bem lhe aprouver” e incumbindo-o de preencher “as lacunas do presente artigo”; o segundo, apelando ao equilíbrio que o ser humano deve fomentar na sua relação com a Natureza, num repto que, no essencial, faz ainda sentido no tempo em que vivemos, tanto mais surpreendente quanto tem já mais de 120 anos de idade: “Por último, seja-nos permitido desejar que, se alguma vez o progresso invadir a serra da Arrábida, venha pela mão da verdadeira e pura arte. Respeitem-se as ruínas do passado como documentos de sinceridade e respeitem-se não lhes levantando a par, por exemplo, esses horrendos ‘chalets’ de cartão com que qualquer burguês da Baixa se presenteia para gozar os ócios e para digerir a farta pitança. Mandem-nos, a uns e a outros, para os famosos Estoris, que aí é o seu lugar. A serra da Arrábida é uma flor agreste de rara beleza. Se lhe mexem muito, estragam-na.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1685, 2026-01-28, pg. 10.


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Visitar a Arrábida em 1903 (1)

 


Intitula-se Uma Excursão à Serra da Arrábida o opúsculo editado em Lisboa pela Academia de Estudos Livres em 1903, conjunto de três textos assinados por outros tantos autores: J. Cardoso de Sousa Gonçalves (1864-1946), responsável pelo primeiro capítulo, “Notícia histórica”; Francisco Luís Pereira de Sousa (1870-1931), que apresenta uma “Ideia muito geral da Geologia da Serra da Arrábida”; Guilherme A. Vidal Júnior, que estabelece o “Roteiro de Lisboa a Setúbal”.

Fundada em 1889, através da loja maçónica “Simpatia e União”, a Academia de Estudos Livres propunha-se desenvolver entre os seus membros “o gosto pelo estudo e pela ciência”, organizando conferências e visitas de estudo em prol da divulgação cultural e publicando os textos de algumas sessões e os roteiros de algumas visitas, de que são exemplos títulos como O Castelo de Palmela - Breve Notícia Histórica (1903) ou Joaquim Silvestre Serrão e a Música Religiosa (1906), para mencionar apenas os que cobrem esta região.

Dos três textos que integram Uma Excursão à Serra da Arrábida, o mais extenso é o primeiro, que apresenta a serra, sobretudo na sua dimensão cultural, e motiva o leitor para fazer a visita, aliciando-o com a paisagem e com as histórias ligadas à Arrábida. Rapidamente procede à localização do promontório e menciona as espécies florestais que o povoam (alfarrobeira, sobreiro, azinheiro e medronheiro), deixando de lado a explicação do nome “Arrábida” com uma desculpa de quem não se quer meter em discussões alegadamente pouco proveitosas — “sobre a etimologia da palavra ‘Arrábida’, perdem-se os autores em conjecturas diversíssimas, cada uma obedecendo, mais ou menos, à fantasia. Ocioso nos parece, portanto, perder tempo em divagações sobre o assunto.” Assim resolvida a questão, é o tempo descritivo aproveitado para motivar o visitante através da paisagem, em dois parágrafos de observador rendido — “O panorama que se avista de vários pontos da serra é incomparável de beleza e pitoresco e só ele vale a canseira da ascensão e os incómodos da viagem. Poucas vezes a Natureza foi tão pródiga de perspectivas encantadoras como neste recanto da nossa terra, tão esquecido dos viageiros e abandonado dos conchegos da civilização.”

Depois deste olhar geral, segue-se a contemplação sobre mais específicos recantos: “Para qualquer lado que nos debrucemos do cume da serra, o espectáculo é fantástico, soberbo. Para o norte, são os frescos vergéis da formosa Azeitão, a fidalga Sintra do sul, os pitorescos grupos de aldeias, fechadas no cinto do copado arvoredo, o Tejo, faiscante de luz; ao longe, e ao fundo, a casaria de Lisboa, tão grandiosa, estendida preguiçosamente pelas suas sete colinas; para o sul e sudoeste, o vasto estuário do Sado, as ruínas de Tróia, as planícies do Alentejo, a vastidão do oceano, épico campo de luta da nacionalidade portuguesa. Dêem agora a estes vários quadros, cheios de brilho, a cor, a vida, a animação duma natureza em festa, emprestem-lhes os mil cambiantes de pintor de génio, e terão o motivo porque nos sentimos subjugados, porque nunca esquecemos a impressão recebida nos píncaros da serra, quando da primeira vez lá subimos...” A extensão da referência é considerável, mas vale por este olhar em círculo, ora para perto, ora para a distância, tanto para o pormenor como para o conjunto, numa tentativa de compor uma tela pela utilização da palavra, num desenho que vale como convite ou como desafio experimentado, haja em vista a marca pessoal que ficou no autor quando subiu a serra pela primeira vez.

Segue a apresentação da Arrábida pela narrativa do episódio do mercador Hildebrando, que, no século XIII, salvo da iminência de um naufrágio ao largo da Arrábida, vai originar o culto de Nossa Senhora da Arrábida a partir da chamada Ermida da Memória, virando a serra marco de religiosidade que Sousa Gonçalves acha que se fortificou no século XVI, quando o primeiro Duque de Aveiro, D. João de Lencastre (1501-1571), a abriu ao andaluz Frei Martinho de Santa Maria, que ali chegou com diversos companheiros, originando a fundação do Convento (1542). Passadas estas histórias, misturando-se a primeira com a lenda, ao leitor (ou visitante) é dada a conhecer a escultura em mármore “que se encontra encostada à frontaria do mosteiro”, ali mandada erigir em 1622 pelo terceiro Duque de Aveiro, D. Álvaro de Lencastre (1540-1626) — e não em 1662 pelo quarto Duque, como Sousa Gonçalves refere —, representando Frei Martinho “preso à cruz da mortificação. Os olhos estão fechados para a vaidade do mundo, a boca cerrada por cadeado, mostrando quanto era avaro de palavras, o peito com uma fechadura para que nele não entrem pensamentos terrenos. Numa das mãos sustenta uma tocha, a fé alumiando as consciências; na outra, as disciplinas com que se flagela.” Toda a simbologia remete para a austeridade e rigor que a comunidade arrábida punha no seu quotidiano, considerando o autor que ela “se tornou notável pelo rigor das privações que se impôs.” 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1680, 2026-01-21, pg. 10.


sábado, 17 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (6)

 


Entre os leitores que escreveram a Sebastião da Gama a propósito do seu primeiro livro, Serra-Mãe, contam-se também os testemunhos de Hernâni Cidade (1887-1975), António Botto (1897-1959) e Bertil Maler (1910-1980). Em carta datada da “Ante-véspera de Natal de 1945”, Cidade (que também foi professor do jovem poeta) reagia, logo após a leitura do livro: “Agradeço-lhe a hora gratíssima que me deu à alma. À alma, muito mais do que aos sentidos, que a sua Poesia é toda tocada de transcendente e, em si, o folhado, como a maresia, como tudo com que encanta os sentidos a sua Mãe-Serra, tudo acorda ressonâncias fundas de alma eleita, da linhagem de Frei Agostinho, tão famintas de Infinito que só pairando sabem cantar, como as cotovias.” Uns dias depois, em 5 de Janeiro, era o poeta António Botto que enviava curta mensagem, a exigir mais do escritor que se iniciara: “Este seu pequeno volume de versos podia ser, se você quisesse, uma verdadeira grinalda de Poeta! Há umas notas muito bonitas, mas um propósito tão acentuado de brincadeira ou ironia, que parece uma rapaziada à margem dessa divina arte maravilhosa!...” Também o hispanista sueco Maler (que publicou estudos sobre literatura portuguesa), em 21 de Agosto de 1946, cerca de um mês depois de regressar de Lisboa a Estocolmo, enviava missiva para Sebastião da Gama, dizendo-lhe que lera o seu livro durante o período de descanso da viagem, fora da capital — “Li e reli os seus belos poemas. Não se devem ler no barulho das capitais, é a solidão da serra - que muito se parece ao campo sueco - que lhes convém.” E acrescentava: “A leitura do seu livro deu-me um verdadeiro prazer. Não só um prazer estético causado pela beleza da forma e do ritmo, mas ainda um prazer emocional. (...) A simplicidade sublime - algumas linhas até me deixaram uma impressão como se estivesse a ler os salmistas -, o sentimento da Natureza, a profunda religiosidade, eis o que retenho dos seus poemas.” 

Além das opiniões chegadas via epistolar, a imprensa foi um meio importante para a divulgação de Serra-Mãe, quase desde o momento em que apareceu — saído o livro em 18 de Dezembro de 1945, a recepção crítica manteve-se a um ritmo constante até Outubro do ano seguinte. Logo dois dias depois do seu aparecimento, Álvaro Salema (1914-1991), no Jornal do Comércio, na rubrica “Horizonte”, dizia da obra que vinha “revelar ao nosso estreito meio literário uma personalidade vigorosa de lírico e de místico, arrebatado em visões interiores e em ansiedades que constituem riqueza profunda de uma alma”, apresentando como sendo “um notável poeta este moço de alma perturbada, talento literário de forte inspiração, inquieto pesquisador de imagens.” Salema voltaria a escrever sobre o livro na Vida Mundial Ilustrada, em 10 de Janeiro seguinte, afirmando que “Sebastião da Gama é, inegavelmente, um artista de grandes possibilidades”, embora “o esplêndido ritmo de que se mostra capaz” se quebre “inutilmente, muitas vezes, por exageros de modernidade formal que pouco significam”.

O mês de Dezembro de 1945 viu mais duas notas de leitura a propósito de Serra-Mãe — sob o título “Carta ao Poeta Sebastião da Gama”, Luís Filipe Lindley Cintra escrevia no Diário Popular (26 de Dezembro): “Tu sabes que discordei do título do teu livro. Hoje arrependo-me. Fizeste bem em conservá-lo. Era preciso que todos soubessem que o Poeta em ti nasceu da Arrábida, dessa Arrábida de que tu fazes parte, que eu não posso conceber sem ti. (…) A Serra existe para ti como tu existes para a Serra. Tinha de ser assim.”; e, quase a terminar o ano, em 29 de Dezembro, José Noronha Gamito (1922-2011) apreciava no periódico setubalense A Indústria: “Em Sebastião da Gama, quando o tom descritivo aparece não é já aquele descritivo com fulcro no exterior, aquela conformidade primária com a perspectiva que obriga à narração daquilo que está patente aos olhos do corpo, mas antes o especial descritivo interior, que se desenvolve inteiramente sobre aquela outra paisagem íntima, subjectiva, complexo pessoal de imagens, sentimentos e ideias. (…) Sebastião da Gama descreve-nos a Arrábida espiritual, subjectiva, gigantesca e especial na intimidade de cada homem que sabe pensar o que vê.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1675, 2026-01-14, pg. 10.

Foto: Sebastião da Gama contemplando a Arrábida, 1943 (Arquivo Associação Cultural Sebastião da Gama)


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (5)

 


Quando Serra-Mãe saiu, Sebastião da Gama empenhou-se na sua divulgação, quer nas ofertas aos amigos e aos mais próximos, quer no envio para quem pudesse ser o seu leitor crítico. Uma das primeiras dedicatórias (talvez a primeira) terá sido para Joana Luísa da Gama, quando, tendo como data o Natal de 1945, o poeta autografou: “Para Ti, Amor, porque sabes ler os meus versos com uma voz que já se não distingue da minha.” Outras dedicatórias autógrafas existem, mas não datadas, ainda que se pense que serão do tempo entre a saída do livro e o ano seguinte — Mário Beirão (1890-1965) recebeu exemplar dedicado com traços da serra (“Para Mário Beirão, alma inquieta provida de clarões, a quem, na Arrábida, desceu a sombra de Agostinho a dar as boas-vindas”); no exemplar que seguiu para Miguel Torga (1907-1995), era manifestada a admiração pela obra já publicada do escritor e médico (“Ao Poeta admirável das Odes e de tudo o mais que me faz ser seu”); Luís Amaro (1923-2018), o amigo que conhecera no espaço da editora, teve o valor da amizade a iluminar a dedicatória (“Para o Luís Amaro: Nada mais me trouxera a Serra-Mãe do que a tua amizade e já tinha valido a pena”).

No mesmo dia 18 de Dezembro de 1945 (data em que o livro apareceu na montra da livraria, em Lisboa), Sebastião da Gama fez seguir um exemplar para José Régio (1901-1969), mas não terá havido resposta imediata, pelo que, em 7 de Fevereiro de 1946, o poeta azeitonense escrevia de novo para Portalegre: “É tão grande o interesse em que leia os meus versos e me diga, sem receio de melindrar-me se lhe não agradarem, o que pensa deles que me atrevi a vir pedir-lhe isso mesmo, contando com a sua benevolência.” Três meses depois, em 25 de Maio, era Teixeira de Pascoaes (1877-1952) o destinatário de uma carta em que o jovem poeta se apresentava: “Deixe-me dizer-lhe quem sou, para me perdoar um pouco a sem-cerimónia que tomei: sou um rapazola de vinte e dois anos que aprendeu a ser Poeta na Serra da Arrábida. Ali fui medrando entre moitas de alecrim e rochas penduradas sobre o Mar – e no Dezembro passado dei ao público o meu primeiro livro – Serra-Mãe. (...) Agora gostaria que lesse os meus versos com um bocadinho de carinho. E, se eles o merecessem, que me mandasse algumas palavras, que hão-de ser sinceras como as árvores, sobre o que sente da Serra-Mãe.”

Em data que não se consegue precisar, Régio respondeu, em jeito de explicação e de apreciação: “Devo dizer que terá tido influência em tal demora a perplexidade que me tolhe ao ter de pronunciar qualquer juízo sobre uma obra como a sua. Claro que esse juízo pode enganar-se ou errar — mas nunca deixar de ser sincero. Perante o meu Amigo, perante as gentilezas que me tem dirigido, e sobretudo pela influência que sinto das minhas coisas literárias no seu livro, a minha situação é ainda mais delicada. Creio que o seu livro é uma obra de hesitação e promessa, na qual o talento literário se torna incontestavelmente visível, como visíveis se tornam as influências várias. (…) É um livro que já promete muito e nos deixa à espera.” De Coimbra, Miguel Torga responderia, em 18 de Maio de 1946: “Nem posso medir o feito nem adivinhar o que está por fazer, louvo o que entendo e espero o porvir de boa-fé. Ora é isso o que me acontece agora com o seu livro. Não gosto de muita coisa que lá vem, e tenho dificuldade em vislumbrar os seus caminhos futuros. Mas estou em presença de um Poeta que escreveu: ‘Pequeno Poema’, ‘Nós’, etc. Resta-me, pois, festejar o que me parece conseguido, que é muito, e dar tempo ao tempo.”

De Amarante, Pascoaes não terá enviado resposta, mesmo apesar de nova insistência saída do Portinho da Arrábida em 6 de Agosto de 1946 — “Há talvez três meses mandei-lhe uma carta e o meu livro Serra-Mãe; sei que não é o senhor desses poetas que se calafetam dentro das suas torres de louros e não abrem a mínima frincha para falarem por ela a um camarada mais novo: por isso mesmo, lhe mandei o livro; e por isso mesmo tenho estranhado o seu silêncio. (...) Gostaria de saber qual o eco, se o tiveram, que os meus versos tiveram nuns e noutros.” Mesmo com esta persistência, parece não ter havido reacção de Pascoaes, uma opinião tanto mais importante para Sebastião da Gama quanto o poeta do Marão tinha já escrito sobre a Arrábida e sobre Frei Agostinho da Cruz. Aquando da sua viagem ao Norte, em meados de Setembro de 1951, acompanhado por Joana Luísa (sua esposa desde Maio desse ano), Sebastião da Gama marcou encontro com Pascoaes, relatado em crónica que publicou no Jornal do Barreiro, em 11 de Outubro de 1951 — da leitura de tal texto se conclui, como apontou António Mateus Vilhena (em ensaio sobre a correspondência de Gama para Pascoaes publicado em 2019), que “um dos assuntos que polarizou o diálogo (...) foi seguramente a Arrábida”. E, de toda a conversa, uma frase de Pascoaes impressionou o visitante: “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.” Não contendo estas afirmações uma apreciação ao livro inaugural do jovem, reforçam, pelo menos, o sentido de oportunidade da obra Serra-Mãe como um momento importante para o canto e para o louvor da Arrábida, pelo que terá sido, talvez, a melhor apreciação que Pascoaes poderia ter feito à obra...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1670, 2026-01-07, pg. 9.


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (4)

 


Por meados de Setembro de 1945, Sebastião da Gama era apresentado ao crítico João Gaspar Simões (1903-1987), a quem foi entregue o esboço de Serra-Mãe para apreciação, conforme o poeta relatava à amiga Matilde Rosa Araújo, em carta de 20 desse mês: “Fui ontem apresentado ao Gaspar Simões. Simpático, gordo, baixo. Cabelos à Bocage. O Pedro de Andrade quis que ele lesse o livro. A edição é caríssima e quer ter quem o anime a arriscar. Espero que Sua Excelência não torça o nariz.”

Não conhecemos a opinião de Simões sobre o que poderia ser a estreia de Gama; mas podemos imaginá-la se lermos o que, em 1951, o mesmo Gaspar Simões escreveu sobre a publicação do terceiro livro de Sebastião, não apresentando opinião muito favorável sobre a anterior obra do poeta de Azeitão: “o autor de Campo Aberto, que, antes de escrever e publicar os versos deste livro escrevera e publicara versos muito diferentes, (...) procurando ser inspiradamente moderno, confundia a inspiração com a retórica, a ênfase com a adivinhação e o galimatias com a analogia” (crónica reproduzida em Crítica - II, 1962). Se não conhecemos em absoluto a opinião emitida pelo crítico em 1945, o que sabemos é que, datada de 24 de Outubro desse ano, a resposta de Pedro de Andrade (já referida na anterior crónica), co-proprietário da Portugália, excluiu o livro Serra-Mãe do plano editorial da casa editora. No entanto, o sonho da publicação persistiu e, se a decisão tomada pela administração da Portugália abalou Sebastião da Gama, a vontade de publicar ultrapassou o esmorecimento e o cuidado na organização e no conteúdo do livro ocuparam bastante do tempo do poeta.

Em 25 de Julho de 1945, anunciara a estrutura do livro a Matilde Rosa Araújo: “PRESENÇA - Os de tom místico (‘Presença’, ‘Remoinho’, ‘Eternidade’, ‘Rebentação’, etc.). Abrirá por ‘Vibração’ e terá no fim ‘Cortina’. SERRA-MÃE - ‘Harpa’, ‘vida’, etc. - Os em que falo da Serra. Porei talvez ‘Céu’ e ‘Versos ao Mar’. Achas que sim? POEMAS DE AMOR - ‘Pequeno Amor’ (em 1º lugar), ‘A meus Irmãos’, do meu Amor, ‘Para que tu não chores’, ‘Crepuscular’. JESUS - ‘Ressurreição’, ‘Oração de todas as horas’, etc. APONTAMENTOS - ‘Versos da Menina Morta’ (1º), ‘Pasmo’, ‘Apontamento’, ‘Tradição’, ‘Paisagem’, etc. ÚLTIMO LIVRO - A começar, a ‘Elegia desta manhã’. Depois ‘Canção’, ‘Poesia’, ‘Excesso’, ‘Quem me quiser amar’, ‘As rosas’, etc. E quero fechar o livro com ‘Alegria’ e ‘Claridade’. Como se tivesse atingido aquele estado que procuro com a minha poesia.” A amiga responder-lhe-ia em 2 de Agosto, a partir de Peso (Melgaço), em tom fortemente exclamativo: “Viva o Poeta, o grande Poeta 1945! Serra-Mãe é um bocado de sonho, de altura, que vai enluarar os escaparates de Portugal neste inverno próximo futuro!”

A estrutura seguida na obra não foi aquela que o poeta anunciara à amiga, tendo a opção ficado decidida com a ordem “Serra-Mãe, Apontamentos, Jesus, Presença, Poemas de Amor e Último Livro”. O grupo “Presença” abre com o poema “Presença” e conclui com o poema “Cortina”; o poema “Vibração”, que só tem esse título nos manuscritos, foi escolhido para iniciar o volume, ficando conhecido pelo seu primeiro verso - “A corda tensa que eu sou”. No grupo “Poemas de Amor”, constam todos os poemas indicados, embora “Pequeno Amor” tenha tido o título alterado para “Pequeno Poema”. No grupo “Apontamentos”, não constaram os poemas “Tradição” nem “Paisagem” — “Tradição”, datado de Novembro de 1942, só foi divulgado postumamente em obras como O Desafio da Arrábida, organizada por Eduardo Carqueijeiro (edição do Parque Natural da Arrábida / Instituto de Conservação da Natureza, 1996, em artigo assinado por Joana Luísa da Gama), no jornal informativo Cidadãos pela Arrábida (Agosto.2000) e na antologia A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, organizada por António Mateus Vilhena e Daniel Pires (Centro de Estudos Bocageanos, 2002); “Paisagem”, datado de 13 de Junho de 1944, também não entrou neste volume, só tendo sido divulgado aquando da publicação da poesia reunida de Sebastião da Gama no volume O Inquieto Verbo do Mar (Assírio & Alvim, 2024). No grupo “Último livro”, a alteração resultou de o poema “Excesso” ter passado para o conjunto “Poemas de Amor”.

Lembra Joana Luísa da Gama, no livro Estala de saudade o coração (2013), que, “durante o ano de 1945 é normal encontrar nas cartas o assunto Serra-Mãe. Ou é mais um poema que nasce, ou mais um conselho de um amigo. É o nervosismo de procurar editor”, depois de a publicação ter sido recusada pela Ática e pela Portugália, situação ultrapassada porque os pais lhe disponibilizaram os 4800$00 necessários para uma edição de mil exemplares. E continua Joana Luísa: “as cartas que se seguem são de loucura: as idas à tipografia a acompanhar a impressão das folhas do seu livro, a revisão de provas porque não tinha dinheiro para pagar a um revisor, etc.”

Finalmente, Serra-Mãe, chancelado pela Portugália Editora, apareceria na montra em 18 de Dezembro de 1945, dedicado “à memória de meu tio, Alexandre Cardoso”, tendo na capa uma vinheta concebida pelo artista Lino António (1898-1974), constituído por 62 poemas compostos em 1943 (4), 1944 (39) e 1945 (19), datando o mais antigo de 15 de Agosto de 1943 (“Céu”) e o mais recente de 21 de Agosto de 1945 (“A um crucifixo”). 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1665, 2025-12-17, pg. 14.


domingo, 14 de dezembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (3)

 


Ao mesmo tempo que Sebastião da Gama partilhava a sua descoberta da Arrábida e a sua construção da “serra-mãe” com quem lhe era próximo, corria na sua imaginação o título do que viria a ser o seu primeiro livro — é de 1943 um caderno manuscrito, em cuja capa escreveu Serra-Mãi - Versos de Sebastião da Gama, datando a sua conclusão de 18 de Outubro desse ano. Constituído por 34 poemas, escritos entre 1942 e 1943, este conjunto viria a ficar de parte, pois nenhum deles integrou o livro Serra-Mãe publicado em 1945 — sete destes poemas viriam a ser publicados pelo autor na imprensa periódica (recurso que usou intensamente), em títulos como TurismoGazeta do SulJornal de Sintra e O Castelovidense; um integrou a obra póstuma Itinerário Paralelo (1967) e outro foi inserido no volume Cartas - I, que Joana Luísa da Gama organizou e publicou em 1994; os restantes só foram publicados no volume de poesia reunida O Inquieto Verbo do Mar, em 2024, ano do centenário do nascimento do poeta.

Existe um segundo conjunto de poemas sob o título Serra-Mãe integrando um dossiê de dactiloscritos, em cuja capa está registado Sebastião da Gama - Serra-Mãi - Cópia dos originais feita por Elisabeth Lindley Cintra (1942-1944). Sabendo-se da boa relação entre Sebastião da Gama e os irmãos Lindley Cintra — Luís Filipe (1925-1991), Elisabeth (1926-2019) e Graziela (1932-2006) —, não admira esta partilha de poemas, conferindo-lhes mesmo o estatuto de primeiros leitores. Este segundo conjunto não repete poemas do anterior, sendo constituído por 68 poemas, dos quais 37 vieram a integrar o livro Serra-Mãe (1945), 29 foram incluídos na obra póstuma Itinerário Paralelo (1967) e 2 ficaram inéditos.

Se pensarmos que Serra-Mãe é construído sobre 62 poemas, podemos considerar o trabalho de selecção e de organização que Sebastião da Gama exerceu na construção do seu primeiro livro, uma tarefa que ele próprio reconheceu e assumiu em diversas ocasiões, como ficou registado numa carta que dirigiu a Joana Luísa, em Setembro de 1944, ao dizer “Quando olho para a Serra-Mãe, vejo 75% do que lá está coisa reles; e até me dá vontade de a queimar. Preciso de chicotadas; de alguém, de um público”, ou, como confessou a Taborda de Vasconcelos, em carta de Dezembro de 1946, um ano depois de o livro ter sido publicado, quando este lhe pediu colaboração poética para o jornal Correio do Minho: “Não gosto de publicar demais. A não ser que escolha entre os 120 poemas que rejeitei para a elaboração da Serra-Mãi dois ou três menos detestáveis. Desde que levem a data, não me importo de publicá-los.”

Foi neste contexto de preparação do livro e de criteriosa escolha que Sebastião da Gama deu os seus originais a ler a vários amigos, depois de os ter partilhado com Joana Luísa — além de Luís Filipe Lindley Cintra, Matilde Rosa Araújo foi outra confidente da construção do livro, como podemos ler na carta que do Portinho da Arrábida lhe foi dirigida, em 25 de Julho de 1945, referindo-se à edição: “Falei já com o Cintra sobre a coisa e em Agosto vou ver o que poderei fazer: não sei ainda se o livro estará maduro; e vai custar-me a arrumação dos poemas. Manda-me dizer o teu conselho sempre bem-vindo.” O entusiasmo era crescente, pois havia já mesmo a promessa de uma editora — nessa mesma carta para Matilde Rosa Araújo, mas com a data de 23 de Julho, Sebastião da Gama explicava: “Ora escuta: ‘Portugália Editora’ prometeu-me publicar o meu livro. Estão aqui o Pedro de Andrade e a mulher, que são as pessoas mais amáveis deste mundo.”

A promessa parecia ser consistente, já que vinha de Pedro de Andrade, sócio e gerente da Portugália Editora, naquela altura em visita à Estalagem pertença dos pais de Sebastião da Gama, no Portinho. Do dia seguinte, 26 de Julho, é um curtíssimo poema intitulado “Instante”, mais parecendo um desabafo para uma página de diário: “’Mãe! / vou publicar o meu primeiro livro...’ // (A minha Mãe não chorou, / nem eu chorei, também.)”

O entusiasmo da promessa do editor esfriou dois meses depois, quando o poeta azeitonense recebeu uma carta de Pedro de Andrade, datada de 24 de Outubro, a contrariar a promessa feita: “Recebi o orçamento para o seu livro, que aqui junto. Depois de falar com os meus sócios sobre a possibilidade da edição, comunico-lhe com desgosto que, neste momento, à Portugália não interessam as publicações que não estejam integradas no nosso Plano. Temos o encargo de cerca de uma centena de originais por imprimir, e que já pagámos aos autores e tradutores, não sabendo ainda como lhes poderemos dar vazão. Como vê, o meu Amigo veio numa oportunidade de muitos trabalhos, que nem nos permite o prazer de lançar um jovem poeta e amigo, que nos merece toda a simpatia e apreço.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1660, 2025-12-10, pg. 10.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (2)

 


A Arrábida representou para Sebastião da Gama o espaço de eleição e de descoberta, o tempo do encontro consigo e com o mundo, a motivação para a sentir poético. Data de 6 de Novembro de 1943 uma carta em que ele confidenciava a Joana Luísa: “No desenrolar da minha Poesia, cheguei à conclusão de que a missão do Poeta é, não só explicar aos outros a Grandeza da Criação Divina, mas tentar o aperfeiçoamento do Homem.” Os amigos que o acompanharam não esqueceram nunca essa busca que animava o jovem azeitonense — em 24 de Fevereiro de 1962, num texto sobre o amigo, Maria de Lourdes Belchior escrevia no Diário de Lisboa que “a sua vida recôndita, a que trazia nas entranhas da alma, enriqueceu-se e configurou-se nos contactos com a Serra-Mãe, nos longos silêncios de vagabundagem pelos caminhos da Arrábida” e, trinta anos depois, em Evocação de Sebastião da Gama (1993), David Mourão-Ferreira testemunhava que “na memória de alguns de nós, ei-lo ainda (...) aguardando-nos, à chegada da trôpega camioneta que nos tinha levado até Vila Nogueira de Azeitão, para logo a seguir nos arrastar a pé, serra acima, serra abaixo, por veredas de que só ele detinha o segredo, a fim de melhor nos fazer ver ou rever todos os recantos, todos os encantos da sua Arrábida.”

Esta ligação do poeta azeitonense à Serra, de que os amigos foram dando testemunho, exprimiu-a ele em muitas e variadas ocasiões. Em primeiro lugar, com Joana Luísa, a namorada, a quem dizia, em carta do início de Agosto de 1944: “A Arrábida ocupa, como sabes, um dos bocados deste meu coração enorme e bem repartido: dizia eu há dias a um amigo, em carta, que ela é para mim como que uma mulher; que é para mim uma presença humana; e tenho saudades dela, se longe, como de uma namorada.” No final do mês, em 29, reafirmava-lhe, em jeito de declaração de amor, em curta frase, plena de emoção: “Tu e a Serra, as minhas duas noivas.” E, no final desse ano, em Dezembro, relatava-lhe um passeio dado na praia do Portinho: “Fui quase até ao fim da praia. E a Serra era uma coisa que não podia dizer-se. Parecia coberta pela cinza, que o Sol aloirava, de um veludo azul. Projecção de mim, a Serra, naquela hora calma e feliz!... E com os olhos nela, cantei a ‘vida’, numa toada que inventei. Eu hoje, se tivesse um piano, tinha composto mais que qualquer Beethoven. Parece que só a música seria hoje expressão conveniente de mim.”

A consolidação desta construção poética em torno da Serra aconteceu sobretudo ao longo do ano de 1945 — foi em Junho que, em nova carta para a namorada descreveu o ambiente matinal que vivia na Arrábida: “A manhã está como um verso. Parece que, sempre que vou sair, a minha Serra — a minha Amante, e minha Mãe, e minha Irmã, e minha Senhora, se veste do mais bonito, arrulha mais com a boca do Vento e com a boca do Mar, para me deter ou para começarem ainda nela as minhas saudades.” E, no mês seguinte, em 23 de Julho, nova carta saía do Portinho, dirigida a Matilde Rosa Araújo (1921-2010), a contar o diálogo com a Serra: “Espero, no entanto, que este Luar magnífico (que eu te não conto por compaixão) me faça bem. Dá-me cabo dos nervos estar para aqui mudo, quando todas as coisas falam pelos cotovelos aqui na Serra.”

O ano de 1945 traria, contudo, uma contrariedade à vida da Arrábida: em Agosto, um incêndio castigou o Monte Abraão e parte da serra próximo do Convento. O poeta azeitonense sentiu a dor com muita violência, como se fica a saber pela carta que, em 26 de Agosto, dirigiu à amiga Maria de Jesus Barroso (1925-2015): “Estou-te escrevendo, com a alma cortada... Deves ter sabido do incêndio que anda a chagar a minha Serra — a minha outra Mãe. Cada queimadura ressente-se em mim. Se eu tivesse a lágrima pronta a todas as chamadas, ontem teria chorado (...). Agora tenho os braços arranhados, a roupa cheira a carvão, porque em vez de chorar peguei numa pá e durante duas horas e meia fui bombeiro. Espero que a Vida tenha dó da Serra e de mim — e faça rebentar de novo as matas. Mas até lá, estou como à cabeceira de um doente muito querido.”

O louvor poético da Arrábida, naquela que foi a primeira obra de Sebastião da Gama, estava para breve, uma forma de declarar tudo o que com a Serra aprendera, tudo o que com ela descobrira.

Foto: "Serra-Mãe" - pintura do grupo Synapsis, em Abril de 2016

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1656, 2025-12-03, pg. 10.


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (1)

 


Em 11 de Dezembro de 1945, uma terça-feira, Sebastião da Gama (1924-1952) escrevia uma carta para a namorada, Joana Luísa (1923-2014), comunicando-lhe a saída do seu primeiro livro, notícia não desprovida de entusiasmo: “Hoje devem dar-me a gravura e amanhã começam a fazer a capa. Só sexta ou sábado teremos o nosso livro. Meu Amor!...” Feitas as contas, o livro estaria pronto a 14 ou a 15 desse mês, ali bem próximo do Natal. Não sabemos exactamente se o livro ficou pronto num desses dois dias; mas, numa carta de 18 de Março de 1946, Sebastião da Gama lembrava à namorada: “Faz hoje três meses que a Serra-Mãe saiu a lume. Estou a lembrar-me da minha comoção quando eram já onze horas da noite, e a vi na montra da Portugália, 18 de Dezembro — havemos (sim, Amor?) de ensinar esta data aos nossos filhos.”

Desde essa data, o livro Serra-Mãe tem feito um percurso em louvor da Arrábida e o seu título tem servido outras artes — a Serra, pela força transmitida pela paisagem, é constantemente motivo artístico, na fotografia, na pintura (no início da década de 1940, Hélène Beauvoir registou o Portinho na tela, imagem muito divulgada nas publicações de carácter turístico da época; hoje, pintores como Rogério Chora ou Nuno David, entre outros, cultivam a Serra como tema), na música (lembremos a composição Caminhos da Arrábida, de Rui Serodio, de 2001, ou a de Agostinho Caineta, que tomou o epíteto de Sebastião da Gama para título de uma composição que a Banda Filarmónica Perpétua Azeitonense gravou em 2000) ou na escrita (são inúmeros os poetas que têm dedicado as suas métricas à Arrábida, como ainda recentemente aconteceu com Alexandrina Pereira, ao publicar o seu Arrábida - Entre a Cor e o Verso). Mas a designação “Serra-Mãe” foi ainda mais longe e emprestou o seu nome a uma marca de vinho (produzido na SIVIPA) ou, mais recentemente, à Unidade de Saúde Familiar azeitonense (USF Serra-Mãe).

A fortuna identitária desta designação metafórica e afectiva que Sebastião da Gama atribuiu à Arrábida levou mesmo a que o título da obra fosse considerado na toponímia (facto não muito vulgar, apesar de, em Portugal, serem conhecidos os casos de Os Lusíadas, em várias ruas de diversas localidades, e de Amor de Perdição, um largo no Porto), uma iniciativa apresentada por António Cunha Bento à Associação Cultural Sebastião da Gama e à Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão no início de 2016, dois meses depois aprovada pela Câmara Municipal de Setúbal (23 de Março), com descerramento de placa de identificação toponímica em 30 de Abril seguinte, assim se assinalando, na altura, os 70 anos sobre a publicação desta obra (sublinhando-se na placa tratar-se da “1.ª obra de Sebastião da Gama, 1945”). A designação “Rua Serra-Mãe” só podia ter aplicação num espaço que tivesse ligação com a Arrábida e com o poeta azeitonense, dando nome à rua por onde se acede ao Portinho da Arrábida, a partir da Estrada Nacional 379-1.

A construção da obra Serra-Mãe demorou quase tanto tempo quanto a vida do seu autor. Com efeito, a Arrábida desde cedo impressionou o jovem Sebastião da Gama — lembrava sua mãe, Ana Cardoso, que, ainda em criança, ele terá acompanhado alguém num passeio na Serra e, ao chegar, disse-lhe que fizera uma quadra: “Fui passear / à serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia.” Coincidência ou não, certo é que a ideia da serra e da maternidade se conjugariam uns anos depois para dar título a um poema e ao primeiro livro, como é certo que a Arrábida desde cedo pontuou nos versos de Sebastião da Gama — o mais antigo poema em que a menciona data de Julho de 1939 e, sob o título “Conselho”, recomenda ao irmão que fuja com a amada “p’ra serra Arrábida chamada / cuj’ alecrim belo perfume emana”... Ainda do mesmo ano, de Dezembro, é o mais antigo poema em que a serra surge como motivo — intitulado “Arrábida” (o nome da serra aparece apenas no título), a primeira estrofe diz-nos que “Portugal (...) / num local / ‘scondidinho / um canteir’ abençoado / tem, que pasma toda a gente”; na seguinte, há uma descrição da paisagem, como “linda serra, / a seus pés / estende-se o mar muito calmo / verde, azul e prateado”; a última faz a apologia da beleza da paisagem, recorrendo à contemplação e à comparação favorável à Arrábida, ao dizer que “tod’ a vista / que encerra / encanta muit’ e deslumbra; / do panorama a beleza, / que é mista / - mar e serra - / deixa Sintra na penumbra.”

*João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1652, 2025-11-26, pg. 10.


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sabores e histórias de Sesimbra

 


A identidade local ou regional também é feita do que se cozinha e se come — se dúvidas houvesse, bastaria lembrar a quantidade de receitas (de carne, de peixe ou de doçaria) que, no nome, trazem associado o nome da localidade onde foram criadas (mesmo que recorrendo ao trivial “à moda de”), busca ainda mais interessante se folhearmos o Cancioneiro Popular Português, recolhido por José Leite de Vasconcelos (1858-1941), só publicado entre 1975 e 1983, e lermos a quantidade de versos dedicados às comidas locais, por onde passam os ingredientes (ervas, legumes), os animais (terrestres, aquáticos ou voadores), o pão (e os cereais), as frutas ou as bebidas (alcoólicas e não alcoólicas) característicos de muitas localidades do país, uma recolha que vive da literatura oral e constitui um extraordinário retrato etnográfico.

A gastronomia sesimbrense ganhou um registo interessante de histórias e de receitas ao ser publicado o livro A que sabe Sesimbra - Quando os sabores diferenciam um território (Junta de Freguesia do Castelo, 2025), obra resultante da pesquisa e coordenação de Maria Manuel Gomes, que, em texto introdutório, refere: “Ao longo deste livro, convidamos os leitores a descobrirem os sabores que definiram a identidade de Sesimbra, a conhecer os produtos típicos da região, como o peixe fresco, o pão, os queijos, a doçaria, e a saborear as tradições que perduram, resistindo ao passar dos anos.” O desafio posto aos leitores sentiram-no também muitos naturais das freguesias do Castelo e de Santiago, que, como é dito em nota final, “em conversas de café, entrevistas demoradas, através das redes sociais ou até em simples contactos telefónicos, (...) abriram as portas das suas memórias”, partilhando “os segredos culinários de família, aqueles que passam de geração em geração e que dão verdadeira alma a cada prato.” 

São quinze os capítulos que organizam esta colectânea de sabores, sempre apelando para a reunião dos convivas através da expressão “à mesa”, ordenados de acordo com o momento das refeições diárias (pequeno almoço, lanche), com os ingredientes predominantes (ovos, sopas e legumes, peixe, marisco, carne, caça), com o calendário festivo (santos populares, festas religiosas), com produtos regionais (doçaria, fruta, mel, vinho) ou com situações específicas (doença), apresentando um conjunto próximo da centena e meia de receitas.

Associada às várias receitas, aparece, frequentemente, uma rápida alusão à preservação do património local, como acontece ao mencionar as papas de abóbora (“são hoje memória viva de uma gastronomia popular, marcada por ingredientes locais, sazonalidade, e uma forte ligação à terra”, representando “um património imaterial que merece ser valorizado, não apenas no seu valor nutritivo, mas também pelo testemunho que dão de um modo de vida simples, resiliente e profundamente enraizado na cultura rural portuguesa”), assim como se reaviva a memória de passados recentes, como no exemplo da batata frita do Zé Tucha (“era junto às rampas de acesso à praia ou à saída do autocarro que levava os jovens para o antigo Colégio Costa Marques que o encontrávamos a vendê-las, sendo quase impossível resistir ao cheiro que se espalhava no ar”), ou se insiste nas marcas identitárias que construíram o quotidiano, servindo de exemplo o que é dito sobre os rabos de sardinha cozidos em água e sal (“um alimento com história, feito da relação íntima entre o mar, o trabalho e a mesa”) e também sobre a farinha torrada sesimbrense (“alimento energético levado pelos pescadores para o mar ou pelos trabalhadores para o campo, servindo como reforço alimentar nos longos dias de faina”).

Por esta recolha passam também apontamentos curiosos, construtores da identidade, como: o episódio da encomenda de 660 empadas de piscos (que exigiam 2304 pássaros) pelo Marquês de Tancos em 1770 ao sesimbrense  Fonseca Pacheco; a utilização do cozido à portuguesa para a celebração de determinados momentos, como na Festa das Chagas; a crença na utilidade da mioleira de borrego com ovo (“acreditava-se que, por ser ‘comida de cérebro’, ajudava no desenvolvimento e na inteligência dos mais pequenos”); o hábito, na vila de Sesimbra, de, “ainda antes do casamento, os noivos oferecerem pratos de bolos aos vizinhos e familiares que não participariam directamente na cerimónia”; ou a prática do leilão das fogaças, em Alfarim, no dia de Natal, após a missa, cujo “valor angariado com a venda revertia para as festas locais e para obras de beneficência da Capela” local. A memória dos sabores encontra também, por vezes, um momento de sensibilidade poética, como quando se referem os malacuecos, mistura de açúcar e de muitas cores que alimentavam a delícia das crianças — “estes matacões coloridos não eram apenas guloseimas: eram pequenas alegrias de bolso, símbolos de infância e de um tempo em que um simples caramelo podia encher o dia de doçura e fantasia”...

Para que o leitor não se sinta excluído, além de ter a possibilidade de experimentar as sugestões, no final, há ainda uma dúzia de páginas em branco com o sugestivo título “Lembra-se de mais alguma receita?”, convite para que cada um entre no livro e o complete à sua maneira, listando ingredientes e prescrevendo a confecção ou lembrando histórias associadas à alimentação...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1647, 2025-11-19, pg. 9.


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

O diário do exilado Manuel Vinhas

 


Entre 10 de Dezembro de 1974 e 31 de Dezembro do ano seguinte, Manuel Vinhas (1920-1977) escreveu um diário, publicado em 1976 sob o título Profissão Exilado, com prefácio de Agostinho da Silva (de quem foi amigo) e testemunho de Luiz Pacheco (de quem foi protector).

Manuel Vinhas, empresário, teve, no final de Setembro de 1974, de fugir, depois de ter sido alertado sobre eventual prisão, motivada por alegado envolvimento nos acontecimentos políticos ocorridos dias antes. Em Madrid, em 10 de Dezembro (o primeiro registo), recorda o testemunho que lhe chegou sobre o momento em que as milícias o procuraram “de metralhadoras em punho, obrigando os meus filhos a saírem da cama de madrugada, interrogando-os com ameaças, despejando garrafas de vinho, roubando as espingardas de caça. Como não me encontraram, repetiram a ‘visita’ na noite seguinte; beberam mais vinho — o que tomei como homenagem ao meu critério selectivo — e roubaram um automóvel”. Razões para esta invasão? “Disseram-me depois que a razão de me quererem prender era a de estar incluído na lista de reféns do partido comunista, e a ‘honrosa’ escolha baseava-se em desfrutar de certa popularidade entre os que para mim trabalhavam, e ser, assim, um empecilho para manobras que se preparavam.”

É em nota prévia que o autor justifica o seu livro: “A razão principal deste livro é mostrar a vida de um homem na diversidade do quotidiano.”, observação que vai ao encontro de Agostinho da Silva, que assim conclui o seu prefácio: “quaisquer que tenham sido as dificuldades que a aventura trouxe a Manuel Vinhas, estou contente com ela: os negócios o afastavam de si próprio (...); faltava-lhe cumprir o dever primordial de nós todos: sermos o que somos.”

Com efeito, Manuel Vinhas vai dando nota dessa ‘descoberta’, que assume, como quando escreve que “nestas páginas trato de coisas da minha vida, e assim também de pessoas com quem tenho convivido” (11 de Junho) ou ao relembrar que “tomei o compromisso de me mostrar nestas páginas como sou; não para que me sejam reconhecidas qualidades, mas para evidenciar características” (5 de Agosto), acompanhando o leitor o itinerário do autor por Espanha, França e Brasil (onde já se encontra em Janeiro), primeiro no Rio de Janeiro e, depois, na Baía (Salvador e Itapoã), havendo ainda três deslocações à Europa (em Abril, Junho e Outubro).

A variedade das observações é intensa: o sentido da ligação ao mundo da arte (Vieira da Silva e Arpad, Manuel Cargaleiro, Millor Fernandes, Carybé, Júlio Pomar, entre outros), mas também da política (António de Spínola, Adriano Moreira, Américo Tomás, Marcelo Caetano, por exemplo), partilhando conversas e contactos; a preocupação com a família (em que ganha peso a distância geográfica, doendo-lhe a impossibilidade de ter estado no casamento do filho, mas também o caminho feito no sentido de a reunir, como vai acontecendo gradualmente); o rumo que a política levava em Portugal e em Angola (cuja independência defendeu desde cedo), ainda que percepcionado pelos relatos que lhe faziam chegar (vai vendo que a espera é demasiado longa e o ideal se vai perdendo — é em tom irónico e decepcionante que termina o seu diário, em 31 de Dezembro: “Estou cada dia mais atento ao balançar dos coqueiros e menos interessado na multiplicação das chaminés fabris. Obrigado, revolução. Revolução em que pus a maior esperança e me trouxe as maiores desilusões.”); as dificuldades em que viviam muitos portugueses em fuga (“Todos os dias, mas todos os dias, pessoalmente, pelo correio ou pelo telefone, contacto portugueses que partiram ou vão partir de Portugal, de Angola, de Moçambique. Uns animados, com ocupação garantida ou pecúlio transferido, outros desesperados, sem amanhã assegurado e sem terem podido salvar nada do que tinham juntado com muito trabalho e esforço.”); algumas notas curiosas, como a da razão que levou à não-permissão da marca “Coca-Cola” em Portugal, decidida pelos governantes (Salazar “não queria ceder na sua obstinada recusa dentro da natural antipatia que tinha por ‘americanices’, mas necessitava de encontrar uma boa desculpa”, construída por Jorge Jardim — “partindo de que a palavra ‘Coca’ é diminutivo que em português é sinónimo de cocaína, (...) concluía pela ilegalidade da produção em Portugal, pois, ou continha cocaína, o que não era permitido pela Lei, ou não continha e induzia o público em erro, o que a lei também não poderia autorizar.”); ou as considerações sobre a gastronomia, as festas, as caçadas, o convívio, a arte.

Os momentos de poesia povoam também este diário, como se evidencia na declaração amorosa que faz à mulher, Concha, em 8 de Dezembro (“Gostam os meus olhos das rugas do teu rosto, cicatrizes de uma vida comum”), ou no encanto decorrente de um instante, como quando vê o passar de uma gaivota (“Voa a gaivota branca, o seu destino é voar. No ar desenha arabescos que fazem sombras no mar”, 23 de Abril).

Com razão, Luiz Pacheco, crítico insuspeito, considerou que, nesta obra, não dever ser esquecido “o desfasamento temporal a que estão sujeitos os exilados”, o que condiciona a análise dos acontecimentos, ao mesmo tempo que a viu como conjunto de “páginas soberbas, pequenas aguarelas ricas de colorido e sentido de observação, (...) um livro cheio de movimento e comovente de vida.”

João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1642, 2025-11-12, pg. 10.