domingo, 18 de outubro de 2026

João de Melo: escavar a vida com palavras

 


“O diário? Trata-se de um exercício exigente, nada avulso. Precaver-nos continuamente contra a repetição, a rotina, o banal associado à ideia de quotidiano. O meu perde-se na origem da própria fugacidade, mais até do que na fuga para diante — contra o queixume, o lirismo sentimental, o deserto das ideias. Fosse eu filósofo, teria matéria de sobra para outra linguagem. Não o sendo, limito-me a escavar a terra das palavras e das ideias (com as mãos), na busca de uma razão para o que me afronta e me rodeia, perto e longe. É entre as ideias de proximidade e distância que procuro a luz da escrita do meu diário.” O registo é de 20 de Junho de 2024 e consta na obra diarística Novas Fases da Lua (Dom Quixote, 2025), de João de Melo (n. 1949), nome habitualmente associado ao romance e ao conto.

Abrangendo os anos de 2017 a 2024, embora nenhum registo conste de 2020 e de 2022, o título é explicado em nota prévia: a escrita de diário, iniciou-a o autor em 1993, embora sujeita a interrupções, estando o período entre esse ano e 2007 em volume ainda inédito sob o título de Fases da Lua. O propósito desta publicação foi o de assinalar o cinquentenário sobre o aparecimento do primeiro livro do autor, Histórias da Resistência, em 1975 (Prelo Editora).

Pretende-se então com este diário o trabalho da escrita em torno do que rodeia e constitui a vida, deixando marcas, fazendo pensar o mundo, num trabalho de descoberta, de definição e de tomada de posição.

Ao longo destes seis anos de recolha de momentos de reflexão sobre os dias, o tema da escrita como universo pessoal vai surgindo, ora em jeito de balanço ou de reparação, ora com a preocupação do sentido que a escrita dá à vida (motivação de alguns textos; hipóteses de temas e circunstâncias para outras obras; descoberta da escrita infanto-juvenil; sensação resultante das leituras, comentários ou adaptações da própria obra a partir dos outros; momentos de hesitação e eventuais soluções para narrativas iniciadas; angústia perante o ter podido “ir mais além e mais acima” na própria escrita). A leitura, forma de completar um livro, está também presente em muitas páginas, seja pelas notas de leitura de algumas obras específicas (títulos de João Pinto Coelho, Tolstoi, Mário Cláudio, Dimas Simas Lopes, Sérgio Mendes, Fernando Aramburu, Rui Couceiro, Gonçalo M. Tavares ou J. H. Santos Barros, por exemplo), seja por referências a autores, estas resultantes de coincidências na vida ou de cruzamentos com a análise e reflexão sobre os dias (com entradas para nomes como Vitorino Nemésio, José Correia Tavares, Raul Brandão, Urbano Tavares Rodrigues, Tolentino Mendonça, Chico Buarque, Aquilino Ribeiro, Agustina Bessa-Luís, Fernando Namora, José Saramago, Antero de Quental, Cristóvão de Aguiar, Mário de Carvalho ou Nuno Júdice, entre outros).

A presença de tão diversos nomes e obras acaba por ser também o reconhecimento do caminho e do poder da literatura, assumidamente expresso em registo de 25 de Setembro de 2018: “A literatura perderá sempre os seus confrontos com a tecnologia: mas não a sua razão de ser no interior das sociedades, tenham elas o modelo que tiverem. O mundo passa todo pela sua escrita, apontada ao futuro e ao triunfo da luz sobre as trevas do nosso tempo. Enquanto houver linguagem e criação, a literatura será a razão de ser, o degrau, o corrimão que a todos levanta do chão e os leva a subir para o alto.”

 

Em Novas Fases da Lua, o diarista João de Melo valoriza muito o rodar do mundo, assumindo a posição de cidadão atento e com opinião, dando razão ao seu preceito de registar “o que me afronta e me rodeia, perto e longe”. 

As figuras e os acontecimentos marcantes dos anos abrangidos suscitam o comentário atento no diário: o Papa Francisco (“figura despojada de esplendores”, com uma “mensagem de paz dos gestos desprendidos e naturais”, conforme registo de 12.Mai.2017); Donald Trump (o homem que lida com “lume na palha, pólvora em chama acesa, gasolina em jacto sobre as labaredas”, um “incendiário a brincar com o fogo e com o mundo”, 7.Dez.2017); conflito israelo-palestiniano (“Israel não move apenas a guerra total contra os palestinianos; move a vingança à solta, a punição cega e pela morte avulsa, o chamado terrorismo de Estado”, 24.Jan.2017); o movimento “Me too” (“o chamado assédio sexual masculino dá a volta ao planeta, denunciado por mulheres que dizem ter sido vítimas da alarvidade dos homens”, acusação que provocará “que as relações encolham e em nós se instale um puritanismo duplamente falso no seu incómodo”, 22.Jan.2018); a segunda onda da covid (“um vírus, a pandemia, esta nova lepra que nos obriga a ficar em casa, manhã, tarde e noite, ou a sair por um carreirinho clandestino, de máscara e sem nos chegarmos a ninguém”, 10.Fev.2021); os efeitos das alterações climáticas (“as imagens aí estão: vogam na enxurrada, água abaixo, casas e carros e outros bens, morre gente de todas as idades, e nada move à responsabilidade os poderes do mundo”, 3.Ago.2021); a guerra entre a Rússia e a Ucrânia (“Esta passou a ser uma guerra entre blocos político-militares”, em que “deixou de haver inocentes”, enquanto “nós, pobres diabos do humanismo e da paz, somos os únicos a ouvir o choro das mulheres e das crianças e a recordar o silêncio dos mortos vivos e dos vivos mortos”, 20.Jul.2023); a Jornada Mundial da Juventude (movimento que “veio instalar em nós uma espécie de trégua, a da paz e da fé, por aqueles que peregrinaram e têm demonstrado ser possível crer numa outra ordem no nosso quotidiano”, 5.Ago.2023); os atentados em Estocolmo e em Barcelona (Abril e Agosto de 2017), a “tragédia incendiária” em Portugal (Outubro de 2017) ou os tumultos na África do Sul (Julho de 2021) ou em Maputo (Dezembro de 2024).

No registo de 8 de Janeiro de 2024, João de Melo tem necessidade de exprimir as suas preocupações num resumo rápido: “O que me inquieta e desassossega:  as guerras que vão por esse mundo fora; as mortes e as vidas dos imigrantes que atravessam o mar Mediterrâneo, em fuga da miséria, para chegarem à Europa e serem depois repatriados; a perdição do planeta, anos atrás de anos, sem que lhe acudam a tempo de o salvar; o desmatamento sistemático da Amazónia; o sorriso alarve de Putin, a cara de bolacha gorda do presidente chinês e o enigma constante do seu pensamento; a hipótese cada vez mais provável de reelegerem Trump para a presidência da América; e a minha doença encoberta.” 

A questão da saúde merece várias referências ao longo deste volume, a começar logo pelo primeiro registo: “Dívidas de gratidão para com o meu corpo”, que, apesar de tudo, lhe trouxe sobressalto em 2014, mas, “sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo”, pois “nele, corpo, mora a minha vida” e “nada há mais saudável do que estarmos vivos” (21.Jan.2017).

A literatura (como visto na crónica anterior) constitui factor de estabilidade, mas esta chega também através das referências à família (“foi e é única no meu mundo”, 28.Ago.2017), particularizada na esposa, na neta, nos filhos, ou dos amigos (“sem eles, ficamos não apenas mais tristes, mas mais sós”, 2.Nov.2019), como chega através da ligação a dois pontos geográficos como a Espanha (particularmente Madrid, onde exerceu funções — “sinto-me nesta cidade-casa como se nela tivesse nascido para me ir embora”, 28.Nov.2019) ou a Achadinha (onde nasceu e onde hoje existe a Casa João de Melo, que foi casa de família e agora é espaço museológico sobre o escritor e sobre a região do Nordeste — “Não é pacífico em mim ser patrono de uma casa pública e ver o meu nome na sua frontaria. Sinto-me entre o júbilo íntimo e os seus contrários, ainda mais fundos.”, 23.Ago.2021).

Por este diário de João de Melo passam textos normalmente curtos, a chamarem a atenção para o essencial sentido naquele dia perante o andar do mundo, às vezes inserindo pequenas histórias do quotidiano (nem sempre sendo indicados os nomes dos protagonistas), salvando a forma própria de pensar e contestando o papel dos comentadores — “gente que tudo sabe” e “uma fórmula existencial de intrusão” (16.Fev.2017) —, comprometidos ideologicamente.

João de Melo sabe que a escrita é uma forma de exposição, tal como refere ao encerrar este diário, em 31 de Dezembro de 2024 — “Vivo e escrevo e sou aqui e agora. Sempre em mim.” —, não prometendo a sua continuação, mas admitindo-a, ao mesmo tempo que garante ser a escrita “o mais importante de tudo em mim”.

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1840 (2026-09-30) e 1844 (2026-10-07).


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Mar sofrido

 


Quando Camões (c. 1520-c. 1580) publicou Os Lusíadas (1572), a sua intenção não foi apenas a de glorificar os participantes na viagem inaugural da carreira da Índia, mas também dar voz aos que a contestaram (caso do Velho do Restelo) e às tragédias marítimas posteriormente surgidas (anunciadas pelo Adamastor). Se, através do Velho do Restelo, o leitor assiste à praga rogada — “Ó maldito o primeiro que no mundo / Nas ondas velas pôs em seco lenho!” (canto IV) —, as profecias trágicas da figura disforme assentam no que nos foi revelado pelas relações dos naufrágios acontecidos a partir de 1552 (até 1602), depois reunidas nessa obra fabulosa que é a História Trágico-Marítima (publicada em 1735 e em 1736), organizada por Bernardo Gomes de Brito (1688-1759) — de que também há versões adaptadas, como a organizada por António Sérgio em 1934, que tem tido sucessivas edições.

A vivência sofrida e assustadora do mar tem marcas universais e perdurou no tempo, tendo a literatura (e outras artes) tido um papel importante na expressão desse sentimento, como podemos ver em alguns exemplos que nos são cronologicamente mais próximos.

Em 12 de Setembro de 1948, Vergílio Ferreira (1916-1996), perante o mar da Nazaré, escrevia no seu diário: “Cá está o mar, o bruto. Estende-se ao comprido, esbarrondado, ronca e baba-se sobre a areia. Pequenos barcos, traquinas, sobem-lhe para o lombo, catam-lhe o peixe — ele dorme. Tem os olhos grandes cerrados, a arca do peito arfa. Não entende ninguém, ninguém o compreende. Estúpido, cavernoso, está para ali. Até que um dia, sem razão, firma-se nas quatro patas, urra temeroso e atira-se às marradas contra tudo. Depois, outra vez sem razão, abate amodorrado, torna a roncar e a dormir. De noite, a lua veio passar-lhe uma carícia de mãos pelo dorso. A besta, indiferente, rosnou sempre. Cava-lhe as entranhas uma boçalidade de pasmo. Anda a alegria em volta dele, crianças deitam-lhe quimeras de inocência — e o bruto só ronca. Sinto naquele monstro a trágica desgraça da força imerecida, da força que apenas se justifica no urro e na marrada.” (em Diário Inédito 1944-1949, publicado em 2008).

A marca de bestialidade usada para caracterizar o mar pelo escritor natural de Melo é intensa no seu exagero, demonstrando a incapacidade do humano para domar as águas com segurança absoluta, os medos que podem surgir e o fascínio perante tal perigo. Duas décadas depois, em 1968, em entrevista à inglesa Tyne Tees Television, o pintor Lawrence Stephen Lowry (1887-1976) referia o mesmo poder avassalador do mar, usando a emoção e a antecipação do espanto: “Sempre adorei o mar: como ele é maravilhoso e, ao mesmo tempo, tão terrível. Muitas vezes penso: ... e se, de repente, ele mudasse de ideia e a maré não recuasse? E se viesse na nossa direção? E, se não parasse e continuasse avançando, avançando, avançando, avançando, avançando... Seria o fim de tudo.”

Mais pragmático e de menos palavras perante a força do mar, demonstrando o respeito perante essa energia que pode ser desastrosa para o ser humano, é o discurso de Ti’ Bártolo, velho, experimentado e sábio lobo do mar, no romance Mar Santo (1952), história passada na Nazaré, de Branquinho da Fonseca (1905-1974), em que o mar reúne a ideia de traição e a marca do poder incomensurável: “O mar nã tem amigos... O mar!... Mata a gente e nã tem crime... O mar engana Cristo!... Sabes lá qu’ é o mar!... Ah, mar santo!...”

Este viver com o perigo e as dores do mar foi também cantado por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), quando escreveu “Vida do Mar” (em Para a Luz, de 1904), lembrando o que sentia quando, à tarde, passeava ao longo do mar: “E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas, / Entre as rochas que estão de espuma coroadas, / Tristes habitações de pobres pescadores... / Telhados pra abrigar soluços, ais e dores. / São choupanas onde há postigos e janelas, / Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas, / Navios onde vai ao leme a Saudade... / Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade...”

A expressão da dor trazida pelo mar, contrariando a ideia épica das viagens marítimas, tem expressão intensa no poema “Mar Português” que Fernando Pessoa (1888-1935) incluiu na sua Mensagem (única obra de poesia em português publicada em vida do poeta, no final de 1934), aí dando liberdade à emoção colectiva: “Ó Mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó Mar!” Esta metáfora das lágrimas seria também utilizada por Sebastião da Gama (1924-1952), ele próprio um leitor de Pessoa, no poema “Contribuição”, de 28 de Outubro de 1942 (apenas publicado em 2024, no volume de poesia reunida, O inquieto verbo do mar): “O Mar Oceano / anda a rolar, pela Praia, / as pragas dos pescadores... / E é cada gota de espuma / uma lágrima que caia / nas faces angustiadas das mulheres...”

O mar, visto frequentemente como o espaço de aventura e de liberdade, tem sido também o cenário do sofrimento e da dor, algo que o poeta Alexandre O’Neill (1924-1986), numa frase do domínio do apelo à prevenção que se tornou um quase provérbio, bem expressou quando disse que “há mar e mar, há ir e voltar”... sugerindo a cautela e a minimização da aventura, ou... o respeito pelo mar.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1835, 2026-09-23, pg. 10.


sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Francisco de Francisco

 


Em 14 de Abril de 2025, o cardeal Marcello Semeraro (n. 1947), prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, teve o seu último encontro com o Papa Francisco. Na conversa, disse-lhe que já estavam prontas as provas do livro e perguntou-lhe se as queria ver, tendo Francisco respondido: “Tens de ser tu a corrigi-las.” Uma semana depois, acontecia o falecimento do Papa e Semeraro ficava com a incumbência redobrada de rever as provas. O livro em causa, editado em Itália em 2025 e publicado em Portugal neste ano (Paulinas), é O Meu São Francisco, obra póstuma do Papa Francisco, que apresenta como subtítulo a informação “Colóquio com o Cardeal Marcello Semeraro”.

Quando, em 13 de Março de 2013, o jesuíta Jorge Bergoglio (1936-2025) escolheu o nome de Francisco, pairou por momentos a dúvida se esta opção não se relacionaria com S. Francisco Xavier (1506-1552), co-fundador da Companhia de Jesus, logo desfeita pela explicação que deu, lembrando que o seu amigo, cardeal Claudio Hummes (1934-2022), arcebispo emérito de São Paulo e membro do conclave, ao saber o resultado da votação, o abraçou e lhe recomendou “não se esqueça dos pobres”, razão maior para, de imediato, se lembrar de São Francisco de Assis (1181-1226), arauto da pobreza e da paz. Esta preocupação tornou-se prática do quotidiano, que levaria o Papa, a dado passo desta entrevista, a dizer: “tive o dom de encontrar muitos pobres, que me indicaram claramente qual é o lugar a que o Senhor dá preferência, onde o podemos procurar e encontrar”.

O conjunto de quinze perguntas e respectivas respostas é antecedido de uma mensagem do Papa Leão XIV dirigida ao responsável pela entrevista, agradecendo esta iniciativa e afirmando que o seu antecessor “não só assumiu o nome de Francisco como também se quis identificar com este santo para fazer dele o rosto da sua nova missão”.

As perguntas que orientam o testemunho do Papa Francisco abrangem assuntos como: a pobreza (“pensar a economia inspirando-se em São Francisco significa empenhar-se em colocar no centro os pobres e olhar para a economia e para o mundo precisamente a partir deles”); o olhar sobre a Igreja (“amar a Igreja significa não a abandonar na ilusão de poder passar sem ela ou de podermos encontrar alguma coisa melhor, e também significa dizer claramente as coisas que não estão bem, empenhando-nos em dar um testemunho que saiba a Evangelho”); a prática da oração (“há duas modalidades de oração, que travam entre si uma espécie de diálogo: são necessários momentos de solidão e retiro, de intimidade; ao mesmo tempo, porém, temos necessidade de momentos de partilha, de convivência”, pois “fazem parte da nossa humanidade solidão e comunhão”); o diálogo com a contemporaneidade (“a liberdade que nos torna capazes de nos encontrarmos com todos e de dialogarmos com qualquer um nasce da alegria de sentirmos que a vida coloca sempre à nossa frente algo capaz de nos unir, de fazer que nos respeitemos, de intuir o grande valor mútuo de cada um”); o espírito de fraternidade (“a fraternidade, por vezes, é incómoda porque é diferente da amizade, é um dom que devemos acolher com gratidão, é uma realidade sempre ‘a caminho’, em construção, e que, por conseguinte, requer o contributo de todos, sem que ninguém se exclua ou seja excluído”); o valor da misericórdia (“um homem só deve olhar outro homem a partir de cima para o ajudar a levantar-se”, pois “a misericórdia não é uma coisa ao lado das outras, mas como que traça os contornos do crente, do cristão”); a ecologia (“a atenção à ecologia nasce de um sentido de responsabilidade para com os outros; os que vierem depois de nós esperam poder viver numa Terra ‘limpa’, não só limpa no sentido de ecologicamente habitável, mas limpa do ponto de vista das relações, das relações entre nações, entre pessoas culturalmente diferentes”); a esperança (“a esperança não pode ser vivida por uma pessoa sozinha, porque precisa de sinais” que “não nos vêm das coisas, mas das pessoas que caminham connosco, que nos encorajam, que nos ajudam a levantar quando caímos, que partilham connosco as maiores dificuldades”); a falta de resposta aos apelos em favor da paz (“muitas vezes falamos em prol dos direitos dos outros, do respeito ambiental, dos pobres indefesos, da paz, e a maior parte das vezes as nossas palavras parecem-nos inúteis”, mas “é importante continuarmos a gastar-nos com a maior generosidade em favor da paz, inclusive continuando a lançar apelos para que a guerra e a violência acabem”); a morte (“na minha idade não tenho muito medo de morrer; quando somos velhos, damo-nos conta de que já não falta muito para o fim e também sentimos como uma graça o podermos preparar-nos para a morte, o podermos reler o nosso passado”); a família (“as famílias ensinaram-me a importância da vida em comum, da vida quotidiana”); a relação entre homens e mulheres (“uma das maiores dificuldades para todos nós é sempre a de aceitar que precisamos de alguém” e “quando a realidade concreta nos faz experimentar as nossas limitações, por vezes voltamo-nos contra nós mesmos e contra os outros”, mas “nenhum de nós se basta a si mesmo, nenhum de nós tem, em si mesmo, aquilo de que precisa para viver bem”).

Um livro de reflexão e de pensamentos que são orientações para a vida, sendo fácil, a todo o momento, pararmos perante uma máxima cheia de significado — pormenores que também nos podem ajudar a ver este livro como um possível testamento espiritual do Papa Francisco.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1825, 2026-09-09, pg. 2.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Carlos Cardoso: notas para pensar

 


No romance Nove mil dias e uma só noite (tradução portuguesa de 2014 da obra Letters from Skie, publicada no ano anterior), Jessica Brockmole põe uma das personagens a dizer: “Pensar é bom. É o que distingue os seres humanos das baratas.” Quem assim falou foi a mãe de Margaret, em resposta à filha, quando esta a informou de que tinha respondido a um pretendente que, antes de aceitar o pedido de casamento, teria de pensar no assunto... A consideração desta personagem em torno do acto de pensar é simples e pragmática e não necessita de explicações, resultando a sua eficácia de um saber experimentado e amadurecido. Pensar exige tempo, mais do que emoção ou pressa.

Data de Maio a edição da obra Momentos, do setubalense Carlos Cardoso, que tem como subtítulo “Notas para pensar, discordar e dialogar”, logo surgindo, pela associação de título e subtítulo, a presença do factor tempo para o acto de pensar, sendo a origem do livro explicada no prefácio, quando é dito que esta obra “nasce da necessidade de pensar”, “de parar um pouco”, “de olhar para o que somos, para o que fazemos e para a forma como escolhemos viver em sociedade”.

Baseado na sua experiência de professor, de gestor e de cidadão, Carlos Cardoso colige uma centena de textos, todos sob o título de “O meu momento de reflexão”, seguido da recomendação “Nunca se esqueçam...”, prevendo o leitor que vai estar perante um conjunto de reflexões que podem virar recomendações para a vida, marca que pode inserir esta obra na lista do livro prático, muito embora o seu objectivo não seja o de ensinar estratégias de resolução de questões práticas, antes o de sugerir pistas de reflexão para o indivíduo e para a sociedade.

No final do livro, as reflexões apresentadas são organizadas em três grupos: valores e carácter, relações humanas e desenvolvimento pessoal. Esta divisão poderá valorizar três intenções fundamentais presentes na obra, mas é demasiadamente restritiva e generalista, impossibilitando de ver a variedade dos assuntos abordados. Com efeito, por estas reflexões, muitas vezes inspiradas em princípios proverbiais (como “Quem sobe sem respeito desce sem amparo”) ou partindo da linguagem metafórica (como se pode ver nos exemplos “Não adiante numa encruzilhada perguntarem para onde é o caminho se não souberem qual o caminho que querem seguir” ou “Os tristes acham que o vento geme, os alegres acham que o vento canta”), passa uma diversidade de temas (muitos deles ligados à ética e à deontologia) como: o papel do acto de ensinar; a necessidade de alimentar o saber; a pertinência do questionar; a utilização adequada do silêncio; a valorização do outro e de si; a sorte como desafio; a confiança no que se faz como acto de realização; as condições que fazem a liderança; a força para encarar as situações e trabalhar com o erro; a valorização do que é bom; a luta contra o boato e contra a ignorância (caminhos fomentadores da mentira); a honra e a verdade como valores; a valorização da empresa garantida pelos seus funcionários; o assumir a idade como forma de viver cada dia e de aumentar as memórias; o papel da amizade; a força do exemplo; a procura de soluções em vez da alimentação dos problemas; a defesa das convicções; a atenção ao outro; a gestão da capacidade de reacção; a disponibilidade para ajudar e pedir ajuda; o valor da vida saboreada; o saber quando dizer “não” ou “sim”; a necessidade de pensamento crítico; a utilização do pensar, do querer e do sentir de forma a não contribuírem para magoar o outro; a gestão da desculpa para o que não se consegue; o poder da leitura para a construção de caminhos e descoberta de verdades.

A lista poderia ser mais extensa, mas correr-se-ia o risco de cair em algumas repetições ou proximidades — aliás, a leitura deste livro não deve visar a imediata totalidade, sob pena de haver a sensação da repetição, antes deve ser lido fazendo justiça ao título, em “momentos” (assim mesmo, no plural), sem ter de ser respeitada a sequencialidade do livro, que pode ser aberto ao acaso para que o leitor se encontre com um conselho ou uma reflexão (a dimensão dos textos oscila entre uma e três páginas), instante de abrigo do curso do pensamento.

Obviamente, muitos dos princípios enunciados nestas reflexões passam pelos caminhos da educação (sobretudo em ambiente familiar) ou da formação, apenas absorvidos por quem se predisponha para os mesmos, já que, nestas coisas, o verbo “querer” não tem imperativo... Importante é não aceitarmos a situação que José Gomes Ferreira (1900-1985) descreveu na obra Aventuras de João Sem Medo (1963): “A maioria das pessoas já nem pensa! Fala. Isto é: limita-se a pôr o aparelho em acção, a acertar a agulha no sulco respectivo e a deixar tocar o disco… Sempre igual, aliás.” A alternativa é só uma: a vida, e tudo o que por ela fazemos, tem de ser espaço do pensamento... e este livro ajuda nesse caminho.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1820, 2026-09-02, pg. 2.


quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Eugénio Fonseca, o último livro

 




Eugénio Fonseca (1957-2026) deixou-nos quando estava prestes a assumir o cargo de responsável pela Fundação D. Manuel Martins, instituição dedicada ao legado do primeiro prelado sadino (1975-1998), com quem estabeleceu uma forte ligação de amizade e de testemunho.

Presença assídua na imprensa, impulsionador e dirigente de diversas instituições ligadas à supressão da pobreza, Eugénio Fonseca assinou obras como A Acção Caritativa da Igreja: Elementos de Reflexão Teológica e Pastoral a partir do Contexto Português (2011), Estende a tua Mão ao Pobre (2020), Jesus Representa todos os Pobres (2021) e Jesus Cristo Fez-se Pobre por Nós (2022); prefaciou outras, como Quando o Excluído se Torna o Eleito: Vida Partilhada com os Sem-Abrigo (2004, de Michel Collard e Colette Gambiez), Jesus antes do Cristianismo (2010, de Albert Nolan) e Voluntariado Católico com Misericórdia (2016, de Aires Gameiro); foi ainda organizador de Sinodalidade e as Ressonâncias de ‘Fratelli Tutti’ (2023). Mas, inevitável na sua bibliografia, seria a abordagem da obra e da mensagem de D. Manuel Martins (1927-2017), presente em Testemunho de Duas Vidas Compartilhadas (2020) e, na última obra que organizou (e publicou), recolhendo 98 testemunhos, Cinquentenário da Ordenação Episcopal de D. Manuel Martins (2025), inicialmente pensada para ser uma publicação digital, que se deveria manter “em contínuo crescimento”, mas que viria a ser impressa depois da quantidade de pedidos de leitores.

Por essa quase centena de depoimentos passam homens e mulheres, políticos e dirigentes, membros do clero e de ordens religiosas (masculinas e femininas), leigos e muitos setubalenses, desfilando memórias intensas (na maior parte dos casos) e assumindo a intervenção e postura de D. Manuel Martins como exemplo e inspiração. Ao coordenar esta obra, Eugénio Fonseca possibilitou, no cinquentenário da criação da diocese, “recordar aos que o conheceram e aos que não a pessoa que ele foi e as marcas que deixou pela defesa da dignidade humana de todos, mas, preferencialmente, dos que a tinham amachucada por causa de injustiças de variada natureza”. Mas a intenção do organizador assumiu também uma marca pessoal de reconhecimento, como fica patente na introdução ao livro - “entre mim e D. Manuel havia uma cumplicidade muito grande, pois também ele me ajudou a compreender melhor o Evangelho e a tentar viver em conformidade com as suas exigências.”

Entre aqueles que acederam ao convite para testemunhar, podemos lembrar Fernando Paiva (actual bispo de Beja), que relembra D. Manuel Martins desde a altura em que por ele foi crismado, passando pelos tempos do seminário (onde descobriu a afabilidade, a atenção, a cordialidade, o espírito conversador e o tom humorístico de D. Manuel), e relembrando o episódio de uma visita que lhe fez na Maia: “Referindo-se à proximidade do fim dos seus dias, e expressando o desejo de se encontrar com o Senhor, a quem sempre serviu com generosidade ao longo da vida, ele dizia, com um sorriso sereno e uma fé luminosa: ‘Estou mortinho por ver como vai ser.’” Outro testemunho, o de António Alves Fernandes, relembra que, sendo um bispo conhecedor dos pobres, D. Manuel “chegou a indicar a um político a morada de muitos pobres e suas famílias”. Destacarei ainda alguns mais, sabendo que as opções de escolha poderiam ser outras: Bruno de Santa Maria, o autor do mais extenso depoimento, relembra vários episódios e ligações ao bispo, recordando que aprendeu com ele “a ter unidade de vida, lidando simultaneamente com os bens mais espirituais e com os bens mais materiais e burocráticos da vida diocesana”; Conceição Lopes, filha da conhecida figura que foi João Sacristão, destaca a proximidade entre D. Manuel e seu pai, ambos compartilhando “inquietações, dores e soluções”, num tempo difícil de fome, de falta de trabalho, de exploração e de famílias “vivendo em barracas”; Clemência Funenga, professora e directora da Escola D. Manuel Martins, recorda a mensagem que o bispo lhe fez chegar depois de ler o Projecto Educativo de Escola para o ciclo 2003/2006, texto atento sobre o papel da escola e a importância da educação — “A Escola é exigência, espaço e exemplo de Democracia, isto é, de Cidadania. Sem uma Escola assim, preparamos uma sociedade sem futuro, uma sociedade perigosamente comprometida”; Constantino Alves, padre e operário, recua até ao tempo em que foi aluno de D. Manuel e passa pelos momentos em que por ele foi ordenado ou em que, de fato-macaco, ia falar com o seu bispo sobre o encerramento de empresas e suas consequências, traçando a imagem de uma pessoa cujo “coração batia forte” e que “recebia e acolhia, dialogava com trabalhadores e empresários, sindicatos, comissões de trabalhadores, administrações de empresas e responsáveis do poder político local e central”, sempre visando promover “gestos e dispositivos solidários com os pobres e vítimas da crise económica, financeira e social”; Maria Dulce Rocha, que presidiu ao Instituto de Apoio à Criança, chama a atenção para a “sensibilidade especial e coerência rara”, com “o desejo de solucionar, que mostra exigência e rigor”, presentes em D. Manuel.

Muitos mais testemunhos poderiam ser destacados, pelas suas peculiaridades e indicações. Em todos perpassam a coerência e a proximidade, a abertura e a vontade de acabar com as desigualdades. Entre as citações feitas de D. Manuel, a que mais vezes é mencionada é a que foi proferida aquando da sua entrada para prelado: “Nasci bispo em Setúbal. Agora sou de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho da libertação, da justiça e do amor.” O trabalho que Eugénio Fonseca nos legou, organizando este conjunto de testemunhos, é notável, sobretudo por aquilo que poderia partir daqui para ser um conjunto de princípios inspiradores de um bispo próximo, preocupado, atento e empenhado. Na dedicatória que lavrou no exemplar que adquiri, Eugénio Fonseca termina-a, desejando que, “sempre por causas, mantenhamos vivo o legado de D. Manuel.” Uma boa maneira de homenagear os dois, por certo, num desafio lançado para todos, neste que foi o último livro que Eugénio Fonseca publicou...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1815, 2026-08-26, pg. 2.


domingo, 2 de agosto de 2026

Entre livros e leituras

 


“Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” Assim escrevia José Régio (1901-1969), em 10 Abril de 1923, em Vila do Conde, no seu diário (em Páginas do Diário Íntimo, 1994). Este registo surgia no final do dia, que fora chuvoso, no espaço de pensamento e de refúgio, abrindo portas ao diálogo com os livros, com as memórias do lido ou com a antecipação das leituras.

Uma quase conversa com a biblioteca, pois, que deixava de ser o alinhamento e a ordem para ser o turbilhão das ideias! Uma angústia ou um prazer, no jogo com o acervo em que se alojam histórias, pensamentos, saberes, desejos e memórias! Uma visão quase contrária àquela que Rita Ferro (n. 1955) revelou em Veneza pode esperar (2014), também um diário, quando disse, quanto aos livros, que “podemos ler muitos, mas para nossa tortura só parecem contar os que não lemos.”

E vem à ideia a pergunta clássica que salta de quem chega perante a biblioteca, assente nas estantes, nos móveis e pelo chão: “Estes livros já foram todos lidos?” A melhor resposta que conheço foi dada por Afonso Cruz (n. 1971), no primeiro volume de O vício dos livros (2021): “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.”

A importância do leitor é fundamental para que o livro se realize, é verdade, apesar de o leitor, como os livros, não ter prazo. Perante um livro, está-se sempre à espera de que ele seja aberto, folheado, visto, lido, sob pena de não ter vida. Escreveu Massimo Recalcati (n. 1959), em A libro aperto (2018), que “um livro fechado é, na verdade, um contrassenso: não é um livro. Como o mar, o livro é uma imagem extraordinária do ‘aberto’. Abre o mundo em vez de o fechar. Um livro é um mar e não um muro.”

É essa abertura do livro que nos permite viver outros tempos, noutros lugares ou diferentes histórias, uma verdade que Yu Hua (n. 1960) bem explicou em China em dez palavras (2018): “Se existe na literatura alguma força mística, penso que será esta — a possibilidade de encontrar numa obra de um escritor de outra época, de outro país, de outra língua e cultura, experiências que nos pertencem.”

Ruben A. (1920-1975), com o seu conhecido sentido de humor, registou no sexto volume de Páginas (1970) um conselho interessante, com o seu quê de ironia e de crítica: “Cada médico, ao visitar um doente, receitava-lhe uma dose de literatura. O doente, ou morria, ou ficava sarado. Mais: enquanto se lê não há tempo para maldades, a existência humana pode não melhorar com a receita de leituras, mas de certeza que não piora, o que já é notável.”

Obviamente, a leitura (ou o livro) não tem lugar nas prescrições médicas. Mas as suas vantagens têm sido divulgadas por muitos dos seus praticantes — Fernando Pessoa (1888-1935), através do heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego (1982), explicou que “há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua (...), imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher (...), frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana”; Resendes Ventura (1936-2013) considerou que “um bom momento de leitura tem de ser um momento de felicidade” (em Papel a mais, 2009); Tolentino Mendonça (n. 1965), em O que é amar um país (2020), lembrou que “em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” 

A escolha do leitor nem sempre é clara: às vezes, é para descobrir; noutras, para relembrar; também para encontrar outros sentires; ainda, para saber. O leitor não exige ao livro o remédio para (todos) os males, mas sabe alguma coisa do seu caminho de leitor: “O hábito de ler não faz necessariamente com que sejamos melhores pessoas, mas ensina-nos a observar com o olhar da mente a vastidão do mundo e a imensa variedade de situações e seres que o habitam. As nossas ideias tornam-se mais ágeis e a nossa imaginação, mais luminosa.” Quem o disse foi Irene Vallejo (n. 1979) na obra recentemente publicada entre nós, Manifesto pela leitura.

Afinal, Ruben A. talvez tenha razão na proposta prescritiva...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1810, 2026-07-29, pg. 10.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

João Felgueiras e José Alves Martins e as memórias de Timor (2)

 


Ler Nossas Memórias de Vida em Timor, de João Felgueiras e de José Alves Martins, é o mergulho nos tempos de terror que os timorenses viveram sob a ocupação indonésia, durante muito tempo a sós, sem que se soubesse no exterior, porquanto a passagem de informação era escassa e rara, sempre condicionada pela clandestinidade e pelas denúncias e prisões. A ambos os autores iam chegando muitos documentos com o objectivo de que os mesmos fossem passados para o exterior, tarefa difícil e demorada, pois, por vezes, tinham de esperar “2 ou 3 meses para encontrar um portador de absoluta confiança”.

A facilidade com que muitos timorenses foram feitos prisioneiros contraria quaisquer direitos humanos — “Não existia qualquer instância judiciária, prisões preventivas, julgamentos... o que existia era a arbitrariedade, a lei do mais forte e o ódio contra simpatizantes da FRETILIN ou acusadas por alguém, por vingança ou para adquirir uma quantia irrisória de dinheiro”. As práticas de tortura sofridas tornam-se indescritíveis devido à violência que as caracterizava — “A tortura consistia, entre outros modos de sofrimento, em choques eléctricos, pontas de cigarro, arrancar unhas, fazer as necessidades no prato com a comida, pisar os pés com as cadeiras com um militar sentado em cima, espancamentos até as vítimas ficarem destroçadas, passar dias inteiros dentro de bidões cheios de água, horas contínuas de interrogatórios, ameaças de todo o género, e o serem submetidos a todo o tipo de sevícias morais, sobretudo as raparigas e as mulheres.” Referem os autores que, “por respeito à sensibilidade de quem já sofreu tanto”, omitiram “contar mais pormenores”. No entanto, alguns casos mais são apontados: “Recordemos o famoso lugar de morte, Builico, perto de Ainaro, onde as vítimas eram atiradas por um precipício abaixo de mais de cem metros de altura”.

A pressão dos invasores contra a denúncia do que acontecia era notória pelas ameaças, ao mesmo tempo que entravam “milhares de cidadãos indonésios em Timor, todos afectos e defensores da integração de Timor na Indonésia”. Na prática, a população timorense, desde a invasão em Dezembro de 1975 até 1980, desceu de 600 mil para 400 mil habitantes, consequência de “um genocídio causado pela fome, doenças, bombardeamentos, fuzilamentos indiscriminados, mortes devido a prolongadas prisões, desaparecimentos fantasmas e outros”, acção que pretendeu apagar a história do povo mesmo no plano da vida escolar — “o curriculum escolar era totalmente em indonésio. Para levar por diante esta mudança de curriculum e língua, Timor foi invadido por professores vindos de todas as províncias da Indonésia. O português foi completamente banido, excepto no Externato de S. José e no Seminário de Nossa Senhora de Fátima. O povo nem sequer podia saudar em português e a língua indonésia ia sendo imposta pelas escolas, pela administração e pelos militares.”

Para Felgueiras e Martins, não há dúvidas de que Timor lutou sozinho na resistência, tendo eles próprios sido presenças indesejadas pelos invasores, posição notada pelas ameaças ou pelos impedimentos de regresso ao território — quando, em Novembro de 1986, João Felgueiras veio a Portugal, catorze anos depois da sua chegada a Timor, teve contactos com Deus Pinheiro (Ministro dos Negócios Estrangeiros), D. António Ribeiro (Patriarca de Lisboa) e D. Manuel Martins (Bispo de Setúbal), entre outros, dando-lhes conta do que se estava a passar naquele território, mas, para regressar, como era sua vontade, teve de esperar até Setembro de 1987 por um visto para regressar a Jacarta, onde teve de permanecer oito meses antes de entrar em Timor.

Ponto forte na cronologia da resistência timorense é o massacre de Santa Cruz, perpetrado em 12 de Novembro de 1991: só por volta das 4 da tarde os dois jesuítas tiveram acesso ao cemitério onde ocorreu o massacre — “manchas de sangue no terreno, roupas e calçado dispersos e um silêncio sepulcral (...). Teriam sido mortos ou feridos centenas de jovens. Quantos ao certo? Ninguém o sabe. (...) Muitos dos que foram levados ainda vivos para o hospital, ali acabaram de os matar.” Estas mortes no hospital, causadas por injecções letais e por torturas, são designadas como “segundo massacre de Santa Cruz” pelos autores, que enaltecem o papel corajoso desempenhado pelo jornalista Max Stahl ao filmar os acontecimentos e relatam a forma como as imagens conseguiram passar para o exterior via Japão.

A visibilidade do sofrimento trazida para o mundo pela atribuição, em 1996, do Nobel a Ximenes Belo e a Ramos Horta não impediu que, três anos depois, ainda antes do referendo quanto à independência, acontecesse novo massacre, em Liquiçá, em que foram atacadas centenas de pessoas, ou que, depois do referendo em que ganhou a independência, em Agosto de 1999, as milícias tenham começado um plano de destruição e de incêndios, levado a cabo até Setembro, quando as forças internacionais chegaram a Timor.

Ao longo destas memórias, vai sendo acentuado o papel desempenhado pela Igreja no apoio aos timorenses, bem como as represálias exercidas pelo invasor sobre os religiosos de várias ordens. No final, os autores celebram a experiência humana vivida pelo que aprenderam com a resiliência dos timorenses. Quer na redação das memórias quer nos excertos de cartas que acompanham o livro, o leitor pode ver a tentativa de contar pormenores da história vivida, sem que haja o alheamento das emoções e do sentido nesse tempo de sofrimento. A prova do compromisso dos dois padres com o povo com quem viveram muitos anos surge no final da oração que fecha o livro: “Senhor, dá força ao vosso Povo de Timor de ser digno, no presente e no futuro, do seu passado de heroísmo, sendo fiel aos valores humanos e cristãos dos seus maiores, muitos dos quais deram o seu sangue pela justiça, a fé e a liberdade.”

 

OBS: Em memória do padre João Felgueiras, falecido em Timor no início deste Julho, com 105 anos, de quem fui aluno, e que se nos impôs pela sua serenidade e humildade, pela sua disponibilidade e bonomia.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1805, 2026-07-22, pg. 10.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

João Felgueiras e José Alves Martins e as memórias de Timor (1)

 


Em 8 de Março de 2006, o jesuíta Manuel Morujão enviava carta para Timor, destinada ao também jesuíta João Felgueiras, congratulando-se: “Muito me alegro com a notícia de que o Padre Felgueiras e Padre Martins vão redigir ‘Umas memórias de Timor’. Acho que será um serviço apostólico muito importante, pois ajudará a ‘pôr os pontos nos is’, de muita meia verdade ou mesmo falsidade.” Um mês depois, a 7 de Abril, em nova missiva, Manuel Morujão dirigia-se aos dois jesuítas que estavam em missão em Timor, referindo-se ao livro que ambos preparavam: “Uma empresa muito meritória, directamente missionária, porque a missão também passa pela verdade histórica.”

A obra seria publicada nesse mesmo ano sob o título Nossas Memórias de Vida em Timor (Editorial Apostolado da Oração), assinada por João Felgueiras (1921-2026) e por José Alves Martins (1941-2022), e teria nova edição em 2010, apresentando-se organizada em três partes: o texto memorialístico do que os dois padres viveram em Timor entre 1974 e 2002; um conjunto de excertos de 44 cartas trocadas entre Timor e Portugal, datadas, mas com destinatários não indicados por razões de “discrição”; um capítulo final, “Via-Sacra do Povo de Timor Leste”, meditação em quinze estações lembrando o sofrimento dos timorenses (“O Povo de Timor sentiu a vossa Paixão durante 25 longos anos de violenta ocupação estrangeira. A vossa flagelação foi experimentada em milhares de timorenses, espancados e torturados da maneira mais atroz. Foram açoitados com paus, com cordas; foram torturados com choques eléctricos, com pontas de cigarro acesas, com as mais vis sevícias que os algozes inventavam para fazer sofrer”, primeira estação) e a esperança na construção do futuro (“Foi na esperança da vitória que o vosso povo de Timor lutou. Vitória pela liberdade, pela independência. Começa uma nova era de esperança e luz.”, décima quinta estação). 

O propósito dos dois autores é claro desde início — “Acompanhamos e vivemos os acontecimentos que se desenrolaram a partir de 1974 até 2006 em Timor Leste. Queremos deixar por escrito este testemunho vivido durante 32 anos.” Não é, assim, uma história vista de fora, mas um relato do vivido, muitas vezes tendo os próprios autores como protagonistas, ainda que a escrita insista no uso da terceira pessoa para se referir à acção dos dois padres, dando a ideia de um certo distanciamento de análise e de memória, embora, por vezes, em situações mais emotivas, surja a primeira pessoa do plural para se referir aos mesmos protagonistas. Umas linhas adiante, a insistência na vivência: “O depoimento que vamos iniciar refere-se à nossa experiência vivida durante 32 anos em Timor Leste. Não é uma narração dos acontecimentos com uma preocupação histórica, mas uma narração de quem viveu e acompanhou o drama do povo de Timor.” Este aspecto vivencial e testemunhal é depois valorizado, justificando possíveis lapsos: “Não nos valemos de documentação histórica, embora a possuíssemos abundantemente, mas a nossa preocupação não é fazer história, mas simplesmente transmitir a nossa experiência”, pois “pretendemos comunicar o que vivemos, ouvimos e sentimos, fazendo ao mesmo tempo uma reflexão pessoal.”

Assiste o leitor à confusão política em Timor a partir de Agosto de 1975 (mês de golpe e de contra-golpe em busca do poder), à crescente entrada da Indonésia no território, numa marcha prenunciadora da invasão como “acontecimento inevitável”, que viria a acontecer em 7 de Dezembro desse ano, depois de, em 28 de Novembro, ter sido proclamada a independência timorense. “Vivíamos juntamente com o povo uma ansiedade pela incerteza das ameaças que sentíamos, prevendo que a guerra se aproximava de nós”, confessam os autores.

O dia da invasão, 7 de Dezembro, é apresentado com as pinceladas da guerra: “Pelas cinco horas da madrugada, passavam pelos céus de Díli, a baixa altitude, vários aviões indonésios que lançavam vagas de paraquedistas (...). A baía de Díli, naquela manhã contava cerca de 22 navios de guerra e transportes de barcos de apoio. Frente à praia dos coqueiros, começaram a desembarcar das barcaças tanques anfíbios, disparando canhões à medida que se aproximavam da terra (...). Vários batalhões de marines invadiam Díli. Foi a partir deste momento que começou a grande carnificina, matando quase indiscriminadamente membros da população que não eram rapidamente identificados, ou simplesmente mortos à rajada.”

A partir daqui, foi a fuga das populações para a montanha, o início de um tempo que não foi só de êxodo, mas também de genocídio, em que nada foi poupado, incluindo os edifícios religiosos, onde diversas congregações, designadamente os jesuítas, davam apoio à população, e onde havia o propósito de fazer desaparecer a língua portuguesa — um dia, os militares visitaram a residência onde os jesuítas ficaram após a destruição parcial do seminário e, ao verem já ordenado o que sobrara da biblioteca, “sugeriram que queimássemos os livros. Na verdade, eram livros em língua portuguesa. Nós sorrimos em sinal de que não o faríamos. Acabar com a língua portuguesa era a palavra de ordem.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1800, 2026-07-15, pg. 10.