Ler Nossas Memórias de Vida em Timor, de João Felgueiras e de José Alves Martins, é o mergulho nos tempos de terror que os timorenses viveram sob a ocupação indonésia, durante muito tempo a sós, sem que se soubesse no exterior, porquanto a passagem de informação era escassa e rara, sempre condicionada pela clandestinidade e pelas denúncias e prisões. A ambos os autores iam chegando muitos documentos com o objectivo de que os mesmos fossem passados para o exterior, tarefa difícil e demorada, pois, por vezes, tinham de esperar “2 ou 3 meses para encontrar um portador de absoluta confiança”.
A facilidade com que muitos timorenses foram feitos prisioneiros contraria quaisquer direitos humanos — “Não existia qualquer instância judiciária, prisões preventivas, julgamentos... o que existia era a arbitrariedade, a lei do mais forte e o ódio contra simpatizantes da FRETILIN ou acusadas por alguém, por vingança ou para adquirir uma quantia irrisória de dinheiro”. As práticas de tortura sofridas tornam-se indescritíveis devido à violência que as caracterizava — “A tortura consistia, entre outros modos de sofrimento, em choques eléctricos, pontas de cigarro, arrancar unhas, fazer as necessidades no prato com a comida, pisar os pés com as cadeiras com um militar sentado em cima, espancamentos até as vítimas ficarem destroçadas, passar dias inteiros dentro de bidões cheios de água, horas contínuas de interrogatórios, ameaças de todo o género, e o serem submetidos a todo o tipo de sevícias morais, sobretudo as raparigas e as mulheres.” Referem os autores que, “por respeito à sensibilidade de quem já sofreu tanto”, omitiram “contar mais pormenores”. No entanto, alguns casos mais são apontados: “Recordemos o famoso lugar de morte, Builico, perto de Ainaro, onde as vítimas eram atiradas por um precipício abaixo de mais de cem metros de altura”.
A pressão dos invasores contra a denúncia do que acontecia era notória pelas ameaças, ao mesmo tempo que entravam “milhares de cidadãos indonésios em Timor, todos afectos e defensores da integração de Timor na Indonésia”. Na prática, a população timorense, desde a invasão em Dezembro de 1975 até 1980, desceu de 600 mil para 400 mil habitantes, consequência de “um genocídio causado pela fome, doenças, bombardeamentos, fuzilamentos indiscriminados, mortes devido a prolongadas prisões, desaparecimentos fantasmas e outros”, acção que pretendeu apagar a história do povo mesmo no plano da vida escolar — “o curriculum escolar era totalmente em indonésio. Para levar por diante esta mudança de curriculum e língua, Timor foi invadido por professores vindos de todas as províncias da Indonésia. O português foi completamente banido, excepto no Externato de S. José e no Seminário de Nossa Senhora de Fátima. O povo nem sequer podia saudar em português e a língua indonésia ia sendo imposta pelas escolas, pela administração e pelos militares.”
Para Felgueiras e Martins, não há dúvidas de que Timor lutou sozinho na resistência, tendo eles próprios sido presenças indesejadas pelos invasores, posição notada pelas ameaças ou pelos impedimentos de regresso ao território — quando, em Novembro de 1986, João Felgueiras veio a Portugal, catorze anos depois da sua chegada a Timor, teve contactos com Deus Pinheiro (Ministro dos Negócios Estrangeiros), D. António Ribeiro (Patriarca de Lisboa) e D. Manuel Martins (Bispo de Setúbal), entre outros, dando-lhes conta do que se estava a passar naquele território, mas, para regressar, como era sua vontade, teve de esperar até Setembro de 1987 por um visto para regressar a Jacarta, onde teve de permanecer oito meses antes de entrar em Timor.
Ponto forte na cronologia da resistência timorense é o massacre de Santa Cruz, perpetrado em 12 de Novembro de 1991: só por volta das 4 da tarde os dois jesuítas tiveram acesso ao cemitério onde ocorreu o massacre — “manchas de sangue no terreno, roupas e calçado dispersos e um silêncio sepulcral (...). Teriam sido mortos ou feridos centenas de jovens. Quantos ao certo? Ninguém o sabe. (...) Muitos dos que foram levados ainda vivos para o hospital, ali acabaram de os matar.” Estas mortes no hospital, causadas por injecções letais e por torturas, são designadas como “segundo massacre de Santa Cruz” pelos autores, que enaltecem o papel corajoso desempenhado pelo jornalista Max Stahl ao filmar os acontecimentos e relatam a forma como as imagens conseguiram passar para o exterior via Japão.
A visibilidade do sofrimento trazida para o mundo pela atribuição, em 1996, do Nobel a Ximenes Belo e a Ramos Horta não impediu que, três anos depois, ainda antes do referendo quanto à independência, acontecesse novo massacre, em Liquiçá, em que foram atacadas centenas de pessoas, ou que, depois do referendo em que ganhou a independência, em Agosto de 1999, as milícias tenham começado um plano de destruição e de incêndios, levado a cabo até Setembro, quando as forças internacionais chegaram a Timor.
Ao longo destas memórias, vai sendo acentuado o papel desempenhado pela Igreja no apoio aos timorenses, bem como as represálias exercidas pelo invasor sobre os religiosos de várias ordens. No final, os autores celebram a experiência humana vivida pelo que aprenderam com a resiliência dos timorenses. Quer na redação das memórias quer nos excertos de cartas que acompanham o livro, o leitor pode ver a tentativa de contar pormenores da história vivida, sem que haja o alheamento das emoções e do sentido nesse tempo de sofrimento. A prova do compromisso dos dois padres com o povo com quem viveram muitos anos surge no final da oração que fecha o livro: “Senhor, dá força ao vosso Povo de Timor de ser digno, no presente e no futuro, do seu passado de heroísmo, sendo fiel aos valores humanos e cristãos dos seus maiores, muitos dos quais deram o seu sangue pela justiça, a fé e a liberdade.”
OBS: Em memória do padre João Felgueiras, falecido em Timor no início deste Julho, com 105 anos, de quem fui aluno, e que se nos impôs pela sua serenidade e humildade, pela sua disponibilidade e bonomia.
* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1805, 2026-07-22, pg. 10.







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