sexta-feira, 24 de julho de 2026

João Felgueiras e José Alves Martins e as memórias de Timor (2)

 


Ler Nossas Memórias de Vida em Timor, de João Felgueiras e de José Alves Martins, é o mergulho nos tempos de terror que os timorenses viveram sob a ocupação indonésia, durante muito tempo a sós, sem que se soubesse no exterior, porquanto a passagem de informação era escassa e rara, sempre condicionada pela clandestinidade e pelas denúncias e prisões. A ambos os autores iam chegando muitos documentos com o objectivo de que os mesmos fossem passados para o exterior, tarefa difícil e demorada, pois, por vezes, tinham de esperar “2 ou 3 meses para encontrar um portador de absoluta confiança”.

A facilidade com que muitos timorenses foram feitos prisioneiros contraria quaisquer direitos humanos — “Não existia qualquer instância judiciária, prisões preventivas, julgamentos... o que existia era a arbitrariedade, a lei do mais forte e o ódio contra simpatizantes da FRETILIN ou acusadas por alguém, por vingança ou para adquirir uma quantia irrisória de dinheiro”. As práticas de tortura sofridas tornam-se indescritíveis devido à violência que as caracterizava — “A tortura consistia, entre outros modos de sofrimento, em choques eléctricos, pontas de cigarro, arrancar unhas, fazer as necessidades no prato com a comida, pisar os pés com as cadeiras com um militar sentado em cima, espancamentos até as vítimas ficarem destroçadas, passar dias inteiros dentro de bidões cheios de água, horas contínuas de interrogatórios, ameaças de todo o género, e o serem submetidos a todo o tipo de sevícias morais, sobretudo as raparigas e as mulheres.” Referem os autores que, “por respeito à sensibilidade de quem já sofreu tanto”, omitiram “contar mais pormenores”. No entanto, alguns casos mais são apontados: “Recordemos o famoso lugar de morte, Builico, perto de Ainaro, onde as vítimas eram atiradas por um precipício abaixo de mais de cem metros de altura”.

A pressão dos invasores contra a denúncia do que acontecia era notória pelas ameaças, ao mesmo tempo que entravam “milhares de cidadãos indonésios em Timor, todos afectos e defensores da integração de Timor na Indonésia”. Na prática, a população timorense, desde a invasão em Dezembro de 1975 até 1980, desceu de 600 mil para 400 mil habitantes, consequência de “um genocídio causado pela fome, doenças, bombardeamentos, fuzilamentos indiscriminados, mortes devido a prolongadas prisões, desaparecimentos fantasmas e outros”, acção que pretendeu apagar a história do povo mesmo no plano da vida escolar — “o curriculum escolar era totalmente em indonésio. Para levar por diante esta mudança de curriculum e língua, Timor foi invadido por professores vindos de todas as províncias da Indonésia. O português foi completamente banido, excepto no Externato de S. José e no Seminário de Nossa Senhora de Fátima. O povo nem sequer podia saudar em português e a língua indonésia ia sendo imposta pelas escolas, pela administração e pelos militares.”

Para Felgueiras e Martins, não há dúvidas de que Timor lutou sozinho na resistência, tendo eles próprios sido presenças indesejadas pelos invasores, posição notada pelas ameaças ou pelos impedimentos de regresso ao território — quando, em Novembro de 1986, João Felgueiras veio a Portugal, catorze anos depois da sua chegada a Timor, teve contactos com Deus Pinheiro (Ministro dos Negócios Estrangeiros), D. António Ribeiro (Patriarca de Lisboa) e D. Manuel Martins (Bispo de Setúbal), entre outros, dando-lhes conta do que se estava a passar naquele território, mas, para regressar, como era sua vontade, teve de esperar até Setembro de 1987 por um visto para regressar a Jacarta, onde teve de permanecer oito meses antes de entrar em Timor.

Ponto forte na cronologia da resistência timorense é o massacre de Santa Cruz, perpetrado em 12 de Novembro de 1991: só por volta das 4 da tarde os dois jesuítas tiveram acesso ao cemitério onde ocorreu o massacre — “manchas de sangue no terreno, roupas e calçado dispersos e um silêncio sepulcral (...). Teriam sido mortos ou feridos centenas de jovens. Quantos ao certo? Ninguém o sabe. (...) Muitos dos que foram levados ainda vivos para o hospital, ali acabaram de os matar.” Estas mortes no hospital, causadas por injecções letais e por torturas, são designadas como “segundo massacre de Santa Cruz” pelos autores, que enaltecem o papel corajoso desempenhado pelo jornalista Max Stahl ao filmar os acontecimentos e relatam a forma como as imagens conseguiram passar para o exterior via Japão.

A visibilidade do sofrimento trazida para o mundo pela atribuição, em 1996, do Nobel a Ximenes Belo e a Ramos Horta não impediu que, três anos depois, ainda antes do referendo quanto à independência, acontecesse novo massacre, em Liquiçá, em que foram atacadas centenas de pessoas, ou que, depois do referendo em que ganhou a independência, em Agosto de 1999, as milícias tenham começado um plano de destruição e de incêndios, levado a cabo até Setembro, quando as forças internacionais chegaram a Timor.

Ao longo destas memórias, vai sendo acentuado o papel desempenhado pela Igreja no apoio aos timorenses, bem como as represálias exercidas pelo invasor sobre os religiosos de várias ordens. No final, os autores celebram a experiência humana vivida pelo que aprenderam com a resiliência dos timorenses. Quer na redação das memórias quer nos excertos de cartas que acompanham o livro, o leitor pode ver a tentativa de contar pormenores da história vivida, sem que haja o alheamento das emoções e do sentido nesse tempo de sofrimento. A prova do compromisso dos dois padres com o povo com quem viveram muitos anos surge no final da oração que fecha o livro: “Senhor, dá força ao vosso Povo de Timor de ser digno, no presente e no futuro, do seu passado de heroísmo, sendo fiel aos valores humanos e cristãos dos seus maiores, muitos dos quais deram o seu sangue pela justiça, a fé e a liberdade.”

 

OBS: Em memória do padre João Felgueiras, falecido em Timor no início deste Julho, com 105 anos, de quem fui aluno, e que se nos impôs pela sua serenidade e humildade, pela sua disponibilidade e bonomia.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1805, 2026-07-22, pg. 10.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

João Felgueiras e José Alves Martins e as memórias de Timor (1)

 


Em 8 de Março de 2006, o jesuíta Manuel Morujão enviava carta para Timor, destinada ao também jesuíta João Felgueiras, congratulando-se: “Muito me alegro com a notícia de que o Padre Felgueiras e Padre Martins vão redigir ‘Umas memórias de Timor’. Acho que será um serviço apostólico muito importante, pois ajudará a ‘pôr os pontos nos is’, de muita meia verdade ou mesmo falsidade.” Um mês depois, a 7 de Abril, em nova missiva, Manuel Morujão dirigia-se aos dois jesuítas que estavam em missão em Timor, referindo-se ao livro que ambos preparavam: “Uma empresa muito meritória, directamente missionária, porque a missão também passa pela verdade histórica.”

A obra seria publicada nesse mesmo ano sob o título Nossas Memórias de Vida em Timor (Editorial Apostolado da Oração), assinada por João Felgueiras (1921-2026) e por José Alves Martins (1941-2022), e teria nova edição em 2010, apresentando-se organizada em três partes: o texto memorialístico do que os dois padres viveram em Timor entre 1974 e 2002; um conjunto de excertos de 44 cartas trocadas entre Timor e Portugal, datadas, mas com destinatários não indicados por razões de “discrição”; um capítulo final, “Via-Sacra do Povo de Timor Leste”, meditação em quinze estações lembrando o sofrimento dos timorenses (“O Povo de Timor sentiu a vossa Paixão durante 25 longos anos de violenta ocupação estrangeira. A vossa flagelação foi experimentada em milhares de timorenses, espancados e torturados da maneira mais atroz. Foram açoitados com paus, com cordas; foram torturados com choques eléctricos, com pontas de cigarro acesas, com as mais vis sevícias que os algozes inventavam para fazer sofrer”, primeira estação) e a esperança na construção do futuro (“Foi na esperança da vitória que o vosso povo de Timor lutou. Vitória pela liberdade, pela independência. Começa uma nova era de esperança e luz.”, décima quinta estação). 

O propósito dos dois autores é claro desde início — “Acompanhamos e vivemos os acontecimentos que se desenrolaram a partir de 1974 até 2006 em Timor Leste. Queremos deixar por escrito este testemunho vivido durante 32 anos.” Não é, assim, uma história vista de fora, mas um relato do vivido, muitas vezes tendo os próprios autores como protagonistas, ainda que a escrita insista no uso da terceira pessoa para se referir à acção dos dois padres, dando a ideia de um certo distanciamento de análise e de memória, embora, por vezes, em situações mais emotivas, surja a primeira pessoa do plural para se referir aos mesmos protagonistas. Umas linhas adiante, a insistência na vivência: “O depoimento que vamos iniciar refere-se à nossa experiência vivida durante 32 anos em Timor Leste. Não é uma narração dos acontecimentos com uma preocupação histórica, mas uma narração de quem viveu e acompanhou o drama do povo de Timor.” Este aspecto vivencial e testemunhal é depois valorizado, justificando possíveis lapsos: “Não nos valemos de documentação histórica, embora a possuíssemos abundantemente, mas a nossa preocupação não é fazer história, mas simplesmente transmitir a nossa experiência”, pois “pretendemos comunicar o que vivemos, ouvimos e sentimos, fazendo ao mesmo tempo uma reflexão pessoal.”

Assiste o leitor à confusão política em Timor a partir de Agosto de 1975 (mês de golpe e de contra-golpe em busca do poder), à crescente entrada da Indonésia no território, numa marcha prenunciadora da invasão como “acontecimento inevitável”, que viria a acontecer em 7 de Dezembro desse ano, depois de, em 28 de Novembro, ter sido proclamada a independência timorense. “Vivíamos juntamente com o povo uma ansiedade pela incerteza das ameaças que sentíamos, prevendo que a guerra se aproximava de nós”, confessam os autores.

O dia da invasão, 7 de Dezembro, é apresentado com as pinceladas da guerra: “Pelas cinco horas da madrugada, passavam pelos céus de Díli, a baixa altitude, vários aviões indonésios que lançavam vagas de paraquedistas (...). A baía de Díli, naquela manhã contava cerca de 22 navios de guerra e transportes de barcos de apoio. Frente à praia dos coqueiros, começaram a desembarcar das barcaças tanques anfíbios, disparando canhões à medida que se aproximavam da terra (...). Vários batalhões de marines invadiam Díli. Foi a partir deste momento que começou a grande carnificina, matando quase indiscriminadamente membros da população que não eram rapidamente identificados, ou simplesmente mortos à rajada.”

A partir daqui, foi a fuga das populações para a montanha, o início de um tempo que não foi só de êxodo, mas também de genocídio, em que nada foi poupado, incluindo os edifícios religiosos, onde diversas congregações, designadamente os jesuítas, davam apoio à população, e onde havia o propósito de fazer desaparecer a língua portuguesa — um dia, os militares visitaram a residência onde os jesuítas ficaram após a destruição parcial do seminário e, ao verem já ordenado o que sobrara da biblioteca, “sugeriram que queimássemos os livros. Na verdade, eram livros em língua portuguesa. Nós sorrimos em sinal de que não o faríamos. Acabar com a língua portuguesa era a palavra de ordem.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1800, 2026-07-15, pg. 10.


quarta-feira, 15 de julho de 2026

Alice Brito: um romance entre a memória e a liberdade (3)

 


O romance Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, tem, como um dos lugares de acção, Setúbal, por ter sido aqui que, em Agosto de 1922, nasceu uma das personagens da história, Beatriz. “Um mês depois, começou a epopeia grevista. Epopeia, sim senhor. Até Homero, se fosse vivo, teria contado esta odisseia setubalense. Há nesta greve uma épica de sofrimento, justeza de propósito e persistência. E derrota.”

A chamada do clássico épico para a história é um bom recurso para caucionar o que a narradora já tinha dito sobre a caracterização do local, numa perspectiva de contextualização histórica e social do ambiente então vivido na margem do Sado, cidade abalada pela fome, a sofrer os efeitos da peste suína, da falta de farinha, da dificuldade no abastecimento de água, do encerramento de fábricas de conservas e de um conflito laboral que, em Setembro desse ano, conduziu à greve, passando por momentos de estado de sítio, de prisões, até ao estancamento, no final de Novembro, do período grevista, com muito poucos ganhos para o operariado. “O movimento operário sofreu que nem um desalmado este fracasso, a tristeza a revelar-se a cada dia em que de novo se entrava na fábrica. Tinha caído em si, vendo agora a insensatez dos mais de noventa dias de luta falhada.”

O leitor acompanha a evolução de Beatriz, na Escola Comercial e a trabalhar no balcão de uma loja de louças, com o retrato social do pequeno comércio, não esquecendo as regras de funcionamento da escola — aulas separadas para rapazes e raparigas — ou as da conveniência social (a conquista de um emprego melhor para Beatriz a troco de esta namorar com o sobrinho da empregadora). Marcas do que era a cidade surgem aqui e ali: a descrição do Bairro Baptista, a menção de espaços como a Avenida dos Combatentes ou a rua “a que deram o nome de General Daniel de Sousa” (antes, a “antiga estrada para Lisboa”); referência a instituições como o quartel, a Associação de Socorros Mútuos, o Clube de Campismo, o hospital do Outão, o café Central, o Esperança, o Tribunal de Setúbal ou a Sociedade Capricho Setubalense; os momentos da vida social na Praça de Bocage, do ambiente vivido na sessão do MUD sadino (Outubro de 1945), dos passeios de namorados no Parque do Bonfim. A história vai vivendo com as tensões entre homem e mulher, perpassando as situações de exercício de autoridade na casa e sobre o outro, de violência doméstica, de relações extra-conjugais, de desregramento devido ao jogo, a par com as questões emotivas trazidas pela morte ou por separações, não faltando ainda o condimento potencialmente explosivo dos dizeres da vizinhança nas apreciações sobre a conduta de cada um — “No dia seguinte todo o bairro falava, comentava, salivava, avaliava a relação entre o major e a sua protegida. As especulações sucederam-se. O sargento (...) suicidara-se ao descobrir que o filho não era dele. Era do major. O bairro, invejoso, relembrava agora o montão de coisas que Beatriz recebia, vindas do quartel. Parece que até um queijo. Daqueles de casca encarnada. Aquilo era uma pouca vergonha. A vizinhança começou a fazer vista grossa. Algumas mulheres continuaram a falar com ela, mas às escondidas umas das outras e, sobretudo, de alguns maridos.”, afinal o ambiente numa cidade ocupada pela “geografia da má-língua”.

Também o trajecto da personagem Benvinda, de São João da Madeira, é pretexto para referências à Setúbal dos anos 60, quando veio para a beira-Sado acompanhada por Dinis Évora, ambos militantes comunistas na clandestinidade. A procura de casa no recém-criado Bairro do Liceu (Rua Jean Raymond) é oportunidade para que se fale das condições de habitação reinantes, mostrando o que nestes novos prédios havia e que não existia nos outros, como casas de banho, cozinha ou elevadores, zona que era “coisa nova e coisa boa, mesmo chique”. O aparente paradoxo entre a militância em favor dos mais desprotegidos e a habitação num sítio mais refinado é explicado pelas razões de segurança na clandestinidade — “O Partido apostava agora no arrendamento de casa em sítios bons. Foi entendido que os habitantes clandestinos estariam mais protegidos entre a população menos miserável do que em casas ou casebres isolados edificados em paisagens ignotas.” A vida de vizinhança neste bairro é bem caracterizada em “Perdeu-se relógio de senhora”, mesmo porque, coincidentemente, também a personagem Beatriz passará a viver na mesma rua que Benvinda (agora chamada Ana Maria), chegando ambas a cruzarem-se na rua, na mercearia, nas dores e na descoberta.

A história acontece também noutros espaços, decorrentes das mudanças de residência ou das condições de vida das personagens — ou porque há a decisão de viver noutro lado (Lisboa, por exemplo) ou porque, no caminho, os pides interrompem a vida. No final, as três figuras femininas encontram-se e convivem, os tempos são outros. A narradora acompanha-as independentemente do espaço e vai dando notas da prisão, da vida, da guerra colonial, das mudanças (por vezes lentas, outras vezes em crescendo), frequentemente identificando-se com elas, pelo menos nos pontos de vista (para o que muito serve o discurso indirecto livre, em que, muitas vezes, as vozes das personagens e da narradora se misturam).

Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, entra pelo romance histórico, na medida em que os contextos geográficos e sociais em que a acção decorre são retratos epocais, sociais e locais fácil e propositadamente identificáveis, razões que fazem com que esta obra seja também memória, além de ser literatura.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1795, 2026-07-08, pg. 10.


terça-feira, 7 de julho de 2026

Obrigado, Padre João Felgueiras!



As cerimónias fúnebres do jesuíta João Felgueiras (9.Jun.1921-3.Jul.2026) aconteceram hoje em Díli. Conheci o Padre João Felgueiras em Cernache, no Colégio Apostólico da Imaculada Conceição, no final dos anos 60. Tive-o como professor e como educador. A sua serenidade e a sua humildade, a sua disponibilidade e bonomia marcaram-me, bem como a muitos dos meus colegas. Fui tendo notícias sobre ele através de amigos que com ele se cruzaram em Timor e a partir do livro Nossas Memórias de Vida em Timor, que redigiu em co-autoria com o jesuíta José Alves Martins (1941-2022). Ainda há poucos dias me regozijava com os seus 105 anos. Hoje, é um dia triste. Obrigado pelo que nos ensinou e pelo seu compromisso com a Humanidade, Padre Felgueiras.


Alice Brito: um romance entre a memória e a liberdade (2)

 


A história de Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, é-nos contada por uma narradora que vai partilhando com o leitor muitos esgares de dúvida sobre a construção da narrativa e sobre o papel de quem narra. Vale a pena determo-nos em três parágrafos repletos de reflexão sobre o gesto de escrever ou de narrar: “Quem narra seja o que for, quando conta qualquer coisa, só pode falar daquilo que supõe, ou imagina. A maior parte das vezes, a dita narrativa é uma grandessíssima impostura porque, não tendo sido testemunhada, mais não é do que uma descrição de coisas inexistentes e, portanto, não provadas. / Escrever é soltar a indecisão e a insegurança e depois tourear as duas. O toureio aqui não é lide marialva. É fazer pega de caras aos perigos de registo do pensamento, que são muitíssimos. O autor ou autora por vezes vigariza um texto que está à espera de ser escrito. E também por ele é vigarizado vezes sem conta. / Quem escreve julga-se todo-poderoso. Será? E quando as palavras se recusam a aparecer? E quando aparecem moles e se queriam rijas? E quando se quer falar de amor e se acaba a falar em tremoços ou favas com chouriço?”

Fica claro que a narradora permanentemente assume a responsabilidade de conduzir a história, mesmo nos momentos em que parece divagar, como acentua quando evoca a inauguração da linha do Vouga por D. Manuel II, em Novembro de 1908 — “É claro que os factos são estes. Lá o que o rei sentiu ou deixou de sentir, se tinha frio ou calor, calor não devia ter, se tinha pressa ou vagar, é mera especulação da narradora. Os factos são estes. O resto é conversa.” Noutros momentos, necessita de chamar a atenção da leitura para a dureza da realidade, como ocorre quando menciona que, na década de 1930, o trabalho não tinha horários — “Quando aqui se fala em muitas horas, não se está a romancear, inventar ou dar uma patine de neo-realismo ao texto. Fala-se de jornadas que podiam ir até às catorze horas.” Essa responsabilidade da narradora perante o narrado leva-a mesmo a dirigir-se ao leitor com o objectivo de lhe garantir a autenticidade do que conta, como sucede quando comenta um episódio: “Ai, senhores, que isto parece cena de filme. Parece, mas não é. Tudo isto é verdade.”; para garantir essa mesma autenticidade, noutro momento, quando tenta denunciar os recursos que o poder utiliza para se manter, depois de elaborar uma lista, anuncia: “Basta de panfleto”.

As reflexões da narradora passam também pela ponderação quanto à palavra utilizada na narração, por vezes para encontrar a melhor forma de expressão (“as palavras deixam marcas, impressões digitais, rastos, pegadas. Deixam, sobretudo, o grande vício de pensar.”), outras vezes para ironizar com o próprio processo de escrita (“Estava já calor e o rio parecia repleto de lantejoulas. (...) Um rio repleto de lantejoulas. A frase é um bocado pirosa, mas era assim que ela via aquela superfície muito azul a namorar a cidade, namoro, aliás, correspondido. Uma superfície muito azul a namorar a cidade integra também paleio menor. Paciência!”), outras ainda para reforçar a razão da escolha — ao relembrar o ambiente de contestação crescente à política vigente no ano anterior à Revolução, a narradora explica: “Que a gente não se esqueça de que estamos em 73. 1973. (...) Um regime toureado. Uma tourada. Só que era o touro que, mano a mano, ia toureando os cavaleiros sinistros do regime. É melhor deixar este paleio. Aqui não se gosta de tauromaquias. Algum poder o autor ou autora há-de ter sobre o texto, não é verdade?”, uma reflexão a que não é alheio o facto de esse ter sido o ano em que Fernando Tordo ganhou o Festival da Canção com a interpretação de “Tourada”, um poema de Ary dos Santos...

A necessidade de mostrar que a escrita é um acto de construção e de pensamento e que a própria palavra se afigura muitas vezes como insuficiente para revelar as emoções, mostra-a Alice Brito no momento em que descreve a euforia sentida no dia 25 de Abril: “Um rosário de palavras de ordem surgia espontâneo, voraz, imediato, intenso, abaixo isto, viva aquilo, o vendaval emotivo da tarde a dar lugar à grande planície do gáudio. Da vitória. A palavra à solta, aos pulos, em gingados retóricos, tem grande tendência para a alegria.” Contudo, perante todo esse jorrar de sentimentos, “contar o que as gentes sentiam é tarefa difícil. Qual a cor daquela manhã, que brilho tinha uma gota de chuva, qual a norma do sentir...? Contar o susto de toda a fascistada é um acto de folia literária.”

A história chega ao fim quando a narradora também descobre que “é no pacto com as palavras que o pensamento se esmera”, a última frase do romance, uma chave que explica o regozijo do dizer em tempos de liberdade e também o silêncio imposto pelo medo da denúncia, da tortura ou da prisão em tempos de repressão, dois tempos que as personagens desta história conheceram e povoaram.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1790, 2026-07-01, pg. 10.


terça-feira, 30 de junho de 2026

"Arrábida", revista cultural, nasceu em Setúbal


Em 26 de Junho, em Setúbal, nasceu uma revista digital, Arrábida - Pensamento, Cultura, Opinião, apresentada nas instalações do MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal).

Retomando o título de uma publicação de número único divulgada em Setúbal em 1 de Julho de 1899, Arrábida, em que colaboraram Ana de Castro Osório, Paulino de Oliveira, Oliveira Parreira, Arronches Junqueiro e Manuel Maria Portela, entre outros, esta revista pretende fomentar a divulgação cultural dedicada ao encontro entre o pensamento, a cultura, a opinião, as Humanidades e a Ciência.

Na sua coordenação estão João Reis Ribeiro, José Alex Gandum e Salvador Peres; no seu conselho editorial estão Alberto Pereira, António Melo, Francisco Borba, Isabel Melo, João Coelho, Nuno David e Viriato Soromenho-Marques.

O primeiro número, que inclui a reprodução do jornal que inspirou o título, reúne colaboração de 24 autores e é acompanhado pelo caderno Arrábida, "serra-mãe" há 80 anos — Sobre 'Serra-Mãe', o primeiro livro de Sebastião da Gama, editado pela Associação Cultural Sebastião da Gama, entidade parceira deste projecto, juntamente com o grupo Synapsis.

A revista (de publicação semestral prevista) e o caderno são de acesso livre e podem ser lidos nos endereços


https://online.fliphtml5.com/revistaarrabida/qguy/#p=1 - anexo à revista Arrábida, n.º 1, sobre Serra-Mãe, de Sebastião da Gama.

Alice Brito: um romance entre a memória e a liberdade (1)

 


Beatriz (Setúbal, 1922), Benvinda (São João da Madeira, 1932) e Bia (Évora, 1952) são as três personagens que dominam Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito (Companhia das Letras, 2026), figuras que significam muito mais do que protagonistas individuais, pois carregam também as histórias das regiões a que pertencem, sobretudo nas relações feitas pela sociedade.

“Beatriz, Benvinda e Bia. Adjudiquem-se as vidas.” É a primeira apresentação que a narradora faz das três mulheres com quem a leitura vai conviver numa história que corre durante cerca de 50 anos, até 1974, observação mostrada logo no capítulo inicial, quando, desta forma sumária, são mencionadas como moradoras em Lisboa, à data de 22 de Abril de 1974.

O romance corre organizado em três partes, recuando, em jeito de analepse, aos anos de nascimento das personagens e enriquecido com as informações de contexto ao longo do tempo da acção, até ao retomar dos acontecimentos de Abril de 1974 no final da história (findando com uma narração rápida sobre o ano de 1975 para esclarecer sobre o destino das personagens): a primeira, consagrando um capítulo a cada uma das personagens, contextualiza em termos sociais e históricos o meio a que pertencem e em que vão crescer; a segunda, em que os capítulos continuam a assumir os nomes das personagens nos respectivos títulos, dá conta do seu crescimento, dos seus relacionamentos, compromissos e decisões, com  importantes referências à forma de viver nas décadas de 1950 e de 1960; a terceira, dividida em cinco capítulos, corre marcada pelo tempo, dominada pelas marcas da década de 1970, constando em cada título um dos anos dessa década, quase como se estivéssemos em contagem anunciadora do fim da história, cada vez mais próximo.

A narrativa decorre sobre ideias fortes, também elas tomadas de posição, fundamentadas nas histórias contadas e nas vivências das personagens e dos meios que elas frequentam, muitas vezes projectando a crítica para os tempos actuais: a mudança como causa (“a convicção de mudança e, sobretudo, o desejo de mudança estavam presentes, tão presentes como o chão que se pisava”); a violência doméstica (“Leocádio passou a bater-lhe. Bofetões, de preferência. Se ela dizia qualquer coisa, logo a mão dele se levantava em ameaça.”); a desigualdade de estatuto entre homem e mulher (“é assim, filha, tens de aguentar. Mais dia, menos dia, ficas prenha e, com crianças por perto, até te esqueces do resto.  Pode ser.  Tens sorte que ele não te trata mal. Comigo, as mais das vezes, é à força de porrada. E bêbado. Muita porrada já eu apanhei.”); o poder do consumismo (além de utilidades domésticas, as lojas estavam também atafulhadas de “inutilidades, embora naquele tempo não houvesse a catadupa de porcarias sem préstimo que hoje se compram e nunca se usam”); a prática da justiça (“O aparato de um tribunal era feito de autoridades presumidas e presunçosas, por fardas de seita, vozes especiais e técnicas, perguntas rituais, formas de comunicação encriptadas. O medo, a intimidação, a arrogância e, as mais das vezes, a arbitrariedade faziam parte da civilização judiciária. Ainda fazem.”); o medo e a falta de liberdade (“as palavras podiam custar um preço exorbitante naqueles tempos”); o sofrimento e a tortura provocados sobre os presos pela polícia política (“Não vale a pena perguntar-lhes nada quando cá chegam, que os gajos ao princípio não abrem a boca. É preciso amaciá-los, dizia. Foi de cinto a murro e depois a pontapé, já nu e caído no chão.”).

Além das marcas temporais que surgem nos títulos dos capítulos, o tempo da narrativa vai sendo pautado pelo registo de acontecimentos da história local, nacional ou internacional — entre outros, a inauguração do primeiro troço da linha férrea do Vouga (1908), a greve geral da indústria conserveira, com incidência em Setúbal (1922), a anexação da Áustria por Hitler (1938), as manifestações de regozijo com o fim da guerra (1945), a inauguração da ponte da Arrábida (1963), o cinquentenário das aparições de Fátima ou o assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz (1967), a greve geral em Paris (1968), a chegada do homem à Lua (1969), o lançamento do álbum “Traz outro amigo também” de José Afonso (1970), a vigília pela paz na Capela do Rato (1972), o golpe militar no Chile (1973). A indicação destas e de outras datas, além de ir marcando o tempo, serve para relacionar a memória colectiva com as memórias das personagens (ou o que elas significam), estabelecendo identidades ou afastamentos entre o que foi enaltecido e o que foi vivido, o que foi propaganda e o que foi a realidade.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1785, 2026-06-24, pg. 10.


domingo, 14 de junho de 2026

Diário - Entre o diálogo e a confidência (1)


Ler diários é uma forma de aprender a reagir e a lidar com a vida e com o mundo, seja porque podemos encontrar soluções coerentes ou imaginativas, seja porque podemos conviver com trajectos que não se nos adequam ou que nos fascinam. Em todo o caso, um diário oferece-nos aquilo que é uma aparente confidência, o resultado de momentos de diálogo do diarista consigo, um frente-a-frente do eu com o tempo da escrita (ou consigo), instantes que são de isolamento, de reflexão, de selecção (ou lembrança) dos momentos e dos pensamentos acontecidos ou sentidos, um gesto em que o registo mais se assemelha a um espelho (mesmo que retrovisor), em que fica o que marca, em que se nega o esquecimento. Tinha Ruy Cinatti (1915-1986) os seus 19 anos quando justificou o seu diário — “O que vou fazer, vai-me servir de espelho retrospectivo. Porque eu necessito muito, dadas as minhas condições de vida e a minha maneira de ser; e a melhor maneira de eu me poder analisar é fixar, duma maneira mais duradoura do que a memória, todos os acontecimentos da minha vida, de tal forma que possa desenvolver o que em mim há de bom e combater tudo que me seja prejudicial tanto ao espírito como ao corpo, é redigindo um diário.” (em Diários 1933-1943, Universidade Católica Editora, 2025).

“Aparente confidência”, como ficou registado acima. Inicialmente, é o guardar segredo, uma forma de preservar para si o importante da vida. E assim pode continuar a ser, se o diário se mantiver conhecido apenas pelo próprio. Mas, se lemos diários, é porque alguém decidiu partilhar connosco os supostos segredos da sua vida, construídos sobre os acontecimentos privados ou públicos, sobre os pensamentos e as emoções, sobre a vida como construção e caminho, afinal, o essencial em que assenta um diário, pois, como explicou João Bigotte Chorão (1933-2019), em Diário 2000-2015 (Imprensa Nacional, 2017), “só ao homem interior é dado escrever boas memórias e bons diários”, pois “os diários não são agendas, registo cansativo e um pouco exterior de encontros, leituras, viagens”.

Não se está com isto a dizer que de um diário publicado se devam esperar revelações e segredos. O diarista não desconhece que, ao contar a sua vida, o primeiro trabalho é “o de saber o que deve entrar e o que fica de fora”, disse-o Anabela Mota Ribeiro (n. 1971), em O quarto do bebé (Quetzal, 2023). Foi este cuidado na escolha que, em Tempo Contado - Diário Maio 1994-Maio 1995 (Quetzal, 2010), J. Rentes de Carvalho (n. 1930) confessou não ter tido numa determinada fase da sua vida, o que lhe valeu considerável mal-estar: “Diários daqueles em que se anotam minuciosamente os sentimentos, até agora só tive um. Na adolescência. Quando meu pai o descobriu e julgou encontrar nele a provável razão de, com os meus amores, eu ter descurado o estudo, obrigou-me a ouvir a leitura irónica e declamada que dele fez. Eu tinha dezasseis anos, a humilhação deixou marcas. Hoje, as ameaças desse dia e os insultos, as bofetadas que me deu depois, já não contam. Mas mais que a dor e a humilhação física, o ele ter violado os meus pensamentos e anseios íntimos foi das coisas que nunca consegui esquecer ou perdoar.”

Há diaristas que assumem o critério do que pode ser um diário publicável. Mais reservado, Vergílio Ferreira (1916-1996), romancista, ensaísta e diarista, observou, no seu Conta-corrente, em nota de 1 de Fevereiro de 1969: “Um romance é um biombo: a gente despe-se por detrás. Isto não. Mesmo que não falemos de nós. (...) O meu ‘diário’ está nas centenas de cartas aos amigos.” Mais pragmático, Eugénio Lisboa (1930-2024) afirmou, em Aperto Libro - Páginas de Diário I - 1977/1990 (Opera Omnia, 2018), que “um diário é uma conversa com os outros.” Mais directo, Rentes de Carvalho, em Pó, cinza e recordações - Diário Maio 1999-Maio 2000 (Quetzal Editores, 2014), explica: “Tenho eu a ideia, talvez incorrecta, de que a porção de intimidade que se desvenda num diário não deve ultrapassar a que se revela numa conversa entre amigos. Fazer estendal do privado parece-me fraco gosto, e embora possa decorrer daí um atractivo para o bisbilhoteiro, continuo a acreditar que bom número de pessoas prefere não chafurdar na lama alheia.”

O que une as três opiniões é o conceito do que é partilhável. O critério para o que o diarista deve mostrar, definiu-o muito bem e assertivamente Ambrose Bierce (1842-1914): “o relato diário daquela parte da vida de uma pessoa que, sem corar, ela pode fazer a si própria.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1776, 2026-06-11, pg. 10.


quarta-feira, 10 de junho de 2026

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (3)

 


De entre os três sermões de Bartolomeu de Gusmão já indicados, uma palavra mais merece o que é dedicado a Nossa Senhora do Desterro, padroeira dos emigrantes. Proferido em Coimbra, foi especialmente dirigido aos “académicos ultramarinos”, isto é, os estudantes originários do Brasil (de resto, quando foi publicado, teve dedicatória para Manuel de Matos, brasileiro e professor da Universidade de Coimbra). Elogiando os seus conterrâneos, Gusmão faz algumas reflexões sobre o desterro, bem próximas da experiência que ele viveu, logo a começar pela viagem — “Que coisa há mais horrível que uma viagem dilatada por mar? A nau em contínuos balanços, o pavimento a fugir debaixo dos pés; que função fica inteira ou que parte no corpo humano que não padeça? (...) Já se se levanta uma tormenta, aqui é o horror. (...) Assim busca a sabedoria quem conhece o seu preço. Assim se lavra uma coroa de glória e de imortalidade, a si e a esta Universidade quem a vem buscar de tão longe, por tantos e tão evidentes perigos.” Depois, pesa a condição da distância e da saudade — “Eu bem sei que todos os que vêm a esta Universidade deixam a pátria; mas nem todos como a Senhora do Desterro. Os que não são ultramarinos deixam-na para a tornar a ver todos os anos. (...) Ausência que não chega a ano não é ausência nem pode produzir saudades. (...) Só os Ultramarinos imitam fielmente a Senhora do Desterro, que também passou sete anos desterrada sem ver a pátria. (...) Que peito há tão de bronze que não arrebente de dor e de saudade? E que a tudo isto se façam surdos e insensíveis os Ultramarinos, para vir buscar a Sabedoria? (...) que admiração e que alegria para a nossa Universidade.” O sermão conclui-se com um apelo à Virgem, depois de lhe pedir a protecção: “Que gosto tereis vós mesma de ver os vossos desterrados servir de luz ao reino, de honra à sua pátria e de crédito a esta Universidade, nos Lugares, nas Cadeiras e nos Tribunais? (...) Que será quando, livres do comum desterro, os virdes triunfantes na glória?”

O quarto sermão que Daniel Pires inclui neste grupo das obras de Bartolomeu de Gusmão, o Sermão da Paixão, surge acompanhado da nota de se tratar da transcrição de um “manuscrito atribuído a Bartolomeu de Gusmão, existente na Biblioteca da Ajuda”. Diferente de todos os outros, o sermão é construído sobre um discurso de Jesus na primeira pessoa, quando, já crucificado, se dirige aos crentes — “Povo meu (e não cuides que falo com os que agora acabam de crucificar-me), falo contigo, Povo amado, Gente singularmente escolhida”. O discurso é uma reflexão sobre o sofrimento até ao momento em que se entrega nas mãos de Deus, ao mesmo tempo que uma despedida, em que a única intervenção do narrador aparece no final do texto, depois de o crucificado se dirigir ao Pai — “Dizendo isto e dando um grande brado, inclinou um pouco a cabeça o redentor do mundo e expirou.”

O livro Obra de Bartolomeu de Gusmão conclui com alguns documentos oficiais (correspondência e petições alusivas aos seus inventos) relativos ao padre-cientista.

Quando, em Santos (Brasil), nasceu o futuro padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724), já o portuense Tomás Pinto Brandão (1664-1743) era adulto e vivia no Brasil desde 1682, num trajecto que o levou a ser detido várias vezes por “travessuras e excessos”, marca que se lhe colou, entre outras razões, pelo tom satírico em que foi pródigo. Foi esse o recurso que utilizou para caricaturar a criatividade de Gusmão, em quem residia o espírito de inventor e de cientista, construtor da “máquina de navegar pelo ar”, quando escreveu um poema dedicado ao padre, que dizia: “Meu Padre Bartolomeu, / eu, segundo o meu sentir, / não vi outro mais subir / de quantos vi voar eu: / o conceito é como meu, / que o não pude achar melhor; / porém se como Orador / tanto sabeis levantar, / não me deveis estranhar / que vos chame Voador. // (...) // Por força do vosso estudo, / por jeito do vosso estado, / para tudo sois azado, / tendo pena para tudo; / e assim de estilo não mudo / no estranho do meu louvor / (se o não tomais por labéu) / que até chegares ao Céu / haveis de ser Voador.” (décimas reproduzidas na obra Pinto Renascido, empenado e desempenado: Primeiro voo, de 1732). O texto de Brandão, jogando com palavras, ironiza, mas também reconhece a Gusmão a qualidade de escritor, de orador, de criador. Aliás, aqueles que ironizaram sobre a figura e obra de Gusmão acabaram por não ofuscar o valor e o saber do padre cientista — assim aconteceu também com José Soares da Silva (1672-1739), que, na sua Gazeta em forma de carta, ridicularizou o jovem Gusmão contando exagerada e maliciosamente o seu saber, com atributos que, uns séculos mais tarde, José Saramago aproveitaria, com engenho, para apresentar, como inovadora, a personagem Gusmão no seu Memorial do Convento (passo mencionado na primeira parte desta crónica).

O volume que Daniel Pires organizou torna-se um contributo indispensável para o conhecimento das ideias de Bartolomeu de Gusmão. Nunca mais poderemos passar pela estátua ou pelo painel azulejar que o evocam no aeroporto de Lisboa (obras devidas a Martins Correia e a Paulo Guilherme d’Eça Leal, respectivamente) sem pensarmos na justa homenagem que é devida a este pioneiro do século XVIII, simultaneamente um louvor ao saber e à criatividade.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1772, 2026-06-03, pg. 10.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (2)



No volume da Obra de Bartolomeu de Gusmão, Daniel Pires, depois dos textos alusivos aos inventos do sacerdote brasileiro, incluiu um escrito jurídico, produzido por Gusmão a pedido de D. João V para contestar a sentença que atribuíra o pecúlio da Casa de Aveiro a Gabriel de Lencastre, Duque de Banhos, em vez de ser a D. Maria de Lencastre, Marquesa de Unhão. Das quase quatro centenas de artigos constantes nas alegações o leitor fica a conhecer uma dúzia (aqueles que estão mais despojados de conceitos jurídicos), conjunto de princípios em que se cruzam os acontecimentos históricos do relacionamento entre Portugal e Espanha com o respeito pela Coroa portuguesa fortemente fundamentados.

O grupo dedicado aos textos de cunho histórico é ocupado com as transcrições das intervenções que Bartolomeu de Gusmão teve nas sessões da Academia Real da História Portuguesa, sobretudo dando conta do andamento do seu trabalho Memórias para a História do Bispado do Porto, registadas nas respectivas actas. Das notas efectuadas em tais relatos, fica no leitor a ideia da ponderação, do espírito crítico, da inovação e do rigor como apanágio do trabalho de Gusmão, visível nas observações feitas à metodologia seguida pelos seus antecessores e nas dúvidas perante certas informações e perante alguns documentos — na sessão de 27 de Agosto de 1722, ao anunciar que estava quase pronta a parte respeitante aos dez primeiros séculos das Memórias, disse que “brevemente entregaria esta primeira parte da sua obra, em que protestava que não procurara seguir mais que a luz da verdade quanto lhe permitisse a escuridão em que aqueles tempos estão envoltos, e que, com a mesma sinceridade, a todo o tempo que reconhecer o contrário seria o primeiro que confessasse que errara.”

Dois poemas e dois textos de carácter filosófico integram um outro grupo. Os primeiros, dirigidos a figuras conhecidas de Gusmão, valorizam o discurso da jurisprudência e da verdade; os segundos giram em torno de valores — o papel do louvor no contributo que pode ter para a virtude ou para a vaidade, num (“o verdadeiro louvor é um testemunho da opinião que tem de nós um varão prudente, que se não deixa enganar com as aparências. A vaidade é quando se estima mais o ser louvado que merecê-lo ser. Logo, se o sujeito é capaz de vaidade, não é capaz de louvor; pois não pode ser capaz de louvor quem ama mais o louvor que o merecimento.”); a utilidade da prudência e da temperança, noutro (“a prudência ilustra o entendimento e a temperança aperfeiçoa a vontade, e bem pode ter ilustrado o entendimento quem tiver muitas imperfeições na vontade. A prudência ensina a conhecer as paixões alheias, a temperança a vencer as próprias e não se segue que saiba sujeitar as paixões próprias quem sabe conhecer as alheias.”). 

Relativamente à bibliofilia, o contributo que Daniel Pires (responsável pela obra) aponta é o da importante lista de livros indicados por Bartolomeu de Gusmão para a biblioteca régia, a serem adquiridos em França, em que constam títulos relacionados com áreas como a política, a economia, a geografia, a navegação, entre outros.

Os textos parenéticos ocupam parte significativa desta obra, constituída por quatro sermões, que, segundo o organizador, demonstram “capacidade argumentativa, convicção e um pensamento lógico linear”. Num primeiro grupo, situam-se o Sermão da Virgem Maria Nossa Senhora (Salvaterra, 26 de Abril de 1712), o Sermão a Nossa Senhora do Desterro (São João de Almedina, 9 de Janeiro de 1718) e o Sermão do Corpo de Deus (freguesia de S. Nicolau, 1721), todos eles eivados de uma coerência forte, longos e muito preocupados com o acompanhamento da reflexão pelo auditório, sempre desafiado através de perguntas e de orientação do pensamento, repletos de ensinamentos — “nunca foi seguro ajuizar de pensamentos alheios, principalmente quando se põe de parte da sua natural escuridade o tempo”, “fazer um benefício e estar à vista é ofender o benefício”, no primeiro; “nada no mundo está isento de velhice, os viventes e os que o não são; as cidades, as repúblicas, os impérios; a mesma terra, e até os mesmos céus envelhecem”, “o mais agradável património que a natureza nos deixou é a pátria e os pais”, no segundo; “quando queremos infundir a alguém pensamentos grandes, lembramos-lhe quem é e as obrigações com que nasceu”, “ninguém é grande senão comparado com quem é menos”, no terceiro.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1767, 2026-05-27, pg. 10.