terça-feira, 7 de abril de 2026

Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (2)

 


Todo o trabalho levado a cabo por Álvaro Arranja ao longo dos anos em torno dos acontecimentos ocorridos em Setúbal nas greves do início da República justifica que Diogo Ferreira abra esta obra, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia), com uma saudação “em memória do professor Álvaro Arranja”, justificando que foi o “historiador que contribuiu para que os trágicos acontecimentos narrados nesta obra fossem preservados na memória coletiva”.

Neste trabalho, a investigação vai até ao ponto de quase nos fazer a reportagem circunstanciada do que aconteceu naquele 13 de Março, bem como nos fornece uma completa identificação das vítimas, trabalho possível pela consulta atenta de arquivos, pela leitura comparada dos relatos e opiniões transmitidos pela imprensa da época, fosse ela local ou nacional, e pela procura de documentos relacionados com os eventos, por vezes com interpretações divergentes. Para o leitor, fica a fita do tempo, mais ou menos circunstanciada, ilustrada com recortes jornalísticos e com documentação fotográfica diversa, além do recurso ao traço do pintor Nuno David, que idealiza o cenário do acontecimento e faz corresponder a imagem aos retratos escritos então feitos. 

O leitor conhece os antecedentes, dados pelo ambiente vivido no seio da indústria conserveira, assim como contacta com o ambiente político na cidade — greve iniciada em 21 de Fevereiro, reclamando aumentos salariais, denunciando abusos sexuais sobre as jovens trabalhadoras e dando a conhecer as duras condições de trabalho; polémica que envolveu Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira na condenação desta greve e no esvaziamento do seu sentido, mesmo por interesses particulares, pois uma das fábricas pertencia a uma irmã de Paulino de Oliveira; descontentamento com a nomeação para administrador do concelho de alguém que ocupara o mesmo cargo na fase final da Monarquia; intensa acção dos representantes sindicais e da imprensa sindicalista. Depois, é apresentada a reconstrução dos acontecimentos, possibilitada pelo cruzamento das diversas informações publicadas, bem como são identificados os feridos e fornecidas informações biográficas sobre os mortos. Finalmente, o leitor contacta com os acontecimentos dos dias seguintes, sobretudo as manifestações de protesto “contra as fatalidades ocorridas à beira do Sado”, lê o relatório da sindicância realizada para averiguar as responsabilidades envolvidas nos trágicos acontecimentos, conhece a opinião complacente do Ministro do Interior António José de Almeida e as consequências resultantes do apuramento de responsabilidades.

Com este trabalho, divulgado quando passam 115 anos sobre os acontecimentos relatados, Diogo Ferreira vai mostrando como fez a investigação, não só porque indica as referências de que partiu, mas também porque mapeia os caminhos que percorreu, quer nas perguntas que motivaram a investigação, quer nas dúvidas que se mantiveram ao longo desse caminho, assumindo a descoberta de algumas respostas e a falta de algumas explicações. Aspecto notável é o cruzamento das informações, venham elas da imprensa (seja generalista ou politicamente comprometida, seja local ou nacional), partindo dos textos noticiosos (ora cautelosos, ora pormenorizados) ou dos artigos de opinião, ou venham dos documentos oficiais ou de relatos de memórias entretanto publicados ou recolhidos. Fica o leitor com a sensação de estar perante a reportagem que faltava, trabalho que noticia, questiona, comenta, lança pistas de interpretação e deixa espaço para a formulação de opinião, sendo-lhe ainda permitido conviver com algumas das fontes, visitando documentos importantes do processo, que ajudam a contar toda esta história.

A história, sobretudo a história local, muito se enriquece com esta investigação, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres, de Diogo Ferreira, um útil contributo para o avivar da memória, quer pela dimensão pedagógica sobre o método no trabalho do investigador, não escondendo as dificuldades do caminho e as pequenas descobertas que vão fazendo um todo, convidando mesmo o leitor a participar na investigação pelas perguntas que vai pondo, quer pelo conhecimento que traz e partilha. Uma boa forma, também, de assinalar os 115 anos!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1729, 2026-04-01, pg. 10.


Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (1)

 


Se houvesse “palavra do ano” em 1911, a designação “fuzilamento” poderia constar no leque das palavras a concurso, de tal forma os jornais contaram o que se passou em Setúbal nesse 13 de Março de 1911 — a expressão “Fuzilamentos de Setúbal” circulou, de resto, na altura, na imprensa, escolhida não por acaso, mas para assinalar a brutalidade da repressão sobre os movimentos grevistas, que levou à morte de António Mendes e de Mariana Torres. A opção pela palavra “fuzilamento” não foi ingénua, pois pressupõe execução sumária ou eliminação do opositor quase sem defesa, não sendo de estranhar, por isso, que esta prática esteja ligada a períodos históricos de conflitos armados, de revoluções e de regimes autoritários, momentos em que a instabilidade social dita as regras. A história do que se passou foi agora reavivada por Diogo Ferreira no livro Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 - A História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia).

Se recorrermos à edição de 16 de Março de 1911 do jornal Germinal, que se publicava em Setúbal, percebemos bem o que significou para o movimento operário da altura a morte destas duas figuras, mortas à luz do dia, à vista de todos, e enterradas de madrugada, para evitar a agitação popular: “O sangue que em Setúbal correu impetuoso, saindo em borbotões dos corpos de filhos do povo, não se perdeu. As suas gotas lançadas à terra, vermelhas e fortes, fecundarão heróis sublimes, de alma revolta e corações simples, com o espírito erguido para o futuro numa evocação à aurora de justiça que vai despontar.” Este tom metafórico, visando transformar as duas vítimas em heróis reconhecidos, desaparecia no final do artigo, quando se referiam os “instigadores” da acção — “os que feriram, como os soldados, e os que provocaram, como os industriais e o administrador” do concelho —, desafiando-os a suicidarem-se, com uma explicação provocatória: “o suicídio não os reabilitaria, mas tornava-os esquecidos, a terra consumiria os seus corpos e da sua memória ficava apenas uma vaga lembrança. Só assim provariam que eram homens, criaturas normais, moralmente completas.”

O caso foi muito comentado e marcou intensamente o debate, sobretudo porque a República fora instituída cinco meses antes e era uma esperança para as mudanças, e Setúbal, tendo sido um dos primeiros locais a acompanhar a revolta, viu, naquele momento, o regime republicano a virar-se contra o desejo de melhoria de vida do operariado, contra a prática da greve e contra o direito de manifestação. De tal forma foi significativo o acontecimento das mortes em Setúbal nesse 13 de Março que, pouco mais de três décadas depois, em 1945, Alves Redol mencionava o assunto na conversa entre personagens do seu romance Os Reinegros, obra que o autor esteve impedido de publicar durante quase trinta anos, pois só foi dada a ler ao público, já como obra póstuma, em 1972 (Redol falecera em 1969), narrativa que gira entre 1907 e 1918,  em torno do desmoronamento das esperanças que a República poderá ter significado — numa loja, no Bairro Alto, vários amigos conversavam sobre os acontecimentos, perguntando um, ironicamente: “Quando se pede pão, dão-se balas? Está certo? Duas mortes e não sei quantos feridos...” Logo a seguir, outro acrescentava: “A República já foi. Durou dois dias na Rotunda e pouco mais.” Este último comentário expressava bem a decepção que chegara com a falta de cumprimento das promessas dos revolucionários...

Na história local, o caso das mortes de António Mendes e Mariana Torres mereceu durante muito tempo referência fugaz, mas tornou-se objecto de investigação mais aprofundada a partir do momento em que o historiador Álvaro Arranja (1960-2025) publicou, em 2009, a obra Anarco-Sindicalistas e Republicanos — Setúbal na I República, ou o ensaio com que contribuiu, em 2010, para o livro Setúbal — Roteiros Republicanos, coordenado por Albérico Afonso, e, sobretudo, quando, em 2011, divulgou o estudo Mataram Mariana... — Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, um título que sintetiza o divórcio entre a política e os populares, na sequência da insatisfação resultante da repressão sobre as formas de manifestação levadas a cabo pedindo melhorias nas condições de vida e de trabalho. Álvaro Arranja iniciava, de resto, este seu estudo, chamando a atenção para a importância que esse facto teve, apesar de pouco se saber: “Quase nada sabemos sobre Mariana Torres e António Mendes, os dois operários mortos em 13 de Março de 1911, em Setúbal, pelas balas da recém-criada Guarda Republicana. Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi (...) foram um acontecimento marcante para a relação entre a República e o operariado e a própria evolução histórica da Primeira República.”

A investigação de Álvaro Arranja constituiu um importante contributo para a memória desse tempo e várias manifestações se sucederam a partir daí para alimentação da memória, designadamente, a construção da escultura que evoca Mariana Torres, da autoria de Jorge Pé-Curto, inaugurada no Largo da Fonte Nova há uma década, em Março de 2016.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1724, 1016-03-25, pg. 10.

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (11)

 


As críticas ao livro Serra-Mãe, desde a sua publicação, em meados de Dezembro de 1945, até outubro do ano seguinte, de uma maneira geral, enalteceram o aparecimento da obra e do novo poeta, ao mesmo tempo que recomendaram a construção de um caminho mais pessoal, a necessidade de as influências literárias não se sentirem como imitação e a busca de uma linguagem mais elaborada; simultaneamente, desafiavam o jovem Sebastião da Gama a dar continuidade ao percurso encetado e mostravam-se esperançosas no crescimento do poeta. 

As influências mencionadas apontam para nomes como Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), António Nobre (1867-1900), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), José Régio (1901-1969) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952), alguns deles citados diversas vezes nas obras de Sebastião da Gama. Entre os 62 poemas que constituem o livro Serra-Mãe, os críticos dessa época assinalaram 36 como sendo das suas preferências, num registo de escolhas em que há repetições e, em vários casos, apenas uma menção — os poemas mais citados são “Rebentação” (por Lindley Cintra, João Pedro de Andrade, Amorim de Carvalho, Carlos Relvas, David Mourão-Ferreira e Armando Ventura Ferreira), “Serra-Mãe” (por António Quadros, A. Pinto de Carvalho, João Pedro de Andrade, Maria de Lourdes Belchior, Vitorino Nemésio, João Ameal e A. Russinho) e “Vida” (por Manuel Antunes, José Noronha Gamito, Maria de Lourdes Belchior, Amorim de Carvalho, Carlos Relvas e Armando Ventura Ferreira). Os outros poemas valorizados nas críticas são, por ordem alfabética: “A corda tensa”, “A meus irmãos”, “Aceitação”, “Alegria”, “Canção”, “Céu”, “Claridade”, “Cortina”, “Diário de bordo”, “Do meu Amor”, “Elegia breve”, “Elegia desta manhã”, “Em que se fala do Menino Jesus”, “Eternidade”, “Harpa”, “Itinerário”, “Minuto”, “Nevoeiro”, “Nós”, “Oração da tarde”, “Oração de todas as horas”, “Para que tu não chores”, “Pequeno poema”, “Poema da minha esperança”, “Poesia”, “Presença”, “Remoinho”, “Ressurreição”,  “Romântico”, “Teimosia”, “Versos para eu dizer de joelhos”, “Versos quase tristes” e “Vontade”.

Pela voz de todos os críticos deste primeiro momento de recepção da obra Serra-Mãe passa a ligação à Arrábida como tema predominante, uma forma de olhar o outro, o mundo ou a vida personificados na serra, uma referência que, como já visto, foi crucial para Sebastião da Gama, não só como motivo literário, mas também como motivação local, como fascínio, como espaço de vida.

A produção literária do jovem poeta prosseguiu, em 1947, com a publicação de Cabo da Boa Esperança, o que iniciou um novo ciclo de recepção da sua obra. Contudo, Serra-Mãe viria, ao longo dos tempos, a ser tema de abordagem, na imprensa ou em livro, pelo olhar crítico de muitos nomes, de que se destacam Alexandre Ferreira dos Santos, Alexandre Ogino Sartório (que lhe dedicou uma tese de mestrado em 2021, Linda longa melodia imensa: Poesia e Mística em ‘Serra-Mãe’, de Sebastião da Gama, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), António Manuel Couto Viana (1923-2010), António Cândido Franco, António José Borges, António Mateus Vilhena, Artur Portela (1901-1959), Daniel Pires, Fernando Eloy do Amaral (1922-2008), Guilherme d’Oliveira Martins, João Maia (1923-1999), José do Carmo Francisco, Luciano Pereira, M. Gonçalves Martins, Manuel de Campos Pereira (1906-1981), padre Manuel Marques (1921-2007), Ruy Ventura, Virgínia Motta (1909-??) e Viriato Soromenho-Marques.

Apesar de o ano de 1947 ter tido um novo impulso na obra de Sebastião da Gama com um novo título, a verdade é que esse foi também o ano em que o jovem poeta de Azeitão interveio civicamente em favor da Arrábida, alertando vários jornais e personalidades para a iniciada destruição da Mata do Solitário. É conhecido o teor da carta enviada de Azeitão em 23 de Agosto desse ano, dirigida ao engenheiro Miguel Neves: “Socorro! Socorro! Socorro! O José Júlio da Costa começou (e vai já adiantada) a destruição de metade da Mata do Solitário que lhe pertence. Peço-lhe que trate imediatamente. Se for necessário, restaure-se a pena de morte. Socorro!” O tom da carta era exagerado, obviamente, mas intencional — urgia defender a Serra. Chegada a missiva ao conhecimento de Carlos Baeta Neves (1916-1992), ela foi o início de um processo que levou à criação da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) em 1948, organização que viria a ter influência na preservação da Serra e, mais tarde, na constituição do respectivo Parque Natural. A Arrábida continuaria a ser tema de apresentação e de convite à descoberta no opúsculo A Região dos Três Castelos, editado em 1949, concebido para a empresa Transportadora Setubalense.

Quanto à obra literária de Sebastião da Gama, Serra-Mãe foi, na verdade, o início de um ciclo — Alexandre Ferreira dos Santos defendeu, em Sebastião da Gama: Milagre de Vida em Busca do Eterno (2008), a existência de uma trilogia evolutiva na obra ântuma do poeta, iniciada com Serra-Mãe, constituído por poemas produzidos até 1945, correspondentes a uma época de “adolescência poética”; uma segunda fase, “contra o derrotismo e o triste fado lusitano”, com os poemas produzidos entre 1945 e 1947, que alimentaram Cabo da Boa Esperança (1947); finalmente, a terceira fase, de “maturidade poética”, com textos escritos entre 1948 e 1951, que compõem Campo Aberto (1951). Esta explicação faz sentido e vai ao encontro da opinião que defende serem os poemas mais tardios os melhores de Sebastião da Gama. No entanto, para o poeta, Serra-Mãe foi, apesar de todas as considerações críticas, a obra que mais peso terá tido no seu trajecto. Livro organizado e composto durante o período em que estudava em Lisboa, quando concluiu a licenciatura (1947, tempo em que já preparava o segundo livro), escreveu à amiga Maria dos Remédios Castelo-Branco (1929-2024), que o tinha felicitado por já ser “Poeta, Prosador e... Doutor”, afirmando: “Doutor. É cómico, sabes? O que me interessa na vida, o que, a meus olhos, me dá importância social e individual, aquilo, ainda, por que tudo sacrificaria — é isto de ser Poeta. A minha verdadeira licenciatura foi a Serra-Mãe. (...) E vou agora de cabeça erguida para o Cabo da Boa Esperança.” O primeiro livro era, assim, a carta de apresentação que obrigava a prosseguir o trajecto, tal como a obtenção da licenciatura se lhe afigurava como um instrumento para fazer o caminho...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1719, 2026-03-18, pg. 10.


domingo, 15 de março de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (10)

 


Entre os meses de Junho e Outubro de 1946, Sebastião da Gama pôde ainda ler mais cinco comentários ao seu livro Serra-Mãe, publicados na imprensa, assinados por Dinis da Luz (1915-1988), António Russinho (?-década de 1990), Manuel Antunes (1918-1985), Carlos Relvas (pseudónimo de Armando Filipe Cerejeira Pereira Bacelar, 1919-1998) e Joel Serrão (1919-2008).

Na edição do jornal A Voz, de 10 de Junho, Dinis da Luz reconhecia que Sebastião da Gama ainda estaria “à espera de poiso”, detentor de “uma bela e sonora lira”, que denota “uma independência afoita, sinal de viva personalidade numa idade em que a ousadia dificilmente se furta à tutela dos grandes”, apesar de reconhecer que, de vez em quando, “José Régio sai-lhe ao caminho”. Quanto às marcas de Frei Agostinho da Cruz, o crítico considerava serem “variações modernas, originais, em novas medidas, de uma inspiração antiga”, concluindo o artigo cheio de esperança: “O poeta tem alma suficiente para uma família de cultores da poesia.”

Cerca de duas semanas depois, em 23, no albicastrense Reconquista, A. Russinho interpelava: “Quem conhece o recente livro de poemas Serra-Mãe, com que o jovem poeta Sebastião da Gama se estreou?” Depois, apresentava-o: “Pois este rapaz de 21 anos, aluno da Faculdade de Letras, acaba de gravar o seu nome na já longa lista dos nossos poetas. (...) Nos seus olhos, nas suas palavras, na requintada sensibilidade, enfim, na sua maneira de ser, nota-se que há nele aquele dom com que Deus costuma premiar as grandes almas.” Para cimentar a sua opinião, concluía o artigo com citações das apreciações entretanto publicadas por António Quadros (no jornal Victoria, em Dezembro de 1945) e por Vitorino Nemésio (no Diário Popular, em Fevereiro de 1946).

Na edição da revista Brotéria do mês de Junho, era a vez de o jesuíta e crítico literário Manuel Antunes apontar linhas de leitura da obra iniciática de Sebastião da Gama, cuja voz poética apresentava como “o eco já remoto, mas ainda nítido, da voz lírica e religiosa de Fr. Agostinho da Cruz”, com “muitos e belos cantos, impregnados da mais pura religiosidade”. Elogiando poemas como “Harpa”, “Vida”, “Oração da Tarde”, “Ressurreição” e “Oração de Todas as Horas”, a obra era vista como de um “poeta de vincada personalidade”, que “não se limita a ser o eco, embora remoto, de vozes alheias”, pois “aos motivos, que recebeu de outrem, imprimiu tonalidades próprias”. A obra Serra-Mãe surgia como a de “um poeta de real valor”, eivada de “profundeza e certa originalidade de concepção, um rico e variado poder expressional, feito de ritmo espontâneo, de imagens frescas, rescendentes ainda ao perfume silvestre da Arrábida, e entretecido, a revezes, de belos achados formais”. A concluir o artigo, Manuel Antunes confessava que leu o livro “várias vezes” e que lhe ficou “a grata impressão de que uma nova estrela de brilho invulgar se acendera no céu atormentado da poesia portuguesa dos últimos anos”.

Ainda no mês de Junho, a edição da revista Vértice, pela mão de Carlos Relvas, dedicava texto a Serra-Mãe, numa opinião que assinalava alguns pontos menos positivos: a quantidade de versos inspirados em José Régio (dando exemplos dos poemas “Vida” e “Rebentação”); a serra apresentada como “apenas um ‘suporte’ material para toda a espécie de idealizações do autor”, o que lhe concedia um estatuto de algum “artificialismo literário”; o tom “confessional” utilizado, que não parecia aquele que “mais se coaduna com o temperamento do escritor”. No entanto, Relvas reconhecia nesta obra “inegáveis qualidades de expressão poética que só é pena que não sejam orientadas num sentido mais humano, nem se apresentem mais depuradas pelo senso crítico do autor dos excessos de linguagem”. Reconhecendo as influências dos autores presencistas e de Fernando Pessoa, o crítico admitia, a finalizar, que, “com este livro, fica em aberto se terá qualidades de expressão poética original”.

Igualmente reservada quanto ao sucesso do poeta foi a opinião de Joel Serrão vinda a público na revista Aqui e Além, em Outubro de 1946 (publicação de que Sebastião da Gama foi colaborador, inclusive nesta edição). Num longo artigo, Serrão começava por dizer que este livro “sugere maior número de reservas do que de louvores”, afirmação justificada porque “a maior pecha de quase todos os poemas de Sebastião da Gama é o eles ficarem-se nessa região intermediária entre a expressão pessoal e a expressão poética, que, sendo pessoal, transcende o sujeito que canta”. Confesso admirador do texto “Pequeno Poema”, o crítico reconhecia ao autor “evidente sensibilidade de poeta”, mas ainda sem “uma expressão poética adequada à riqueza do seu mundo emotivo”, apesar de a sua “linguagem poética sobejamente nos evidenciar um poeta pleno de coisas para nos dizer”. No final, Joel Serrão confessava: “A sua poesia interessou-me. (...) Sebastião da Gama revela-se sem dúvida um poeta, independentemente de não ter conquistado ainda a mestria artística sem a qual a poesia dificilmente transborda cá para fora.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1714, 2026-03-11, pg. 2.


sexta-feira, 6 de março de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (9)

 


Duas das críticas mais contundentes a Serra-Mãe apareceriam em Maio de 1946: uma, assinada por Jorge de Sena (1919-1978); outra, por João Gaspar Simões (1903-1987).

No jornal Mundo Literário, de 18 de Maio, Sena intitula o seu longo artigo como “Alguma Poesia e outras considerações desagradáveis”, nele abordando, entre outros, o livro Serra-Mãe, de Sebastião da Gama, parte que se inicia em tom acutilante sobre os novos poetas portugueses — “Há, nitidamente, na mais jovem poesia portuguesa, um retrocesso. Tenho observado, com mágoa, a infinita suficiência destes livros. Quer formal, quer intimamente, estamos na época da ‘Maria-vai-com-as-outras’. E tudo serve: as descobertas ou hábitos formais dos outros, o grande destino do homem (que merecia mais meditação e menos declamação), até a própria habilidade rítmica. Tudo serve, desde que seja possível o indivíduo convencer-se, e aos seus pares, de que é poeta.” O comentário prossegue, em tom mais ou menos metafórico, para criticar a busca das influências nos novos autores, algo que Sena qualifica como uma “miopia extrema”, percebendo-se que as considerações são também para os críticos, sobre quem escreve: “Nunca se publicaram tantas críticas, e nunca, suponho eu, se leram tantos metros de prosa, impressionista, didáctica ou erudita, falando de tudo, menos da essência da obra criticada.” Talvez estas palavras se dirigissem aos que já tinham escrito sobre Serra-Mãe, porque, para Sena, louvar este livro apresentava-se como uma fragilidade: “Aplaudir, hoje, o Sebastião da Gama de Serra-Mãe, sem denunciar que quase sempre repete outros maiores (repetir é diferente de encorporar na própria expressão); aplaudi-lo como, há anos, se aplaudiu um Marques Matias — e deixar rodeado de silêncio um José Régio, que terá muitos defeitos menos o de repetir Sebastião da Gama... — é enganar o poeta de Serra-Mãe.”

Embora Sena enalteça poemas como “Céu”, “Nós”, a primeira metade de “Cortina”, “Elegia desta Manhã” e “Poesia”, o tom das suas observações afigura-se exagerado nos comentários ao uso da sinestesia ou de outras construções e à aproximação à poesia mística: “Observo-lhe que, para ser na Arrábida um poeta místico, não é necessário um misticismo topográfico-literário, que eleva ou abaixa Fr. Agostinho da Cruz à categoria de ‘genius loci’. Que para falar de amor ou dulcificar a voz, não é preciso escrever com ‘soluços do sol’, ‘beijos na alma’, ‘carícias azuis’, ‘luz de seda’, etc.”

Uma dúzia de anos depois, em 1958, ao publicar a terceira série da antologia Líricas Portuguesas, por si organizada e anotada, Jorge de Sena incluía nove poemas de Sebastião da Gama e comentava que “a personalidade de Sebastião da Gama, o seu nobre carácter, a sua simplicidade pessoal, a frescura do seu juvenil e fraterno amor da vida, o seu destino cruel e malogrado, têm complicado muito — com o comovido culto que suscitaram — uma justa apreciação de uma produção poética vasta e irregular como a sua.” Relativamente à evolução dessa obra, acrescentava emergir “pouco a pouco, (...) apesar da tendência do poeta para ver-se como um ser infantil, ignorante, aberto sem discernimento a todas as solicitações da sentimentalidade, uma voz lírica de excepcional frescura, capaz de uma singela concentração expressiva, capaz também de uma fina transcendência do convencionalismo burguês, e fundamente sensível às coisas naturais e ao ar livre”.

A apreciação de João Gaspar Simões apareceu no jornal Sol, em 25 de Maio, também ela eivada de considerações sobre o que a crítica dizia a propósito de Serra-Mãe. Simões, recorde-se, tinha sido um primeiro leitor de Serra-Mãe, a quem o jovem azeitonense entregou os textos para apreciação quanto a publicação pela casa Portugália e, se ignoramos qual foi o comentário exarado, sabemos que a editora não assumiu a publicação. As considerações de Gaspar Simões não terão andado longe do que ficou registado nas páginas de Sol, onde, depois de elogiar o poema de abertura, “Harpa”, considera que, em vários poemas do volume, “a expressão não passa de um penoso exercício literário, onde o mau gosto se espoja correndo parelhas com o pior verbalismo”; que, quanto à religiosidade, “uma das coisas que mais concorre para esfriar qualquer entusiasmo pela poesia de Serra-Mãe é o despropósito com que se lançam súplicas místicas e se fazem protestos de humildade e devoção numa linguagem alheia a qualquer mero sentimento religioso”; que as marcas de Pascoaes, Régio e Sá-Carneiro são “falsas inspirações na sua adequação ao estro exuberantemente verbal que nos parece ser o de Sebastião da Gama.” E termina, entre a decepção e o que se diz sobre o livro: “O certo é que de um verdadeiro poeta ou não, o livro Serra-Mãe é livro que não passa despercebido no nosso movimento literário.”

Estes dois comentários não passaram ao lado para Sebastião da Gama, que, se não deu resposta pública, enviou ao seu amigo David Mourão-Ferreira um poema datado de 26 de Maio de 1946 (o dia seguinte à apreciação de Simões e pouco mais de uma semana depois das palavras de Sena), intitulado “Versos fora dos eixos”: “Estou-me matando prós críticos. / Hei-de cantar o que muito bem me apeteça, / hei-de sentir, hei-de pensar, hei-de berrar o que muito bem me apeteça. / Um grande raio que os parta mais às suas sentenças. // Se me der na maluca desato para aí a dizer palavrões / ou a escrever sonetos de Camões / começados do fim prò princípio / e com os acentos todos trocados. / Ou então (e que têm eles com isso?) não faço nada / senão olhar os Astros, de cócoras, / e fazer certa coisa para eles todos. // (...) // Deixem-me cá sossegado a fazer versos / marrecos ou escorreitos ou anémicos ou cheios de sangue na guelra / mas de toda a maneira versos / — uma coisa melhor que todas as suas pretensões, / todas as suas ciências, todas as suas opiniões, / e que mais belo do que eles só uma flor encarnada a nascer em cima de um telhado / sem se importar de saber se olham pra ela ou não...” 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1709, 2026-03-04, pg. 10.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (8)

 

            

Em 5 de Março de 1946, no jornal Diário da Manhã, João Ameal (1902-1982) iniciava assim a sua coluna “Rumos do Espírito - As Ideias e os Autores”: “A todo o momento ouvimos dizer que na vida moderna há cada vez menos lugar para os poetas. Terá razão quem o afirma? Vive o Mundo, nesta hora, entre receios e desconfianças. Vive, também, sob o signo dos ódios desencadeados pelo imenso fratricídio que há pouco terminou — e sob a opressão de uma paz inquieta, cheia de perspectivas alarmantes.” Este arranque é intenso no seu lamento e na sua esperança — a Guerra Mundial acabara meses antes e tornava-se nítida a procura da pacificação e a valorização da humanidade. Mas este introito servia também para Ameal chegar ao principal do que pretendia dizer: apresentar um novo poeta, Sebastião da Gama, através do seu primeiro livro, Serra-Mãe. E a primeira observação é de simpatia — “Sente-se que vive na montanha, mas na montanha em frente do mar - porque se conjugam, na sua sensibilidade, a força e o equilíbrio da grandeza estável e o tumulto febril do movimento sem fim”, sendo isso que “dá aos seus versos um curioso sabor de ‘ansiedade contida’, de impulso capaz de dominar-se e disciplinar-se.” A preferência do crítico recai sobre alguns poemas, concluindo com uma observação promissora sobre o novo poeta “com a sua personalidade ainda em esboço, mas já segura e clara, para além da indecisa nebulosa das simples promessas”, que “soube construir o ‘seu’ mundo e soube mostrar-nos que vive, dentro dele, uma vida mais alta e mais pura”.

Duas semanas depois, em 19 de Março, era a vez de, no República, Alfredo Guisado (1891-1975) opinar sobre o novo livro: apesar de considerar que, por vezes, “a sua inspiração não o acompanha”, afirma estar perante um autor “que é sincero no que sente e no que escreve”. Recomenda depois Guisado que o novo poeta se não deixe “envaidecer com elogios” da imprensa e termina com uma síntese sobre esta novidade: “Tem ritmo, não descuida as rimas, tem bastantes imagens felizes e, deixando-se embalar pela escola modernista, não se deixa por completo absorver pelos que lhe serviram de modelo”, pois “começa mesmo a ter personalidade, o que é muito de apreciar num poeta e ainda mais num estreante”. E, para que dúvidas não ficassem no leitor, afirma, quase no final, ser “mesmo uma das melhores estreias que me têm aparecido desde que estou neste fraco ponto de observação”.

As réplicas da leitura de Serra-Mãe acabariam o mês de Março com a recensão assinada por Ruy d’Almeida no jornal Aléo, saído no dia 30, que se surpreende porque “não constrói Sebastião da Gama os seus poemas no signo da inspiração amorosa”, mas “verte o poeta em ilha dos amores o lugar em que está”, a serra da Arrábida. A opinião de Almeida, contudo, é de reserva, pois entende que o poeta “não nos revela neste livro as possibilidades definidas da sua personalidade”, apesar de considerar estar perante alguns poemas de “expressão lírica” de qualidade. 

Na edição da revista Portucale referente ao mês de Abril de 1946, Amorim de Carvalho (1904-1976) reconhecia, em curta nota, que Serra-Mãe apresentava “sugestões de poetas como Sá Carneiro, Pessoa e Régio”, mas distanciava-se da valorização das influências para procurar “o melhor do livro”: uma “fina ironia”, a expressão da dor, uma “ânsia de ser, de existir, que busca penetrar na intimidade essencial da vida e do eu” que se “consubstancia com Deus, através de um estado de graça inefável e heróico”. Ponto alto desta apreciação surge quando é dito que este livro “tem atitude mental e filosófica, pondo o problema do Homem em Deus”, marca que lhe dá “uma personalidade poética original”, destacando diversos poemas cujo valor “o acreditam como poeta”.

No primeiro número de Abril da revista Seara Nova, datado de 6, Armando Ventura Ferreira (1920-1987) abordava também a primeira obra de Sebastião da Gama, confessando não haver “dúvidas de que temos perante nós um poeta”, mas acusando o papel dominante das influências — “lemos o seu livro e sentimos que a maioria dos seus poemas já nos é familiar”, encostando esta poesia a António Nobre, Sá-Carneiro e Régio, sobretudo a este último. No entanto, Ventura Ferreira realça o tom religioso da poesia de Gama, em que Deus se apresenta “como uma entidade concreta”, contrariando a interrogação metafísica que Deus é para Régio. O facto de Serra-Mãe ser visto como um conjunto muito próximo das influências leva o crítico a considerar não haver “símbolos em quantidade, nem em qualidade, tão-pouco uma dialéctica discursiva fluente”, existindo algumas “abstracções confusas, de pobre relevo poético”, pelo que aconselha, para futuro, que “Sebastião da Gama deve interrogar-se mais sobre a vida do nosso tempo e ser um poeta original do que glosar temas já suficientemente debatidos.”

A última apreciação de Abril de 1946 deve-se a Jaime Brasil (1896-1966), que, na edição do dia 17 de O Primeiro de Janeiro, em nota muito breve, acentua o tom místico de alguns poemas, dizendo serem gerados “naquela poesia que também inspirou Frei Agostinho da Cruz”. 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1704, 2026-02-25, pg. 10.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (7)



Ainda em 1945, quase no findar do ano, o livro Serra-Mãe foi objecto de apreciação por António Quadros (1923-1993) no jornal lisboeta Victoria (28.Dez.1945), que assim iniciava a sua crónica: “Sebastião da Gama - jovem poeta que se estreia - escreveu estes poemas na bela serra da Arrábida. Um temperamento sensível em contacto com a grandeza de um quadro natural como aquele, não podia deixar de originar um poeta.” Defendendo que “a poesia de Sebastião da Gama está profundamente impregnada de misticismo, filho do ambiente, filho da Serra-Mãe”, António Quadros considerava estar este livro repleto de poesia que “não é descritiva, nem simbólica, porque é, principalmente, oração”. Embora Serra-Mãe esteja dividido em seis partes, o articulista organizava a temática de Gama em três áreas, motivadas, respectivamente, pela serra, por Deus e pela “vida de todos os dias”. A crónica finalizava com um comentário que apontava para um bom início — “os poemas de Sebastião da Gama possuem qualquer coisa de superior à técnica e à própria imaginação: poesia. O que é mais do que suficiente como ponto de partida” —, depois de ter reparado que o “principal defeito” do jovem poeta “é ter pouca imaginação poética”, pois “repisa os mesmos temas” e “canta muitas vezes os mesmos ideais”.        

A recepção crítica de que Serra-Mãe foi objecto prolongou-se por quase todo o ano de 1946. Logo em 6 de Janeiro, eram publicados dois artigos, ambos assinados por A. Pinto de Carvalho: no jornal O Sesimbrense e no jornal Novidades. No primeiro, o autor associava esta obra do poeta azeitonense à de Frei Agostinho da Cruz pela motivação comum da Arrábida, afirmando que “a poesia de Sebastião da Gama reflecte uma ânsia insatisfeita à procura dum complemento” e que “a monotonia silenciosa e imponente da serra” lhe “afinou as cordas da lira”; no segundo, eram apresentadas as características da Arrábida que podiam constituir motivos poéticos (“os segredos dos seus recantos escarpados, das suas bouças e arvoredo”, o “convívio íntimo da Serra e do Mar” e “a serra com os seus encantos e surpresas, com a sua tristeza rude e monótona, com a sua amplidão a um tempo dolente e grandiosa”), era retomada a aproximação a Frei Agostinho da Cruz e surgia uma apreciação global sobre o livro “de versos, singelos, sim, os mais deles, daquela singeleza peculiar da vegetação serrana, mas esmaltados de onde em onde por fulgurações de imaginação criadora que deixam entrever no foco donde irradiam o estofo de um verdadeiro poeta.”

David Mourão-Ferreira (1927-1996), um dos primeiros leitores do amigo Sebastião da Gama, fez a sua apreciação no dia em que o livro apareceu na montra, mas o texto só foi publicado em 7 de Janeiro, no Jornal de Elvas: “O estilo de Sebastião da Gama é muito pessoal e tem um curioso cunho de originalidade. Aproveita-se das liberdades métricas introduzidas pela poesia moderna, mas sem as exagerar. (…) Podemos notar em muitos versos de Sebastião da Gama a sombra de Pascoaes e de Régio, mas especialmente deste último.”

Do final do mês é o comentário de João Pedro de Andrade (1902-1974), que assinava no Diário de Lisboa de 30 de Janeiro: “A poesia é, principalmente, uma atitude perante a vida. (…) Serra-Mãe é o testemunho iniludível duma individualidade pujantemente poética. (…) Afirma, na sua linguagem poética, uma segurança no tom, no estilo, nas imagens, que me parecem as manifestações sinceras da tal atitude perante a vida que revela o poeta.”

No número 18 de Universitárias - Revista de Cultura, de Janeiro de 1946 (abrangendo os meses de Janeiro a Abril), Maria de Lourdes Belchior (1923-1998) escrevia artigo de duas páginas sobre Serra-Mãe, a primeira obra do seu amigo Sebastião, teorizando, numa primeira parte, sobre o valor da palavra poética e sobre a sinceridade e originalidade em poesia, para, depois, afirmar que “estes poemas de S. Gama são poemas de um homem que a Serra gerou” e que “a palavra e o homem são apenas o eco da voz que Deus pôs nas coisas criadas”, razão por que, “também nas coisas pequenas, nos nadas que não têm em si aparentemente uma estrutura de grandeza, S. Gama descobre o poético que transforma, ao captar a ressonância misteriosa que as sublima.” Lourdes Belchior concluía o seu artigo afirmando esperar “ainda mais de um poeta que procura os seus caminhos” e, a propósito das marcas regianas presentes em alguns poemas de Serra-Mãe, aconselhando que o jovem poeta “se liberte de influências” e procure “caminhos numa conquista serena e forte.”

A opinião de Vitorino Nemésio (1901-1978) apareceria ainda em Fevereiro, em 13, no Diário Popular: “Em Serra-Mãe, palpita todo o autêntico alvoroço de uma consciência que desperta sob o duplo signo da Mística e da Poesia. (…) Sebastião da Gama, inebriado pelas cores da sua Serra, aproveita-as apenas como matéria para compor a sua própria aparência; as formas são nele puro pretexto de exultação. (…) A Poesia exprime-se por si; o poeta é seu lugar-onde. (…) A sua fraseologia é livremente agostiniana e pascoalesca.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1699, 2026-02-18, pg. 20.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Quando os versos dizem a Cidade

 


Perante a cidade, o nosso olhar corre sempre sobre uma construção, um artifício, que muito nos diz sobre o tempo e sobre a história, sobre as pessoas e a sua relação com o mundo. Descobrimos a cidade, criamos relações com ela. Tentamos desenhá-la, dizê-la ou mostrá-la de acordo com as cores e as linhas que nos tocam e, muitas vezes, deixamos que aquele corpo urbano nos surpreenda, nos faça pensar e nos ensine, mesmo que nem sempre a cidade corresponda à utopia que idealizámos. São de Luís Filipe Castro Mendes, viajante e poeta, os versos “De todas as cidades que atravessámos / nenhuma nos deu o mágico elixir, / mas todas nos ensinaram alguma coisa / daquilo que cresce ainda dentro de nós.” (in A misericórdia dos mercados, 2014).

A cidade como motivo poético foi o desafio que a Associação Casa da Poesia de Setúbal propôs aos seus membros como tema para a antologia A Cidade e Outros Poemas (2025), a nona desde que este projecto começou e que, em anteriores edições, já abarcou: homenagem a figuras como Bocage, Calafate, Frei Agostinho da Cruz, Maria Adelaide Rosado Pinto ou Sebastião da Gama; defesa de valores identitários como o significado do 25 de Abril ou os Direitos Humanos; momentos de surpresa e de aprendizagem com que a vida nos contempla, como foram a pandemia ou a guerra. Desta vez, a cidade, como tela para que as palavras a pintem, como janela por onde vemos o mundo e a vida, como espelho de histórias, impõe-se e alimenta os versos de 31 autores, acrescentando-se ainda neste livro um grupo de poemas de tema livre (onde há espaço para a evocação do amor, o olhar por vezes crítico sobre a sociedade, o sentimento perante a ausência do outro, o sonho como construtor do futuro, o valor da poesia, a sensibilidade do eu, a afirmação de valores e de referências ou retratos de identidade) assinados por 19 nomes, grande parte deles colaborando nas duas partes da antologia. 

As emoções perante a cidade são, muitas vezes, contraditórias, o que não espanta, porquanto a cidade é uma construção, um artifício, com todas as vicissitudes e qualidades que lhe possamos adivinhar.

Por este mapa urbano passam cidades várias — Setúbal, obviamente, mas também Lisboa, Reguengos, Porto — como estão presentes recantos específicos de algumas delas — Praça de Bocage, Sado, Arrábida, Fontainhas, no caso de Setúbal, ou Alfama e a Rua dos Fanqueiros, relativamente a Lisboa, ou o Bolhão, na geografia do Porto. Há ainda marcas simbólicas destes espaços, como o rio, os eléctricos, a tipologia das casas, os monumentos, as chaminés das fábricas, os sons das ruas, as figuras características, a mancha urbana... sempre numa tentativa de se misturarem as cores, os ecos, a paisagem e os sentimentos de quem escreve, fórmula que permite, muitas vezes, que resulte uma sobreposição da imagem da cidade com o percurso autobiográfico do autor, sobretudo quando ocorre a comparação da cidade que existiu com a cidade que está ou quando se recorda a cidade da infância com o olhar sobre a cidade de agora, formas, afinal, de garantir a vida, independentemente dos sentidos em que ela corra.

Quando o retrato da cidade se cola ao percurso da vida, à memória, o sentimento é o do refúgio na cidade da infância, gerando-se alguma estranheza na cidade de agora, por vezes até um sentimento de rejeição e de tristeza relativamente às imagens do presente, de desenraizamento — seja pela paisagem urbana, pelo barulho, pelo anonimato e pelo distanciamento entre tantos, pelo desaparecimento do verde e das flores ou pelo tom excessivo do artificial. Por outro lado, há a procura das sensações da cidade quando tudo adormece, quase como sendo necessário invocar o silêncio da noite para que a cidade se permita entender.

As sonoridades da cidade surgem, normalmente, associadas ao ruído, o que dificulta a sua aceitação; no entanto, em alguns poemas, é notória a necessidade de este espaço ser povoado pelo sussurrar das conversas e dos becos e pelos sons das crianças, anúncios de felicidade e de futuro. Surge, por vezes, a imagem da cidade como o palco ou cenário ideal onde tudo pode acontecer, incluindo a cidade feliz, o espaço da alegria ou a cidade como o reino da utopia. E, aspecto importante, as visões apresentadas da cidade resultam dos passos acontecidos pelas ruas e em tempos diversos, num evidente olhar pensado, em que as palavras acompanham também o deambular desses passos, porque... só podemos falar da cidade se a percorrermos.

Assim, estes olhares de A Cidade e Outros Poemas apresentam-se como uma re-invenção ou uma forma de apropriação dos espaços. Que o digam as vozes que por esta antologia ecoam — textos que se deixam enredar pela cidade, por vezes nomeando-a, por vezes iluminando os seus símbolos, por vezes laborando na cidade que gostariam que fosse... Palavra a palavra, verso a verso, são bairros de poemas que avistamos, lemos, imaginamos. A cidade fica mais humana com o tom da voz e das emoções, sorridente porque a paleta das palavras a ajudou a mostrar-se.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1695, 2026-02-11, pg. 9.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Visitar a Arrábida em 1903 (3)

 


O comentário de Sousa Gonçalves aos divulgados guias Baedeker quanto à importância que davam às localidades (mencionado na crónica anterior) e à necessidade de cada visitante fazer a sua própria exploração do lugar visitado pode partir de uma observação tão simples quanto esta: na terceira edição do Spain and Portugal Handbook for Travellers, de Karl Baedeker, datada de 1908 (cinco anos depois do escrito de Sousa Gonçalves), a referência a Setúbal ocupa um parágrafo que menciona o Hotel Esperança, o sal, o moscatel, o facto de ter servido de residência régia, os efeitos do terramoto de 1755, a Igreja de Jesus, a Avenida Todi, o porto, o Campo do Bonfim, a igreja de S. Julião, a estátua de Bocage, Tróia e a Arrábida — “Uma excursão pode ser feita em carruagem, ao longo da costa, até ao sanatório do Outão. De barco, pode ser alcançado o Portinho, a partir de onde um trajecto de meia hora nos leva ao Convento da Arrábida, e perto do qual existe a Rocha de Santa Margarida, gruta com estalactites e uma capela”; o Estoril, valorizado pela imagem de Cascais, ocupa dois parágrafos, referindo o Hotel de Paris e o Hotel do Monte Estoril, a praia, o restaurante do Casino, a Boca do Inferno, e aliciando os turistas ingleses — “Cascais, conhecida como a Riviera de Portugal, é o local favorito para as férias das famílias no verão e no outono, embora a época de banhos mais apropriada seja Agosto. (...) Mais recentemente, esta região tem sido também local de férias de inverno, sobretudo frequentada por visitantes ingleses. (...) Ao longo das colinas há numerosos palácios e ‘villas’ com jardins repletos de uma luxuriante vegetação subtropical”. Como referiu Sousa Gonçalves, o guia estava muito mais voltado para orientar turistas, cabendo ao visitante a argúcia para ir muito além daquilo que o guia refere...

O livro Uma Excursão à Serra da Arrábida fica completo com as colaborações de Francisco Luís Pereira de Sousa e de Guilherme A. Vidal Júnior, muito mais curtas do que a de J. Cardoso de Sousa Gonçalves, que apresenta a serra de um ponto de vista histórico-cultural, cruzando no seu texto informações de múltiplas áreas do saber, enquanto estes dois autores se limitam a áreas específicas nos seus escritos — a geologia, no caso de Pereira de Sousa, e o roteiro de barco entre Lisboa e Setúbal, no texto de Vidal Júnior.

No escrito de Pereira de Sousa, “Ideia muito geral da geologia da Serra da Arrábida”, parte-se dos “terrenos jurássicos”, enunciam-se as várias “camadas geológicas” que compõem a serra e é comparado o desgaste geológico — “na parte sul da serra da Arrábida, houve uma destruição mais intensa do que ao norte. Desapareceram em grande parte as camadas superiores e existem as que vemos no alto das montanhas e que, depois, descem abruptamente até serem banhadas pelo oceano”. Enaltecidos são os seus calcários — “A serra da Arrábida, maciço escalvado, notável pela arrogância das suas linhas perante a virente planície que ao norte se desenrola e pelo modo aprumado como ao sul as suas escarpas se erguem no oceano, encerra no seu seio preciosos calcários com que se podia edificar faustosamente uma bela cidade.” A brecha da Arrábida, a utilização dos calcários de Casais das Pedreiras e do Zambujal para cantarias, assim como o uso dos calcários junto à Torre do Outão para cimento numa “fábrica na quinta da Rasca” merecem referências breves. A finalizar o seu texto, Pereira de Sousa traça o retrato de uma serra despida de vegetação, apesar de ser “provável que, como muitas outras serras do país, fosse noutros tempos coberta de frondosos arvoredos”.

Igualmente motivado por uma descrição mais técnica é o texto de Vidal Júnior, “De Lisboa a Setúbal”, que traça o itinerário entre os porto da capital e o cais de desembarque em Setúbal, numa viagem por mar, preocupando-se sobretudo com a enunciação das edificações (fortalezas e faróis) que auxiliavam a navegação e seus anos de construção — S. Julião e Bugio (1775), Porto Covo e Caxias (1877), Guia (1775) e Santa Marta, Cabo Espichel (1790), Fortim da Arrábida, fortaleza do Outão (1775) — e com o reconhecimento geográfico da costa — Monte Córdova, Monte Formosinho, Mar da Lage, Moinho da Chibata, Albufeira, Casa do Infantado, Cabo Espichel, Sesimbra, Sanatório do Outão, Forte de Albarquel, Forte de S. Filipe — até ao desembarque em Setúbal: “A uma milha para Este do Forte de Albarquel, vê-se o Cais de Nossa Senhora da Conceição que dá magnífico acesso e desembarque à cidade de Setúbal. Foi importante antigamente o movimento comercial do porto de Setúbal, feito em grande parte por navegação portuguesa. Actualmente o seu movimento comercial está reduzido à exportação de sal, conservas, cortiça, arroz, etc.”

Eram estes os registos que os excursionistas da Academia de Estudos Livres (origem das Universidades Populares) levavam, em 1903, do seu passeio à Arrábida, num roteiro de informação muito plural, enriquecido com elementos da história cultural, das ciências dedicadas à Natureza e da arte de navegar, assim se cumprindo o estatuto da organização: “desenvolver o gosto pelo estudo e pela ciência” e “proporcionar aos sócios o conhecimento das ciências”.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1690, 2026-02-04, pg. 2