Ainda em 1945, quase no findar do ano, o livro Serra-Mãe foi objecto de apreciação por António Quadros (1923-1993) no jornal lisboeta Victoria (28.Dez.1945), que assim iniciava a sua crónica: “Sebastião da Gama - jovem poeta que se estreia - escreveu estes poemas na bela serra da Arrábida. Um temperamento sensível em contacto com a grandeza de um quadro natural como aquele, não podia deixar de originar um poeta.” Defendendo que “a poesia de Sebastião da Gama está profundamente impregnada de misticismo, filho do ambiente, filho da Serra-Mãe”, António Quadros considerava estar este livro repleto de poesia que “não é descritiva, nem simbólica, porque é, principalmente, oração”. Embora Serra-Mãe esteja dividido em seis partes, o articulista organizava a temática de Gama em três áreas, motivadas, respectivamente, pela serra, por Deus e pela “vida de todos os dias”. A crónica finalizava com um comentário que apontava para um bom início — “os poemas de Sebastião da Gama possuem qualquer coisa de superior à técnica e à própria imaginação: poesia. O que é mais do que suficiente como ponto de partida” —, depois de ter reparado que o “principal defeito” do jovem poeta “é ter pouca imaginação poética”, pois “repisa os mesmos temas” e “canta muitas vezes os mesmos ideais”.
A recepção crítica de que Serra-Mãe foi objecto prolongou-se por quase todo o ano de 1946. Logo em 6 de Janeiro, eram publicados dois artigos, ambos assinados por A. Pinto de Carvalho: no jornal O Sesimbrense e no jornal Novidades. No primeiro, o autor associava esta obra do poeta azeitonense à de Frei Agostinho da Cruz pela motivação comum da Arrábida, afirmando que “a poesia de Sebastião da Gama reflecte uma ânsia insatisfeita à procura dum complemento” e que “a monotonia silenciosa e imponente da serra” lhe “afinou as cordas da lira”; no segundo, eram apresentadas as características da Arrábida que podiam constituir motivos poéticos (“os segredos dos seus recantos escarpados, das suas bouças e arvoredo”, o “convívio íntimo da Serra e do Mar” e “a serra com os seus encantos e surpresas, com a sua tristeza rude e monótona, com a sua amplidão a um tempo dolente e grandiosa”), era retomada a aproximação a Frei Agostinho da Cruz e surgia uma apreciação global sobre o livro “de versos, singelos, sim, os mais deles, daquela singeleza peculiar da vegetação serrana, mas esmaltados de onde em onde por fulgurações de imaginação criadora que deixam entrever no foco donde irradiam o estofo de um verdadeiro poeta.”
David Mourão-Ferreira (1927-1996), um dos primeiros leitores do amigo Sebastião da Gama, fez a sua apreciação no dia em que o livro apareceu na montra, mas o texto só foi publicado em 7 de Janeiro, no Jornal de Elvas: “O estilo de Sebastião da Gama é muito pessoal e tem um curioso cunho de originalidade. Aproveita-se das liberdades métricas introduzidas pela poesia moderna, mas sem as exagerar. (…) Podemos notar em muitos versos de Sebastião da Gama a sombra de Pascoaes e de Régio, mas especialmente deste último.”
Do final do mês é o comentário de João Pedro de Andrade (1902-1974), que assinava no Diário de Lisboa de 30 de Janeiro: “A poesia é, principalmente, uma atitude perante a vida. (…) Serra-Mãe é o testemunho iniludível duma individualidade pujantemente poética. (…) Afirma, na sua linguagem poética, uma segurança no tom, no estilo, nas imagens, que me parecem as manifestações sinceras da tal atitude perante a vida que revela o poeta.”
No número 18 de Universitárias - Revista de Cultura, de Janeiro de 1946 (abrangendo os meses de Janeiro a Abril), Maria de Lourdes Belchior (1923-1998) escrevia artigo de duas páginas sobre Serra-Mãe, a primeira obra do seu amigo Sebastião, teorizando, numa primeira parte, sobre o valor da palavra poética e sobre a sinceridade e originalidade em poesia, para, depois, afirmar que “estes poemas de S. Gama são poemas de um homem que a Serra gerou” e que “a palavra e o homem são apenas o eco da voz que Deus pôs nas coisas criadas”, razão por que, “também nas coisas pequenas, nos nadas que não têm em si aparentemente uma estrutura de grandeza, S. Gama descobre o poético que transforma, ao captar a ressonância misteriosa que as sublima.” Lourdes Belchior concluía o seu artigo afirmando esperar “ainda mais de um poeta que procura os seus caminhos” e, a propósito das marcas regianas presentes em alguns poemas de Serra-Mãe, aconselhando que o jovem poeta “se liberte de influências” e procure “caminhos numa conquista serena e forte.”
A opinião de Vitorino Nemésio (1901-1978) apareceria ainda em Fevereiro, em 13, no Diário Popular: “Em Serra-Mãe, palpita todo o autêntico alvoroço de uma consciência que desperta sob o duplo signo da Mística e da Poesia. (…) Sebastião da Gama, inebriado pelas cores da sua Serra, aproveita-as apenas como matéria para compor a sua própria aparência; as formas são nele puro pretexto de exultação. (…) A Poesia exprime-se por si; o poeta é seu lugar-onde. (…) A sua fraseologia é livremente agostiniana e pascoalesca.”
* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1699, 2026-02-18, pg. 20.

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