O romance Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, tem, como um dos lugares de acção, Setúbal, por ter sido aqui que, em Agosto de 1922, nasceu uma das personagens da história, Beatriz. “Um mês depois, começou a epopeia grevista. Epopeia, sim senhor. Até Homero, se fosse vivo, teria contado esta odisseia setubalense. Há nesta greve uma épica de sofrimento, justeza de propósito e persistência. E derrota.”
A chamada do clássico épico para a história é um bom recurso para caucionar o que a narradora já tinha dito sobre a caracterização do local, numa perspectiva de contextualização histórica e social do ambiente então vivido na margem do Sado, cidade abalada pela fome, a sofrer os efeitos da peste suína, da falta de farinha, da dificuldade no abastecimento de água, do encerramento de fábricas de conservas e de um conflito laboral que, em Setembro desse ano, conduziu à greve, passando por momentos de estado de sítio, de prisões, até ao estancamento, no final de Novembro, do período grevista, com muito poucos ganhos para o operariado. “O movimento operário sofreu que nem um desalmado este fracasso, a tristeza a revelar-se a cada dia em que de novo se entrava na fábrica. Tinha caído em si, vendo agora a insensatez dos mais de noventa dias de luta falhada.”
O leitor acompanha a evolução de Beatriz, na Escola Comercial e a trabalhar no balcão de uma loja de louças, com o retrato social do pequeno comércio, não esquecendo as regras de funcionamento da escola — aulas separadas para rapazes e raparigas — ou as da conveniência social (a conquista de um emprego melhor para Beatriz a troco de esta namorar com o sobrinho da empregadora). Marcas do que era a cidade surgem aqui e ali: a descrição do Bairro Baptista, a menção de espaços como a Avenida dos Combatentes ou a rua “a que deram o nome de General Daniel de Sousa” (antes, a “antiga estrada para Lisboa”); referência a instituições como o quartel, a Associação de Socorros Mútuos, o Clube de Campismo, o hospital do Outão, o café Central, o Esperança, o Tribunal de Setúbal ou a Sociedade Capricho Setubalense; os momentos da vida social na Praça de Bocage, do ambiente vivido na sessão do MUD sadino (Outubro de 1945), dos passeios de namorados no Parque do Bonfim. A história vai vivendo com as tensões entre homem e mulher, perpassando as situações de exercício de autoridade na casa e sobre o outro, de violência doméstica, de relações extra-conjugais, de desregramento devido ao jogo, a par com as questões emotivas trazidas pela morte ou por separações, não faltando ainda o condimento potencialmente explosivo dos dizeres da vizinhança nas apreciações sobre a conduta de cada um — “No dia seguinte todo o bairro falava, comentava, salivava, avaliava a relação entre o major e a sua protegida. As especulações sucederam-se. O sargento (...) suicidara-se ao descobrir que o filho não era dele. Era do major. O bairro, invejoso, relembrava agora o montão de coisas que Beatriz recebia, vindas do quartel. Parece que até um queijo. Daqueles de casca encarnada. Aquilo era uma pouca vergonha. A vizinhança começou a fazer vista grossa. Algumas mulheres continuaram a falar com ela, mas às escondidas umas das outras e, sobretudo, de alguns maridos.”, afinal o ambiente numa cidade ocupada pela “geografia da má-língua”.
Também o trajecto da personagem Benvinda, de São João da Madeira, é pretexto para referências à Setúbal dos anos 60, quando veio para a beira-Sado acompanhada por Dinis Évora, ambos militantes comunistas na clandestinidade. A procura de casa no recém-criado Bairro do Liceu (Rua Jean Raymond) é oportunidade para que se fale das condições de habitação reinantes, mostrando o que nestes novos prédios havia e que não existia nos outros, como casas de banho, cozinha ou elevadores, zona que era “coisa nova e coisa boa, mesmo chique”. O aparente paradoxo entre a militância em favor dos mais desprotegidos e a habitação num sítio mais refinado é explicado pelas razões de segurança na clandestinidade — “O Partido apostava agora no arrendamento de casa em sítios bons. Foi entendido que os habitantes clandestinos estariam mais protegidos entre a população menos miserável do que em casas ou casebres isolados edificados em paisagens ignotas.” A vida de vizinhança neste bairro é bem caracterizada em “Perdeu-se relógio de senhora”, mesmo porque, coincidentemente, também a personagem Beatriz passará a viver na mesma rua que Benvinda (agora chamada Ana Maria), chegando ambas a cruzarem-se na rua, na mercearia, nas dores e na descoberta.
A história acontece também noutros espaços, decorrentes das mudanças de residência ou das condições de vida das personagens — ou porque há a decisão de viver noutro lado (Lisboa, por exemplo) ou porque, no caminho, os pides interrompem a vida. No final, as três figuras femininas encontram-se e convivem, os tempos são outros. A narradora acompanha-as independentemente do espaço e vai dando notas da prisão, da vida, da guerra colonial, das mudanças (por vezes lentas, outras vezes em crescendo), frequentemente identificando-se com elas, pelo menos nos pontos de vista (para o que muito serve o discurso indirecto livre, em que, muitas vezes, as vozes das personagens e da narradora se misturam).
Perdeu-se relógio de senhora, de Alice Brito, entra pelo romance histórico, na medida em que os contextos geográficos e sociais em que a acção decorre são retratos epocais, sociais e locais fácil e propositadamente identificáveis, razões que fazem com que esta obra seja também memória, além de ser literatura.
* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1795, 2026-07-08, pg. 10.





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