quarta-feira, 18 de maio de 2022

A poesia que contraria a Constituição de 1933



A Constituição Política da República Portuguesa que entrou em vigor em 11 de Abril de 1933 (regendo, nos seus 142 artigos, o país até 1976, ainda que com alterações que lhe foram sendo introduzidas) rapidamente possibilitou a prevalência do estado autoritário sobre os cidadãos. Com a sua publicação foi também republicado o Acto Colonial (que fora aprovado em 1930, com 47 artigos), normativo que estabelecia o quadro jurídico e institucional com os territórios que estavam sob domínio português.
Imagine-se agora a submissão dos dois documentos, de 1930 e de 1933, à análise prévia do “lápis azul”, não já com o propósito de os impedir de circular (como faziam os censores de antes do 25 de Abril, quando se confrontavam com textos, desenhos ou imagens que contrariassem o espírito da lei e dos costumes), mas de os pôr em causa, de afirmar princípios que lá não constam e que chegam a subverter o seu teor normativo...
Foi isso que fez um grupo de poetas e de artistas para a obra ReConstituição Portuguesa (Companhia das Letras, 2022), coordenada por Diego Tórgo e Viton Araújo, apresentada como um “manifesto que transforma um símbolo do Fascismo em gritos poéticos de liberdade”, num total de 58 curtos poemas construídos sobre outras tantas páginas pintadas em azul, envolvendo 22 autores de poemas e 12 autores das ilustrações (sendo DeBrito autor de mais de metade destas).
Experiência de “blackout poetry”, os textos de ReConstituição Portuguesa surgem por cobertura das palavras indesejadas no articulado dos normativos, ficando a descoberto aquelas que constroem o poema, assim se dando um outro sentido a palavras que já lá constavam - os versos “Nenhum Estado / garante protecção / àqueles que se inutilizarem / no serviço em defesa da ordem / e nele perderem a vida” resultam de apagamentos provocados nos artigos 57 e 58, que dizem, respectivamente, “Nenhum cidadão pode conservar ou obter emprego do Estado ou das autarquias locais se não houver cumprido os deveres a que estiver sujeito pela lei militar” e “O Estado garante protecção e pensões àqueles que se inutilizarem no serviço militar em defesa da Pátria ou da ordem, e bem assim à família dos que nele perderem a vida.”
Por estes poemas passa sobretudo a contestação, forma máxima de manifesto - “é permitida / a publicidade contrária à ordem, / aos interesses do Estado / ou aos bons costumes” (a partir dos artigos 116 e 120), “Na execução dos seus despachos e sentenças / podem os Tribunais aplicar leis, / decretos ou quaisquer outros diplomas / que infrinjam o disposto nesta Constituição / por sua iniciativa / para a defesa da sociedade” (sobre os artigos 121 a 123). Do articulado do “Acto Colonial” surgem poemas relacionados com a forma de olhar o outro, como acontece em “corpos / indígenas / exploração pública / e púbica” (a partir dos artigos 18 a 21), ou com a independência, como surge em “colónias / países estrangeiros / destinados exclusivamente / à autonomia” (sobre os artigos 45 e 47), entre outros temas.
Expressivas são também as imagens conseguidas a azul, algumas a raiar o fantástico, vivendo de símbolos como o cravo, o corpo humano, elementos militares, a justiça, a solidariedade, a dor, elementos políticos (o parlamento, o voto, figuras da política) ou manifestações populares.
ReConstituição Portuguesa é a expressão da indignação contra a violência sobre as ideias e sobre a autenticidade, uma maneira de afirmar o valor da liberdade e da crença no ser humano.
*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 850, 2022-05-18, pg. 8


quinta-feira, 12 de maio de 2022

Sandro Cândido Marques e a origem da Amnistia Internacional



Foi em 19 de novembro de 1960, enquanto lia no metropolitano o Daily Telegraph, que me deparei com um pequeno parágrafo que relatava como dois estudantes portugueses haviam sido condenados a penas de prisão por nenhum outro delito além de terem feito um brinde à liberdade num restaurante lisboeta.” Esta foi a motivação maior para que se iniciasse um movimento em prol da liberdade de consciência, como depôs Peter Benenson (1921-2005) para uma recolha de história oral em 1983.

Depois da história da prisão dos jovens, a indignação de Benenson levou-o a publicar no jornal inglês The Observer, em 28 de Maio de 1961, o artigo “The forgotten prisioners”, insurgindo-se contra as perseguições devidas à opinião política ou religiosa e anunciando a edição de Persecution 1961 (Penguin Books), que organizou e esteve na origem da criação da Amnistia Internacional, contendo nove narrativas sobre pessoas “que sofreram pelos seus ideais”, aí se incluindo um capítulo dedicado a Agostinho Neto (1922-1979), poeta e médico angolano preso pela PIDE - “em Junho do ano passado, a polícia política marchou até sua casa, chicoteou-o em frente da família e, depois, levou-o contra vontade” para Cabo Verde.

Apesar dos esforços de vários investigadores ligados à Amnistia Internacional, não foi possível apurar a identificação dos jovens portugueses que Benenson referiu como inspiração, havendo ainda dúvidas quanto à data e quanto ao jornal em que a notícia teria sido lida, haja em vista que já eram passadas mais de duas décadas entre a leitura do acontecimento e a data do depoimento para a memória...

A história que se terá passado em Lisboa foi aproveitada pelo setubalense Sandro Cândido Marques (n. 1972) para ser contada na obra Estudantes (ed. Autor, 2021), ilustrada por João Manoel Feliciano (n. 1978). Devido à falta de elementos históricos sobre o episódio de Lisboa, a narrativa, em texto exíguo com forte aposta no poder da imagem, traz as personagens João e Joana, estudantes, para o interior de um café, onde conversam sobre uma actividade para o fim de semana (que se percebe ter a sua dose de segredo) e decidem brindar à liberdade, mas... “erguem os copos, olhando-se mutuamente, e levam os copos à boca, não passaram do primeiro gole”. O brinde foi interrompido por dois homens armados, agentes da polícia, que agiram ao som da palavra “liberdade” e ditaram o destino dos jovens: a rua António Maria Cardoso, onde estava sediada a PIDE. Ao levantarem-se, João deixa cair um embrulho que continha o seu trabalho final de curso, não por acaso intitulado “Programa para a democratização da República”.

A simplicidade da estrutura narrativa é explorada pela força do traço, em tinta da China, de Feliciano, que intensifica as reacções de indiferença, esperança, compromisso, preocupação, agressividade e surpresa das várias personagens (empregado de balcão, jovens, agentes policiais, clientes), exaltando a força da expressão da liberdade e a sua fragilidade.

A história de Estudantes serviu de base a uma representação de rua, em Berlim, em 2011, aquando do 50º aniversário da Amnistia Internacional, e, independentemente da falta de pormenores de Peter Benenson para se localizar esta história relativamente aos seus intervenientes, ela vale pelo que simboliza: a esperança que a liberdade contém e os riscos a que ela pode obrigar.

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 845, 2022-05-11, p. 8.


quinta-feira, 5 de maio de 2022

Afonso Ventura: o humor a rir-se da vida



Um amigo pediu, um dia, ao setubalense Afonso Ventura (1887-1967) uma “história humorística com muito optimismo, de modo a fazer-nos esquecer, com alguns sorrisos, as vicissitudes e maus bocados que todos mais ou menos temos que enfrentar pela vida fora.” O resultado foi a narrativa A dama do mascarim verde, apresentada como “novela humorística”, publicada no semanário O Distrito de Setúbal entre 23 de Agosto e 22 de Novembro de 1966 e, depois, editada em separata do mesmo jornal “para ajuda do sustento” do autor, como recordou a notícia sobre o óbito de Afonso Ventura em 12 de Dezembro de 1967.

Na introdução, o autor justifica-se: “chorar não faz falta a ninguém, excepto a certo número de mamões que usam o sistema de quem não chora não mama. Rir sim, faz falta a toda a gente, porque o riso é salutar, é terapêutica desopilante.” Mais adiante, explica a estratégia - depois de “rebusca nas recordações”, encontrou “episódio assaz pitoresco”, acrescentando não ser história original, mas “um decalque, uma adaptação ao meio ambiente alfacinha de um tema criado por inigualável humorismo gaulês” a que juntou “mais uns gramas de sal, uma pitada de pimenta e um pouco de piri-piri da velha graça portuguesa, de molde a cozinhar um pitéu não muito picante” agradável aos leitores.

Assim se chega ao lisboeta Bairro Azul para um “episódio trágico-burlesco” no dia do casamento de Júlia Fialho com João Pires. A quase-tragédia que se abateu sobre o noivo aconteceu por ele ter querido levar o sogro a mudar a sua atitude relativamente à dependência e obediência que este nutria pela esposa, Efigénia de seu nome. Mas a experiência dela (ou a sua matreirice) puseram-na como condutora dos acontecimentos que quase acabaram com o Pires, numa história com contornos de plausibilidade, assente em pormenores que comprometiam o passado juvenil do noivo. No final (depois de alguns dias decorridos sobre a boda, com o noivo desaparecido), tudo acaba bem - e Efigénia conta ao Pires a sua intenção: assustá-lo para que não se intrometesse na organização da sua casa. “Brincadeira de mau gosto. Olhe que eu estive em risco de ficar com os miolos de pernas para o ar!”, reconheceu o genro.

A novela tem uma estrutura simples, com poucas personagens, em torno de uma trama que tira partido do “carnaval da vida”, com os tais sorrisos prometidos a ganharem força sobretudo nos jogos semânticos e no tom hiperbólico - Efigénia embirra com a careca do marido “porque é muito ciumenta e tem ouvido dizer que é dos carecas que elas gostam mais”, mas “este ‘elas’ tem para ambos um significado muito vago e contraditório: ela diz que são as mulheres, ele diz que são as moscas”; o noivo Pires, quando viu Júlia pela primeira vez, “sentiu que o coração lhe dava mais pinotes no peito do que um poldro no picadeiro”; ao aconselhar o sogro a não se deixar subjugar pela mulher, Pires ouve: “Sempre lhe digo que é preciso ter muito cuidado com ela, lembre-se que você é Pires e ela é capaz de lhe fazer uma racha que não há deita-gatos que o conserte”; quando o noivo andou desaparecido por três dias, comenta o narrador que “não houve maneira de encontrar em Lisboa um Pires desirmanado... todos os pires tinham chávena”; ao terceiro dia depois da boda, sem notícias do noivo, Efigénia pergunta à filha se já tinham trazido o pão, respondendo a noiva “Não sei, mamã... há três dias que sou casada e ainda não vi o padeiro.”

São estas tiradas discursivas, a lembrarem a resposta rápida e desarmante do teatro de revista, que dão peso ao tom humorístico, marca do gosto que Ventura tinha por essa modalidade, área que serviu como actor e como autor.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 840, 2022-05-04, p. 9.


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Maria Antónia Palla: as causas e a felicidade



O livro começa com uma evocação dos avós paternos - “Em casa dos meus avós paternos havia um relógio de cuco de madeira preta, que chamava a minha atenção.” A curiosidade despertada pela avezita associava-se ao mistério daquela utilidade até ao momento em que “o avô ensinou a ver as horas”, tempo de deslumbramento “por ter adquirido um conhecimento que já não pertencia só aos adultos”. Aprender a noção de tempo, a mais difícil de se dominar, fez ecoar uma outra, vinda também por intervenção dos avós - “Os avós ensinaram-me muitas coisas. A mais importante, que traçaria o caminho da minha vida, foi a palavra liberdade.” Cerca de uma centena de páginas adiante, a narrativa é rematada, ainda lembrando os avós, com uma alusão a Abril de 2005, quando a autora-narradora tinha já 72 anos, depois de receber a Ordem da Liberdade das mãos de Jorge Sampaio - “Nesse dia, fui ao nosso jazigo, no Alto de S. João, e levei aos meus avós um ramo de rosas vermelhas.”

Quem assim traça o seu auto-retrato é Maria Antónia Palla, no livro O relógio de cuco (Edições Húmus, 2021), coligindo memórias de um tempo compreendido entre a infância e Maio de 2018, quando a Sociedade Portuguesa de Autores lhe atribuiu a Medalha de Honra.

Ao longo da narrativa, que segue o rumo cronológico, a escrita é predominantemente substantiva, resguardando a adjectivação para o essencial, consequência da prática jornalística - “O jornalismo foi a minha única profissão. É um trabalho exigente, física e intelectualmente, que exerci com prazer e paixão.” -,  característica que assinalará ao comentar a frase “ela escreve como um homem”, proferida pelo director do “Século Ilustrado”, Francisco Mata, aquando da sua entrada para colaboradora desta publicação - “Penso que ele queria dizer que eu escrevia sem manifestações de estados de alma.”

Se a infância e a juventude, os casamentos, a morte da filha e a chegada do filho se cruzam nesta retrospectiva, dois outros aspectos determinam o conteúdo essencial desta narrativa - a profissão e as causas abraçadas.

O percurso de jornalista lembra momentos tensos - como a proibição sofrida para não publicar trabalhos sobre pedofilia ou fazendo o balanço do Maio de 68, a confusão surgida em 1976 a partir de uma reportagem para a televisão sobre o aborto (que a levaria até ao banco dos réus) ou ainda a descoberta de que as notícias sobre os movimentos de libertação de Angola em 1974 eram “cozinhadas” para favorecimento do partido que chegou ao poder -, embora também por lá passem momentos de fulgor - como o da reportagem de 1970 sobre o carnaval brasileiro enquanto fenómeno social e cultural ou o encontro com Jonas Savimbi na Jamba, entre outros.

Linha forte neste O relógio de cuco é também o envolvimento que liga Maria Antónia Palla às causas que assumiu, rememorando-as com entusiasmo - desde logo, a construção da sua autonomia em jovem, reagindo a uma certa “ditadura em casa”, passando depois por marcos como o feminismo, o sindicalismo, a formação da Liga dos Direitos das Mulheres e do Forum Paz e Democracia em Angola, a Caixa de Previdência dos Jornalistas, a biblioteca feminista Ana de Castro Osório, entre outras.

Quase no final, em jeito de balanço, assume: “Tenho 88 anos. Este autorretrato custou-me a desenhar. É difícil olhar para dentro de nós e seleccionar o que achamos mais importante e pode, eventualmente, interessar a outros.” E, inspirada por Maria Lamas, remata: “A felicidade não existe. O que felizmente existem são momentos de felicidade. Nós, mulheres, devemo-nos preparar para isso.”

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 835, 2022-04-27, p. 8.


terça-feira, 26 de abril de 2022

A data d’A Garota Não - 2 de Abril



Saiu da maternidade do Hospital de S. Bernardo, em Setúbal, no outono de 1983, para o Bairro 2 de Abril, residência da família. Relembra: “Cresci sem saber o que representava esse nome. Sem saber que oito anos antes, em 1976, a 2 de Abril, se decretava a ‘Constituição Portuguesa’ (...). Fiz-me gente, portanto, num bairro com Nome e circunstância.” É Cátia Oliveira, “A Garota Não”, quem assim recorda o início da sua relação com o bairro que a acolheu, na “New in”, em Janeiro de 2021, sob o título “Carta para o Bairro 2 de Abril, com amor”.

Essa declaração de afecto foi agora retomada, sendo 2 de Abril o título do segundo cd de “A Garota Não”, a correr nos ouvidos desde há dias, obra primorosa pela apresentação delicada, numa embalagem que transforma cada cd num objecto único, invólucro original com um toque artesanal. Peça bonita e cativante, resguarda um lote de vinte canções, embrulhadas em fotografias do bairro, com dupla dedicatória incluída: à mãe, “porque foi com ela que aprendi o que é força e o que é o amor, e que o simples é quase sempre o mais bonito”, e “a todas as pessoas do Bairro 2 de Abril e de todos os Bairros 2 de Abril deste país”.

Por este conjunto de poemas passam: o tom de manifesto (“podem decretar mandar calar-te / (...) / podem decretar o fim da arte / e a gente faz uma canção sobre isso”), o apelo à paz (“que venha quem vier por bem / mas não se trate com desdém / quem tratou deste lugar”), o sonho (“vou pelo sonho, que a vida é poética / quanto me acende este amor / quanto me anima, este amor, quanto me anima”), a liberdade (“o melhor lugar / de qualquer cidade / 1+1 são 3 / quando há liberdade”), a solidão (“esse amor não bate certo / dói que mata a céu aberto / já não sei como tocar-te / tudo em nós agora parte / e eu já não sei...”), a indignação (“não, não vale tudo aqui / a vergonha tem limite / e o status não permite / que nos tratem assim”), o amor (“quand’o amor é bom / tem asas bem compridas, e tão coloridas como baton / seja alti-falado ou só sussurrado e até sem som”), a imagem feminina (“que mulher é essa / que eu vejo na telenovela / as mulheres à minha volta / não se parecem nada com ela”).

Além destes temas, da tradição literária e musical, outros há, dominados pelas circunstâncias vividas na contemporaneidade, como a habitação ou a moda dos alojamentos locais (“eu moro em casa de mãe / casa de mãe é bom / mas é casa de mãe” ou “Começam as obras, que casa bonita! / Começam os guests, fome é infinita / Mais um AL, orgulho nacional, / corrida sem lei, onde vais Portugal?”), os refugiados (“E se voltar a renascer aqui neste lugar / quero ser flor, que a guerra, amor, um dia há-de acabar”) ou a contestação ideológica (como é o caso do poema “Sede do Xega”).

Pelas visitações feitas - a Eugénio de Andrade, Criolo, Fausto, Francisca Camelo ou José Mário Branco, homenageado na última composição -, pela vida que nele perpassa, pela dose de vivências sugeridas, pelos sentimentos que povoam os seus 70 minutos de música, canto (em que também entram as vozes de Xullaji e Ohmonizcente) e poemas, este 2 de Abril de “A Garota Não” é experiência cuja intensidade se sente contra o conformismo e em prol do compromisso.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 831, 2022-04-20, pg. 6.


terça-feira, 12 de abril de 2022

Centésima crónica - Dos livros



De livros, e do que deles fica, se tem falado por aqui. Na centésima crónica, algumas justificações para a leitura e para os livros. Diversificadas, mas sempre com o prazer da leitura e do livro em fundo, por alguns dos que escrevem.
Afonso Cruz: “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.” - O vício dos livros (2021).
Alice Brito: “Pode-se frequentar um livro, um verso, uma página. Há livros que têm melhor vida que outros. Em carícias, sublinhados, empréstimos, conversas e paráfrases. Há livros que têm mesmo uma vidinha de lordes. Emprestam imaginários, personagens e vistas largas. São referidos, referenciados, estudados com deleite. São lidos por muitos olhos. À noite, de dia, às escâncaras ou clandestinamente. É a vida. Também há alguns que não valem nem o papel que gastam. Só dizem parvoíces.” - As mulheres da Fonte Nova (2012).
Aquilino Ribeiro: “Para uma criança, livraria que ela possa revolver e folhear à vontade é divertida como um presépio e mais instrutiva que uma escola. Frontispícios, gravuras, cul-de-lampes, vinhetas, que curso de humanidades!” - Anatole France (1923).
Dulce Maria Cardoso: "Os livros oferecem-se sem escolha a todos os que os quiserem ler. E, se redimem, fazem-no de forma tão caótica e tão insondável que ninguém poderá ter nisso qualquer esperança. Talvez os livros escrevam direito por linhas tortas. Como Deus." - na antologia O Prazer da Leitura (2011).
Eduardo Lourenço: “O relacionamento com os livros – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas.” - em entrevista a Carlos Vaz Marques, em Os escritores (também) têm coisas a dizer (2013).
Eugénio Lisboa: “Quando um livro nos impressiona e marca profundamente, a seguir a ele, nenhum outro livro nos parece apetecível.” - Vamos ler - Um cânone para o leitor relutante (2021).
João Bigotte Chorão: “Os livros podem fazer um erudito, mas é duvidoso que tornem civilizado quem o não seja.” - Diário 2000-2015 (2017).
José Régio: “Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” - Páginas do diário íntimo (1994).
José Tolentino Mendonça: “Em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” - O que é amar um país - O poder da esperança (2020).
Maria Judite de Carvalho: “Quem não lê não sabe o que perde. Os livros são os nossos melhores amigos, é uma frase feita mas é uma frase certa. Amigos que nos ajudam, que nos acompanham, que nos enriquecem com o seu saber, que nos dão momentos agradáveis de fuga ao quotidiano ou momentos pouco agradáveis mas necessários de chamamento à pedra da vida.” - Diários de Emília Bravo (2018).
Rita Ferro: “Livros são bússolas que me guiam nos momentos sem Deus, substitutos de um misticismo que não me foi destinado, ou que a vida, com os anos, foi dissolvendo.” - Veneza pode esperar - Diário 1 (2014).
Serafim Ferreira: “O livro será o melhor instrumento para decifrar todos os códigos e desvendar os paraísos artificiais (ou não) que pela eternidade hão de alimentar a aventura do homem.” - Olhar de Editor (1999).
Valter Hugo Mãe: “Nenhum livro se faz sem essa rendição à maravilha em detrimento da verdade.” - Contra Mim (2020).
* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 826, 2022-04-12, p. 11.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Bocage pelo olhar de Calafate (4)



O terceiro folheto de temática bocagiana composto por António Maria Eusébio, o “Calafate”, intitula-se Cantigas para Guitarra dedicadas ao aniversário do grande poeta Elmano, o Bocage, publicação de quatro páginas, surgida em 1911, ligada ao primeiro aniversário bocagiano celebrado no regime republicano.

Em 9 de Agosto desse ano, a Câmara de Setúbal decidira instituir o dia 15 de Setembro, data de aniversário de Bocage, como feriado municipal, tendo a primeira celebração ocorrido durante três dias, entre 15 e 17 de Setembro.

As décimas do “Calafate” relatam o entusiasmo vivido na cidade - “Muita gente madrugou / P’ra ver nascer esse dia, / Até alguém cuidaria / Que não vinha, mas chegou. / N’Avenida se juntou / Nobre, rico e pobre artista, / Todos empregavam a vista / Para as bandas do Oriente, / P’ra ver, em aurora luzente, / O dia quinze setembrista.” A adesão popular, a quantidade de visitantes e o ambiente festivo merecem pinceladas fortes do poeta repórter - “Todo o Povo está contente, / Tem muita razão p’ra estar, / Muitos vivas há de dar / Aos autores desta festa, / Porque outra igual a esta / Só Setembro a pode dar.”

A apologia de Bocage, a sua fama, a necessidade de testemunhar e de dar continuidade à memória são acentuadas neste folheto, constando também algum espírito crítico e adesão à decisão republicana de celebração do nascimento de Bocage, pois os grandes eventos bocagianos anteriores tinham ocorrido sempre na data do falecimento - “Foi festa de luzimento / Que se fez pelo centenário, / Só o seu aniversário / Estava no esquecimento. / No dia do seu nascimento / ‘Stava a praça despovoada, / Estando a memória guardada / Por galegos andarilhos; / Setúbal, p’rós seus filhos, / Tinha uma dívida atrasada.” No meio de tal entusiasmo, António Maria Eusébio tem ainda uma palavra para um dos setubalenses que mais pugnaram pela memória bocagiana, Manuel Maria Portela, falecido em 1906 - “Que glória não teria / Portela, se fosse vivo, / Ele que era tão activo / Nos dotes da poesia.”

Se as outras celebrações bocagianas (inauguração da estátua em 1871 e festa do centenário do falecimento em 1905) tinham sido pontuais, ao ter sido feita a opção pela festa do aniversário estava garantida a continuidade da memória bocagiana e a sua celebração anual, aspectos que o “Calafate” antecipa - “Esta festa tão vistosa / Far-se-á para o futuro, / Para não ficar no escuro / Uma data gloriosa. / Bocage é que já não goza / Do seu alto monumento, / Nem vê o acompanhamento, / Melhor que o seu centenário. / Pobre, rico e operário / Festejam o seu nascimento.”

O folheto conclui com uma ideia que o “Calafate” já expusera nos versos de 1905 - a memória bocagiana ficará incompleta sem que se saiba dos restos mortais do poeta: “Tem aqui sua memória, / Seu corpo onde estará?”

Numa associação feliz, o nome de Bocage seria ainda usado em décimas de cunho publicitário que o “Calafate” redigiu para alguns dos seus patrocinadores, como o Mendes Chapeleiro - “Bocage é bom que apareça / (...) / No dia do seu aniversário, / com algum chapéu na cabeça. / (...) / Vão até ao chapeleiro Duarte, / Que tem lá para escolher.”

Não conhecendo a obra bocagiana pela leitura, António Maria Eusébio conseguiu ser um divulgador da memória bocagiana pela história que lhe foi contada, pelo respeito pela memória e pelo empenho nas coisas e nos acontecimentos da terra que o viu nascer.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 822, 2022-04-06, p. 8.


quinta-feira, 31 de março de 2022

Bocage pelo olhar de Calafate (3)



O centenário bocagiano de 1905 foi intensamente vivido em Setúbal, com o jornal O Elmano a envolver a população. Houve hino a propósito; conferenciou-se, recebendo Setúbal palestrantes como Manuel de Arriaga (1840-1917) ou Teófilo Braga (1843-1924); foi cunhada moeda de prata; o artista João Vaz esculpiu a lira que passou a adornar o monumento a Bocage; o cortejo de 21 de Dezembro foi apoteótico, com carros alegóricos, iluminações e filarmónicas; os participantes setubalenses nesse dia de festa rondaram os quinze mil, além de seis mil “forasteiros”, vindos sobretudo da capital.
António Maria Eusébio, no folheto Cantigas para Guitarra, de quatro páginas, publicado ainda em 1905 ou em 1906, reportou o evento em quatro poemas, como anuncia logo na primeira quadra, mote para o primeiro conjunto de décimas - “Parabéns irmão Bocage / Para ti nada faltou / Do teu primeiro centenário / Segunda memória ficou.” -, evidenciando o sucesso das realizações e a comparação, na grandiosidade simbólica, com o que acontecera 34 anos antes, na inauguração do monumento a Bocage. A impressão que ficou no “Calafate” foi tão intensa que a primeira décima se inicia pela hiperbolização - “Não é no século actual / Nem outro que há de vir / Que algum povo há de assistir / A um centenário igual.” No seguimento da narração, depois de considerar que “foi festejo extraordinário” (com “quatro arraiais”, “três sociedades”, “duas bandas regimentais”, “quatro oradores”), aconselha o poeta: “Se no teu itinerário, / Encontrares Camões, / Conta-lhe as manifestações / Do teu primeiro centenário.”

O segundo poema toma como assunto a limpeza que foi feita à estátua por um “peneireiro” habilidoso, fala de alguma desolação pelo final da festa (“Agora tudo tornou / Ao seu primeiro estado / Está o festejo acabado / Sem haver perdas nem danos / Para daqui a cem anos / Ficou tudo preparado.”) e denuncia o facto de não ter sido permitido ao “velho cantador” aproximar-se do centro do evento - “Também quis acompanhar / Esse teu rico festejo, / Mataram-me o meu desejo, / Não me deixaram passar. / Antes eu queria levar / Um bofetão no meu rosto, / Mas sofrendo esse desgosto / tornei p’ra trás, vim-me embora.”

A adesão de António Maria Eusébio a Bocage decorria das informações que lhe chegaram através de uma conhecida figura setubalense, que teve o condão de divulgar a história, as ideias e a importância do poeta, como reconhece: “Quando eu ignorava / Quem Bocage tinha sido, / Tive um velho conhecido / Que dele muito falava. / Valia ninguém lha dava, / Seu saber estava oculto, / Depois que houve o tumulto / Da sua inauguração, / Muitos dizem, e com razão, / Bocage foi grande vulto.” Consegue-se inferir a referência a Manuel Maria Portela (1833-1906), um dos maiores promotores da figura de Bocage em Setúbal.

No último poema do folheto, o tom é algo mais brejeiro. Referindo a conservação da escultura bocagiana, anota: “Tu estavas tão mascarrado / Dos pés até ao pescoço, / Agora és um rapaz moço, / Barba feita e cu lavado.” E, quanto à lira deposta na base do monumento, ri o “Cantador” - “Tens uma lira afinada / Que custou tanto dinheiro, / Sendo tu tão bom gaiteiro / Já não dás uma gaitada.” A finalizar, o “Calafate” exagera, dizendo ao poeta maior: “Ainda hás de ser aclamado / Por D. Bocage primeiro” e “Também hás de ser c’roado.”

À sua maneira, António Maria Eusébio contribuía para a promoção de Bocage, prolongando o inebriamento da festa que honrara o poeta...

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 817, 2022-03-30, pg. 5.


quinta-feira, 24 de março de 2022

Bocage pelo olhar de Calafate (2)


Reconhecendo a distância cultural e social entre si e Bocage, o “Calafate” dialoga com a memória de Elmano Sadino, tendo-lhe dedicado três dos seus folhetos e algumas décimas avulsas.

O primeiro, Cantigas dedicadas ao Centenário do grande poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, de 1905, antecedeu a celebração do centenário do falecimento do poeta, ocorrido em 21 de Dezembro. Na primeira quadra, é assinalada a coincidência biográfica quanto a Dezembro (falecimento de Bocage, em 1805, e nascimento de António Maria Eusébio, em 1819) - “Bocage dá-me licença / Que eu quero falar de ti, / No mês do teu centenário / Tu morreste e eu nasci.” -, proximidade logo contrariada pela diferença cultural (“Bocage tinhas nascido / Para ser astro brilhante / E eu nasci para ignorante / E nada ter aprendido.”) e pela distância social (“Sou um velho sem valor, / Ao pé de ti sou um pobre; / Tu filho d’um homem nobre / E eu filho d’um pescador.”) O poema termina a lamentar a forma de se afirmar a memória - “Só uma falta conheço, / E talvez haja outras mais, / São os teus restos mortais / Não estarem ao pé de teu berço.”

Nas décimas seguintes, o elogio bocagiano sublinha a vida difícil que levou, oposta à glória de que se revestia passados cem anos - “Este é o senhor da festa, / O poeta setubalense, / Tudo isto lhe pertence, / Mas para ele já não presta. / (...) / Foram precisos cem anos / Para ser tão festejado”. Bocage é ainda comparado com Camões, pela miséria em que ambos acabaram - “Se mais tivesse vivido / Sofreria privações, / Seria o que foi Camões, / Que foi na vida esquecido.” Neste preâmbulo aos festejos do centenário, é relembrado que também “em Dezembro a sua imagem / Teve a inauguração” (referência à festa de 1871, aquando da inauguração da estátua) e regista-se o envolvimento social e as influências - “O lojista e o proprietário, / O poeta e o camarista, / todos estes fazem vista / Na festa do centenário. / Não lhes falta o numerário, / Nem falta a boa vontade; / Nenhum tem necessidade / De certos expedientes, / De homens tão influentes / Grande é a sociedade.”

Seguem décimas sobre diversos assuntos elmanistas: biografia bocagiana (valorização da sua arte, alistamento no Regimento de Infantaria de Setúbal, relação de Bocage com o dinheiro e com a vida nocturna, passagem pela prisão, morte em Lisboa); familiares de Bocage que o “Cantador” ainda conheceu - o padre Francisco Barbosa du Bocage (“Este padre espiritual / Chorava pela sua cela: / No convento de Palmela / Foi freire e conventual.”) e Maria Luísa du Bocage, casada com João Lima (“Pois dos Bocages viventes / Só um ramo está em cima, / É o ramo Bocage Lima, / Um dos últimos parentes.”); comparação da “obra rica” do homenageado com a “obra pobre” do “Cantador”; reconhecimento de Bocage em Portugal e no Brasil e necessidade de haver sempre um monumento em sua honra em Setúbal.

Quase no final do folheto, duas décimas reflectem sobre o talento e a fortuna, aproximando-se o “Calafate” de Bocage quanto à sorte, pois sente-se “ora farto, ora faminto, / como Bocage viveu.” A conclusão acontece em quatro décimas, diálogo entre Bocage e o autor, gesto de proximidade social, em que, após agradecimento ao patrono, o “Cantador” se despede - “Seja eu bom ou ruim, / Minhas cartas estão dadas; / Já tenho as contas fechadas / Brevemente darei Fim.”

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 812, 2022-03-23, pg. 9.


quarta-feira, 16 de março de 2022

Bocage pelo olhar de Calafate (1)


 

António Maria Eusébio (1819-1911), poeta popular setubalense, ficou conhecido por “Calafate”, devido à profissão por que optou (contrariando a ideia da mãe), e por “Cantador de Setúbal”, por cantar fado (acompanhado à viola por Josué Ferreira, seu compadre, e à guitarra por Francisco de Jesus, conhecido como “Carga d’Ossos”) e pela prodigiosa imaginação para versejar. Não sabendo escrever, as décimas que produzia eram memorizadas e, depois, ditadas a uma neta ou a amigos, que as transcreviam.

Os seus primeiros versos foram publicados no Jornal de Setúbal, em 9 e 16 de Fevereiro de 1868, por iniciativa de Henrique das Neves (1841-1915). No entanto, só em 1901 voltaria a haver publicação, ainda por ideia de Henrique das Neves, quando surgiu o livro Versos do Cantador de Setúbal. E, ainda nesse mesmo ano, sairia o folheto Tudo e Nada (Reflexões entre um sábio e duas caveiras), conjunto de três poemas construídos sobre décimas, em oito páginas. Provavelmente, foi este o primeiro folheto de Calafate, expediente encontrado para suportar as dificuldades económicas e ajudar na sua autonomia, sem estar dependente dos filhos.

Ignora-se a quantidade de folhetos publicados na última década de vida de António Maria Eusébio - mais de 70, maioritariamente intitulados Cantigas para Guitarra, variando entre as quatro e as oito páginas (vendidos a 10 e a 20 réis, respectivamente), com periodicidade indeterminada, além de mais sete, de cunho autobiográfico, intitulados Recordações da Minha Vida, publicados entre 1904 e 1910, retrospectiva que ficou incompleta, pois as 422 décimas que os compõem apenas relatam a vida do poeta até cerca de 1846. Em toda esta produção, a fórmula mais habitual é a do poema constituído por quatro décimas, que seguem o mote dado por uma quadra, repetindo-se cada verso da quadra no final de cada décima, indo a engenharia dos poemas ao pormenor de repetir o esquema rimático em todas as construções. Os textos destes folhetos foram reunidos por Rogério Peres Claro (1921-2015), seu bisneto, na obra Versos do Cantador de Setúbal (dois volumes em 1985 e terceiro volume em 2008), seguindo o critério da arrumação temática dos textos e desprestigiando o ritmo e o contexto da publicação em folhetos.

O encontro de António Maria Eusébio com a poesia deu-se pelos seus vinte anos, cerca de 1840, e manteve-se pela vida fora, conforme canta numa décima do quinto folheto das Recordações, publicado em 1907, quando tinha 88 anos: “Já ia tomando amor / À musa da poesia / Já cantava e quem ouvia / Já me dava algum valor. / Chamavam-me o Cantador / Foi nome que me ficou / E ainda não se acabou / O nome que vale tanto. / Agora que já não canto / Ainda o Cantador sou.”

Senhor de uma memória prodigiosa e de uma curiosidade incontrolável, ao “Calafate”, os poemas saíam dominados pelo ritmo do fado e povoados pela experiência acumulada numa vida de dificuldades, que tanto lhe servia como fonte para testemunhar e relatar acontecimentos como motivação para reflectir sobre a existência. As temáticas que perpassam pelas suas décimas são diversificadas, um pouco ao ritmo dos acontecimentos vividos e presenciados - factos da vida pessoal, comemorações e festas religiosas, notícias do mundo (sobretudo conflitos internacionais), histórias brejeiras, episódios da vida local (as tramas políticas, as querelas, os costumes, o património), o sentir de classe e o mundo do trabalho, a vida social, reflexões sobre a vida e os valores.

Conterrâneo de Bocage, António Maria Eusébio presenciou vários momentos de homenagem ao vate sadino, razão por que o poeta setecentista não poderia escapar aos versos do “Cantador”.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 807, 2022-03-16, pg. 5.