sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Sebastião Fortuna, o idealista coerente

 

“O nosso amigo Sebastião partiu”, disse-me ao telefone, com voz hesitante e pesarosa, a amiga que me deu a notícia na tarde de 14 de Janeiro. E logo um turbilhão de imagens me passou, remexendo a já memória do Sebastião Fortuna (1936-2023).

De imediato me lembrei de uma folha manuscrita que ele me tinha oferecido, texto provavelmente lido ou pensado para alguma intervenção pública quando tinha 76 anos (de 2012, portanto), em que se definia: “Penso que sou uma pessoa como qualquer outra, com defeitos e qualidades, com qualidades e defeitos. Mas aceito que sou um idealista! Tenho consciência disso. Mas procuro ser um idealista coerente, pois tenho a consciência de que o ideal nunca se atinge, porque o ideal é um desejo, uma meta a atingir, que tem como finalidade o que consideramos a perfeição e o ser humano nunca será perfeito.”

A ideia que passou para os amigos e para os conhecidos sobre o Sebastião Fortuna foi a do “sonhador”, epíteto a fazer algum jus às palavras com que ele se apresentara. E vale a pena ler o capítulo da narrativa da vida do Sebastião Fortuna há pouco tempo publicado por Cecília Matos no segundo volume da obra E assim se fez esta terra... - Os Frescata, os Fortuna, as Cabanas e outras histórias (ed. Autor, 2022), relato de uma dezena de páginas, muitas vezes na primeira pessoa, recheado da inconstância, da luta, dos sonhos, da persistência, da vida que povoou este homem, que contou saberes para muitas profissões, que peregrinou à frente dos seus sonhos, que valorizou a circunstância de ser e de viver em detrimento de todos os riscos que correu.

Conheci Sebastião Fortuna quando vim para Setúbal, numa visita que fiz ao seu empreendimento “Fortuna - Arte e Artesanato”, ali na entrada de Quinta do Anjo. De tal maneira me fascinou o fluxo das ideias que lhe passavam que não pude deixar de testemunhar no jornal O Distrito de Setúbal (na edição de 29 de Novembro de 1988) a impressão recebida. Conversador (muitas vezes mais em monólogo, com vontade de ser ouvido), fazedor de coisas (em barro, em tela, em madeira, em pedra), defensor do património e do saber, as intenções de Sebastião Fortuna eram fortes, mas assentes apenas nessa vontade de construir e de enfrentar a vida - tudo podia acontecer naquele espaço, era preciso lutar contra a extinção de artes e de ofícios locais, pensava na construção de um museu do trabalho onde se pudesse ver e fazer... e as palavras acompanhavam o movimento das mãos, porque as ideias já circulavam pelas nervuras do corpo.

Retomo o manuscrito de 2012: “Porque sou um idealista e procuro ser coerente, empenho-me no meu ideal, porque é nele que encontro a minha razão de Vida, que é colaborar para a construção de um Mundo Melhor. Mas sei que, para colaborar na construção de um Mundo Melhor, não preciso de fazer nada de extraordinário, não preciso de dar lições a ninguém, basta-me lutar todos os dias com os meus defeitos e esforçar-me, empenhar-me em cultivar os dons, os talentos que Deus me deu e pô-los ao serviço do bem Comum e já tenho muito em que me ocupar, já tenho muita sarna para me coçar.”

Sebastião Fortuna viveu na convicção e afirmação destes princípios, a que associava a sua crença no sonho, como referiu no livro em que alguns dos seus quadros vivem acompanhados pelos poemas de Alexandrina Pereira, publicado no ano passado: “É acreditando no nosso sonho e lutando pela sua realização que as coisas acontecem.” Dizer isto quando o peso de 86 anos acompanha o autor é levar um manifesto até ao fim, é assumir um caminho na sua totalidade.

O sonho, companheiro inseparável de Sebastião Fortuna ao longo das quase nove décadas que viveu, casou sempre bem com o lirismo das suas telas, dominadas por espaços de isolamento, por uma emotividade espelhada em cenários de infinito conducentes a certa dose de introspecção. Olhando os catálogos das exposições que envolveram os seus quadros, vemos que as telas sempre se cruzaram com a poesia através de títulos que podiam ser um verso, uma pista ou um poema, numa aproximação repleta de simplicidade - Sebastião Fortuna tinha o condão de dizer grandes verdades construídas com a simplicidade absoluta, aliás.

Retomo o que escrevi sobre a sua forma de estar para texto introdutório de um catálogo de 2015: “Um percurso cheio de positivas aventuras e de nem sempre calculados riscos, claro. Um trajecto único, pessoal, de um timoneiro que conduz a nau dos sonhos até quem o queira ouvir, seguir ou acreditar. Um itinerário cheio de luz, em que nada parece vacilar, salvo a rude dureza da circunstância terrena...” É que não foi fácil ser Sebastião Fortuna, sobretudo porque a vida e o sonho nem sempre se compatibilizam, mesmo que as cores do sonho escorram sobre a tela da vida.

Pelo retrato que, no livro de Cecília Matos, com a ajuda do protagonista, fica traçado, percebe-se que a navegabilidade da vida, mesmo se orientada pelo sonho, nem sempre é regular e, em nome da coerência que o sonhador quer ter, os momentos de quebra são muitos e os de procura outros tantos. Na verdade, Sebastião Fortuna conhecia-se muito bem: ao definir-se como “idealista coerente”, defendia-se das inseguranças e das barreiras do quotidiano. Se olharmos para os títulos das exposições dos seus quadros de 2008, 2010 e 2015, temos a prova da sua coerência e os pilares do seu percurso: “Sonhar é preciso”, “A felicidade é essencial” e “A vida é feita de sonhos”. Um quase manifesto! Uma quase justificação para a vida!

* J.R.R. "500 (e mais) palavras". O Setubalense: nº 1000, 2023-01-26, pg. 19.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

António dos Santos, tipógrafo para sempre (2)


 

A partir da abertura que lhe foi dada pelo prefeito, o percurso do tipógrafo António dos Santos começa a edificar-se, sempre na permuta com os outros rapazes, na aprendizagem com os mestres, querendo assumir mais responsabilidades técnicas, dominado pela curiosidade e pelo sentimento de fazer melhor o seu trabalho, num trajecto determinado por um sentido de vocação, eivado de reconhecimento às pessoas que tiveram influência na sua formação.

Pelas páginas de O Tipógrafo passam os trabalhos de António dos Santos no jornal O Setubalense, na partilha de conhecimentos, na preocupação de saber mais, na construção da gráfica Corlito, com lições sobre a arte da impressão, sobre os meandros da linotipia e do offset, quase podendo o leitor entender este livro como um manual técnico contado na primeira pessoa, desvendando os segredos das máquinas com que trabalhou e revelando os caminhos para a produção de um melhor trabalho. O afecto à profissão, à arte e aos equipamentos que lhe permitiram ser tipógrafo surge humanizado em vários passos, como naquele em que se pode assistir à personificação sentida das máquinas, quando se refere o menor esforço na actualização do equipamento, exigindo-se às antigas máquinas as mudanças trazidas pelas novidades - “Tornava-se por vezes assustador visitar tipografias que existiam espalhadas por este país fora e ouvir aquele barulho característico das impressoras pedaleiras, máquinas que gemiam de dor, quase suplicando que lhes dessem um pouco de descanso, tentando com isso abafar o barulho infernal, numa cadência sempre igual, sempre de dor.”

Uma outra faceta que passa por este livro é a do contributo para a história local sadina, aspecto que pode ser visto de dois ângulos: o primeiro, quanto ao esforço de formação profissional que uma instituição como o Orfanato Municipal de Setúbal praticou localmente, depositando nas mãos dos jovens que acolheu os utensílios necessários para o desempenho de uma profissão, aspecto que, de resto, António dos Santos já sobejamente relatou em obras anteriormente publicadas; o segundo, relacionado com a história das artes gráficas em Setúbal, inventariando as tipografias e alguns mestres da arte locais, ligando os momentos de expansão ou de retracção desta actividade com a vida de Setúbal.

A história que António dos Santos nos conta é também uma forma de reconhecimento - ao longo da narrativa, há sempre a preocupação do papel que os outros desempenharam, da construção em equipa - os colegas da arte (muitos deles formados na mesma escola), os seus aprendizes ou aqueles que estiveram sob a sua orientação, os mestres que conheceu e com quem aprendeu, as figuras com quem se cruzou e que confiaram no seu trabalho, os clientes para quem trabalhou (destacando neles o apoio para o crescimento da tipografia e a exigência que punham nos trabalhos encomendados), os parceiros da arte (como designers, fotógrafos, autores, etc.) e, por fim, a parte da família que o auxiliou, os sogros, que apresenta como “a família que nunca tive desde a minha nascença, gente da Murtosa, simples e afável a quem estou grato pela extraordinária ajuda que me deram para levar por diante um sonho de progredir e chegar mais além nas artes gráficas”.

O Tipógrafo, que António dos Santos nos oferece, ainda que carecendo de uma revisão linguística adequada, é um belo documento humano e profissional, muito assente no testemunho pessoal, apoiado, muitas vezes, em bibliografia sobre o tema, pois, como revela na última página, houve a preocupação de “chegar ao leitor, descrevendo com autenticidade tudo o que ao ofício de tipógrafo diz respeito.” Torna-se interessante, depois deste percurso, voltar ao início do livro, ao passo em que, na segunda página, o autor confessa o fascínio sentido desde criança pela tipografia: “O tempo ajudou-me a perceber a grande mudança que na minha vida se instalou, dando comigo em dias intermináveis colado aos vidros da porta da oficina de tipografia, imaginando-me um simples monge dos que há séculos habitaram este espaço de clausura, capaz de ali permanecer para sempre.” Missão cumprida, pois!

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 994, 2023-01-18, p. 8


quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

António dos Santos, tipógrafo para sempre (1)


 

“Dediquei-me a esta máquina com muito entusiasmo, conseguindo, com o correr do tempo, dela tirar os melhores resultados de impressão. Era como cruzar uma estrada cheia de obstáculos que nunca esperei percorrer, perguntando-me como consegui sobreviver do abandono a que fui jogado e parecer, afinal, igual a tantos homens que na vida tiveram feliz nascimento. Tudo isto regenerou em mim vontades de chegar longe na arte que escolhi, o ser impressor tipográfico, vendo-me como mais um sobrevivente que ao Orfanato chegou como indigente.”

Este parágrafo surge quase a meio do livro O Tipógrafo, de António dos Santos (Centro de Convívio dos Ex-Alunos do Orfanato, 2022), motivado pela grande inovação que constituiu a aquisição de uma máquina cilíndrica em segunda mão para trabalhos de grande formato, que equipou a oficina do Orfanato Municipal de Setúbal em meados da década de 1950. Mas o propósito deste parágrafo vai além dessa notícia - ele revela também um acto de fidelidade de António dos Santos relativamente à profissão que escolheu, um compromisso com a arte tipográfica, que lhe apareceu como bóia de salvação no seu percurso de criança abandonada pelos pais, mas depois acarinhada pelas instituições sociais, como foram o Asilo das Crianças Desvalidas (até aos sete anos) e o Orfanato Municipal de Setúbal (até aos 18 anos).

Talvez este parágrafo seja a justificação para o título desta obra - na verdade, a linha de leitura dominante neste livro é o percurso de tipógrafo de António dos Santos, desde essa altura até ao encerramento da empresa Corlito (Centro Técnico de Artes Gráficas), ocorrido em 2010, marca que criou e geriu com três outros sócios (Agostinho Ferreira, Alfredo Lopes e Henrique Rocha, este último também formado nas oficinas do Orfanato) ao longo de quase quatro décadas.

Ao escolher um título como este, O Tipógrafo, para contar a sua vida profissional, António dos Santos assume o seu ofício como algo de essencial, como motivação primeira, cruzando a vida com a técnica, com a produção, com o seu papel social de cidadão.

Lemos esta narrativa e assistimos à permanente sobreposição dos dois planos que a conformam - o da biografia do autor e o da história da arte tipográfica -, dando-se a primazia ao plano da profissão: de facto, o princípio da história, à semelhança de todas as biografias que seguem a ordem cronológica, aponta para a infância, mas, neste caso, a infância que é valorizada não é a do narrador António dos Santos, mas a da arte tipográfica - em duas páginas, o narrador apresenta-se para justificar a sua entrada no Orfanato e revelar a curiosidade em torno do que poderiam significar aquele cheiro da tinta e o barulho das máquinas que se ouvia. Depois, em dezena e meia de páginas, o leitor passeia pelos meandros de uma história da “tipografia através dos tempos”, recuando-se até aos anos de 800 no Japão, com entrada na história da arte tipográfica em Portugal, concluindo com referências à reedição, em 1962, da obra Manual do Tipógrafo, de Libânio da Silva (inicialmente publicada em 1908), título “indispensável para os rapazes que se inspiravam nas artes gráficas, procurando na arte de imprimir um futuro seguro”.

Só depois deste passeio pela história da tipografia é que o percurso pessoal do narrador é retomado - “Os 12 anos de idade chegaram. Era ali, naquele espaço do convento com artes de magia, que colocava no papel as palavras através dos caracteres na hora do confronto com a platina da máquina de impressão... que queria estar.” 

Tão firme decisão (ou paixão) obrigaria o jovem a uma conversa com o prefeito, momento de receio quanto à reacção que pudesse surgir como resposta, a carecer de toda a auto-confiança que o rapaz a sair da infância, ainda sem o exame da 4ª classe feito, pudesse arrecadar. O diálogo foi tão marcante que António dos Santos o relembra quase como se tivesse sido registado no momento em que aconteceu, vindo do perfeito a resposta desejada - “Impressionas-me... Está bem, vai lá falar com o Sr. Sequeira e diz-lhe que tens a minha autorização.”

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 989, 2023-01-11, p. 5.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Francisco de Paula Borba biografado (3)



Ao biografar o avô, Francisco Moniz Borba confessa a angústia do investigador perante a reconstituição do percurso - “Até há poucos anos, senti sempre a falta de algo que, escrito pelo seu punho, em discurso directo, nos desse a conhecer, de forma mais clara e objectiva, o que era o seu pensamento e o que na realidade o motivava nas suas iniciativas e realizações”, algo que se impusesse às entrevistas dispersas pelos jornais ou aos excertos que a imprensa divulgava dos discursos das cerimónias.

A tenacidade do biógrafo e o arquivo de família permitiram, no entanto, que a esta biografia sobre Francisco de Paula Borba chegassem dois documentos com a marca do biografado, ambos incluídos no livro como anexos: um, de 1920, “Relatório da Associação de Beneficência da Misericórdia de Setúbal relativo ao triénio 1917-18, 1918-19 e 1919-20”, que ultrapassa em muito o típico relatório circunstancial para revelar uma forma de pensamento própria relativamente aos assuntos abordados; outro, presumivelmente de 1932 ou do ano seguinte, uma “nota sobre a conferência a realizar em Évora”, em que o médico setubalense falou “sobre a assistência em geral e sobre a forma como a assistência era efectuada em Setúbal”.

O primeiro documento está imbuído da emoção e da sensibilidade do seu redactor, começando por uma apreciação crítica relativamente aos agentes da assistência social - “é quase sempre a iniciativa particular quem a alimenta e desenvolve”, mencionando, para o caso de Setúbal, uma rede de parceiros (como  as organizações operárias dos Montepios de Socorros Mútuos, a Cruz Vermelha ou a Associação Vicente de Paula, entre outros) que em muito ajudaram a Associação de Beneficência da Misericórdia. Depois, relata a obra no triénio, destacando a instalação da farmácia no edifício do hospital, a construção de uma padaria num anexo do hospital para fazer face à escassez de géneros trazida pela Grande Guerra, a dignificação da casa mortuária ou as condições da lavandaria como medida de higiene pública, entre outras iniciativas. Merecem ainda realce a coerência mostrada quanto ao Asilo Barradas, defendendo que deveriam ser cumpridas as disposições da benfeitora quando havia quem propusesse, em nome da sustentabilidade financeira, a diminuição do número de assistidas, bem como, para registo da história local, a indicação do início da pneumónica em Setúbal, em Setembro de 1918, sendo os primeiros pacientes da zona de Rio Frio, um dos quais faleceu antes de chegar à enfermaria.

O segundo documento é um bom resumo do pensamento de Francisco de Paula Borba quanto à prática da medicina e da assistência, muitas vezes crítico da demagogia em torno desta questão, como acentua no início da prelecção: “Muitas são as pessoas que emitem a sua opinião, mas menos as que se preocupam com os deveres que todos devemos ter para com o nosso semelhante.” O Estado também não é poupado - “A assistência feita pelo Estado é sempre cara e muito burocrata. Falta-lhe o desinteresse material e o muito do sacerdócio indispensável para o bom exercício de uma assistência profícua e útil.” Fazendo valer circunstâncias como a riqueza da localidade, o clima, o espírito religioso e a gestão dos óbolos, enuncia um programa do que deveria ser a organização da saúde pública, desde o posto médico nas aldeias até aos hospitais centrais de Lisboa, Porto e Coimbra, passando pelos hospitais concelhios e pelos distritais, valorizando a iniciativa particular, sobretudo das Misericórdias. Para Paula Borba, a mensagem essencial estava na vontade de que “a assistência continue sendo acarinhada e protegida pelas almas benfeitoras para todos os que compreendem o sagrado dever de fazermos aos outros o que desejamos para nós.”

Não admira, assim, a quantidade de retratos emotivos que sobre Francisco de Paula Borba foram traçados aquando do seu passamento em 26 de Setembro de 1934. Esta biografia é a homenagem justa nos 150 anos do seu nascimento e o avivar da memória sobre uma figura incontornável na identidade setubalense.

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 984, 2022-12-21, pg. 21.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Francisco de Paula Borba biografado (2)


Grande parte do percurso biográfico de Francisco de Paula Borba era já conhecido, sobretudo no seu papel de médico e de provedor da Santa Casa da Misericórdia de Setúbal, muitos pormenores tendo já sido trazidos ao saber público por Francisco Moniz Borba em trabalhos anteriormente publicados. Se, na obra Francisco de Paula Borba - Vida e Obra (1872-1934), o leitor fica a conhecer alguns aspectos da história familiar (origem, casamento, constituição da família, aquisição da quinta da Gâmbia), também por aqui passam as ideias e a forma de estar em sociedade do biografado, quer pela forma como se impôs enquanto profissional (inovando, construindo e governando a saúde local, visando a existência de melhores condições, no hospital e na Misericórdia), quer pelo relacionamento mantido com o operariado e com os mais carenciados (prestando-lhes assistência e envolvendo-se pessoalmente em algumas causas sociais, como a do pagamento da caução para dez trabalhadores serem absolvidos, depois de destruírem, por protesto, várias máquinas numa fábrica), quer pela recusa na aceitação de cargos públicos (republicano, renunciou a cargos políticos, argumentando com a sua actividade clínica).Cedo começou em Setúbal o reconhecimento pela figura de Paula Borba - ao saber-se que fora mobilizado para médico miliciano em 1917, a população manifestou-se, exigindo do poder político que o médico se mantivesse em Setúbal. Conseguido o intento, uniu-se a cidade para lhe fazer uma oferta. Porém, ao saber desta intenção, o seu pedido foi no sentido de destinarem a colecta feita à construção de um balneário, estrutura que era fundamental para o fomento da saúde pública. As homenagens, contudo, foram muitas ao longo da vida, com particular destaque para a atribuição do estatuto de “cidadão de Setúbal”, a primeira figura a receber tal título honorífico.

Para lá do reconhecimento institucional, houve também a gratidão individual do cidadão comum, muitas vezes apoiado pela acção de Paula Borba, como o prova a quantidade de poemas feitos em seu louvor - em 1932, compunha João Henrique um soneto sobre o médico, do grupo de “auto-silhuetas”, em que o retratado se contava na primeira pessoa: “Se adoro, e muito, o berço onde fui nado, / formosa ilha cujo amor cultivo, / Não amo menos a terra, à qual cativo / Me traz o encanto do formoso Sado. // (...) // Mas pertence esta vida aos pobrezinhos, / E é tão curta - por longa que eu a conte - / Que a absorve o meu amor pelos velhinhos.” Em Outubro de 1934, pouco tempo depois do falecimento de Paula Borba, “uma sua protegida”, Mariana Pereira, publicava largo conjunto de quadras “em homenagem ao distinto médico e benemérito”, cantando: “Está Setúbal de luto / com sentimento profundo / Morreu o pai da pobreza / Outro igual não há no mundo. // (...) // Ai que se eu pudesse / A minha vida por a dele trocar / Eu queria ser enterrada / Para ele neste mundo ficar. // (...) // Para nós era um Anjo / Digo e torno a repetir / Um homem como o Dr. Borba / Não veio nem torna a vir.”

Com razão regista Fátima Ribeiro de Medeiros, na abertura do prefácio a este livro, que “há pessoas raras que conseguem delinear e marcar o percurso dos outros, dos seus contemporâneos e dos que lhe virão a seguir na dinâmica das gerações”, mencionando o caso do “Dr. Paula Borba, como lhe chama desde sempre o povo, como se dissesse pai ou avô”, que classifica como “um dos nossos grandes, sem dúvida”, que optou por Setúbal para “aqui construir o seu futuro, contribuindo para o sucesso e crescimento da cidade.”

J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 979, 2022-12-14, p. 8.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Francisco de Paula Borba biografado (1)



O nome de Francisco de Paula Borba (1872-1934), açoriano nascido em Angra do Heroísmo, é conhecido pelos setubalenses através da toponímia (desde 1935), de obra de arte pública (busto, também desde 1935), do balneário e do lar de que é patrono (desde 1926 e 1945, respectivamente). Um esboço biográfico sobre esta personalidade surgiu em 1986, Dr. Francisco de Paula Borba - 1º Cidadão Honorário de Setúbal, assinado por Rogério Claro, obra produzida na sequência do cinquentenário do seu falecimento. Recentemente, a propósito do 150º aniversário do seu nascimento, pela mão de Francisco Moniz Borba, surgiu o título Francisco de Paula Borba - Vida e Obra (1872-1934), obra com apreciável acervo fotográfico que contém ainda documentos interessantes para se conhecer o pensamento do biografado.

Logo no início da narração, o autor procede à sua declaração de interesses, confessando a proximidade com a figura sobre quem escreve, mas também a razão de ser deste projecto, alicerçado nas aprendizagens e no exemplo: “O Dr. Francisco de Paula Borba é meu Avô paterno e esta questão do parentesco dificulta-me naturalmente o indispensável distanciamento para reflectir e escrever com independência sobre a sua Vida e Obra. Talvez por isso, este livro, que sempre desejei escrever, tenha sido um projecto de gestação demorada, pela responsabilidade que decorre desse facto, mas também pela pesada herança do seu enorme exemplo de vida, que me acompanha desde a infância, e que, devo confessá-lo, me ajudou em muitos momentos da minha vida, alguns deles bem difíceis, a aceitar injustiças, a perceber melhor o que é a tolerância e a profundidade afectiva contida na tão gratificante prática da solidariedade.” No termo do trajecto, o narrador não esconde a emoção das descobertas e das memórias, possibilitada pela escrita: “Cheguei ao fim! Se afirmasse que não me emocionei algumas vezes durante a - para mim longa - elaboração deste trabalho, mentiria. A consulta de muitos documentos, a sua reprodução com o objectivo de serem preservados e publicados, foi em certos momentos regressar à infância, ao ambiente onde cresci e onde a diáfana figura do meu Avô pairava no ar que se respirava naquela casa. (...) Sinto uma enorme gratificação de conseguir celebrar o passado e deixar este legado. Graças a Deus! Invade-me uma formidável sensação de liberdade.”

As considerações de Francisco Moniz Borba caucionam uma leitura dominada por três importantes vertentes: primeiro, revelando a importância dos arquivos familiares como fundamentais para a história local e para a investigação, detentores que são de elementos quase únicos que ajudam a construção da personalidade e do papel desenvolvido, além de carrearem informações adicionais sobre aspectos vários da vida da urbe; por outro lado, transportando para a biografia a emoção da proximidade conhecedora, veiculada pelas pequenas histórias do quotidiano lembradas em família, como aquele teste à sua popularidade, que levou um transeunte a impedir a tentativa de furto do velocípede do médico, gritando “Olha a bicicleta do Dr. Borba, agarra que é ladrão, agarra que é ladrão!”; finalmente, porque, no gesto de descobrir o antepassado que nunca conheceu (o nascimento do neto ocorreu sete anos após o falecimento do avô), Francisco Moniz Borba partilha esse desvendar, dando a conhecer essa importante figura a quem chamaram “o amigo dos pobres”.

Durante uma centena de páginas, o leitor acompanha a chegada de Francisco de Paula Borba a Setúbal em 1898 (tendo começado a dar consultas na Farmácia Abreu, depois Farmácia Sartóris), ano em que também concluiu a licenciatura em medicina, e a acção desenvolvida na cidade em prol da assistência e da dignificação das condições de vida.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 975, 2022-12-07, pg. 14.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Estranheza dos tempos como pretexto de escrita



Os tempos andam estranhos por causa do que nos agride, do que nos choca. Tais agressões tornaram-se pretexto de escrita para 22 autores ligados à Casa da Poesia de Setúbal sob o título de Diário de Tempos Estranhos - Entre a pandemia e a guerra, obra em duas partes, correspondentes aos dois diferentes momentos vividos - a pandemia, desde 2020, e a guerra na Europa, desde Fevereiro.

O tempo da pandemia foi o tempo da descoberta e da aprendizagem do viver com novas regras, vindas de novos medos. Recorda Alberto Vale Rêgo os tempos em clausura, procurando “coisas boas e com sentido, mas fora do que faríamos normalmente” e vivendo “outras de que não ficará memória, mas que servem para fazer andar as horas à espera da normalidade que tarda.” Mais dramática é a noção de Alexandrina Pereira: “O tempo parou, o tempo é vulcão, / Nele ardem as dores que são sufocadas, / Calcadas, guardadas, na alma sofrida, / Respira-se Morte, procura-se a Vida”.

A estranheza torna-se tanto maior quanto a peste se aproximou sub-reptícia, operando mudanças bruscas - “o nosso relógio interno já não tem percepção do tempo e a vida está mesmo virada do avesso” (Fernando Pereira); “os povos trabalham em casa, escondidos” (Inácio Lagarto); “o antes som das gentes / deixou de se ouvir” e “nas janelas / as pessoas pareciam sombras chinesas” (Isabel Bastos Nunes); a falta dos abraços aos mais próximos e as ausências, como mencionam Isabel Melo (“Que tempos são estes, Mãe, / Em que tenho medo de ter receio de te abraçar”), José-António Chocolate (“O lugar deserto na mesa é que se sente / (...) / e hoje me dói fundo por estares ausente.”) ou Fernando Alagoa (“Queria tanto dar-te um abraço, / e ficar assim, / em silêncio, / só pelo prazer desse enlace.”). A pandemia chega à metaforização sob o signo do horror por Luís Pinho, denominando-a como “Adamastor”, recurso ao imaginário camoniano da destruição.

Todavia, há também o sinal positivo pela voz de Linda Neto, cuja mensagem sobre o confinamento caminha no sentido do reencontro do eu com a sua identidade, no caminho do autoconhecimento e da renovação.

O segundo grupo de textos, sobre a guerra, pauta-se pelo protesto e pela indignação, em que o mal, pintado com as cores da ambição descontrolada (António Calado), da alimentação do negócio da guerra (António Galrinho) e do caos mostrado nas imagens de violência sobre o homem (Maurícia Teles), vai merecendo o repúdio.

Motivações para este conflito são apontadas por Arnaldo Ruaz, enunciando as cores do “triste quadro” da guerra, uma sinfonia de horrores. O desespero em busca da vida, no meio da conflagração, paira no poema de António Manuel Ribeiro, olhar medonho sobre a rapidez com que a destruição se manifesta: “Se houver tempo / Voltaremos a falar; (...) // Se houver tempo / E uma esquina de pé.” A insensibilidade de quem determina a guerra esbarra com a sensibilidade de quem por ela sofre - Fernando Pereira recorda a infância, num excerto digno de figurar em qualquer antologia sobre os avós: “O meu avô foi à guerra e só voltou quando a minha avó ficou viúva. (...) O colo da minha avó nunca mais foi às cores, ficou sempre preto. Não percebi aquela mudança, porque, vestida de preto, a minha avó ficou mais triste.”

A contrariar este negrume extremo, surgem palavras de esperança, coloridas, como Carlos Fernando Bondoso prevê: “quem me dera / a novidade de uma flor / branca amarela de todas as cores / num campo de guerra”.

Tempos estranhos, estes! Lentos, os primeiros, sob o massacre diário das mortes, números vertidos no conta-gotas dos dias; rápidos, os segundos, desmoronamento vertiginoso, retrato do inferno e do absurdo. Ambos trazidos pela escrita enquanto espaço de reflexão.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 971, 2022-11-30, p. 20