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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Círio de Nossa Senhora da Tróia vivido em livro



“A Festa de Nossa Senhora do Rosário de Tróia tem a duração de três dias (sábado a segunda-feira) e a sua data é marcada nas três primeiras semanas do mês de Agosto, dependendo das marés, de modo a que os barcos de pesca de maior calado possam entrar na Caldeira de Tróia na tarde de sábado e saírem na tarde de segunda-feira para o regresso a Setúbal.” É assim que começa o livro Círio de Nossa Senhora da Tróia (2023), em texto assinado por José António Carvalho, o seu mentor.

São quatro os autores que colaboram nesta obra, cujos textos surgem em português e em inglês: José António Carvalho, Casimiro Henriques, Maria Miguel Cardoso e Inês Vaz Pinto.

O primeiro faz a apresentação da festa, com o seu programa detalhado, e contextualiza-a no âmbito das comunidades piscatórias setubalenses de Fontainhas e de Tróino, nascidas a partir de geografias diferentes (da zona da Murtosa, a primeira, e da região algarvia e de Setúbal, a segunda), cada qual com a sua romaria própria ao longo de muito tempo, separação entretanto esbatida, quer pelas alterações sociais, quer pelas mudanças resultantes do ordenamento - explica José António Carvalho, recorrendo a informação de Maria Miguel Cardoso, que a rivalidade entre os dois bairros “era essencialmente masculina”, uma vez que as mulheres e as crianças “rapidamente se misturavam  nas fábricas de conservas onde as relações sociais estabelecidas primavam pela solidariedade na pobreza”. Por outro lado, o reordenamento da zona ribeirinha setubalense acontecido na década de 1990, ao trazer os barcos de pesca para a Doca dos Pescadores, acabou por ser determinante para a aproximação entre as duas comunidades, de tal forma que, “actualmente, a comissão de festas é constituída por pescadores e descendentes de pescadores varinos, mas no círio fluvial e na festa participam pescadores de todas as comunidades.”

José António Carvalho é ainda responsável por cerca de uma centena de fotografias da festa, organizadas em três momentos (ou “narrativas fotográficas”), captadas nas cerimónias realizadas entre 2010 e 2019, verdadeira reportagem visual da totalidade das festas e do empenho posto pelos participantes, de tal maneira é forte e expressiva a presença humana nos tempos retratados, em que surgem os intantes da preparação, da oração e da alegria da festa.

O padre Casimiro Henriques assina o texto que se debruça sobre a experiência de fé dos romeiros, explicando o convívio entre o dogma e a religiosidade popular. A intensidade desta aproximação é visível no momento da experiência que vivencia a festa - “Para entendermos o sentido profundo dos romeiros e da romaria, é preciso estar lá. Olhar olhos nos olhos encharcados dos que dirigem ‘à santa’ as suas preces. É preciso contemplar as mãos trémulas ao acender as velas. É preciso saborear as palavras simples impregnadas das graças recebidas e agora agradecidas.” Eivado deste sentimento testemunhal, o texto funciona como um convite em que a emoção marca presença.

Maria Miguel Cardoso faz uma abordagem sociológica da festa, destacando o papel assumido pela população na preservação deste evento ligado à freguesia de S. Sebastião (não esquecendo o que foi a “reconquista” da organização da festa em meados da década de 1940, depois de, durante cerca de 15 anos, ter sido organizada por um padre de Melides, que não consentiria na participação dos setubalenses...). Interessante é ainda a leitura apresentada quanto ao sentimento comunitário que a festa tem e quanto ao seu papel na proximidade entre as pessoas e na construção de famílias.

O último texto, assinado por Inês Vaz Pinto, apresenta Tróia como “lugar sagrado”. Recuando às visitações da Ordem de Santiago, verifica-se que, já pelo século XVI, “a ermida não era apenas frequentada pelos habitantes da região, mas sim um lugar de peregrinação para gente vinda de longe”. O texto passa pela primeira referência explícita à festa em 1707 (por Frei Agostinho de Santa Maria), à presença do pregador bem conhecido na região que foi o padre Nabeto ou à retoma da organização da festa pelos pescadores de S. Sebastião em 1945. Para Inês Vaz Pinto, a capela de Nossa Senhora do Rosário da Tróia assenta num espaço que a História tem provado ser tradicionalmente religioso - “não só está muito perto da igreja paleocristã da época romana, como parece ter sido construída sobre um templo romano.”

O círio de Nossa Senhora da Tróia, cuja procissão é em linha directa, atravessando o Sado, da igreja de S. Sebastião para a Caldeira, e com passagem pelo Outão e trajecto costeiro no regresso às Fontainhas, surge bem documentado numa abordagem visual e interdisciplinar nesta obra, que fica como referência para esta manifestação religiosa setubalense, em fotografias que alimentam a memória e em textos de que não está alheia a vivência da festa.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1135, 2023-08-31, p. 10


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Sampaio Faria e as reflexões sobre Tróia


 

Logo na introdução, o livro anuncia ao que vem: “este texto não pretende ser mais do que um limitado conjunto de reflexões sobre a Península de Tróia, tendo como base uma revisão sumária do seu povoamento e do possível impacto que a acção antropogénica daí resultante possa ter desencadeado ou venha a desencadear no desenvolvimento e consolidação evolutiva do seu ecossistema.” E, mais adiante: “teremos de nos indagar quanto ao tipo de acção antropogénica que queremos nas décadas vindouras e até que ponto essa acção poderá ser compatível com a sobrevivência da actual estrutura ecossistémica troiana”.

É assim que J. G. Sampaio Faria abre o seu ensaio Península de Tróia - Reflexões Improváveis (Primeiro Capítulo, 2022), anunciado como “reflexão partilhada sobre o presente e o futuro da península” e conjunto de “pontos de vista e questões resultantes da interpretação do autor sobre a realidade evolutiva do ecossistema troiano”.

Depois de explicar a formação da península (cujo perfil actual rondará uma idade de milénio e meio), surge a pergunta que não será apenas retórica “Península a prazo?”, levantando-se aí um conjunto de interrogações sobre as consequências advindas do aquecimento global e da ocupação humana na região peninsular, antevendo-se uma alteração do espaço, seja na forma da península, seja no estuário sadino.

Várias páginas são dedicadas ao estudo do povoamento da península de Tróia, servindo-se Sampaio Faria de uma cronologia determinada por dois períodos: o “sem aparente modificação do ecossistema troiano” e o “com aparente modificação do ecossistema troiano”, bem mais longo o primeiro, com origem em época anterior à chegada dos Fenícios, tempo de “relativo sossego ecossistémico” que se estendeu até aos anos 70 do século passado; por essa altura, o turismo intensificava-se na península - algo com efeito muito superior ao que fora desenvolvido por manifestações de curta duração e de efeitos diminutos (em termos comparativos), como a ocupação estival localizada das praias troianas, as acções de índole religiosa, a indústria baleeira (em curtos dois anos), as instalações militares para apoio à Base Aérea de Beja ou o alojamento dos regressados das ex-colónias - e trazia consigo a poluição resultante da mobilidade motorizada e do aumento de ruído e a progressiva devassa do sistema dunar por parte dos visitantes esporádicos.

Teme o autor que este conjunto de pressões se torne ingovernável no futuro se não houver planeamento adequado associado às unidades de desenvolvimento turístico entretanto aprovadas (e em curso) na península, situação agravada pela multiplicidade de instituições com responsabilidade sobre o local, num retalho facilitador de acções desfavoráveis ao ecossistema.

Considerando a importância da península para a solidez do perfil do estuário do Sado, o autor lamenta a intervenção humana que tem contribuído para a degradação progressiva do ecossistema e para a sua descaracterização, assim como lastima a quase inexistência de pontes da parte dos grandes proprietários e entidades tutelares com os “moradores / residentes frequentes”, que constituem “uma minoria sem capacidade de decisão sobre o futuro do seu habitat” e que deveriam “ter uma palavra a dizer sobre as suas condições de vida”.

Assim, Península de Tróia - Reflexões Improváveis afirma-se, por um lado, como um texto que equaciona a acção sobre o território a partir de dados históricos e da situação actual, e, por outro, como uma proposta de participação cidadã de quem ali vive um tempo significativo, com vontade de participar no interesse comum perante um espaço que não deverá estar à mercê de decisões que não contem com as pessoas. Em poucas palavras: um alerta e a disponibilidade e expressão do direito à participação.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 947, 2022-10-26, pg. 9.


quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Fernando Gandra, no rumo da utopia



Fernando Gandra (1947-2021), algarvio de nascimento, exilado por ideias, setubalense por adopção, fez, entre a poesia e o ensaio, contínua reflexão sobre a palavra, demandando utopias, numa difícil relação com o tempo, que, no seu segundo livro, As forças amadas (1981), apresentou como “a imensa cinza da idade”.

A palavra, para Fernando Gandra, apresenta-se como se nela se encontre a liberdade de ser, de fazer, de sentir... ou não se intitulasse o seu primeiro livro Para uma arqueologia do discurso imperial, percurso sobre o significado da linguagem quotidiana e as suas implicações no pensamento. Um exemplo: “Que significa ‘funcionar bem’? Funcionar sem resistência que, aliás, é condição de qualquer funcionamento.” Clara definição, pretexto para explicar o papel da lei, do poder, definidores do que é a desordem e de formas de estruturar o desejo, num caminho em que se fala da natureza, por um lado, e da cultura trazida pela norma, por outro. No final desse livro de 1978, surge um dos temas de eleição que Fernando Gandra irá sempre trabalhar - a utopia, aqui definida como “esse erro iluminado como um santuário que nos faz viver e pelo qual muitos ascetas têm morrido, calcinados pelo sonho.” Nada lacónica esta definição... que retomaria, por outros dizeres, no prefácio que assinou para a obra A noção de cultura nas ciências sociais, de Denys Cuche, em 1999: “Terra de ninguém, lunar, a utopia é uma imobilização artificial do tempo, uma redenção de baixo preço, apressada, fulminante.” Na última obra ensaística, O sossego como problema, de 2008, a utopia continua a preocupar as suas letras, com tonalidade poética: “A linha do horizonte situa-se no ponto indefinido onde o céu e a terra se unem. É indefinido porque recua à medida que avançamos. A linha do horizonte só é fixa e acessível à distância.” E assim vai construindo o percurso que visa entrar pelo horizonte, aproximar-se da utopia, embora sabendo que essa distância nunca se reduz…

Fernando Gandra valoriza a palavra no ensaio, aí fazendo dela objecto; tonifica-a na poesia. A palavra contém todo o saber e toda a justiça do mundo, quase como se só ela fosse a concretização da utopia. É por isso que os dois versos de O lado do cisne, de 1984, nos advertem: “À gente simples ninguém perdoa / o sábio voo das sílabas.” Esta metáfora do dizer permite que o discurso se adeque às circunstâncias, nos transporte pelas distâncias, nos fidelize ao tempo e à paisagem, como, harmoniosa e subtilmente, nos lembra num poema de Os lugares, de 2015: “Não, isto não é o cais das colunas / não, aqui não há índias nem brasis para encontrar. / Não, isto aqui não é o Ca d’Oro / da longínqua e sumptuosa Veneza / que enriqueceu com as especiarias. / Aqui falamos banalmente / de sargos e de enguias. / E na maré baixa, / quando muito baixa, / de lodo.”

Num poema de 2019, não publicado, Fernando Gandra escreveu sobre um dos seus espaços de eleição, Tróia: “esta península de deus / esta improvável língua de areia / talvez seja uma filial do céu. / (...) / Aqui pratico o amargo prazer da escrita. / (...). / Resta-me fazer e refazer nesta pacífica areia / o meu estranho mapa-mundi.” A sua utopia, poderíamos dizer, que, no livro de 2008, pintou como paisagem do silêncio: “É um sermão sem palavras que nos convida a pensar sobre o que já ouvimos e sobre o que ainda não dissemos, nem vamos dizer. Sobre a tentação de falar e o incómodo que é, que pode ser, ouvir.”

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 783, 2022-02-09, pg. 8.


quinta-feira, 25 de novembro de 2021

António Osório e o equilíbrio, entre Sado e Arrábida



Em 1996, nos vinte anos da criação do Parque Natural da Arrábida, publicava-se em Setúbal o opúsculo Junto ao Sado e Arrábida, dezasseis poemas de António Osório (1933-2021), numa edição do Instituto da Conservação da Natureza e do Parque Natural da Arrábida. A origem desses textos estava nos livros A raiz afectuosa (1972), A ignorância da morte (1978) e Planetário e zoo dos homens (1990), sobrando ainda dois que viriam a ser integrados em Crónica da fortuna (1997).

Em Junto ao Sado e Arrábida, o leitor visita a paisagem revestida pelo branco e pelo vento que animam um moinho, ao mesmo tempo que, junto ao postigo, se fixa na naturalidade do curso da vida - “os grãos de trigo / estremeciam / antes de se perderem” -, assim como conhece a paisagem de Aldeia de Irmãos, lugar que abriga pessoas e animais, num cenário que apresenta “em torno vinhas, olivais, / irmãos uns dos outros / como tijolos dentro da parede.”

Noutro passo, sente-se a beleza única das camarinhas, conjugando a estética da planta e o gosto sentido - “bagas acídulas, / iguais a pérolas”, num fruto que se atapeta sobre as dunas, resistente “ao salitre penetrante das vagas”. Ainda sob domínio do mar, em espera invernosa, as gaivotas são apresentadas como “curiosas, húmidas, algo de pombo, milhafre, cinza”, ocupando, “para ver gente, o ponto iluminante dos candeeiros”, num tempo em que “aguardam o que não temem, as devoluções do mar”. 

As plantas são tema ainda em poemas como “As dez nogueiras” ou “O apanhador de ervas”, no primeiro se afirmando a relação de proximidade e respeito entre o homem e a Natureza - “Plantadas no Inverno (...), atravessarão o tempo, muito tempo. E darão sombra e fruto a outras gerações. Se eles forem cuidadosos, abençoarão um a um os seus donos.” -, enquanto o segundo acompanha à lupa a persistência de um homem em quatro décadas de recolha de plantas - “Há quarenta anos anda pela vala real (que já ninguém conhece), destila na caldeira de seu avô plantas salutares”.

A figura humana é glorificada em vários momentos: no poema “Cabo do mar”, com um protagonista poderoso, mas humano - “não era Neptuno, mas o descalço / e poderoso cabo do mar”; na descrição da vida do fazendeiro; a propósito de um amigo, Sebastião da Gama, enaltecendo a sua ligação à Arrábida e traçando-lhe o retrato que a memória conservou - a fala da fraternidade, o sorriso infantil, a boina (“travessura mordaz, / tua exclusiva defesa”), os alunos (“à volta, / atrás do sobretudo, cachorros / que amamentavas”), os livros (“debaixo do braço, farnel / de poesia ambulante”), a água bebida da infusa (“como pedreiro, de um jacto”). 

Também a fragilidade da vida por aqui perpassa - ora pela “patada, / relincho, trigo por ladrão gadanhado”, que foi o choque da morte de Sebastião da Gama, ora pela imagem de um esqueleto em “Caldeira da Tróia”, visto enquanto golfinhos saltavam no Sado: “Não, não é fácil a ruína de um corpo. / Nem plácida a boca escavada / e as órbitas de símio desafiando os vivos.”

Por estes poemas de António Osório passa a sua leitura do mundo, da vida e da memória, numa atenção veneranda por tudo o que o rodeia, quase sinal de agradecimento pela existência e pela harmonia encontrada, na busca da palavra essencial para suportar imagens intensas e sóbrias, construtoras da sensibilidade do equilíbrio. 

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 741, 2021-11-24, p. 2 


sábado, 12 de dezembro de 2020

“Jóias do Passado em Portugal” - Quatro são na região de Setúbal


 

Na colecção “Edição Especial Viagens”, a National Geographic publicou o título Jóias do Passado em Portugal, obra que reúne 51 propostas de visitas a esse passado em 160 páginas assinadas por um leque de 16 autores.

Organizada em seis partes - “Pré-História”, “Idade dos Metais”, “Mundo Romano”, “Mundo Pós-Romano”, “Antes da Nacionalidade” e “Museus Inesperados” -, esta revista propõe quatro visitas no distrito de Setúbal: Quinta do Anjo (Palmela), Alcácer do Sal, Tróia (Grândola) e Miróbriga (Santiago do Cacém).

Os hipogeus (monumentos funerários do final do Neolítico) de Quinta do Anjo, escavados pela primeira vez em 1876 por António Mendes, são abordados no primeiro capítulo, em texto subscrito por Paulo Rolão - “este conjunto tumular, constituído por quatro hipogeus, é único no território nacional” e as construções “obedecem à arquitectura característica deste tipo de sepultamento, com topo aplanado, uma câmara subcircular dotada de abóbada com clarabóia superior central, antecâmara de planta ovalada e um corredor estreito com sentido descendente para a entrada da câmara”.

Já no segundo capítulo, é apresentado o recém-inaugurado Museu Pedro Nunes, em Alcácer do Sal, espaço que deve o seu nome a “um dos maiores matemáticos de todos os tempos” nascido naquela cidade. Pedro Sobral Carvalho garante que esta valência “é um daqueles espaços onde nos orgulhamos do nosso passado, onde todos nós, mesmo não sendo de Alcácer do Sal, sentimos e percebemos o que somos como povo e como país”.

As ruínas de Tróia integram a terceira parte, sendo consideradas por Inês Vaz Pinto “o maior centro de produção de salgas de peixe do Império Romano” - no que ainda existe, são identificáveis 29 oficinas de salga e cerca de 180 tanques, pensando-se que o enchimento destes tanques levaria 700 toneladas de peixe e 300 toneladas de sal, dados que conferem a este antigo povoado o estatuto de importante “motor económico do baixo vale do Sado” e ponto fulcral no desenvolvimento do Império.

Finalmente, a região de Santiago do Cacém surge pelo espaço das ruínas de Miróbriga, também incluída na terceira parte, referindo Filomena Barata tratar-se de complexo urbano que se estenderia até 9 hectares e que incluía um hipódromo, identificado em 1949, “raridade no contexto da Lusitânia”, com as dimensões de 359 metros de comprimento por 77,5 metros de largura.

Dirigida ao grande público, esta edição de Jóias do Passado em Portugal constitui uma acessível listagem de pontos relevantes da História de sítios que vieram a ser Portugal, com documentação fotográfica que passa também pela reconstituição dos espaços abordados.


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Arrábida, Sado e mar, desde Tróia




Perfil inconfundível! Arrábida e o ponto em que as águas do Sado se misturam com as do Atlântico. Gosto.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Para a agenda: Mercado romano em Tróia



Visita as ruínas romanas de Tróia e contactar com um mercado romano ali mesmo é oportunidade que os visitantes vão poder repetir (ou experimentar) no fim de semana de 7 a 9 de Abril. O programa é variado e o sítio tem o seu fascínio, que lhe advém da paisagem, da memória e do percurso histórico. Para a agenda!

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Tróia e a subida do nível do mar



O testemunho de Tróia na subida do nível do mar nas páginas do Público de hoje (13.Dez.2016, pg. 26).

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Para a agenda: Histórias de Tróia, com Rui Canas Gaspar



Histórias do outro lado do Sado, mesmo em frente a Setúbal, é aquilo que Rui Canas Gaspar se propõe contar em mais um dos seus títulos ligados à história local e às memórias. Em 26 de Novembro, pelas 18h00, em Setúbal, Tróia - Um Tesouro por Descobrir. Para a agenda!

domingo, 5 de outubro de 2014

Vale sempre a pena a passagem para Tróia...


A crónica de Miguel Esteves Cardoso no Público de hoje versa a travessia do Sado de Setúbal para Tróia e volta. Uma travessia pessoal, com paisagem, vistas e sabores, com sensações e com reparos. Vale sempre a pena a travessia...


domingo, 2 de março de 2014

Para a agenda: Memórias da Arrábida, em Tróia



"Memórias da Arrábida" em Tróia: "O espaço e a sua ocupação", "Biodiversidade na Arrábida", "Viver a Serra", "Sabores da Arrábida". Em 8 de Março, no Centro de Eventos do Hotel Aqualuz. Para a agenda!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma visita ao tempo da Romanização, incluindo passagem por Tróia (aqui, na margem esquerda do Sado)


Um passeio no quotidiano da Romanização é o que nos propõe o mais recente número da revista Visão – História (nº 17, Setembro.2012), saído na semana passada, sujeito ao tema “Portugal no tempo dos Romanos”.
Por uma centena de páginas, o leitor tem imagens de reconstituição de espaços e de cidades, uma introdução que analisa vários vectores desse período histórico (não faltando uma tabela cronológica) e três partes respectivamente intituladas “A chegada” (com a sugestiva apresentação “O ‘Portugal’ que os Romanos vieram encontrar”), “A civilização” (entrando por áreas como a cidade, o campo, a religião, a economia, o quotidiano, entre outras) e “Os locais” (com visitas a Conímbriga, Braga – Bracara Augusta –, Chaves, São Cucufate, Algarve e Tróia).
Neste último grupo, destaque-se o roteiro sobre a história de Tróia, intitulado “A grande fábrica”, numa alusão ao complexo de produção de salga de peixe que ali existiu e de que hoje se podem ver os restos, assinado por Inês Vaz Pinto, Ana Patrícia Magalhães e Patrícia Brum, arqueólogas responsáveis pelas ruínas de Tróia. Um espaço que mereceu visita régia, que teve o patrocínio da primeira sociedade arqueológica portuguesa (século XIX) e que tem passado por fases muito diversas no interesse que lhe é votado!

Dizer que este é um número indispensável torna-se redundante pois todos os números que esta revista tem publicado se revestem desse elevado grau de interesse. Podem-se, no entanto, destacar como motivos determinantes a acessibilidade da linguagem e a quantidade de informação, bons ingredientes para esta viagem a um tempo anterior à Nacionalidade de que ainda hoje existem muitas memórias… 

sábado, 26 de junho de 2010

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Tróia através da memória

As turmas A, B, C e D de 9º ano da Escola Secundária D. João II, em Setúbal, fizeram entrevistas para saber como foram vividos pelos setubalenses os verões na Tróia no período entre 1950 e 1974. Dessa procura, feita no âmbito da disciplina de História, resultou o livro agora publicado Quando a Tróia era do Povo (Setúbal: Escola Secundária D. João II, 2009), que tem coordenação de uma equipa de professores constituída por Jaime Pinho, Maria José Simas, Alberto Lopes, Isabel Duarte, Luísa Ramos e Álvaro Arranja.
O título atribuído à colectânea divide o tempo da Tróia em dois segmentos: aquele em que “a Tróia era do povo”, passado, popular, bem evidenciado no título e, pela adesão, comprovado nos testemunhos recolhidos e publicados, e um tempo de agora, não referido mas sugerido, em que, supostamente, a Tróia não será “do povo”. Fica, pois, uma sensação de perda de um espaço e de um tempo, vivo na memória e materializado na escrita.
Ao longo da cerca de uma centena de páginas, passam testemunhos sobre a paisagem (dunas, flora, fauna, casas), sobre os quotidianos (vendedores ambulantes, convívio, vestuário, dormidas, higiene, alimentação), sobre retratos sociais (dos habitantes de Setúbal, Azeitão, Palmela e Pinhal Novo ao primeiro turismo). Pelos testemunhos mostrados passa um rememorar o vivido, encarado de um ponto de vista pessoal, em jeito de lembrança de outros tempos que eram diferentes dos de agora.
Um último capítulo aborda algumas páginas do periódico O Setubalense que noticiaram o veraneio em Tróia na mesma época. Não sendo um texto de análise, pretende, de alguma forma fazer a junção entre o título do livro e os testemunhos que foram recolhidos e não será por acaso que essa recolha na imprensa conclui com o gesto de Américo Tomás, Presidente da República, a intensificar “as suas visitas e o seu apoio aos projectos de urbanização da Tróia”. Esta conclusão liga-se, de resto, à ideia com que Jaime Pinho inicia o seu texto de abertura – “Os verões na Tróia: antes da era do betão”.
É uma recolha interessante pelo que nos traz como trabalho de memória, revelador dessa forte ligação das populações ao rio, ao mar e a Tróia, uma ligação que quase prolonga Setúbal para lá do Sado. É uma recolha interessante pela capacidade de levar as pessoas a testemunharem o vivido e por ter saído de um trabalho organizado pela escola, levando os jovens a mergulhar no passado que é a história de famílias e que marcou a identidade desta região. É uma recolha interessante pelo que pode sugerir de interligação entre a Escola e a comunidade. Provavelmente, a leitura sugerida a partir do título do livro e do texto introdutório são um tanto forçadas, na medida em que, podendo ser verdade o que sugerem, o conteúdo das intervenções e dos testemunhos não o sustenta…

sexta-feira, 13 de março de 2009

Tróia fica mais longe...

Correio de Setúbal: 13.Março.2009

sábado, 30 de agosto de 2008

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da Auto-Estima – 84
Manta Rota – O que pode justificar que uma discoteca ao ar livre, na praia, aberta até às cinco da manhã, tenha os decibéis apontados para as redondezas, num raio que ultrapassa o quilómetro e meio, obrigando todos os naturais residentes e os veraneantes em férias a suportar o festim noite fora? Há um ano, houve obras de requalificação no centro do lugar, que pertence à freguesia de Cacela, com presença ministerial; hoje, ao lado do espaço requalificado, há autorização para uma discoteca a funcionar em tais condições. O jet set passa por lá, as revistas sociais fotografam e embelezam, as pessoas protestam pelo desrespeito dos ruídos da noite e alguns jornais noticiam o desconforto. Nada contra a discoteca ou a diversão; tudo contra as condições. A culpa pode ser do soprar dos ventos, como alguém já alvitrou; mas essa situação era previsível (já se sabia que os ventos sopravam e que não o faziam sempre na mesma direcção) e, pelos vistos, não teve consideração. Falta de respeito, pois! Pela terra, pelas pessoas, pelo ambiente.
Tróia – Há três anos, o país parou para ver a implosão de umas torres em Tróia pela televisão e, em Setúbal, houve público bastante para assistir ao espectáculo que corria no outro lado do Sado. O próprio Primeiro-Ministro deu a sua mãozinha ao acontecimento, nele participando. Agora, vai ser inaugurada a primeira fase do complexo turístico. O Diário de Notícias foi reportar e o retrato não é muito feliz: é a nostalgia dos que para lá iam passar os dias de férias; é o descontentamento deste tempo de obras dos que lá têm residência; é o aumento de preços nas travessias sem se vislumbrar melhoria do serviço. Há também a esperança de que, com os milhões investidos e com os postos de trabalho a criar (directos e indirectos), a vida passe a ser melhor. Mas há, sobretudo, indefinições: Setúbal, por exemplo, vai usufruir deste investimento, oferecendo o quê? Que hábitos dos setubalenses vão mudar por força deste projecto? Os jornalistas do Diário de Notícias (em 16 de Agosto) chamaram a esta obra “o segundo fôlego de Tróia”. Oxalá não se fique apenas pelo pormenor dos números possíveis!
Números – Quando o Primeiro-Ministro, regressado de férias, foi dizer, no Norte do país, que pouco faltava para cumprir uma das metas do seu Governo, que era a da criação de 150 mil empregos, fiquei com a impressão de não ter ouvido bem. Os números do desemprego não baixaram tanto quanto isso e, por certo, o Primeiro-Ministro interessa-se e preocupa-se com o desemprego. Não era necessária a demagogia dos números… Comparando apenas os resultados (que não os métodos), faz-me lembrar aquela história da distribuição dos hipermercados que argumenta que, com a abertura nas tardes de domingo, serão criados mais uns milhares de postos de trabalho, sem ser dito quantos acabam em virtude desta luta entre o comércio da grande superfície e o comércio tradicional…
Demba – O semanário Expresso (15 de Agosto) descobriu Demba Diabaye, senegalês a vender bugigangas na praia da Costa da Caparica, que teve direito a curta reportagem com fotografia. E que ficamos nós a saber? Que Demba veio para Portugal fazer investigação sobre Garrett e sobre o Romantismo em Portugal com vista a uma tese de mestrado a defender na universidade senegalesa de Dakar, que vende bugigangas ao fim-de-semana para pagar as fotocópias da documentação que consulta na Biblioteca Nacional e na Biblioteca da Faculdade de Letras, que estuda a língua portuguesa há 11 anos. Tem um sonho – “Quero ser embaixador da língua portuguesa no meu país e trabalhar lá até chegar ao topo da carreira como professor”. Demba vai andar por cá até final de Setembro a alimentar o sonho. Bom exemplo e boa história em defesa da língua que é a nossa pátria, como Pessoa disse.

sábado, 26 de julho de 2008

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Setúbal visto desde Tróia

"Perspectiva da Vila de Setúbal vista da Casa do Trapixe, no sítio de Tróia, desenhada em 1816" (Teotónio Banha)

Giovanni Licciardello tem escrito em O Setubalense uma série de artigos sob o tema “Pensar Setúbal”. Na edição de 31 de Dezembro, sob o título “Conquistar o mar”, apresentou um problema: na promoção que está a ser feita da Tróia do futuro, nada há que refira Setúbal. O problema relaciona-se com o paradoxo de, por um lado, Tróia ter sido sentida sempre como “uma extensão, um prolongamento de Setúbal”, enquanto, por outro, parece que os responsáveis imobiliários da Tróia querem “cortar o cordão umbilical” que une a península a Setúbal.
O artigo não assenta em lamúrias, o retrato é duro (mas baseia-se na experiência) e constitui numa chamada de atenção muito crítica para quem está do lado de cá do Sado, resultante de um posicionamento que leve a perceber o porquê de tal atitude. E transcrevo:
O turismo de luxo é compatível com centenas de pessoas a invadirem o areal, deixando lixo espalhado por todo o lado, vociferando, deixando fezes de cão espalhadas pelo chão, gritando, exibindo má educação generalizada? Não. O turismo de luxo é compatível com carros constantemente a passar para lá e para cá nos ferrys, lixo largado das viaturas (fraldas usadas, garrafas de água, pacotes de sumos, de leite, latas de refrigerantes, restos de comida, etc.), com buzinadelas, impropérios à mistura e más educações? Não. Quais são portanto, olhando da outra margem para a nossa, com olhos Sonae, os benefícios que Setúbal, tal como está, pode trazer à Sonae? Muito poucos. O que podem pretender de nós? Pouco. O que e que eu faria, se fosse Sonae? Desviava o local de atracagem dos ferrys para o mais longe possível da zona mais sensível, que é, nem mais nem menos, o que estão a fazer. Pode criticar-se? Pode. Pode não se gostar? Pode. Eu como Setubalense, não me agrada nada a ideia de ter de cortar o cordão umbilical com uma zona que me é querida, que faz parte da minha vida, do meu roteiro pessoal, mas se fosse Sonae, faria exactamente o mesmo que estão a fazer.
Solução? Recurso a um provérbio: “em vez de amaldiçoares a escuridão, acende uma vela”, conclui Giovanni Licciardello. Para bom entendedor…
[O original da gravura reproduzida pertence ao acervo do Museu de Setúbal e tem uma reprodução na obra O Museu de Setúbal, de Fernando António Batista Pereira (Lisboa: Soctip, 1990)]