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quinta-feira, 12 de setembro de 2024

O Camões que Isabel Rio Novo nos revela (3)

 


Momento importante, para quem foi um estudioso e conhecedor da cultura clássica e da cultura portuguesa como Camões, foi a publicação da sua obra magna, o poema épico com que quis celebrar Portugal e que não teve, logo no início, os mecenas que pareciam inequívocos, a começar pela rejeição de apoio por parte do neto de Vasco da Gama. No entanto, se esta porta se fechou, outra se abriu, pela mão de D. Manuel de Portugal, que ajudou a resolver o problema económico da impressão e auxiliou na obtenção das autorizações necessárias para a publicação — o momento da narração é interessante porque, neste Fortuna, Caso, Tempo e Sorte, que biografa Camões, Isabel Rio Novo leva o leitor a acompanhar a primeira leitura da obra por este mecenas, em manuscrito, apresentando um resumo do que se relata n’ Os Lusíadas e os pontos que poderiam ser mais discutíveis para a aprovação da mesma, assim chamando também a atenção para o tom crítico que Camões não desprezou na sua obra.

Fica o leitor com a sensação da epopeia que foi publicar este poema, história que tem de passar pela recusa da imagem romântica que se construiu de Camões a ler o poema perante o rei D. Sebastião, apesar de parecer não haver dúvidas de que o rei conheceria o conteúdo da obra...

Publicar este escrito era objectivo persistente do seu autor desde os tempos da Índia (o retrato de Camões na prisão de Goa mostra-o a redigir o canto X da epopeia) e mais insistentemente desde que, por 1570, regressara a Lisboa. O final do percurso de dificuldades pinta-o Isabel Rio Novo com as cores do entusiasmo, mais uma vez recorrendo à conivência do leitor e à imaginação (e vale a pena registar esse parágrafo capital): “É bastante plausível que a data da publicação corresponda ao dia a partir do qual a tença começou a ser paga: 12 de março de 1572. Nessa manhã que, por pura imaginação, pinto como uma daquelas manhãs de primavera lisboetas, luminosas e ensolaradas, começava a escrever-se uma história que extravasa o âmbito da vida do seu criador e cujas peripécias só parcialmente cabem nesta biografia. A emoção de um autor ao segurar nas mãos o primeiro exemplar do seu primeiro livro há de ter sido a mesma há cinco séculos. Em 1572, Camões tinha 47 ou 48 anos. Não era um velho, apesar de a idade ter outro peso naqueles tempos. Mas era um homem envelhecido, doente, amargurado, a quem o futuro já fugia. No entanto, nessa manhã de março (cheia de sol, claro que sim) talvez tenha encarado a vida que lhe restava com algum otimismo.”

A biografia com que Isabel Rio Novo brinda este quinto centenário do nascimento de Camões torna-se uma obra de leitura cativante, num relato onde nem falta o porquê da escolha da capa, primeiro passo para a identificação do protagonista — dominada pelo retrato que do poeta fez Fernão Gomes, tal como pelo outro que retratou o poeta na prisão (“os dois únicos retratos feitos em vida do Poeta”), a autora descreve a personagem nos seus traços físicos quase a fechar a obra e valoriza o contributo trazido por esta representação iconográfica, que, maltratada pelo tempo, está rasgada e tem as duas partes coladas por tiras de papel: “Incapaz de fixar Luís de Camões num retrato, muito menos de propor um ao leitor, à medida que escrevi este livro, fui sempre regressando à sanguínea de Fernão Gomes e à lembrança daquelas três tiras de papel, quase sempre apagadas nas imagens que o reproduzem. Algumas vezes tive a sensação de que as segurava com os próprios dedos. Camões teve um rosto. Aquele que está reproduzido na capa deste livro não andará longe do que foi o seu.”

Um retrato humano de Camões emerge desta biografia (concluída com cerca de 1400 notas e quase 40 páginas de referências bibliográficas, que permitem ao leitor fazer um pouco do caminho da investigação e da discussão sobre as pistas que cada biógrafo seguiu). Nela se segue um percurso em que a dificuldade é uma constante — resultante da pouca informação comprovada sobre o poeta, mas, sobretudo, consequência do que foi a própria vida da personagem. Mas não é apenas isso: fica-nos também a glória de um Camões que lutou por uma obra que conseguiu impor-se e que, indiscutivelmente, se tornou numa das referências da nossa identidade.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1368, 2024-09-11, pg. 9.


sexta-feira, 6 de setembro de 2024

O Camões que Isabel Rio Novo nos revela (2)



A estratégia seguida por Isabel Rio Novo ao longo das cerca de 600 páginas de Fortuna, Caso, Tempo e Sorte - Biografia de Luís Vaz de Camões mistura o que é possível obter dos poucos documentos que existem sobre a pessoa do biografado, as opiniões que têm sido emitidas pelos variados biógrafos que tomaram o poeta como estudo (concordando com uns, discordando de outros, seguindo alguns), a obra literária conhecida no que possa ter de confessional ou de autobiográfico (não sem que haja a recusa, várias vezes referida, de seguir uma interpretação literal de tais textos) e a técnica literária da construção de romance (que a autora domina), destinando-se esta a preencher os espaços e os tempos de que não há informação precisa na vida de Camões, fundamentada em elementos de estudos sobre a época que garantem a sustentação das hipóteses interpretativas — é assim que se valoriza o efeito sugestivo trazido por termos como “imaginemos” (proposta ao leitor em diversas ocasiões), por formulações de convite a uma descoberta comum ao leitor e a quem narra (“Sigamos Camões até junto da Ribeira de Goa”, para, depois, nos ser apresentado aquele espaço nos domínios da arquitectura, da estrutura social, do quotidiano) ou, já na fase em que se prepara a publicação de Os Lusíadas, a apresentação de uma possibilidade, a propósito do encontro entre o autor e o inquisidor, quando “o mais plausível é mesmo pedir ao leitor que imagine Camões, que vivia na encosta de Santana, a apoiar-se nas muletas, a propender para a Baixa e a dirigir-se lentamente ao convento dos dominicanos, a ordem a que geralmente pertenciam os inquisidores.”

Com estes pedidos de colaboração, está-se a envolver o leitor na construção da trama, sobretudo naqueles segmentos que não estão absolutamente documentados, mas que são indispensáveis para que a vida tenha acontecido. Aliás, Isabel Rio Novo dá conta, em várias ocasiões, da dificuldade de reconstituição, como acontece no início do capítulo que aborda a vida do biografado na Índia — “O ano de 1555 é aquele a partir do qual a cronologia de acontecimentos na vida de Luís de Camões impõe mais desafios a um biógrafo.” E, uns parágrafos adiante: “formar e juntar as peças que permitem reconstituir o itinerário do serviço militar, das viagens e das etapas de Camões no Oriente ao longo deste e dos próximos capítulos foi um verdadeiro desafio.”

Uma das formas interessantes como Isabel Rio Novo se embrenha neste “desafio” é, por exemplo, o momento em que tem de relatar a vida de Camões na prisão em Goa (onde foi parar por decisão do governador Francisco Barreto, na sequência de uns textos satíricos), recorrendo à iluminura que representa o poeta na prisão goesa, descoberta em 1972 — o leitor percorre duas páginas e meia de descrição da iluminura, processo que serve para que a sua personagem central, Camões, nos seja apresentada em pleno labor de Os Lusíadas. O desenho não é reproduzido nas páginas do livro, mas é amplamente dissecado naquilo que pode ser a informação útil para se imaginar a forma como o poeta viveu este tempo de enclausuramento e a maneira como construiu o seu mundo entre as quatro paredes da cela... Por outro lado, este desenho é valorizado como documento autêntico, muito provavelmente pintado por amigo que tenha sido visita assídua daquele espaço — uma obra que teve também as suas mutilações, pois, na legenda gravada no verso, consta a informação “Luís de Camões preso, e tendo a seus pés quem quis perdê-lo na Índia”; ora, “na zona inferior do retrato, sob os pés do preso, a olho nu apenas se vê uma mancha de tinta negra, aparentemente aplicada para ocultar a identidade de quem lá estivesse representado”, possibilidade que ganha crédito se pensarmos que está provado ter essa camada de tinta sido aplicada num tempo posterior à elaboração do quadro...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1363, 2024-09-04, p. 9.


quarta-feira, 28 de agosto de 2024

O Camões que Isabel Rio Novo nos revela (1)

 


Em Junho de 1552, Camões envolveu-se num litígio com o estribeiro Gonçalo Borges, na zona lisboeta do Rossio, ferindo-o “junto do cabelo do toutiço”. Dois meses depois, o poeta estava na cadeia, no Tronco. Por Fevereiro de 1553, o ofendido perdoou a agressão por não ter ficado com maleita decorrente do acto, tendo chegado a acordo com Camões, devendo este suportar as despesas judiciais. Para que esta acção tivesse valor, o processo de perdão tinha de ser submetido a dois juízes — um deles foi o setubalense D. Gonçalo Pinheiro (1499-1567), na altura bispo de Viseu —, que deram parecer favorável.

Como teria sido a vida do mais conhecido poeta português nessa prisão designada como “Tronco”? Do que ali passou não ficou registo pormenorizado, mas há um soneto em que a mágoa camoniana do que ali sofreu pode transparecer — “Em prisões baixas fui um tempo atado, / Vergonhoso castigo de meus erros; / Inda agora arrojando levo os ferros, / Que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.” Na verdade, o soneto poderá referir-se a prisões outras de que a vida se encarregou, mas não deixa de poder estar ligado, pela ideia de sofrimento, ao tempo passado no “Tronco”...

Este apontamento serve para se chegar ao relato que compõe a obra Fortuna, Caso, Tempo e Sorte - Biografia de Luís Vaz de Camões, de Isabel Rio Novo (Contraponto, 2024), digna homenagem ao autor de Os Lusíadas. Neste momento da vida do poeta, o leitor consegue perceber a amargura e a dor vividas na cela pelo recurso que a autora faz a testemunhos da época, num tom em que se é quase convidado a participar numa visita ao castigado — “Imaginemos, pois, Camões numa cela do Tronco, os pés agrilhoados, no meio da escuridão mal dissipada pela luz tremeluzente da candeia espetada numa junta da parede. (...) A cadeia era penosa para o corpo, mas ainda mais violenta para o espírito. (...) Quando as visitas saíam e, com elas, saíam os raios de alegria ou distração, ficavam só as trevas, as paredes húmidas da cela, as noites que nunca mais acabavam, os dias arrastados e sempre iguais.”

As dificuldades em torno do percurso de vida de Camões iniciam-se com o seu nascimento, nas dúvidas quanto a data e local, ainda que, no século XVII, Faria e Sousa, seu biógrafo e comentador, tenha registado a descoberta de um assento de viagem para a Índia datado de 1550, em que consta, como possível passageiro, “Luís de Camões, filho de Simão Vaz e de Ana de Sá, moradores em Lisboa, na Mouraria, escudeiro, de vinte e cinco anos, barbirruivo”. Camões terá, pois, nascido em 1524 ou em 1525, datas nem sempre aceites, pois os documentos originais desapareceram.

Isabel Rio Novo segue esta hipótese quanto ao ano de nascimento, ainda que desvalorizando uma opção forçada por um ano ou por outro. Quanto ao local de nascimento, a biógrafa passa pelas várias possibilidades que a história tem encontrado em função dos gostos dos estudiosos, chegando a concordar com Aquilino Ribeiro, quando disse: “Basta saber-se que nasceu em Portugal, o mais é competição de campanário.” Perante as incertezas, regista o nascimento, no tom de reconstituição que logo prende a atenção do leitor: “No Porto, perto do Porto, ou quando muito em Coimbra, mas muito dificilmente em Lisboa, num qualquer dia do ano de 1524 ou 1525, Ana de Sá e Macedo deu à luz um menino, sendo assistida por outras mulheres experientes, parentes ou vizinhas. Certamente que o parto ocorreu em casa de familiares. Na época, só uma mulher solteira, sem família ou desprovida de quaisquer recursos teria o filho no hospital.” Assim vinha ao mundo, pelo lado paterno, o trineto de Vasco Pires de Camões (galego, de Camos) e de Maria Tenreiro (portuguesa), bisneto de João Vaz de Camões e de Inês Gomes da Silva, neto de Antão Vaz e de Guiomar da Gama e filho da já referida Ana de Sá e de Simão Vaz de Camões.

Até ao final, o livro vai fazer justiça ao título escolhido, retirado da primeira quadra de um soneto — “Verdade, Amor, Razão, Merecimento / Qualquer alma farão segura e forte, / Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte / Têm do confuso mundo o regimento.” E é quase no final do derradeiro capítulo que a autora justifica a escolha: as quatro forças escolhidas, em nada dependentes da vontade humana, regiam o “confuso mundo” e a vida. E o curso dos dias de Camões — pelos valores, pelas ocasiões, pelas brigas, pelo saber, pela instabilidade, pelos devaneios, pelos (des)amores, pela memória, pelos contextos, pelos exílios, pela dor, pelo dever consagrado à pena e à espada — fez parte desse horizonte, em tudo contrário à segurança anunciada pelo primeiro verso...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1358, 2024-08-28, pg. 9.


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Hugo Van Der Ding: biografias a partir do fim



Eis um conjunto de quase centena e meia de vidas, invariavelmente iniciadas pelo falecimento dos biografados, ideia compreensível pois só no final do percurso se pode registar o contributo deixado para o mundo...

São 141 figuras (70 mulheres e 71 homens) - e mais os Távora -, metade das quais falecidas no século XX, que Hugo Van Der Ding colige em Vamos todos morrer (Objectiva, 2021), título nada apocalíptico pois o subtítulo explica - “Biografias breves de gente que já lá está”.

A primeira apresentação destas narrativas aconteceu na Antena 3, ordenando-se a escolha pelo calendário (entre 3 de Abril e 30 de Março), em revisitação a figuras como Oscar Niemeyer (104 anos), Katherine Johnson e Rainha-Mãe (101 anos) ou Irmã Lúcia e Estée Lauder (97 anos), as mais longevas, e a outras como Severa (26 anos), Mário de Sá-Carneiro (25 anos) ou Joana d’Arc (19 anos), as que mais curta vida tiveram. A viagem cronológica inicia com os que faleceram há mais tempo - Jesus, o Cristo (f. 33), Nero (f. 68) e Maomé (f. 632) - e finda com os que mais recentemente partiram - Duquesa de Alba e Maya Angelou (f. 2014), China Machado (2016) e Katherine Johnson (2020). Neste intervalo, há registos para todos os séculos a partir do XIII e ainda para os séculos I, VII e IX. Entre os biografados portugueses (38, sendo 21 homens e 17 mulheres), os mais antigos desaparecidos são Santo António (f. 1231), Rainha Santa Isabel (f. 1336) e D. Filipa de Lencastre (f. 1415) e os mais recentes, Sophia de Mello Breyner (f. 2004), Irmã Lúcia (f. 2005) e José Saramago (f. 2010).

O painel é tão diverso como as obras que levaram a que estas figuras ficassem conhecidas - boas ou más razões; acção no campo da política, da economia, da cultura, da sociedade; muito trabalho ou sorte; crime ou sofrimento; partilha ou amor. Após a idade com que a personagem faleceu, fica o lamento “tão novo(a)” entre parênteses, paródia do hábito, aqui generalizada para um tempo de vida entre os 19 e os 104 anos...

As crónicas assentam em relatos leves mas com informação densa, entremeados com tiradas de humor, muitas vezes surgidas dos jogos de palavras (sobre a indumentária de Isabel de Inglaterra, refere as “enormes golas, que dão também nome àqueles ‘abat-jours’ que os veterinários põem à volta da cabeça dos cães e dos gatos”), de referências à actualidade com recorte de ironia (“é verdade que Maria Antonieta vivia num luxo escandaloso acima das possibilidades da França, como diria o saudoso Passos Coelho”; São Francisco Xavier “estudou Filosofia, Literatura e Humanidades, e só não acabou a trabalhar num ‘call center’ porque, naturalmente, ainda não havia telefones”). Por vezes, o jogo humorístico chega à recreação, registando de imediato o invento com a fórmula “brinco” - a propósito de Neil Armstrong, a pessoa que primeiro pisou a lua: “parece que nunca foi lá grande estudante, uma vez que andava sempre com a cabeça na Lua. Brinco.” Luísa Todi, a cantora setubalense, falecida em 1 de Outubro de 1833, também aqui tem o seu epitáfio, não sem notas de riso (jogar o apelido Todi do marido com o achocolatado é uma oportunidade).

Um livro que se lê com gozo. Mas, antevendo poder haver quem não goste do tom posto nesta escrita biográfica, Van Der Ding avisa: “o livro é meu, escrevo sobre o que eu quiser e bem me apetecer. Se não gostam, é questão de escreverem os vossos próprios livros.” Bom desafio ao leitor!

* J.R.R. "500 Palavras".  O Setubalense: nº 788, 2022-02-16, pg. 9.


quarta-feira, 28 de julho de 2021

Carlos Rates, o “incorrigível” de Setúbal


 

Quase a fazer 24 anos (seria dali a cerca de três semanas), um despacho do Major-General da Armada, de 26 de Janeiro de 1903, considerou-o “incorrigível, devendo ser transferido como soldado para o exército do ultramar”, consequência da sua segunda deserção da Marinha. Uma década depois, em 18 de Dezembro de 1913, por ter realizado uma conferência na Terrugem sem autorização do Governo Civil e resistido ao regedor local, dizia-lhe o juiz, no Tribunal de Elvas: “Eu tenho de aconselhá-lo a mudar de vida. (...) A verdade é que o senhor tem de arrepiar caminho, pois que assim prepara para si a vida do cárcere.” O homem em causa era o setubalense Carlos Rates (1879-1961), biografado por Pedro Prostes da Fonseca na obra Incorrigível - A história desconhecida de Carlos Rates (Ponto de Fuga, 2021).

A surpresa sobre a personalidade desta história é logo acentuada no subtítulo - “De primeiro Secretário-Geral do PCP a apoiante de Salazar” -, assim como no início do prefácio assinado por Fernando Rosas, que diz estarmos perante “o percurso político, social e até de vida privada do mais emblemático dos trânsfugas da história do movimento operário português no primeiro quartel do século XX”.

Em duzentas páginas, acompanhamos o trajecto de Rates: ardina, operário conserveiro, marinheiro, sindicalista, jornalista, autor de peças de teatro, de romances e de ensaios sobre política (defendendo a ditadura do proletariado), co-fundador e primeiro Secretário-Geral do Partido Comunista Português, apaixonado por duas irmãs, colaborador do governo sidonista e da União Nacional, preso várias vezes e deportado, conhecedor do país pela causa sindical, expulso do partido que ajudou a criar (por colaborar com a “imprensa burguesa”), personagem de um romance autobiográfico escrito pela filha, até falecer esquecido, nem sendo motivo de notícia nos vários jornais em que participou.

A intervenção pública e política de Carlos Rates é acompanhada de perto por Prostes da Fonseca, de muito valendo os artigos que o biografado foi publicando nos vários jornais como O Germinal, A Batalha, Bandeira Vermelha, O Sindicalista, O Século, A Pátria, O Intransigente, O Comunista ou o funchalense O Jornal. Simultaneamente, revê-se a história do movimento operário e da política portuguesa, sua inconstância e clivagem - bastará pensar-se em toda a intervenção operária no final da monarquia ou no afastamento entre o operariado e o regime republicano (ambos os momentos com incidência fortemente sentida em Setúbal) ou na permanente falta de consensos governativos (até Dezembro de 1925, foram 46 os governos republicanos).

Descontente com os partidos, que responsabiliza pela crise geral vivida, Carlos Rates escreverá para o jornal Diário da Manhã, em Julho de 1931, solicitando filiação na União Nacional, embora com algum pendor crítico e defendendo que “a ditadura não deve ceder o campo sem lançar as bases de uma democracia estável”. Sonhava Rates com a transitoriedade da ditadura, que prepararia o terreno para a vivência democrática...

A vida de Carlos Rates a partir da década de 1930 surge sob o signo do desencanto, refugiando-se na família (vivendo com a filha Celeste e regularizando a sua situação com Aura, após o falecimento de Maria da Conceição, mãe de Celeste) e na escrita. As últimas três décadas da sua vida são apresentadas a partir do romance autobiográfico Grades Vivas, escrito pela filha, Celeste da Conceição (1954).

A vida do “Incorrigível” preenche os caminhos da contradição, tal como se refere no fecho do livro: um percurso “complexo, contraditório, tão perdido entre as luzes e sombras dos seus labirintos interiores como entre as que iluminam ou obscurecem o grande palco da história.” 

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 673, 2021-07-28, p. 5.


quinta-feira, 18 de junho de 2020

Bocage biografado por Daniel Pires



Entre os acontecimentos culturais ligados a Setúbal em 2020 ficará, sem dúvida, a edição da obra Bocage ou o Elogio da Inquietude, assinada por Daniel Pires (Lisboa: Imprensa Nacional), que, apesar de ter o ano passado como data de publicação, só surgiu para o público recentemente, em Maio.

Ao longo de vinte capítulos, entra o leitor nos meandros da vida do mais conhecido poeta setubalense, Bocage (1765-1805), que, no mundo das academias setecentistas, ficou conhecido por Elmano Sadino (conjugando o anagrama do seu primeiro nome, Manuel, e a referência toponímica à sua origem). Esse percurso nem sempre foi de reconstrução fácil, avisando Daniel Pires, em várias ocasiões, ser necessário “recorrer ao campo das hipóteses” para acompanhar o poeta em diversas épocas da sua vida, devido à falta de documentos ou à ausência de referências. Contudo, nesses momentos, o biógrafo informa o leitor sobre a explicação hipotética, avançando com elementos que sustentam a sua interpretação, tornando-se, assim, autor e leitor cúmplices nesta visitação a Bocage e ao seu tempo.

Apesar de o adjectivo gentílico ter sido integrado pelo poeta no seu nome da academia, as referências a Setúbal são escassas na obra bocagiana, parecendo que levou à letra o seu verso “Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado” com que abre um soneto, publicado no primeiro tomo das Rimas, em 1791. Informa Daniel Pires que, a partir do momento em que, em 1783, foi transferido para a Academia dos Guardas-Marinhas, “a sua partida de Setúbal foi quase definitiva”, pois “só terá estado na sua terra natal em 1790, na sequência do seu regresso do Oriente, e, em 1802, quando o pai faleceu.” As causas deste afastamento poderão ser várias, mas não serão estranhas a tal “inquietude” que caracterizou a sua vida, o facto de o pai ter caído em desgraça por um crime não provado e, sobretudo, o desgosto amoroso resultante do casamento de seu irmão com a jovem que o vate amava (Gertrúria, nas referências poéticas, filha do governador do Outão).

Da experiência do poeta no seu percurso de quarenta anos salvou-se a escrita, que lhe trouxe o reconhecimento, ainda sentido em vida: “no início do século XIX, Bocage usufruía de um estatuto literário elevado”, testado nas republicações e no valor que os contemporâneos lhe atribuíram - “o estilo genuíno, a autenticidade, o apuro formal, a capacidade de improvisação e a forma peculiar como dizia os poemas despertavam inequívoca admiração”. Bem interessante é a incursão que o biógrafo faz pela vida editorial do tempo do poeta, assim como pelo historial das edições sucessivas dos poemas de um autor que, apesar do valor que lhe era atribuído, terminou, “para cúmulo, sem túmulo” (título do derradeiro capítulo da obra, algo prenunciador de outros nem sempre simpáticos tratos).

O ritmo das ideias, das viagens, das contendas, dos desgostos, das descrenças, das polémicas, da miséria, da prisão e da falta de saúde, e a qualidade literária sempre acompanharam Bocage, apresentando Daniel Pires contextualizações sobre cada um dos tempos ou cada um dos problemas que enformaram o percurso do poeta (ambientes, regras, costumes, hábitos, em Portugal, no Brasil ou no Oriente) com uma eficácia informativa e uma abrangência plural que guiam o leitor, aliando ainda alguns textos bocagianos a certos momentos biográficos, sem que esta colagem se sobreponha ao reconhecimento literário dos mesmos.

Tratando-se de uma obra de leitura acessível, fortemente alicerçada na investigação (muitos documentos são divulgados pela primeira vez), bom seria que ela constituísse também um alerta para que Bocage reocupasse o lugar que merece nos estudos de literatura e cultura portuguesa do ensino secundário, mesmo por uma questão de cidadania!

* "500 Palavras". O Setubalense: nº 416, 2020-06-17, p. 10.


segunda-feira, 7 de julho de 2014

O soldado "Milhões", herói da Grande Guerra, contado por Francisco Galope



Aníbal Augusto Milhais, o conhecido “Milhões”, nasceu em 9 de Julho de 1895 e faleceu em 3 de Junho de 1970. Ainda não tinha 22 anos na data em que embarcou para a Flandres, incorporando o Corpo Expedicionário Português (CEP), no final de Maio de 1917, como militar do Regimento de Infantaria 19.
Vindo de Valongo (a que mais tarde se juntou “de Milhais” em sua honra), no concelho de Murça, Aníbal Augusto fazia parte do grande grupo de incorporados que nunca saíra do seu torrão. Muito saberia da vida, mas não conseguia adivinhar que, com o passar dos tempos, o seu nome viraria lenda, o seu rosto de herói desafiaria a memória numa praça da sua sede de concelho e a sua vida seria resguardada numa biografia publicada no primeiro ano do centenário da Grande Guerra, aquela em que ele se expôs diariamente à fortuna e de onde conseguiu regressar, contrariamente ao que foi o fado de camaradas de armas e de amigos e vizinhos.
Francisco Galope, jornalista, encontrou-se com a narrativa do soldado “Milhões” em 2008, quando preparava uma reportagem com informação de carácter histórico para a revista Visão – História, para um número que assinalaria os 90 anos do fim da Grande Guerra e da assinatura do Tratado de Versalhes. Mas a descoberta pedia mais do que uma reportagem e, cinco anos depois dessa publicação, Francisco Galope apresenta a biografia de Aníbal Augusto Milhais, o “Milhões” da lenda, sob o título O herói português da I Guerra Mundial (Lisboa: Matéria-Prima Edições, 2014).
Curiosamente, a forma de Aníbal Augusto ter ascendido ao lugar de herói ficou a dever-se a um jornal, o Diário de Lisboa, quando corria o mês de Abril de 1924, que desencantou o combatente transmontano e o fez andar num périplo que teve vários pontos altos de reconhecimento e de vivência, como foi, por exemplo, o da presença na Batalha, quando no dia 9 desse mês ali se procedeu à inauguração do lampadário junto do túmulo do “soldado desconhecido” (criado em 1921), homenagem aos caídos na Grande Guerra, em data cara para Milhais: fora na sequência da sua acção, em 9 de Abril de 1918, ao defender-se e ao defender muitos dos seus camaradas perante o inimigo alemão, que ele se tornou numa imagem do heroísmo no campo de batalha. Posteriormente, o desabafo de um dos seus comandantes, João Maria Ferreira do Amaral, ao dizer-lhe, num jogo de palavras, que ele ”era Milhais, mas valia Milhões”, abria-lhe a porta para a memória, de tal maneira que, no pedestal de Murça, a frase do comandante surge lavrada em lápide.
Se, em 1921, Menezes Ferreira contou a história heróica dos soldados portugueses, construindo uma personagem que seria resultado das vivências de todos eles, na obra João Ninguém – Soldado da Grande Guerra (contendo tanto de épico como de humorístico como de crítico), se designações como “serrano”, “gambúzio” ou “folgadinho” assentavam na tipificação do soldado herói português que combateu na Grande Guerra, o conhecimento de “Milhões” deu um rosto, um corpo e um sentir a esse herói, várias vezes aclamado, em diversas oportunidades alcandorado a representante da valentia dos homens do CEP.
Francisco Galope marcou encontros vários com a memória de “Milhões”, fosse através da leitura do que disseram os jornais, da consulta ao arquivo da RTP (onde surge registo de entrevista com o herói de Valongo de Milhais) e nos arquivos militares, fosse por via de fontes orais de familiares do “Milhões”, fosse ainda pelo recurso à literatura memorialística portuguesa deste período (cujos títulos vão sendo referidos ao longo da obra). Todo este viajar pela pesquisa no sentido de ser reconstituída uma biografia permitiu ao autor a elaboração de uma tela completa do que pode ter sido a vida de Aníbal Milhais, sobretudo na experiência na trincheira da Flandres. Afinal, aquilo por que Milhais passou não terá sido diferente do que foi vivido pelos outros companheiros conforme registado pelo memorialismo. Assim, Francisco Galope preenche lacunas, dando a imagem possível do herói e do seu feito.
O desenvolvimento da narrativa vai sendo sujeito a reflexão do próprio narrador, que, frequentemente, se cola ao seu protagonista no sentido de o entender ou de justificar as suas atitudes, sempre com o objectivo de tornar a narrativa mais viva, quase como se uma memória se reproduzisse, não esquecendo pormenores como o da maneira de falar ou o da linguagem utilizada, sobretudo no que diz respeito a gíria militar, ou mesmo o que advém da possibilidade de adivinhar o que correria no pensamento do soldado e na sua maneira de ver o mundo.
Aníbal Milhais não sai endeusado, antes nos é apresentado um cidadão, que, perante uma experiência rara e intensa, em que havia a vida para defender, hesita, ganha, perde e luta, não visando ser herói, mas procurando a sobrevivência, agindo com a naturalidade que a vida lhe ensinou. Francisco Galope, apesar do título dado ao livro, é cauteloso no apuramento da verdade em torno do gesto que fez Milhais subir ao estatuto de “herói” (o que se terá passado em Huit Maisons em 9 de Abril e nos dias subsequentes), apresentando, no final, documentos de Ferreira do Amaral e de David Magno, um justificando o reconhecimento e a atribuição de galardão a Milhais e o outro assumindo que o feito do soldado transmontano não foi mais glorioso que o de muitos outros dos seus homens, ainda que reconhecendo Magno que a imagem do “Milhões” se transformou em “símbolo dos nossos humildes soldados”.
Uma biografia a ler. Porque dá uma imagem do que foi a vida dos portuguese nas trincheiras, porque recria com base em fontes importantes um aspecto da participação portuguesa na Flandres, porque, ainda que falando de um “herói”, o humaniza. E porque, tal como nas histórias que conhecemos, não ficamos a saber tudo sobre os heróis, apenas o essencial.

sábado, 27 de julho de 2013

Anita Vilar: mulheres da história de Setúbal



Oito anos foi o tempo que Anita Vilar levou a preparar a obra recentemente apresentada, Panorama de uma história local no feminino (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2013), livro organizado em jeito de dicionário, biografando 74 mulheres que estiveram ligadas à história de Setúbal.
O trabalho não terá sido fácil, referindo a autora a sua principal dificuldade: “os arquivos, desvalorizando os contributos femininos, não registavam dados pessoais tais como o local e data de nascimento e a profissão (…), sendo muitas vezes a mulher, a mãe de”. Daí também a cautela com que a autora apresenta este trabalho, afirmando não estar concluído, pois, além de ser o primeiro levantamento exaustivo do género, ressaltou também a dificuldade da impossibilidade de “obter todos os dados biográficos referentes a algumas mulheres”, obstáculo que não condicionou a decisão de, mesmo assim, no livro constarem nomes com uma biografia de conjectura ou de dúvidas, honestamente assinaladas.
As biografadas abrangem um longo período da história sadina, desde o século XV até à actualidade, e foi critério referir apenas nomes que já tivessem concluído o seu ciclo de vida: no século XV, contam-se os percursos de Justa Rodrigues Pereira e de Maria da Pipa; no século XVI, visita-se Margarida Dias e Leonor de S. João; no século XVII, conhece-se Beatriz Gonçalves, Maria Guadalupe de Lencastre e Ângela Maria; no século XVIII, é o encontro com Mariana du Bocage, Cecília Rosa de Aguiar, Isabel Ifigénia de Aguiar, Ana Maria do Amor Divino e Luísa Todi; no século XIX, o que mais nomes conta,  cruza-se o leitor com Gertrudes Angélica de Andrade, Ana de Almeida, Maria Emília da Mota Negrão Barradas, Maria Henriqueta de Campos Valdez, Maria Adelaide Vieira, Maria de Jesus Almeida do Soveral, Maria Angélica de Andrade, Maria Amália, Hermínia Augusta Marreiros Borges Campos, Maria Baptista, Maria Amélia de Orleães, Maria Júdice da Costa, Joaquina Aurélia Baptista Guerreiro, Ana de Castro Osório, Francisca Romana Lino da Silva, Angelina Paula Mota Quintas, Ana de Broughton de Meneses Ferro Gamito, Ema Garcia Peres Grill, Raquel Elvas Mascarenhas, Maria Felicidade de Ferreira Miranda, Maria Cândida de Oliveira Parreira, Maria Augusta Ferreira de Sousa Fialho, Joaquina Rosa de Lima, Luísa Eduarda Gonçalves, Olga de Morais Sarmento, Maria Bárbara Falcão, Falcão Mercês, Mariana Torres, Laura de Jesus de Almeida, Benedita Maria, Carlota Rosa Ramos, Maria Ilda da Conceição de Oliveira, Lúcia da Encarnação Maracoto, Amélia Azevedo, Albertina Aldegundes de Moura Benício, Ária Amazonense Ferreira Ramos, Pátria Amazonense Ferreira Ramos, Alda Machado Santos, Ernestina Esteves Vieira Abreu, Cândida Marques Pascoal, Marta de Jesus da Silva Lebre, Deolinda Macedo, Eufrásia Lino da Silva, Bárbara Marques Pascoal, Ilda Stichini, Teresa Lino da Silva, Irene Augusta Faria Costa do Nascimento e Maria Campos; do século XX, são figuras como Maria Arminda Cândido Graça, Madalena da Costa Claro, Emília Rosa Colaço, Margarida Caineta, Arlete Soares Silva de Oliveira Guimarães, Oceana Rosa de Sousa Zarco, Clarinda Silva Carvalho, Maria Adelaide Miguéns Rosado Pinto, Maria Clementina da Conceição Coelho Amália, Maria Inácia Simão Godinho, Lygia Messodi Toledano Ezaguy, Susana Soveral Gomes, Maria do Rosário Fátima Almeida Santos e Maria Cecília Pereira Anjo.
Por estas cerca de sete dezenas de fichas desfilam figuras ligadas à política, à intervenção social, ao desporto, à educação, ao mundo do trabalho, às artes, algumas constando na toponímia sadina mas a maioria delas tendo uma biografia de lacunas. O trabalho que Anita Vilar nos apresenta refere essas mesmas adversidades, mas tem a vantagem histórica de ser uma primeira abordagem de conjunto, diversificada, mostrando o peso que a mulher tem tido na história local, apesar de, habitualmente, ser relegada para um plano mínimo ou para a omissão. Trata-se de uma obra útil, indispensável para a bibliografia local, a merecer consulta ou mesmo leitura integral, assim se descobrindo uma faceta importante da identidade setubalense.

sábado, 18 de maio de 2013

Jorge Calheiros: a biografia do músico Rui Serodio



O livro que temos perante nós e que aqui nos trouxe hoje (Jorge Calheiros. “Je suis le pianiste!” – A vida e a música de Rui Serodio. Linda-a-Velha: DG Edições, 2013) valerá por muitas razões, mas sobretudo por esta: é uma prova de amizade. Assim, sem adjectivos, sem intensificadores. Uma prova de amizade em tudo aquilo que estas palavras querem dizer. Poderemos vir a gostar deste livro por muitas razões, mas continuaremos a apreciá-lo por este gesto intenso que é o de um livro falar sobre alguém e ser-lhe dedicado ou oferecido, em simultâneo. Uma prova de amizade, de irrefutável amizade, pois.
Jorge Calheiros nunca terá pensado escrever um livro. No entanto, fê-lo. E a mola que o impulsionou foi a mesma que consolidou um relacionamento de anos de convívio e de amizade. Sem outros alcances que não os do afecto e de manter a memória. Viva, claro, porque a memória é sempre uma forma viva de se estar.
Veja-se o primeiro parágrafo do “prefácio”: “Nunca fui, não sou, e provavelmente nunca serei um escritor. Mas decidi escrever um livro, o que me colocou desde logo inúmeras questões. A primeira de todas foi: como fazê-lo?” Expressas as dúvidas e as hesitações, a reflexão chega a uma certeza: “Sentado na minha varanda, com um café já meio frio, numa contínua pesquisa da inspiração, encontrei a solução: Vou escrevê-lo com o coração! E assim ficou definida a forma como escrevi este livro.”
Quanto ao título, não tem o leitor dúvidas: é uma biografia e, como tal, conta-nos a vida de alguém. Cruzando o título com o que o prefácio relata, outra certeza o leitor terá: é a vida de alguém, narrada por quem também entra na história. Esta obra vai então muito além da biografia, uma vez que é também testemunho de uma amizade vivida e, se dúvidas existissem, bastaria estarmos atentos à forma como o herói desta história é tratado – o seu nome quase sempre antecedido do determinante “o”, que revela a familiaridade do protagonista biografado com o protagonista que é também o biógrafo. Esta obra não fala apenas “de” Rui Serodio; fala sobretudo “do” Rui. Uma escrita de afecto, ainda por cima partilhada por várias mãos.
“Je suis le pianiste!” – A vida e a obra de Rui Serodio é um livro que se constrói com base numa trindade: por um lado, o relato da vida do Rui segundo uma perspectiva nada isenta de amizade, como vimos; por outro lado, os textos de Rui Serodio, uns narrativos, outros críticos, muitos autobiográficos; de outro ângulo ainda, os apontamentos testemunhais de mais de três dezenas de amigos do Rui (lista em que estou incluído). Chamei “trindade” a esta conjugação porque é impressionante o retrato que resulta no final, sobretudo do ponto de vista da conjugação de observações, da sobreposição de opiniões: não é um rol em que os convidados vão todos dizer bem; é um conjunto de experiências muito diversificadas no calendário, na duração, nas condições, nos propósitos, em que as opiniões testemunhadas se rendem perante a particularidade e a genialidade de uma figura como a de Rui Serodio, na sua bonomia, no seu saber, na sua sensibilidade, na sua postura perante a vida, na sua superioridade de homem bom, disponível e aberto. Se todas as testemunhas deste círculo tivessem combinado previamente o que iriam fazer, o retrato não sairia por certo nem tão completo, nem tão coincidente!...
A escrita de Jorge Calheiros acompanha o percurso biográfico de Rui Serodio em variadas áreas: na profissional, na artística, na familiar, sempre com o preceito da informação exacta e objectiva, eivada de histórias presenciadas, de situações de humor, frequentemente dando a palavra ao biografado, seja através da evocação de acontecimentos, seja pela reprodução de mensagens trocadas. O tom, ora narrativo ora descritivo, de precisão, permite ao leitor o convívio com Rui Serodio. E quem o conheceu facilmente o ouvirá ou o sentirá ali ao pé, com o seu humor e simplicidade desarmantes, como nesta situação: “Muita gente tratava Rui Serodio por maestro, ao que ele normalmente respondia: Eu não sou maestro! (…) Um dia comentou: Não sei por que raio as pessoas me chamam maestro! Talvez seja do cabelo e barba branca, que dão assim um ar distinto…”
Ao longo das quase 130 páginas de discurso biográfico, fica o leitor perante uma história completa, com certezas e emoções, acompanhando as inconstâncias e as paixões de uma vida. O relato é de tal  forma vivo e dinâmico que, por vezes, se tem a ilusão de que se está a ler (ou a ouvir) uma conversa entre Rui Serodio e Jorge Calheiros, um género de tertúlia em que se vai contando uma vida, repondo histórias.
No grupo de textos de Rui Serodio impressiona o ritmo da escrita, ficando o leitor com a sensação de que, muitas vezes, se oscila entre um trecho musical, a cena de um filme ou o próprio texto escrito, tal é o poder descritivo e narrativo, tal é o empenho que o narrador empresta ao discurso. O primeiro texto, uma magnífica evocação da mãe, intitulado “Berta”, assenta na perspectiva autobiográfica, aliando coisas aparentemente inconciliáveis – a história de um certo desprendimento entre pessoas que se admiram e amam, a amargura pelo que não se partilhou e a confidência com a memória, tudo rematado com uma homenagem salutar e revitalizante: “Conservei muito do que ela me transmitiu: a resignação, a reserva comedida das atitudes, o respeito pelos outros, o silêncio em vez do espavento, o convencimento de que, se existimos, é para cumprirmos uma missão que nos foi destinada, sem pedir nada em troca. E, se nascemos com um dom especial, não nos devemos vangloriar disso, mas sim cultivá-lo e partilhá-lo com quem o queira apreciar. E agradecer a Deus por nos ter concedido o privilégio da diferença. E nunca – mas nunca – querer parecer ou ser o que se não é.” Este parágrafo é muito mais do que uma lembrança: é uma herança que se reconhece, é um testemunho, um acto de amor e um testamento. Que belo conjunto de ensinamentos para se poder estar num mundo melhor!
Por estes textos passam as imagens da(s) mulher(es) da sua vida, retratos de Setúbal, a valorização do autor e do respeito pela criação artística, as pequenas epopeias de uma vida, o humor sobre si próprio, a pedagogia pela música, a prática auto-reflexiva, o registo de pequenos momentos de prazer que a vida vai segredando e até um texto para memória futura – umas quase memórias póstumas – teatralmente intitulado “A cerimónia de encerramento”. Tão importantes como as suas composições musicais, estes textos de Rui Serodio captam o essencial das coisas, bem tecidos, certeiros, delicados, tendo sempre a acompanhá-los um narrador experimentado e em estado de bem com a vida.
Quanto aos testemunhos dos amigos, a sua leitura complementa os anteriores, pois impressiona ver como, sendo oriundos de diversas longitudes de convivência ou de variadas latitudes de geografia, todos se rendem a essa figura ímpar que foi o Rui Serodio. Fica a sensação de que não se está perante a homenagem forçada e conveniente, antes se caminha na estrada da sinceridade e na linha da descoberta e da aprendizagem que foi ter encontrado esta personagem em dado momento do percurso. Esta perspectiva é tanto mais aliciante quanto alguns dos que testemunham nem sequer conheceram o Rui pessoalmente, mas só através da comunicação virtual e, claro, com a música como mediadora, como ponte, que é como quem diz com a sensibilidade do Rui.
Fecha o livro o “epílogo”, assinado pelo autor desta obra, escrito sob a forma de carta, dirigida pelo biógrafo ao biografado. É a satisfação pelo cumprimento de um dever – o da amizade, o da preservação da memória. É o prazer por este bocado de tempo, em mais de trezentas páginas, ter permitido a recordação de muitos momentos de aproximação. É o assumir da emoção como um dos motores e uma das condicionantes desta obra. É o confronto com a insuficiência em que a palavra se torna quando o que está em causa é a amizade. É a manifestação da impossibilidade de voltar a viver tudo de novo: “Tentei contar a tua história. Mas nunca, mesmo nunca, os versos da Manuela de Freitas significaram tanto como neste momento. Na verdade… eu só sei contar a história / da falta que tu me fazes.”
Como leitor que fui desta obra quando ela estava já em gestação adiantada e como amigo que também tive a sorte de ser do Rui, termino com a expressão que Ana Carvalho relembra ser usada pelo Rui de cada vez que acontecia um ensaio do grupo “Afina Setúbal”: “hoje fez-se magia”! E devemos agradecer isso ao Jorge Calheiros e ao Rui Serodio!

[Na apresentação do livro, ontem, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.]

OBS 1: O projecto levado a cabo por Jorge Calheiros inclui, além da edição da biografia, a edição de 5 cd's com as composições musicais inéditas de Rui Serodio. Além de poderem ser adquiridos em livraria, estes materiais estão também disponíveis em http://www.m-oceans.com/

OBS 2: Documento videográfico desta sessão de apresentação, assinado por Simões da Silva, pode ser visto aqui.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Para a agenda: a biografia e a música de Rui Serodio



17 de Maio seria o dia de aniversário de Rui Serodio, músico que viveu em Setúbal os últimos anos da sua vida, aqui tendo participado em múltiplos e valiosos projectos culturais. Nesse mesmo dia, pelas 21h30, é apresentada a sua biografia, volume de 300 páginas que comporta também um conjunto de textos do biografado e variados testemunhos. A cerimónia segue com a apresentação de cinco cd's, que reúnem toda a obra que Rui Serodio deixou por gravar. Por iniciativa de Jorge Calheiros, autor do livro e coordenador da antologia musical. No Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal.
Um projecto forte e intenso. Um projecto de amizade. Um projecto de memória. Para a agenda!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Para a agenda - A biografia de Rui Serodio



17 de Maio seria o dia de aniversário de Rui Serodio e vai ser a ocasião para apresentação da sua biografia e da sua obra musical. Responsável pelo projecto - da biografia e da discografia - é Jorge Calheiros, que em toda esta obra deixa passar a força da amizade. A não perder. Para a agenda!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Luísa Todi vista por Mário de Sampaio Ribeiro há 70 anos




O livrinho já carrega umas décadas em cima de si. Tanto como 70 anos, que passarão em 12 de Junho deste ano. É uma biografia de personagem ligada a Setúbal e lê-se em pouco mais do tempo que leva uma palestra. Refiro a obra Luísa de Aguiar Todi, de Mário de Sampaio Ribeiro (Lisboa: Revista “Ocidente”, 1943), inserida numa colecção dedicada à cultura artística, cerca de 90 páginas de história com notas e gravuras.
Formado por três capítulos, este estudo inicia-se com um olhar para o mundo que nos envolve, numa viagem pela cidade quotidiana, desta vez com olhar menos distraído. É que, “normalmente, qualquer de nós, ao calcorrear na parte de Lisboa, que tem pergaminhos, não atenta nas coisas por que adrega de passar, alheado que vai, se não divorciado, do cenário que o rodeia”. O pretexto pode ser o nome de uma rua, por exemplo. E aquela antiga Travessa da Estrela fora rebaptizada, recebendo o nome de Luísa Todi (n. 9.Janeiro.1753) por edital camarário de Junho de 1917, uma vez que, no número 2 daquela artéria, vivera a artista e aí falecera no primeiro dia de Outubro de 1833.
Quase um século depois do desaparecimento da cantora, em 1934, Mário de Sampaio Ribeiro foi convidado para palestrar em Lisboa sobre esta setubalense, conferência que retomaria oito anos mais tarde, em 24 de Julho de 1942, ao repeti-la a convite do grupo “Amigos de Lisboa”. Cerca de um ano depois, saía o livrinho, que o autor apresenta como “refundição parcial” da comunicação de 1934, enriquecida com gravuras e notas. Um pretexto para a repetição da palestra foi o facto de, poucos dias antes, o governo ter sido autorizado a adquirir a uma descendente de Luísa Todi o “célebre quadro que a Vigée-Lebrun pintou, em Paris, no ano de 1785”, retratando a lírica setubalense, tela que importou em “vinte e cinco contos” e se destinava a “ser incorporada no futuro museu do Conservatório Nacional de Música”.
No segundo capítulo, o autor imagina o filme que permite o encontro com Luísa Todi, a biografada, “em dia canicular”, saindo manhãzinha rumo à igreja, amparada no braço de uma outra personagem feminina, sua filha. Cerca de uma hora depois, regressavam as duas a casa e da mais velha se voltaria a saber apenas no dia seguinte. Era este o quotidiano daquela “velhinha, de aspecto tão grave e respeitável”, que passava os dias recolhida no lar, depois que perdera a visão, a recordar os tempos passados.
E assim estava dada a entrada para o mais extenso dos capítulos, em que o leitor revê, pelos olhos da memória da biografada, a sua vida de glória e de arte, de uma carreira internacional, não isenta de invejas, em salões nobres, na presença de régias figuras e de outros artistas de próximo gabarito, num processo de recuo no tempo. Mário de Sampaio Ribeiro faz uso intenso de bibliografias, de notícias da imprensa e de outros testemunhos para que a narrativa seja credível, nunca esquecendo o acompanhamento emocionado da história pela sua personagem – chegada a biografia ao final, “fundo suspiro rematava tão longo desfiar de saudades, que, a despeito de seu amargo travo, eram o consolo que sua atribulada alma encontrava para fazer esquecer as trevas em que o Destino a mergulhara para sempre.”
O terceiro capítulo contém já um olhar do apreciador e estudioso de música e do percurso de Luísa Todi, procurando revelar ao leitor quais os dotes que permitiram a chegada da cantora tão longe, com delirantes públicos e impressionantes actuações. “A voz da Todi era de contralto, embora um tudo-nada mais extensa que de uso. Subia mais um bocadinho e, nas notas agudas, adquiria um timbre velado, que lhe era peculiar e que a artista aproveitava sabiamente para conseguir certos efeitos.” O temperamento artístico da cantora é sublinhado, associando o prodígio do seu canto à capacidade de representar, de tal forma que conclui Sampaio Ribeiro: “O cantar da Todi criava ambiente de êxtase e de encanto tais que o auditório como se não lembrava de aplaudi-la. Só depois de desvanecida essa como embriaguez as palmas irrompiam e então, a partir desse momento, a multidão electrizada devinha como possessa e aclamava com delírio a artista privilegiada”.
Quase metade do livro é composto por cerca de meia centena de notas, eivadas de um discurso em que pesa mais o tom documental e de investigação, ainda que comprovando e seguindo a par a narrativa que foi sendo construída. Por aqui passam informações documentadas sobre a sua biografia (desde o seu nascimento em Setúbal), sobre os recursos utilizados, sobre a investigação levada a cabo pelo autor, sobre os retratos que em honra de Luísa Todi foram criados, sobre a recepção havida às suas interpretações, sobre os desaires que afectaram a protagonista (a morte do marido, o desastre portuense da “ponte das barcas”, a cegueira), sobre a memória que dela ficou e sobre as homenagens que muitos apreciadores lhe prestaram ainda em vida.
Quanto a reconhecimento póstumo, também o autor o não esquece, tal como se pode ler numa nota em que aborda a questão do centenário da morte da cantora, ocorrido em 1933, aí destacando o papel desempenhado pela cidade onde ela nasceu: “No 1º de Outubro de 1933, ao completar-se o centenário da morte, foi inaugurada em Setúbal, no chamado Parque das Escolas uma pequena glorieta (desenho de Abel Pascoal, escultura de Lepoldo de Almeida e construção de Abílio Salreu) em honra da cantora. O busto da Todi é obra digna de apreço e o pequeno monumento (actualmente deslocado para a avenida Luísa Todi) foi descerrado por Leopoldo Tomás Todi Gonçalves, trineto da artista. Lisboa ficou de levar a efeito a sua comemoração. Projectaram-se, como sempre, coisas espaventosas, mas… não se fez nada. A única celebração – tardia e desluzida – foi a minha conferência na tarde de 8 de Julho de 1934, a meio da rua Luísa Todi.” É interessante este reconhecimento da iniciativa sadina perante a discussão e incumprimento da capital…
A capa do livro reproduz o perfil de Luísa Todi, traçado numa gravura anónima veneziana de 1790, evocativa do desempenho da cantora na obra Didone abbandonata, justamente a mesma imagem que serviu para modelo da recente escultura devida a Sérgio Vicente, exposta no exterior do Forum Municipal Luísa Todi, em Setúbal, desde Setembro passado.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A biografia de Domingos Garcia Peres




O nome de Domingos Garcia Peres não é desconhecido na cidade de Setúbal, seja pela inserção do seu nome na toponímia (um beco, um largo e uma rua), seja pela existência de um fundo bibliotecário com o seu nome, doado em 1964 para integrar o Museu da Cidade. No entanto, a sua biografia, baseada em fontes e estabelecida com rigor, teve de esperar até aos finais de 2012, em que foi assinalado o bicentenário do seu nascimento, a acompanhar uma exposição, uma e outra actividades devidas a António Cunha Bento, Carlos Mouro e Horácio Pena.
A biografia, intitulada Domingos Garcia Peres (1812-1902) – Um setubalense pelo coração (Setúbal: Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, 2012), é justificada pelo acto comemorativo, pela admiração que esta personalidade despertou em vida, pela sua intervenção cívica e cultural assente em Setúbal mas fazendo a ponte com outros meios (foi clínico e deputado e manteve colaboração e amizade com o bibliógrafo Inocêncio da Silva e com o espanhol Menéndez y Pelayo, eruditos de renome na área da cultura).
Thomaz de Mello Breyner, médico e amigo de Garcia Peres, no elogio fúnebre do amigo, caracterizou-o como “homem que nunca fez falar de si, por ter sido dotado de uma modéstia tão grande como era o seu coração, a sua inteligência e o seu saber”. Estas qualidades determinaram a admiração, mas não podem ser responsáveis por um desconhecimento sobre a sua personalidade que levou tanto tempo a ser suprido, mesmo em Setúbal, terra onde esteve ligado a eventos e criações importantes como o exercício da medicina, a eleição como deputado, a intervenção no Asilo da Infância Desvalida, a participação na Sociedade de Recreio Familiar, a fundação da Sociedade Arqueológica Lusitana ou a autoria de uma obra importante para a bibliografia como o Catalogo razonado biográfico e bibliografico de los autores portugueses que escribieron en castellano (obra de uma vida, publicada em Madrid em 1890).
Fruto das suas viagens a Espanha, Garcia Peres teve ainda possibilidade de, resultado do acaso, ter conhecido Hans Christian Andersen e com ele ter viajado entre Madrid e Lisboa, em Maio de 1866, época em que o escritor dinamarquês visitou Portugal a convite dos seus amigos O’Neill (tendo permanecido cerca de um mês em Setúbal).
A biografia que Cunha Bento, Carlos Mouro e Horácio Pena assinam passa por todos esses aspectos e momentos da vida deste alentejano nascido em Moura, que, aos 34 anos, chegou a Setúbal (depois de quatro anos em Alcácer do Sal) e que pelas margens do Sado se deixou ficar, numa ligação intensa à terra. Lidaram os três autores com variadas fontes, sobretudo do Arquivo Distrital de Setúbal, da imprensa sadina da época e da correspondência entre Peres e Pelayo, o que permitiu corrigir informações que têm sido divulgadas sobre o biografado, assim se revendo os seus aspectos biográficos.
Num texto preocupado com o rigor e com informação exigente, bem anotado, esta viagem pela vida de Garcia Peres não esquece mesmo a recolha de testemunhos sobre a personalidade e o quotidiano do médico alentejano, resultante de uma leitura que permite inclusivo que o biografado se autorretrate, como se pode verificar em duas passagens bem reveladoras do seu sentido de humor e de disponibilidade – ao escrever sobre a sua prática em Alcácer do Sal, referirá: “ali desfalquei a humanidade até 1844”; em correspondência com Menéndez y Pelayo, dirá: “de há muito que seus são todos os meus livros”, numa prova de permuta incondicional que girava em torno das bibliografias entre os dois autores, levada ao extremo, quando numa outra carta o desafia para lhe renovar a assinatura de uma revista espanhola e redigirá numa outra carta um pacto de troca em termos humorísticos – “a respeito de contas creio-as saldadas; saqueemo-nos mutuamente, segundo possamos; eu, pela minha parte, não deixarei de tentá-lo; faça Você o mesmo e veremos depois quem leva a melhor.”
Figura grada no seu tempo, que suscitou admiração e esteve envolvido em marcos importantes para a história sadina, Garcia Peres tem agora o ensaio biográfico que merecia, enriquecido ainda com alguma documentação fotográfica e com uma tábua cronológica. Um documento cheio de interesse e, sobretudo, credível.