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quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Henrique Freire e o romance histórico da fundação do Convento de Jesus (3)



Ao saber do destino conventual de Beatriz (que poderia ser a mulher do seu filho Pedro), após visita ao convento, Álvaro despede-se, como se tivesse cumprido uma missão - “Adeus, mestre Mendo. Selado e brindado tenho o meu ginete, vou-me por aí fora. Deus vos dê felizes dias cá na terra e eterno repouso na bem-aventurança, e se o destino nos não tornar a unir, até ao dia do Juízo Final!” E conclui o narrador: “Despediram-se. De D. Álvaro ninguém mais soube.” Não podemos ler esta passagem sem nos lembrarmos daquele encontro entre as personagens Telmo e D. João de Portugal que Garrett criou para o seu Frei Luís de Sousa, em que o nobre, depois de se certificar sobre a história da família através do fiel escudeiro, entende estar errado no ódio e, despedindo-se, parte, desaparecendo de cena. No caso do garrettiano D. João de Portugal, como no caso do Álvaro Ataíde, de Henrique Freire, ambas as personagens antecipam o seu fim, através de uma morte psicológica, que acontece depois que o mundo se lhes fecha.

Em A Profecia, o espaço medieval da então vila sadina, em finais do século XV, é sempre caracterizado em comparação com a contemporaneidade de Henrique Freire - daí que haja ocasião para louvar a chegada do comboio ou a iluminação a gaz, que estava para breve. Mas, preocupação máxima, para lá da acção narrativa e do desenvolvimento que era sentido na cidade, Freire foca-se na preservação do património, tal como foi propósito da geração de Herculano e Garrett - há diversos momentos em que o desrespeito pela memória (tomando o exemplo da falta de reconhecimento a Bocage, haja em vista que o monumento ao poeta é posterior, de 1871), a falta de conservação dos bens culturais e o uso do camartelo são criticados, desejando que, no futuro, “a mão destruidora do vândalo desta época não se lembre de fazer do seu recinto uma praça de touros” (como acontecera no Convento de S. João, em Setúbal, duas décadas antes). Continuamos a não poder ler estes comentários sem nos lembrarmos do que Garrett ia dizendo no seu circuito por Santarém nas Viagens na minha terra, sempre condenando o despropósito com que o património edificado era deixado ao abandono...

A concluir, um desejo: “Que inteiro ou destruído, esse templo conserve sempre vestígios do antigo poder deste reino; é uma página de pedra do livro das nossas tradições.” E, para que dúvidas não restassem e incorrendo num apelo de consciência cívica, remata: “Eis os sinceros votos que fazemos em prol do Mosteiro de Jesus da cidade de Setúbal que a piedade ergueu há trezentos e setenta anos: praza a Deus nos não façam ainda um dia lançar um brado de reprovação contra os homens sem coração e sem crenças que tem reduzido a ruínas quase todos os monumentos do país.”

Advertência, é verdade, importante para o apelo à intervenção e defesa do património, uma marca que também preocupou os românticos e que foi determinante para a cultura oitocentista. Esta obra de Henrique Freire, partindo de uma profecia cuja autenticidade é discutível, pretendeu ser uma voz de defesa e de promoção da cultura local, eivada de todas as marcas do tempo em que foi escrita, fazendo coabitar figuras da nobreza e populares, exaltando o carácter testemunhal e a responsabilidade dos cidadãos. Uma história que, ao glorificar esta “página de pedra”, é um belo hino em honra do Convento de Jesus!

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 918, 2022-09-14, p. 8.


quarta-feira, 4 de abril de 2018

Para a agenda: "Património Arquitectónico Civil de Setúbal e Azeitão" em seminário


Eis o programa do seminário "Património Arquitectónico Civil de Setúbal e Azeitão", que terá lugar entre 18 e 20 de Abril em Setúbal, com organização da Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA). Um programa rico, a prometer excelentes contributos para a história local e para o conhecimento do património cultural. A não perder! Absolutamente! Exige inscrição.








segunda-feira, 2 de abril de 2018

Para a agenda: Conhecer o Bairro de Troino, em Setúbal



O Centro de Cidadania Activa vai levar os interessados a conhecerem o Bairro de Troino, uma zona da cidade de Setúbal que cresceu fora das muralhas. Património e identidade serão etiquetas fortes nesta acção que lembrará "História e Estórias do Troino" em dois momentos: em 9 de Abril, numa "Conversa sobre o Bairro" (às 16h00); em 13 de Abril, num passeio guiado (às 10h00), a partir da Rua João Eloy do Amaral. Para a agenda!

segunda-feira, 19 de março de 2018

Para a agenda: Dia Nacional dos Centros Históricos mostra patrimónios desaparecidos em Setúbal


O Dia Nacional dos Centros Históricos é pretexto para, em Setúbal, serem descobertos os "patrimónios desaparecidos" através de um percurso pedestre a partir da Fonte do Sapal, na Praça Teófilo Braga, curiosamente uma fonte que não nasceu ali, mas para ali foi deslocada desde a actual Praça de Bocage.
Vai ser no dia 28 de Março e exige inscrição prévia (no Museu de Setúbal), pois há limitação no número de participantes. Para a agenda!

terça-feira, 23 de junho de 2015

Convento de Jesus - Depois da reabertura, a espera pelo futuro



Reportando-se à reabertura do Convento de Jesus, que ocorreu no Sábado, o Público de hoje avança com as declarações quanto ao futuro deste monumento, proferidas por Maria das Dores Meira, presidente da Câmara de Setúbal, e por Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura.
Vinte e três anos depois do encerramento, o Convento abriu e o gesto e a obra são motivo de orgulho. Agora, confiemos na celeridade e na vontade de que  se não tenha de esperar outro tanto tempo. Mostremos que gostamos do nosso património. É único e isso basta para a urgência e para o empenho!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Para a agenda - Sobre arte sacra na diocese de Setúbal



"Com arte e com alma", um título sugestivo para serem debatidos, apresentados, conhecidos os "serões com o nosso património", num itinerário temporal de seis meses, num trajecto geográfico que passou por Alcochete e Cacilhas e que ainda vai visitar Monte da Caparica, Seixal, Barreiro, Setúbal e Palmela. Proposta de valor indiscutível, sob a responsabilidade da Diocese de Setúbal e da sua Comissão Diocesana de Arte Sacra. Para a agenda!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Paulo Castilho, o património, a língua portuguesa, o inglês e o francês

O JL de hoje (Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1101, 12.Dez.2012) , na sua habitual rubrica "Diário", deixa que Paulo Castilho, escritor e diplomata, nos revele alguns dos fragmentos dos seus dias, em registos ocorridos entre 20 de Outubro e 28 de Novembro. Desse diário se retiram as observações que seguem, retrato sentido e verdadeiro da cultura que vamos perdendo e da cultura que nos vai colonizando... Ou a questão linguístico-cultural no centro da discussão, no mesmo momento em que outros dizem que a língua portuguesa significa quase 20 por cento do PIB! Sinais dos tempos, em que tudo se substitui por valores, mais-valias, investimentos, economias, rendimentos... Eis, então, uma mostra das reflexões de Paulo Castilho:

«O património cultural do nosso país, que nasceu há quase 900 anos, está em grande medida votado ao esquecimento e ao desinteresse generalizado, sobretudo quando se trata de literatura. (...) Namora, alguém o lê? Tirando o Eça, alguém lê os escritores do passado? E o Pessoa está transformado em 'celebrity', uma espécie de Paris Hilton das letras lusas, famoso, festejado, mas pouco lido. Quanto à língua,, vivemos na regra do desleixo e do vale tudo - incluindo o acordo ortográfico, que entre muitas outras calamidades, faz tábua rasa da origem latina da nossa língua. Mais um fenómeno de aculturação. É irónico que tenhamos agora de ir a outras línguas, como por exemplo o inglês, que é essencialmente germânico, para encontrar muitas das raízes latinas que deitámos fora nas nossas palavras. (...)
É uma pena que actualmente em Portugal se despreze o francês e já quase ninguém o fale ou leia. Foi e é a língua de uma grande cultura, ainda hoje com um movimento editorial de um enorme vigor, em muitas áreas superior ao inglês. Agora corremos atrás da língua inglesa e de tudo o que tenha um ar de Inglaterra ou de América sem nos darmos conta de quanto nos encontramos longe da mente anglo-saxónica. Não os compreendemos plenamente e eles não nos compreendem a nós e, na verdade, tendem a tratar-nos com alguma condescendência. (...)»

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

No Gerês, o banco do Ramalho Ortigão, por Raul Lino

Um mapa do concelho de Terras de Bouro indica, bem próximo da vila de Gerês, o “Banco de Ramalho Ortigão”. No entanto, na estrada, não há qualquer registo do monumento. Em conversa com um natural, fica-se a saber da localização – no lugar de Assureira, num jardim com ar abandonado, junto de uma rotunda, à esquerda de quem desce do Gerês para Rio Caldo. “Mas olhe que vai encontrar aquilo em mísero estado, ninguém conserva aquilo, tem sido destruído, já partiram parte da obra, mas ainda lá há uma inscrição.”
Aquilo terá sido espaço ajardinado e terá sido cuidado… há muito tempo, embora haja marcas de limpeza florestal recente. O banco lá permanece, com marcas evidentes de vandalismo, já sem a tal inscrição. “Até isso desapareceu há uns tempos… Sei lá se foi por ser em bronze…”, comenta outro local.
Muitas considerações poderiam ser feitas a partir daqui quanto ao estado do património ou quanto à responsabilidade de quem detém os espaços públicos. Aliás, os dois interlocutores confessavam que, desde que aquele espaço passou para a responsabilidade do Parque [Nacional da Peneda Gerês], a degradação do sítio tem sido crescente.
Ramalho Ortigão não se sentou naquele banco. Tendo falecido em 1915, a peça escultórica, com a assinatura de Raul Lino, só seria inaugurada em 1920, por iniciativa da Sociedade de Propaganda de Portugal, para homenagear o escritor. Ramalho Ortigão era visita do Gerês e escreveu sobre aquela região e sobre as suas termas. Amante das caminhadas, conta-se que as fazia longas e, no sítio onde foi implantado o monumental “Banco de Ramalho Ortigão”, costumava ele sentar-se sobre uma pedra, tendo sob o alcance da vista a paisagem do Rio Caldo.
Quanto à inscrição contida na placa, o seu texto contava a história e ainda se consegue ler na net (num blogue) a transcrição: “Em umas toscas pedras que os frequentadores do Gerez chamavam os bancos do Ramalho costumava vir aqui sentar-se lendo e escrevendo o notável escritor José Duarte Ramalho Ortigão que tanto honrou a sua terra e tanto quis a esta região. A Sociedade de Propaganda de Portugal no mesmo lugar mandou levantar-lhe esta singela homenagem delineada pelo arquitecto Raul Lino de Lisboa no ano de 1920”.
Assim, vale a pena que o mapa editado pela Câmara Municipal de Terras de Bouro indique a existência do “Banco de Ramalho Ortigão”, podendo o visitante conhecer uma obra de Raul Lino, manter a memória dessa figura importante da cultura do século XIX que foi Ramalho e… contemplar o que vai havendo de incúria e de menosprezo neste país! Que boa “farpa” estes quotidianos merecem!...

[fotos: Banco do Ramalho Ortigão em postal sem data e na actualidade]

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Património: classificação de 25 bens imóveis no distrito de Setúbal tem um ano

Por Despacho do IGESPAR saído no Diário da República de ontem, até de hoje a um ano devem estar concluídos os procedimentos alusivos à classificação de bens imóveis em curso. No distrito de Setúbal, a lista de tais bens, no total de 25, é a seguinte: a Igreja da Misericórdia de Almada; a Fortaleza da Torre Velha (Caparica); a Igreja de Santa Maria, adro envolvente e edifício dos serviços paroquiais – actual Externato Manuel de Melo (Alto do Seixalinho); a Ermida de Nossa Senhora do Rosário (Gaio – Rosário); a Igreja de São Sebastião ou Igreja da Misericórdia (Canha); a reclassificação do Chafariz D. Maria I (Palmela); a reclassificação do Cine -Teatro São João (Palmela); o Alto Forno da Siderurgia Nacional, incluindo os cowpers, ou regeneradores de calor, a sala de comando, o pote de poeiras e ciclones, a nave de sangria, a rampa dos skips, o alto forno, os silos de matérias-primas e unidade de despoeiramento secundário do gás (Aldeia de Paio Pires); a Fábrica de Pólvora de Vale de Milhaços (Corroios); o Edifício do Centro Distrital de Solidariedade e Segurança Social de Setúbal; as Muralhas, Torres, Portas, Cortinas e Baluartes do Centro Histórico de Setúbal; o Sítio Arqueológico de Abul (Alcácer do Sal); os Fornos Romanos do Pinheiro (Alcácer do Sal); a Ermida de Nossa Senhora do Bom Sucesso (Torrão); a Capela de São João dos Azinhais (Torrão); a Igreja e Convento de São Francisco (Torrão); o Monte da Tumba (Torrão); a Igreja Matriz de Grândola; a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Oliveira, Matriz de Alvalade do Sado (Santiago do Cacém); o Palácio da Carreira (Santiago do Cacém); a Igreja da Misericórdia de Santiago do Cacém; a Igreja Paroquial de Santo André (Santiago do Cacém); a Igreja, Casa de Romeiros e Fonte de Nossa Senhora da Graça (Santiago do Cacém - Santo André); a Ermida de São Bartolomeu (Sines); a Igreja Matriz de São Salvador (Sines).

domingo, 5 de dezembro de 2010

Francisco Moniz Borba põe o Museu de Setúbal em livro

“Pela minha parte, sinto-me feliz por, de algum modo, me ter sido dado contribuir para essa realidade e poder dizer à terra onde nasci: Aqui está o Museu!” Foi com estas palavras que, em Janeiro de 1961, João Botelho Moniz Borba concluiu o seu discurso na inauguração do Museu de Setúbal, velha aspiração local. A partir de 21 de Junho desse ano, este homem, autodidacta em museologia, dirigiu o Museu por um período de quase 17 anos, até ao seu falecimento, em 12 de Dezembro de 1977.
A história surge contada pelo filho deste fundador, Francisco Moniz Borba, na obra recentemente apresentada ao público Museu de Setúbal e o seu fundador João Botelho Moniz Borba (Setúbal: ed. Autor, 2010), álbum que traz para a memória o que foi o Museu de Setúbal durante esse tempo.
O volume, de quase três centenas de páginas, passa por uma biografia de João Borba (de onde não anda arredada a memória do seu autor, como quando lembra que o pai “contava em casa as pequenas descobertas” que ia fazendo), pela apresentação das instalações que o Museu utilizou (minuciosamente pensadas e esquematizadas pelo fundador), pela evocação da actividade do Museu (que, no período entre a sua abertura, em 1961, e 1977 – descontando cinco meses para obras –, teve uma média de 7187 visitantes anuais e uma assinalável diversidade de acções, entre as exposições – em que se contaram artistas como Fernando Santos, Álvaro Perdigão, Celestino Alves, Morgado de Setúbal, Lima de Freitas, entre muitos outros –, os concertos e as conferências), por divulgação de correspondência com João Borba, pela reprodução de quatro textos escritos por João Borba ("Fragmento de vitral da Igreja de Jesus de Setúbal", 1975; "Pequena notícia sobre o Museu de Setúbal e a conservação das suas obras de arte"; "A utilidade das gipsotecas – A gipsoteca do Museu de Setúbal", 1974; "Os sinos medievos da Igreja de Jesus de Setúbal", 1976) e por dados relativos ao património do Museu (incluindo a reprodução fotográfica das fichas individuais de cada peça de pintura religiosa, ourivesaria e gipsoteca, registos meticulosos de João Borba, com as características das obras, referências bibliográficas e história respectiva – proveniência e trânsito por exposições, restauros, etc.)
A obra contém ainda um dvd, em que, além da reprodução das fichas que figuram no livro, divulga o espólio para as áreas da escultura, pintura, desenho e gravura, reproduzindo as respectivas fichas elaboradas por João Borba. De fora ficaram as indicações do suporte livro, apesar de constar o registo da quantidade de items de cada uma das bibliotecas existentes no Museu – arquivo histórico da Misericórdia (1294 volumes), biblioteca Olga Moraes Sarmento (1654 volumes), biblioteca Garcia Perez (4629 volumes), biblioteca Correia da Costa (4264 volumes) e biblioteca do Museu (64 volumes).
A utilidade desta obra não se discute, tão oportuna ela é pelo que traz de volta aos setubalenses e aos estudiosos (haja em vista que o Museu de Setúbal tem, desde há anos, um reduzidíssimo espaço aberto ao público) e pelo contributo que constitui para a memória (seja pelas informações relativas a João Moniz Borba, seja pelos dados alusivos ao Museu, às pessoas que o ergueram e às peças que o constituíam).
Aos setubalenses (e aos visitantes da região) resta esperar que o Museu se reafirme e que a sua menção deixe de ser um eufemismo, ainda que explicado a partir do que (não) tem sido a conservação do Convento de Jesus que o alberga. A propósito, referindo-se à recuperação do Convento de Jesus, na edição do mensário sadino O Sul, de Outubro, o Secretário de Estado da Cultura Elísio Summavielle admitiu que, "dentro de dois a três anos, o monumento esteja utilizável"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Ver o património azulejar religioso em Setúbal

Um olhar sobre os painéis de azulejo que enriquecem as igrejas da região de Setúbal, numa chamada de atenção para esse património, é o que nos apresenta o primeiro volume da obra recentemente editada, Património azulejar religioso de Setúbal e Azeitão (Setúbal: Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, 2009), trabalho devido ao Núcleo do Património da LASA (constituído por António Cunha Bento, Armando Miguel Ferreira, Inês Gato de Pinho, Isabel Peraboa de Deus, Isabel Sousa de Macedo, Maria de Jesus Gonçalves e Ricardo Jorge Ambrósio).
Este trabalho surge na sequência do levantamento fotográfico do património azulejar da região (tendo já sido publicado no ano passado um volume reunindo imagens dos azulejos decorativos de exterior, visíveis nas ruas da mesma região) e nele são apresentadas as peças que constam nas igrejas paroquiais sadinas de Santa Maria da Graça, de São Julião, de São Sebastião e de Nossa Senhora da Anunciada, bem como nas igrejas do Mosteiro de Jesus, do Convento de Brancanes e do Convento da Boa-Hora e na capela do antigo Colégio de São Francisco Xavier. Prometido fica um volume consagrado a idêntico património azeitonense.
O livro assenta na visualização fotográfica sobretudo (cerca de 120 imagens, algumas delas recorrendo ao pormenor), com escassa legenda, ainda que, a anteceder o capítulo de cada edifício, seja feita uma breve resenha histórico-artística da construção. Como intenção máxima deste projecto, fica o propósito de “dar a conhecer o património azulejar religioso existente em Setúbal”, bem como a expressão da necessidade de “contribuir para a sua salvaguarda e preservação”. Um contributo bem válido para o conhecimento do património cultural setubalense!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Convento de Setúbal vai ser requalificado (já não é sem tempo, mas só acredito quando vir...)

«O Convento de Jesus e o espaço envolvente vão ser requalificados no âmbito da candidatura comunitária para financiamento de projectos para a cidade de Setúbal, num investimento que ascende a mais de dez milhões de euros.
As obras previstas estão incluídas na candidatura do Programa de Regeneração Urbana do Centro Histórico de Setúbal, promovida pela câmara municipal, pelo Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico (Igespar) e outras entidades, que incluem a concretização de uma dezena de iniciativas. O projecto de recuperação e requalificação do Convento de Jesus prevê a transformação da ala ocidental do piso superior num espaço para apresentação do núcleo Um Século de Artes Plásticas em Setúbal (1900-2000) dedicado a artistas locais e outros que tenham desenvolvido trabalhos na e para a cidade. Como forma de melhorar as acessibilidades ao convento, alargando as obras a mais artérias do casco antigo, está igualmente prevista a remodelação e nivelamento do Largo de Jesus, através de três planos rampeados. Com esta medida pretende-se atenuar as diferenças, de cerca de três metros de altura, entre a cota superior, relativa aos passeios envolventes, e a cota inferior de acesso à igreja. O projecto de remodelação do Largo de Jesus inclui igualmente intervenções ao nível do mobiliário urbano, da iluminação, da arborização e da substituição dos pavimentos, contribuindo assim para a valorização do convento. Este trabalho de requalificação visa devolver à cidade um espaço público de grandes dimensões e de elevado valor simbólico, o que também constitui um factor de atractividade turística para os visitantes do centro histórico da cidade, num investimento total previsto de 10,2 milhões de euros. (...)»
"Convento de Jesus vai ser requalificado". Público: 01.Abril.2009 (notícia da LUSA)

quinta-feira, 26 de março de 2009

Porque o dia 2 de Abril está a chegar... e porque há um abeto que é um monumento

NA AVENIDA LUÍSA TODI
UM MONUMENTO À IGNORÂNCIA?
Está a chegar mais um 2 de Abril. Se a muitas outras pessoas não admito o direito de o ignorar, muito menos a mim. Dia de Andersen. Dia Internacional do Livro Infantil. A Árvore de Andersen em Setúbal. O seu actualíssimo simbolismo. Não posso ficar indiferente. É o mínimo. O resto é fazer o melhor que ainda puder pela memória setubalense de Andersen e pela divulgação dos melhores livros para as nossas crianças.
Antes de começar a escrever estas linhas fui mais uma vez até à Avenida Luísa Todi, em amena tarde de domingo. Em obras ainda o coreto, um monumento. Património. Ao lado, o abeto que homenageia Hans Christian Andersen, igualmente ou ainda mais, um monumento. Património. Entre o abeto e a rua, um pequeno edifício, com muito bom design. Um novo monumento? E porque não? Só porque a finalidade não é ser utilizado por bandas de música, razão de haver coreto, por pouco utilizado que seja actualmente? É que acho muito bem o design do pequeno edifício. Parabéns ao projectista. O que não consigo compreender é como foi possível fazer do abeto dedicado a Andersen como que um anexo do que parece que será um quiosque-bar. Alguém pode acreditar que um projectista que revela tão bom gosto, implantaria ali e assim o pequeno edifício se tivesse olhado para aquele abeto com olhos de ver e se inteirasse do seu simbolismo? Por mim, não consigo acreditar.
Quando me vieram dizer que estava ali implantado aquele pequeno edifício, não quis acreditar. Devia ser algo de provisório relacionado com o andamento das obras. Tive que ir ver. Senti revolta. Maior, porém, foi o sentimento de vergonha. A revolta pode dar grito. Quem sente vergonha, por regra esconde-se ou pelo menos fica calado. Fiquei. Até que fui interpelado e como se fosse sobretudo a mim que competia gritar o “não pode ser”. O meu maior receio era que o abeto chegasse a desaparecer, ele que já passou por vários acidentes. Deixaram marcas que não sei se e como podem ser reparadas. Felizmente lá está à espera do nosso respeito.
Julgo que sou a pessoa menos indicada para abrir a boca. Até parece que… Um pouco de bom senso dá para compreender. O abeto foi oferecido pelas Autoridades Dinamarquesas a Setúbal e sua Câmara Municipal, não a mim, por mais que tudo tenha partido duma iniciativa minha e não seja preciso esconder que não foi fácil levá-la por diante para que tudo acabasse por acontecer em 28 de Outubro de 1998, com o respeito, brilho e significado que se recorda. Se estou quebrando o silêncio é para evitar confusões. A vergonha é do que vejo, não do que penso.
Insisto em que só vejo a ignorância como desculpa para o que a mim me parece (bem sei que também a outras pessoas) uma manifesta falta de respeito pela memória setubalense de Andersen. Não posso considerar como desprezo ou acinte (é perguntar: a quem?) a implantação daquele pequeno edifício no local em que está. A ignorância terá de ser a justificação, como o é para muito do que tem acontecido. Tanto poder que a ignorância tem e tem tido! No dia em que se comemoraram no Salão Nobre os 150 anos do nascimento de João Vaz ouvi o Professor Doutor Fernando António Baptista Pereira comparar o que aconteceu em Setúbal com o Teatro D. Amélia com o que acontece em Évora com o teatro da mesma época. Ainda hoje lá está, é património da cidade e continua a ser utilizado. Podia ter-se construído o Cine-Teatro Luiza Todi noutro espaço, comentou com a sua autoridade Baptista Pereira.
Se a ignorância tem tanto poder, por que não dedicar-lhe um monumento? Ao poder da ignorância! Faz ou não sentido perguntar se se justifica que o pequeno edifício da Avenida Luísa Todi, implantado ali à sombra de A Árvore de Andersen em Setúbal, seja considerado um bonito monumento à ignorância? Posso perguntar publicamente, sem me admitir entrar em guerras inúteis e sem querer ofender ninguém?
Manuel Medeiros
[Fotos: abeto em memória de Andersen e respectiva lápide evocativa, na Avenida Luísa Todi, em Setúbal]

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Em Azeitão, entre histórias e memórias, no presente

O presente também se faz de memórias e de necessidades. Em Azeitão, foi reabilitado um lavadouro público. E O Setubalense de hoje noticia o facto.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Azulejos de Setúbal e de Azeitão em livro

O mundo dos azulejos da região de Setúbal e Azeitão já tem um guia. Ou, pelo menos, um contributo para a orientação e para a preservação. É uma obra colectiva e intitula-se Património Azulejar de Setúbal e Azeitão (Setúbal: LASA, 2008), apresentado publicamente no passado fim-de-semana.
O trabalho nasceu da constituição de um Núcleo do Património dentro da LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão) e estava protocolado com a Câmara Municipal de Setúbal desde 2000. Nesta edição, são recolhidos espécimes azulejares das duas localidades, existentes no exterior de edifícios, levantamento confinado aos respectivos centros históricos, ainda que, no caso de Setúbal, a área tenha sido alargada ao Bairro Salgado, dada a sua riqueza em azulejos exteriores. O objectivo da obra surge expresso no texto introdutório: “alertar para a beleza e singularidade de um legado artístico que, com a acção do tempo e do Homem, se tem vindo a degradar, sendo substituído de forma gratuita por revestimentos menos nobres, levando ao empobrecimento do tecido edificado setubalense e azeitonense.”
A obra divide-se em cinco partes: “azulejo de padrão” (liso, relevado e de figura avulsa), “frisos e frontões” (decorativos e eclécticos quanto aos motivos), “painéis” (decorativos, simbólicos e comerciais), “registos azulejares” (representações hagiográficas que invocam a protecção ou a bênção) e “placas toponímicas”.
No final das cerca de seis dezenas de páginas, há novamente o apelo para a “necessidade de salvaguarda de valores” identitários que constituem um legado patrimonial como são os azulejos que surgem espalhados por Setúbal e Azeitão, que contam uma história (não apenas social, mas também do gosto) e que permitem um passeio pela história do azulejo de exterior desde o séc. XVIII.
As reproduções constantes na obra surgem localizadas a nível de ruas, mas bem podia haver mais alguma informação quanto à localização, como número de porta ou mapa, de forma a facilitar a procura. Fora este pormenor, a obra reveste-se de toda a utilidade, quer pelo que consegue guardar, quer pelo que revela, uma vez que, quanto a este tipo de património, “tantas vezes olhamos para ele, mas não o vemos”.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Em Setúbal, no "Quartel do 11", reivindicação na parede

O chamado "Quartel do 11", em Setúbal, que, ao tempo em que Bocage ali ingressou, era o "Regimento de Infantaria de Setúbal", está desactivado há anos, tantos quantos a burocracia ou o desinteresse pelo património público têm permitido, tantos quantos os setubalenses têm visto passar sem que o(s) nó(s) tenha(m) sido desenvencilhado(s) por soluções visíveis com interesse local e regional, pelo menos. Por estes dias - não sei quando foi, só hoje vi -, alguém, numa das paredes do "Quartel do 11", numa das zonas mais conhecidas da cidade, entendeu registar a reclamação, um pouco à maneira de outra que há anos correu o país escarrapachada na barragem de Alqueva... isso mesmo: "Aqui só um Centro Cultural, porra!"
Duas preocupações assomam: a da degradação progressiva do património público construído, por um lado; a da necessidade de um espaço para as actividades e organizações culturais partilhadas e participadas, por outro. Duas coisas que, em Setúbal, se sabe muito bem que têm sido sentidas!

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Inacessibilidades em Portugal (e em Setúbal também)

O bissemanário vianense A Aurora do Lima (o segundo mais antigo jornal em publicação em Portugal, logo atrás de O Açoriano Oriental) publica, na sua edição de hoje, um artigo de opinião, assinado por António Costa Viana, sobre as inacessibilidades que vivemos em Portugal (para ler, clicar sobre a imagem). As situações invocadas são semelhantes a outras que já por todos nós passaram. O cronista não incide numa localidade apenas, mas em várias, a provar que a geografia das inacessibilidades é mais vasta do que nos parece. Setúbal está na rota deste cronista, ainda que não refira quando foi que tudo isto aconteceu. Mas, mais importante do que saber as coordenadas dessas inacessibilidades, é perceber que a onda é geral, muitas vezes (quase sempre) para nosso mal... mal de quem visita (porque se pode esgotar uma oportunidade que era única) e mal de quem é visitado (porque pode haver a conotação com o marasmo e com o abandono)!