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sábado, 19 de setembro de 2015

Fernando Pessoa chega de "Expresso"



O semanário Expresso iniciou hoje a distribuição gratuita da colecção “Obra Essencial de Fernando Pessoa” com o volume Mensagem e Outros Poemas, prefaciado por Fernando Pinto do Amaral.
Com edição coordenada por Ivo de Castro, cada uma dos nove volumes da colecção vai ser prefaciado por nome conhecedor da obra pessoana – Richard Zenith, Nuno Júdice, António Feijó, Ana Luísa Amaral, Rita Patrício, Clara Ferreira Alves, Miguel Tamen e Pedro Mexia são as assinaturas que se seguem para os restantes volumes.
Neste título de abertura, Fernando Pinto do Amaral usa o título “A matéria dos sonhos” para o seu prefácio e, depois de contar a história do aparecimento do único livro de Pessoa publicado durante a sua vida, estabelece um paralelo entre Mensagem e Os Lusíadas, sendo que “enquanto Camões nos conta a nossa História, a atitude de Pessoa é a de subentender nos leitores o conhecimento dessa História”. Outra dimensão abordada nesta apresentação relaciona-se com uma linha de leitura que passa pelo poder visionário, pela loucura, responsável por “distorcer ou alterar para sempre as coordenadas da realidade”, a que é cometida a capacidade de inovar, de construir, de dar alma ao mundo. Finalmente, o terceiro vector de leitura apontado é o da actualidade desta obra, assente sobre a realidade que nos rodeia e nos afoga – “Neste Portugal do século XXI, bem comportado e integrado numa Europa esvaziada dessa loucura – Europa essa onde o único valor parece resumir-se ao dinheiro e a alguns cadáveres adiados se ocupam a negociar orçamentos em Bruxelas enquanto milhares de cadáveres não adiados vão desaguando nas praias do Mediterrâneo –, um livro como Mensagem interpela os que não se resignam a essa tranquila mediania, insistindo em procurar outras dimensões onde possam projectar a sua febre de Além – uma febre perigosa ou insensata pelos padrões do senso comum, mas ainda assim uma febre que talvez nos faça alguma falta e de que Fernando Pessoa foi um dos soberanos intérpretes."

Um bom convite para uma boa visita à leitura pessoana!

domingo, 10 de maio de 2015

"Que coisa são as nuvens", de José Tolentino Mendonça



Algumas crónicas (quase uma centena) de José Tolentino Mendonça que viram a luz no Expresso ao longo dos anos de 2013 e de 2014 estão agora ao alcance do leitor sob o título Que coisa são as nuvens (Lisboa: “Expresso”, 2015). Não é experiência nova do autor, uma vez que já em 2010 dera à estampa a colecção O Hipopótamo de Deus e outros textos (Lisboa: Assírio & Alvim), reunião de crónicas saídas nos “media”, entre os quais se contava também o semanário Expresso.
De crónicas não se pode esperar o que vá além de uma reflexão sobre algo do quotidiano; mas das crónicas se pode esperar tudo isso que é a reflexão, uma maneira de olhar o mundo, de o sentir, de nele reparar. O título da colectânea, vindo de uma filme de Pasolini (1967), alberga pensamentos que foram “uma iniciação, mesmo que imprevisível, à arte do espanto”; daí que o título do texto introdutório passe mesmo por essa virtude do olhar reforçada com o verbo “reparar”: “Para quem não tiver reparado”.
As crónicas de Tolentino Mendonça passam por esse espanto com as coisas do mundo e da vida, algo que nos surpreende e cativa, que se constrói sobre a estética, venha ela da escrita ou das outras artes, corra ela desde os sentimentos ou decorra dos acontecimentos, conflitue ela com as nossas  formas de vida ou abra-nos caminhos de descoberta.
Tanto é merecedor da crónica o bolo de bolacha como o bolo de arroz ou o chocolate, os prazeres experimentados como as descobertas, o sentido poético como as grandes obras. E o leitor vai saltando de Eugénio de Andrade para Ana Teresa Pereira, pensando sobre a morte ou sobre a poesia ou sobre os avós, entrando na pedagogia de Ruben Alves ou no fascínio de El Greco, convivendo com Van Gogh ou com José Saramago, ouvindo Rosenzweig ou Cesariny, pensando com Sophia ou com Simone Weil (dois dos nomes que emergem com mais frequência).
Estes pensares de Tolentino Mendonça vão ao encontro de formas de ser e de viver o mundo e a vida, congregando a espiritualidade inerente a cada gesto ou a cada momento, convidando a entradas por reflexões de outros, povoadas por citações exemplares do lido e do conhecido como se fossem ingrediente ou condimento. São textos curtos, que não vão além das duas páginas mas que nos deixam à porta das descobertas, no limiar do que é “reparar”, lá onde as nuvens mostram as suas diferenças e as suas consistências.
Uma boa iniciativa do Expresso, numa luta contra a efemeridade, em prol de momentos de encontro do leitor com o pensamento e com o mundo!

Sublinhados
Abraço – “Um abraço é uma hipótese de equilíbrio que a hospitalidade dos corpos é chamada a inventar. Qualquer abraço começará por ser uma coreografia instável. Se calhar, a primeira forma do abraço é só um agarrar-se para não cair. Pouco a pouco, o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou e surge como um lugar novo, um lugar que não existia no mundo e que juntos encontramos.”
Acabar – “O momento de viragem acontece quando olhamos de outra forma para o inacabado, não apenas como indicador ou sintoma de carência, mas condição irrecusável do próprio ser. Ser é habitar, em criativa continuação, o seu próprio inacabado e o do mundo. O inacabado liga-se, é verdade, com o vocabulário da vulnerabilidade, mas também com a experiência de reversibilidade e de reciprocidade.”
Amigo – “A banalização da palavra amigo produz uma incapacidade de compreender (e de viver) amizades verdadeiras.”
Arte – “Há três dimensões fundamentais (e esquecidas) na arte, companhia que importa recordar: a gratuidade, a aceitação e a capacidade de partilhar o silêncio.”
Casa – “As casas são uma máquina de habitar e desempenham um papel chave na construção da nossa experiência humana. Mas todas as casas falam, pela presença ou pela ausência, de outra coisa que está para lá delas. Falam disso que um humano é, matéria ao mesmo tempo sucinta e imensa, de fazer espanto. Falam do conhecimento que só é verdadeiro se alojar em si a consciência do que ignora hoje e ignorará até ao fim. Falam da luta pela sobrevivência, com a sua rudeza, a sua dor e tumulto, mas também da excedência que experimentamos, porque se a vida não transbordar não é vida. Falam da intimidade, aquém e além da pele. Falam do silêncio e da palavra, que umas vezes se contradizem e outras não. Falam do cumprido e do adiado, do sono e da vigília, do fraterno e do oposto, da ferida e do júbilo, da vida e da morte.”
Desgraça (íntima) – “A nossa cabeça de pessoas crescidas é complicada. Descobrimos que há um prazer em listar achaques e traições, e se a minha chaga puder ser maior do que a tua tanto melhor, isso reforça o meu estatuto. A verdade é que, se não tomarmos atenção, a desgraça íntima torna-se um escanzelado pódio onde nos blindamos.”
Dinheiro – “O dinheiro não se fica a orientar apenas o ordenamento material da vida comum, mas contamina indelevelmente a dimensão imaterial da vida, as suas aspirações mais profundas. (…) Quer dizer, passou a ser um poderio, pois actua por si mesmo, detendo uma autonomia que só conhece como lei a sua. O dinheiro só tem respeito pelo dinheiro: nas relações que estabelece, tudo se compra e se vende, e é nessa espécie de delírio totalitário que ele prefere viver.”
Futuro – “Embora nos pese toda a indefinição ou os maus prognósticos, conservamos em relação ao futuro uma expectativa que nunca é completamente fechada. Quem sabe? – insistimos nós.”
Lentidão – “A lentidão ensaia uma fuga ao quadriculado; ousa transcender o meramente funcional e utilitário; escolhe mais vezes conviver com a vida silenciosa; anota os pequenos tráficos de sentido, as trocas de sabor e as suas fascinantes minúcias, o manuseamento diversificado e tão íntimo que pode ter luz.”
Passado – “O passado é, em grande medida, um tempo confortável, mesmo quando nos esmaga. Provoca-nos o alívio, (…) está num lugar certo, mesmo se nos espaventa de tão completamente errado.”
Presente – “Do presente, da pressão do presente, da sua irrefutável factualidade, desatamos facilmente a escapar.”
Reparar – “Reparar introuz-nos por si só numa lentidão, porque aquilo a que alude não é um observar qualquer: é um ver parado, um revisar porventura mais minucioso do que o mero relance; é uma visão segunda, uma nova oportunidade concedida não apenas ao objecto, nem sequer apenas ao olhar, mas à própria visibilidade. [Reparar] põe também em prática uma reparação, um processo de restauro, de resgate, de justiça. Como se a quantidade de meios-olhares e sobrevoos que dedicamos às coisas fosse lesivo dessa ética que permanece em expectativa no encontro com cada olhar. Por isso, de certa forma, só quando reparamos começamos a ver.”
Saber – “Reconhecer que ‘não se sabe’ pode trazer desconforto, mas traz também saúde interior e criatividade.”
Silêncio – “Aquilo a que chamamos silêncio só se torna real e efectivo através de um processo de despojamento interior, e de nenhuma outra maneira.”
Simplicidade – “Nada nos pede mais trabalho e arte do que a simplicidade.”
Vida – “A vida é completamente artesanal. Não é possível reproduzi-la em série, nem encontra-la feita noutro lado. A vida requer a paciência do oleiro, que, para fazer um vaso que o satisfaça, faz duzentos só a treinar o gosto, a habilidade, a testar a sua ideia.”
Vida – “Privamo-nos a nós próprios do tempo necessário para colher o sabor, o silêncio ou as cintilações que temperam a vida. No atropelo ofegante a que nos entregamos há um crescente alheamento de nós próprios. Não lhe damos o estatuto de patologia, mas esta desertificação da vida interior disfarçada de eficácia o que é senão isso? As nossas sociedades medem infelizmente o seu progresso esquecendo, quando não obliterando, domínios da vida humana que não são mensuráveis e que têm a ver com a interioridade, a criação, o dom, a alegria, o sentido.”

sábado, 17 de janeiro de 2015

Máximas em mínimas - Anselmo Borges




Três recomendações numa citação de Anselmo Borges, todas sobre a vida, sobre um programa de vida. Uma resposta à pergunta "Se tivesse que passar apenas uma mensagem curta a cada homem e mulher, qual seria?", que integra o questionário dirigido por Inês Maria Meneses a este teólogo, padre, filósofo e autor de várias obras, publicado na revista do Expresso de hoje.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (6)



Dois falantes de língua portuguesa, uma de Portugal e outro do Brasil, entram no último lote de dez entrevistados que constituem o derradeiro volume de Grandes Entrevistas da História, abrangendo o período de 2007 a 2014 – Paula Rego (Eunice Goes, Expresso, 15-09-2007) e Chico Buarque (Ana Cristina Leonardo, Expresso, 08-08-2009). Os restantes entrevistados são: Stephen Hawking (Xavi Ayén, La Vanguardia, 25-09-2008), Ferran Adrià (Cristina Jolonch, Magazine, 21-02-2010), Bernard Madoff (Steve Fishman, New York Magazine, 27-02-2011), Mikhail Gorbatchov (Jonathan Steele, The Guardian, 16-08-2011), Barack Obama (Susan Page, USA Today, 03-09-2012), Salman Rushdie (Clara Ferreira Alves, Expresso, 22-09-2012), Tim Berners-Lee (Paul Sagan, projecto Riptide da Nieman Foundation for Journalism, da Universidade de Harvard, Abril de 2003) e Mark Zuckerberg (Farhad Manjoo, The New York Times, 16-04-2014).
A conversa com Paula Rego mostra o apego da artista a marcas de um Portugal rural – “gosto da estética das feiras, das festas, do bobo da festa, e das pessoas que lá trabalhavam” –, justificando a sua preferência pela figura feminina “por causa dos fatos, das cinturas” e porque “há mais cumplicidade”, e assumindo a situação de compromisso cívico que os seus quadros têm, através de evidentes marcas contra a injustiça e retratando as relações de poder. A entrevista com Chico Buarque debruça-se também sobre a arte, a literatura, e surge a propósito da edição do seu livro Leite derramado (2007). Mesmo dizendo que não é escritor, Chico Buarque consegue entender a literatura como uma construção, aspecto muito mais interessante do que a história que é contada – “eu, na verdade, o que menos me atrai na escrita de um romance é a história. Me interessa mais trabalhar com a forma, a forma de contar aquela história. A história em si não é nada, muitas vezes não é nada.” No entanto, a sua vertente de leitor e de construtor de histórias leva-o a que se apaixone por uma das suas personagens, o velho Eulálio, porque a conversa de velhos tem sempre uma “memória selectiva, as fugas, as tergiversações, mesmo aquelas mentirinhas ou lapsos de memória, coisas que voltam não exactamente como eram..”
De outras três áreas da cultura são os entrevistados Stephen Hawking, Ferran Adrià e Salman Rushdie. O físico que fala através do computador (“à razão de uma palavra por minuto”) paira numa entrevista, para nós curta, mas longa para ele, atendendo às suas condições físicas. Aí, glorifica a ciência e conjuga-a com Deus (“Se quisermos podemos chamar Deus às leis científicas, mas estas não são um Deus pessoal que podemos interpelar”), ao mesmo tempo que não se põe de lado em relação à política e que relança o seu permanente desafio à descoberta. Ferran Adrià, o cozinheiro catalão, que “está para a culinária como Steve Jobs está para a tecnologia” (no dizer do organizador do volume), surge-nos através de uma peça que mais se aproxima do género reportagem, com o objectivo de ser traçado o retrato do homem que esteve à frente do restaurante madrileno “El Bulli”. O texto é baseado em conversas com o próprio retratado e com amigos e familiares, o que o distancia do género entrevista, que originou esta obra. Fica, porém, a partilha de aprendizagens importantes, como aquela que o levou a descobrir que, “no âmbito profissional, mesmo que nos esforcemos, não somos o que pensamos ser, mas sim o que os outros pensam que somos.” Salman Rushdie, o escritor que teve um longo período de vida clandestina por razões de sobrevivência e por causa da obra Versículos satânicos (1988), é entrevistado a propósito de uma obra autobiográfica em que relata esse tempo de clandestinidade a que foi obrigado pelo fundamentalismo. Ressaltam as convicções, o papel da escrita, o valor das amizades, a tristeza pelos que viram costas, mas salva-se o escritor – “Sou o mesmo escritor. Uma vitória.”
O domínio da política encontra dois nomes representativos do que foi a alteração das relações políticas no mundo no início do século que vivemos – Mikhail Gorbatchov e Barack Obama. O político russo estará para sempre associado à “perestroika” e apresenta-se numa entrevista que está entre o balanço, alguma paz de espírito e relativa amargura. Reconhece erros cometidos (não se ter demitido do Partido Comunista e ter criado um partido reformista democrático, não ter começado mais cedo a reforma da URSS e não ter dado mais poderes às quinze repúblicas, não ter afastado através da diplomacia Ieltsin da cena política). Na sua visão, surge a crença na reforma da China, bem como a rejeição dos métodos de Putin, designadamente a mudança no sistema eleitoral. Gorbatchov mantém o espírito de família e as marcas de proximidade, não escondendo o seu afecto por Raisa, a mulher (já falecida na altura da entrevista), que gostava de o ouvir cantar. Uma entrevista que é também um pouco das memórias de um homem que contribuiu para que o mundo fosse diferente… Do ocidente chega a entrevista com Barack Obama, conhecido como o primeiro negro que chegou à presidência dos Estados Unidos, feita na altura em que ele era candidato à reeleição. Obama, já não com a força do “yes, we can”, demonstra as dificuldades, entre um mundo em convulsão, o apego à família (as filhas “são um grande antídoto para evitar que me leve demasiado a sério”), e respeito pelo adversário e as aprendizagens da política, ainda que aparentemente simples, como perceber “a necessidade de se preocupar mais em convencer as pessoas do país inteiro sobre as medidas que quer tomar, do que os membros do Congresso na outra ponta da Pennsylvania Avenue”.
O mundo das tecnologias ligadas ao poder da informática aparece representado pelos nomes Tim Berners-Lee e Mark Zuckerberg, criadores da web e do facebook, respectivamente. Berners-Lee relembra a motivação que o levou a pensar na necessidade de criar um “hiperespaço aberto” e conclui com uma mensagem forte: as tecnologias deverão permitir resolver problemas “sem cortar tantas árvores para obter madeira e fabricar papel”, uma lição para os tempos de burocracia em que, além de os documentos existirem virtualmente (o que parecia que iria acontecer na sequência do uso generalizado dos computadores), vai havendo orientações em muitos serviços no sentido de os mesmos serem impressos… numa duplicação absolutamente acrónica. Zuckerberg, o criador da “maior nação digital da internet”, é entrevistado com o objectivo de ser questionada a capacidade de a empresa criar novos produtos, sabendo-se que alguns deles não têm tido o sucesso esperado. A conversa liga-se também à discussão do privado e do anonimato em termos de comunicação, acreditando o entrevistado que, de uma forma ou de outra… se visa criar laços. Boas intenções!...
Bernard Madoff, o nome que surge fortemente associado aos tempos de crise que vivemos, um género de “dona Branca” gigante, é entrevistado a partir da prisão, numa peça que é reconstituída sobre conversas telefónicas várias de Madoff para o jornalista, ainda que todas elas pagas no destino. Há ainda os testemunhos de familiares do preso e, por vezes, os desabafos veiculados por amigos, que confidenciaram os sentimentos dos filhos de Madoff. A entrevista é o retrato de um “arrependido”, que, explicando-se, tem dúvidas em aceitar-se, como se vê logo pela abertura da peça jornalística, que reproduz o entrevistado em discurso directo: “Como é que fui capaz de fazer o que fiz? Estava a ganhar muito dinheiro. Não precisava de o ter feito.”
Grandes Entrevistas da História, obra editada pelo semanário Expresso, conclui com este volume o lote de setenta conversas com outros tantos entrevistados, havidas num período entre 1865 e 2014. Todos os nomes que por estas páginas passaram tiveram (têm) o seu papel no mundo que conhecemos, uns associados ao bem, outros nem por isso, dependendo esta categorização da nossa margem de simpatias. São estes setenta como poderiam ser outros, mas as nossas curiosidades alimentam-se disto: a vontade de percebermos como os protagonistas do nosso tempo chegaram aos limites que chegaram e em nome de quê. Se nem tudo é dito nas entrevistas, ficam-nos, pelo menos, os retratos dos heróis sobre os momentos em que foram considerados determinantes, porque a História é feita desses mesmos momentos. E a História, podemos antologiá-la ou contá-la, mas não a podemos prever…

Sublinhados

Existência – “Não existe maior emoção do que a da descoberta, a de procurar incessantemente as respostas às nossas perguntas mais importantes: quem somos? De onde viemos?” [Stephen Hawking. Entrevista a Xavi Ayén, em La Vanguardia (25-09-2008). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 21]
Perguntas – “As perguntas hipotéticas não servem de muito.” [Mikhail Gorbatchov. Entrevista a Jonathan Steele, em The Guardian (16-08-2011). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 79]
Medo – “O medo faz as pessoas fazer coisas más.” [Salman Rushdie. Entrevista a Clara Ferreira Alves, em Expresso (22-09-2012). Grandes Entrevistas da História 2007-2014. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 104]

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (5)



Entrevistas realizadas na última década do século XX e no primeiro lustro do século XXI constituem o sexto volume de Grandes Entrevistas da História, que o semanário Expresso está a publicar, sendo protagonistas desta série: José Saramago (Clara Ferreira Alves, Expresso, 02-11-1991), João Havelange (Andrés Mercé Varela, La Vanguardia, 17-04-1994), António de Spínola (José Pedro Castanheira, Expresso, 30-04-1994), Osama Bin Laden (Robert Fisk, The Independent, 22-03-1997), Michael Jackson (Edna Gundersen, USA Today, 14-12-2001), Gilberto Gil (Joaquim Ibarz, La Vanguardia, 05-01-2003), Hugh Hefner (Lluís Amiguet, Magazine, 13-04-2003), Bansky (Simon Hattnestone, The Guardian, 17-07-2003), Dalai Lama (Luke Harding, The Guardian, 05-09-2003) e Tony Blair (Jeremy Webb, New Scientist, 01-11-2006).
A entrevista de José Saramago tem como pretexto a publicação do seu romance (que gerou polémica) O Evangelho segundo Jesus Cristo e serve para o autor falar de cristianismo, de comunismo, de ideologia e da história do mundo. Na conversa, Saramago explica-se: “A tese escondida é a de que eu digo, em primeiro lugar, que o cristianismo não valeu a pena; e em segundo, que se não tivesse havido cristianismo, se tivéssemos continuado com os velhos deuses, não seríamos muito diferentes daquilo que somos”. Se se justifica quanto ao livro e quanto às ideias feitas sobre a religião, também se afirma relativamente ao Partido Comunista e à ideologia – “a União Soviética não é nem nunca foi, para mim, uma referência política ou ideológica”, chegando a afirmar que sairá do partido “se um dia se sentir mal”. A questão da sua escrita no que se relaciona com a dimensão histórica, do tempo, também lhe merece aprofundamento: “Agrada-me pensar que o tempo não é essa diacronia, essa sucessão de momentos, agrada-me pensar no tempo como uma espécie de imensa tela onde se projectam e se fixam os acontecimentos.”
O outro português sentado nesta mesa das entrevistas é António Spínola, o homem que povoou as primeiras páginas dos jornais durante muito tempo, sobretudo a propósito dos acontecimentos decorrentes  do 25 de Abril de 1974. É uma entrevista de memórias quanto ao que se passara anos antes, oscilando entre a dedicação ao 25 de Abril e um certo ajuste de contas com políticos e sectores, como o MFA (Movimento das Forças Armadas) e o PCP. Nem tudo é pormenorizado ao ponto de o leitor poder avaliar as posições. Certo é que o militar se sobrepõe ao político. Não escondendo a razão de ser do monóculo (algo que usava por tradição recebida dos oficiais de cavalaria), explica-se quanto ao que viveu na Guiné e quanto à emergência que era a independência daquele território. Personalidades como Costa Gomes, Rosa Coutinho ou Vasco Gonçalves não são poupadas e, na história política que viveu, não esqueceu a parte do MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal). Ao seleccionar o seu maior sucesso político, optou: “ter colaborado abertamente nos objectivos previstos no 25 de Abril, que, em última análise, se resumiram à restituição da liberdade e da democracia ao povo português”. E quanto ao sucesso militar, destaca, a fechar a entrevista: “ter participado como voluntário na Guerra do Ultramar, onde tive o privilégio de correr riscos ao lado dos nossos extraordinários soldados, lídimos representantes do ancestral patriotismo do povo português”.
Do Brasil, foram convocados também dois nomes: primeiro, o de João Havelange, fluminense que presidiu à FIFA (Federação Internacional de Futebol Associado) entre 1974 e 1998, numa conversa que passa pelo vasto mundo do futebol a nível mundial, com ideias sobre inovações, com responsabilidades, tocando, entre outros, os problemas da massificação e da arbitragem. A fechar o encontro, Havelange refere: “penso no futebol, que é a grande paixão do mundo actual, e tento dar o equilíbrio para que esta paixão seja um elemento civilizador da nossa sociedade”. O outro entrevistado é Gilberto Gil, músico e político do governo de Lula da Silva (em que interveio como Ministro da Cultura), em conversa tida com o jornalista no dia em que tomou posse no cargo. A conversa ficará marcada por esse momento, uma vez que o tema foi a política cultural a implementar, com destaque para o fomento da criatividade, uma vez que “a política cultural não pode deixar todos os seus trunfos à mercê de ventos, sabores e caprichos do deus Mercado”.
Da área da política aparecem mais três nomes: Dalai Lama, Tony Blair e Osama Bin Laden. Quanto ao primeiro, o décimo-quarto Dalai Lama do Tibete, um monarca que perdeu o reino por imposição do governo chinês, deixa uma entrevista pincelada pela amargura do exílio forçado e pela dúvida quanto ao futuro no que toca ao sucessor. Apesar destes traços, o discurso é apaziguador – “a melhor solução para um problema consegue-se através do diálogo”. No caso de Tony Blair, a conversa, atendendo à publicação que a reproduziu, toca um tema candente como seja a ligação da política com a ciência, defendendo Blair a necessidade de a política britânica ter de considerar “a ciência tão importante como a estabilidade económica”, assim como a urgência de académicos e empresários irem à escola com o objectivo de despertarem “entusiasmo nos alunos, não só pelas descobertas científicas, mas também pela infinidade de oportunidades laborais” existentes na área. O tema vinha a propósito de acontecimentos ocorridos no tempo da governação de Blair – a clonagem, as culturas transgénicas e as recusas por parte da população na administração de algumas vacinas. O terceiro entrevistado, Bin Laden, faz girar a conversa em torno da guerra santa contra os Estados Unidos, quase único inimigo, bem como a dose de ameaças relativamente à América, que o entrevistador não sublinhou convenientemente, só a tendo valorizado após o 11 de Setembro. A peça jornalística, cujo autor chegou três vezes à fala com Bin Laden, oscila entre os géneros entrevista e reportagem, já que também narra, com algum pormenor, a viagem ao encontro do dirigente fundamentalista.
Do mundo do espectáculo e da arte são os outros três entrevistados: Michael Jackson, Hugh Hefner e Bansky. O encontro com Jackson resulta numa entrevista fortemente condicionada, já que a conversa teve a presença de assessores do artista, que impediram que algumas perguntas fossem feitas ou desviaram a atenção das respostas, sobretudo quando relacionadas com a vida privada do artista ou com os escândalos que o acompanharam. Jackson aceitou apenas falar de música, de “show”, ainda que se deslumbre a falar dos filhos e que tenha confessado ter tido uma infância perdida. A razão de entrevista tão condicionada é exposta por Jackson: “se aceitasse entrar na esfera pessoal, seria o único assunto de que as pessoas falariam”. Assim, forte é a paixão pela música e pelo reviver de alguns momentos em palco e com os seus fãs. Hugh Hefner surge entrevistado sem ser para a publicação que fundou e com que alcançou fama e sucesso, apesar de o pretexto da entrevista serem os 50 anos sobre a fundação dessa revista, a Playboy. Assim, o diálogo versa sobre as vitórias e dificuldades do projecto, visando uma nova ideia do homem moderno, em muito criado e vivido na própria personalidade do fundador Hefner. Com o ar mais solene, o entrevistado comenta: “Sempre disse que a Playboy não é uma revista de sexo, mas sim uma publicação sobre estilos de vida que dedica especial atenção ao sexo, porque o sexo é uma parte importante da vida”. E uma curiosidade: a revelação de que o primeiro número da publicação não teve data registada porque, por razões económicas, não havia a certeza de vir a ser feito um segundo número…
O último entrevistado deste lote é Banksy, o artista de paredes que ninguém identifica. Sem fotografia, Banksy ajuda a construir o seu próprio anonimato, tomando posições contra marcas e códigos, comprazendo-se com o viver no fio da navalha para não ser descoberto. Com orgulho, afirma: “a lista dos trabalhos que recusei é muito mais extensa do que a dos trabalhos que fiz. É como um currículo ao contrário, é estranho.” Depois, é o desenrolar de histórias sobre os desenhos em paredes, seguindo o princípio do graffiti quanto à efemeridade, mas com a eficácia da crítica e do fazer pensar, porque “a graça está em dedicar menos tempo a fazer o desenho do que as pessoas a observá-lo”.
Tempos de crise, de mudanças, de reflexão sobre o tempo e a forma de se estar constituem esta dezena de entrevistas, que acentua a quantidade de questões que o século XXI tem ainda para resolver, se é que essa vai ser uma preocupação…

Sublinhados
Música – “A música é um mantra que alivia a alma. É terapêutica. É algo necessário para o corpo, como o alimento. É muito importante compreender o poder da música. Seja onde for, num elevador ou numa loja, a música influencia a forma de comprar ou a forma como tratamos a pessoa que temos a nosso lado.” [Michael Jackson. Entrevista a Edna Gundersen, em USA Today (14.Dezembro.2001). Grandes Entrevistas da História 1991-2006. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 70]

Religião – “As religiões tanto servem para sobreviver às perseguições como para fazer perseguições, e os perseguidos vão por seu turno refugiar-se noutra religião que fará outros perseguidos.” [José Saramago. Entrevista a Clara Ferreira Alves, em Expresso (02.Novembro.1991). Grandes Entrevistas da História 1991-2006. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 17]

[Com a próxima edição do Expresso, o último volume da série, o nº 7]


sábado, 6 de dezembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (4)



As dez personagens reveladas no quinto volume de Grandes Entrevistas da História (em publicação a cargo do semanário Expresso), que abrange o espaço temporal entre 1971 e 1990, são: Margaret Thatcher (Terry Coleman, The Guardian, 02-11-1971), Stanley Kubrick (Gene Siskel, Chicago Tribune, 13-02-1972), Yasser Arafat (Oriana Fallaci, Intervista con la Storia, 1974), Álvaro Cunhal (Oriana Fallaci, L’Europeo, 06-06-1975), Amália Rodrigues (Miguel Esteves Cardoso, Se7e, 24-11-1982), Pablo Escobar (Yolanda Ruiz, RCN Radio, 1988), Steve Jobs (Bob Burlingham e George Gendron, Inc., 04-1989), Jack Nicholson (Gene Siskel, Chicago Tribune, 12-08-1990), Luciano Pavarotti (Màrius Carol, Magazine, 02-09-1990) e Ayrton Senna (Gerald Donaldson, McLaren, 09-1990).
Na entrevista com Amália, além de surpreender o tom de abertura e de rapidez com que a conversa se desenrola, é ainda de enaltecer o formato de texto devido a Miguel Esteves Cardoso, perguntas e respostas segmentadas em dez partes, cada uma delas tendo como título um mandamento, resultante do conteúdo e da dose de revelação que surge nas respectivas respostas. Uma estratégia coerente, pois que o jornalista se metaforiza em profeta, logo no início do texto: “A partir de hoje, podem chamar-me Moisés. Subi à montanha de São Bento e a Deusa falou-me e transmitiu-me os seus Mandamentos. Agora esculpo-os numa pedra. Numa pedrada de divindade e de Fado.” A entrevistada surge em diálogo com as marcas que já lhe eram habituais, sem certezas, mas num tom pessoal expressivo. Cantora ou fadista? “Nem uma coisa nem outra. Não sei se sou fadista, se não sou. Era pequenina e cantava. Um dia disseram-me que aquilo era fado. Disseram-me que era fado… mas eu não faço questão.” Falará das músicas, de trivialidades, de histórias, da simbologia que lhe foi atribuída, de poemas e do que de si ficará para a memória: “Sim, vai em mim essa pieguice, de querer continuar nas pessoas. A coisa mais bonita que podem dizer de mim, depois de morta, seria ‘Coitadinha da Amália, já morreu…’! ‘Tadinho’ é uma das palavras mais portuguesas, gosto muito dela. Tenho essa pieguice porque sei que, depois de morrer, o universo acaba comigo.” E, no final, um humor brilhante: Esteves Cardoso quer inverter os papéis e, em vez de lhe pedir uma mensagem final: “A senhora quer fazer a última pergunta?” Resposta imediata, certeira: “Obrigada, mas não pergunto nada, com medo das respostas.”
O outro português entrevistado nesta obra, Álvaro Cunhal, deve a sua entrada ao trabalho da jornalista italiana Oriana Fallaci. É uma entrevista dura porque Fallaci assume contestar muitas afirmações de Cunhal, que profere afirmações polémicas do ponto de vista político (que, aliás, mereceram muitas reservas em várias latitudes, depois de conhecida a publicação) e mantém um secretismo assumido quanto à sua vida pessoal. A entrevista tem uma longa introdução, que a autora preparou para a integrar no seu livro Intervista com la Storia, em que o político português é retratado e biografado, numa tentativa de explicação da personagem, chegando Fallaci a interpretar o silêncio sobre o privado como o “gosto pelo mistério [que] surgiu em consequência do seu passado como conspirador e, também, da tal renúncia que é tão típica de alguns comunistas”. Cunhal mostrou convicções que, lidas hoje, acentuam as marcas epocais no vocabulário usado – “nós, comunistas, não aceitamos o jogo das eleições”, já que elas “pouco ou nada têm a ver com a dinâmica revolucionária”; “garanto-lhe que em Portugal não haverá um Parlamento”; “Portugal já não tem qualquer hipótese de estabelecer uma democracia ao estilo das que vocês têm na Europa ocidental”; “o 25 de Abril não foi um golpe (…) foi um movimento de forças democráticas no seio do Exército”; “Portugal não será um país com as liberdades democráticas e os monopólios, não será companheiro de viagem das vossas democracias burguesas”. Assumiu a sua concordância com a intervenção soviética na Checoslováquia, a frontalidade com que respondeu ao embaixador americano sobre a permanência de Portugal na NATO, dizendo-lhe: “por agora, não queremos discutir esse problema”. Em vários momentos, a conversa mais parece um jogo de fuga: Fallaci quer saber de onde veio Cunhal quando chegou a Portugal em 1974 e a resposta mostra-se evasiva  –  “Não lhe digo onde estava. Vocês, os jornalistas, gostam tanto do  mistério como nós, os comunistas”; noutro passo, a jornalista insiste com a ideia do “imperialismo soviético” e a refutação surge sob a forma de alteração das regras – “Um dia hei-de entrevistá-la a si acerca do imperialismo soviético”.
De Oriana Fallaci é ainda a entrevista com Arafat, outro encontro em que as respostas constituem um enigma sobre a personagem. Uma parte significativa do texto, no início é a reconstituição possível da história do líder palestiniano nascido egípcio, que, na conversa, rejeitas várias vezes responder a perguntas sobre a sua vida pessoal e centra o discurso num jogo em que foge, frequentemente, ao que lhe é perguntado, mais interessado na luta contra Israel – “só agora começámos a preparar-nos para o que será uma longa, longuíssima guerra, uma guerra destinada a prolongar-se por gerações”; “deve perguntar até onde poderão resistir os israelitas, porque não pararemos até ao dia em que possamos regressar a casa e tenhamos destruído Israel”. A própria jornalista é vista como uma representante dos adversários e é desafiada – “Se têm assim tanto interesse em dar uma pátria aos judeus, dêem-lhes a vossa. Há muita terra na Europa, na América.” E termina o diálogo com uma quase confissão: “Nunca encontrei a mulher certa. E agora não é o momento. Casei-me com uma mulher chamada Palestina.”
O universo da política tem ainda encontro com Margaret Thatcher, numa entrevista dominada pelos acontecimentos do momento, a do leite nas escolas, apoio cortado pelo governo, e pela imagem que da governante se faria. Ressalta uma figura enérgica, contrapondo às marcas negativas do seu retrato as decisões tomadas em prol das melhorias, às questões mais problemáticas uma explicação que finda com a pergunta “não é?”, ao mundo das dificuldades o seu próprio percurso, aos comentários dos adversários uma certeza – “os insultos dizem mais sobre quem os profere do que sobre quem é alvo deles, não é?”
Pretendendo ter intervenção política, sobretudo pelo condicionamento que fez nessa área, surge Pablo Escobar, o colombiano que associou o seu país ao narcotráfico, com um discurso que, conjugado com o que se sabia e se veio a saber sobre o entrevistado, configura situações de vitimização, de paradoxo, de representação, de discurso para tratar a imagem perante o seu país e o estrangeiro – “sou uma pessoa que respeita muito as ideias alheias”; “sempre estivemos abertos ao diálogo e pessoalmente considero que a falta de diálogo é a causa principal da violência no país”; “existe uma preocupação com o consumo de drogas”; “as drogas vieram para ficar”; “todas as pessoas acusadas publicamente de pertencer ao narcotráfico são, na verdade, as únicas pessoas que investem no país, isto é, as únicas que dão trabalho ao povo da Colômbia”.
Do mundo do cinema, o encontro é com um realizador, Kubrick, numa entrevista curta que toma como referência o filme Laranja Mecânica e a opinião sobre política e ambiente social, sempre na perspectiva de que a autoridade pode levar à repressão. O outro entrevistado é Nicholson, o actor que demonstra uma forma sadia de lidar com a fama e com o sofrimento (real, por razões familiares), bem como com a felicidade (na ternura com que fala da filha bebé que lhe nascera aos 53 anos, por altura da entrevista) ou com a opção de viver sozinho. Ainda do mundo do espectáculo é Pavarotti, o tenor que trouxe a música clássica para os estádios, falando dos seus prazeres, da sua música e da sua pintura, revelando-se sempre um imperfeito, um trabalhador incansável a lidar com os seus dotes, um “superperfeccionista” – “acho sempre que tudo aquilo que faço, por muito bem que esteja, pode sempre ser melhorado”.
A entrevista com Ayrton Senna é um encontro com um homem do risco e das manobras arriscadas. Senna é apresentado como um tímido muito por responsabilidade do próprio autor da entrevista, que reproduz toda a conversa em discurso indirecto, só dando a palavra ao entrevistado no final, numa mensagem. Apresentado com grande dose de humanismo e de carinho pelos seus fãs, Senna mostra-se em reflexão, oscilando entre o risco e uma maneira própria de lidar com a fama. No final do encontro, comove-se e fala dos artistas enquanto símbolo: “Em muitos aspectos, não somos uma realidade para as pessoas, mas um sonho. É uma coisa que nos fica gravada no pensamento. Mostra-nos até que ponto podemos ter impacto na vida das pessoas. E, por mais que tentemos dar qualquer coisa a essas pessoas, nunca será nada, comparado com o que elas sentem por nós dentro delas e nos seus sonhos. E isso é muito especial… é muito, muito especial para mim.” Como se sabe, Senna morreria em prova cerca de quatro anos depois, em 1 de Maio de 1994, no circuito de Imola.
Steve Jobs não pertence a nenhum dos mundos das outras personagens deste volume. Ligado às tecnologias, a marcas extraordinárias no universo da informática, Jobs apresenta-se na luta pela democratização das tecnologias numa perspectiva de que o público exigirá sempre mais, de inovação nas empresas, de aposta na criatividade dos colaboradores de abertura para a surpresa da vida. Não é da entrevista (gerada em 1989), mas o organizador do volume, em nota final, retoma um pensamento de Jobs, produzido em Junho de 2005, proferido na Universidade de Stanford, quando ele já sabia estar doente, sem hipótese de recuperar: “Lembrar-me de que em breve estarei morto é a ferramenta mais importante que encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões da minha vida. (…) Lembrarmo-nos de que vamos morrer é a melhor forma que conheço de evitarmos o engano de acharmos que temos algo a perder.”
Vinte anos de esperanças, de crenças, de contradições. Um tempo que oscilou entre os grandes avanços no domínio da tecnologia e as instabilidades oriundas da política a céu aberto…

Sublinhados
Computador – “Os seres humanos são basicamente fabricantes de ferramentas, e o computador é a ferramenta mais extraordinária que construímos até hoje.” [Steve Jobs. Entrevista a Bob Burlingham e George Gendron em Inc. (Abril de 1989). Grandes Entrevistas da História 1971-1990. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 108]
Experiência – “Se não adquirirmos um pouco de bom gosto e de experiência enquanto jovens, nunca mais o faremos. A experiência faz aumentar o prazer…” [Jack Nicholson. Entrevista a Gene Siskel em Chicago Tribune (12-08-1990). Grandes Entrevistas da História 1971-1990. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 125]
Melhor – “As pessoas ficam mais motivadas a fazer coisas o melhor possível do que a fazê-las de forma simplesmente correcta.” [Steve Jobs. Entrevista a Bob Burlingham e George Gendron em Inc. (Abril de 1989). Grandes Entrevistas da História 1971-1990. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 112]
Passado – “Quando um homem tem um passado extraordinário, este vem ao de cima mesmo que ele o esconda, pois o passado está gravado no rosto, nos olhos.” [Oriana Fallaci. Introdução à entrevista de Yasser Arafat, em Intervista com la Storia (1974). Grandes Entrevistas da História 1971-1990. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 36]

Com o Expresso de hoje, o 6º volume

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (3)



Seis políticos, um cientista e três artistas constituem o leque de conversadores no quarto volume de Grandes Entrevistas da História (em publicação pelo semanário Expresso), cujas peças jornalísticas foram publicadas entre 1952 e 1970: António de Oliveira Salazar (Christine Garnier, Férias com Salazar, 1952), Albert Einstein (Bernardo Cohen, Scientific American Magazine, Julho de 1955), Alfred Hitchcock (Pete Martin, The Saturday Evening Post, 27-07-1957), Humberto Delgado (Artur Inez, República, 10-05-1958), Salvador Dalí (Ana Nadal de Sanjúan, La Vanguardia, 19-11-1958), Fidel Castro (Clark Hewitt Galloway, U.S. News & World Report, 1959), Francisco Franco (Luis de Galinsoga, La Vanguardia, 01-10-1959), Norman Mailer (Eve Auchincloss e Nancy Lybch, Mademoiselle, Fevereiro de 1961), Nelson Mandela (Brian Widlake, Independent Television News, Maio de 1961) e John F. Kennedy (Aleksei Adzhubei, Izvestia, 25-11-1961).
Os dois políticos portugueses, rivais, foram entrevistados com seis anos de diferença. A conversa com Salazar teve lugar em Santa Comba Dão e é extraída do final de obra publicada em França e em Portugal, que permitiu a sugestão de um romance entre o político e a jornalista Garnier. Comentando a visitante que de Portugal levava uma imagem de “excessiva calma”, de “entorpecimento”, Salazar responde: “Essa calma que a impressiona é intencional. Aplicamo-nos em protegê-la contra tudo o que a possa ferir, o que não impede o povo português, que não é inconsciente nem indiferente, de estar atento aos acontecimentos mundiais. (…) Considero esta calma como uma das características do povo português na época actual. A outra, é uma forte tendência para o humanismo.” Ao longo da conversa, Salazar vai passando uma imagem rústica e de relativa suavidade do povo português, de tal forma que Christine Garnier é levada a comentar: “Tal como os apresenta, Sr. Presidente, os portugueses parecem bastante maleáveis.” Esta observação servirá ao político para expor a relação dos lusitanos com a autoridade e com a obediência: “Só têm com a autoridade relações baseadas na desconfiança. A obediência é mais receosa que cívica e sempre discutida.” A questão do medo vai estar presente também na entrevista de Humberto Delgado, publicada um mês antes das eleições presidenciais cujos resultados exactos nunca se saberão e em que o general foi vencido. À pergunta, no final da entrevista, se tinha “mais alguma coisa a declarar ao país” o então candidato a presidente respondeu: “Sim. Que o país deixe de ter medo.” Já ao longo da conversa tinha criticado o regime vigente em Portugal, dizendo: “A Nação asfixiada, mutilada no que de mais belo Deus gerou – a alma dos homens – arrasta-se ignominiosamente brincando às eleições de quando em quando, numa soturna apatia, (…) escondendo dos países sob regime democrático o absolutismo em que nós vivemos sob o título jocoso e insultivo de ditadura paternal.” A solução política que defendia era a de uma democracia para Portugal, porque pensava ser ela, “adentro das imperfeições dos homens, o melhor compromisso para viver com dignidade e felicidade”. Nunca o general Delgado iria ver esse seu desejo cumprido no seu país, porquanto, em meados de Fevereiro de 1965, próximo de Badajoz, foi assassinado.
Outros dois entrevistados rivais na política, embora de países diferentes, são Fidel Castro e John Kennedy. A peça que nos traz a mensagem do presidente cubano mostra-nos uma personagem que balança no jogo para impressionar os Estados Unidos, insistindo não ser comunista, bem como outros países de onde possa chegar capital. Por outro lado, vai contornando aquelas que poderiam ser questões mais problemáticas, como a possível oferta de produtos a Cuba por parte de países comunistas ou a base naval americana de Guantánamo… Datada de cerca de dois anos depois da de Castro, a entrevista Kennedy é feita por um jornalista da União Soviética que era mais do que jornalista – a política, a militância partidária, o relacionamento familiar com dirigentes soviéticos, eis os ingredientes que formavam a personalidade de Adzhubei, o entrevistador, que se assume muito mais como um emissário dos pontos de vista do seu país até ao ponto de discordar das opiniões do político americano ou de lhe dizer: “Gostaríamos muito que o Sr. Presidente declarasse que a ingerência nos assuntos de Cuba foi um erro.” Pelo meio, houve as referências ao relacionamento entre as duas potências, à questão da Alemanha e de Berlim, à questão da NATO, com as derradeiras palavras de Kennedy a desejar que a entrevista pudesse contribuir “para melhorar o entendimento e para a paz”, sobretudo no interesse de ambas as frentes.
Em 1959, Franco, em Espanha, tinha como preocupações as dificuldades do povo espanhol e a recuperação que estava a ser feita, a luta contra o comunismo e a união da Europa “contra os perigos” que a ameaçavam. Muito embora a questão da União Soviética ocupe a maior parte da entrevista, é no final que Franco fala do esforço que o seu país está a fazer e dos resultados que estão a ser obtidos no plano do aumento da produção nas áreas da indústria e da agricultura.
O outro político entrevistado neste volume é Mandela, naquela que foi a sua primeira entrevista a um canal de televisão internacional e também a última entrevista que deu antes de ser preso. A conversa é curta e tem como linhas orientadoras a exigência do sufrágio universal, a convivialidade rácica, a possibilidade de organização de campanhas de não-cooperação e termina com uma questão: “Creio que chegou a hora de nos perguntarmos, à luz das nossas experiências (…), se os métodos utilizados até agora são os mais adequados”. Uma dúvida que respondia à pergunta sobre a possibilidade de ocorrerem na África do Sul actos de violência por parte do Congresso Nacional Africano, que, até ali, promovia campanhas de resistência pacífica.
O cinema e os recursos que usa são o tema da conversa com Hitchcock, um realizador cheio de imaginação e de humor. O que diz sobre os seus filmes é uma chave para um novo visionamento, tão calculadas são as situações e os métodos: “O segredo está no modo de articular a história. No meu caso, cada fragmento e cada situação da obra têm de estar planeados e decididos antes de começar a rodagem. Às vezes, planifico mais de seiscentas posições para a câmara antes de começar a filmar. Se tentasse improvisar uma estrutura para o enredo à medida que avançamos, não conseguiria os efeitos nem as reacções que pretendo.” De reacções e efeitos se fala também na entrevista com outro artista, o pintor espanhol Dalí. A jornalista antecipa na apresentação que “em Dalí tudo é pose, excepto o lado temperamental”. O diálogo comprovará a apreciação: “A única coisa que me interessa é que falem de mim”, afirma, considerando-se “o maior génio deste século”. E conta uma situação que comprova até à exaustão essa necessidade de se saber falado: “Tenho agentes em vários pontos de Espanha e do estrangeiro que recolhem tudo o que é publicado sobre mim. Enviam-mo e, quando recebo os envelopes, consigo perceber se as coisas correm bem ou mal. Quanto mais pesados e mais volumosos, mais propaganda contêm. Digo isto porque os atiro para a lareira sem os abrir.” O terceiro artista é escritor, Norman Mailer, que se assume na sua diferença de estilo e de forma de intervir, que se assume como “extremista”, ora falando da sua obra, ora da política. Ao autocaracterizar-se relativamente aos outros homens, diz: “Sou menos forte, mais inquieto, mais decidido, mais inepto, tenho mais sucesso. Não gosto de mim o suficiente para me deixar levar pelos meus instintos como deveria.”
A entrevista de Einstein foi a última que deu, tendo ocorrido duas semanas antes da sua morte, embora só tenha sido publicada posteriomente. Entendendo a dificuldade do jornalista para formular a primeira pergunta, o cientista confessa: “Há tantos problemas para resolver no campo da Física.. Há tantas coisas que não sabemos… As nossas teorias estão muito longe de ser suficientes.” Fala da importância de outros cientistas, como Newton ou Benjamin Franklin, sob o pretexto do conhecimento e do saber do entrevistador, chegando a confessar que “quem pior documenta a forma como se realizam as descobertas é o próprio descobridor”, pois “sempre se tinha considerado a si próprio uma má fonte de informação sobre a génese das suas ideias.” No final da conversa, Einstein ainda vai mostrar a Cohen a experiência para provar o princípio da equivalência a partir de uma oferta que lhe fizera um amigo, Eric Rogers. E o visitante sai comovido desta conversa pela afabilidade e simplicidade que Einstein demonstrara.

Sublinhados
Ciência – “A História é menos objectiva do que a Ciência. Por exemplo, se dois homens tivessem de estudar o mesmo tema histórico, cada um destacaria o aspecto que mais lhe interessa ou chama a atenção.” [Albert Einstein. Entrevista a Bernard Cohen, em Scientific American Magazine (Julho de 1955). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 30]
Coragem – “A coragem é algo que implica um enorme risco, sem se ter a certeza de que se vai sair vitorioso.” [Norman Mailer. Entrevista a Eve Auchincloss e Nancy Lynch, em Mademoiselle (Fevereiro.1961). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 106]
Democracia – “Adentro das imperfeições dos homens, penso que a Democracia é o melhor compromisso para viver com dignidade e felicidade.” [Humberto Delgado. Entrevista a Artur Inez, em República (10 de Maio de 1958). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 58]
Vaidade – “Quem afirma que não é vaidoso demonstra também uma forma de vaidade, ao orgulhar-se da sua declaração.” [Albert Einstein. Entrevista a Bernard Cohen, em Scientific American Magazine (Julho de 1955). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 32]
Vontade – “A vontade sem ternura é uma das coisas mais perigosas do mundo. A vontade sem a capacidade de reconhecer nada para além da própria vontade é algo que deve ser erradicado.” [Norman Mailer. Entrevista a Eve Auchincloss e Nancy Lynch, em Mademoiselle (Fevereiro.1961). Grandes Entrevistas da História 1952-1970. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 107]
[Com a próxima edição do Expresso sai o volume 5 desta obra]

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (2)



Constituem o terceiro volume da obra Grandes Entrevistas da História (Lisboa: “Expresso”, 2014, em publicação) as entrevistas feitas no período 1931-1951 a George Bernard Shaw (Hayden Church, Liberty, 07-02-1931), Al Capone (Cornelius Vanderbilt Jr., Liberty, 17-10-1931), Adolf Hitler (George Sylvester Viereck, Liberty, 07-1932), Josef Estaline (H. G. Wells, The New Statesman and Nation, 27-10-1934), Fernando Pessoa (Artur Portela, Diário de Lisboa, 14-12-1934), Federico García Lorca (Luis Bagaría, El Sol, 10-06-1936), Mao Tsé-Tung (James Munro Bertram, Jiefang Ribao, 23-11-1937), Walt Disney (S. J. Woolf, The New York Times, 10-07-1938), Mahatma Gandhi (H. N. Brailsford, Harijan, 14-04-1946) e Egas Moniz (Armindo Blanco, O Século Ilustrado, 05-11-1949).
Se começarmos pelos entrevistados portugueses, veremos que Egas Moniz, tendo tido a atribuição do Nobel da Medicina em 27 de Outubro, era o homem do momento – só tinham passado nove dias até à publicação da entrevista e, além disso, era o primeiro português nobelizado, ponto cimeiro de um percurso que já tinha levado o nome deste médico a ser proposto para o galardão noutras ocasiões. Nesta fase da sua vida, aos 75 anos, o entrevistador deixa-se entusiasmar com o ritmo de vida do seu interlocutor, entre as consultas públicas e privadas, a escrita, a investigação, a ida ao cinema e a leitura, simultaneidade que conduzirá à questão do tempo e à explicação: “É necessário colocar um pouco de método nos nossos hábitos, para que o excesso de tempo de que dispomos possa dar para tudo.” O outro português da lista é Fernando Pessoa, numa curta conversa que sucedeu à publicação da sua única obra em português editada em vida, Mensagem, que tinha acontecido em 1 de Dezembro de 1934, duas semanas antes da divulgação da entrevista. A rápida conversa de Pessoa com Artur Portela no “Martinho da Arcada” evidencia a capacidade descritiva do jornalista e a enigmática personagem que o poeta é. O texto inicia-se com o retrato do entrevistado: “A calva socrática, os olhos de corvo de Edgar Poe, e um bigode risível, chaplinesco – eis a traços tão fortes como precisos a máscara de Fernando Pessoa.” Tal entrada será porventura o eco das próprias respostas do escritor, com uma dose de mistério apreciável, talvez na linha do “fingimento”: sobre Mensagem, dirá que “é um livro escrito em mim há muito tempo”; sobre a sua escrita, reflectirá que tem “várias maneiras de escrever, nunca uma”. O resultado sobre Portela é uma apresentação de Pessoa como um poeta que fala “como as cavernas, com boca de mistério”, e que, no final, “desaparece à nossa vista, num céu constelado de enigmas e de belas imagens”.
Mais dois escritores povoam este grupo de entrevistados: Shaw e Lorca. Nos seus 75 anos, o escritor irlandês fala sobre a sua obra e as leituras dela feitas e sobre a sociedade, não escondendo a sua veia de crítico social que também foi e o seu tom humorístico, dando, por vezes, a volta às perguntas. Quando inquirido sobre o futuro económico da Inglaterra, interroga-se se “conseguirá a civilização safar-se” e responde: “A lista de civilizações extintas está sempre a aumentar, tal como a lista de estrelas escuras descobertas pelos astrónomos. Qualquer estudioso do tema sabe que a estabilidade de uma civilização depende, em última instância, da sabedoria com que esta partilha a sua riqueza e distribui a carga de trabalho, bem como da veracidade da educação que ministra às crianças.” No final da entrevista, a propósito de pergunta sobre a razão de ser das “recentes derrotas que as mulheres infligem aos homens em todas as frentes”, espanta-se com a surpresa, considera a mulher tão apta e inteligente para lidar com qualquer máquina como o homem e desafia: “Se consultar os jornais de ontem, verá que várias mulheres tiveram filhos sem a ajuda de qualquer máquina. Mostre-me um homem que tenha levado a cabo uma proeza tão assombrosa e árdua e sentar-me-ei a debater consigo com toda a seriedade o significado de tamanho triunfo.” Já a entrevista de García Lorca é sobretudo uma conversa entre dois poetas, ambos tratando-se por “tu”, ambos recorrendo a uma linguagem metafórica, mais do domínio da poesia, chegando-se ao ponto de, a meio da entrevista, o rumo da conversa mudar e passar Lorca a entrevistador e Bagaría a entrevistado. No decurso, fala-se da construção poética, do papel da poesia, do afecto à Espanha, de música e do canto cigano, da literatura espanhola (em que Lorca manifesta admiração por Antonio Machado e por Ramón Jimenez). Cerca de dois meses depois desta publicação, em 18 de Agosto, o poeta granadino terá sido fuzilado.
Ainda no campo das artes, surge a voz de Walt Disney, que, aos 37 anos, era já um nome de sucesso no mundo do cinema (depois de ter distribuído jornais, de ter sido carteiro, de ter conduzido ambulâncias da Cruz Vermelha na Grande Guerra, de ter trabalhado em publicidade), respondendo a uma questão sobre “o que é a arte” de forma quase desconcertante: “O que é a arte? Eu sei lá! Somos apenas produtores cinematográficos. O nosso objectivo é divertir. Se conseguimos, sentimos que cumprimos o nosso objectivo e, se o público gosta do que mostramos, simplesmente erguemos os polegares e consideramo-nos afortunados.” O que estava em causa para Disney era a capacidade de aliar a engenharia e a comoção: “Se o homem o conseguir fazer, será um artista, mas, se não souber desenhar, se não conhecer a gramática da sua arte, não acredito que consiga expressar a sua emoção.”
A figura de Al Capone, chefe de organização criminosa, convive nesta mesa de entrevistados através da entrevista que saiu a público justamente no dia em que foi julgado e condenado a onze anos de prisão. O discurso do entrevistado assume-se como um discurso político, apelando à abertura “dos cordões à bolsa” porque eram necessários “fundos para combater a fome”. E o jornalista vai-se surpreendendo de intervenção em intervenção. “Nos dias que correm, as pessoas não respeitam nada. Antes, púnhamos num pedestal a virtude, a honra, a verdade e a lei. Veja só o caos em que transformámos a nossa vida!”. E mais adiante: “Todas as nossas principais prioridades estão invertidas. Os banqueiros corruptos que aceitam o dinheiro dos clientes, que estes ganham com o suor do rosto, em troca de acções que sabem não ter valor seriam inquilinos muito mais adequados das instituições penitenciárias do que o pobre homem que rouba para alimentar a mulher e os filhos.” Tal candura e tal convicção vão adensando a entrevista ao ponto de o seu remate ser tão solitário quanto isto: “A porta de ferro do gabinete fechou-se. A minha entrevista mais surpreendente de sempre chegou ao fim.” Quase fica Vanderbilt sem palavras…
Os quatro restantes entrevistados são oriundos do mundo da política: Josef Estaline, Mao Tsé-Tung, Adolf Hitler e Mahatma Gandhi. No caso dos dois primeiros, o discurso não deixa que os jornalistas atravessem as muralhas que blindam os entrevistados; na mente dos entrevistadores ficam admirações e uma adesão à figura com quem acabaram de falar. H. G. Wells manifestará mesmo a Estaline um agradecimento no final da entrevista, declarando: “Actualmente, só existem dois homens no mundo cujas opiniões, cujas palavras merecem a atenção de milhões de pessoas: o senhor e Roosevelt.” Mas, logo a seguir, usa alguma cautela, dizendo a Estaline: “Ainda não pude apreciar o que fizeram no seu país, porque acabei de chegar ontem. Mas já tive ocasião de ver rostos felizes de homens e mulheres saudáveis e estou convencido de que aqui está a acontecer algo de proporções consideráveis.” Wells completamente rendido a Estaline! Com a entrevista de Mao acontece um pouco a mesma coisa: estando num menos bom momento político, o chefe chinês não sai do domínio da política e tenta justificar toda a sua acção e contra-atacar os adversários, fortemente apoiado pela explicação do que se passa no seu país e do modo de funcionamento da política e das instituições. Semelhante fascínio exerceu Hitler sobre Viereck, que, regressado aos Estados Unidos, tornou-se militante pró-alemão e chegou a ser activista da Alemanha nazi. Refugiando-se num discurso anti-marxista e profundamente germânico, Hitler defende os seus ideais e chega a encolerizar-se – “As veias da fronte de Hitler incharam ameaçadoramente. A sua voz enchia a divisão” foi o registo final do jornalista. Pelo caminho, muitos apelos, condensados num só: “Queremos uma grande Alemanha que unifique todas as tribos germânicas. (…) É imperativo despertar o espírito alemão. (…) Na minha visão do Estado alemão, não haverá lugar para o estrangeiro, o esbanjador, o agiota ou o especulador, nem para ninguém que seja incapaz de levar a cabo um trabalho produtivo.” Já a entrevista de Gandhi é a procura de consenso, uma busca de entendimento com a Grã-Bretanha para que a Índia seguisse o seu caminho: “Quando a Índia desfrutar do calor da independência, provavelmente aderirá a um acordo [de carácter defensivo], de livre e espontânea vontade. A amizade espontânea entre a Grã-Bretanha e a Índia estender-se-ia então a outras potências e entre todas manteriam o equilíbrio, visto que apenas elas deteriam a força moral para o fazer. Desejaria viver mais vinte e cinco anos para ver esta visão tornar-se realidade.” Infelizmente, assim não aconteceu e, ainda não eram passados dois anos sobre esta entrevista, em Janeiro de 1948, um extremista hindu assassinou Gandhi.
Entrevistas de formas de ser, de análises pessoais, de disfarce, de sonhos, de afirmação perante os outros, de sedução perante os jornalistas, independentemente da sua experiência, de tudo acontece neste lote de dez momentos em que o jornalismo se encontrou com a História e em que o mundo foi sendo construído…

Sublinhados
Audácia – “Quando alguém se propõe ir além do poder, tem de o fazer com audácia.” [Mahatma Gandhi. Entrevista a H. N. Brailsford, em Harijan (14-04-1946). Grandes Entrevistas da História 1931-1951. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 106]

Personagem – “Só a História dirá até que ponto foi importante esta personagem ou aquela.” [Josef Estaline. Entrevista a H. G. Wells, em The New Statesman and Nation (27-10-1934). Grandes Entrevistas da História 1931-1951. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 50]

[com a edição do próximo sábado do Expresso, o nº 4 desta obra]

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Grandes entrevistas da História, com o "Expresso" (1)



A obra Grandes Entrevistas da História, que o semanário Expresso começou a publicar no início de Novembro e que é constituída por sete volumes, torna-se interessante a vários títulos: pelo período histórico abrangido (desde 1865), pelos testemunhos que traz até ao leitor de hoje, por se poder assistir ao que foi a história do género jornalístico que é a entrevista, por entrarmos na esfera de convivência de diversas personalidades hoje consideradas referências para a Humanidade, por não faltarem alguns nomes representativos portugueses (seja como entrevistados, seja como entrevistadores). Para lá do que cada entrevista possa transmitir como mensagem, o leitor é levado a abordá-las diacronicamente e na sua relação com a História, uma vez que todas são antecedidas de um texto introdutório, que contextualiza o momento da entrevista e os antecedentes relativos ao entrevistado, e de um epílogo, que informa sobre o que foi o futuro dessas mesmas personagens ou sobre as consequências do que foi dito na entrevista.
É assim que, no primeiro volume, apanhando o período entre 1865 e 1899, convivemos com as ideias de Abraham Lincoln (Goldwin Smith, Macmillan’s Magazine, 07-02-1865), Karl Marx (R. Landor, The New York World, 18-07-1871), D. Pedro II (pelo correspondente do The New York Herald, 1871), Louis Pasteur (D’Alberty, em M. Pasteur & la Rage, 1882), Theodore Roosevelt (pelo correspondente do The Pall Mall Gazette, 09-12-1886), Thomas Edison (R. H. Sherard, The Pall Mall Gazette, 19-08-1889), Mark Twain (Rudyard Kipling, From Sea to Sea, 1889), Papa Leão XIII (Séverine, Le Figaro, 03-08-1892) e Nikola Tesla (S. E. Solly, The New York Herald, 12-11-1899).
Parte significativa destas entrevistas impressiona pela imagem que os entrevistados deixam nos entrevistadores, constituindo o corpo dessas entrevistas pouco mais do que isso mesmo – o autor do texto vai partilhando algumas respostas, mais excertos de conversa do que entrevista como a concebemos hoje, e vai construindo o retrato do entrevistado.
Por este palco passam políticos e dirigentes como Lincoln, Marx, D. Pedro II, Roosevelt e o Papa Leão XIII, sempre advindo deles uma imagem forte. É assim que Smith conclui o seu texto sobre o presidente Lincoln dizendo: “Poderá ou não ser um grande homem, mas, pelo menos, é um homem honesto e responsável. A sua reeleição era desejável, não só pelo bem do seu país, mas também pela paz no mundo. Já na entrevista a Marx, assinada por Landor, efectuada quando o filósofo era líder da AIT (Associação Internacional dos Trabalhadores) e quando estava candente a questão da Comuna de Paris, nos passa a imagem de um chefe em posição confortável que impressiona fortemente o entrevistador, levando-o a deixar uma leitura para o mundo – “Expus aqui, tanto quanto a minha memória mo permitiu, os momentos mais importantes da minha conversa com este homem notável. Deixarei que o leitor tire as suas próprias conclusões. Por muito que se possa dizer a favor ou contra a possibilidade da sua participação no movimento da Comuna, podemos ter a certeza de que a Associação Internacional é um novo poder no seio do mundo civilizado com o qual este muito em breve terá de ajustar contas, para o bem ou para o mal.” Mais parca em ideias sobre o entrevistado é a intervenção do correspondente do The New York Herald quando entrevista D. Pedro II – a conversa é frugal, quase de acaso, e, mesmo assim, o jornalista disponibiliza-se para submeter ao secretário régio o texto a redigir, visando algumas correcções; todavia, o imperador, que estava em passeio pelo Egipto, rejeita a oferta e argumenta: “Toda a minha vida foi uma constante entrevista e, consequentemente, nunca digo nada que não deseje que se torne público.” Roosevelt apresenta-se como um forte ganhador, analisando criteriosamente a política e afirmando: “Nós, os norte-americanos, somos demasiado empreendedores para aceitar restrições”. Leão XIII, o primeiro Papa entrevistado por uma mulher que se deixa deslumbrar pelo Vaticano, marca pela sua análise do que é a igreja e pelo destino que sente, enquanto chefe católico, de conduzir o seu povo para um caminho de “doçura e fraternidade”. A entrevista surge como uma voz em prol da doutrina social da Igreja. Conte-se o tempo decorrido entre 1892 e 2014, ano em que um Papa voltou a ser entrevistado por outra mulher…
Na área da ciência e dos inventos, a presença é a de Pasteur, Edison e Tesla. De Louis Pasteur, então na apoteose da carreira, a ideia que ressalta é a da visita do jornalista ao laboratório onde o investigador pesquisava a vacina para a raiva, momento em que o entrevistador comenta, depois de assemelhar um galo a uma coruja, de confrontar as reacções de uma ovelha com as de um macaco: “Era uma cena impressionante. (…) Se os animais pudessem partilhar o que pensam, como gostaria de compreender a sua linguagem. Que entrevista fascinante não faria aos hóspedes do Sr. Pasteur!” Edison é apresentado como um inventor, de cuja conversa não está ausente a animosidade com Tesla, antevisionando um futuro em que “fábricas enormes funcionam dia e noite”, numa “luta do homem contra o metal”. Nikola Tesla é o centro de uma entrevista que gira em torno de um laboratório, de uma estação experimental; por isso, a primazia dada pelo autor da peça jornalística vai para a descrição do espaço e de toda a maravilha com que se confronta, muito mais do que para a conversa. O que estava em causa no momento era a possibilidade de serem transmitidas mensagens para qualquer parte do mundo.
Finalmente, um homem das artes, o autor de aventuras protagonizadas por Huckleberry Finn e por Tom Sawyer. Mark Twain, escritor entrevistado por outro escritor, Kipling, fala da sua obra, enfatizando o herói Sawyer – “Ele é todos os meninos que conheci ou recordo” – e da presença autobiográfica na literatura, no romance, concluindo a sua entrevista com um discurso sobre a leitura de ciência e sobre uma abordagem dos factos que justificava a própria literatura – “Primeiro pegamos nos factos, e depois podemos distorcê-los à vontade”.
O segundo volume abrange o período temporal entre 1900 e 1930, com entrevistas a Júlio Verne (Gordon Jones, Temple Bar, Junho de 1904), Harry Houdini (Edha Ferber, Appleton Crescent, 23-07-1904), Guglielmo Marconi (Kate Carew, New York Tribune, 14-04-1912), Sacadura Cabral e Gago Coutinho (Thomaz Ribeiro Colaço, O Dia, 07-06-1922), Marie Curie (Marie Mattingly Meloney, no livro Pierre Curie, 1923), Benito Mussolini (António Ferro, A Capital, 02-12-1923), Charles Lindbergh (Carlyle MacDonald, The New York Times, 22-05-1927), Georges Clemenceau (George Sylvester Viereck, Liberty, 07-07-1928), Henry Ford (M. K. Wisehart, Modern Mechanics, Dezembro de 1929) e Sigmund Freud (George Sylvester Viereck, em Glimpses of the Great, 1930).
Lemos a entrevista com Júlio Verne, feita um ano antes da sua morte, e percebe-se o porquê de este continuar a ser um autor de eleição, pelos mundos que imaginou ou que antecipou, chegando mesmo a confessar, em jeito de explicação e sem pretensão de superioridade: “O máximo que posso dizer é que talvez tenha olhado um pouco mais além no futuro do que a maioria daqueles que me criticaram”. Depois, a entrevista é ainda rica pelo respeito e admiração que consagra aos outros, seja quando fala de autores já desaparecidos, como Dickens, seja quando aprecia obras de seus contemporâneos, como H. G. Wells. Ainda no domínio das artes, é-nos dado seguir alguns passos do ilusionista Harry Houdini, que impressiona a entrevistadora pela maneira como não explica os seus truques ou pela forma como se refere à sua família, particularmente aos pais – “nestes dias de vertigem e loucura e frequente falta de respeito para com os mais velhos, é agradável ouvir estas palavras da boca de um filho”, escrevia a jornalista nesse 1904.
No domínio da ciência, Marconi é o primeiro conversador deste volume, desenrolando-se a entrevista com fluência e com o registo caricato da presença intimidatória do secretário do cientista, que desespera por não conseguir controlar a duração da conversa. No ramo da ciência, há ainda lugar para uma entrevista a Marie Curie, que deixa que perpasse o seu papel de investigadora, mas também o do contributo que a ciência tem de dar para uma causa humanitária, veiculando a mensagem de que os recursos de que o mundo dispõe são de todos os que o habitam. A secção da ciência fecha com Freud, à data o patrono da psicologia, que chega a ser comparado com outro grande mestre da ciência: “Freud representa para a psicologia o que Galileu representou para a astronomia.” E Freud fala das correntes, das divergências e da sua paixão do momento: “Felizmente, as plantas não têm temperamento ou complexidades. Adoro as minhas flores. E não me sinto infeliz. Pelo menos, não mais do que os outros."
À política chega o leitor pelas palavras de Mussolini, entrevistado pelo português António Ferro, que se deixa fascinar pelo chefe italiano, inclusive com a oferta que este lhe faz de uma sua fotografia autografada. Surpreende o pendor rigoroso do entrevistado, quase contando ao pormenor o tempo disponível por achar que não tempo a perder: “O deputado, que se limita a repetir o que os jornais já me disseram, só me faz perder tempo”, dirá. Outro nome da esfera da política é o de Georges Clemenceau, em entrevista no ano anterior à sua morte, de 1928. Perguntado sobre o estado geral do mundo e da França, responde, recorrendo ao seu saber e ao que vira até uma década antes: “As condições serão satisfatórias enquanto na Europa continental se mantiver o actual equilíbrio de forças. Se esse equilíbrio for alterado por um renascimento do imperialismo  alemão, a Europa ver-se-á mergulhada noutra contenda generalizada.” Clemenceau não chegou a esse patamar, mas sabia o porquê de o estar a dizer…”.
Noutro grupo está Henry Ford, o homem  que ligou a sua memória ao automóvel e à descoberta de regras para cidades e para práticas do seu tempo. O seu visionarismo torna-se extraordinário, chegando a idealizar: “Provavelmente, no futuro, o aquecimento nas cidades norte-americanas será eléctrico. Ou seja,  as nossas casas terão de ser construídas de uma forma diferente, melhor. Temos de descobrir qual é a melhor forma de as isolar. Desse modo, serão mais frescas no verão e com um aquecimento mais uniforme no inverno.”
Da área da navegação aérea e dos feitos grandiosos são os entrevistados Sacadura Cabral e Gago Coutinho, especialmente o primeiro, já que o segundo, estando presente, só intervém ocasionalmente. Interessante o pormenor de Sacadura Cabral ter lido a entrevista previamente e lhe ter acrescentado, por seu punho, muita informação, sobretudo no respeitante a pormenores da travessia do Atlântico Sul. O registo da conversa não perde em humor, tendo o jornalista comentado, quando Sacadura Cabral lamentou uma menor graça nesta travessia por a viagem não ter usado apenas um avião mas sim três: “Se um globe-trotter desse a volta ao mundo mudando dez vezes de botas, não deixaria por isso de dar a volta ao mundo. E se conservasse sempre o mesmo calçado, metade da admiração iria para as botas…” O outro viajante é Charles Lindbergh, o piloto que fez a primeira viagem sem escalas entre Nova Iorque e Paris, cujos receios quase minimizou: “Na verdade, pilotar um bom avião não exige nem de perto a atenção que é necessária para conduzir um automóvel. Saí de Nova Iorque com quatro sanduíches. Só comi uma e meia durante a travessia e bebi um pouco de água. Não creio que tivesse tido tempo de comer mais nada, porque fiquei surpreendido ao dar-me conta de quão curta é a distância entre Nova Iorque e a Europa.”
O que se nota no leque dos dez entrevistados das três primeiras décadas do século XX é que todos eles acompanham a vertigem do tempo em que se situavam. Homens e mulheres do seu tempo, sem dúvida, todos nos ajudando a perceber esse mesmo tempo.

Sublinhados
Alianças – “As alianças internacionais não acabam com as rivalidades internacionais.” [Georges Clemenceau. Entrevista a George Sylvester Viereck, em Liberty (07.Julho.1928). Grandes Entrevistas da História 1900-1930. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 92]
Autobiografia – “Uma autobiografia [é] a única obra na qual um homem, mesmo contra a sua vontade e apesar de tentar denodadamente fazer o contrário, se revela ao mundo tal como é na realidade. (…) Mas nuna autobiografia autêntica é impossível que um homem conte a verdade sobre si mesmo, assim como é impossível que consiga impedir que o leitor perceba essa verdade.” [Mark Twain. Entrevista a Rudyard Kipling, em From Sea to Sea (1923). Grandes Entrevistas da História 1865-1899. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 86-87]
Citações – “Provavelmente, algumas das melhores frases atribuídas aos grandes homens nunca foram proferidas, pelo menos por eles. A imaginação do mundo inventa a palavra certa quando a imaginação falha ao herói.” [Georges Clemenceau. Entrevista a George Sylvester Viereck, em Liberty (07.Julho.1928). Grandes Entrevistas da História 1900-1930. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 95]
Homem – “O homem jamais será suplantado por algo que seja inferior a ele. E não há nada à face da Terra que seja superior ao ser humano. Partindo do princípio de que a mais alta manifestação da vida no nosso planeta será sempre o ser humano e dado que os humanos parecem ser seres progressivos, deduz-se que a nossa raça continuará indefinidamente, a menos que uma catástrofe de dimensões cósmicas a varra do planeta. O homem superará o seu nível evolutivo actual. Por acaso não é o homem de hoje sobre-humano em comparação com o homem primitivo?” [Georges Clemenceau. Entrevista a George Sylvester Viereck, em Liberty (07.Julho.1928). Grandes Entrevistas da História 1900-1930. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 102]
Igreja – “A tarefa da Igreja é doçura e fraternidade. Deve aproximar-se do que está errado, esforçar-se por erradica-lo, mas qualquer tipo de violência contra as pessoas é contrário à vontade de Deus, aos seus ensinamentos.” [Leão XIII. Entrevista a Séverine, em Le Figaro (03.Agosto.1892). Grandes Entrevistas da História 1865-1899. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 102]
Popular – “A popularização conduz a uma aceitação superficial sem levar a uma investigação séria. As pessoas limitam-se a repetir frases que ouvem no teatro ou na imprensa.” [Sigmund Freud. Entrevista a George Sylvester Viereck, em Glimpses of the Great (1930). Grandes Entrevistas da História 1900-1930. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 129]
Trabalho – “Se eu tivesse um trabalho demasiado pesado para mim, esforçar-me-ia para descobrir uma forma de o tornar mais fácil. Uma tentativa séria de tornar menos pesado um determinado trabalho é o impulso inicial para criar alguma coisa. Quem o fizer, construirá o seu futuro com base numa descoberta de que o mundo necessita.” [Henry Ford. Entrevista a M. K. Wisehart, em Modern Mechanics (Dezembro.1929). Grandes Entrevistas da História 1900-1930. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 112]
Vida – “Quando uma pessoa se detém a pensar, a religião, a formação e a educação não são garantia de nada perante a força das circunstâncias que movem o homem.” [Mark Twain. Entrevista a Rudyard Kipling, em From Sea to Sea (1923). Grandes Entrevistas da História 1865-1899. Lisboa: “Expresso”, 2014, pg. 86]