Mostrar mensagens com a etiqueta Timor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Timor. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 24 de julho de 2026

João Felgueiras e José Alves Martins e as memórias de Timor (2)

 


Ler Nossas Memórias de Vida em Timor, de João Felgueiras e de José Alves Martins, é o mergulho nos tempos de terror que os timorenses viveram sob a ocupação indonésia, durante muito tempo a sós, sem que se soubesse no exterior, porquanto a passagem de informação era escassa e rara, sempre condicionada pela clandestinidade e pelas denúncias e prisões. A ambos os autores iam chegando muitos documentos com o objectivo de que os mesmos fossem passados para o exterior, tarefa difícil e demorada, pois, por vezes, tinham de esperar “2 ou 3 meses para encontrar um portador de absoluta confiança”.

A facilidade com que muitos timorenses foram feitos prisioneiros contraria quaisquer direitos humanos — “Não existia qualquer instância judiciária, prisões preventivas, julgamentos... o que existia era a arbitrariedade, a lei do mais forte e o ódio contra simpatizantes da FRETILIN ou acusadas por alguém, por vingança ou para adquirir uma quantia irrisória de dinheiro”. As práticas de tortura sofridas tornam-se indescritíveis devido à violência que as caracterizava — “A tortura consistia, entre outros modos de sofrimento, em choques eléctricos, pontas de cigarro, arrancar unhas, fazer as necessidades no prato com a comida, pisar os pés com as cadeiras com um militar sentado em cima, espancamentos até as vítimas ficarem destroçadas, passar dias inteiros dentro de bidões cheios de água, horas contínuas de interrogatórios, ameaças de todo o género, e o serem submetidos a todo o tipo de sevícias morais, sobretudo as raparigas e as mulheres.” Referem os autores que, “por respeito à sensibilidade de quem já sofreu tanto”, omitiram “contar mais pormenores”. No entanto, alguns casos mais são apontados: “Recordemos o famoso lugar de morte, Builico, perto de Ainaro, onde as vítimas eram atiradas por um precipício abaixo de mais de cem metros de altura”.

A pressão dos invasores contra a denúncia do que acontecia era notória pelas ameaças, ao mesmo tempo que entravam “milhares de cidadãos indonésios em Timor, todos afectos e defensores da integração de Timor na Indonésia”. Na prática, a população timorense, desde a invasão em Dezembro de 1975 até 1980, desceu de 600 mil para 400 mil habitantes, consequência de “um genocídio causado pela fome, doenças, bombardeamentos, fuzilamentos indiscriminados, mortes devido a prolongadas prisões, desaparecimentos fantasmas e outros”, acção que pretendeu apagar a história do povo mesmo no plano da vida escolar — “o curriculum escolar era totalmente em indonésio. Para levar por diante esta mudança de curriculum e língua, Timor foi invadido por professores vindos de todas as províncias da Indonésia. O português foi completamente banido, excepto no Externato de S. José e no Seminário de Nossa Senhora de Fátima. O povo nem sequer podia saudar em português e a língua indonésia ia sendo imposta pelas escolas, pela administração e pelos militares.”

Para Felgueiras e Martins, não há dúvidas de que Timor lutou sozinho na resistência, tendo eles próprios sido presenças indesejadas pelos invasores, posição notada pelas ameaças ou pelos impedimentos de regresso ao território — quando, em Novembro de 1986, João Felgueiras veio a Portugal, catorze anos depois da sua chegada a Timor, teve contactos com Deus Pinheiro (Ministro dos Negócios Estrangeiros), D. António Ribeiro (Patriarca de Lisboa) e D. Manuel Martins (Bispo de Setúbal), entre outros, dando-lhes conta do que se estava a passar naquele território, mas, para regressar, como era sua vontade, teve de esperar até Setembro de 1987 por um visto para regressar a Jacarta, onde teve de permanecer oito meses antes de entrar em Timor.

Ponto forte na cronologia da resistência timorense é o massacre de Santa Cruz, perpetrado em 12 de Novembro de 1991: só por volta das 4 da tarde os dois jesuítas tiveram acesso ao cemitério onde ocorreu o massacre — “manchas de sangue no terreno, roupas e calçado dispersos e um silêncio sepulcral (...). Teriam sido mortos ou feridos centenas de jovens. Quantos ao certo? Ninguém o sabe. (...) Muitos dos que foram levados ainda vivos para o hospital, ali acabaram de os matar.” Estas mortes no hospital, causadas por injecções letais e por torturas, são designadas como “segundo massacre de Santa Cruz” pelos autores, que enaltecem o papel corajoso desempenhado pelo jornalista Max Stahl ao filmar os acontecimentos e relatam a forma como as imagens conseguiram passar para o exterior via Japão.

A visibilidade do sofrimento trazida para o mundo pela atribuição, em 1996, do Nobel a Ximenes Belo e a Ramos Horta não impediu que, três anos depois, ainda antes do referendo quanto à independência, acontecesse novo massacre, em Liquiçá, em que foram atacadas centenas de pessoas, ou que, depois do referendo em que ganhou a independência, em Agosto de 1999, as milícias tenham começado um plano de destruição e de incêndios, levado a cabo até Setembro, quando as forças internacionais chegaram a Timor.

Ao longo destas memórias, vai sendo acentuado o papel desempenhado pela Igreja no apoio aos timorenses, bem como as represálias exercidas pelo invasor sobre os religiosos de várias ordens. No final, os autores celebram a experiência humana vivida pelo que aprenderam com a resiliência dos timorenses. Quer na redação das memórias quer nos excertos de cartas que acompanham o livro, o leitor pode ver a tentativa de contar pormenores da história vivida, sem que haja o alheamento das emoções e do sentido nesse tempo de sofrimento. A prova do compromisso dos dois padres com o povo com quem viveram muitos anos surge no final da oração que fecha o livro: “Senhor, dá força ao vosso Povo de Timor de ser digno, no presente e no futuro, do seu passado de heroísmo, sendo fiel aos valores humanos e cristãos dos seus maiores, muitos dos quais deram o seu sangue pela justiça, a fé e a liberdade.”

 

OBS: Em memória do padre João Felgueiras, falecido em Timor no início deste Julho, com 105 anos, de quem fui aluno, e que se nos impôs pela sua serenidade e humildade, pela sua disponibilidade e bonomia.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1805, 2026-07-22, pg. 10.


quinta-feira, 23 de julho de 2026

João Felgueiras e José Alves Martins e as memórias de Timor (1)

 


Em 8 de Março de 2006, o jesuíta Manuel Morujão enviava carta para Timor, destinada ao também jesuíta João Felgueiras, congratulando-se: “Muito me alegro com a notícia de que o Padre Felgueiras e Padre Martins vão redigir ‘Umas memórias de Timor’. Acho que será um serviço apostólico muito importante, pois ajudará a ‘pôr os pontos nos is’, de muita meia verdade ou mesmo falsidade.” Um mês depois, a 7 de Abril, em nova missiva, Manuel Morujão dirigia-se aos dois jesuítas que estavam em missão em Timor, referindo-se ao livro que ambos preparavam: “Uma empresa muito meritória, directamente missionária, porque a missão também passa pela verdade histórica.”

A obra seria publicada nesse mesmo ano sob o título Nossas Memórias de Vida em Timor (Editorial Apostolado da Oração), assinada por João Felgueiras (1921-2026) e por José Alves Martins (1941-2022), e teria nova edição em 2010, apresentando-se organizada em três partes: o texto memorialístico do que os dois padres viveram em Timor entre 1974 e 2002; um conjunto de excertos de 44 cartas trocadas entre Timor e Portugal, datadas, mas com destinatários não indicados por razões de “discrição”; um capítulo final, “Via-Sacra do Povo de Timor Leste”, meditação em quinze estações lembrando o sofrimento dos timorenses (“O Povo de Timor sentiu a vossa Paixão durante 25 longos anos de violenta ocupação estrangeira. A vossa flagelação foi experimentada em milhares de timorenses, espancados e torturados da maneira mais atroz. Foram açoitados com paus, com cordas; foram torturados com choques eléctricos, com pontas de cigarro acesas, com as mais vis sevícias que os algozes inventavam para fazer sofrer”, primeira estação) e a esperança na construção do futuro (“Foi na esperança da vitória que o vosso povo de Timor lutou. Vitória pela liberdade, pela independência. Começa uma nova era de esperança e luz.”, décima quinta estação). 

O propósito dos dois autores é claro desde início — “Acompanhamos e vivemos os acontecimentos que se desenrolaram a partir de 1974 até 2006 em Timor Leste. Queremos deixar por escrito este testemunho vivido durante 32 anos.” Não é, assim, uma história vista de fora, mas um relato do vivido, muitas vezes tendo os próprios autores como protagonistas, ainda que a escrita insista no uso da terceira pessoa para se referir à acção dos dois padres, dando a ideia de um certo distanciamento de análise e de memória, embora, por vezes, em situações mais emotivas, surja a primeira pessoa do plural para se referir aos mesmos protagonistas. Umas linhas adiante, a insistência na vivência: “O depoimento que vamos iniciar refere-se à nossa experiência vivida durante 32 anos em Timor Leste. Não é uma narração dos acontecimentos com uma preocupação histórica, mas uma narração de quem viveu e acompanhou o drama do povo de Timor.” Este aspecto vivencial e testemunhal é depois valorizado, justificando possíveis lapsos: “Não nos valemos de documentação histórica, embora a possuíssemos abundantemente, mas a nossa preocupação não é fazer história, mas simplesmente transmitir a nossa experiência”, pois “pretendemos comunicar o que vivemos, ouvimos e sentimos, fazendo ao mesmo tempo uma reflexão pessoal.”

Assiste o leitor à confusão política em Timor a partir de Agosto de 1975 (mês de golpe e de contra-golpe em busca do poder), à crescente entrada da Indonésia no território, numa marcha prenunciadora da invasão como “acontecimento inevitável”, que viria a acontecer em 7 de Dezembro desse ano, depois de, em 28 de Novembro, ter sido proclamada a independência timorense. “Vivíamos juntamente com o povo uma ansiedade pela incerteza das ameaças que sentíamos, prevendo que a guerra se aproximava de nós”, confessam os autores.

O dia da invasão, 7 de Dezembro, é apresentado com as pinceladas da guerra: “Pelas cinco horas da madrugada, passavam pelos céus de Díli, a baixa altitude, vários aviões indonésios que lançavam vagas de paraquedistas (...). A baía de Díli, naquela manhã contava cerca de 22 navios de guerra e transportes de barcos de apoio. Frente à praia dos coqueiros, começaram a desembarcar das barcaças tanques anfíbios, disparando canhões à medida que se aproximavam da terra (...). Vários batalhões de marines invadiam Díli. Foi a partir deste momento que começou a grande carnificina, matando quase indiscriminadamente membros da população que não eram rapidamente identificados, ou simplesmente mortos à rajada.”

A partir daqui, foi a fuga das populações para a montanha, o início de um tempo que não foi só de êxodo, mas também de genocídio, em que nada foi poupado, incluindo os edifícios religiosos, onde diversas congregações, designadamente os jesuítas, davam apoio à população, e onde havia o propósito de fazer desaparecer a língua portuguesa — um dia, os militares visitaram a residência onde os jesuítas ficaram após a destruição parcial do seminário e, ao verem já ordenado o que sobrara da biblioteca, “sugeriram que queimássemos os livros. Na verdade, eram livros em língua portuguesa. Nós sorrimos em sinal de que não o faríamos. Acabar com a língua portuguesa era a palavra de ordem.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1800, 2026-07-15, pg. 10.


terça-feira, 7 de julho de 2026

Obrigado, Padre João Felgueiras!



As cerimónias fúnebres do jesuíta João Felgueiras (9.Jun.1921-3.Jul.2026) aconteceram hoje em Díli. Conheci o Padre João Felgueiras em Cernache, no Colégio Apostólico da Imaculada Conceição, no final dos anos 60. Tive-o como professor e como educador. A sua serenidade e a sua humildade, a sua disponibilidade e bonomia marcaram-me, bem como a muitos dos meus colegas. Fui tendo notícias sobre ele através de amigos que com ele se cruzaram em Timor e a partir do livro Nossas Memórias de Vida em Timor, que redigiu em co-autoria com o jesuíta José Alves Martins (1941-2022). Ainda há poucos dias me regozijava com os seus 105 anos. Hoje, é um dia triste. Obrigado pelo que nos ensinou e pelo seu compromisso com a Humanidade, Padre Felgueiras.


terça-feira, 26 de setembro de 2017

Memória: D. Manuel Martins (1927-2017)




Dos 90 anos de D. Manuel Martins se poderá dizer que integraram uma vida repleta, pelo menos no que a nós nos foi permitido observar. Mas foi sobretudo uma vida de compromisso e de dedicação, de boa e oportuna provocação e inquietação. Dir-se-á que não fez mais do que aquilo que devia. É verdade, mas os homens homenageiam-se porque fazem o que devem (e a isso se dão) e, por isso mesmo, devem ser lembrados como exemplo.
Partiu anteontem, desceu hoje à terra e as saudades do tempo em que o ouvíamos ou em que com ele pudemos privar são já muitas. Estou grato por o ter conhecido e por ter sido o “meu” bispo. Pelas histórias de que foi protagonista, sempre mostrando o lado bom e sempre questionando o nosso estar; pelas verdades que apregoou, comentou e ensinou; pelas tomadas de posição abertas, claras (recordo de imediato e de memória a entrevista em que, estando o caso de Timor ao rubro, dizia ao jornalista Armando Pires: “Se Timor morrer como povo, será por nossa culpa, por nossa tão grande culpa”); pela igreja que quis que a comunidade sadina fosse e pela universalidade por que sempre pugnou; pelos textos que escreveu, cheios de uma simplicidade transbordante e em torno de verdades fundamentais. E ainda, a título pessoal: pela confiança que demonstrou ao convidar-me para ser correspondente da Renascença para a vida da Igreja da diocese (cargo que desempenhei durante quase dois anos), pela amizade com que me distinguiu, pelas conversas (poucas) que tivemos, pelo incentivo ao trabalho em projectos em que me envolvi (foi insistente o entusiasmo de D. Manuel em acompanhar o que se ia fazendo a propósito de Sebastião da Gama). Tenho de terminar como comecei: estou-lhe grato pelo que com ele aprendi. Obrigado, D. Manuel Martins!

terça-feira, 29 de novembro de 2016

José António Cabrita - "Na Lonjura de Timor" apresentado ontem em Pinhal Novo



De Timor dizia o Livro de Leitura da 4ª Classe, com aprovação oficial e de seguimento universal, que era “a mais distante província portuguesa”, entrando por indicações curtas sobre a paisagem, a agricultura, o clima e as produções, tudo lavrado em meia página. Esta ideia da distância pretendia afirmar a extensão geográfica do que era o Portugal de então, bem para fora dos seus limites europeus da actualidade, passando por África e pela Ásia, uma distância que Camões, dirigindo-se ao rei, perifrasticamente registou como o tamanho de um “império” que “o Sol, logo em nascendo, vê primeiro”.
Estas duas dimensões, da distância e da poesia, afloraram logo que vi o título da obra de José António Cabrita que aqui nos traz hoje - Na Lonjura de Timor (Díli: Crocodilo Azul, 2016). Contudo, a ideia da “lonjura” como distância foi a que se impôs, ainda que eivada de travos de sonho, que foi o ingrediente que continuou a animar muitas das personagens que povoam este livro, independentemente das circunstâncias que as contornaram.
A distância, que pode ser medida por aquilo que há para percorrer, foi conveniente para as situações relatadas nesta obra - porque a lonjura é meio caminho andado para o afastamento e o esquecimento, porque a lonjura foi usada como castigo imposto por quaisquer deuses, muitas vezes ignorando-se o porquê da pena.
Do que trata o livro é-nos dito pelo seu autor logo na abertura - “Este texto é sobre certos acontecimentos passados na lonjura de Timor. É sobre uma parte dolorosa dessa maneira de ser e de fazer que, em sons lusos espalhados por esse mundo, se expressa. É sobre desterros de pessoas.” Umas frases adiante, alinha-se o método e confirma-se o assunto, dizendo-se que este livro é o conjunto de “umas tantas nótulas inacabadas, para certas cogitações sobre um tempo que foi de deportados em Timor, quando colónia portuguesa”.
“Nótulas”, diz o autor, usando um termo que vai repetir ao longo das duas centenas de páginas, como a lembrar ao leitor que se está perante um trabalho aberto, em curso. “Nótulas”, que vão dando conta de uma investigação, materializada em procura aturada, com recurso a jornais, escritos memorialísticos, estudos, arquivos, testemunhos orais e também conjecturas, numa tentativa de estabelecer caminhos e de resolver o jogo de descoberta e de lembrança de protagonistas que foram heróis das suas vidas e, em vários casos, referências para os outros.
E, quanto ao assunto, lá está a afirmação e a conveniência da distância - Timor como terra de deportados, lá bem longe, recolhendo aqueles a quem as ordens mandaram que saíssem do seu porto, do seu círculo de convivência e de vida, lá bem longe, em terra pouco conhecida e mesmo desamparada, fosse pelo desconhecimento dela, fosse pela distância.
Recua José António Cabrita até meados do século XIX, quando, em 1857, o governador de Timor Luís Augusto de Almeida Macedo enviou ao reino uma “relação dos degredados” que ali cumpriam sentença, pouco mais de uma dúzia, condenados com o argumento de serem ladrões ou vadios ou “resistentes a uma escolta”, de vários não se sabendo “a culpa que lhes fora imputada”. Eram estes homens provenientes maioritariamente de Portugal (uns condenados em Macau, outros em Goa), outros de Macau, um “africano”, um de Timor, sendo que de vários não consta a origem. O mesmo governador oficiaria ainda achando a “terra imprópria para degredados, uma vez que se mostravam muito fáceis os caminhos de fuga”.
Este mais recuado caso referido alimenta logo o estatuto colado ao deportado: alguém indesejado, alguém a ser proscrito da sociedade, alguém a quem não deve ser dada hipótese de regresso, um prisioneiro da distância e do isolamento, afinal.
Por Timor foram estando degredados militares, degredados de oposição ao poder e uma série de indesejados. Por lá passaram companheiros de Gungunhana, “índios ingleses” que se tinham revoltado contra o governo das Índias e outros revoltosos da Índia. Por Timor foram estando sobretudo opositores aos governos, pessoas que pensavam diferente - em 1896, uma lei da responsabilidade de João Franco estabelecia a deportação para as colónias para os “acusados de professar doutrinas de anarquismo conducentes à prática desses actos”.
E é por histórias da vida de algumas destas personagens que o livro de José António Cabrita se deixa levar. Ao mesmo tempo que o leitor vai tendo a noção dos exageros da decisão de deportação, vai-se também confrontando com as histórias de homens proibidos dentro de uma história maior que foi a da censura e do controlo das ideias, independentemente da cor do poder.
De alguns desses homens, pelo que significaram, este livro avança com percursos biográficos feitos palmo a palmo, muito numa prática de reconstituição assumida como difícil por falta de meios, seja por escassez de informações de pormenor, seja por desaparecimento ou destruição de arquivos, seja por desgaste da memória, ausências que dificultam o trabalho do investigador.
As biografias de deportação constantes nesta obra assentam em figuras que acabaram por ser emblemáticas pelo seu protagonismo, chegam recheadas de muitas outras pequenas histórias, numa “escrita de volteios”, como, quase no final, qualifica o investigador o seu trabalho. Mencionem-se então os casos: Antero Tavares de Carvalho, de Côja (Arganil), deportado para Timor em 1896 “por anarquismo”, que ascendeu a vários lugares da administração, tendo, quando findou o seu estatuto de deportado, chegado a presidente da Câmara de Luanda e, depois, a Governador-Geral interino de Angola (como nota de história local: um António Tavares de Carvalho, irmão deste Antero, exerceu as funções de tabelião em Lisboa, tendo sido, em 1909, aquele que certificou o testamento de José Maria dos Santos, homem bem ligado a Pinhal Novo); Joaquim António Pereira, conhecido como “Bela Kun”, de Sesimbra, várias vezes preso e acusado de envolvimento em atentado contra Ferreira do Amaral, comandante da polícia, e de ser “anarquista perigoso, comunista”, deportado para Guiné em 1925 e, dois anos depois, para Timor, onde viria a morrer em 1929; António Augusto Dias Antunes (que fora Governador da Província de Angola), Fernando Pais Teles de Utra Machado (que fora Governador de Angola e participara na Primeira Grande Guerra e fora Ministro das Colónias) e Helder Armando dos Santos Ribeiro (participante da Primeira Grande Guerra, ministro em diversas ocasiões e deputado), três militares acusados de envolvimento no movimento revolucionário de 26 de Agosto de 1931, deportados para Timor no início de Setembro; Manuel Viegas Carrascalão, de S. Brás de Alportel, tipógrafo, activista sindical, várias vezes preso, deportado em 1927, vindo a tornar-se numa figura influente do ponto de vista económico, social e político em Timor; Carlos Cal Brandão, advogado portuense, preso por se ter recusado a pagar multa aplicada por ter presidido a encontro das academias de três centros universitários, deportado em 1931 para Cabo Verde e, depois, para Timor, chegando a merecer prestígio mesmo entre adeptos do Governo e participando contra a invasão japonesa de 1945; Mário Lopes da Silva, são-tomense, opositor do regime, deportado em 1947, com residência fixada em Ataúro, depois de também ter sido expulso da Guiné, vindo a ser nome importante na economia timorense.
De todos os deportados, são estes oito que mais páginas enchem neste Na Lonjura de Timor. E o leitor vai sendo conduzido no desvendar dos passos destes protagonistas em avanço lento, cruzando histórias, em avanços e recuos, com olhares para o lado (por onde passam a política, as relações pessoais, a família, as tomadas de posição e intervenientes secundários). As biografias traçadas suscitam a curiosidade porque são um desfiar de histórias, numa reconstrução que o próprio investigador frequentes vezes assume como uma ousadia, afinal outra forma de dar conta das dificuldades sentidas no processo de investigação.
Por estas páginas vão correndo momentos da história de Timor também, particularmente quanto às formas de vida e a diversas etapas do seu desenvolvimento ou quanto à acção japonesa sobre Timor em 1945, tempo de sofrimento, opressão e destruição. Por estas páginas vai deslizando também uma corrente de afecto a Timor – o narrador (que o investigador também é) revela-se assiduamente, chamando a atenção ao leitor ou mostrando as suas dúvidas e descobertas, tornando-se presente num diálogo com o tempo e com a história, não escondendo uma verdade para si essencial, revelada a cerca de duas dezenas de páginas do final: a existência de “uma espécie de elo de ligação que é próprio do fascínio das coisas humanas, da construção e da reconstrução do espaço social onde essas coisas se realizam”.
Também podemos falar de ensinamentos colhidos nesta obra, como sejam: a reflexão sobre a efemeridade do poder, sobretudo se assente em questões de arbitrariedade; a reflexão sobre o poder em si próprio, não esquecendo a relação entre os pequenos poderes e o poder acima dos outros poderes; a reflexão sobre a responsabilidade da atribuição do castigo ou da pena, no caminho da separação de poderes e de competências (a política e a justiça não se podem corromper mutuamente); a reflexão sobre a liberdade de pensamento e sobre o contributo que a diversidade de convicções e de ideias pode prestar para o espaço e tempo comuns. Este é um livro que se aproxima também de um documento humano, mostrando a perfídia do rancor, muitas vezes disfarçada de poder, mostrando que os heróis rapidamente são transformados em vilões e vice-versa, mostrando o predomínio da vontade e a capacidade do ser humano em se adaptar e em ser agente de transformação.
Todas estas razões nos levam a considerar este Na Lonjura de Timor como um bom mergulho na memória, pondo a descoberto razões de fundo para uma tão percepcionada e tão presente imagem da distância em relação a Timor e dando a descobrir momentos de uma história que poderá ajudar a construir identidades e aproximações entre povos que têm vários elementos comuns, a começar nesta língua que, como disse um poeta que nunca foi a Timor, também é a nossa pátria.
(Na apresentação do livro, em Pinhal Novo, ontem,
data em que passaram 41 anos sobre a declaração de independência em Timor)

domingo, 27 de novembro de 2016

Para a agenda - Lições de Timor, por José António Cabrita



O José António Cabrita escreveu um livro muito interessante sobre os deportados em Timor no século XX, com um título que contém algo de poético, Na Lonjura de Timor. Amanhã é a apresentação da obra em Pinhal Novo, no Auditório Municipal, tarefa em que participarei a título de amigo do autor e como leitor. Para já... gostei do livro e da escrita. O suficiente para me comprometer. Estão convidados, porque o autor merece e porque precisamos - oh, se precisamos! - de saber estas (e outras) histórias sobre Timor. Para a agenda!

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Encontro com o Padre João Felgueiras




Há meia dúzia de meses, encontrei na net a referência ao livro Nossas memórias de vida em Timor, testemunho dos padres jesuítas João Felgueiras e José Alves Martins sobre a sua experiência dura e histórica naquele país (Apostolado da Oração, 2010 – 2ª ed.).
Era um reencontro com o padre Felgueiras (n. 1921, na zona de Guimarães), que conheci em Cernache, onde, em 1969/70, foi meu professor de Latim. Por pouco tempo, pois, ainda nesse ano lectivo, rumou para Timor.
Nunca mais nos cruzámos. Ficou-me sempre a saudade de um homem bom, extraordinariamente bom, atento, dedicado, sereno. Ao longo dos anos, várias vezes o recordei e me questionei sobre o que lhe poderia acontecer, mesmo tendo em conta o que se passava em Timor. O encontro com esse livro de memórias foi uma alegria, quer pelo reencontro, quer pelo facto de saber que o padre Felgueiras continua a espalhar imagem igual àquela que me deixou gravada.
Duas amigas minhas estão em Timor há pouco tempo. A ambas recomendei que conhecessem o padre Felgueiras e pedi-lhes que lhe dissessem desta admiração e afecto que mantenho por ele, apesar de saber que não se lembrará do jovem estudante impressionado porque éramos muitos e o tempo de convívio foi curto.
Hoje, a Cristina enviou-me uma mensagem a dizer que tinha conhecido João Felgueiras e a manifestar o seu deslumbramento. Simultaneamente, deu-me as coordenadas de uma reportagem disponível na net, produzida no ano passado, com realização de Carlos Narciso, intitulada “Padre João Felgueiras – Breve peregrinação”. São 21 minutos de testemunho, de encontro com o passado de Timor e com a liberdade, de lembrança e de lição de vida. Aqui fica o testemunho.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O Português, entre os Estados Unidos e Timor

O Diário de Notícias de hoje conta que “o ensino do português como segunda língua nos EUA foi tomado como exemplo por George W. Bush para a forma como o Congresso desbarata o dinheiro dos contribuintes”, informando que, estando Bush a discursar no estado de Indiana, disse: “Alguns dos projectos esbanjadores incluem um museu das prisões, uma escola de vela de ensino a bordo de um catamarã, e um programa de 'português como segunda língua'. O Congresso deve aos contribuintes esforços melhores. E por isso hoje, na Sala Oval, vetei esta proposta de lei”. Em causa estava a proposta de um congressista para a atribuição de uma verba ao Rhode Island College para um Programa de Estudos Lusófonos.
Ora, esta posição do senhor Bush não é para admirar, depois de tantos exemplos caricatos de que tem sido protagonista. A verdade é que existe mais de um milhão de portugueses nos Estados Unidos; a verdade é que Portugal tem dado jeito ao senhor Bush em diversos momentos; a verdade é que a língua portuguesa é uma das mais faladas no mundo, sustenta uma história cultural grande e parece ganhar mais influência; a verdade é que, geograficamente, o senhor Bush está muito próximo de países de línguas latinas, aí incluindo o português; a verdade é que o senhor Bush… tem um respeito que se circunscreve ao umbigo.
Mais destemidos somos nós, que investimos no ensino do inglês logo desde os primeiros anos de estudo. Obviamente, não por respeito para com o senhor Bush, mas por respeito para com nós próprios e por respeitarmos a necessidade de comunicação com o outro, vectores que ao senhor Bush dizem… nada.
Mais corajosos e inteligentes são os timorenses, porque, mesmo lá no canto onde estão, com o Pacífico a separá-los da América e meio mundo a distanciá-los de Portugal, respeitam a sua história e, como refere o Público de hoje, estão apostados no “enraizamento” da língua portuguesa, citando o presidente Ramos-Horta, ainda que isso possa demorar o tempo de duas gerações. A distância entre as duas atitudes tem razões históricas, eu sei; mas também tem respeito pelas identidades e pelo outro. Para Bush, é mais interessante o campo de batalha; para Ramos-Horta, mais importante é o “enraizamento” (belas conotações) do seu país!