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quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Jorge Costa e a condição do “sem-abrigo”


 

“Imaginem o que é viver constantemente na rua, sem um sítio nosso para nos sentarmos a descansar um pouco, sem uma casa de banho para nos lavarmos e fazer as nossas necessidades mais básicas, e sem acesso pessoal a energia eléctrica, sem sítio para arrumar a roupa, guardar a comida, sem nada. Expostos a tudo e a todos, sem privacidade e com uma crescente falta de dignidade.”

Este parágrafo desafiador inicia o relato que Jorge Costa (1967-2022) nos faz na obra Diário de um sem-abrigo (Oficina do Livro, 2022), com prefácios de Marcelo Rebelo de Sousa e de Nuno Markl, narrativa que retrata o quotidiano de um sem-abrigo, não seguindo o género diarístico, mas cultivando a crónica autobiográfica, em catorze textos (inicialmente publicados no jornal Mensagem de Lisboa) que peregrinam pelos dias e noites que o autor viveu nas ruas de Lisboa e pelos sentimentos que o dominaram, cada vez mais próximos daquilo que foi conhecer a ausência de dignidade.

Jorge Costa, contabilista, que não foi sem-abrigo por não ter tentado outras oportunidades (operador de caixa numa gasolineira, operário na construção civil), despedido quando já passara os cinquenta anos, desamparado pelos amigos, rapidamente se confronta com uma dura aprendizagem  - “A sociedade em que estamos inseridos ajuda quem está a subir. Quem está a descer leva um ‘empurrão’ para descer ainda mais.”, sentenças que repetirá no livro por ter sido sentida na pele, num mundo dominado pelas “leis da rua”.

Toda a narrativa é dominada pela emoção, havendo momentos mais intensos - o encontro com a personagem Zé, outro sem-abrigo, que foi “padrinho” e conselheiro; a consciência dos subterfúgios para sobreviver, dramáticos, como o da prostituição nas casas de banho da gare do Oriente; a primeira ida ao contentor do lixo para procurar algo para comer; o assalto de que foi vítima, violento, e o desprezo sentido no mundo dos sem-abrigo; a necessidade de roubar comida nas lojas, contrariando os princípios e as convicções; a constatação de que a única coisa que une os sem-abrigo “é não terem casa para morar, vivendo de forma igual e sendo observados por uma sociedade que lhe coloca uma espécie de rótulo”.

As crónicas deste Diário de um sem-abrigo não pintam as realidades com metáforas. Consegue o leitor sentir o desprezo visto nos olhares, a razão de ser da moeda que é dada, a crueza da linguagem, o abandono e a falta da capacidade de sonhar. O mundo que Jorge Costa frequentou durante oito meses, depois que deixou o seu quarto em Alverca por não ter dinheiro para pagar a mensalidade, ensinou-o a não chorar, a “não revelar aquilo que vai cá dentro”, gestos que só passou para a escrita quando, depois desse tempo, teve direito a uma casa através do projecto “Housing first”, que o mesmo foi ter encontrado um pouco do sonho que o animara no percurso - “só sonhava em viver dignamente.”

No final das catorze crónicas, Jorge Costa reconhece a crueldade da escrita - apesar do equilíbrio físico-emocional reconquistado, “foi duro, foi muito duro escrever estas crónicas”, refere na última, à maneira de balanço e de caução da sinceridade que pôs na escrita. E reconhece também que a sua identidade não podia deixar de fora o que passou nas ruas, tentando definir-se como “um sem-abrigo com casa”. E, da mesma forma que iniciou a série com um desafio ao leitor, conclui com outra provocação - “Um dia destes, dei por mim a pensar que se todos nós sentíssemos a miséria dentro de nós, talvez a miséria não existisse.”

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 903, 2022-08-03, p. 21.


quinta-feira, 28 de abril de 2022

Maria Antónia Palla: as causas e a felicidade



O livro começa com uma evocação dos avós paternos - “Em casa dos meus avós paternos havia um relógio de cuco de madeira preta, que chamava a minha atenção.” A curiosidade despertada pela avezita associava-se ao mistério daquela utilidade até ao momento em que “o avô ensinou a ver as horas”, tempo de deslumbramento “por ter adquirido um conhecimento que já não pertencia só aos adultos”. Aprender a noção de tempo, a mais difícil de se dominar, fez ecoar uma outra, vinda também por intervenção dos avós - “Os avós ensinaram-me muitas coisas. A mais importante, que traçaria o caminho da minha vida, foi a palavra liberdade.” Cerca de uma centena de páginas adiante, a narrativa é rematada, ainda lembrando os avós, com uma alusão a Abril de 2005, quando a autora-narradora tinha já 72 anos, depois de receber a Ordem da Liberdade das mãos de Jorge Sampaio - “Nesse dia, fui ao nosso jazigo, no Alto de S. João, e levei aos meus avós um ramo de rosas vermelhas.”

Quem assim traça o seu auto-retrato é Maria Antónia Palla, no livro O relógio de cuco (Edições Húmus, 2021), coligindo memórias de um tempo compreendido entre a infância e Maio de 2018, quando a Sociedade Portuguesa de Autores lhe atribuiu a Medalha de Honra.

Ao longo da narrativa, que segue o rumo cronológico, a escrita é predominantemente substantiva, resguardando a adjectivação para o essencial, consequência da prática jornalística - “O jornalismo foi a minha única profissão. É um trabalho exigente, física e intelectualmente, que exerci com prazer e paixão.” -,  característica que assinalará ao comentar a frase “ela escreve como um homem”, proferida pelo director do “Século Ilustrado”, Francisco Mata, aquando da sua entrada para colaboradora desta publicação - “Penso que ele queria dizer que eu escrevia sem manifestações de estados de alma.”

Se a infância e a juventude, os casamentos, a morte da filha e a chegada do filho se cruzam nesta retrospectiva, dois outros aspectos determinam o conteúdo essencial desta narrativa - a profissão e as causas abraçadas.

O percurso de jornalista lembra momentos tensos - como a proibição sofrida para não publicar trabalhos sobre pedofilia ou fazendo o balanço do Maio de 68, a confusão surgida em 1976 a partir de uma reportagem para a televisão sobre o aborto (que a levaria até ao banco dos réus) ou ainda a descoberta de que as notícias sobre os movimentos de libertação de Angola em 1974 eram “cozinhadas” para favorecimento do partido que chegou ao poder -, embora também por lá passem momentos de fulgor - como o da reportagem de 1970 sobre o carnaval brasileiro enquanto fenómeno social e cultural ou o encontro com Jonas Savimbi na Jamba, entre outros.

Linha forte neste O relógio de cuco é também o envolvimento que liga Maria Antónia Palla às causas que assumiu, rememorando-as com entusiasmo - desde logo, a construção da sua autonomia em jovem, reagindo a uma certa “ditadura em casa”, passando depois por marcos como o feminismo, o sindicalismo, a formação da Liga dos Direitos das Mulheres e do Forum Paz e Democracia em Angola, a Caixa de Previdência dos Jornalistas, a biblioteca feminista Ana de Castro Osório, entre outras.

Quase no final, em jeito de balanço, assume: “Tenho 88 anos. Este autorretrato custou-me a desenhar. É difícil olhar para dentro de nós e seleccionar o que achamos mais importante e pode, eventualmente, interessar a outros.” E, inspirada por Maria Lamas, remata: “A felicidade não existe. O que felizmente existem são momentos de felicidade. Nós, mulheres, devemo-nos preparar para isso.”

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 835, 2022-04-27, p. 8.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ruben A.: liberdade no pensamento e na escrita


 

“Para os que quiserem dados objectivos de catalogação, informo que nasci no dia 26 de Maio de 1920, na Praça do Rio de Janeiro, número 25, 1º andar, em quarto que dá para o jardim chamado do Príncipe Real e que tem por lá a árvore mais extraordinária da cidade de Lisboa. Até essa altura eu era propriedade de minha Mãe.” O aviso consta na abertura do primeiro volume de O mundo à minha procura (1964), de Ruben A., nome literário de Ruben Alfredo Andresen Leitão (1920-1975), obra que teve mais dois volumes (1966 e 1968).

A escrita autobiográfica é uma das partes significativas da bibliografia de Ruben A. - Páginas (seis volumes, entre 1949 e 1970) e Um adeus aos deuses (1963) são os restantes títulos, todos com uma escrita vertiginosa, alheia a escolas, única, ao ritmo dos acontecimentos, que alia a cultura, a alegria, o gosto e as histórias intensas de uma vida, contada desde a infância, num misto de memórias, diário, relato de viagens, ironia, literatura, reflexão, inovação - “Escrevo por uma necessidade vital, biológica, fisiológica, anti-séptica, antibiótica.” (Páginas, VI).

Esta intensidade trouxe-lhe amarguras logo no segundo volume de Páginas (1950): lido por Salazar, Ruben A. foi levado a abandonar o leitorado no King’s College e iniciar uma peregrinação difícil, mas sem que o entusiasmo o abandonasse. A escrita, essa, prosseguiria - “um tipo como eu sem caneta é como missa sem padre” (Páginas, III, 1956).

Ao longo dos dez volumes, surge também o retrato social do seu tempo nos mais variados planos. Apreciador do belo em todas as áreas, defende que “a classe de uma pessoa provém 75 por cento da boa educação, 20 por cento da cultura e os outros cinco por cento distribuídos por vários factores mais ou menos racionais” (Páginas, IV, 1960), apontando referências - “Classe: existir no mundo um museu onde só é permitido tocar Bach e Beethoven” (Páginas, I); também Inês de Castro, “a mulher com mais categoria na nossa pátria de pouca história de mulheres para contar” (O mundo à minha procura, II). Em oposição, cria uma personagem como o Dr. Barbosa e Costa, que passa aqui e ali, “a figura mais notável da minha imagística pessoal” (Páginas, VI), para justificar, talvez, que “raras vezes os títulos, os cargos, ou os canudos mudam a coluna dorsal instalada no esqueleto do indivíduo” (O mundo à minha procura, III).

O ideal estético levou-o à Grécia (com esfuziante relato em Um adeus aos deuses), onde visitou nu o Museu Nacional de Atenas - “disse ao director que para ver bem o museu tinha de me despir (...). Meus Deuses, foi a primeira vez que vi as estátuas contentes”. Assim exprimia o desejo “total, absoluto, de penetrar naquele mundo” das esculturas helénicas, autenticidade também experimentada quando, em Epidauro, teve necessidade de ler Ésquilo em voz alta no teatro, surpreendendo os outros visitantes.

A construção da liberdade passa por vivências como a república coimbrã “Babaouo”, a viagem num táxi londrino de 1933 (o “Lord Snob”) de Inglaterra até Carreço, a distinção acutilante entre o Ruben A. e o Ruben B., a invenção de palavras, um mundo em que cada vez se vê “menos teórico nas coisas da vida”.

Miguel Torga, que lhe foi próximo, classificou a escrita de Ruben A., quando soube do seu falecimento, como “a singularidade de um estilo desabusado, emblematicamente vivido” (Diário, XII), traços que devem determinar a sua leitura e o apreço do leitor de hoje.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 528, 2020-12-16, p. 2.

 

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

João Coelho e Salvador Peres: Correspondência entre amigos que pensam a vida e o mundo



Quando se escreve a alguém, o acto é feito com o objectivo de ser obtida resposta, mas, em primeiro lugar, surge a intenção de que se seja lido. Andrée Rocha, no seu estudo A Epistolografia em Portugal (1965), refere que, “no acto de ser escrita, a carta dirige-se, normalmente, a um leitor vivo e único”, defendendo que ela deve ser lida “sem perder nunca de vista a repercussão que provocou nesse correspondente”. Estabelece-se assim o sentido que uma carta faz: só fica completo quando, do outro lado, está alguém, o destinatário da missiva, disposto a ler, a reagir.
Assim adquire sentido um título como Está alguém desse lado?, volume de correspondência entre João Coelho e Salvador Peres (Lisboa: Chiado Editora, 2016), mensagens trocadas num período de cerca de duas décadas, entre 1993 e 2015, muito embora os anos de 1995, 1999 a 2001 e 2013 estejam em branco quanto a comunicação. No total, 112 cartas, sendo metade de cada um dos autores, apesar de essa colaboração equitativa não corresponder exactamente a pergunta e resposta.
Ao longo destas mensagens, veiculadas por correio electrónico, o compromisso não é com uma história, mas com o prazer de escrever e de ensaiar, por aqui passando reflexões assentes em: histórias (como a do pescador que deixou uma enguia no buraco de uma árvore na floresta, contada por João Coelho); jogos de palavras (um deles, longo, quase imparável, deve-se a João Coelho, sobre a dúvida e a circularidade entre os primeiros e os últimos); momentos de romantismo e de poesia (como um desabafo sobre o mar, sentido por Salvador Peres); humor (como aquele momento em que João Coelho responde a Salvador Peres “Quanto à tua dúvida sobre se Deus saberá, escrevi-lhe ontem a pedir confirmação, como mandei a carta por correio azul espero que a resposta seja rápida”); locais (de que é exemplo magno o momento em que Salvador Peres tenta explicar a magia da Arrábida); actualidade (como o desafio proposto por João Coelho de se imaginar uma discussão sobre o país à volta de “uma mesa de reuniões oval muito grande”); vida (como a amarga verificação do que é hoje a rua - muita coisa menos “um lugar de paragem, de construção do mundo”, como diz João Coelho).
Também vão circulando nomes e referências da arte e da cultura por linhas em que o dizer se cruza com figuras como Platão, Álvaro de Campos, Bocage, Luísa Todi, Bernardim Ribeiro, Eça, Saramago, Agostinho da Silva, José Afonso ou Piazzolla. Habitualmente, há uma provocação, em tom sério ou de riso, e daí parte-se para o espaço da escrita, por vezes no mesmo dia, muitas vezes depois de o tempo se acumular. É de João Coelho (2 de Julho de 1998) a explicação: “Quando se escreve podem-se criar universos novos, diferentes, estimular a imaginação, não tendo de se ficar preso ao real. Podem-se ultrapassar muitas fronteiras e erguer algumas.” O mesmo autor, oito anos depois (24 de Outubro de 2006), confessa: “Eu apenas opino e brinco, não leves a mal.” E Salvador Peres justifica a entrada no jogo (1 de Setembro de 2004): “Foi bem oportuno o teu texto. Obrigou-me a escrever e isso é já um começo.” Estes desafios e justificações (serão?) não se repetem, mas o leitor tem a sensação de que eles estão sempre presentes, em cada interpelação e em cada resposta, em cada pergunta e em cada especulação.
Os pontos de vista abraçam-se nas diferenças e na chegada a momentos de partilha, com um discurso directo e, muitas vezes, acutilante, como defende Salvador Peres (17 de Julho de 2014): “Ser afectivo sem ser lamechas é um exercício nem sempre fácil de conseguir. Eu não gosto, de todo, do registo fofinho. Prefiro as subtilezas da ironia e o gume afiado do humor.”
Este livro conduz o leitor a momentos de encontro com o mundo, possibilidade que acaba por responder à provocação que o próprio título, produzido em uníssono pelos dois autores, pode ser: claro que tem de estar alguém deste lado, claro que deve estar alguém deste lado! Para que estas cartas agora publicadas façam sentido. Elisabete Caramelo, que prefaciou a escolha dos autores, termina a sua apresentação dizendo que este livro é “a narrativa de quem não está fechado no seu pequeno mundo e mostra, todos os dias, que ser humano é pensar e sentir e protestar e agir e, sobretudo, imaginar”. Eis a razão por que é obrigatório estar alguém deste lado!

Sublinhados
Absoluto - “O absoluto está fora do alcance da nossa razão. Um ser limitado e condicionado temporalmente como nós não pode ter a pretensão de o conhecer.” (Salvador Peres, pg. 99)
Anonimato - “É penoso não falarmos de nós. Não há pior sina do que o anonimato. A alternativa a não se ser mediático, nos tempos que correm, é ser uma espécie de vegetal, não comestível, ainda por cima.” (Salvador Peres, pg. 56)
Bom senso - “O bom senso é uma invenção recente. Nunca, na história da humanidade, houve bom senso nem mau senso. As coisas acontecem sempre a despeito de sensos, sejam eles bons ou maus. E se contarmos com o bom senso acordamos mijados. A sabedoria não reside no bom senso, mas sim na posição que ocupamos relativamente às ameaças ou desafios da vida.” (Salvador Peres, pg. 74)
Dizer - “O indizível só se diz por equívoco.” (Salvador Peres, pg. 60)
Escrita - “A escrita não me serve para fixar a memória, antes para criar novas memórias. Isto é, não me é relevante em termos de registo histórico para fixar factos, nem sequer pessoas, mas para fazer emergir factos, pessoas e pensamentos, cuja realidade existe paralelamente ou para além do mundo real.” (João Coelho, pg. 117)
Fala / Escrita - “A escrita, por ser um acto reflexivo e analítico, é, por excelência, o discurso da inteligência. A fala, pelo seu carácter mediático e informal, é mais o discurso do afecto. A escrita luta para ordenar o espírito. A fala é, por natureza, dissimuladora e desestabilizadora. Uma constrói, outra desconstrói. Ambas são necessárias para tentar perceber as fronteiras.” (Salvador Peres, pg. 92)
Felicidade / Infelicidade - “Ser infeliz não é não ser feliz. A infelicidade é um fenómeno bem mais complexo. A infelicidade não é causada pela ausência de felicidade. A felicidade não se encontra como quem encontra uma pessoa que não víamos há algum tempo. A felicidade é um processo, uma construção que não tem fim à vista. Somos ou não somos felizes no decurso desse processo ou construção. Não somos felizes de forma estática. (...) A ausência de felicidade é um estado neutro, muitas vezes confortável e suficiente para se viver com qualidade. A sofreguidão da felicidade, o querer conquistá-la a qualquer preço, isso sim, pode conduzir a estados de depressão que confusamente se podem confundir com estados de infelicidade. Ser infeliz não é não ser feliz.” (Salvador Peres, pg. 222)
Mudança - “Para o mundo, tanto lhe dá que empreendamos a tarefa de o mudar: ele não muda, quem muda somo nós, isto é, a parte de nós que se convence de que há mudança.” (Salvador Peres, pp. 73-74)
Mundo - “O mundo é nosso no breve instante cósmico em que o sentimos na palma da mão, na ponta da caneta, ou algures, por entre os labirintos da alma, às vezes pelas razões mais simples e aparentemente sem importância.” (Salvador Peres, pg. 101)
Passado - “O passado é um lugar estranho e perturbador. Às vezes, quando o olhamos, parece já não cabermos nele. Não sei se crescemos ou encolhemos: mas caber, não cabemos.” (Salvador Peres, pg. 119)
Perguntar - “As respostas nunca são uma consequência das perguntas, mas sim o contrário, precisamente o inverso.” (Salvador Peres, pg. 68)
Tempo - “O nosso tempo é tangível e curtíssimo. Há, portanto, que aproveitá-lo, vivendo-o o melhor que soubermos e pudermos, com a certeza de que aquilo que somos é único e irrepetível e que não há, tanto quanto se conhece, uma segunda oportunidade: é agora ou nunca! Mesmo na hipótese remota da reencarnação, o que se vive é outro tempo, sem ligação ao anterior, sem lembranças nem saudades de um tempo que não se conheceu e de amigos que se perderam para sempre.” (Salvador Peres, pp. 167-168)
Tempo - “O tempo é a soma de todos os anos passado com todos aqueles que ainda estão por vir.” (Salvador Peres, pg. 17)
Vida - “Esta vida é muito incerta e o que de certo nos for oferecido deve ser tomado a duas mãos, ou a três, se alguém as tiver, para que a nossa vida seja mais feliz e iluminada.” (João Coelho, pg. 32)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Samuel Trezor, "Diferença que nos une"


Diferença que nos une, de Samuel Trezor (n. 1986), recentemente apresentado em Setúbal, em edição de pequena tiragem, é o segundo livro do autor.
Organizado em onze partes, por todas perpassa o louvor à vida e àquilo que a compõe, sofrimento incluído. Construído entre a prosa narrativa e os pequenos poemas, entre o relato autobiográfico e o rap, Diferença que nos une é o trajecto do seu narrador, valorizando as aprendizagens, as pequenas vitórias do quotidiano, os apoios prestados, o amor e a paixão, a solidariedade e o respeito pelo outro, a partilha, ao mesmo tempo que vai alimentando uma homenagem à família, com destaque para a figura da avó, mas por onde passam também a mãe e os irmãos, além dos amigos.
A vertente da aprendizagem ao longo da vida vai acompanhando o percurso deste escrito de Trezor (“não vejo este livro como uma biografia mas como um percurso de alguém que está em permanente busca, à procura de algo”, diz no final do segundo capítulo), tornando-se impressionante a delicadeza posta na descoberta do mundo, a simplicidade com que se fala de Deus, a transparência posta na definição de uma relação amorosa (com transcrição de sms e comentários sobre a paixão vivida) ou a energia que resulta da construção de princípios para a vida.
A linguagem corre simples, quase ao sabor dos sentimentos do momento, marca importante neste discurso testemunhal, mas, talvez por isso mesmo, com um texto a carecer de cuidados de revisão. A leitura é agradável, porém, sobretudo pela dimensão humana e de partilha e também pela espontaneidade que o narrador-poeta insufla no texto.
Sublinhados
Identidade – “A nossa origem é a maior tatuagem que um ser humano pode carregar.”

Vida – “A vida é um ensaio das nossas almas em busca da felicidade que cada homem e mulher veneram e sonham.”