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domingo, 15 de março de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (10)

 


Entre os meses de Junho e Outubro de 1946, Sebastião da Gama pôde ainda ler mais cinco comentários ao seu livro Serra-Mãe, publicados na imprensa, assinados por Dinis da Luz (1915-1988), António Russinho (?-década de 1990), Manuel Antunes (1918-1985), Carlos Relvas (pseudónimo de Armando Filipe Cerejeira Pereira Bacelar, 1919-1998) e Joel Serrão (1919-2008).

Na edição do jornal A Voz, de 10 de Junho, Dinis da Luz reconhecia que Sebastião da Gama ainda estaria “à espera de poiso”, detentor de “uma bela e sonora lira”, que denota “uma independência afoita, sinal de viva personalidade numa idade em que a ousadia dificilmente se furta à tutela dos grandes”, apesar de reconhecer que, de vez em quando, “José Régio sai-lhe ao caminho”. Quanto às marcas de Frei Agostinho da Cruz, o crítico considerava serem “variações modernas, originais, em novas medidas, de uma inspiração antiga”, concluindo o artigo cheio de esperança: “O poeta tem alma suficiente para uma família de cultores da poesia.”

Cerca de duas semanas depois, em 23, no albicastrense Reconquista, A. Russinho interpelava: “Quem conhece o recente livro de poemas Serra-Mãe, com que o jovem poeta Sebastião da Gama se estreou?” Depois, apresentava-o: “Pois este rapaz de 21 anos, aluno da Faculdade de Letras, acaba de gravar o seu nome na já longa lista dos nossos poetas. (...) Nos seus olhos, nas suas palavras, na requintada sensibilidade, enfim, na sua maneira de ser, nota-se que há nele aquele dom com que Deus costuma premiar as grandes almas.” Para cimentar a sua opinião, concluía o artigo com citações das apreciações entretanto publicadas por António Quadros (no jornal Victoria, em Dezembro de 1945) e por Vitorino Nemésio (no Diário Popular, em Fevereiro de 1946).

Na edição da revista Brotéria do mês de Junho, era a vez de o jesuíta e crítico literário Manuel Antunes apontar linhas de leitura da obra iniciática de Sebastião da Gama, cuja voz poética apresentava como “o eco já remoto, mas ainda nítido, da voz lírica e religiosa de Fr. Agostinho da Cruz”, com “muitos e belos cantos, impregnados da mais pura religiosidade”. Elogiando poemas como “Harpa”, “Vida”, “Oração da Tarde”, “Ressurreição” e “Oração de Todas as Horas”, a obra era vista como de um “poeta de vincada personalidade”, que “não se limita a ser o eco, embora remoto, de vozes alheias”, pois “aos motivos, que recebeu de outrem, imprimiu tonalidades próprias”. A obra Serra-Mãe surgia como a de “um poeta de real valor”, eivada de “profundeza e certa originalidade de concepção, um rico e variado poder expressional, feito de ritmo espontâneo, de imagens frescas, rescendentes ainda ao perfume silvestre da Arrábida, e entretecido, a revezes, de belos achados formais”. A concluir o artigo, Manuel Antunes confessava que leu o livro “várias vezes” e que lhe ficou “a grata impressão de que uma nova estrela de brilho invulgar se acendera no céu atormentado da poesia portuguesa dos últimos anos”.

Ainda no mês de Junho, a edição da revista Vértice, pela mão de Carlos Relvas, dedicava texto a Serra-Mãe, numa opinião que assinalava alguns pontos menos positivos: a quantidade de versos inspirados em José Régio (dando exemplos dos poemas “Vida” e “Rebentação”); a serra apresentada como “apenas um ‘suporte’ material para toda a espécie de idealizações do autor”, o que lhe concedia um estatuto de algum “artificialismo literário”; o tom “confessional” utilizado, que não parecia aquele que “mais se coaduna com o temperamento do escritor”. No entanto, Relvas reconhecia nesta obra “inegáveis qualidades de expressão poética que só é pena que não sejam orientadas num sentido mais humano, nem se apresentem mais depuradas pelo senso crítico do autor dos excessos de linguagem”. Reconhecendo as influências dos autores presencistas e de Fernando Pessoa, o crítico admitia, a finalizar, que, “com este livro, fica em aberto se terá qualidades de expressão poética original”.

Igualmente reservada quanto ao sucesso do poeta foi a opinião de Joel Serrão vinda a público na revista Aqui e Além, em Outubro de 1946 (publicação de que Sebastião da Gama foi colaborador, inclusive nesta edição). Num longo artigo, Serrão começava por dizer que este livro “sugere maior número de reservas do que de louvores”, afirmação justificada porque “a maior pecha de quase todos os poemas de Sebastião da Gama é o eles ficarem-se nessa região intermediária entre a expressão pessoal e a expressão poética, que, sendo pessoal, transcende o sujeito que canta”. Confesso admirador do texto “Pequeno Poema”, o crítico reconhecia ao autor “evidente sensibilidade de poeta”, mas ainda sem “uma expressão poética adequada à riqueza do seu mundo emotivo”, apesar de a sua “linguagem poética sobejamente nos evidenciar um poeta pleno de coisas para nos dizer”. No final, Joel Serrão confessava: “A sua poesia interessou-me. (...) Sebastião da Gama revela-se sem dúvida um poeta, independentemente de não ter conquistado ainda a mestria artística sem a qual a poesia dificilmente transborda cá para fora.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1714, 2026-03-11, pg. 2.


sexta-feira, 6 de março de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (9)

 


Duas das críticas mais contundentes a Serra-Mãe apareceriam em Maio de 1946: uma, assinada por Jorge de Sena (1919-1978); outra, por João Gaspar Simões (1903-1987).

No jornal Mundo Literário, de 18 de Maio, Sena intitula o seu longo artigo como “Alguma Poesia e outras considerações desagradáveis”, nele abordando, entre outros, o livro Serra-Mãe, de Sebastião da Gama, parte que se inicia em tom acutilante sobre os novos poetas portugueses — “Há, nitidamente, na mais jovem poesia portuguesa, um retrocesso. Tenho observado, com mágoa, a infinita suficiência destes livros. Quer formal, quer intimamente, estamos na época da ‘Maria-vai-com-as-outras’. E tudo serve: as descobertas ou hábitos formais dos outros, o grande destino do homem (que merecia mais meditação e menos declamação), até a própria habilidade rítmica. Tudo serve, desde que seja possível o indivíduo convencer-se, e aos seus pares, de que é poeta.” O comentário prossegue, em tom mais ou menos metafórico, para criticar a busca das influências nos novos autores, algo que Sena qualifica como uma “miopia extrema”, percebendo-se que as considerações são também para os críticos, sobre quem escreve: “Nunca se publicaram tantas críticas, e nunca, suponho eu, se leram tantos metros de prosa, impressionista, didáctica ou erudita, falando de tudo, menos da essência da obra criticada.” Talvez estas palavras se dirigissem aos que já tinham escrito sobre Serra-Mãe, porque, para Sena, louvar este livro apresentava-se como uma fragilidade: “Aplaudir, hoje, o Sebastião da Gama de Serra-Mãe, sem denunciar que quase sempre repete outros maiores (repetir é diferente de encorporar na própria expressão); aplaudi-lo como, há anos, se aplaudiu um Marques Matias — e deixar rodeado de silêncio um José Régio, que terá muitos defeitos menos o de repetir Sebastião da Gama... — é enganar o poeta de Serra-Mãe.”

Embora Sena enalteça poemas como “Céu”, “Nós”, a primeira metade de “Cortina”, “Elegia desta Manhã” e “Poesia”, o tom das suas observações afigura-se exagerado nos comentários ao uso da sinestesia ou de outras construções e à aproximação à poesia mística: “Observo-lhe que, para ser na Arrábida um poeta místico, não é necessário um misticismo topográfico-literário, que eleva ou abaixa Fr. Agostinho da Cruz à categoria de ‘genius loci’. Que para falar de amor ou dulcificar a voz, não é preciso escrever com ‘soluços do sol’, ‘beijos na alma’, ‘carícias azuis’, ‘luz de seda’, etc.”

Uma dúzia de anos depois, em 1958, ao publicar a terceira série da antologia Líricas Portuguesas, por si organizada e anotada, Jorge de Sena incluía nove poemas de Sebastião da Gama e comentava que “a personalidade de Sebastião da Gama, o seu nobre carácter, a sua simplicidade pessoal, a frescura do seu juvenil e fraterno amor da vida, o seu destino cruel e malogrado, têm complicado muito — com o comovido culto que suscitaram — uma justa apreciação de uma produção poética vasta e irregular como a sua.” Relativamente à evolução dessa obra, acrescentava emergir “pouco a pouco, (...) apesar da tendência do poeta para ver-se como um ser infantil, ignorante, aberto sem discernimento a todas as solicitações da sentimentalidade, uma voz lírica de excepcional frescura, capaz de uma singela concentração expressiva, capaz também de uma fina transcendência do convencionalismo burguês, e fundamente sensível às coisas naturais e ao ar livre”.

A apreciação de João Gaspar Simões apareceu no jornal Sol, em 25 de Maio, também ela eivada de considerações sobre o que a crítica dizia a propósito de Serra-Mãe. Simões, recorde-se, tinha sido um primeiro leitor de Serra-Mãe, a quem o jovem azeitonense entregou os textos para apreciação quanto a publicação pela casa Portugália e, se ignoramos qual foi o comentário exarado, sabemos que a editora não assumiu a publicação. As considerações de Gaspar Simões não terão andado longe do que ficou registado nas páginas de Sol, onde, depois de elogiar o poema de abertura, “Harpa”, considera que, em vários poemas do volume, “a expressão não passa de um penoso exercício literário, onde o mau gosto se espoja correndo parelhas com o pior verbalismo”; que, quanto à religiosidade, “uma das coisas que mais concorre para esfriar qualquer entusiasmo pela poesia de Serra-Mãe é o despropósito com que se lançam súplicas místicas e se fazem protestos de humildade e devoção numa linguagem alheia a qualquer mero sentimento religioso”; que as marcas de Pascoaes, Régio e Sá-Carneiro são “falsas inspirações na sua adequação ao estro exuberantemente verbal que nos parece ser o de Sebastião da Gama.” E termina, entre a decepção e o que se diz sobre o livro: “O certo é que de um verdadeiro poeta ou não, o livro Serra-Mãe é livro que não passa despercebido no nosso movimento literário.”

Estes dois comentários não passaram ao lado para Sebastião da Gama, que, se não deu resposta pública, enviou ao seu amigo David Mourão-Ferreira um poema datado de 26 de Maio de 1946 (o dia seguinte à apreciação de Simões e pouco mais de uma semana depois das palavras de Sena), intitulado “Versos fora dos eixos”: “Estou-me matando prós críticos. / Hei-de cantar o que muito bem me apeteça, / hei-de sentir, hei-de pensar, hei-de berrar o que muito bem me apeteça. / Um grande raio que os parta mais às suas sentenças. // Se me der na maluca desato para aí a dizer palavrões / ou a escrever sonetos de Camões / começados do fim prò princípio / e com os acentos todos trocados. / Ou então (e que têm eles com isso?) não faço nada / senão olhar os Astros, de cócoras, / e fazer certa coisa para eles todos. // (...) // Deixem-me cá sossegado a fazer versos / marrecos ou escorreitos ou anémicos ou cheios de sangue na guelra / mas de toda a maneira versos / — uma coisa melhor que todas as suas pretensões, / todas as suas ciências, todas as suas opiniões, / e que mais belo do que eles só uma flor encarnada a nascer em cima de um telhado / sem se importar de saber se olham pra ela ou não...” 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1709, 2026-03-04, pg. 10.


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (5)

 


Quando Serra-Mãe saiu, Sebastião da Gama empenhou-se na sua divulgação, quer nas ofertas aos amigos e aos mais próximos, quer no envio para quem pudesse ser o seu leitor crítico. Uma das primeiras dedicatórias (talvez a primeira) terá sido para Joana Luísa da Gama, quando, tendo como data o Natal de 1945, o poeta autografou: “Para Ti, Amor, porque sabes ler os meus versos com uma voz que já se não distingue da minha.” Outras dedicatórias autógrafas existem, mas não datadas, ainda que se pense que serão do tempo entre a saída do livro e o ano seguinte — Mário Beirão (1890-1965) recebeu exemplar dedicado com traços da serra (“Para Mário Beirão, alma inquieta provida de clarões, a quem, na Arrábida, desceu a sombra de Agostinho a dar as boas-vindas”); no exemplar que seguiu para Miguel Torga (1907-1995), era manifestada a admiração pela obra já publicada do escritor e médico (“Ao Poeta admirável das Odes e de tudo o mais que me faz ser seu”); Luís Amaro (1923-2018), o amigo que conhecera no espaço da editora, teve o valor da amizade a iluminar a dedicatória (“Para o Luís Amaro: Nada mais me trouxera a Serra-Mãe do que a tua amizade e já tinha valido a pena”).

No mesmo dia 18 de Dezembro de 1945 (data em que o livro apareceu na montra da livraria, em Lisboa), Sebastião da Gama fez seguir um exemplar para José Régio (1901-1969), mas não terá havido resposta imediata, pelo que, em 7 de Fevereiro de 1946, o poeta azeitonense escrevia de novo para Portalegre: “É tão grande o interesse em que leia os meus versos e me diga, sem receio de melindrar-me se lhe não agradarem, o que pensa deles que me atrevi a vir pedir-lhe isso mesmo, contando com a sua benevolência.” Três meses depois, em 25 de Maio, era Teixeira de Pascoaes (1877-1952) o destinatário de uma carta em que o jovem poeta se apresentava: “Deixe-me dizer-lhe quem sou, para me perdoar um pouco a sem-cerimónia que tomei: sou um rapazola de vinte e dois anos que aprendeu a ser Poeta na Serra da Arrábida. Ali fui medrando entre moitas de alecrim e rochas penduradas sobre o Mar – e no Dezembro passado dei ao público o meu primeiro livro – Serra-Mãe. (...) Agora gostaria que lesse os meus versos com um bocadinho de carinho. E, se eles o merecessem, que me mandasse algumas palavras, que hão-de ser sinceras como as árvores, sobre o que sente da Serra-Mãe.”

Em data que não se consegue precisar, Régio respondeu, em jeito de explicação e de apreciação: “Devo dizer que terá tido influência em tal demora a perplexidade que me tolhe ao ter de pronunciar qualquer juízo sobre uma obra como a sua. Claro que esse juízo pode enganar-se ou errar — mas nunca deixar de ser sincero. Perante o meu Amigo, perante as gentilezas que me tem dirigido, e sobretudo pela influência que sinto das minhas coisas literárias no seu livro, a minha situação é ainda mais delicada. Creio que o seu livro é uma obra de hesitação e promessa, na qual o talento literário se torna incontestavelmente visível, como visíveis se tornam as influências várias. (…) É um livro que já promete muito e nos deixa à espera.” De Coimbra, Miguel Torga responderia, em 18 de Maio de 1946: “Nem posso medir o feito nem adivinhar o que está por fazer, louvo o que entendo e espero o porvir de boa-fé. Ora é isso o que me acontece agora com o seu livro. Não gosto de muita coisa que lá vem, e tenho dificuldade em vislumbrar os seus caminhos futuros. Mas estou em presença de um Poeta que escreveu: ‘Pequeno Poema’, ‘Nós’, etc. Resta-me, pois, festejar o que me parece conseguido, que é muito, e dar tempo ao tempo.”

De Amarante, Pascoaes não terá enviado resposta, mesmo apesar de nova insistência saída do Portinho da Arrábida em 6 de Agosto de 1946 — “Há talvez três meses mandei-lhe uma carta e o meu livro Serra-Mãe; sei que não é o senhor desses poetas que se calafetam dentro das suas torres de louros e não abrem a mínima frincha para falarem por ela a um camarada mais novo: por isso mesmo, lhe mandei o livro; e por isso mesmo tenho estranhado o seu silêncio. (...) Gostaria de saber qual o eco, se o tiveram, que os meus versos tiveram nuns e noutros.” Mesmo com esta persistência, parece não ter havido reacção de Pascoaes, uma opinião tanto mais importante para Sebastião da Gama quanto o poeta do Marão tinha já escrito sobre a Arrábida e sobre Frei Agostinho da Cruz. Aquando da sua viagem ao Norte, em meados de Setembro de 1951, acompanhado por Joana Luísa (sua esposa desde Maio desse ano), Sebastião da Gama marcou encontro com Pascoaes, relatado em crónica que publicou no Jornal do Barreiro, em 11 de Outubro de 1951 — da leitura de tal texto se conclui, como apontou António Mateus Vilhena (em ensaio sobre a correspondência de Gama para Pascoaes publicado em 2019), que “um dos assuntos que polarizou o diálogo (...) foi seguramente a Arrábida”. E, de toda a conversa, uma frase de Pascoaes impressionou o visitante: “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.” Não contendo estas afirmações uma apreciação ao livro inaugural do jovem, reforçam, pelo menos, o sentido de oportunidade da obra Serra-Mãe como um momento importante para o canto e para o louvor da Arrábida, pelo que terá sido, talvez, a melhor apreciação que Pascoaes poderia ter feito à obra...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1670, 2026-01-07, pg. 9.


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Alexandrina Pereira e Nuno David dão voz e cor à Arrábida



O livro Arrábida - Entre a Cor e o Verso, de Alexandrina Pereira, com ilustrações de Nuno David, recentemente publicado (com trabalho gráfico de Raul Reis), surge numa aliança de palavra e imagem, ambas criadas para servir a possível descrição dos sentimentos e emoções que a Serra consegue incutir-nos. Comecemos pelos dois primeiros textos, ambos premonitórios quanto ao que vamos encontrar — o de Alexandrina Pereira, que logo confessa resultarem os seus poemas de um “profundo amor pelos cantos e recantos de um lugar mágico e sagrado”, e o de Nuno David, que, num discurso anafórico, demanda, em oito perguntas, se “haverá outra serra” tão importante como a Arrábida pela sua localização e inspiração e como espaço de poetas e de santos, concluindo, de forma absolutamente decisiva: “Haverá? Não, não há!” Com certeza, os dois autores subscreveriam os três primeiros versos do longo poema à Arrábida assinado por Alexandre Herculano, essa referência da cultura portuguesa que bem viveu esta Serra, de dia ou de noite, a partir do Calhariz que o acolheu — “Salvé, ó vale do sul, saudoso e belo! / Salvé, ó pátria da paz, deserto santo, / Onde não ruge a grande voz das turbas!”

Aos referidos textos de abertura, seguem-se 30 poemas, que são outros tantos louvores da Arrábida, ora personificada, ora indescritível, ora magnífica na sua grandiosidade, sempre sugerindo e suscitando poesia, em viagem por caminhos, íngremes umas vezes, apaziguadores noutras, ao encontro da meditação, num trajecto em busca da palavra essencial, do sentido maior, da experimentação do que será uma via da transcendência, da oração, da fé.

Saltitam os versos por atalhos onde crescem o alecrim, a alfazema, o cardo, a esteva, o folhado, a giesta, a madressilva, o medronheiro, a rosa, o rosmaninho, a salva, o trevo ou a urze. Brotam as palavras por entre o respirar do arvoredo, olhando as aves, contemplando a vastidão, ouvindo o silêncio, com um fundo musical de vento e de cor, venha ela do rio ou da Serra, numa oscilação entre o azul e o verde. O discurso do espaço arrábido constrói-se sobre uma sinfonia de vozes rumorejantes — do mar, ali aos pés; do canto das aves, em escalas diversas; do sibilar da folhagem; do esgar sugerido pelo sorriso das flores; da fragrância mesclada no ar; dos esvoaçares que surpreendem ou levam o nosso olhar; das tonalidades de verde entre o azul da água e o azul do céu; dos passos que procuram, restolhando ou enxergando os degraus que conduzem ao céu...

A Serra afigura-se como um cenário grandioso (de dia ou a horas crepusculares, à luz do sol ou em diálogo com as estrelas), onde o poeta constrói o seu altar para a celebração da poesia, um pouco na esteira dos seus muitos antecessores, com os nomes de Agostinho da Cruz e de Sebastião da Gama invocados diversas vezes, num acto de reconhecimento dos percursores que foram nesta celebração da Arrábida como templo de contemplação.

Os seis desenhos que Nuno David apresenta nesta obra abrem espaço para este hino à Arrábida, seja pelas imagens captadas dos caminhos e da amplidão da Serra, seja por aquelas que nos remetem para os recantos onde se exprimem manifestações do sagrado. As tonalidades discretas escolhidas deixam margem para a diversidade de tons que a paisagem apresenta, ao mesmo tempo que o traço adensa a dose de mistério e de descoberta. O olhar é convidado a ir ao encontro do que é mais importante, deixando que o linear escuro tanto sustente a natureza, o chão ou as formas construídas, num jogo entre a perfeição advinda do pormenor e a vastidão a descobrir. Estamos perante um olhar que se deixa impressionar por matizes essenciais e primordiais para o retrato da Arrábida, espaço dominado pela luz e por variações de verde e de azul.

Temos assim o verso e a cor em deambulação por esta Arrábida interiorizada, em poemas curtos de Alexandrina Pereira e em telas fecundas do que é essencial devidas a Nuno David, todas as composições vibrantes entre a grandiosidade dos momentos que o olhar permite e os instantes que prefiguram a reflexão e a oração.

Num texto datado de 1949, publicado na revista Flama, Sebastião da Gama escrevia sobre a serra com quem o Sado se encontra: “O mais difícil não é ir à Arrábida (...). Difícil, difícil, é entendê-la (...).” E, depois, justificava esta dificuldade com a necessidade de cada um demandar, sozinho, “a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido”, o espaço onde “é fácil estar a sós com Deus”, descobertas possíveis pela persistência e pelo silêncio que têm permitido à Serra o seu estado de “meditação que já dura há séculos”. E não deixa de ser oportuno mencionar o aparecimento desta obra de Alexandrina Pereira e de Nuno David quando passam os 80 anos da publicação dessa outra que, por empréstimo, deu nome literário à Arrábida — Serra-Mãe, de Sebastião da Gama, surgida em Dezembro de 1945, primeiro livro do poeta azeitonense, que já invocava Agostinho da Cruz para patrono...

Os autores de Arrábida — Entre a Cor e o Verso, ambos experimentados em escrever e pintar o panorama e o coração da Serra, conseguem levar-nos até essa via do conhecimento que nos exige, a cada dia, “entender” a Arrábida.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1607, 2025-09-24, pg. 2.


sexta-feira, 7 de junho de 2019

Evocar Sebastião da Gama 12 - A Serra-Mãe de Sebastião da Gama


A Arrábida, que Sebastião da Gama baptizou como "Serra-Mãe", na sua relação com o poeta é o tema da crónica que ontem saiu no quinzenário Setúbal Mais (dirigido por Florindo Cardoso) e que aqui partilho.
O mesmo texto foi publicado na edição deste mês do Jornal de Azeitão, mensário que, durante um ano, aceitou a minha colaboração, que agora finda "por motivos editoriais". Aos leitores e ao director do JA, um agradecimento pela atenção que dispensaram.


quarta-feira, 10 de abril de 2019

Sebastião da Gama: No final de uma manhã de Abril... há 95 anos



Segundo o registo oficial, eram 12h30 de 10 de Abril de 1924 quando, numa casa térrea situada no número 88 da Rua José Augusto Coelho, em Azeitão, nasceu Sebastião da Gama. Era o terceiro filho de Sebastião Leal da Gama Júnior (1893-1965) e de Ana Cardoso Leal da Gama (1901-1981), tendo como avós, pelo lado paterno, Sebastião Leal da Gama (de Castanheira de Pera) e Vitória Quaresma (do Montijo), e, por via materna, Artur Cardoso e Leonor Maria Marcelino (ambos de S. Simão).
Os pais do jovem Sebastião já levavam quase quatro anos de família, desde que, em 6 de Maio de 1920, se tinham casado. Ao primeiro filho dessa união foi dado o nome de Artur (nascido em 20 de Fevereiro de 1921, viria a falecer um ano depois, em 25 de Fevereiro); o segundo filho receberia o nome de Sérgio (nasceu duas semanas antes de o irmão falecer, em 10 de Fevereiro de 1922, e seria o de maior longevidade, tendo vivido até 18 de Janeiro de 2005).
Sebastião da Gama pouco tempo viveria na casa onde nasceu, pois, em Outubro de 1924, a família mudou de residência para o prédio com o número 140 na mesma rua José Augusto Coelho, em Vila Nogueira de Azeitão.
No mês seguinte, Novembro, no dia 27, a criança era baptizada na Igreja Paroquial de São Lourenço de Azeitão, em cerimónia que ficou registada pelo padre Manuel Fernandes Barros, sendo padrinhos Gabriel Domingos do Carmo e Josefina Pascoal Cardoso.
Quase nada se sabe da infância de Sebastião da Gama, que decorreu em Azeitão. Relatava a mãe que, muito novo, quando as palavras ainda não eram bem pronunciadas, foi um dia em passeio à Arrábida e, ao chegar a casa, declamou a sua primeira quadra: “Fui passear / à Serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia.” Certo é que estavam ali lançadas as primeiras ideias que associariam o seu livro inaugural, Serra-Mãe, publicado em 1945, à Arrábida e à maternidade.
As primeiras letras foram aprendidas na Escola Primária de Aldeia Rica (em Azeitão), concluindo as provas do exame do 2º Grau do Ensino Primário Elementar em Setúbal em Julho de 1934. Foi ainda neste ano que Sebastião escreveu aquele que hoje se conhece como o seu mais antigo poema, um conjunto de quadras sobre os reis que governaram Portugal.
O dia do nascimento, deixou-o Sebastião da Gama registado em verso, no texto intitulado “Pequeno Poema” (escrito em 7 de Maio de 1945, um dia depois de os pais terem passado o 25º aniversário de casamento): “Quando eu nasci, / ficou tudo como estava. // Nem homens cortaram veias, / nem o Sol escureceu, / nem houve Estrelas a mais... / Somente, / esquecida das dores, / a minha Mãe sorriu e agradeceu. // Quando eu nasci, não houve nada de novo / senão eu. // As nuvens não se espantaram, / não enlouqueceu ninguém... // Pra que o dia fosse enorme, / bastava / toda a ternura que olhava / nos olhos de minha Mãe...”
Ainda em 1945, este poema teve duas publicações: no livro Serra-Mãe e na revista Aqui e Além. Depois, integrou várias antologias que tomaram a figura da mãe como tema (de que são exemplo as organizadas por Albano Martins, por Paula Mateus ou por José da Cruz Santos); foi ainda interpretado musicalmente pelo grupo marinhense “Os Duques de Quibir” (1989), com arranjos de Quim Cruz e Vadinho; finalmente, foi inserido em variados manuais da disciplina de Português nos diversos níveis de ensino, percurso que foi inaugurado por Virgílio Couto, professor metodólogo que orientou o estágio de Sebastião da Gama na Escola Veiga Beirão, em Lisboa - em 1948, com o título “Quando eu nasci”, o poema foi inserido no manual Leituras II, destinado ao ensino de Português nos cursos técnicos.
Este poema de Sebastião da Gama sobre o dia do nascimento não poderá ser lido sem lembrarmos o soneto camoniano “O dia em que eu nasci”. Contudo, no caso de Sebastião, a evocação traz marcas de felicidade, tónica que acabaria por dominar toda a sua poesia.
A memória de 10 de Abril, o tal dia em que “não houve nada de novo / senão eu” (segundo o poeta), foi dilatada no tempo e associada a valores que Sebastião radicou, tendo também para isso contribuído a decisão tomada pela Câmara Municipal de Setúbal, em 28 de Fevereiro de 2007, de instituir esse dia como Dia Municipal da Arrábida.
Na foto: registo de baptismo de Sebastião da Gama

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A Arrábida nas imagens de Carlos Silveira


Serra-Mãe é o título que Carlos Silveira pediu emprestado a Sebastião da Gama para titular um filme de cerca de 9 minutos, que pode ser visto aqui. Imagens fortes e poderosas, com música adequada, a partir de um olhar, esta visão da Arrábida de Carlos Silveira leva o espectador ao mundo da noite, do mistério, da génese e da espiritualidade. Muito intenso, forte! A ver!