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terça-feira, 12 de julho de 2016

No desporto, parabéns, a todos os títulos... (mesmo que custe aos franceses)



Dizia Rogério Alves há minutos na SIC-Notícias que "Descartes é francês, mas o futebol não é cartesiano". Eis uma lição que muita gente não percebeu, a começar pelos comentadores que eram pró-França no Europeu de Futebol!...
Claro que, no Domingo, Portugal mereceu todos, mas todos, os parabéns no desporto: no atletismo, pelo primeiro lugar de Sara Moreira (meia maratona feminina, em 1h10'19'') e de Patrícia Mamona (triplo salto, de 14,58 m), e pelo terceiro lugar de Jéssica Augusto (meia maratona feminina, em 1h 10'55'') e de Tsanko Arnaudov (lançamento de peso, com 20,59 m); no futebol, com o título de Campeões Europeus, obtido pela Selecção Nacional no Stade de France, com um golo de Eder aos 109'. Tudo, depois de Ana Dulce Félix, ter sido a segunda classificada nos 10 mil metros...
Quanto aos comentários... volte-se ao cartesianismo de que Rogério Alves falou.

domingo, 16 de setembro de 2012

Bonfim, estádio do Vitória Futebol Club, 50 anos


Crachá alusivo ao Estádio do Bonfim, vendido no dia da inauguração, em 1962

Inaugurado em 16 de Setembro de 1962, o Estádio do Bonfim, em Setúbal, constituiu para a cidade e para o Vitória Futebol Clube um momento histórico. Na primeira página de O Setubalense do dia seguinte, passava o entusiasmo sentido na cidade que vestira as cores do clube local: "Foi ontem que a cidade mais plenamente se identificou com o Vitória que seu nome tem, saindo para a rua mal desperto o sol, numa sinfonia de verde-e-branco, pura, espontânea, quente; foi ontem que nesta terra, subitamente, toda a população não entendia outra linguagem que não fosse a linguagem vitoriana, que só o Vitória e o seu Estádio do Bonfim contaram, que nada, naquelas horas, maior importância tinha. Música, foguetes, vivas, abraços, lágrimas e risos, bandeiras e bandeirinhas, balões, pombos, orgulho, Vitória-Vitória, verde-branco, verde-branco, verde-branco, Estádio, festa, homens, mulheres, crianças, aplausos, aplausos, mais aplausos... Foi ontem a Festa do Vitória, a Festa do Estádio. Ai, se ela pudesse ser de novo!..." O cronista prosseguia, levado pela sua costela vitoriana, dizendo que a multidão estava "delirante, ébria de felicidade, louca de alegria, fantasticamente rendida".
O Estádio do Bonfim surgiu numa época áurea da história do clube sadino e coroou o envolvimento de várias equipas de dirigentes, de diversas figuras locais, dos adeptos vitorianos de várias gerações e de uma cidade que, em massa, aderiu à ideia da construção daquele parque de jogos.

PRÓ-ESTÁDIO  DO  VITÓRIA

Em Novembro de 1952, a Comissão Administrativa do Vitória tocou a reunir pelas 22 horas de uma quarta-feira. Segundo O Setubalense, de 8 desse mês, o convite fora extensivo a "todos os Presidentes das Direcções e da Assembleia Geral que pelo Clube [tinham] passado nos seus 42 anos de existência". O motivo de tal encontro estava relacionado com as obras da primeira fase, que deveriam ter início brevemente, havendo a insistência na necessidade da colaboração de todos - o curto texto terminava, de resto, com um apelo dirigido a um público-alvo muito vasto, que implicava o envolvimento do próprio jornal: "é preciso, pois, e desde já que todos, sem excepção, se vão habituando à ideia de que o Estádio só será possível se todos nos unirmos em torno da Comissão Administrativa do Vitória, para, no momento oportuno, podermos afirmar sem hesitações que 'Estamos Prontos'!"
Cerca de uma semana depois, no dia 14, a Comissão Administrativa, presidida por Mário Ledo, foi recebida pelo Ministro do Interior, Trigo de Negreiros, que prometeu colaborar na concretização do "desejado" parque de jogos sadino logo através da publicação de uma portaria, que sairia no dia 20, a conceder a cedência do terreno para tal efeito. Começava assim uma onda de entusiasmo que levaria o clube a divulgar, na edição de O Setubalense de 22, juntamente com a reprodução do ante-projecto do estádio, um público "reconhecimento" ao Governo: "O momento grandioso que em breve se irá construir - o parque de jogos do VFC - ficará, no futuro, a assinalar o esforço dos setubalenses, como padrão de glória e afirmação concreta ao Governo, de que o representante de Setúbal no Futebol Nacional saberá honrar e dignificar através dos tempos a confiança nele agora depositada". Dois dias depois, como se ainda fossem precisos mais argumentos para envolver a cidade, António Alves da Mota assinava um artigo de opinião no mesmo jornal, lembrando: "Quem faz ainda melhor a propaganda da nossa cidade? É o Vitória, quando alcança com denodo e fulgor os seus triunfos!"
A marcha em prol da construção do estádio já começara e, nessa mesma edição do dia 24, O Setubalense noticiava o "içar da bandeira do Vitória nos terrenos do futuro Parque de Jogos", perante uma multidão que engrossara ao longo de um desfile que passara pela Rua de Bocage e Avenida 22 de Dezembro. Para içar a bandeira foi convidado "o mais antigo Presidente das Direcções do clube, Mariano Coelho, o qual desempenhou fielmente, no meio da maior comoção e das lágrimas que lhe corriam pelo rosto". A partir daqui, todo o tipo de ajuda foi chegando, fosse através da oferta e transporte de materiais, fosse por meio de disponibilização de trabalho, fosse por via dos potes-mealheiros espalhados pela cidade para angariação de fundos "pró-estádio do Vitória", tudo pelo apego ao clube, no respeito pela mensagem que constava em faixas de cortejos de ofertas - "Se tens amor a Setúbal ajuda o Vitória".

FESTA  EM  VERDE-BRANCO

Ao longo de uma década, a cidade de Setúbal trabalhou para o estádio. Como referia Machado Pinto num artigo publicado em Junho de 1962, na revista Portugal d'Aquém e d'Além-Mar, tinha havido um primeiro grupo, constituído por Mário Ledo, Manuel Antunes, Leitão Ferreira, Ramos da Costa e Júlio Mourato, que promoveu "a aquisição dos terrenos, a elaboração dos projectos, os aterros, as drenagens, o arrelvamento e a construção das instalações dos chamados desportos pobres", enquanto uma outra comissão, composta por Magalhães Mexia, Humberto Ferreira da Cunha, Jorge Sequeira, Gonçalo Vaz Pinto e Marc Velge, "removeu os obstáculos de ordem vária que protelavam o acabamento, ergueu as bancadas e tornaram o estádio naquela feliz e bela realidade".
O ano de 1962 viu o Vitória ser finalista da Taça de Portugal, tal como já acontecera nas épocas de 1942/43 e de 1953/54. A festa dos resultados inebriava os adeptos de uma equipa que, coordenada por Fernando Vaz, tinha no plantel Galaz, Pompeu, Mateus, Herculano, Quim, Jaime Graça, Suarez, Mourinho, Carriço, Dimas, Alfredo, Manuel Joaquim, Emídio Graça, Polido e Faustino. O técnico Fernando Vaz levara a equipa à 1ª Divisão e, em entrevista a O Setubalense, de 25 de Julho, dizia: "Devo aos jogadores mais que um simples aceno de simpatia, devo-lhes o respeito pelo esforço generoso que realizaram". Simultaneamente, o Presidente da Direcção, Virgílio Saraiva Fernandes, informava que os associados eram dois milhares e meio, um número que, dizia, "não se ajusta nem às necessidades nem à categoria do Vitória".
O grande dia desse ano de 1962 aproximava-se. Por meados de Agosto, o clube divulgou um comunicado anunciando os preços a serem praticados no novo estádio - para lugares cativos (cuja procura estava a ser grande), uma quota mensal de 30$00 e um cartão anual de 200$00; para o topo sul, a quota era de 15$00 mensais.
Finalmente, no dia 16 de Setembro, a cidade vestia-se de verde-branco para inaugurar o estádio, com a presença do Presidente da República, Américo Tomás, e dos ministros das Obras Públicas, Arantes Oliveira, e da Educação Nacional, Lopes de Oliveira. "Mais de 300 mastros com bandeiras davam um ar verdadeiramente de festa, naquele estádio, cuja grandeza é a prova mais evidente do bairrismo de todos os vitorianos", escrevia O Setubalense do dia seguinte. O festival de inauguração rendeu cerca de 200 contos e, no desfile, participaram cerca de milhar e meio de atletas de vários clubes, destacando-se os da região, como Clube de Amadores de Pesca de Setúbal, Clube de Futebol "Os Sadinos", Clube Naval Setubalense, Grupo Desportivo de Palhavã, Clube Boavista de Setúbal, Grupo Desportivo Setubalense "Os 13", Juventude Azeitonense, Palmelense Futebol Clube, Comércio e Indústria e as secções do Vitória, além de agremiações nacionais como o Sporting, o Benfica, o Porto, o Farense e o Olhanense, encerrando com "um grupo constituído pelo respectivo empreiteiro e todos os operários que construíram o estádio".
O jogo da inauguração pôs frente a frente a equipa vitoriana e a Académica, tendo o visitante vencido a partida por 1-0, com golo marcado por Jorge no segundo minuto do encontro. "Não foi a equipa da casa que venceu o jogo da inauguração", escrevia O Setubalense. A desforra vitoriana aconteceria poucos anos depois, quando, no final da "Taça de Portugal" de 1966/67, os setubalenses venceram a Académica por 3-2, assim se sagrando vencedores da "Taça" pela segunda vez.
in Histórias da região de Setúbal e Arrábida
(Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2003)
[foto: António Cunha Bento]

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Parabéns, Selecção Nacional...


... pelo trabalho desempenhado, pelas alegrias dadas, pela "garra" demonstrada, pelo espectáculo de hoje! São vencedores da nossa confiança! Parabéns!

domingo, 17 de junho de 2012

Parabéns, Selecção Nacional!


Com o percurso até aqui feito, depois de tudo, depois de todos... parabéns a toda a equipa, parabéns à Selecção Nacional! Parabéns!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Entre o dia "não" e o futebol que nos cega...


Não sou propriamente um adepto da Selecção Nacional na medida em que também não sou um adepto do futebol. Acompanho estas competições na medida do possível e o possível é pouco.
Vi o primeiro jogo de Portugal (com a Alemanha), mas não vi o jogo de ontem (de Portugal com a Dinamarca). Fui acompanhando o resultado porque me iam noticiando os golos por sms. Não tenho, pois, opinião sobre o jogo.
Hoje, na rádio, ouvi intervenções do público ouvinte sobre o jogo de ontem; ouvi também os títulos das primeiras páginas dos jornais. E, de facto, Camões tinha razão, muita razão, ao ter começado a sua obra maior – Os Lusíadas – com a glória dos portugueses e ao acabá-la com a palavra “inveja”, evolução (!) que ilustra bem, ainda hoje, o que é esta nossa maneira de ser…
A Selecção Nacional merece ser apoiada, incentivada e até criticada; não merece ser insultada. Os jogadores, colectiva ou individualmente, merecem ser apoiados, incentivados e até criticados; não merecem ser insultados. Muitas das vozes que hoje ouvi invectivaram Cristiano Ronaldo com frases próximas do insulto pelo dia de azar que terá tido no jogo de ontem. Se, no próximo jogo, Ronaldo for um bom marcador, as mesmas vozes cantarão hinos de glória ao atleta madeirense. Ou, pela mesquinhez, continuarão a dizer mal, porque o dever dele é… porque lhe pagam para…, etc., etc. Não gostava de ver toda esta gente de palavra desbocada em dia “não”!
Cristiano Ronaldo, como os seus companheiros, merece o nosso apoio, o nosso entendimento humano. Uns e outros têm dado alegrias em momentos diversos aos adeptos. Não se está sempre na mó de cima, todos o sabemos. Porque é que só aceitamos esta verdade para nós e não para os outros?
É este espírito mesquinho, de raiva e de ódio (frequentemente), que nos mata. E que me leva a não nutrir paixão pelo futebol. Mas a Selecção Nacional, pelos altos e baixos que tem tido, merece o meu aplauso. Mesmo sabendo que ganhar o campeonato pode ter a configuração da utopia…

sábado, 20 de novembro de 2010

Vitória Futebol Clube - 100 anos de vida

Correra animado o Verão setubalense de 1910, ainda em tempo de monarquia, graças a D. Bernardo Mesquitela, comandante da canhoneira “Zaire”, que tinha organizado festas desportivas na zona da Quinta da Saboaria.
Apesar de haver alguns clubes já dedicados ao desporto – como o Grupo Académico, o Setubalense Sporting Clube ou o Bonfim Foot-Ball Club –, a verdade é que, depois desse Verão, um jornal dizia que fazia muita falta em Setúbal um clube que se dedicasse à especialidade do futebol.
Fosse ou não por acaso, o mês de Novembro, quando os tempos já eram republicanos, viu nomes como os de Joaquim Venâncio, Manuel Gregório e Henrique Santos a afastarem-se do BFC para erguerem um novo grupo, a que se juntaram Guilherme da Silveira, Gabriel Rouillé, Manuel Reimão e José Preto Chagas, que, em definitivo, em 20 de Novembro, constituíram o Sport Vitória.
A primeira assembleia geral da organização ocorreu em 5 de Maio de 1911, sessão em que Joaquim Correia da Costa propôs a alteração do nome do clube, que, a partir daí, se passaria a chamar Victoria Foot-Ball Club. A partir desta assembleia-geral, foi criada a primeira direcção do clube, constituída por Manuel dos Santos Barreira (presidente), Mário Ledo (vice-presidente), Manuel Reimão (1º secretário), António Ledo (2º secretário), Joaquim Venâncio (tesoureiro) e João Dinis (capitão geral).
Passados 100 anos sobre esse Novembro de separação e de origem de um novo grupo... parabéns, VFC!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Venceu uma equipa!

O Mundial de Futebol acabou ontem e acabou assim: com a Espanha, uma equipa, a levar a taça. Não bastam bons jogadores; são necessárias equipas. Como em tudo...
[foto: Michael Kooren, Reuters, através do sítio do Público]

terça-feira, 29 de junho de 2010

Previsões (fáceis) do jogo de hoje

O sítio do Le Monde atribui um título interessante à notícia sobre o jogo do Mundial de Futebol de hoje: “Espanha-Portugal, a festa dos vizinhos”. No entanto, o texto alusivo a este encontro luso-espanhol termina com algo que contraria o tom festivo do título: “O choque da Península Ibérica entre as segunda e terceira nações da classificação FIFA anuncia-se quente.” O que justifica esta pressão é aquilo que, a dada altura, o articulista diz: em causa está o facto de ambas as selecções pretenderem "integrar o círculo fechado das oito melhores equipas do mundo e responder às imensas esperanças nelas colocadas." Pelo meio, vai ficando a classificação de Cristiano Ronaldo neste Mundial como “enigmático” e como “desconhecido”...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

A goleada

No dia em que Portugal venceu a Coreia do Norte por 7-0 no Mundial de Futebol, na Cidade do Cabo... parabéns à Selecção, com este desenho da bandeira portuguesa feito a partir de tampas plásticas num estabelecimento comercial localizado na estrada Setúbal-Palmela (Miraventos).

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Intervalo (17)

As "Postas de Pescada" da Alzira e o resultado Vitória FC-SL Benfica


Setúbal Life. Setúbal: Pedaços d'Ideias (Associação Cultural), nº 36, 12.Fev.2010

domingo, 23 de agosto de 2009

Romeu Correia, "Desporto Rei" - reler uma obra de 1955 em tempo de início da época futebolística

Concluído no segundo semestre de 1954, Desporto Rei seria editado no ano seguinte (Lisboa: Livraria Clássica Editora). Hoje, passado mais de meio século sobre essa primeira edição, a história narrada mantém actualidade, ainda que devendo caber ao leitor a explicação para os saltos no tempo e a compreensão das mudanças.
Como o título do livro indica, o mundo é o do futebol. A história passa-se “numa pacata vila de província, onde só dois conterrâneos jogavam o futebol, mas com o qual vários especulavam – e a que quase todos assistiam.” Esta informação consta em epígrafe, a abrir a obra, mas encontra ecos em vários pontos da narrativa, como no dia em que a equipa joga com um visitante do Norte, disputando a passagem à divisão principal, e Campos Mota comenta para o director Olímpio Nunes “Hoje, é possível que vendas dez mil garrafas de refrescos… mas, em contrapartida, só dois conterrâneos nossos praticam desporto num concelho de vinte mil habitantes” ou no momento da Assembleia Geral que discutia o futuro do clube e alguém, contestando as políticas seguidas pela Direcção, grita “Queremos desporto! Não queremos negócio!...”
A trama passa-se em torno do Vila Clara Futebol Clube durante o mês de Junho, com uma Direcção que apostara a passagem da equipa para a 1ª Divisão, sobretudo pelo que isso significava em termos de reputação para o clube e para o concelho. É esse lugar que almejam Carvalhinho da Moagem, Joaquim Campino, Soares do hotel, Olímpio Nunes, Valentim da Silva ou Procópio Cabral, directores que pretendiam defender mais a sua posição (e ascensão) social do que o desporto, razões que levam a forte contestação local, com ameaças e maledicência à mistura. Pelos relvados, em representação do Vila Clara, passam nomes como Caralinda, Raposo, Juju (angolano), Horácio, Belarmino, Justo, Torres, Guilherme, Amílcar (o mais disputado) e Gomez e Alonso (ambos argentinos), em torno dos quais há o litígio com base no ordenado a receber, há as questões de origem, há as diferenças de qualidade na prática do jogo e há as relações com a direcção. O fenómeno do futebol faz saltar episódios em torno dos seus menos interessantes aspectos, como a tentativa de suborno de guarda-redes ou de jogador, as negociatas à volta da hipotética transferência de atletas (envolvendo mesmo um simulado rapto de jogador), o vínculo existente entre a permanência dos directores e o dinheiro que cada um foi pondo no clube em prol de uma grandiosidade difícil de atingir.
Mas a história passa também pela vida de vários dos directores, nem todos com um percurso absolutamente correcto ou socialmente aceitável. Por aqui vão passando também as tensões sociais; as relações empregador-empregados; as vidas duplas; o viver para lá das posses; a incapacidade de adaptação de empresários à mudança dos tempos, que vão vendo seus ex-empregados (depois empresários, também) com mais sucesso do que eles próprios, chegando a criar-se uma relação de dependência económica dos primeiros em relação aos segundos pelo recurso ao crédito e às letras.
A caracterização das personagens por parte do narrador é reduzida ao mínimo e abrange sobretudo a função social. O resto fica por conta do leitor, que pode traçar os retratos a partir das atitudes tomadas por cada um dos intervenientes, todos eles constituindo personagens-tipo, todos eles constituindo um panegírico da sociedade de um pequeno meio provinciano (com pretensões à ascensão e ao reconhecimento), em que se cruza a familiaridade e a proximidade com os ódios de estimação ou com as paixões e com os favores.
A escrita é, muitas vezes, teatral, com indicações precisas do tom de voz ou dos gestos das personagens quando intervêm, quase em jeito de didascálias. É sempre uma acção rápida, na tentativa de não ser o narrador ultrapassado pelos acontecimentos. Mesmo quando parece que vai surgir um capítulo longo como o que relata o tão falado encontro futebolístico em tarde domingueira e festivaleira, a verdade é que a notícia do jogo é circunstanciada até à expulsão de jogo de Amílcar (ocorrida algures na segunda parte), ficando o leitor e o narrador sem saber o resultado final, pormenor que só é dado a conhecer no capítulo seguinte, no momento em que uma personagem, que não tinha assistido ao desafio por desprezo, pergunta a transeuntes qual fora o desfecho… e o resultado motiva ainda mais o seu gáudio, da mesma forma que motivará o triste espectáculo vivido nas ruas da vila – cenas de pancadaria entre os adeptos visitados e visitantes, autêntica “batalha campal”, em que até o árbitro teve de receber assistência médica que lhe garantiu “treze costuras no coiro cabeludo” e “metade da cabeça rapada”, além de terem recebido curativos “para cima de trinta pessoas”…
No final, a necessidade de conciliação na vila entre todos os adversários e as diferentes linhas de pensamento para a vida do clube: finalmente, ia ser possível que o desporto voltasse para a prática de todos os interessados, com aulas de educação física e a promessa de construção de uma piscina, a fazer lembrar os “bons tempos da ginástica aplicada, da volta ao concelho em bicicleta, da corrida da légua pelo S. Pedro e dos torneios de basquetebol”.
O romance relata esse tempo de intervalo na prática desportiva para todos, equivalente a cerca de seis meses, desde que a Direcção estabelecera como objectivo olhar apenas para o futebol e com ele querer subir ao grupo de elite que era a divisão magna, recorrendo a jogadores estrangeiros e a treinador estrangeiro também (situações que estimularam algum trato racista). No entanto, a história é cheia de dissabores, o que leva mesmo o narrador, no momento em que é conhecido o caso do rapto de Amílcar, a exclamar: “Enfim! Estava-se perante uma nova tragicomédia!...” A frase, além de nos remeter para o mundo do teatro, justifica-se: ao trágico alia-se o riso e, na verdade, as situações contêm tanto de dramático quanto de hilariante – as cartas anónimas, a derrota no jogo, o rapto do jogador, a luta campal, a disputa entre as amantes de Carvalhinho… e, a finalizar a história, o roubo dos tijolos e sacos de cimento para a construção da nova piscina.
Do início ao fim, Desporto Rei é essa história de situações tragicómicas, retrato de um tempo, mas também de uma sociedade. No que à cultura desportiva e ao papel dos dirigentes respeita, não sei se as coisas mudaram muito neste meio século passado desde a publicação do livro. Mas continua a ser verdadeiro o princípio estabelecido na abertura da obra: “O Desporto só é escola de perene juventude e felicidade quando, através dele, se atinge o perfeito equilíbrio entre o músculo e o pensamento – síntese ideal que a velha Grécia nos legou no imorredoiro Discóbolo.” E Romeu Correia, ele mesmo desportista e biógrafo de desportistas, sabia do que falava…

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Fernando Mendes lembra o "Jogo sujo"

Fernando Mendes, nome dedicado ao futebol, é, juntamente com Luís Aguilar, o responsável pelo livro Jogo Sujo (Alfragide: Livros d’Hoje / Leya, 2009), título que a editora explicou promocionalmente em capa como sendo a maneira de conhecer “o verdadeiro mundo do futebol português”, ali se aliando “doping, prostituição, favorecimentos financeiros, acidentes de arbitragem e não só”. Um mundo, claro!, e que mundo!...
Quase três décadas andou Fernando Mendes no futebol, passando pelos considerados grandes clubes portugueses. O que sai agora na forma escrita é o testemunho do que de pior enfeita o desporto, de um mundo em que o próprio narrador participou – “Quero salvaguardar que este livro não é nenhum exercício gratuito de desculpabilização. Estou consciente de que, ao longo da minha carreira, participei em situações pouco dignificantes para a minha pessoa e para a verdade desportiva. Mas assumo o que fiz e aceito as minhas culpas no cartório.”
Ao longo do escrito, Fernando Mendes insiste na tecla da honestidade várias vezes, e não esconde ao leitor que a sua intenção é a de “contribuir para informar melhor os que vivem desinformados”. No entanto, a forma como a história é contada, não revelando nomes nem datas precisas, lança o leitor numa onda de suspeição, porque os envolvidos nas histórias contadas podem ser muitos. Questão de defesa, já se vê. Até porque, conforme nota final, numa primeira versão do livro, estavam apontados nomes, locais e datas relativos aos factos relatados, pormenores que saltaram da edição definitiva porque, “infelizmente, o clima de medo e de censura instalado no futebol português tornou impossível juridicamente que essas mesmas pessoas fossem expostas”.
Após a viagem por este testemunho, o leitor pode não ficar com mais informação quanto ao mundo do futebol do que aquela que consta na capa. Mas fica com a palavra de alguém que pretende não esconder e que assume ter aceite o doping enquanto futebolista: “Este livro, cheio de verdades e experiências na primeira pessoa, é um dever cumprido. Um dever para com todos os profissionais e adeptos do futebol. Pode ser que depois do meu relato as pessoas percebem porque é que em determinados momentos em determinados momentos certos jogadores rendem mais ou menos do que se estava à espera. Pode ser que passem a ver o jogador de futebol de uma forma mais humana.” Esta seria uma boa causa para dizer a experiência, embora no leitor possa ficar a dúvida se um testemunho como este (onde nem faltam as manifestações afectuosas para a família, especialmente para as filhas, ou o registo do apreço sentido com “uma boa queca”) conterá os elementos suficientes para esse rosto de humanidade que é necessário dar aos desportistas…
O livro é homenagem a uns tantos homens que com o autor privaram – colegas de jogo, treinadores, dirigentes – mas também uma denúncia do que vai mal no mundo do futebol em que todos esses protagonistas (autor incluído) se movimenta(ra)m.
Coisas que ficam:
De pequenino – “Se há coisa que me faz impressão hoje em dia é olhar para as camadas jovens dos clubes e ver alguns miúdos cheios de manias e balelas. Alguns têm qualidade, mas outros não passam de uns bananas que não sabem fazer nada sozinhos. Actualmente, um miúdo que viva a um quilómetro do campo de treinos precisa que a carrinha do clube o vá buscar a casa.”
Deus e o futebol – “Se Deus um dia resolvesse descer à Terra para vir a Portugal ver um jogo de futebol, esse jogo só poderia ser um Sporting-Benfica. (…) Nada se compara ao sentimento que existe num clássico entre leões e águias. É o derbi de todos os derbies. Faz lembrar as histórias de banda desenhada em que o herói não pode viver sem o vilão.”
Futebol – “O futebol é quase sempre racionalizado pela irracionalidade. (…) Os impropérios são a linguagem natural do futebol.”
Vitória de Setúbal – “Tive oportunidade de assinar o meu nome na história de um dos clubes mais bonitos de Portugal. (…) Serão poucas as equipas que têm uma relação tão afectiva e tão próxima das pessoas da sua terra como a que existe entre o Vitória e a cidade de Setúbal.”
Tudo e nada – “Durante os anos em que andei no mundo da bola, percebi da forma mais cruel que, para ganhar, vale quase tudo. A saúde humana é secundária.”
Retrato(s) – “No futebol, conhecemos muita gente enquanto estamos em alta, mas (salvo raras excepções) a maioria dessas pessoas não vale nada. São falsas, invejosas e perigosas. Além disso, no futebol também somos obrigados a crescer muito depressa. (…) Não aprendemos apenas a jogar futebol, aprendemos tudo o resto: as diversas artimanhas e truques que possamos colocar ao serviço da nossa equipa. Com o passar do tempo, vamos ficando peritos em lidar com colegas, adversários, dirigentes e árbitros.”

sexta-feira, 13 de março de 2009

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da Auto-Estima – 96
Internet tem tudo? – O rapaz só gosta de futebol. A propósito de tudo e de nada, o futebol, especialmente o seu clube, é base para todas as sustentações. Com isto, distrai-se do essencial. Ler? Difícil para o que esteja para lá dos jornais desportivos… Recomendei-lhe um livro com uma história passada no universo do futebol: Desporto Rei, de Romeu Correia. Que o procurasse em biblioteca, porque já há muito tempo que não era reeditado. “Não faz mal, vou à net e faço uma cópia…”, disse-me orgulhoso com a solução. E lá está como se generalizou a ideia de que a net é a salvação de todas as almas! Não é, não. Absolutamente. Não tem tudo, não ensina tudo, não informa tudo. Expliquei-lhe e admirou-se. Ficou mesmo decepcionado com a revelação… Paciência!
Solidariedade – Aproximam-se no intervalo, dizendo que me querem falar. Era por causa de um amigo, colega de turma, que, argumentando querer curtir a vida, estava a transitar em caminhos um pouco esconsos: tabaco e outros fumos, agressividade nas respostas, descida na qualidade de trabalhos realizados na escola, um ar estranho e de solidão e álcool à mistura. Era a minha vez de demonstrar estupefacção… ou de comprovar aquilo de que suspeitava… “Mas tem que se fazer alguma coisa por ele, professor!” “Pois é, somos amigos e amigas dele e não gostamos de o ver assim.” “Lembrámo-nos de vir ter consigo, embora muitas coisas se passem fora da escola…” “Os pais dele não sabem, mas era melhor o professor fazer alguma coisa…” “Connosco, ele também já não liga e quer que o deixemos em paz…” E lá se parte para mais uma história em pedaços, engrenando na solidariedade e amizade dos colegas de turma. É o mínimo a fazer.
Língua Portuguesa – O tratamento que lhe foi dado pelo computador “Magalhães” é inacreditável. Não porque fosse impossível (não foi); não porque seja caso único. O semanário Expresso descobriu-lhe, nas instruções de actividades, 80 erros de ortografia, de acentuação, de sintaxe. Estas instruções eram para ser lidas por alunos. Não houve nenhuma tarefa de revisão linguística, que era o mínimo que devia ter sido feito. Incompetência a vários níveis, claro!
Vida – “A vida dos homens, a sua transformação, é rápida, vertiginosa; a da terra, a das coisas, leva séculos e dá-nos por isso uma impressão de eternidade.” (Américo Olavo, Na Grande Guerra, 1919).

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da Auto-Estima – 95
Carnaval – Os festejos carnavalescos deste ano tiveram animações inusitadas, que conseguiram ser uma paródia ao Carnaval ele mesmo: a primeira foi em Torres Vedras, com a proibição de um quadro satírico alusivo ao “Magalhães” em que apareciam sugeridas figuras femininas desnudadas, um pouco à semelhança das janelas que se abrem na busca na net; a segunda foi em Braga, com a apreensão de livros, numa feira de saldos, em cujas capas constava a reprodução do (ainda agora, pelos vistos) polémico quadro L’Origine du Monde, de Courbet, peça de 1866. Uma e outra interdições surgiram em nome da luta contra a pornografia. Momentos depois de uma e outra acontecerem, as decisões voltaram atrás – em Torres Vedras, o “Magalhães” pôde desfilar mostrando as ditas senhoras; em Braga, os livros foram devolvidos aos seus proprietários. Há duas questões que saltam à vista: a primeira relaciona-se com a liberdade de expressão; a segunda, com a vulnerabilidade de actos do género e com a fragilidade das decisões. O sentido de humor português anda pelas ruas da amargura, parece. Mas não faltam candidatos à caricatura. Houve consequências destes dois actos: ao que consta, o Carnaval de Torres teve muito curioso para ver a origem da proibição depois desfeita; o quadro de Courbet foi reproduzido a esmo, sem cintas censórias.
Futebol – Depois de ver algumas cenas em torno do mundo do futebol, tenho que citar Romeu Correia, o autor almadense que, em 1955, abriu o seu livro Desporto Rei com a seguinte afirmação: “Em desporto, o desenvolvimento físico dos indivíduos importa acima de tudo. Mas, se ao aperfeiçoamento do corpo se alia o domínio dos nervos, a decisão e o espírito de equipa, que se forjam na harmonia e no ritmo dos jogos, o Homem atinge o seu apogeu físico e espiritual.” Isto é bonito. Mas também deve servir para as claques e para o público em geral. A propósito: nesse romance de Romeu Correia, perpassa muito do que é hoje o mundo do futebol. Pena não haver edição recente!
Joaquina Soares – Um livro de poemas com a chancela do Centro de Estudos Bocageanos, Corpo de Palavras. Apresentado em Setúbal na noite desta última sexta-feira de Fevereiro. Um pequeno poema intitulado “Milagre com rosas”: “Defronte da ponte de aço, / Isabel / retirou / pão do regaço. / - Flores? / - Não, meu senhor, / panos de linho, / para sarar cansaços.” A ler.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Para a família vitoriana

O Vitória Futebol Clube lançou uma Caderneta Oficial alusiva à época de 2008/2009, em colecção de centena e meia de cromos que vão muito para lá do acostumado nestas lides de colecções: é que esta Caderneta do clube sadino pretende também contar um pouco da história da instituição, avivar alguma(s) memória(s), apresentar quem faz o clube hoje. Pelos cromos passam os membros da Direcção, os funcionários, a massa associativa e os adeptos, a equipa desta época, algumas das taças que o clube conquistou, os Presidentes da Direcção e alguns momentos da história.
Nas palavras do actual Presidente da Direcção, Luís Lourenço, esta Caderneta “é uma forma diferente de nos mostrarmos, de expormos a nossa actividade, de nos financiarmos, de mostrar que somos muitos e dispostos a deixar a nossa marca na Cidade que amamos”.
A obra conta, pois, um longo percurso iniciado em Novembro de 1910. Cheio de história. Cheio de verde. Cheio de Setúbal. Em que não contam só os ídolos, mas também todos os heróis que, no quotidiano, vão fazendo o clube.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Coisas de que Octávio Machado fala (1)

As finais da Taça de Portugal no Estádio Nacional
"Discutia-se então, como ainda hoje, aliás, o facto de todas as equipas terem de se deslocar a Lisboa para disputarem a final da taça. Os defensores do Jamor argumentavam com a simbologia do Estádio Nacional, o que, quanto a mim, não faz qualquer sentido. Por exemplo, tivemos aqui uma fase final de um Campeonato da Europa e nem um jogo se realizou no Estádio Nacional. Como é que isto se explica? No Estádio Nacional só se disputa a final da taça, não é utilizado para mais nada nem por mais ninguém. Antigamente ainda se podia dizer que a Selecção Nacional jogava lá, porque de facto fazia lá muitos jogos, mas neste momento já nem isso acontece. Serve para treinos, principalmente do Benfica, e pouco mais. Atletismo sim, é muito praticado no Jamor, mas futebol é quase nulo. Nem as selecções jovens lá jogam. Agora, fazer-se a defesa do Estádio Nacional porque tem uma certa simbologia, dizer-se isso é demagogia... No princípio da temporada devia definir-se qual o estádio para a final da Taça de Portugal, como acontece na Liga dos Campeões. É ali naquele estádio e acabou. Todos os anos rodava e assim levar-se-ia a festa da Taça de Portugal, a festa do futebol, a locais diversos do país. Com isso se conseguiria a promoção do futebol, e mesmo em termos turísticos era importante, porque essas regiões também eram promovidas, todos ficavam a ganhar."
Octávio Machado. Vocês sabem do que estou a falar. Col. "Livros d'Hoje". Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008, pg. 55.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Futebol, 1 – Língua Portuguesa, 0

No Público de ontem, sob o título “O futebol pesa mais do que a língua na ligação dos emigrantes portugueses ao país de origem”, assinado por Natália Faria, é dito aquilo que talvez não constitua novidade: «Não falam português, não sabem o que são bolinhos de bacalhau e a imagem que guardam é a de um Portugal rural e atrasado. Os filhos e os netos dos emigrantes portugueses tendem a perder as ligações ao país de origem e isso não é novidade para ninguém. O que é novo é constatar o papel do futebol junto destes luso-descendentes: à boleia de jogadores como Cristiano Ronaldo ou Luís Figo, este desporto está a conseguir "prender" os emigrantes de segunda e terceira geração ao país de origem. E, mais do que isso, afirmou-se, sobretudo a partir do Euro 2004, como a face moderna de Portugal. Resultado: "Aqueles jovens sentiram orgulho pela primeira vez em afirmar aos colegas 'ah, não sei se sabes, mas eu sou descendente de portugueses'", sustentou Nina Clara Tiesler, investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.»
Nina Tiesler, socióloga, é responsável por uma investigação em curso sobre a importância do futebol em seis espaços lusófonos (Inglaterra, Alemanha, EUA, França, Brasil e Moçambique). Se as afirmações acima transcritas não surpreendem em absoluto, também não deverão surpreender algumas razões que a investigadora avança para esta diferença de pesos, conforme reproduz o jornal: «Para ajudar a explicar este cenário, Nina Clara Tiesler começa por explicar por que razão, entre os emigrantes, os elementos que tradicionalmente reproduzem a portugalidade, como a língua, a cultura popular e a política, se vão perdendo de pais para filhos. "Além dos fenómenos normais de assimilação, as 'escolinhas' de português no estrangeiro têm cada vez menos apoios e estão a desaparecer. Claro que alguns pais falam português em casa, mas o que as crianças aprendem é um português pouco sofisticado que nem sabem escrever". Por outro lado, à boleia do mesmo argumento de crise económica, muitas embaixadas e consulados fecham as portas. "Um emigrante que queira votar nas eleições portuguesas tem, por vezes, de andar 300 quilómetros", nota a investigadora.»
Aqui temos como a língua portuguesa tem andado a ser divulgada pelo mundo!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sobre heróis (de ontem e não de hoje...)

Na habitual rubrica “Viagens na história” que assina na revista Tempo Livre, João Aguiar escolheu para título deste mês “Como o tempo passa!” (Tempo Livre. Lisboa: INATEL, nº 195, Julho/Agosto.2008, pg. 54). O texto foi escrito em época das euforias do Euro 2008 e pretende falar de heróis…
Nuno Álvares Pereira (séc. XIV), Luís de Camões (séc. XVI), Luís da Câmara Pestana (1863-1899), Aníbal Augusto Milhais (mais conhecido por “soldado Milhões”, 1895-1970) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952) são os cinco heróis portugueses escolhidos por João Aguiar, homens que, “nos seus diversos domínios, conseguiram realizar obras verdadeiramente importantes que marcaram o rumo da nossa História”, cada um deles por uma boa razão – pela genialidade estratégica e pelo misticismo, pela poesia e pelo aventureirismo, pela luta contra a peste bubónica, pela acção na 1ª Grande Guerra e pelo prestígio na cultura, respectivamente.
E que tem isto tudo a ver com o Euro 2008? Eis a conclusão, de necessária leitura para rejeitarmos os excessos que nos foram impingidos, com a ajudinha costumeira da comunicação social, em tempo de simultaneidade de crise e de construção de heróis:

Poderá já vir um pouco fora de tempo, porque a época do Euro 2008 já passou… Mas esta opinião ajuda a perceber a grandeza dos desgostos assim como os excessos a que aderimos!

sábado, 5 de julho de 2008

Hoje, no "Correio de Setúbal"

DIÁRIO DA AUTO-ESTIMA – 82
Futebol – O desempenho da Selecção Nacional foi o que foi e os resultados são o que são. Teria sido bom que a equipa portuguesa tivesse ido mais longe; mas teria sido muito melhor que essa mesma equipa não tivesse sido transformada (como foi) na poção milagrosa que anestesiou o país por uns tempos. Ainda antes de o campeonato europeu começar, já se apontava Portugal como um provável vencedor, gesto que nos vem dessa mania de que tudo é fácil perante a nossa força e que nos leva a subestimar o empenho dos concorrentes que estão ao nosso lado. Felizmente, o filme acabou e a vida passou a ser mais próxima da realidade – com dificuldades, com agruras, com dores e com alegrias também. Regressávamos de uma anestesia ou de uma ficção como aquelas que vamos construindo para nos alhearmos da dureza quotidiana? Somos um povo de excessos de que a publicidade se vai aproveitando mas com os quais pouco ganhamos. E tem sido muitas vezes assim. Só que teimamos em não aprender…
Sair – Uma boa sugestão para quem viva por Setúbal ou aqui venha é uma ida ao Parque Urbano de Albarquel, recentemente inaugurado. É um passeio alegre, descontraído, higiénico. Longe dos ruídos citadinos (ainda que à saída da cidade), com uma paisagem de cenário feliz, com árvores que vestem a paz, com brisas que nos cumprimentam à passagem. A gente vê e sente e pensa: de que tem Setúbal estado à espera para que haja espaços destes? O que impede que a cidade se volte para as pessoas? A existência daquele espaço leva-nos a pensar que é triste não haver outros idênticos na longa frente que a cidade tem para o Sado, que todos temos andado a desperdiçar tempo de costas voltadas para a beleza que rodeia a cidade. Lamentavelmente. Vale a pena um passeio a este parque também para se ver o que não temos aproveitado.
Ver – Para quem goste de fotografia, aliás, para quem aprecie os momentos do tempo associados aos fragmentos do dia e à vida dos sentidos, uma outra proposta: Fragmentos de Emoção (Lisboa: Editorial Minerva, 2008), antologia de quase meia centena de fotógrafos amadores e amantes dos instantes em que se repara no que está. No total, quase centena e meia de fotografias, por onde perpassa a cor e o preto-e-branco, as coisas e as pessoas, a paisagem e o mundo próximo, os sentimentos e o outro, a luz e a recriação, a vida e a descoberta, o dia e os reflexos, o fascínio e a sensibilidade, a aventura e os afectos. O livro vê-se e lê-se com gosto, assim como num assomar às janelas do mundo para espreitar a energia dos momentos.