domingo, 25 de outubro de 2026

Ana Cristina Silva: verdades de Caxias feitas literatura

 


“Enquanto caminhava, Laura pensava em si como uma personagem de um livro, cujas falas deveriam permanecer em branco.” Está o leitor a acompanhar a personagem principal do romance As Longas Noites de Caxias, de Ana Cristina Silva (Planeta, 2019), logo no capítulo inicial, “Caxias, Maio de 1973”, no dia em que é levada para o Reduto Sul da prisão de Caxias para ser interrogada sobre a sua acção política, tempo em que vai conhecer outra mulher, Leninha, agente da PIDE, que a vai marcar pela brutalidade do trato. Este pensamento atribuído a Laura justifica que se converta em literatura a história do que foi a perseguição política, resultado de pesquisa e de recolha de testemunhos sobre o tratamento dado aos presos em Caxias.

Esta obra (que teve adaptação dramática em 2022 pelo Teatro do Noroeste, de Viana do Castelo, com texto de Ricardo Simões) traz-nos uma história absolutamente perturbante na luta entre as ideias e a repressão, mostrando que devem ser a liberdade e a consciência a singrar nos caminhos da vida.

O romance, dedicado “a todos os resistentes anti-fascistas”, constrói-se sobre 23 capítulos, constando em todos os títulos dois tipos de referências — um local e uma data. A acção vai sendo contada com recuos no tempo, que vão intervalando entre presente e passado a partir do momento em que as duas personagens, Laura e Leninha, se encontraram, em Maio de 1973, na prisão de Caxias.

A primeira história de personagem que vamos acompanhando é a de Laura, desde meados dos anos 50, com início em Mértola, criança “que gostava de dar voz às suas dúvidas” e que, na década seguinte, estará a estudar em Beja, passos de um percurso que a levará a Lisboa no início dos anos 70 para estudar Direito, apaixonando-se pelo estudante José António e assumindo um compromisso político de contestação. A morte deste estudante, em Outubro de 1972, provocada por tiros de um agente da PIDE durante uma reunião de estudantes no Instituto de Ciências Económicas e Financeiras, levará Laura a denunciar ter havido um assassinato, acusação que vai motivar a sua prisão.

A segunda história de personagem diz respeito a Leninha, de seu nome próprio Maria Helena, que recua até aos anos 40, em Setúbal, terra onde nasceu e onde, desde cedo, no dia em que foi com o pai até à Avenida Luísa Todi ver o desfile de recepção a Salazar, sentiu o destino traçado graças a um pequeno acontecimento: “Maria Helena e o pai pararam à frente de uma fila de gente no preciso momento em que o carro de Salazar estacionou. A rapariga sentiu o coração na garganta ao ver aquele homem já idoso dirigir-se a ela. Ele perguntou-lhe o nome, sussurrando-lhe ao ouvido. Como se a sua voz pudesse estilhaçá-la, Maria Helena respondeu num murmúrio. A seguir, quando Salazar lhe beijou a testa e a multidão aplaudiu, soube que aquele era um momento único e que o iria recordar para toda a vida.” O percurso de Leninha seguirá até Lisboa, onde trabalhou na década de 60 como administrativa na Rua António Maria Cardoso e, depois, como agente da PIDE em Caxias, passando a viver em Oeiras.

A última vez em que Laura e Helena se encontram é no Tribunal Militar, em 1977. No fim do julgamento, “passou-lhe pela cabeça a ideia fugaz de lhe dar um murro no estômago, mas quando se cruzou com Leninha esboçou um sorriso ambíguo e fez-lhe um manguito com os dedos, um gesto de silenciosa vingança” e “uma súbita serenidade nasceu daquela bofetada sem mão”. No derradeiro encontro que tem com a amiga Maria José, em 2003, Helena recorda as prisioneiras que castigou, lembrando-se “do prazer sentido ao espancar aquelas mulheres”, e, quando a amiga lhe pergunta se tem remorsos, a resposta é contundente: “Não, nunca me arrependi de nada. Os tempos na PIDE foram os mais felizes da minha vida.”

Algumas personagens que agem neste romance carregam marcas históricas na medida em que as conseguimos reconhecer a partir de acontecimentos no país, como no caso de José António Ribeiro dos Santos (1946-1972), o namorado morto, ou de Leninha, que, mesmo aparecendo com o nome próprio de Helena, se refere à agente da polícia política, a setubalense Maria Madalena Oliveira (1934-2003), ou ainda dos inspectores Óscar Cardoso, Silva Carvalho e Adelino Tinoco, que também integram a história narrada. A autora regista, aliás, numa nota inicial: “esta obra baseia-se em factos verídicos”, sabendo-se, contudo, que alguns “nomes e situações foram ficcionadas”.

As Longas Noites de Caxias, de Ana Cristina Silva, é um romance em que predomina o ambiente psicológico, com uma caracterização de personagens intensa, numa luta contra o medo ou a favor da imposição do medo, não pretendendo nenhuma das personagens convencer a outra, antes mantendo cada uma delas o seu pensar e as suas marcas pessoais até ao fim da narração, em 2003. O ambiente de terror, provocado pela perseguição da polícia política e pelos informadores anónimos, surge caracterizado logo no capítulo inicial: “O medo era pior do que o mar; era um sentimento que se insinuava nas meias palavras, mas também nas pausas entre as palavras.”

Apesar dessa pressão exercida pelo pavor e pelas barbaridades que Helena executou para a fazer falar, Laura é a personagem que vence a agente pelo silêncio quanto ao comprometimento dos outros — “Maria Helena havia sempre de conservar na memória aquela rapariga franzina chamada Laura Branco. Essa presa resistira dezoito dias sem dormir. Nunca dissera nada de comprometedor, pelo contrário, desafiara todos os dias os agentes com as suas provocações. (...) Representara um desafio, tendo suplantado todas as outras detidas.” Uma agente policial derrotada perante a consciência e a convicção da importância de se ser livre...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1849, 2026-10-14, pg. 2.


domingo, 18 de outubro de 2026

João de Melo: escavar a vida com palavras

 


“O diário? Trata-se de um exercício exigente, nada avulso. Precaver-nos continuamente contra a repetição, a rotina, o banal associado à ideia de quotidiano. O meu perde-se na origem da própria fugacidade, mais até do que na fuga para diante — contra o queixume, o lirismo sentimental, o deserto das ideias. Fosse eu filósofo, teria matéria de sobra para outra linguagem. Não o sendo, limito-me a escavar a terra das palavras e das ideias (com as mãos), na busca de uma razão para o que me afronta e me rodeia, perto e longe. É entre as ideias de proximidade e distância que procuro a luz da escrita do meu diário.” O registo é de 20 de Junho de 2024 e consta na obra diarística Novas Fases da Lua (Dom Quixote, 2025), de João de Melo (n. 1949), nome habitualmente associado ao romance e ao conto.

Abrangendo os anos de 2017 a 2024, embora nenhum registo conste de 2020 e de 2022, o título é explicado em nota prévia: a escrita de diário, iniciou-a o autor em 1993, embora sujeita a interrupções, estando o período entre esse ano e 2007 em volume ainda inédito sob o título de Fases da Lua. O propósito desta publicação foi o de assinalar o cinquentenário sobre o aparecimento do primeiro livro do autor, Histórias da Resistência, em 1975 (Prelo Editora).

Pretende-se então com este diário o trabalho da escrita em torno do que rodeia e constitui a vida, deixando marcas, fazendo pensar o mundo, num trabalho de descoberta, de definição e de tomada de posição.

Ao longo destes seis anos de recolha de momentos de reflexão sobre os dias, o tema da escrita como universo pessoal vai surgindo, ora em jeito de balanço ou de reparação, ora com a preocupação do sentido que a escrita dá à vida (motivação de alguns textos; hipóteses de temas e circunstâncias para outras obras; descoberta da escrita infanto-juvenil; sensação resultante das leituras, comentários ou adaptações da própria obra a partir dos outros; momentos de hesitação e eventuais soluções para narrativas iniciadas; angústia perante o ter podido “ir mais além e mais acima” na própria escrita). A leitura, forma de completar um livro, está também presente em muitas páginas, seja pelas notas de leitura de algumas obras específicas (títulos de João Pinto Coelho, Tolstoi, Mário Cláudio, Dimas Simas Lopes, Sérgio Mendes, Fernando Aramburu, Rui Couceiro, Gonçalo M. Tavares ou J. H. Santos Barros, por exemplo), seja por referências a autores, estas resultantes de coincidências na vida ou de cruzamentos com a análise e reflexão sobre os dias (com entradas para nomes como Vitorino Nemésio, José Correia Tavares, Raul Brandão, Urbano Tavares Rodrigues, Tolentino Mendonça, Chico Buarque, Aquilino Ribeiro, Agustina Bessa-Luís, Fernando Namora, José Saramago, Antero de Quental, Cristóvão de Aguiar, Mário de Carvalho ou Nuno Júdice, entre outros).

A presença de tão diversos nomes e obras acaba por ser também o reconhecimento do caminho e do poder da literatura, assumidamente expresso em registo de 25 de Setembro de 2018: “A literatura perderá sempre os seus confrontos com a tecnologia: mas não a sua razão de ser no interior das sociedades, tenham elas o modelo que tiverem. O mundo passa todo pela sua escrita, apontada ao futuro e ao triunfo da luz sobre as trevas do nosso tempo. Enquanto houver linguagem e criação, a literatura será a razão de ser, o degrau, o corrimão que a todos levanta do chão e os leva a subir para o alto.”

 

Em Novas Fases da Lua, o diarista João de Melo valoriza muito o rodar do mundo, assumindo a posição de cidadão atento e com opinião, dando razão ao seu preceito de registar “o que me afronta e me rodeia, perto e longe”. 

As figuras e os acontecimentos marcantes dos anos abrangidos suscitam o comentário atento no diário: o Papa Francisco (“figura despojada de esplendores”, com uma “mensagem de paz dos gestos desprendidos e naturais”, conforme registo de 12.Mai.2017); Donald Trump (o homem que lida com “lume na palha, pólvora em chama acesa, gasolina em jacto sobre as labaredas”, um “incendiário a brincar com o fogo e com o mundo”, 7.Dez.2017); conflito israelo-palestiniano (“Israel não move apenas a guerra total contra os palestinianos; move a vingança à solta, a punição cega e pela morte avulsa, o chamado terrorismo de Estado”, 24.Jan.2017); o movimento “Me too” (“o chamado assédio sexual masculino dá a volta ao planeta, denunciado por mulheres que dizem ter sido vítimas da alarvidade dos homens”, acusação que provocará “que as relações encolham e em nós se instale um puritanismo duplamente falso no seu incómodo”, 22.Jan.2018); a segunda onda da covid (“um vírus, a pandemia, esta nova lepra que nos obriga a ficar em casa, manhã, tarde e noite, ou a sair por um carreirinho clandestino, de máscara e sem nos chegarmos a ninguém”, 10.Fev.2021); os efeitos das alterações climáticas (“as imagens aí estão: vogam na enxurrada, água abaixo, casas e carros e outros bens, morre gente de todas as idades, e nada move à responsabilidade os poderes do mundo”, 3.Ago.2021); a guerra entre a Rússia e a Ucrânia (“Esta passou a ser uma guerra entre blocos político-militares”, em que “deixou de haver inocentes”, enquanto “nós, pobres diabos do humanismo e da paz, somos os únicos a ouvir o choro das mulheres e das crianças e a recordar o silêncio dos mortos vivos e dos vivos mortos”, 20.Jul.2023); a Jornada Mundial da Juventude (movimento que “veio instalar em nós uma espécie de trégua, a da paz e da fé, por aqueles que peregrinaram e têm demonstrado ser possível crer numa outra ordem no nosso quotidiano”, 5.Ago.2023); os atentados em Estocolmo e em Barcelona (Abril e Agosto de 2017), a “tragédia incendiária” em Portugal (Outubro de 2017) ou os tumultos na África do Sul (Julho de 2021) ou em Maputo (Dezembro de 2024).

No registo de 8 de Janeiro de 2024, João de Melo tem necessidade de exprimir as suas preocupações num resumo rápido: “O que me inquieta e desassossega:  as guerras que vão por esse mundo fora; as mortes e as vidas dos imigrantes que atravessam o mar Mediterrâneo, em fuga da miséria, para chegarem à Europa e serem depois repatriados; a perdição do planeta, anos atrás de anos, sem que lhe acudam a tempo de o salvar; o desmatamento sistemático da Amazónia; o sorriso alarve de Putin, a cara de bolacha gorda do presidente chinês e o enigma constante do seu pensamento; a hipótese cada vez mais provável de reelegerem Trump para a presidência da América; e a minha doença encoberta.” 

A questão da saúde merece várias referências ao longo deste volume, a começar logo pelo primeiro registo: “Dívidas de gratidão para com o meu corpo”, que, apesar de tudo, lhe trouxe sobressalto em 2014, mas, “sem nunca o censurar nem ofender, continuarei a cuidar dele, corpo de mim mesmo”, pois “nele, corpo, mora a minha vida” e “nada há mais saudável do que estarmos vivos” (21.Jan.2017).

A literatura (como visto na crónica anterior) constitui factor de estabilidade, mas esta chega também através das referências à família (“foi e é única no meu mundo”, 28.Ago.2017), particularizada na esposa, na neta, nos filhos, ou dos amigos (“sem eles, ficamos não apenas mais tristes, mas mais sós”, 2.Nov.2019), como chega através da ligação a dois pontos geográficos como a Espanha (particularmente Madrid, onde exerceu funções — “sinto-me nesta cidade-casa como se nela tivesse nascido para me ir embora”, 28.Nov.2019) ou a Achadinha (onde nasceu e onde hoje existe a Casa João de Melo, que foi casa de família e agora é espaço museológico sobre o escritor e sobre a região do Nordeste — “Não é pacífico em mim ser patrono de uma casa pública e ver o meu nome na sua frontaria. Sinto-me entre o júbilo íntimo e os seus contrários, ainda mais fundos.”, 23.Ago.2021).

Por este diário de João de Melo passam textos normalmente curtos, a chamarem a atenção para o essencial sentido naquele dia perante o andar do mundo, às vezes inserindo pequenas histórias do quotidiano (nem sempre sendo indicados os nomes dos protagonistas), salvando a forma própria de pensar e contestando o papel dos comentadores — “gente que tudo sabe” e “uma fórmula existencial de intrusão” (16.Fev.2017) —, comprometidos ideologicamente.

João de Melo sabe que a escrita é uma forma de exposição, tal como refere ao encerrar este diário, em 31 de Dezembro de 2024 — “Vivo e escrevo e sou aqui e agora. Sempre em mim.” —, não prometendo a sua continuação, mas admitindo-a, ao mesmo tempo que garante ser a escrita “o mais importante de tudo em mim”.

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1840 (2026-09-30) e 1844 (2026-10-07).


quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Mar sofrido

 


Quando Camões (c. 1520-c. 1580) publicou Os Lusíadas (1572), a sua intenção não foi apenas a de glorificar os participantes na viagem inaugural da carreira da Índia, mas também dar voz aos que a contestaram (caso do Velho do Restelo) e às tragédias marítimas posteriormente surgidas (anunciadas pelo Adamastor). Se, através do Velho do Restelo, o leitor assiste à praga rogada — “Ó maldito o primeiro que no mundo / Nas ondas velas pôs em seco lenho!” (canto IV) —, as profecias trágicas da figura disforme assentam no que nos foi revelado pelas relações dos naufrágios acontecidos a partir de 1552 (até 1602), depois reunidas nessa obra fabulosa que é a História Trágico-Marítima (publicada em 1735 e em 1736), organizada por Bernardo Gomes de Brito (1688-1759) — de que também há versões adaptadas, como a organizada por António Sérgio em 1934, que tem tido sucessivas edições.

A vivência sofrida e assustadora do mar tem marcas universais e perdurou no tempo, tendo a literatura (e outras artes) tido um papel importante na expressão desse sentimento, como podemos ver em alguns exemplos que nos são cronologicamente mais próximos.

Em 12 de Setembro de 1948, Vergílio Ferreira (1916-1996), perante o mar da Nazaré, escrevia no seu diário: “Cá está o mar, o bruto. Estende-se ao comprido, esbarrondado, ronca e baba-se sobre a areia. Pequenos barcos, traquinas, sobem-lhe para o lombo, catam-lhe o peixe — ele dorme. Tem os olhos grandes cerrados, a arca do peito arfa. Não entende ninguém, ninguém o compreende. Estúpido, cavernoso, está para ali. Até que um dia, sem razão, firma-se nas quatro patas, urra temeroso e atira-se às marradas contra tudo. Depois, outra vez sem razão, abate amodorrado, torna a roncar e a dormir. De noite, a lua veio passar-lhe uma carícia de mãos pelo dorso. A besta, indiferente, rosnou sempre. Cava-lhe as entranhas uma boçalidade de pasmo. Anda a alegria em volta dele, crianças deitam-lhe quimeras de inocência — e o bruto só ronca. Sinto naquele monstro a trágica desgraça da força imerecida, da força que apenas se justifica no urro e na marrada.” (em Diário Inédito 1944-1949, publicado em 2008).

A marca de bestialidade usada para caracterizar o mar pelo escritor natural de Melo é intensa no seu exagero, demonstrando a incapacidade do humano para domar as águas com segurança absoluta, os medos que podem surgir e o fascínio perante tal perigo. Duas décadas depois, em 1968, em entrevista à inglesa Tyne Tees Television, o pintor Lawrence Stephen Lowry (1887-1976) referia o mesmo poder avassalador do mar, usando a emoção e a antecipação do espanto: “Sempre adorei o mar: como ele é maravilhoso e, ao mesmo tempo, tão terrível. Muitas vezes penso: ... e se, de repente, ele mudasse de ideia e a maré não recuasse? E se viesse na nossa direção? E, se não parasse e continuasse avançando, avançando, avançando, avançando, avançando... Seria o fim de tudo.”

Mais pragmático e de menos palavras perante a força do mar, demonstrando o respeito perante essa energia que pode ser desastrosa para o ser humano, é o discurso de Ti’ Bártolo, velho, experimentado e sábio lobo do mar, no romance Mar Santo (1952), história passada na Nazaré, de Branquinho da Fonseca (1905-1974), em que o mar reúne a ideia de traição e a marca do poder incomensurável: “O mar nã tem amigos... O mar!... Mata a gente e nã tem crime... O mar engana Cristo!... Sabes lá qu’ é o mar!... Ah, mar santo!...”

Este viver com o perigo e as dores do mar foi também cantado por Teixeira de Pascoaes (1877-1952), quando escreveu “Vida do Mar” (em Para a Luz, de 1904), lembrando o que sentia quando, à tarde, passeava ao longo do mar: “E vejo, ao cair do sol nas ondas abrasadas, / Entre as rochas que estão de espuma coroadas, / Tristes habitações de pobres pescadores... / Telhados pra abrigar soluços, ais e dores. / São choupanas onde há postigos e janelas, / Donde a Tristeza vê, ao longe, as brancas velas, / Navios onde vai ao leme a Saudade... / Sopra um vento que traz a viuvez e a orfandade...”

A expressão da dor trazida pelo mar, contrariando a ideia épica das viagens marítimas, tem expressão intensa no poema “Mar Português” que Fernando Pessoa (1888-1935) incluiu na sua Mensagem (única obra de poesia em português publicada em vida do poeta, no final de 1934), aí dando liberdade à emoção colectiva: “Ó Mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal! / Por te cruzarmos, quantas mães choraram, / Quantos filhos em vão rezaram! / Quantas noivas ficaram por casar / Para que fosses nosso, ó Mar!” Esta metáfora das lágrimas seria também utilizada por Sebastião da Gama (1924-1952), ele próprio um leitor de Pessoa, no poema “Contribuição”, de 28 de Outubro de 1942 (apenas publicado em 2024, no volume de poesia reunida, O inquieto verbo do mar): “O Mar Oceano / anda a rolar, pela Praia, / as pragas dos pescadores... / E é cada gota de espuma / uma lágrima que caia / nas faces angustiadas das mulheres...”

O mar, visto frequentemente como o espaço de aventura e de liberdade, tem sido também o cenário do sofrimento e da dor, algo que o poeta Alexandre O’Neill (1924-1986), numa frase do domínio do apelo à prevenção que se tornou um quase provérbio, bem expressou quando disse que “há mar e mar, há ir e voltar”... sugerindo a cautela e a minimização da aventura, ou... o respeito pelo mar.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1835, 2026-09-23, pg. 10.