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sábado, 7 de novembro de 2026

Círios da Arrábida, entre as imagens e a memória

 


De significar “vela grande de cera, usada em igrejas, procissões, funerais”, a palavra “círio” passou também a designar a “procissão ou festa religiosa com romaria que se dirige de um lugar para outro, levando uma ou mais dessas velas”, conforme indica o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa (2001). Enquanto manifestações de carácter religioso, os círios têm estado muito ligados à serra da Arrábida, particularmente a espaços como o Convento da Arrábida, a Capela d’El Carmen, a Lapa de Santa Margarida ou o Santuário do Cabo Espichel.

Dando continuidade ao trabalho iniciado em 2023, ano em que publicou estudo sobre o Círio de Nossa Senhora da Tróia, José António Carvalho editou agora a obra Círios da Serra da Arrábida, em que, além das três “narrativas fotográficas” e de textos de contextualização de sua autoria sobre o Círio de Azeitão, o Novo Círio de Setúbal (ambos ao Convento da Arrábida) e o Círio das Pedreiras (à Capela d’El Carmen), apresenta também estudos de âmbito histórico e social assinados por Joaquina Soares, Ruy Ventura, Rodrigo Manuel Ribeiro e Rui Manuel Mesquita Mendes, recorrendo ainda à ilustração de Helena Mancelos.

Logo no texto de abertura, José António Carvalho, recorrendo a bibliografia específica de Heitor Baptista Pato, menciona as cinco características destas romarias estremenhas: “o epicentro do culto situa-se nas freguesias, tanto quanto no santuário; as freguesias combinam por vezes uma ordem de giro entre si; celebram-se em datas próprias; representam um voto comunitário, não individual; são organizadas pelo povo, à margem do clero”. Estas marcas, sobretudo a da organização, ajudam a perceber a vivência popular, com sentido religioso, manifestada pelas populações, vincada nos tempos, no compromisso e na adesão local, como explicam as interrupções feitas na história de alguns círios e até a existência de dois círios em simultâneo (como aconteceu na história dos Círios de Setúbal, em que o Antigo, criado em 1839, foi interrompido entre 1884 e 1891, tendo surgido o Novo em 1892, ano em que o Velho Círio também reanimou, tendo funcionado os dois em simultâneo até 1929, sendo oportuna a citação do estudo de Artur Alberto Pereira a dar conta da razão social de tal coexistência — “Enquanto o Antigo Círio terminava e recomeçava por vontade de uma elite, o Novo Círio, radicado no Bairro de Troino, fazia-se e faz-se pela espontaneidade popular.”)

No capítulo “Arrábida, uma montanha mágica”, Joaquina Soares contextualiza as características biofísicas da cadeia montanhosa, associadas às modalidades de ocupação, conferindo à Arrábida o papel de “coluna vertebral da Península de Setúbal”. Depois de mencionar as formações geológicas, a riqueza da vegetação e da fauna, a autora chama a atenção para a ligação entre a espiritualidade e a Natureza, recuando até à explicação da origem provável do nome (“al-Rabita”), relacionado com um espaço de “retiro para oração e preparação de monges guerreiros”, passando pelo Oráculo da Arrábida (possível origem do culto a Nossa Senhora da Arrábida), constante na relação de construções religiosas enviada por D. Dinis ao Papa, e mostrando a persistência das marcas religiosas na cadeia arrábida desde o Cabo Espichel, o que realça “a evidente sacralização deste território, especialmente a partir das antigas sociedades camponesas”.

Ruy Ventura, no capítulo intitulado “O Mosteiro de Santa Maria da Arrábida”, recua aos primeiros tempos do século XIII, até ao Oráculo da Arrábida, passa pelo efeito da Ordem de Santiago ao criar a Comenda de Santa Maria da Arrábida, chegando à construção do eremitério por Frei Martinho de Santa Maria e por S. Pedro de Alcântara, no século XVI, e relatando ainda as inovações que foram sendo criadas no espaço pelos proprietários e protectores. Aspecto importante desta abordagem é o de indicar nomes dos autores das obras escultóricas e de mencionar a sua importância, permitindo-se chamar a atenção para o estado actual da imagem do Senhor dos Aflitos, numa das capelas do Convento Velho, de autoria desconhecida (mas, por certo, de “um dos melhores escultores portugueses” da época) — “Infelizmente, esta obra de arte, uma das mais fortes de todo o Convento, foi completamente vandalizada por um repinte sem ética, que é urgente remover, para lhe devolver a dignidade perdida.” O texto relembra a antiguidade dos Círios, talvez desde a Idade Média, percurso sujeito a reforma ou retoma no século XIX, e conclui com as observações de três poetas ligados à espiritualidade arrábida — Frei Paulino da Estrela, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama —, considerando Ruy Ventura sobre essa mesma dimensão: “Quem sobe à Arrábida e fita o seu entorno com olhos de ver tem, de facto, a sensação forte de entender melhor o mundo, com outra clarividência, despojando-se do que nenhuma falta lhe faz. A natureza envolvente e o carácter artístico do seu edificado e do seu recheio, belo sem deixar a pobreza franciscana, falam-nos de uma essência que é preciso encarar e fazer nossa.”

 

Na obra Círios da Serra da Arrábida, além das três “narrativas fotográficas” dos círios de Azeitão, de Setúbal e das Pedreiras que têm a assinatura de José António Carvalho, há mais seis textos que lhe são devidos (o primeiro deles já referido anteriormente), que têm o objectivo de aprofundar o historial em torno dos círios, bem como narrar as suas realizações.

Assim, a abordagem que José António Carvalho faz recua até às lendas que lhes estão associadas, narrativas de origens desconhecidas mas que pretendem ser explicação para designações ou para vivências de determinados momentos históricos, como podemos verificar pelas transcrições das lendas da Senhora da Arrábida (em torno da história de Haildebrant) ou da Senhora da Pinha (associada à capela El Carmen). Quanto à primeira, a transcrição feita é originária da obra Santuário Mariano (tomo II, 1707), do estremocense Frei Agostinho de Santa Maria (1642-1728), sendo Haildebrant um frade agostinho (há versões em que esta figura seria um comerciante) que, na primeira metade do século XIII, integrando um grupo de viajantes que acompanhava um mercador, se viu salvo de forte tormenta ao largo da Arrábida, tendo desejado ali ficar como homenagem à imagem da Senhora que os protegeu e tendo ali construído uma ermida. Relativamente à segunda, a versão apresentada é também a relatada na mesma obra de Frei Agostinho de Santa Maria (tomo VII, 1721), referindo-se ao milagre operado por Nossa Senhora através da queda de uma pinha que impediu um homem de assassinar a esposa, de cuja seriedade duvidava, acrescentando o autor ter ouvido contada versão mais simples desta lenda, cujos protagonistas seriam um pastor e a sua esposa (foi também publicada versão desta lenda no jornal O Sesimbrense, nas edições de 16 e de 23 de Janeiro de 1944, em narração de J. Preto Guerra).

Ao relatar a festa do Círio de Azeitão ao Convento da Arrábida, José António Carvalho recorre a narrações a partir dos jornais O Azeitonense (1920) e Diário de Notícias (1906), bem como a testemunhos de Carlos Alberto Ferreira Júnior (1906-1997) e de Jaime Pinho. Documentalmente, este Círio teve início em Maio de 1845, mas a sua história teve alguns percalços, como a mudança de datas de realização ou o facto de, no século passado, ter havido a sua suspensão por mais de três décadas ou ainda o desencontro entre as partes religiosas celebradas na Arrábida e em Azeitão. A festa é descrita desde a partida de Azeitão até às celebrações no Convento da Arrábida, com transcrição das loas, texto que se repete de há anos, devidas ao poeta popular Miguel Caleiro (1876-1935) e a Maria Cândida Parreira (1877-1942).

Quanto ao Círio de Setúbal, também do seu historial não estiveram ausentes questões sensíveis — o Antigo Círio, fundado em 1839, interrompeu a actividade em 1884, intervalo que se manteve até 1891; em 1892, foi fundado o Novo Círio, ano em que também ressurgiu o Antigo Círio, tendo, até final da década de 1920, existido os dois Círios em simultâneo — episódio lembrado pelas décimas do poeta popular António Maria Eusébio, o “Calafate” (1819-1911) —, fenómeno que poderá ter a sua explicação em factores sociais. Relembra o autor que o acesso era feito por mar, a partir de Setúbal, até ao Portinho da Arrábida, costume que foi interrompido a partir de 1974 (com transporte de autocarro), mas retomado em 2015.

Para contar a história do Círio das Pedreiras à Capela de El Carmen, José António Carvalho lembra as descrições das festas realizadas nesta capela desde os relatos constantes nas Memórias Paroquiais de 1758, passando por notícias de O Azeitonense (1920) e por testemunhos mais recentes, podendo o leitor assistir à relação desta festa com a Casa de Palmela (na Quinta do Calhariz), ao papel desempenhado pelo Juiz da festa (a primeira vez em que a realização teve uma Juíza, Ana Fernandes, foi em 2020), à maneira como funcionavam as promessas (com bandeiras e quadros), ao significado das medalhas de acordo com os donativos, ao papel dos gaiteiros de Sesimbra.

 

A diversidade de abordagens dos círios da Arrábida nesta obra fica completa com os textos de Rodrigo Manuel Ribeiro e de Rui Manuel Mesquita Mendes, o primeiro incidindo sobre as “Contradanças no Círio da Arrábida” e o segundo sobre a Capela de Nossa Senhora do Carmo (El Carmen).

Relativamente à participação musical, Rodrigo Ribeiro considera que “o Círio da Arrábida foi, desde sempre, acompanhado por músicos e que, após a fundação da Perpétua, estes passaram a integrar esta celebração”, com contradanças “compostas especificamente para o Círio”, pelo menos “duas novas em cada ano”, “tocadas nas aldeias por onde o Círio passava”. Desde a mais antiga contradança constante nos arquivos da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, datada de 1912, de autor desconhecido,  Rodrigo Ribeiro menciona vários nomes que ficaram ligados àquela associação e ao Círio pelo seu contributo musical, como Silva Paranhos, Santos Tavares, Alfredo Caineta, Agostinho Caineta, Joaquim Caineta, Diamantino Perdigão, Pedro Marquês de Sousa, Duarte Zacarias e António Alface. Na bibliografia indicada neste capítulo, valerá a pena considerar, além da mencionada, a tese de doutoramento de Pedro Marquês de Sousa (disponível no repositório da UNL), datada de 2013, As Bandas de Música no Distrito de Lisboa entre a Regeneração e a República: 1850-1910, que contém referências à importância do contributo musical para os círios (registe-se que o concelho de Setúbal pertenceu ao distrito de Lisboa até 1926, ano em que foi criado o distrito de Setúbal).

O contributo de Rui Mesquita Mendes para a obra Círios da Serra da Arrábida assenta no historial documentado da Capela de El Carmen desde o século XVI, edificação que teve ajudas à conservação e à reconstrução oriundas da “devoção popular”, da “protecção senhorial” e do “apoio da Coroa”. Desde um dos possíveis fundadores, Álvaro de Mascarenhas (comendador da Arrábida no período de 1489 a 1502), até à aquisição do terreno com a ermida, em Janeiro de 1840, em hasta pública, por D. Pedro de Sousa Holstein (da Casa de Palmela, que garantiu a conservação da estrutura e permitiu a continuidade das celebrações tradicionais), o leitor segue o historial do santuário, que se tornou, “simultaneamente, centro de peregrinação e apoio às estadias senhoriais na serra, harmoniosamente integrado numa das paisagens mais marcantes da Arrábida”. Destaca o autor que “poucas ermidas portuguesas dispõem de um percurso documental que permita acompanhar, quase sem interrupções, a sua evolução entre o final da Idade Média e o século XIX, como a Ermida de Nossa Senhora de El Carmen” (frequência visível, inclusivamente, nas referências bibliográficas apresentadas), circunstância que Mesquita Mendes atribui a vários factores: a “implantação da Ordem de Santiago na Arrábida”, a “acção dos comendadores e dos Duques de Aveiro”, a “intervenção régia da Casa do Infantado”, a “organização das confrarias”, a “religiosidade popular” e a “própria evolução da paisagem histórica da serra”.

Círios da Serra da Arrábida, que se apresenta em edição bilingue (português e inglês), coordenado e editado por José António de Carvalho, é um título que se revela indispensável para o conhecimento destas manifestações de religiosidade popular que ocorrem na região de Setúbal, um trabalho cuidado, assente numa abordagem de diversos ângulos, garantida por uma dezena de textos (assinados por cinco autores, com mais de meia centena de referências bibliográficas, além das constantes nas notas de rodapé), por três “narrativas fotográficas” (reportagens de pormenor sobre a vivência dos círios, ao longo de cerca de 190 fotografias, produzidas entre 2011 e 2025) e por algumas ilustrações devidas a Helena de Mancelos (a que não escapa o ambiente religioso).

A vivência dos círios, designadamente os da Arrábida, foi desde sempre um momento alto para os participantes e para os visitantes e esta obra demonstra a razão que assistia a João-Fernandes, quando, em 1896, quis lembrar em “duas palavras” o historial e o propósito destas manifestações, no livro Arrábida - Publicação Comemorativa da Festividade Celebrada pelo Antigo Círio de Setúbal: “os círios e as romarias, se não são a mais genuína expressão do espírito religioso, na sua acepção elevada, não excluem o sentimento da crença na sua intenção sincera e aliam na forma festival e expansiva os preitos do culto à diversão inofensiva, na sua feição poética, tradicionalmente querida do nosso povo.”

 

João Reis Ribeiro. “500 Palavras”. O Setubalense:

n.º 1854 (2026-10-21, pg. 10), 1859 (2026-10-28, pg. 2) e 1864 (2026-11-04, pg. 10).