quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Fernando Paulino, "O sal das sílabas"

I
Vem ver o mar, conhecer o sabor do sal,
embalar nas ondas a felicidade branca das crianças,
cantar o amor que cresce da luz.

Vem ver o mar, a saudade é a memória dos ventos
a lembrança de um sorriso, de um olhar.


Vem ver o mar, há um tempo de partir,
há um tempo de chegar.

II
Homem do mar de Setúbal,
ficas parado no olhar do rio...
nesse silêncio azul habitado por dentro,
nessa saudade salgada de memórias vivas.

Observas o sal (líquido) das sílabas,
o decifrar dos ventos no voo das gaivotas,
escutas o grito branco das ânforas,
a alma azul do pensamento
adormecida no coração das águas.


Homem do mar de Setúbal,
herói tantas vezes ignorado
que trazes um verso de sal entre as tuas mãos,
um rosto marcado pelo rumor das ondas,
uma palavra liberta no aceso navegar do mundo.

O teu silêncio é o olhar que vê
a raiz (inatingível) das marés vazias,
o coração oceânico do leito do rio
abandonado ao aroma das algas.

Homem do mar de Setúbal,
o teu destino irrompe desse azul interior

com palavras de vida,
amas e sonhas ao ritmo incandescente
da (imprevisível) luz.

III
O rio tem ainda o respirar das sombras da noite.
Cada olhar é uma asa debruçada sobre a alma,
um céu lavrado em sulcos de infinito
e tu, silêncio habitado pela aura das mãos,
já navegas o tempo entre o sono das águas,
um bote salgado cantando o seu nome
com letras desenhadas ao sabor do rio:

“Amor à Vida” – grita o Zé pescador
com os braços estendidos em forma de remos.

IV
Pescadores, são enfim um lugar perto do mar
mãos e rosto a sonhar azul,
são salgadas as mãos que seguram a esperança das redes,

são enfim asas na distância do olhar
ondas, aves, astros, navios na madrugada
velas erguidas nos mastros,
Nossa Senhora, estrela do mar,

são enfim o segredo da tarde,
saudades, poentes e luar,
monumento que se ergue
num lugar perto do mar.


Com este poema, Fernando Paulino obteve o primeiro prémio dos "Jogos Florais" promovidos em 2006 pelo "Stella Maris - Apostolado do Mar", de Setúbal. No ano anterior, em Maio, a mesma organização tinha procedido à inauguração de um monumento dedicado ao "Homem do Mar", da autoria do escultor António Pacheco, localizado junto ao rio Sado, de que aqui se reproduzem fotografias. Porque são necessários momentos de poesia, Fernando Paulino ofereceu o poema para ser divulgado no "Nesta Hora".

"Magazine Littéraire", Setembro - o Nazismo

O tema que Le Magazine Littéraire escolheu para a sua edição de Setembro – “60 ans de romans sur le nazisme” – impõe-se pela importância que a literatura continua a dar ao fenómeno nazi, haja em vista a publicação recente em França de uma obra como Bienveillantes (2006), de Jonathan Littel, afinal uma motivação para as reflexões que a revista divulga. Por outro lado, como justifica Jean-Louis Hue, no editorial, “la littérature a partie liée avec le mal, avec toutes les catégories du mal” e “la part maudite de la condition humaine qui hante l’écrivain n’a pas de limites”. Nesta paisagem dos “60 ans de romans sur le nazisme”, é considerado como marco inaugural a edição de La Peste (1947), de Camus, referência que perpassa por muitas das reflexões.
Entre as entrevistas publicadas neste dossier, Norman Mailer fala do seu livro The castle in the forest (2007), versão romanceada da concepção e infância de Hitler, personalidade que surgiu para a História “choisi et recruté par le Diable”, homem de fragilidades, mas com génio político. Mailer não desiste desta ideia ao longo da entrevista, para fundamentar a sua opção de pretender dizer que o demónio cerca os homens e se cruza com eles em muitas situações, ao ponto de concluir a conversa com uma pergunta: “si l’on croit en Jésus fils de Dieu, alors pourquoi pas à Hitler fils du Diable?”
A ideia da monstruosidade do nazismo perpassa ainda pela entrevista a Daniel Mendelsohn (autor de The Lost, 2006, trajecto de busca sobre familiares exterminados na Polónia), para quem o importante do nazismo “c’est que ces crimes, ces atrocités, ont été commis, en général, pas par ceux qui étaient déjà des ‘monstres’, mais par des hommes qui ont toujours semblé normaux et se comportaient comme tels: ils avaient des familles, ils allaient à l’église, se voyaient comme des gens ordinaires”. Isto é: as monstruosidades foram cometidas por homens vulgares.
No campo da literatura e a propósito do que se passou nos campos de concentração, Yves Stalloni lembra que três tipos de narrativas sobre os campos nazis têm tido eco, constituindo outras tantas maneiras de relacionar a literatura com a verdade: a escrita testemunhal (que pode padecer de um tom hiperbólico), o testemunho tornado narrativa (eivado de marcas literárias, mas resultando da vivência concentracionária) e a escrita ficcional (ainda que notando a diferença entre a produzida por deportados que preferiram cobrir o seu testemunho com a capa da ficção e a de escritores que recorreram a testemunhos e a documentos). O autor defende a “estetização” dos dramas e dos conflitos, porque essa prática, “loin d’en effacer le souvenir, pourrait bien être la meilleure manière de le réchauffer”.
A perspectiva da literatura alemã sobre este mesmo fenómeno também merece referência pela análise de Lionel Richard – para uma primeira geração de escritores, o sentimento da culpa era o forte (“le poids de la faute et la nécessité de s’en libérer sont principalement les moteurs de l’écriture”); a geração seguinte será a que vai levar os filhos a pôr os pais em causa; finalmente, uma terceira geração, distante de relações com as décadas de 30 e 40, vê nos episódios nazis não mais do que “un réservoir de sujets appelés, semblablement aux autres, à nourrir leur imagination et à devenir littérature”.
O leitor deste dossier poderá encontrar outras reflexões sobre as abordagens que a literatura fez do “mal nazi”, assim como apreciações dos títulos romanescos mais recentes que nele fizeram incursão.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Álvaro Félix defende Bocage, o seu irmão gémeo

"A trabalhar por conta própria, Álvaro Félix percorre o país em revistas populares, com outros actores da terra. O actor, que esteve doze anos ligado ao TAS, lamenta que a edilidade ainda não tenha dado uma resposta ao seu projecto de divulgar o poeta Bocage nas escolas da região. (...) O actor (...) fica triste pelo facto de o projecto 'O Bocage vai à Escola', à base de poesia, com a finalidade de dar a conhecer o poeta e a sua obra aos estudantes, não ter tido ainda uma resposta por parte da Câmara Municipal de Setúbal. 'Já apresentei esse projecto à edilidade, mas até à data não obtive qualquer resposta', frisa, acrescentando que se trata de um projecto 'muito importante' para as escolas. (...) Na sua opinião, o panorama cultural de Setúbal está a atravessar uma fase 'muito complicada' devido à falta de meios económicos. 'Falta imaginação e empenho para pôr a cultura a trabalhar', sublinha o actor." [in Correio de Setúbal, 02.Outubro.2007, pg. 11. Na fotografia da esquerda, Álvaro Félix usa a pose de homem-estátua para representar Bocage (Setembro de 2006); na fotografia da direita, imagem de Bocage no monumento que lhe foi erigido em 1871, em Setúbal.]

No "Correio de Setúbal" de hoje

Diário da Auto-Estima – 67
Mourinho – À chegada de José Mourinho a Lisboa, os jornalistas quiseram saber o que ia ele fazer, como ia ser a sua vida, se iria ao futebol, etc., etc., as perguntas do costume. O treinador foi comedido e, pedagogicamente, disse mesmo que, agora que estava fora dos bancos e dos treinos, não iria dizer nada sobre futebol, acrescentando que o único futebol em que marcaria presença seria para ver jogos do sadino Vitória Futebol Club. Esta intenção, assim pacificamente manifestada, merece a minha admiração, mesmo porque vai ao encontro de um artigo que O Setubalense publicou recentemente, assinado por Giovanni Licciardello, intitulado "Pensar Setúbal" - é que, de acordo com o articulista (e eu subscrevo), ser setubalense não exige que a naturalidade no bilhete de identidade contenha a palavra "Setúbal", antes passa por "ter uma relação afectiva com a cidade e arredores, reconhecer as potencialidades inegáveis que tem e procurar dar o seu modesto contributo para que possa melhorar", por "gostar de Setúbal". Mostrar um pouco do vitorianismo que lhe vai dentro, como publicamente fez Mourinho, foi um acto de setubalense. E só esse bocadinho valeu a pena, quer para a auto-estima do clube, quer para a auto-estima de Setúbal.
Língua Materna – "Porque vale a pena continuar a estudar a língua portuguesa?" A pergunta foi lançada assim, de repente, para os grupos de trabalho, com a incumbência de cada grupo apresentar sete razões. O ambiente era o da primeira aula de Língua Portuguesa do ano lectivo, com estudantes de 8º ano, na faixa etária dos 13/14 anos. Entre as respostas obtidas, são visíveis razões escolares e curriculares, utilitárias, sociais, de respeito pelo outro, históricas, cívicas, identitárias e de memória. Apresento algumas delas, por poderem ser uma lição ou, pelo menos, um conselho: "para falarmos correctamente", "para sermos mais cultos", "porque, sabendo falar bem português, temos facilidade em aprender outras línguas", "para compreendermos a sociedade", "para que o calão e o inglês não dominem a nossa língua", "porque desenvolve a nossa capacidade mental", "por ser o mínimo que podemos fazer por todos os que mudaram a nossa história e contribuíram para o conhecimento da nossa língua em todo o mundo" e "porque... se não a soubermos falar correctamente, quem o saberá?"
Comparações – “Ao fim do dia, vou a Viana do Castelo de fim-de-semana.” “Ah, gosto tanto de Viana! Aquela é uma cidade linda! O rio, o mar, a cidade…” “Mas Setúbal também tem tudo isso…” “Setúbal? Pois tem. Mas Viana é uma cidade quase perfeita…” “Pois, de facto, Setúbal é mais uma cidade imperfeita…” “Apesar de se gostar dela, mas…” “Claro, tens razão!”
Sugestões para ver e saber – Quando se escreve sobre alguma coisa está já implícito um juízo crítico, porque, como constava no título de um texto lido há anos, “escolher é julgar”. Por razões diversas, sobretudo relacionadas com o património ambiental, histórico e humano, seja-me permitido deixar a sugestão de duas exposições: a primeira, em Palmela, na Biblioteca Municipal, intitulada “Adiafa – A festa das vindimas”, que pode ser vista até meados de Outubro e mostra bandeiras de um quarto de século de adiafas; a segunda, em Setúbal, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, com fotografias de Rosa Nunes, sob o título “Águas do silêncio”, um conjunto que nos leva a conhecer o estuário do Sado de uma forma original.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

1 de Outubro - Memória de Luísa Todi, no Dia Mundial da Música

Há cerca de um quarto de milénio, em Setúbal, nascia uma criança que viria a receber o nome de Luísa Rosa de Aguiar. Aquela que se supõe ter sido a casa dos primeiros anos dessa menina ainda hoje existe, com lápide evocativa. Fica na zona de Troino, na Rua da Brasileira, que, em 1753, data do nascimento da futura cantora, se chamava Rua de Coina.
Baptizada na freguesia da Anunciada em 30 de Janeiro de 1753, ainda criança, Luísa foi viver para Lisboa, onde, com 15 anos, se estreou num teatro do Bairro Alto, numa representação de Molière. Os seus dotes trouxeram-lhe logo um contrato por dez meses, no valor de 144 mil réis, com direito a casa paga e a sege para deslocação para os ensaios e récitas. A sua estreia como cantora ocorreu em 1770, na ópera Il Viaggiattore Ridicolo, de Scolari, em que actuavam também as suas irmãs Cecília e Isabel.
Em 1769, casou com Francesco Todi, de quem lhe veio o apelido por que ficou conhecida. Tendo vivido em vários pontos do país, em 1775 partiu para uma carreira internacional, que teve actuações em Londres, Paris, Berlim, Turim, Varsóvia, Veneza, Viena, Sampetersburgo e Madrid, e convivência com as cortes europeias, tendo mesmo chegado a ser professora de música das princesas da Rússia por iniciativa de Catarina II.
Os críticos musicais da altura referiram-se-lhe com grandes elogios. Em 1790, em Itália, Luísa Todi desempenhava o papel de Dido na ópera Didone Abbandonata, talvez o seu desempenho mais celebrizado, e o crítico musical da Gazzetta Urbana Veneta escrevia, a propósito do espectáculo do dia 27 de Novembro e do canto de Luísa Todi: "A suavidade, o deleite, a admiração, o entusiasmo que ela provou em nós, podem experimentar-se, mas não podem exprimir-se".
Enviuvando em 1803, o século XIX foi época madrasta para a cantora. A viver no Porto, foi apanhada pela invasão francesa de Soult, tendo perdido muitos dos seus haveres no rio Douro, durante a fuga. Em 1811, já vivia em Lisboa e, em 1813, perdia a visão. Acabou por falecer no primeiro de Outubro de 1833 numa casa da Travessa da Estrela, na capital, tendo sido sepultada na Igreja da Encarnação.
A primeira biografia de Luísa Todi foi publicada em 1872, sendo seu autor José Ribeiro Guimarães, uma obra que teve carácter benemérito, conforme indicavam o autor e o impressor logo na primeira página da edição: "o produto desta obra reverte a favor das bisnetas da cantora, filhas de Francisco Xavier Todi". Um ano depois, foi a vez de Joaquim de Vasconcelos escrever um "Estudo Crítico" sobre Luísa Todi, reeditado em 1929. Por 1943, na colecção da revista Ocidente, Mário de Sampayo Ribeiro fez sair mais uma biografia sobre a cantora e, em 1967, numa colecção juvenil da editora Verbo, foi publicada A Vida Fascinante de Luísa Todi, em forma romanceada, da autoria de Maria Isabel Mendonça Soares. De 1981 é o longo texto que sobre a cantora setubalense Mário Moreau inseriu na sua obra Cantores de Ópera Portugueses. A assinalar o 250º aniversário do nascimento da cantora, passado em 2003, foram publicadas as obras Luísa Todi, de Mário Moreau (2002), e Luísa Todi – A voz que vem de longe, de Victor Luís Eleutério (2003), e foi editada a escultura em prata com o busto de Luísa Todi da autoria da artista Patrícia Bilé.
A terra-natal de Luísa Todi tem feito por que a cantora não seja esquecida. Já numa acta da sessão de Câmara de Agosto de 1895 ficou registado que deveria ser dada "a denominação de Avenida Todi à Rua da Praia, em homenagem da notabilíssima cantora, nossa conterrânea e uma das glórias do palco lírico". O seu nome passou assim a constar naquela que, hoje, é um dos mais importantes troços da cidade do Sado, onde, de resto, se situa a principal sala de espectáculos sadina, também com o patrocínio de Luísa Todi.
Em 1933, quando passava um século sobre a morte da cantora, com a presença de um seu trineto, foi inaugurado no Parque das Escolas um monumento em sua memória (mais tarde mudado para o local em que hoje está, na Avenida Luísa Todi, em frente do Governo Civil), que teve como autores o escultor Leopoldo de Almeida e o arquitecto Abel Pascoal. Vinte anos depois, quando passava o segundo centenário do seu nascimento, a casa sobre a qual diz a tradição oral que foi onde nasceu Luísa Todi recebia uma lápide evocativa do acontecimento. Em 1957, no salão nobre da Câmara de Setúbal, foi inaugurado o tríptico do pintor setubalense Luciano Santos, alusivo a figuras com importância local, estando uma representação de Luísa Todi em lugar de destaque.
Ao longo dos tempos, não têm faltado exposições evocativas da vida e do tempo em que viveu Luísa Todi, podendo referir-se, entre outras: em 1984, na Biblioteca Municipal de Setúbal, uma exposição de homenagem; em 1989, no Museu de Setúbal, "A Vida de Luísa Todi contada às Crianças"; em 1994, na Casa de Bocage, "Setúbal no Tempo de Luísa Todi". Por outro lado, o nome desta setubalense baptizou instituições como o Coral Luísa Todi ou a Academia de Música e Belas Artes Luísa Todi, para além de estabelecimentos comerciais, e é patrono de um Concurso Nacional de Canto com realização local.

Monumento a Luísa Todi, em Setúbal - A disposição das notas nas pautas permite ler o nome da cantora

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

António Lobo Antunes, a escrita e a morte

"(...) Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde.
Ao regressar ao livro [depois de operação e convalescença], sentiu-o como seu?
Claro. Ninguém escreve assim. Não tenha a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde. A doença trouxe-me isso. Já não estou a fazer tratamentos e só lá mais para o final do ano é que voltarei a fazer exames. Tudo isto dá-me uma grande serenidade, porque olho para as coisas com mais distância. Estive muito perto da morte e palavra de honra que é mais fácil do que se imagina. A ideia pode angustiar-nos e apavorar-nos, mas quando se está mesmo ao pé dela é muito mais fácil do que se pensa. Lembre-se do que diz a última frase de Os Thibault, o grande romance de Roger Martin du Gard: plus simple qu'on y pense, mais simples do que se pensa. E é, de facto, mais simples do que se pensa, menos assustador do que se pensa.
Quando ouve a palavra cancro, é a morte que vê à sua frente?
Por mais que racionalmente pensemos que o cancro se cura, associamo-lo à morte. Pedi sempre para não não me mentirem e, por isso, quando muito francamente me dizem que tenho um cancro, o que vejo à minha frente é a morte. Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. Não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna? (...)"
António Lobo Antunes, entrevistado por Sara Belo Luís, em Visão, nº 760, 27.Setembro.2007, pp. 110-118.

Da educação, da cidadania e de outras coisas

Na edição de 25 de Setembro do diário Público, Santana Castilho zurziu no programa “Prós e Contras” que a RTP transmitira cerca de uma semana antes sobre o tema da educação, dizendo que o espectador teria “apreciado uma intervenção jornalística preparada e inteligente para confrontar [a Ministra da Educação] com o imenso contraditório a que nunca responde, senão com a demagogia que lhe toleram”. A conclusão do articulista encaminhou-se para o óbvio: em termos de discussão, o programa não teve interesse, porque acabou por “deixar ausentes as questões mais relevantes sobre a verdadeira situação da Educação em Portugal”. Confesso que não sei de onde vem a surpresa! Já desisti de ver este programa há muito, pois sempre que o vi desconfiei das tendências da sua condução e sobretudo das conclusões, algumas inenarráveis, que a jornalista era useira em tirar, sem ponta por onde se pegasse. Então, no que à educação diz respeito…
Tudo isto me faz lembrar a tristeza que é não haver em Portugal jornalismo especializado em educação – e a consequência não é inócua! É que grande parte das informações que os media fazem circular no que à educação respeita são incorrectas ou não contam toda a verdade, por desconhecimento de quem redige. Provavelmente, é este o tipo de informação que interessa para ofuscar os olhares, porque o pensamento e a reflexão, assim como o traçar da política educativa devem ficar para iluminados (?). Ainda hoje se não conhece, de forma inequívoca, o conjunto de razões que levaram uma editora a pôr fim à revista mensal Pontos nos is, que abordava “política educativa”, ela mesma dirigida por Santana Castilho, que teve 11 números, entre Janeiro e Fevereiro de 2006... mas, provavelmente, não foi só o aspecto financeiro da questão, como a editora quis fazer acreditar aos assinantes e eventuais leitores.
O panorama de se pensar a educação enquanto teia partilhada e discutida está longe de acontecer. Cada vez se tem mais a sensação de que a “política educativa” contém muito de deslumbramento afunilado e escassez de participação, de “coisa pública” e de cidadania. Veja-se como há vozes que se vão afastando por cansaço e por decisão própria, haja em vista o recente caso de Antero Afonso, colaborador do semanário Correio da Educação, editado pela ASA – no seu último número, de 24 de Setembro, na crónica “Despedida”, o final da colaboração era justificado com quatro razões, de que destaco a primeira: “Eu acho que esta equipa ministerial deve ter um sentido, que orienta a sua acção. Apesar de não conseguir vislumbrar o alcance da generalidade das medidas, avulso, com que tem sido presenteada a nossa acção como docentes, apesar de não percepcionar a bondade dos objectivos, apesar de sentir a desmotivação a generalizar-se. Apesar disso, talvez a senhora ministra e seus colaboradores estejam no caminho certo e, nesse sentido, não quero ser, com a minha narrativa, a pedra com a qual a Senhora Ministra e seus colaboradores construam o seu próprio desconforto”. E, já agora, menciono uma outra justificação para o abandono, que Antero Afonso apresenta, porque vem a propósito do que escrevi acima: “sou um homem do norte, habituado ao granito, à asma, à chuva, miudinha, que dá esta cor cinzenta à minha cidade. Estou longe da luz branca que inunda as ruas, as avenidas e os corredores da nossa capital. Falta-me a luz e, na escuridão, é mais difícil escrever.” Questiono-me se haverá o direito de nós, professores, nos sentirmos assim? Pergunto-me se alguém acredita na substituição do humanismo pela tecnologia na educação? Interrogo-me quanto às causas que lançaram este mal-estar que se vai acentuando (e que alguns prognosticam que virá a ser mais intenso) reinante na escola e entre o corpo docente? No caos das respostas possíveis, não há uma única linha de consistência e, como Lapalice advogaria, as leis e os governos passam (tal como os tempos), mas a educação ficará. É da nossa condição? É.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Bocage à vista (40) no seu mês



Rostos de obras bocagianas publicadas em vida de seu autor: Queixumes do pastor Elmano contra a falsidade da pastora Urselina (1791, ano em que também publicou o primeiro volume de Rimas); Rimas de Manuel Marbosa du Bocage correctas e aumentadas (1794, 2ª edição do primeiro tomo); Rimas de Manuel Maria Barbosa du Bocage dedicadas à amizade (1799, 1ª edição do segundo tomo); Rimas de Manuel Maria Barbosa du Bocage (1800, republicação da 2ª edição do primeiro tomo) - colaboração de Fernando Marcos
Com este 40º postal intitulado "Bocage à vista" termino a série que iniciei neste mês de Setembro. Pretendi expor outras tantas situações com a marca bocagiana, que vão alimentando a memória do poeta, no mês em que se celebra o seu nascimento e cujo dia (15) foi, de há uns anos a esta parte, associado ao feriado municipal de Setúbal. O facto de serem 40 tem apenas uma explicação: tantas vistas como a idade de Bocage. A razão de serem estas 40? E porque não estas? Numa qualquer altura, poderá ser outra série e serão outras as imagens.

Pela língua portuguesa

"Porque vale a pena continuar a estudar a língua portuguesa?" A pergunta foi lançada assim, de repente, para os grupos de trabalho, com a incumbência de cada grupo apresentar sete razões. Sim, eu sei que a pergunta era orientada, não admitia a negativa; mas a intenção foi a que nela está expressa e não o seu contrário, por causa deste processo colectivo em que todos estamos envolvidos e que se chama identidade. Voltemos à história...
O ambiente era o da primeira aula de Língua Portuguesa do ano lectivo, com estudantes de 8º ano, na faixa etária dos 13/14 anos. Das respostas obtidas, escolhi um leque de argumentos em que são visíveis razões escolares e curriculares, utilitárias, sociais, de respeito pelo outro, históricas, cívicas, identitárias e de memória. Algumas andam próximas de outras, mas todas se cruzam neste cadinho que é o estudo de uma língua e nesse outro cadinho que é o saber que se vai adquirindo e trabalhando (com) a identidade, um mecanismo construtivo que, como registou Inês Sim-Sim no Congresso Internacional sobre o Ensino do Português (Maio de 2007), "é uma caminhada não terminada, sujeita aos conflitos, avanços e retrocessos de um processo em permanente progresso". E, entre as muitas coisas que ressaltam da argumentação destes alunos, uma delas, a valorizar, é exactamente a da identidade.
E vamos, então, às razões por que, na opinião destes alunos, vale a pena continuar a estudar a língua portuguesa:
- "para falarmos correctamente"
- "para interpretarmos correctamente o que lemos e o que nos dizem"
- "para enriquecer o nosso vocabulário"
- "para deixar de dar erros"
- "para sermos mais cultos"
- "porque, sabendo falar bem português, temos facilidade em aprender outras línguas"
- "para sabermos comunicar com o próximo"
- "para compreendermos a sociedade"
- "para conseguirmos enriquecer os nossos diálogos"
- "para aperfeiçoarmos o que já sabemos"
- "para que faça sentido aquilo que dizemos"
- "para defender e expandir a nossa língua mundialmente"
- "porque é a sexta língua mais falada no mundo"
- "para que o calão e o inglês não dominem a nossa língua"
- "porque é obrigatório"
- "para nos sabermos desenrascar em vários sítios públicos"
- "para passarmos de ano e fazermos os nossos pais mais felizes"
- "para se arranjar trabalho"
- "porque ainda não sabemos tudo sobre a nossa língua"
- "porque desenvolve a nossa capacidade mental"
- "para termos mais imaginação"
- "porque é a nossa língua-mãe"
- "porque um bom cidadão deve saber falar correctamente o seu idioma"
- "para preservar a nossa língua"
- "por ser o mínimo que podemos fazer por todos os que mudaram a nossa história e contribuíram para o conhecimento da nossa língua em todo o mundo"
- "porque... se não a soubermos falar correctamente, quem o saberá?"

Mapa da lusofonia, em Atlas da Língua Portuguesa na História e no Mundo (Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda / Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses / União Latina, 1992)

Mourinho e o Vitória FC, com Santana Lopes à mistura

À chegada a Lisboa, os jornalistas quiseram saber de José Mourinho o que ia fazer, como ia ser a sua vida, se iria ao futebol, etc., etc., as perguntas do costume, na expectativa de descobrirem qualquer milagre que lhes desse mais notícia ou mais trica. Ao que vi na televisão hoje pela manhã, Mourinho foi comedido e, pedagogicamente, disse mesmo que, agora que estava fora dos bancos e dos treinos, não iria dizer nada sobre futebol, acrescentando que, durante este tempo (incerto) de repouso (de guerreiro), o único futebol em que marcaria presença seria para ver jogos do sadino Vitória Futebol Club.
Esta intenção, assim pacificamente manifestada a quem esperava não se sabe muito bem o quê, merece a minha admiração, mesmo porque vai ao encontro de um artigo que O Setubalense publicou na sua edição de segunda-feira, assinado por Giovanni Licciardello, intitulado "Pensar Setúbal" - é que, de acordo com o articulista (e eu subscrevo), ser setubalense não exige que a naturalidade no bilhete de identidade contenha a palavra "Setúbal", antes passa por "ter uma relação afectiva com a cidade e arredores, reconhecer as potencialidades inegáveis que tem e procurar dar o seu modesto contributo para que possa melhorar", por "gostar de Setúbal". Mostrar um pouco do vitorianismo que lhe vai dentro, como publicamente fez Mourinho perante uma turma de jornalistas sedentos do social (e do trivial), foi um acto de setubalense. E só esse bocadinho valeu a pena, quer para a auto-estima do clube, quer para a auto-estima de Setúbal.
A propósito desta chegada e da sua repercussão nos media, é ainda de assinalar a atitude de Pedro Santana Lopes (que não vi, mas sobre que li), ao abandonar a entrevista que estava a dar à SIC por esta ter sido interrompida para transmissão da chegada do treinador setubalense, afinal a atitude que muitos entrevistados deveriam ter quando são tratados de forma menos conveniente (mesmo em directo) e que, a troco de uma exposição efémera, aceitam a subserviência às câmaras, aos holofotes e à trituração dos acasos.