sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O último feriado de 5 de Outubro?

Um poder que omite, suprime ou suspende o feriado que assinala a fundação do seu regime político (quando poderia ter optado por outros feriados) ou um poder que omite, suprime ou suspende o feriado que assinala o início da independência do país e do povo que governa (quando poderia ter optado por outros feriados) respeita os fundamentos histórico-culturais do país que dirige?

Dia Mundial dos Professores 2012


“Os professores (…) definem (…) a nossa capacidade coletiva para inovar, para inventar, para encontrar soluções rumo ao futuro. Nada substituirá nunca um bom professor. Nada é mais importante do que apoiá-los.” (Irina Bokova, directora-geral da UNESCO, mensagem para este dia)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Do discurso do Ministro das Finanças


O Ministro das Finanças de Portugal deu hoje conferência de imprensa que ouvi na rádio. Apreciei o tom académico, técnico, que utilizou. Não duvido da eficácia deste tipo de discurso perante os seus pares. Não duvido sequer da sua competência na área. Duvido da sua capacidade política porque, queira-se ou não, um ministro tem de ser um político também. E, no caso do Ministro das Finanças, não foram as alusões à liberdade e ao princípio da independência com que concluiu o seu discurso que salvaram o tom tecnocrático e elaborado (mesmo com metáforas da economia), nada vocacionado para os contribuintes saberem, afinal, umas coisas simples: quanto vão ter de pagar mais, o que resolvem estes aumentos, quais foram os erros cometidos nos princípios que têm vigorado, o que fica para fazer, por quanto tempo a situação vai ser esta de nos confrontarmos com aumentos de impostos, com aumentos de impostos, com aumentos de impostos, o que vai ser feito para não se repetirem eventuais erros, quais as razões que levam a sacrificar a educação, a segurança social e a segurança interna?
Nada disto foi dito. Nenhum português pode pensar, depois da conferência de imprensa, na forma como vai gerir a sua casa, a sua família, a sua vida. Nenhum. Apenas se sabe que é uma carga “enorme” (adjectivo do Ministro), mas isso não basta para fazer contas nem para se adivinhar em nome de quê. Rematar com a liberdade, a democracia e a independência é poético, mas não é objectivo. E a esses remates já o Almada Negreiros respondia no célebre Manifesto anti-Dantas…

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma visita ao tempo da Romanização, incluindo passagem por Tróia (aqui, na margem esquerda do Sado)


Um passeio no quotidiano da Romanização é o que nos propõe o mais recente número da revista Visão – História (nº 17, Setembro.2012), saído na semana passada, sujeito ao tema “Portugal no tempo dos Romanos”.
Por uma centena de páginas, o leitor tem imagens de reconstituição de espaços e de cidades, uma introdução que analisa vários vectores desse período histórico (não faltando uma tabela cronológica) e três partes respectivamente intituladas “A chegada” (com a sugestiva apresentação “O ‘Portugal’ que os Romanos vieram encontrar”), “A civilização” (entrando por áreas como a cidade, o campo, a religião, a economia, o quotidiano, entre outras) e “Os locais” (com visitas a Conímbriga, Braga – Bracara Augusta –, Chaves, São Cucufate, Algarve e Tróia).
Neste último grupo, destaque-se o roteiro sobre a história de Tróia, intitulado “A grande fábrica”, numa alusão ao complexo de produção de salga de peixe que ali existiu e de que hoje se podem ver os restos, assinado por Inês Vaz Pinto, Ana Patrícia Magalhães e Patrícia Brum, arqueólogas responsáveis pelas ruínas de Tróia. Um espaço que mereceu visita régia, que teve o patrocínio da primeira sociedade arqueológica portuguesa (século XIX) e que tem passado por fases muito diversas no interesse que lhe é votado!

Dizer que este é um número indispensável torna-se redundante pois todos os números que esta revista tem publicado se revestem desse elevado grau de interesse. Podem-se, no entanto, destacar como motivos determinantes a acessibilidade da linguagem e a quantidade de informação, bons ingredientes para esta viagem a um tempo anterior à Nacionalidade de que ainda hoje existem muitas memórias… 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Primeiro-Ministro citou "Os Lusíadas"...


O Primeiro-Ministro citou ontem Os Lusíadas numa homenagem a Adriano Moreira, dizendo que há “ventos favoráveis” a soprar nas velas portuguesas. A metáfora é bonita, mas não sei se haverá muita gente convencida disso…
É que, mesmo n’Os Lusíadas, os ventos favoráveis são atribuídos à ajuda de Vénus, a deusa protectora dos Portugueses. Questão de literatura, como se sabe, artística, pois! Nem os navegadores acreditavam em Vénus; pediam, isso sim, a protecção da “divina guarda”; o resto – o pormenor dos ventos, das calmas, das tempestades – era um assunto da Natureza.
Talvez o Primeiro-Ministro tenha lido o Público de ontem, que iniciou uma série de artigos sobre a relação dos Portugueses com o mar. E justamente o texto ontem publicado expunha como título “Continuamos esmagados pelos Descobrimentos?” Hoje, estaremos mais esmagados por todo este cenário de crise sobre crise que nos invade – e não me parece que seja só uma questão de vento…
No referido artigo ontem saído no Público, Vasco Graça Moura, um dos entrevistados sobre o tema, lembrava que “no discurso político há sempre um macaquear do discurso cultural”, pois fica sempre bem demonstrar a ligação das orientações políticas à identidade cultural de um povo. Resta saber se a viagem ajudada pelos ventos vai ser apenas uma aventura… É que o momento histórico que o Primeiro-Ministro escolheu para citar também teve muito de aventura e – é sabido! –, mesmo apesar dos “ventos favoráveis” que nos levaram ao Oriente nessa altura, Portugal não ficou economicamente mais rico depois dos Descobrimentos (e é de economia ou de dinheiro que se tem andado a falar)… 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Rostos (184)

António Augusto da Costa Simões (1819-1903), no Luso
[foto: Quaresma Rosa]

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Rostos (183)

Monumento a Nicolau Copérnico, em Varsóvia

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Uma outra leitura da história da cigarra - diferente da do ministro Macedo


A gente percebeu o que queria dizer o ministro Miguel Macedo na sua resposta de hoje, quando lembrou algo do género: há cigarras a mais e formigas a menos... Só que, como todas as histórias com um fundo de moralidade, a leitura não é apenas uma... E ir buscar a fábula para explicar que os portugueses andam a viver acima das suas possibilidades é algo caricato.
Na verdade, o discurso da vida acima das possibilidades foi uma motivação que tem carecido de demonstração. Os portugueses têm andado a viver acima das possibilidades ou as políticas seguidas quiseram pôr Portugal acima das possibilidades? E quem lucrou em qualquer dos cenários? Era a modernização do país, era a corrida desenfreada aos euros, era o alcatroamento da terra, era... era... era...
Mas vamos a uma outra interpretação do papel da cigarra, de todo diferente da que o ministro lhe atribuiu, mais apaziguadora e mais convergente com as diferenças. Foi contada por Sebastião da Gama no Diário, corria o dia 18 de Fevereiro de 1949... e veja-se como a interpretação é muito mais interessante.
«Pertinho da sala 19 mora um pintassilgo (ou pássaro que o valha... ). Volta não volta lá se põe ele a cantar e é um gosto ouvi-lo: há alegria, há ternura na sua cantiga. Por importante ou urgente que seja o que estou dizendo, é muito mais importante e muito mais urgente ouvir o pintassilgo: quebro, mal o oiço, ou a frase ou a palavra ao meio. Todos escutam. E o Américo, que tem uns olhos profundos e marotos, ou o Poeta ou qualquer outro, diz logo: «Por isso é que eu não gosto da Formiga.»
E sabem os senhores de onde nasce a observação? Nada mais nada menos do que do julgamento da Formiga e do elogio da Cigarra, que constituíram o corpo desta aula. Que me perdoem 'os amplos e maçudos livros morais de exemplos e de estudos'. Eu não posso admitir que seja louvada junto de crianças a crueldade, a ironia ruim e sem coração de Dona Formiga. E não admito também que se chame inútil à Cigarra — quando a Cigarra vive para alegrar os outros. Mas vamos ao prato do dia...
Chamei o Aragão, para ser ele a fechar a Semana do Animal. Encontrei, como esperava, um colaborador inteligente e sensível. O diabo do moço punha entusiasmo no que dizia, vibrava na defesa, em que me acompanhou, da pobre Dona Cigarra.»
Afinal, a cigarra também deve merecer a nossa admiração!...

domingo, 23 de setembro de 2012

Seremos parvos?


A ver vamos no que vai dar. Isto é: veremos quais as operações de engenharia que vão suceder... Independentemente disso, estas afirmações tomam os portugueses por tolos. Reconciliar com as instituições? Quem estava zangado com elas? De tudo o que se tem passado, a responsabilidade é das instituições? Ou dos arrufos de algumas pessoas que as integram? E já agora: o Conselho de Estado "reconciliou" os portugueses com as instituições ou os governantes com os portugueses?
As voltas que a linguagem da política dá!...

sábado, 22 de setembro de 2012

João Miranda: "Não há duas equações iguais"


No “Prólogo” a este Não há duas equações iguais (Lisboa: Chiado Editora, 2012), de João Miranda, a primeira quadra lança o leitor perante um enigma quando diz: “Larguei de vez a poesia, / deixei de andar sempre / acompanhado por um caderno / de versos que me faz acreditar.” Paradoxal nos parece esta declaração de abandono da poesia para abrir um livro que é de poesia!...
Continuando, a segunda estrofe justifica a decisão do poeta: “Já não vale o esforço, / apenas me faz sofrer / e acreditar que tudo / irá mudar é apenas / uma ilusão.” A dor e o sofrimento causados pelo momento da escrita são o parto do próprio poema. Os versos alinham-se porque o poeta tem algo a exprimir, são apenas o seu olhar e sentir, não são uma pedra para mudar o mundo, tão-só um pretexto para o poeta se conhecer.
Significativamente, o primeiro grupo de poemas alinha-se pelo título “o mundo”, onde mais é dito sobre o “eu” do que a propósito do que cerca este “eu”. Veja-se, por exemplo, o poema dedicado a Setúbal, que se inicia de forma contundente: “Confesso-te minha amada Setúbal, / és um desgosto no meu olhar”. Depois, há justificações para esta desolação e um final que apazigua: “mas és a cidade que me viu crescer / e pouco a pouco me fez feliz.”
Poemas de contrastes são estes, que correspondem a momentos, aos tais excertos do tempo que se registam no caderno, numa tentativa de fazer justiça ao princípio que o próprio poeta estabelece, em jeito de máxima: “Vive e escreve a tua vida, / enquanto sabes escrever, / enquanto podes viver.” É que, como o próprio título anuncia, “não há duas equações iguais”, verdade que surge a fechar um poema em que o poeta se confronta consigo mesmo no desenho de um auditório em que se fala do universo, ficando ao poeta a amargura de não se explicar “o universo / de que somos feitos”.
Parodiando um título de Rilke, este livro de João Miranda bem poderia responder ao título de “cartas de um jovem poeta”, cujos poemas são reflexos e registos de momentos, de procuras, de lutas contra o vazio e a solidão, de homenagem aos gestos de alguns seres que na sua vida se têm cruzado.
O agrupamento destes poemas por títulos tão diversos quanto “mundo”, “vazios”, “momentos”, “a força”, “amores de verão”, “ecos da distância”, “a ideia de ti”, “combustão”, “pessoas” e “definições de mim” dá ao leitor a ideia dessa fragmentação, desse todo multifacetado, sempre desigual e constante na sua evolução, desse tempo que ultrapassa a noção de cronologia mas que se relaciona com a intensidade dos instantes, sejam eles de euforia ou de vazio.
Rapidamente o leitor conclui que aquelas verdades de rejeição enunciadas no “Prólogo” podiam ser discutíveis, sobretudo à luz de uma lógica que Pessoa tão bem apresentou a propósito do fingidor que o poeta é e a propósito da dor do poeta. Esse eco pessoano é, de resto, adoptado por João Miranda no final do livro, sugestivamente num texto intitulado “Arte poética”, onde são cantados os prazeres da vida e é reelaborado o papel da palavra escrita: “Enquanto a veia da poesia correr em mim, / não posso negar tal alegria.”
Muito forte é, aliás, este último grupo, convenientemente intitulado “Epílogo”, espaço único para uma “Autobiografia poética”, texto que glorifica o nível de conhecimento e de saber que ao poeta é dado, que compromete o ser que se revelou com a própria poesia, que apazigua quem fala com quem é imaginado ouvir – um “tu” sempre presente, sempre a fazer o mesmo caminho de versos. Esta “autobiografia poética” põe em igualdade o efeito de todas as experiências, venham elas do manejo da palavra ou do saber sobre o mundo. Vale a pena determo-nos, por isso, na leitura deste poema que, propositadamente, ficou para o fim, qual chave de ouro que permite o acesso ao essencial do “eu”: “É bonita a estrada / que nos segue, não é? // Sabes, sou estudante do engenho, / sou músico e, / acima de tudo, poeta. // (…)”
Finalmente, o derradeiro texto vale pela sua afirmação: “Vivo de escrever, / escrever é  o meu ar, / nunca te abandonarei poema.” É o fecho do livro, porque é também a resolução da equação.
Como Rilke escreveu ao seu “jovem poeta” em 1904, “toda a exaltação é boa, desde o momento que não seja simples perturbação ou embriaguez, mas alegria clara e transparente.” Com este “epílogo”, a escrita afigura-se como exaltação para João Miranda. Uma entrega que lhe rende este segundo livro, com um título a resvalar na arte da matemática, aberto ao infinito que procura o sentido para “as reticências de mim” (como é dito numa tentativa de definição do “eu”), por onde passa o amor, o outro, a vida, as dúvidas… tudo graças à exposição que a palavra e a poesia alimentam neste Não há duas equações iguais.
Duas equações estão, pois, resolvidas (este livro e o anterior, As palavras varrem-se do meu pensamento tão depressa como eu as ia dizer, de 2007). Agora, porque não há duas sem três, venha a próxima!

[Na apresentação do livro, na tarde de hoje, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal]