sexta-feira, 27 de novembro de 2009

José Fanha veio à Escola

Hoje, foi dia de José Fanha na Escola. Já lhes tinha lido vários textos do poeta, designadamente de A porta (Alfragide: Gailivro, 2009) e de Diário inventado de um menino já crescido (4ª ed. Alfragide: Gailivro, 2009), excertos que mexeram com eles, na ondulação dos sentimentos e da leitura. Hoje, foi dia de José Fanha na Escola, uma década depois de aqui ter estado com Francisco Fanhais (em Junho de 1999) numa actividade que celebrava o 25º aniversário da instituição.
José Fanha veio à Escola com o Pedro Reizinho (setubalense, com dois livros infantis publicados, editor de obras de sucesso). Ouviram-no com atenção e participaram nos desafios. O poeta contou histórias, leu poemas (seus e de outros – de António Lobo Antunes, de António Ramos Rosa, de António Jacinto, de João Roiz de Castelo Branco, de Ary dos Santos, de Lawrence Ferlinghetti). E os alunos riram, ouviram, participaram. E Fanha aconselhou sobre necessidade de ler, de ler, de ler (e também de ter cuidado com as informações da net, muitas delas falsas). E houve palmas. E sempre poesia. E houve apontamentos biográficos – “Vou contar-lhes a história deste livro, de um jovem de um tempo em que não se mamava e não se comia a ver televisão”, a lembrança da avó, as pinturas do filho parecido consigo “30 quilos atrás”. E houve atenção e sorriso. E autógrafos. E alunos contentes e surpreendidos.
À noite, a mensagem de uma mãe (de um jovem que não é meu aluno) para o telemóvel: “Obrigada pelo momento proporcionado hoje na escola. O meu filho não pára de falar dos poemas, das histórias e da maneira diferente de as contar.” Ora ainda bem! A poesia faz disto: imiscui-se, infiltra-se e faz com que se manifestem. Com a ajuda do artista, claro! E o agradecimento vai direitinho para o José Fanha… Creio que muitos destes alunos recordarão com prazer o tempo em que estiveram no anfiteatro a ouvir literatura.

Rostos (137)

Pelourinho, no Soajo (Arcos de Valdevez)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

"ViVER Setúbal" - Os roteiros de uma exposição (3)

Viver Setúbal. Uma forma de ver a cidade
- Notas críticas a um roteiro (II)

por Carlos Mouro
IV. No segundo volume do roteiro há mais um infeliz parágrafo (seguindo, aliás, o texto original), em referência ao Fórum Municipal Luísa Todi: “Foi inaugurado em 1960, durante as comemorações do Centenário da elevação de Setúbal a Cidade. Substituiu o Teatro Rainha D. Amélia, demolido em 1956, depois de 68 anos ao serviço da cultura setubalense.” (p. 4). O que foi inaugurado em 1960 foi o cine teatro Luísa Todi e não o Fórum Municipal! O velho teatro D. Amélia (e não Rainha D. Amélia), arquitectado por Nicola Bigaglia, fora inaugurado a 1-8-1897. Os republicanos rebaptizaram-no como teatro Avenida. Depois, em 1915, por iniciativa da Academia Sinfónica de Setúbal, que ali se instalara, passou a ostentar o nome da Todi. Assim foi até à demolição, em 1956. No mesmo espaço ergueu-se, com traça de Fernando Silva, um moderno cine teatro, inaugurado a 24-7-1960. A 21 de Abril de 1989 o imóvel foi adquirido pela CMS que o transformou em Fórum Municipal, sob o patrocínio, ainda, da celebrada cantora lírica sadina Luísa Rosa de Aguiar Todi (1753-1833).
V. Logo a seguir há novas confusões, desta feita a propósito do Club Setubalense. Lemos ali que “O seu primeiro nome – Grémio Setubalense (de inspiração britânica) – foi substituído em 1898, devido ao mal-estar criado pelo Ultimato Inglês” (p. 6). O ainda existente Club Setubalense foi fundado em 1855, sucedendo à Sociedade de Recreio Familiar, de 1850. Certo. A embrulhada vem depois (até porque não foi seguido o texto original, que está correcto). O primeiro nome daquela associação foi Club Setubalense – designação, esta sim, de inspiração inglesa. Aquando do Ultimatum de 11-1-1890, entre outras reacções de protesto face à atitude britânica, o vocábulo ‘Club’ foi, frequentemente, substituído por ‘Grémio’ ou ‘Centro’. O grupo setubalense não perdeu tempo e, em Fevereiro de 1890, adoptou a designação de Grémio Setubalense. Assim se manteve até 10-2-1898, quando os associados deliberaram repor a primitiva designação, a que hoje subsiste: Club (e não Clube) Setubalense.

As duas notas com imprecisões
VI. Na página seguinte escreveu-se, a propósito do monumento a Luísa Todi: “Inaugurado logo após a sua morte em 1933”. De facto, o monumento em causa foi inaugurado em 1933. Luísa Todi, porém, morrera 100 anos antes! Aliás, a construção daquela simples memória pretendeu celebrar, localmente, o nome da cantora quando se cumpria o I Centenário da sua morte, ocorrida a 1-10-1833.
VII. Na legenda da segunda fotografia dessa página lê-se: “Américo Ribeiro – Construção da glorieta a Luísa Todi, 1938”. Como explicar a discrepância de datas? Sucede que em 1933 o singelo monumento foi inaugurado no lado nascente do Parque das Escolas (hoje Largo José Afonso). A fotografia, porém, regista a reconstrução daquele, após a transferência do espaço inaugural para o local em que todos o conhecemos – na Av. Luísa Todi, nas proximidades da Praça de Bocage, no que foi popularmente conhecido por Jardim dos Gatos – o que ocorreu, de facto, em 1938.
Notícia e fotografia do monumento a Luísa Todi

VIII. Na página 8 lê-se que a Fonte Luminosa é conhecida como Fonte do Centenário. Preferíamos, por nos parecer mais correcto, ler ali o contrário: Fonte do Centenário, mais conhecida por Fonte Luminosa. Ainda assim, a fórmula adoptada é mais feliz do que uma outra que circula com frequência, apelidando aquele monumento de Fonte das Ninfas.
IX. Nos pequenos roteiros, bem como nos mapas que os acompanham, há outros lapsos menores. Nos textos que lhes serviram de base há, também, alguns. Citemos apenas um, tirado de "As elites d’ouro branco – de Santa Maria a Bocage". A certo passo, escreveu-se: “…a 4 de Outubro de 1910, às 21 horas, quando anarco-sindicalistas, socialistas e republicanos incendiaram os Paços do Concelho e mutilaram a antiga fonte do Sapal…”. De facto, o antigo edifício municipal foi incendiado na noite de 4-10-1910, após escaramuças entre populares e forças da ordem. Entre aqueles haveria, admitimo-lo, anarquistas, socialistas, republicanos… Corrija-se, apenas, um lapso que é comum, aliás. A mutilação da magnífica fonte do sapal (hoje reconstruída na Praça Teófilo Braga) teve lugar na noite de 11-12-1910 quando um mestre da armada, de nome Júlio Marques, num momento de exaltação revolucionária, tentou apear o escudo e a coroa – símbolos da realeza deposta – que encimavam a artística fonte. A operação correu mal. Júlio Marques foi gravemente atingido pelas pedras que tirava com uma corda. Faleceu, no hospital local, a 13 daquele mês e ano.

Referência à Fonte do Centenário



O leitor emendará outros pequenos lapsos que ali existam. As incorrecções que inventariámos, e a natureza das mesmas, são suficientes para que lamentemos, entre a tristeza e a incredulidade, os lapsos registados. Com trabalhos deste quilate, como se promoverá Setúbal e a região que a envolve, junto de autóctones e de forasteiros?Para que esta prosa não termine de modo tão desencantado queremos deixar uma palavra de elogio ao grafismo dos roteiros elaborados, seguindo a linha de toda a exposição. Gostámos. Apreciámos, ainda, a solução encontrada para mostrar o património construído setubalense, captado pela objectiva de Américo Ribeiro (ou de outros que, em Setúbal, o precederam) em confronto com imagens actuais dos mesmos lugares, construções ou monumentos, apresentados numa composição francamente atractiva.

"ViVER Setúbal" - Os roteiros de uma exposição (2)

Viver Setúbal. Uma forma de ver a cidade
- Notas críticas a um roteiro (I)
por Carlos Mouro
Entre Junho e Setembro puderam os setubalenses apreciar, na sede da AERSET e, depois, na casa da Sociedade Musical Capricho Setubalense, uma exposição intitulada "Viver Setúbal. Uma forma de ver a cidade", da responsabilidade da Sociedade SetúbalPolis. Na ocasião foram editados três pequenos roteiros, organizados em torno de outros tantos percursos pela História e património setubalenses – Do Largo de Jesus ao Largo da Fonte Nova (1.º), Avenida Luísa Todi (2.º), Da igreja de S. Julião à igreja de Santa Maria (3.º) – com textos adaptados de outros, da responsabilidade de técnicos do Museu de Setúbal/Convento de Jesus, também editados, em separado. Com a desmontagem daquela exposição desaparecerá o que de bom e de menos bom se expunha. Pelo contrário, os roteiros impressos manter-se-ão, perpetuando o que de bom e de mau encerram. Justificam-se, pois, estas notas corrigindo erros grosseiros com que ali nos deparámos.
I. No primeiro caderno somos surpreendidos por uma inaudita versão da conhecida lenda sadina que narra a origem da freguesia de Nossa Senhora Anunciada: “Reza a lenda da criação desta igreja que uma peixeira pobre estava a assar cavalas quando uma delas saltou do fogo. Depois de várias tentativas para a assar, a peixeira apercebeu-se de que a cavala era, afinal, uma imagem de Nossa Senhora.” (p. 7). O disparate já foi notado por João Reis Ribeiro que o causticou no seu “Diário da auto-estima” (Sem Mais – Jornal, 13-6-2009). Interrogamo-nos, também: Onde desencantaram tamanho disparate? Para mais, o desconhecimento andou de braço dado com a distracção já que, na página seguinte do opúsculo, se transcreve a versão correcta da lenda, sem referência a cavalas, cavalinhas ou qualquer outro teleósteo.

A lenda da Senhora da Anunciada com a leitura errada


II. Na página 9 há novo descuido na legenda da segunda fotografia. O espaço urbano registado por Américo Ribeiro, no cliché reproduzido, não se designa (nem nunca se designou) por Largo dos Combatentes. Denominou-se, antigamente, Largo das Almas. Com a República – em homenagem ao vice-almirante Cândido dos Reis (1852-1910), mentor, chefe e mártir da Revolução de 5-10-1910 – passou a conhecer-se por Praça Almirante Reis.

A foto com o monumento aos Combatentes e a legenda imprecisa


III. Logo na página seguinte – em capítulo intitulado, vá lá saber-se porquê, “Os caminhos de Roma” – refere-se o pelourinho de Setúbal: “Originalmente construído para a Praça da Ribeira (antigo Largo da Ribeira Velha) e depois de duas deslocações, o pelourinho é reconstruído na época de D. José I. Por representar o poder do Duque de Aveiro, o antigo símbolo local foi mandado demolir e construiu-se um novo, aproveitando a coluna antiga. (…). No cimo da coluna está o capitel de estilo coríntio trazido de Tróia”. O pelourinho que se ergue na Praça Marquês de Pombal foi construído para aquele lugar e não para o Largo da Ribeira (hoje Largo Dr. Francisco Soveral), como se depreende da leitura do citado parágrafo. Depois, são referidas “duas deslocações” que aquele vetusto símbolo terá sofrido. A que deslocações se referem os autores? Mais: no pelourinho levantado em 1774, não se aproveitou a coluna do anterior, nem o capitel que a encima proveio de Tróia. O que veio daquela península, o elemento romano daquela construção, é, precisamente, a coluna e não o capitel como, erradamente, querem os autores do roteiro (este particular aspecto consta do texto original).

O texto impreciso sobre o Pelourinho

(continua)

"ViVER Setúbal" - Os roteiros de uma exposição (1)


Entre Junho e Setembro, Setúbal pôde visitar a exposição “ViVer Setúbal - Uma forma de ver a cidade”, promovida pelo Programa Polis, primeiro no antigo edifício do Banco de Portugal e, depois, na sede da Sociedade Musical Capricho Setubalense.
A exposição, coordenada por Isabel Victor e Bruno Ferro, sobre fotografias de Américo Ribeiro e de Ricardo Cordeiro, teve a acompanhá-la a edição de três roteiros: “Do Largo de Jesus ao Largo da Fonte Nova” (1), “Avenida Luísa Todi” (2) e “Da Igreja de S. Julião à Igreja de Santa Maria” (3), todos com textos de Patrícia Silva Alves e de Paula Castro Rosa. Os textos destes roteiros partiram de outros textos, também publicados: “Da tentação à redenção – Os caminhos do Troino”, de José Luís Neto, “Avenida Luísa Todi”, de Francisca Ribeiro, e “As elites d’Ouro Branco – De Santa Maria a Bocage”, de José Luís Neto, respectivamente.
As informações que constam no texto dos roteiros padecem de algumas falhas inexplicáveis. O problema é que essas foram as publicações mais distribuídas e que ficarão para informar. E um erro, quando escrito, tem tendência a propagar-se… além de ser um atentado à memória.
Com a devida autorização, transcrevo, em duas partes, a opinião de Carlos Mouro, investigador e autor de obra sobre a história de Setúbal, por constituir uma reposição da verdade em informações que não denota(ra)m esse cuidado.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Intervalo (16)

Filosofia para a vida
Um professor, durante a sua aula de Filosofia, sem dizer uma palavra, pega num frasco de maionese, esvazia-o... e enche-o com bolas de golfe. A seguir, pergunta aos alunos se o frasco estava cheio. Os estudantes respondem que sim. Então, o professor pega numa caixa cheia de caricas e mete-as no frasco de maionese. As caricas enchem os espaços vazios entre as bolas de golfe. O professor volta a perguntar aos alunos se o frasco está cheio e eles voltam a dizer que sim. Então... o professor pega noutra caixa... cheia de areia e esvazia-a para dentro do frasco de maionese. Claro que a areia enche todos os espaços vazios e, uma vez mais, o professor volta a perguntar se o frasco está cheio. Nesta ocasião os estudantes respondem unanimemente um "Sim!". De seguida, o professor acrescenta duas taças de café ao frasco e claro que o café preenche todos os espaços vazios entre a areia. Os estudantes, nesta ocasião, começam a rir-se...mas reparam que o professor está sério e diz-lhes:
- Quero que se dêem conta de que este frasco representa a vida. As bolas de golfe são as coisas importantes como a família, os filhos, a saúde, os amigos, tudo o que os apaixona. São coisas que, mesmo que se perdêssemos todo o resto, manteriam cheias as nossas vidas. As caricas são as outras coisas que importam, como o trabalho, a casa, o carro, etc. A areia é tudo o demais, as pequenas coisas. Se puséssemos primeiro a areia no frasco, não haveria espaço para as caricas nem para as bolas de golfe. O mesmo acontece com a vida. Se gastássemos todo o nosso tempo e energia nas coisas pequenas, nunca teríamos lugar para as coisas realmente importantes. Prestem atenção às coisas que são cruciais para a vossa felicidade. Brinquem ensinando os vossos filhos; arranjem tempo para ir ao médico; namorem e vão com a vossa/vosso namorado/marido/mulher jantar fora; pratiquem o desporto ou hobby favorito. Haverá sempre tempo para limpar a casa e reparar as canalizações. Ocupem-se das bolas de golfe em primeiro lugar, das coisas que realmente importam. Estabeleçam as vossas prioridades, o resto é só areia...
Um dos estudantes levanta a mão e pergunta o que representava o café. O professor sorri e explica:
- O café é só para vos demonstrar que não importa o quanto a vossa vida esteja ocupada, porque sempre haverá espaço para um café com um amigo.

OBS: Texto cuja autoria desconheço, enviado por amigo. Num tempo como o nosso, esta história tem o seu quê de ensinamento...

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

"O destino do Capitão Blanc", de Sérgio Luís de Carvalho



Quando lemos O destino do Capitão Blanc, de Sérgio Luís de Carvalho (Lisboa: Planeta, 2009), ficamos de imediato marcados por essa palavra “destino”, que nos é cara na tradição literária portuguesa; depois, podemos associar a ideia ao subtítulo que o livro apresenta – “A missão e a paixão de um militar português na Primeira Guerra Mundial” – e o puzzle começa a compor-se.

Neste romance, o leitor acompanha cerca de quatro meses da vida da personagem Luís Blanc (se exceptuarmos as indicações sobre o seu passado, dadas por analepse), ocorridos entre o início de Agosto e o final de Novembro de 1918, em torno de uma missão para que o militar foi destacado na Flandres (e que lhe decidiu o destino), onde o Corpo Expedicionário Português (CEP) participava na guerra de trincheiras.
É curioso que o sentido de missão, bem como a história desta personagem, se vão alicerçar sobre o momento em que o CEP já perdera alguma da sua identidade. Porém, o facto de sabermos que a história desta guerra já se aproximava do final confere a este romance também a possibilidade de se fazer a leitura de uma história que se vai construindo sobre ruínas, marcada por uma verosimilhança caucionada ora pelos encontros que podemos fazer com o que da literatura memorialística da participação portuguesa na Grande Guerra ficou, ora pelo roteiro geográfico que a personagem percorre e pelas figuras (Tamagnini e Hélder Ribeiro, por exemplo) e momentos históricos com que se cruza (as notas bibliográfica e cronológica, que constam no final, asseguram essa ligação entre a ficção e a realidade).
O destino realiza-se nesta história com um à-vontade assinalável, encarregando-se de construir um final para cada personagem, seja para o inimigo antigo ou para o pai de Blanc, seja para a enigmática Emma, seja para o próprio Blanc. É um romance de desgosto e de decepção, com um final difícil de prever, mesmo na história de amor em que os apelidos Blanc (dele) e White (dela) pareciam prognosticar um final feliz pela coincidência dos apelidos.
Profundo é o que fica da experiência de guerra. E vale a pena lembrar episódios como o da destruição em Mont Sec, o da associação entre os amotinados e os “cães lazarentos”, o da morte que espera um herói vestido com a “farda principal, cheia de alamares e de dourados, de dragonas e distinções” a pouco mais de uma hora do fim da guerra ou a reflexão sobre o que ficaria do que foi essa (aquela) experiência logo que um filho perguntasse a um dos combatentes algo como “pai, o que é que fizeste na Grande Guerra?”
É o absurdo da guerra. Na sua realização, na participação, nos sentires, nas reflexões sobre a vida. É o absurdo do condicionamento da liberdade, do pensamento e da palavra. Tudo passando neste romance, eivado de ironia, efeito que é muito ajudado pelos comentários entre parênteses que entremeiam alguns parágrafos, ora como extensões do narrador ou das personagens, ora suscitando no leitor a vontade de acompanhar a reflexão.
A literatura portuguesa do século XXI contribuiu já com alguns bons títulos de ficção que tomaram como tempo e como cenário a participação portuguesa na Grande Guerra. O destino do Capitão Blanc, de Sérgio Luís de Carvalho, é um deles, que vem integrar esse rol em que já constavam obras como A filha do Capitão (de José Rodrigues dos Santos, 2004) e Memória das estrelas sem brilho (de José Leon Machado, 2008).

Sublinhados (por ordem de entrada na obra)
“Um campo de batalha não é um bom sítio para termos atrás de nós alguém que queira saldar contas antigas.”
“Ninguém olha para trás quando sai de uma trincheira para a retaguarda porque não lhe sente a falta, mas ninguém olha para trás quando sai de uma trincheira avançando para um ataque porque lhe sente a falta em demasia.”
“A busca ansiosa de heróis é timbre das grandes derrocadas.”
“Por mais teso que um gajo seja é sempre na mãe que fala quando está mesmo a morrer.”
“Os ratos são dos poucos a tirar bom partido desta guerra, para além dos banqueiros, dos empresários, dos piolhos, dos políticos oportunistas e dos fabricantes de armamentos, claro está.”
“O mundo tem, de quando em vez, umas surpresas que quebram o curso ordenado das coisas esperadas.”
“Estas coisas das revoltas são, como se sabe, muito contagiosas, sobretudo se há razões de sobra para isso.”
“Até o cão mais pacato se farta dos maus tratos.”
“É de lendas que se faz a fama de homens e de bichos.”
“As más notícias são sempre intemporais.”
“O melhor é viver um dia de cada vez. Aprende-se isso depressa, numa guerra…”
“Convém ter medo… Foram homens sem medo que conduziram o mundo a esta loucura… As pessoas decentes e sensatas, essas, costumam ter medo.”
“Pode-se acusar a morte de muita coisa, mas não de ser inesperada; está lá sempre, nós é que passamos o tempo a esquecer isso.”
“Um tipo tem de se defender de desilusões, senão damos em doidos.”
“Por vezes, a realidade é uma coisa muito inconveniente.”
“As coisas têm o seu tempo. Depois passam. Tudo passa.”
“Traição ou glória são coisas bastante relativas.”
“Esta guerra faz-nos pensar em tanta coisa, faz-nos tantos amargos de boca, que creio bem que dela nem os vivos sairão sobreviventes.”
“Em guerra, tal como durante a noite, uma pessoa faz coisas e diz coisas que não faria nem diria em tempo de paz ou à luz do dia. É a noite. E é a guerra. Estas duas coisas são muito manhosas.”
“As coisas, mesmo as do passado, sabem-se sempre.”
“Os rancores e as raivas acumuladas mais não são que merdices que nos encaganitam a vida e de que a morte se ri como uma alarve.”
“Mesmo assobiado e mesmo desafinado, hino nacional é hino nacional e com os pátrios brios nunca se brinca.”
“A verdade é uma coisa dura de se ouvir e, por vezes, muito pouco conveniente.”
“Ao menos a terra e a guerra não nos pregam mentiras. São o que são e mais nada. Para o mal e para o bem, a gente sabe com o que pode contar.”

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rostos (136)


Em Setúbal, na Rua da Velha Alfândega

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

"Papel a mais" - Convite

Um dia, ao entrar na livraria setubalense Culsete, manifestei a estranheza por não estar no escaparate nem um exemplar de uma qualquer obra daquelas que, tão vertiginosamente como aparece, desaparece e ninguém a fica a lembrar. Já não recordo o título, confesso, mas tinha lugar marcado em todas as montras de livrarias e papelarias, aqui ou ali, em Setúbal como em Lisboa. Resposta do Manuel Medeiros: "Livros é que eu quero, não é papel..." Percebi, achei piada à resposta. Nesta repentista tirada reflectia-se o pensamento de uma profissão e de uma vida. E, agora, aí está Papel a mais, que não conta esta história (insignificante, claro!), mas conta outras que ajudam a perceber a consistência de uma tal resposta.
Este Papel a mais, de Resendes Ventura, poeta acumulado com Manuel Medeiros, livreiro em Setúbal, é um caso. De leitura, de reflexão, de partilha e de vida. Bem poderia o autor chamar-lhe, pedindo o título emprestado a Régio, "O meu caso"... É leitura obrigatória para quem goste de livros, de memórias, de testemunhos, de se cruzar com outros nomes grados das letras, de poesia, dos Açores, do ensaio, dos momentos em que se pensa a vida. O convite aí fica, pois!

domingo, 15 de novembro de 2009

Máximas em mínimas (52)

Raivas e risos
"Os rancores e as raivas acumuladas mais não são do que merdices que nos encaganitam a vida e de que a morte se ri como uma alarve."
Sérgio Luís de Carvalho. O destino do Capitão Blanc. Lisboa: Planeta, 2009, pg. 235.