sexta-feira, 27 de março de 2009
quinta-feira, 26 de março de 2009
Porque o dia 2 de Abril está a chegar... e porque há um abeto que é um monumento
NA AVENIDA LUÍSA TODI
UM MONUMENTO À IGNORÂNCIA?
UM MONUMENTO À IGNORÂNCIA?
Está a chegar mais um 2 de Abril. Se a muitas outras pessoas não admito o direito de o ignorar, muito menos a mim. Dia de Andersen. Dia Internacional do Livro Infantil. A Árvore de Andersen em Setúbal. O seu actualíssimo simbolismo. Não posso ficar indiferente. É o mínimo. O resto é fazer o melhor que ainda puder pela me
mória setubalense de Andersen e pela divulgação dos melhores livros para as nossas crianças.
Antes de começar a escrever estas linhas fui mais uma vez até à Avenida Luísa Todi, em amena tarde de domingo. Em obras ainda o coreto, um monumento. Património. Ao lado, o abeto que homenageia Hans Christian Andersen, igualmente ou ainda mais, um monumento. Património. Entre o abeto e a rua, um pequeno edifício, com muito bom design. Um novo monumento? E porque não? Só porque a finalidade não é ser utilizado por bandas de música, razão de haver coreto, por pouco utilizado que seja actualmente? É que acho muito bem o design do pequeno edifício. Parabéns ao projectista. O que não consigo compreender é como foi possível fazer do abeto dedicado a Andersen como que um anexo do que parece que será um quiosque-bar. Alguém pode acreditar que um projectista que revela tão bom gosto, implantaria ali e assim o pequeno edifício se tivesse olhado para aquele abeto com olhos de ver e se inteirasse do seu simbolismo? Por mim, não consigo acreditar.
Quando me vieram dizer que estava ali implantado aquele pequeno edifício, não quis acreditar. Devia ser algo de provisório relacionado com o andamento das obras. Tive que ir ver. Senti revolta. Maior, porém, foi o sentimento de vergonha. A revolta pode dar grito. Quem sente vergonha, por regra esconde-se ou pelo menos fica calado. Fiquei. Até que fui interpelado e como se fosse sobretudo a mim que competia gritar o “não pode ser”. O meu maior receio era que o abeto chegasse a desaparecer, ele que já passou por vários acidentes. Deixaram marcas que não sei se e como podem ser reparadas. Felizmente lá está à espera do nosso respeito.
Julgo que sou a pessoa menos indicada para abrir a boca. Até parece que… Um pouco de bom senso dá para compreender. O abeto foi oferecido pelas Autoridades Dinamarquesas a Setúbal e sua Câmara Municipal, não a mim, por mais que tudo tenha partido duma iniciativa minha e não seja preciso esconder que não foi fácil levá-la por diante para que tudo acabasse por acontecer em 28 de Outubro de 1998, com o respeito, brilho e significado que se recorda. Se estou quebrando o silêncio é para evitar confusões. A vergonha é do que vejo, não do que penso.
Insisto em que só vejo a ignorância como desculpa para o que a mim me parece (bem sei que também a outras pessoas) uma manifesta falta de respeito pela memória setubalense de Andersen. Não posso considerar como desprezo ou acinte (é perguntar: a
quem?) a implantação daquele pequeno edifício no local em que está. A ignorância terá de ser a justificação, como o é para muito do que tem acontecido. Tanto poder que a ignorância tem e tem tido! No dia em que se comemoraram no Salão Nobre os 150 anos do nascimento de João Vaz ouvi o Professor Doutor Fernando António Baptista Pereira comparar o que aconteceu em Setúbal com o Teatro D. Amélia com o que acontece em Évora com o teatro da mesma época. Ainda hoje lá está, é património da cidade e continua a ser utilizado. Podia ter-se construído o Cine-Teatro Luiza Todi noutro espaço, comentou com a sua autoridade Baptista Pereira.
Se a ignorância tem tanto poder, por que não dedicar-lhe um monumento? Ao poder da ignorância! Faz ou não sentido perguntar se se justifica que o pequeno edifício da Avenida Luísa Todi, implantado ali à sombra de A Árvore de Andersen em Setúbal, seja considerado um bonito monumento à ignorância? Posso perguntar publicamente, sem me admitir entrar em guerras inúteis e sem querer ofender ninguém?
mória setubalense de Andersen e pela divulgação dos melhores livros para as nossas crianças.Antes de começar a escrever estas linhas fui mais uma vez até à Avenida Luísa Todi, em amena tarde de domingo. Em obras ainda o coreto, um monumento. Património. Ao lado, o abeto que homenageia Hans Christian Andersen, igualmente ou ainda mais, um monumento. Património. Entre o abeto e a rua, um pequeno edifício, com muito bom design. Um novo monumento? E porque não? Só porque a finalidade não é ser utilizado por bandas de música, razão de haver coreto, por pouco utilizado que seja actualmente? É que acho muito bem o design do pequeno edifício. Parabéns ao projectista. O que não consigo compreender é como foi possível fazer do abeto dedicado a Andersen como que um anexo do que parece que será um quiosque-bar. Alguém pode acreditar que um projectista que revela tão bom gosto, implantaria ali e assim o pequeno edifício se tivesse olhado para aquele abeto com olhos de ver e se inteirasse do seu simbolismo? Por mim, não consigo acreditar.
Quando me vieram dizer que estava ali implantado aquele pequeno edifício, não quis acreditar. Devia ser algo de provisório relacionado com o andamento das obras. Tive que ir ver. Senti revolta. Maior, porém, foi o sentimento de vergonha. A revolta pode dar grito. Quem sente vergonha, por regra esconde-se ou pelo menos fica calado. Fiquei. Até que fui interpelado e como se fosse sobretudo a mim que competia gritar o “não pode ser”. O meu maior receio era que o abeto chegasse a desaparecer, ele que já passou por vários acidentes. Deixaram marcas que não sei se e como podem ser reparadas. Felizmente lá está à espera do nosso respeito.
Julgo que sou a pessoa menos indicada para abrir a boca. Até parece que… Um pouco de bom senso dá para compreender. O abeto foi oferecido pelas Autoridades Dinamarquesas a Setúbal e sua Câmara Municipal, não a mim, por mais que tudo tenha partido duma iniciativa minha e não seja preciso esconder que não foi fácil levá-la por diante para que tudo acabasse por acontecer em 28 de Outubro de 1998, com o respeito, brilho e significado que se recorda. Se estou quebrando o silêncio é para evitar confusões. A vergonha é do que vejo, não do que penso.
Insisto em que só vejo a ignorância como desculpa para o que a mim me parece (bem sei que também a outras pessoas) uma manifesta falta de respeito pela memória setubalense de Andersen. Não posso considerar como desprezo ou acinte (é perguntar: a
quem?) a implantação daquele pequeno edifício no local em que está. A ignorância terá de ser a justificação, como o é para muito do que tem acontecido. Tanto poder que a ignorância tem e tem tido! No dia em que se comemoraram no Salão Nobre os 150 anos do nascimento de João Vaz ouvi o Professor Doutor Fernando António Baptista Pereira comparar o que aconteceu em Setúbal com o Teatro D. Amélia com o que acontece em Évora com o teatro da mesma época. Ainda hoje lá está, é património da cidade e continua a ser utilizado. Podia ter-se construído o Cine-Teatro Luiza Todi noutro espaço, comentou com a sua autoridade Baptista Pereira.Se a ignorância tem tanto poder, por que não dedicar-lhe um monumento? Ao poder da ignorância! Faz ou não sentido perguntar se se justifica que o pequeno edifício da Avenida Luísa Todi, implantado ali à sombra de A Árvore de Andersen em Setúbal, seja considerado um bonito monumento à ignorância? Posso perguntar publicamente, sem me admitir entrar em guerras inúteis e sem querer ofender ninguém?
Manuel Medeiros
[Fotos: abeto em memória de Andersen e respectiva lápide evocativa, na Avenida Luísa Todi, em Setúbal]
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Em trânsito
Anteontem, pelas três da tarde, fiz o percurso entre Santana (Sesimbra) e o Fogueteiro, itinerário de muito movimento rodoviário, com particular destaque para pesados. Fiz o percurso sempre atrás de um camião e fui assistindo às tropelias de um dado tipo de condução.Por exemplo, a certa altura, pouco depois da Cotovia, o trânsito rodava lento. O condutor do camião buzina várias vezes, com decibéis que tornavam o seu som bem grave. Umas centenas de metros à frente, o camião mete-se, enfim, a ultrapassar o obstáculo. Era um daqueles veículos lentos que não exige carta de condução e que tem velocidade reduzida. A meio da ultrapassagem, o camião começa a encostar para a direita e o veículo lento não tem outro remédio senão rolar para a berma, de terra batida, quase atarantado, no meio de poeirenta nuvem. E o camião lá segue a sua rota, sem que, no momento, houvesse trânsito em sentido contrário.
Mais à frente, além de, ocasionalmente, algumas linhas irregulares na rodagem, com oscilações ora para o centro da via ora para a berma, o homem apitava, não sei se alegremente, se para cumprimentar quem passava, se para mandar desviar quem lhe fosse à frente. Eram buzinadelas em forma de sirene de bombeiros, mas mais graves, a condizerem com o tamanho do veículo, talvez. Mais espectacular som surgiu ao passar por baixo da auto-estrada, no nó do Fogueteiro, com o eco a responder-lhe com redobrada gravidade. E se quem seguia atrás do pesado bólide ouvia nitidamente tais manifestações de contentamento, imagine-se quem estivesse na sua frente...
Depois, sem sinalização, virou para a auto-estrada. Presumo que se terá posto na faixa da esquerda com a buzina a roncar e prego a fundo. Ou talvez não. Se calhar, foi pela direita, a mandar que o pessoal se desviasse para a esquerda para ele passar… Ironias, claro!
Neste percurso, preocupei-me em não ultrapassar o artista. Precaução minha, é evidente. Apesar de acreditar que não há ninguém que não tenha cometido erros de condução na vida. Mas, perante certas alarvidades… fica-nos sempre o desejo de que ali, naquela hora, um agente da autoridade devia surpreender o artista. Por ele, claro; mas sobretudo pelos outros, que têm o direito de não se sentir inseguros.
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quarta-feira, 25 de março de 2009
segunda-feira, 23 de março de 2009
Sobre candidatos (seja ao que for)
Segundo José Pedro Machado, no Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, a palavra "candidato" está registada em português pelo menos desde o séc. XVII, tempo em que Luís Mendes de Vasconcelos a inseriu na sua Arte Militar (1612).
"Desisto", de Philippe Claudel
Desisto, de Philippe Claudel (Alfragide: Edições ASA, 2009), é uma narrativa curta, na primeira pessoa, de um técnico cujo trabalho é, num hospital, o anúncio às famílias da morte dos seus próximos, seguido do convencimento para que seja autorizada a doação de órgãos.

A história desenrola-se enquanto à sua frente está uma mulher que acaba de ser informada da morte de um parente. É um frente a frente de desvantagens, numa reflexão sobre a vida e a morte, sobre as vidas, sobre o ser humano hoje. O técnico regista a história e as reflexões para uma filha de cerca de dois anos, também já órfã de mãe. E a mistura dos dramas acaba por acontecer, assim como a revolta, que vai aumentando.
O que fica
1. “Hoje em dia, toda a gente evita chamar as coisas pelos nomes: um cego é um invisual, um animador de televisão um artista, os mortos em breve serão não-vivos.”
2. “Hoje em dia, as pessoas param para fruir do infortúnio dos outros, da visão dos cães gemendo nos derradeiros espasmos, dos corpos esfacelados entre as chapas das viaturas, mas prosseguem o seu caminho quando lhes dirigem súplicas. Não ouvem quando lhes gritam que parem e prestem auxílio.”
2. “Hoje em dia, as pessoas param para fruir do infortúnio dos outros, da visão dos cães gemendo nos derradeiros espasmos, dos corpos esfacelados entre as chapas das viaturas, mas prosseguem o seu caminho quando lhes dirigem súplicas. Não ouvem quando lhes gritam que parem e prestem auxílio.”
3. “Já não sabemos onde arrumar as guerras. Faltam-nos gavetas. A nossa memória é um abismo onde se acumulam muitos cadáveres. Transborda de corpos sem vida. Consumimo-los em genocídios inteiros à medida que os jornais no-los trazem, e depois misturamo-los, branqueamos tudo, amalgamamo-los, o que é bem mais eficaz do que a cal viva.”
4. “Nunca pensamos nos vivos com a intensidade que merecem e que só a morte consegue despontar dentro de nós. Não olhamos para os vivos.”
5. “Todos nós transportamos cruzes modernas, suportamos o insuportável num corpo destinado ao comércio, num corpo que já não nos pertence. Tudo o que não marca não existe. Os jovens empenham o cérebro e a alma num pequeno crocodilo verde, em três faixas pretas, numa vírgula horizontal: fora disso, não existem. Lacoste, Adidas e Nike tornaram-se a trindade de uma religião oca, cada dia mais cheia de santos e que condena os homens a mascarar-se de hambúrguer para ganhar a vida. Ganhar a vida, mas que vida?”
6. “Toda a gente tem a sua ética, todas as profissões, e mesmo as piores, sobretudo as piores. A moral morreu mas inventaram uma nova alma, a ética, mais volátil, evanescente, mais moderna e majestosa.”
5. “Todos nós transportamos cruzes modernas, suportamos o insuportável num corpo destinado ao comércio, num corpo que já não nos pertence. Tudo o que não marca não existe. Os jovens empenham o cérebro e a alma num pequeno crocodilo verde, em três faixas pretas, numa vírgula horizontal: fora disso, não existem. Lacoste, Adidas e Nike tornaram-se a trindade de uma religião oca, cada dia mais cheia de santos e que condena os homens a mascarar-se de hambúrguer para ganhar a vida. Ganhar a vida, mas que vida?”
6. “Toda a gente tem a sua ética, todas as profissões, e mesmo as piores, sobretudo as piores. A moral morreu mas inventaram uma nova alma, a ética, mais volátil, evanescente, mais moderna e majestosa.”
domingo, 22 de março de 2009
À volta de poemas, na noite de ontem
A noite de ontem na Culsete, em Setúbal, foi de partilha de poesia, iniciativa levada a cabo pela livraria e pelo Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal para celebrar o Dia Mundial da Poesia. “E porque não há um Dia Mundial do Romance?”, perguntava Hélder Moura Pereira. “E porque não do Ensaio?”, acrescentava Fernando Gandra. Mas era o Dia da Poesia ou das poesias e era por isso que as pessoas ali estavam.
Ouviu-se Joaquina Soares, Fernando Gandra, Jorge Faria, Arlindo Mota, Cidália Fonseca, Resendes Ventura (Manuel Medeiros), Luís Filipe Estrela, Arnaldo Ruaz, Helena de Sousa Freitas e Hélder Moura Pereira. Todos disseram da sua poesia e leram poemas. Outros nomes, aliás, outros poetas foram trazidos: Maria Angélica de Andrade (que viveu em Setúbal entre 1840 e 1874, mulher de Cândido de Figueiredo) chegou com Anita Vilar; e entraram também outros poetas setubalenses como Tomás António dos Santos e Silva (1751-1816), Caetano de Moura Palha Salgado (padre, 1845-1905) e Sebastião da Gama (1924-1952). Houve ainda referências a muitos outros, como Alberto de Lacerda, José Afonso, Bocage, Eugénio Lisboa.
Foi de poesia a noite e foi agradável. Entre vozes, versos, palavras e livros. Entre poemas.
Ouviu-se Joaquina Soares, Fernando Gandra, Jorge Faria, Arlindo Mota, Cidália Fonseca, Resendes Ventura (Manuel Medeiros), Luís Filipe Estrela, Arnaldo Ruaz, Helena de Sousa Freitas e Hélder Moura Pereira. Todos disseram da sua poesia e leram poemas. Outros nomes, aliás, outros poetas foram trazidos: Maria Angélica de Andrade (que viveu em Setúbal entre 1840 e 1874, mulher de Cândido de Figueiredo) chegou com Anita Vilar; e entraram também outros poetas setubalenses como Tomás António dos Santos e Silva (1751-1816), Caetano de Moura Palha Salgado (padre, 1845-1905) e Sebastião da Gama (1924-1952). Houve ainda referências a muitos outros, como Alberto de Lacerda, José Afonso, Bocage, Eugénio Lisboa.
Foi de poesia a noite e foi agradável. Entre vozes, versos, palavras e livros. Entre poemas.
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sábado, 21 de março de 2009
No Dia Mundial da Poesia, a esperança
A Filomena anda pelos 15 anos e é minha aluna há quase três anos. Gosta de ler e de escrever e, de vez em quando, poeta. Na madrugada de hoje, a propósito do Dia Mundial da Poesia, enviou a muitos colegas e a alguns professores um mail com dois poemas. Escolhi "A Esperança" para aqui reproduzir. Em jeito de oferta e de partilha da escrita da Filomena e por causa da poesia...
Esperança
Na neblina da manhã,
Eu olhei para o céu
E vi esta artimanha
Da minha esperança.
O mundo de hoje,
Na claridade da escuridão,
Esqueceu-se da amizade
E penetrou na solidão.
Mas, no fundo do mar
E nas montanhas esculpidas
Pelo olhar
Das pessoas adoradas,
Pela fama de sonhar,
Há sempre um canto
De amor e solidariedade.
Apesar de caladas
As razões da criação
De esperança,
Há sempre um coração
Disposto a ajudar...
O canto dos pássaros,
O pôr-do-sol,
O mar, o amar
E até o ar puro.
Na neblina da manhã,
Eu olhei para o céu
E vi esta artimanha
Da minha esperança.
O mundo de hoje,
Na claridade da escuridão,
Esqueceu-se da amizade
E penetrou na solidão.
Mas, no fundo do mar
E nas montanhas esculpidas
Pelo olhar
Das pessoas adoradas,
Pela fama de sonhar,
Há sempre um canto
De amor e solidariedade.
Apesar de caladas
As razões da criação
De esperança,
Há sempre um coração
Disposto a ajudar...
O canto dos pássaros,
O pôr-do-sol,
O mar, o amar
E até o ar puro.
Março de 2007
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