terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Rilke, uma referência para Sebastião da Gama

Nesta data, em 1875, nasceu Rainer Maria Rilke (1875-1926) em Praga. Uma das suas obras mais conhecidas é Cartas a um jovem poeta, de que reproduzo parcialmente a primeira das várias missivas dirigidas ao senhor Kappus, aprendiz de poeta, datada de 17 de Fevereiro de 1903, de Paris. Lendo-a, percebemos a razão que levou um poeta daqui da nossa região, Sebastião da Gama, a consagrar a Poesia com maiúscula, a cantar o que cantou, a tornar inseparável a arte e a sua forma de viver. Lendo-a, percebemos qual o motivo que levou o mesmo Sebastião da Gama a recomendar a leitura destas Cartas aos seus amigos, alguns deles vultos importantes da cultura portuguesa do século XX – em 9 Agosto de 1946, a partir do Portinho da Arrábida, Sebastião da Gama escrevia a Lindley Cintra, seu colega, dizendo: “Tenho lido um livro admirável que deves ler – embora não lhe sigas o maior preceito: andar horas e horas por si dentro sem encontrar ninguém. É o Cartas a um Poeta, de R. M. Rilke”; em 10 de Fevereiro de 1948, em carta a David Mourão-Ferreira, aconselhava Sebastião da Gama: “Pega, David, nas Cartas a um Poeta: ele sabe muito bem que sem a solidão nada feito. Olha que a mim até me dá para ser cruel e irreverente. Chego a doer-me a mim próprio.”; em 22 de Julho desse mesmo ano, numa carta para Luís Amaro comentava: “Cartas a um Poeta é um livro admirável, de termos à cabeceira e lermos assim como um catecismo. Assim é que deviam ser os Poetas: assim sinceros e protectores e modestos.”
Não era caso para admirar esta dedicação de Sebastião da Gama a Rilke – é que o estudo da poesia também preocupava o poeta da Arrábida, que era um homem informado sobre a cultura clássica e sobre a sua contemporânea. Em Portugal, no final da década de 40 e início da seguinte do século passado, as Cartas de Rilke eram um prodígio. Só assim se compreende o anúncio que o Diário Popular fez da 2ª edição da tradução portuguesa desta obra, a cargo de Fernanda de Castro, em 22 de Fevereiro de 1950: “Escrevendo ao jovem poeta Kappus, Rilke elaborou a Arte Poética do nosso tempo”.
“Meu caro senhor:
Acabo de receber a sua carta. Não quero deixar de lhe agradecer a grande e preciosa confiança que esta representa, mas pouco mais posso fazer. Não analisarei a
maneira dos seus versos, porque sempre fui alheio a qualquer preocupação crítica. Para penetrar uma obra de arte nada, aliás, pior do que as palavras da crítica, que apenas conduzem a mal-entendidos mais ou menos felizes. (…)
Dito isto, apenas posso acrescentar que os seus versos não revelam uma maneira
sua. (…) O seu olhar está voltado para fora: eis o que não deve tornar a acontecer. (…) Há só um caminho: entre em si próprio e procure a necessidade que o faz escrever. Veja se esta necessidade tem raízes no mais profundo do seu coração. Confesse-se a fundo: ‘Morreria se me não fosse permitido escrever?’ (…) Aproxime-se da natureza. Experimente dizer, como se fosse o primeiro homem, o que vê, o que vive, o que ama, o que perde. Não escreva poemas de amor. Evite, de princípio, os temas demasiado correntes; são os mais difíceis. (…) Diga as suas tristezas e os seus desejos, os pensamentos que o afloram, a sua fé na beleza. Diga tudo isto com uma sinceridade íntima, calma e humilde. (…)
Apenas me é possível dar-lhe este conselho: mergulhe em si próprio e sonde as profundidades onde a sua vida brota. Só lá encontrará a resposta à pergunta ‘Devo criar?’ Desta resposta recolha o som sem forçar o sentido. (…)
Apenas fiz questão de aconselhá-lo a evoluir segundo a sua lei, gravemente, seguramente. Não lhe seria possível perturbar mais violentamente a sua evolução do que dirigindo o seu olhar
para fora, do que esperando de fora as respostas que só o seu sentimento mais íntimo, na hora mais silenciosa, poderá talvez dar-lhe. (…)
A minha dedicação e a minha simpatia. Rainer Maria Rilke”
[foto a partir do livro Lettres à Lou Andreas-Salomé, de Rilke (Paris: Mille et une nuits, 2005)]

Rostos (12)

Serra da Estrela - Pastor (numa loja de recordações)

Por falta de agenda

Relato aqui a história tal como me foi contada. E acredito em quem a disse, que foi também com quem ela se passou e dela foi protagonista (ou vítima).
Depois de atendida pelo médico, que lhe prescreveu uns exames, foi para a fila a fim de proceder à marcação de um deles. Tirou senha, aguardou e... quando chegou a vez:
- Não podemos ainda fazer marcação, porque não temos a agenda de 2008! Fique com o número de telefone e, para a semana, ligue para ver se já estamos a fazer marcações... Depois, tem que vir cá marcar!
E, com a revolta que a todos vai consumindo por esta subjugação a papéis, papéis e mais papéis, saiu, a aguardar que uma agenda de 2008 chegue àquele serviço para, daqui a uns dias, lá voltar e marcar.
A história passou-se hoje, quando se está no quarto dia de Dezembro (e depois de, há mais de um mês, haver agendas de 2008 à venda), no Hospital de Setúbal.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Intervalo (2)

O texto que segue é uma caricatura, que me chegou por mail, sem indicação de autor. Enquanto caricatura, vale pelo humor, mas também pelo que esse humor esconde (ou revela). Felizmente, as duas perguntas do final do texto são mais infelizes do que a realidade!...

O Não-Professor
Faço projectos, planos, planificações;
Sou membro de assembleias, conselhos, reuniões;
Escrevo actas, relatórios e relações;
Faço inventários, requerimentos e requisições;
Escrevo actas, faço contactos e comunicações;
Consulto ordens de serviço, circulares, normativos e legislações;
Preencho impressos, grelhas, fichas e observações;
Faço regimentos, regulamentos, projectos, planos, planificações;
Faço cópias de tudo, dossiers, arquivos e encadernações;
Participo em actividades, eventos, festividades e acções;
Faço balanços, balancetes e tiro conclusões;
Apresento, relato, critico e envolvo-me em auto-avaliações;
Defino estratégias, critérios, objectivos e consecuções;
Leio, corrijo, aprovo, releio múltiplas redacções;
Informo-me, investigo, estudo, frequento formações;
Redijo ordens, participações e autorizações;
Lavro actas, escrevo, participo em reuniões;
E mais actas, planos, projectos e avaliações;
E reuniões e reuniões e mais reuniões!...

E depois ouço
alunos, pais, coordenadores, directores, inspectores,
observadores, secretários de estado, a ministra
e, como se não bastasse, outros professores
e a ministra!...
Elaboro, verifico, analiso, avalio, aprovo;
Assino, rubrico, sumario, sintetizo, informo;
Averiguo, estudo, consulto, concluo...
Coisas curriculares, disciplinares, departamentais,
Educativas, pedagógicas, comportamentais,
De comunidade, de grupo, de turma, individuais,
Particulares, sigilosas, públicas, gerais,
Internas, externas, locais, nacionais,
Anuais, mensais, semanais, diárias e ainda querem mais?
- Que eu dê aulas!?...

Educação Sexual

Do relatório sobre o “Comportamento Sexual dos Adolescentes Portugueses” (orientado por Margarida Gaspar de Matos, da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa), que contribuirá para o “Health Behaviour in School-Aged Children” (da Organização Mundial de Saúde), resultando de inquérito aplicado a 4877 jovens em 2006 (o anterior tinha sido em 2002, com 6131 Jovens), ressaltam algumas conclusões:
- 9% acham que as pessoas infectadas deveriam viver à parte do resto da população
- 66% não se importariam de se sentar ao lado de um colega infectado (70,8%, em 2002)
- 80,6% visitariam um amigo que estivesse infectado (83,9%, em 2002)
- 60% concordam que a um jovem infectado seja permitido frequentar a escola
- 7% confessam que deixariam de ser amigos de uma pessoa infectada
- 9,3% declaram que as pessoas doentes deveriam viver à parte do resto da população
Segundo o Público de ontem, há ainda outros dados importantes: “De 2002 para 2006 verifica-se que diminuiu o número dos que afirmam que uma pessoa pode ficar infectada se usar uma agulha ou seringa já utilizada (o valor caiu de 94,1 para 89,8 por cento); que se pode ficar infectado tendo relações sexuais sem usar preservativo com alguém que esteja doente (de 87,9 para 86,7); e que uma mulher com o vírus, se estiver grávida, o seu bebé pode ficar infectado (de 89 para 80,2). Por outro lado, aumenta o número de jovens que acreditam que é possível ficarem infectados se abraçarem alguém com o HIV (de 3,1 para 5,5 por cento) ou que, se essa pessoa tossir ou espirrar perto de outras, pode contagiá-las (12,2 para 13,9 por cento). Há ainda quem diga que a pílula pode proteger do vírus (de 9,8 para 11,3).
Do ponto de vista da tolerância, da saúde pública, da educação sexual e da informação, as coisas não estão a melhorar, pois. Preocupante!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Elas aí estão, as faltas!

Ainda não vai há 3 horas que a notícia foi posta na edição online do Público: o novo estatuto do aluno foi aprovado por quem acha que tem sempre razão e por quem acha que tem a missão de refundar o país e a civilização. Facilitismo... é pouco! Um dia, as consequências hão-de cair-nos em cima. Só é pena que seja em cima de todos!
«Governo acusado de facilitismo - PS aprova novo Estatuto do Aluno sob críticas da oposição
O PS aprovou hoje, sozinho, em votação final global, o novo Estatuto do Aluno sob as duras críticas dos partidos da oposição, que acusaram a maioria socialista de facilitismo.Todas as bancadas da oposição, PSD, CDS-PP, PCP, Bloco de Esquerda e Partido Ecologista “Os Verdes”, uniram-se no voto e nas críticas ao Executivo por a lei não valorizar a assiduidade.
Os social-democratas e os democratas-cristãos pediram mesmo nova discussão em plenário do artigo 22.º, apresentando propostas alternativas, que foram "chumbadas" pelos deputados da maioria.
No início do mês, e perante as críticas generalizadas, de partidos e sindicatos, o PS apresentou a terceira proposta de alteração estipulando que se o aluno faltar sem justificação à referida prova fica retido, no caso do básico, ou excluído da frequência da disciplina, no caso do secundário, o que não estava previsto nas propostas anteriores.PSD e CDS-PP acusavam o Executivo de laxismo dado que, na proposta inicial, não se prever que o aluno ficasse retido ou fosse excluído por faltas.
O dever da assiduidade continua a ser posto em causa, afirmaram hoje no debate os deputados Emídio Guerreiro (PSD) e José Paulo Carvalho (CDS-PP).
O novo estatuto, disse Emídio Guerreiro, promove o facilistismo e tenta "resolver o problema do insucesso e do abandono escolar através de artifícios estatísticos".A bancada do PS, através da deputada Luísa Caré, anunciou a apresentação de declarações de voto sobre a lei.»

Máximas em mínimas (12)

Multidão
Uma multidão é sempre estúpida, torna-se ameaçadora, comprime cada vez mais (…). Uma multidão, o que é?, não é nada, indivíduos inofensivos se lhes falarmos olhos nos olhos. Mas todos juntos, quase colados uns aos outros, no odor dos corpos, da transpiração, dos hálitos, de rostos espantados, à espreita da mais leve palavra, certa ou errada, transforma-se em dinamite, numa máquina infernal, numa marmita fumegante prestes a explodir se alguém lhe tocar.
Philippe Claudel, Les âmes grises, 2003 (trad. port.: Almas Cinzentas, 2004)

Em greve...

... pelas razões apresentadas pela "Plataforma Sindical de Professores". E por outras, que com elas se ligam e dão lugar à indignação.
Não, não é fim-de-semana prolongado. Tenho estado a corrigir trabalhos dos alunos, não em qualquer paraíso de viagem, mas em casa. E mais: com uma das turmas com quem teria aula hoje combinei leccioná-la na 2ª feira. E mais ainda: não sou adepto das greves (até hoje, é a segunda vez que participo; a outra vez tem já muitos anos) e lamento que elas surjam encostadas aos fins-de-semana ou aos feriados!

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Amanhã


De pequenino se torce... o sucesso

No Diário de Notícias de hoje, Pedro Lomba faz crónica sobre o sucesso. Trago para aqui o final, porque contém um desafio: é que o sucesso... nem sempre é o que parece!
"(...) O sucesso não é condição suficiente para se ser uma "pessoa de sucesso". "As pessoas de sucesso" falam um código próprio, usam uma linguagem reconhecível, demonstram uma atitude. Para sermos reconhecidos como "pessoas de sucesso", precisamos de conviver com outras "pessoas de sucesso". A primeira decisão de uma "pessoa de sucesso" é livrar-se de todos os desgraçados à sua volta. Depois, "a pessoa de sucesso" fala abundantemente do seu sucesso, de como o merece e de como nada do que lhe aconteceu foi por acaso. E, muito importante, sempre que pode, "a pessoa de sucesso" escancara na cara dos outros esse estatuto. São um perigo estas "pessoas de sucesso". Uma má influência para as crianças que podem querer nos seus sonhos ser uma "pessoa de sucesso". Vivem em pose permanente. Desprezam quem presumem abaixo deles.
O psicanalista britânico Adam Philips escreveu uma vez, no seu estilo obscuro, que o "sucesso na terapia pode significar falhanço na universidade". O que acho que isto quer dizer é que as "pessoas de sucesso" numas áreas podem ser "pessoas de insucesso" noutras e que a sua satisfação, por isso, acaba por ser fútil e compensatória. E que estamos sempre tão perto do falhanço em tudo o que fazemos que devíamos pensar que o sucesso, por melhor que seja, não é bem o que parece."
E anda a gente a ouvir falar sobre sucesso todos os dias e a ser empurrada para o sucesso, como se isso fosse a coisa mais maravilhosa do mundo, como se todos tivéssemos que nos vergar ao dito deus!...