terça-feira, 28 de junho de 2011

Golfinho Parade, em Setúbal (07)

"Preservação dos Golfinhos e sua Sobrevivência"
Rita Matos Chaves

Golfinho Parade, em Setúbal (06)

"A Multiculturalidade nas Nossas Mãos"
Vanessa Sequeira
Futuro Segurokids

Golfinho Parade, em Setúbal (05)

"Tributo a Poseidon"
Carolina de Melo Pereira (professora), Sara Sofia Costa, Selma Janine Duarte
(Escola Secundária da Amora)

Golfinho Parade, em Setúbal (04)

"golFadinho do Estudante"
Raquel Sousa Silva (professora), Ana Moura, Ana Margarida Pereira
(Escola Secundária António Inácio da Cruz)

Golfinho Parade, em Setúbal (03)

"Palavras de Amor"
Raquel Sousa Silva (professora), Catarina Amanhada, Rute Sobral
(Escola Secundária António Inácio da Cruz)

Golfinho Parade, em Setúbal (02)

"O Fim das Linhas"
Carlos Pereira da Silva

Golfinho Parade, em Setúbal (01)

"Sado Adentro"
Maria Irene Pereira (professora), Fábio da Silva Leitão, Patrícia Alexandra Guerreiro
(Escola Secundária de Palmela)

domingo, 26 de junho de 2011

"A última entrevista de José Saramago", por José Rodrigues dos Santos

“José Saramago, cidadão do mundo e escritor universal, é nosso; nosso, da lusofonia. A sua casa, a verdadeira identidade que o moldou e fez dele o que ele foi, é, afinal, a língua portuguesa.” É este o parágrafo que remata A Última Entrevista de José Saramago, de José Rodrigues dos Santos (Lisboa: Gradiva / RTP, 2011), agora publicada em edição autónoma, mas que já integrou o livro Conversas de Escritores (Lisboa: Gradiva, 2010) do mesmo autor. O parágrafo vem a propósito da casa Saramago em Lisboa e por causa de um plátano, mas singra por essa afirmação que conjuga identidade e lusofonia…
O pretexto desta edição será o primeiro aniversário da morte de Saramago, momento adequado para que as palavras de Saramago, numa reflexão sobre a sua obra, sejam iluminadas. A entrevista ocorreu oito meses antes da morte do autor de Memorial do Convento na biblioteca do Palácio Galveias, em Lisboa, local escolhido por Saramago, que o próprio justificou: “Foi nesta biblioteca que descobri a literatura. A minha família era muito pobre e não havia livros lá em casa, de maneira que, quando eu tinha os meus dezassete ou dezoito anos, descobri esta biblioteca e vinha para aqui ler sem que ninguém me guiasse na leitura. Descobri a literatura sozinho.”
A entrevista passa pelo conjunto da obra saramaguiana desde Terra do Pecado (de 1947) até Caim (2009), com revelações sobre a importância dos seus títulos, como faz, ao responder à observação de que Memorial do Convento (1982) será a obra do reconhecimento público: “Há um outro livro que, no fundo, é parente directo do Memorial e do Levantado do Chão [1980], mas talvez mais do Memorial, que é a Viagem a Portugal [1981]. Esse livro de viagens, que parece ser só isso, não podia ter sido escrito noutra altura nem ter outros companheiros de viagem que não fossem aqueles.”
Interessante é a resposta de Saramago quando Rodrigues dos Santos lhe fala da actividade de tradutor e das possíveis influências que as obras traduzidas por Saramago (cerca de 60) poderão ter tido na sua obra: “O autor é um tradutor. É alguém que traduz um sistema de sinais: emoções, pensamentos, sonhos, devaneios. Isto é um trabalho de tradução, porque tudo isso constitui uma linguagem que, se não encontrar uma forma comunicável de transmissão, fica cá dentro da cabeça de cada um de nós.” Esta interpretação vai encontrar eco mais adiante, no momento em que Saramago defende o valor da linguagem na construção literária – “Uma história bem construída é indispensável; aquilo tem de estar estruturado, tem de manter-se de pé. Mas eu costumo dizer que, da mesma maneira que o corpo humano tem setenta por cento de água, a literatura é setenta por cento de linguagem.”
Homem de criação e de ideias, Saramago esmera-se na comparação da construção de um romance com o crescimento de uma árvore – um e outra têm um limite que se impõe em certa fase do crescimento. Fiel às convicções, justifica a importância da palavra “não”, pela sua simbologia associada à revolução, ainda que se corra sempre o risco de uma revolução se tornar num novo “statu quo”, “num novo sim”.
A questão da pontuação – uso das vírgulas, transgredindo a norma do registo do discurso directo, ou dos nomes próprios com minúsculas – usada por Saramago nas suas obras tinha de estar presente. E a resposta teria de ser artística: “Há uma razão básica que é uma tentativa, talvez nem sempre lograda, de aproximação do discurso escrito ao discurso oral”, afirmação justificada com o ritmo da linguagem e da vida – “Nós falamos como quem faz música; toda a fala e toda a música se constrói com sons e pausas.”
Merece ainda uma referência a observação de Saramago quanto à oportunidade de, no ensino secundário, ser estudado o Memorial, “que levanta uma infinidade de problemas para os quais os alunos com essa idade não estão nada preparados”. Em alternativa, propõe que seja estudada uma obra como A Escola do Paraíso (1960), de José Rodrigues Miguéis, “onde se fala de coisas mais próximas deles”. O leitor que tenha viajado até ao volume de Correspondência 1959-1971 entre Miguéis e Saramago (organizado por José Albino Pereira e publicado em 2010 – Lisboa: Caminho) poderá ver que a admiração e o reconhecimento de Saramago por Miguéis constituem uma marca genuína.
Este trabalho de José Rodrigues dos Santos é ainda um modelo de construção de entrevista. Nela, o entrevistador vai ao encontro «do» e «com o» entrevistado, sabendo muito sobre ele, conhecendo a sua obra, tentando suscitar explicações, deixando que o entrevistado se manifeste a colaborando numa espécie de leitura da entrevista (ou do entrevistado), tal como acontece no momento em que Saramago explica que, para um romance, tem necessidade de que se lhe apresente uma “ideia provocadora” que reflicta uma preocupação, ainda que, inicialmente, pareça fugir à lógica – nesse momento, intervém Rodrigues dos Santos, observando que, “de um ponto de partida inverosímil, cria uma situação que depois é verosímil nas suas consequências”, exultando Saramago: “Exactamente, exactamente! Você definiu isso muito bem!”

sábado, 25 de junho de 2011

Nuno Júdice em entrevista

A revista “Única”, que saiu com o Expresso de hoje, traz uma entrevista com Nuno Júdice feita por Clara Ferreira Alves, que vale a pena ler. Por lá perpassa o mundo e o compromisso do escritor, o papel das livrarias na leitura, a literatura actual, os valores da literatura portuguesa e os seus nomes esquecidos, o acordo ortográfico… São palavras de poeta, de professor, de teórico, de leitor e de pensador aquelas que Nuno Júdice nos deixa e de que destaco alguns exemplos.
Livrarias – «As livrarias perderam a função de estimular o leitor, encaminhá-lo para a escolha apropriada, pela qualidade do livro. Os livreiros dantes tinham esse conhecimento da vida literária.»
Liberdade – «Nunca vivemos tão livres, mas o pensamento é hoje muito pouco livre.»
Cânones – «Hoje, o cânone é o do mercado. O que obedece a uma construção a que o leitor estará habituado. Se o escritor quiser vender (…) embora muitos desses livros até possam ser bem construídos. Coerentes. São superficialmente obras literárias, mas estarão para a literatura como o McDonald’s está para a gastronomia. O que estamos a consumir como literatura são produtos em série. Nada a ver com a invenção, a criação literária. O que o escritor tem de fazer é romper com as normas, ir além das normas. Como aconteceu antes.»
Leitura e literatura – «A literatura desapareceu da terminologia do português. Tem de haver um mínimo de leitura obrigatória que corresponda a uma ideia de história da literatura. Ler só contemporâneos não faz sentido, porque se perde o que está por detrás, o fio condutor.»

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Em Paris, com Julien Green

No conjunto de 22 crónicas sob o título Paris (Lisboa: Tinta da China, 2010), Julien Green (1900-1998) faz a sua escrita deambular pela Paris luminosa ou nocturna, em paz ou sofredora, num encontro com a história, com episódios quotidianos, numa despedida ou num reencontro, antes ou depois da guerra.
Nestes textos, traduzidos por Carlos Vaz Marques, surgem marcas do tempo de escrita, firmadas por referências de alteração da cidade ou por convulsões da história. E o leitor percorre os becos, as escadas, os espaços abertos, as zonas mais frequentadas ou as ruelas de uma cartografia quase particular, ora sentindo o chão calcorreado pelo viandante que testemunha e sente, ora sobrevoando telhados e contemplando artérias que vão dar aqui ou ali, que se encontram.
É uma escrita de afectos aos lugares, desviando o leitor das turísticas peregrinações, mas levando-o a ouvir praças, monumentos tempos. E convidando-o ainda a incursões cronológicas, com recuos a outras eras, através do abrir de uma porta ou da visita a um templo.
Green localiza-se na cidade e revisita o espaço em que também fez viver algumas das suas personagens. Preocupa-se com as imagens que guarda do passado e alerta para o futuro, sentindo as ameaças sobre a cidade, que é também o seu ninho de afectos.
Não é um roteiro para seguir, é um roteiro seguido, experimentado, vivido, pessoal, que ensina a olhar, a viver, a sentir a cidade. É Paris na sua magia, com apelos para a memória, para o equilíbrio, para a natureza da cidade em que se passeia, se deambula. E mesmo numa capital como esta pode haver lugar para uma carta que é declaração de amor às árvores, como é o caso do texto “Escuta, lenhador…”, em que elas, as árvores, mostram as suas vantagens: têm a seu favor “o silêncio dos amantes, as brincadeiras das crianças, as divagações dos solitários e um povo livre e sem constrangimentos, ou seja, os pássaros.”
Deixando-se levar por uma escrita onde não falta o pendor memorialístico e uma observação apurada, o leitor é sub-repticiamente levado a agarrar ou a deixar-se agarrar pela cidade.

Marcadores
«A cidade, efectivamente, sorri apenas àqueles que se aproximam dela e que deambulam pelas suas ruas; a esses, ela fala numa linguagem tranquilizadora e familiar.»
«A não ser que se tenha perdido realmente tempo numa cidade, ninguém poderá considerar que a conhece bem. A alma de uma grande cidade não se deixa apreender facilmente; é preciso, para se comunicar com ela, termo-nos aborrecido, termos de algum modo sofrido nos lugares que a circunscrevem.»
«O viajante, por mais que fale, parece, quando termina, não ter dito nada. Isto porque quereríamos que ele nos oferecesse a cidade inteira, que ela nos fosse entregue com o murmúrio das suas ruas e o sol sobre as casas e o alvoroço das crianças nas praças; ele não nos traz mais do que uns ecos disso.»
«Um dos segredos das grandes cidades é proporcionarem aos flâneurs passeios cujo encanto se torna por vezes inexplicável, e por muito que me digam que a minha satisfação resulta do facto de as casas serem belas, as alamedas longas e as pedras antigas, há algo mais a que as palavras não podem senão fazer uma vaga alusão: uma certa ligeireza íntima que nos é dada pela presença de uma árvore perto de um telhado, ou por uma rua ensolarada, pela súbita frescura de uma cúpula negra sob as arcadas altivas de um palacete de outrora.»
«Há na paisagem parisiense qualquer coisa de tão perfeitamente indefinível como na expressão de um rosto humano.»
«[As estátuas] são um pouco como que sentinelas desse mundo de pedra, de bronze, de mármore, espiando de perto, em certo sentido, as nossas atitudes incompreensíveis, tal como é incompreensível para o homem comum a agitação dos insectos.»
«Enquanto jovem, eu só tinha um desejo quando chegava o bom tempo: partir, ir passear para longe com os meus desejos e os meus sonhos, que por vezes se misturavam, mas, com o passar dos anos, apercebo-me de que todos os horizontes longínquos se reúnem e de que os percorremos muto melhor intimamente.»
«Vivemos, à beira do século XXI, com ideias absolutamente retrógradas, em particular na forma de construir as nossas cidades. Não se trata de querer abolir o passado, mas de o usar como memória, e o inventário que o futuro fará é antes de mais o de tudo aquilo que as várias gerações nos ofereceram de mais belo desde a primeira pedra talhada pelo homem.»
«Desde que nasci, no XVII bairro, perto da porta des Ternes, depois das guerras e dos anos de exílio, e mesmo depois de todas as viagens que me levaram a quase todo o lado onde queria ir, vim reencontrar a minha cidade-natal com uma admiração igualmente intensa de cada vez que regressei.»