terça-feira, 21 de junho de 2011

Do exame de Língua Portuguesa de 9º ano

No exame de Língua Portuguesa de 9º ano, que ontem aconteceu, Camões e a sua epopeia foram metidos de forma inteligente no enunciado, através de um excerto de José Saramago, de Que Farei com este Livro?.
Houve, no entanto, duas questões que poderiam ter sido mais pensadas, talvez retiradas: uma, que, remetendo para o óbvio, destoa um pouco do nível da prova – a nº 6, da Parte B, do I Grupo: “Relê as linhas 17 a 20. Indica a razão pela qual Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o pedido de protecção.” Ora, nas linhas 17 a 20, a personagem Camões diz ao Conde: “A carta pedia a vossa protecção para as oitavas que por cópia estão em vossas mãos e para as irmãs delas que em minha casa ficaram. Disse-vos que é uma obra composta sobre os feitos dos portugueses e a navegação para a Índia, em que esteve vosso avô como capitão-mor.” Resposta óbvia, com tão reduzido grau de dificuldade que dá (terá dado) para os alunos desconfiarem… De acordo com o cenário de resposta constante nos critérios de correcção, a solução é: “Indica que Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o seu pedido, uma vez que há uma relação de parentesco entre o conde e Vasco da Gama, personagem da obra para a qual Camões pede protecção.”
A segunda observação relaciona-se com o último item da pergunta 9 da Parte C do I grupo, em que é solicitado um texto expositivo, que deverá seguir vários pontos, designadamente o de referir uma “semelhança entre [o episódio da partida das naus de Lisboa] e o episódio do Adamastor”. A gente pensa e lá vai encontrando umas aproximações, quais sejam as advindas de algum aventureirismo que se confronta com o desconhecido e com o perigo, por exemplo. Fica a sensação de que só se perceberá o que quer o autor da prova quando os critérios de correcção forem lidos. E eles aí estão: “Refere uma semelhança. Por exemplo: tanto «Despedidas em Belém» como «O Adamastor» são episódios da viagem para a Índia.”
Com tão banal semelhança, que dizer deste tipo de critérios?
Quanto ao resto, uma prova equilibrada, abrangente, valorizando a competência da leitura, mas também a cultura geral, ainda que podendo ter um grau de dificuldade mais considerável!...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Direito ao copianço

Na disciplina de Investigação Criminal e Gestão do Inquérito ministrada no Centro de Estudos Judiciários, terá havido copianço no teste e houve a decisão de a todos os candidatos ser atribuída a nota 10, segundo os jornais de ontem.
Depois disto, vemos as justificações: “não fazer nada e branquear a situação não era razoável”, “repetir o teste era praticamente impossível”, “houve um conjunto extenso de alunos que não copiou”, “excluir toda a gente do curso era inimaginável”. Quatro razões para a atribuição de 10, devidas a um responsável do CEJ, reproduzidas no Jornal de Notícias.
A decisão colheu adeptos. E um representante da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, ainda segundo o mesmo jornal, explicou que esta opção “equivaleu a anular a função classificativa do teste e não deixou de obrigar as pessoas a prepararem-se para o teste.”
Com estes argumentos, nem valeria a pena haver testes! Só pelo facto de os formandos estarem inscritos e irem às sessões já deviam ter, no mínimo, 15 (na escala de 0-20), imagina-se! É por argumentos destes que apetece não insistir na honestidade ou na verticalidade, sob pena de sermos considerados retrógrados… e é o convite a este facilitismo que domina a sociedade, ainda que, paradoxalmente, depois se não acredite em quem se formou à custa destes esquemas…
Afinal, copiar num teste ou num exame é ou não é fraudulento? E a fraude é ou não é punível?
O mais curioso é isto passar-se justamente no âmbito da justiça, onde nem devia ser imaginado! Com tais exemplos, qualquer aluno de 9º ou de 12º ano que, a partir do dia 20, esteja em exames tem direito a reclamar o direito ao copianço a troco da positiva mínima. É a lei da analogia… Ah, mas esses não podem, porque a norma dos Exames Nacionais diz que…
Por outro lado, o argumento do representante da ASJP, segundo o qual “pode ter havido algum equívoco, da parte [dos candidatos], sobre a natureza individual do teste”, também não colhe – é que até os jovens do 9º e do 12º anos têm de saber que os testes são individuais (tenham ou não cruzinhas) e não se confundem com trabalhos de pares ou de grupo!

domingo, 12 de junho de 2011

"Retrato a Sépia", de Paulo Assim

Retrato a Sépia, de Paulo Assim (Azeitão: Associação Cultural Sebastião da Gama, 2011), é título que reúne as características do que diz – a fotografia revestida com a cor da memória. É, aliás, o próprio poeta quem abre essa porta da interpretação e da imaginação logo no início: “Saio para a rua, / esse lugar chamado infância.”
Fica, assim, evidente esse peregrinar pelo passado, com ligações simbólicas fortes à família e a outras marcas como a árvore, a ave, a casa, a aldeia, etc., elementos intensos nessa busca de identidade através da poesia – ao evocar o pai, escreve o poeta: “Ainda o ouço dizer: nós, seres humanos, somos uma mistura / de árvore e de pássaro: / precisamos de raízes, mas também de asas para irmos mais longe.”
A linguagem metafórica em Retrato a Sépia é intensa, haja em vista exemplos como a recomendação maternal de “estender os poemas na varanda”, porque as palavras, quando aprisionadas, podem levar a que, “em vez de leres amor lês bolor”, ou aquele do gato “que nos lambia o sol das mãos” e “caçava histórias de aves brancas fugidias” ou ainda aquela imagem da avó que “emprenhava o alguidar” que daria a massa para um forno que “mais não era do que o útero da humanidade”.
Da infância ficam ainda os sons, os aromas, os sabores, os objectos, as pessoas. Algo que jamais se perderá, algo que contribuirá com as suas marcas para o fenómeno da identidade, chegada mesmo através da poesia. E, por isso, o poeta conclui a sua mensagem com o recurso à arte de retratar, sem a imposição da cor porque os vários matizes lhe são dados pela memória: “Estamparam-nos as marcas de água na textura maleável do corpo: / seremos sempre como papel genuíno de um retrato ainda por tirar.”
Obra linda de por ela entrar é este Retrato a Sépia, que fica próxima de excelentes obras de poesia que têm sido conformadas pela contemporaneidade, em que o registo numa linguagem simbólica e metafórica é o responsável por uma bela escultura da memória.
Paulo Assim tem assinados os trabalhos A Quinta-feira dos Pássaros (Ponta Delgada: Veraçor, 2010) e Celulose (Lugar da Palavra Editora, 2010). Com o trabalho Retrato a Sépia, foi o vencedor da 13ª edição do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama (2011).

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Em Setúbal, golfinhos enchem Doca dos Pescadores



A Doca dos Pescadores, em Setúbal, foi invadida por duas dezenas de golfinhos multicores, pretextos para imaginações variadas e para mensagens entre a cidadania e a arte. É a exposição “Golfinho Parade”, inaugurada na tarde de ontem, que vai colorir aquele espaço até Setembro.
De cerca de três centenas e meia de projectos que apareceram no concurso para esta exposição foram seleccionados vinte, apresentados por escolas, por grupos ou por artistas individuais, originários de uma geografia entre Bombarral, Ponte de Sor, Grândola, Amora, Palmela e Setúbal.
A iniciativa envolve a Câmara Municipal de Setúbal e diversos parceiros e pretende chamar a atenção para um dos símbolos sadinos – o golfinho roaz – e animar a frente ribeirinha, propósitos que se associam ao facto de a baía de Setúbal integrar o Clube das Mais Belas Baías do Mundo. Esta exposição pode, de resto, ser conjugada com uma visita à Casa da Baía, na Avenida Luísa Todi, onde estão expostos todos os projectos que se candidataram à “Golfinho Parade”.
Os títulos dados à vintena de golfinhos saltitantes pela Doca dos Pescadores são: “Sado Adentro”, “O Fim das Linhas”, “Palavras de Amor”, “golFadinho do Estudante”, “Tributo a Poseidon”, “A Multiculturalidade nas Nossas Mãos”, “Preservação dos Golfinhos e sua Sobrevivência”, “Qualidade Rara de Sereia”, “Fragmento Azul”, “Já Golfinho Não Sou…”, “Mar de Cores”, “Terceiro Olho”, “Face it”, “Metamorfose do Rio”, “Tempo de Continuar”, “Vejo da Minha Janela”, “A Gala de Neptuno”, “Rio Azul”, “Sem Título” e “Golfinho Sor”.
O visitante pode contemplar a harmonia e a elegância do que são os saltos dos golfinhos, estando as peças nas diversas fases do salto dos roazes, e dará o tempo ali gasto a contemplar a arte e a natureza por bem utilizado.

Para memória futura

Na edição do jornal Metro de ontem, Manuel Falcão assinou o artigo “Para Memória futura”, que se inicia desta forma: “As eleições de domingo foram o reflexo de um país cansado de mentiras e promessas vãs”.
Não sei se as “mentiras” eram compulsivas ou deliberadas; não sei tão-pouco se não eram mais fantasias do que qualquer outra coisa. Sei que cheguei ao ponto de evitar ouvir na rádio ou na televisão os discursos de José Sócrates, não porque tivesse receio de acreditar, mas para zelar por alguma paz de espírito pessoal. O frenesim de promessas associadas à esperança e a outros galanteios que, noutras circunstâncias, poderia contribuir para a autoestima dos portugueses gastou a imagem e tornou o discurso cada vez mais oco e opaco.
Não me admirei, por isso, com o discurso final de José Sócrates na noite das eleições. O único pormenor que me despertou a atenção foi a convicção com que Sócrates se remeteu para o seu direito de ser feliz como qualquer outra pessoa nos próximos tempos. Oxalá! Já agora, desde que essa felicidade não colida com ninguém… Acho mesmo que o direito à felicidade deve passar pelos mais íntimos projectos de vida.
Mas, “para memória futura”, ficaram-me também duas ou três histórias ouvidas – involuntariamente ouvidas, asseguro – durante a campanha eleitoral.
Um dia, almoçava num restaurante da capital quando, ao meu lado, uma cliente rapa do telemóvel e põe-se a dizer à sua interlocutora que estava farta da secretaria de estado (não sei qual), que estava desejosa de voltar (à terra ou ao antigo serviço, supus), que já não suportava aquela vida, mas que… no dia 5, ia votar no PS, mas adorava que o PS perdesse… Quase me ia engasgando! Quando se está sozinho à mesa do restaurante, não há outro remédio senão ouvir o que se passa ao lado… e, ainda por cima, a senhora falava alto qb!
Uns dias depois, um amigo que não é partidariamente filiado mas que trabalha numa estrutura socialista dizia-me que estava tão farto das exigências associadas ao exercício do poder que achava que os socialistas deviam perder as eleições. “Eles têm de aprender”, garantia-me.
No último dia de campanha, um amigo liga-me e diz-me: “Sabes que me ligou a X…, dizendo que ia votar no PS, mas que levava duas rennies para tomar logo a seguir para digerir o que ia fazer?”
As três historietas valem o que valem. E valerão pouco, acredito. Mas fui buscá-las por causa da tal “memória futura”… É que estas pessoas, se não estavam a representar papéis, estavam pelo menos a ser vítimas de um sistema que deixou muita gente à beira da incredulidade, agindo contrariamente às mais profundas convicções, despersonalizando-se mesmo.
Haverá algum sistema ou partido político que valha isto, seja ele qual for?
Hoje, ao ouvir a notícia da candidatura possível de Francisco Assis para o lugar de Sócrates no partido, lembrei-me novamente da “memória futura”: é que, depois do que aconteceu, aparecer o mito do “devolver a esperança aos portugueses” como tarefa do partido, precisamente pela força e pelos agentes que contribuíram para o que estamos a viver… não faz sentido. Ou será que “devolver a esperança” é uma metáfora politicamente correcta apenas?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Legislativas 2011 - Deputados eleitos pelo distrito de Setúbal

O Setubalense: 06.Junho.2011

Legislativas 2011 - Resultados do concelho de Setúbal

O Setubalense: 06.Junho.2011

Legislativas 2011 - Resultados do distrito de Setúbal

O Setubalense: 06.Junho.2011

Máximas em mínimas (67) - Dulce Maria Cardoso

Tempo – "O tempo perde importância à medida que escasseia. Quanto mais escasso menos valioso. Deve ser a única coisa que vale menos à medida que se torna mais rara."

Vida – "Quase todas as vidas dariam maus livros por causa das verdades absurdas de que se fazem.”

Reparar – "Não se repara no que se viu fazer desde sempre."

Passado – "Os passados só se tornam acessíveis se os mapas os assinalarem e se para lá houver caminhos.”

Assinatura – "A nossa letra compromete-nos quase tanto como o nosso sangue. Um nome assinado torna-nos proprietários. Ou desapossa-nos. Riscos feitos por uma mão. Riscos que não valem nada e que afinal são os que os fazem."

Livros – "Os livros oferecem-se sem escolha a todos os que os quiserem ler. E, se redimem, fazem-no de forma tão caótica e tão insondável que ninguém poderá ter nisso qualquer esperança. Talvez os livros escrevam direito por linhas tortas. Como Deus."

Dulce Maria Cardoso. "A Biblioteca". O Prazer da Leitura. Lisboa: Teodolito / FNAC, 2011, pp. 101-119.