segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Em Setúbal, na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910 e depois


Revolução na rua e fogo na Câmara
O jornal setubalense O Elmano, que se publicava aos sábados, na sua edição de 15 de Outubro de 1910, a primeira depois da implantação da República, trazia para primeira página, com letra destacada, a seguinte proclamação: "Viva a República Portuguesa - Está proclamada a República em Portugal! Implantou-a a Armada, o Exército e o Povo, no dia 5 de Outubro de 1910, para redenção deste belo país que a monarquia hora a hora ia mergulhando no charco lamacento da abjecção e da desonra. Foi a vontade suprema do Povo, do Exército e da Armada que salvou do aviltamento a nossa Pátria, erguendo-a tão alto que o nome português é hoje proferido em todo o mundo civilizado com respeito e admiração, fazendo recordar os antigos feitos, a bravura e heroísmo dos valentes e esforçados de Aljubarrota, Ormuz, Malaca e Buçaco, etc. Está proclamada a República! Honra e glória a todos que contribuíram para a sua implantação. Viva a República Portuguesa!"
por causa de uma bandeira
Esta adesão republicana manifestada pelo jornal não podia ser desligada do que em Setúbal se passara uns dias antes, precisamente na passagem de 4 para 5 de Outubro. Em texto de reportagem, a mesma edição do jornal conta que, no dia 4, corria na cidade a informação de que rebentara a Revolução. Pela falta de referências precisas, "crescia a ansiedade nos setubalenses", até que, pelas 19 horas, o republicano Leão Azedo chegava para recomendar prudência e aconselhar o povo a não fazer "manifestações desagradáveis com as quais a causa da República nada ganharia". Porém, grande manifestação andava já nas ruas, com entusiasmo difícil de conter. Pelas 21 horas, os manifestantes estavam na Praça do Bocage, dirigindo-se aos Paços do Concelho, onde havia uma esquadra de polícia, e pediram ao chefe que fosse hasteada no edifício a bandeira republicana. A pretensão foi negada, houve tiros de revólver e a multidão invadiu a esquadra. Pouco depois, conta o repórter, "manifestava-se o incêndio que rapidamente se comunicou a todo o edifício onde funcionava a recebedoria do concelho, administração, repartição de fazenda, terreiro municipal, tesouraria da Câmara, biblioteca pública, repartição de impostos, etc." E, mais adiante, ainda impressionado, o autor conta que "todo o edifício dos Paços do Concelho ficou destruído, não podendo salvar-se um único livro de escrituração municipal e da fazenda. Um puro vandalismo, no qual os republicanos não tiveram a menor intervenção, nem, dada a exaltação de ânimos, podiam evitar".
A multidão dirigiu-se depois para as instalações que pertenciam aos jesuítas, destruindo o que encontraram, e para Brancanes, onde havia o convento dos franciscanos, que foi também incendiado. Após uma noite de chamas e de manifestações, o dia 5 de Outubro faria chegar à cidade a notícia oficial da implantação da República pelas 10 horas. Os foguetes acompanharam então a alegria da população e as filarmónicas que desfilaram pela cidade a entoar "A Portuguesa". Pelas 17 horas, na varanda dos Paços do Concelho, era proclamada a Comissão Administrativa da Câmara, à frente da qual estava Leão Azedo.
edifício de azares
Após o incêndio, os serviços da Câmara passaram a funcionar nas instalações do Liceu, tendo as obras de recuperação dos Paços do Concelho sido demoradas.
Foi entre 1526 e 1533 que o edifício municipal fora construído na então Praça do Sapal, tendo a obra sido entregue ao mestre pedreiro Gil Fernandes, residente em Lisboa. Cerca de dois séculos mais tarde, por 1722, vendo que o edifício necessitava de obras, a população setubalense ofereceu-se para, durante três anos, contribuir para tal reconstrução. Em 1733, foi concluída a varanda. No entanto, o terramoto de 1755 viria a danificar tão fortemente a construção que houve uma disposição régia a criar um imposto sobre a carne para serem angariados fundos para a reconstrução que se impunha. O incêndio de 1910 foi a última vicissitude por que passou o edifício. Mas só em 1927 o arquitecto Raúl Lino foi convidado pela Câmara para elaborar o projecto de reconstrução dos Paços do Concelho, tendo o mesmo sido entregue no ano seguinte. Pelos finais de 1932, as reuniões do executivo camarário eram ainda no Liceu e, em 1933, um decreto do Presidente da República Óscar Carmona estabeleceu que o Governo receberia o Liceu e, em troca, avançaria com a construção do edifício da Câmara. A entrega da obra concluída viria a efectuar-se apenas em Maio de 1939.
O incêndio havido em 1910 deixou a marca de perdas irreparáveis ao nível de documentação e de fontes para a história e cultura locais. Lembra Fran Paxeco na obra Setúbal e as Suas Celebridades (Lisboa: Sociedade Nacional de Tipografia, 1930) que Luciano de Carvalho, responsável da Biblioteca Municipal que estava nos Paços do Concelho, chorou, porque "as chamas lhe tinham consumido o labor oculto de largos anos", centrado nas "pilhas da sua Bocageana, acompanhada por uma completa iconografia e o esboço do catálogo biográfico dos escritores setubalenses". Numa tentativa de compreensão dos acontecimentos, Paulino de Oliveira interveio numa sessão de Câmara, uma semana depois, para apreciar o sucedido, argumentando que o incêndio só se podia dever à "profunda má vontade do povo setubalense à polícia cruel, cuja esquadra se encontrava no mesmo edifício, pelas perseguições extremas que sobre ele exercia", sustentando que os factores determinantes terão sido o facto de a polícia ter recebido a tiro os manifestantes que queriam içar a bandeira republicana e o facto de os dirigentes não terem explicado à multidão as consequências do acto que iam praticar.
Uma das medidas imediatas tomadas pelo executivo foi a da decisão de serem publicados editais "convidando todos os credores do município a apresentarem as suas contas dentro de 30 dias", uma vez que a documentação desaparecera. Sem instalações próprias e num regime novo, a equipa do executivo municipal era constituída por Leão Azedo, Ezequiel Soveral Rodrigues, Manuel Livério, António Arronches Junqueiro, José da Rocha, Joaquim Brandão, Joaquim dos Santos Fernandes, José Augusto Coelho e Eduardo Mendes Belo, um grupo que, no jornal O Elmano, de 15 de Outubro, merecia a seguinte apreciação: "O que podemos já dizer é que todos os seus membros estão no firme propósito de trabalhar para o engrandecimento de Setúbal e para a melhor regularização dos serviços municipais".
João Reis Ribeiro. Histórias da região de Setúbal e Arrábida (vol. 1).
Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2003, pp. 175-178.
[foto: reprodução a partir de O Setubalense de hoje]

sábado, 2 de outubro de 2010

Preocupações da República

Ao entrar a semana do centenário da implantação da República, não é de admirar o destaque que a efeméride merece nas publicações periódicas. Destaco a revista Visão (nº 917, de 30.Set.2010) por trazer como encarte o facsímile de A Capital, de 5 de Outubro de 1910, e, sobretudo, por reunir os depoimentos de quatro nomes que chegaram ao lugar de Presidente da República – Cavaco Silva, Jorge Sampaio, Mário Soares e Ramalho Eanes – sob o título de “Os novos desafios da República”. Falando todos eles de coisas diferentes, assumem essa diversidade como o conjunto das preocupações actuais da República (que somos nós), num exercício de pensamento que nos deve servir de convite. Reproduzo excertos dos quatro testemunhos.
Aníbal Cavaco Silva – “(…) Entre os múltiplos desafios que se deparam às repúblicas contemporâneas poder-se-ão destacar os seguintes: Sustentabilidade ambiental – (…) Ainda não encontrámos a fórmula harmoniosa susceptível de, em simultâneo, preservar um ambiente saudável e garantir níveis de desenvolvimento capazes de satisfazer as expectativas materiais dos cidadãos. (…) Sustentabilidade energética – (…) Ou exigimos que todos se situem no mesmo nível de desenvolvimento (…) ou mantemos uma situação que, a breve trecho, colocará em risco as economias do Ocidente e o modelo social de redistribuição da riqueza que só um elevado crescimento económico permite. (…) A dependência energética não é apenas uma questão ecológica, mas também geoestratégica. Dela depende a sustentabilidade do planeta, desde logo, mas igualmente a viabilidade do modelo político, económico e social da Europa. Sustentabilidade social entre gerações – (…) Deve existir uma maior justiça social entre gerações, de modo a que os mais jovens não sejam lesados nas suas expectativas legítimas, os adultos de meia-idade não tenham de suportar encargos desproporcionados e os idosos não sejam alvo de exclusão ou de discriminação. (…)”
Jorge Sampaio – “(…) Ao Estado pede-se que reveja e corrija as causas da rigidez do mercado de trabalho, da lentidão da justiça, das regras vigentes da concorrência, da morosidade da administração pública, da desadequação da formação profissional, enfim, de todos os obstáculos ao investimento e à concorrência. Ao Estado pede-se lucidez em relação ao presente e visão de longo prazo. Lucidez na procura de sucedâneos para a impossível desvalorização que permitam, afinal, embaratecer os nossos produtos ou torná-los atractivos no mercado mundial; visão de longo prazo para que prossiga as reformas entretanto encetadas, que permitirão acelerar no país a revolução pós-industrial no contexto do seu papel de regulador estratégico. (…) Seremos capazes de ultrapassar as dificuldades. Para que isso aconteça, precisamos dos valores progressistas e democráticos da República. E necessitamos de vontade e capacidade de mobilizar os Portugueses, que são o fundamento da República. (…)”
Mário Soares – “(…) Estamos a viver uma crise global, que não sabemos até onde irá e como dela sair. Economistas da nossa praça, todos os dias, procuram convencer os nossos compatriotas que Portugal é um país em decadência, sem remédio. Não partilho esse derrotismo, que contagia alguns dos nossos compatriotas. Uma das ideias-força da I República foi restituir-nos o orgulho de sermos portugueses e sabermos enfrentar, com coragem e bom senso, os desafios que temos de vencer. (…) Precisamos de ter confiança em nós próprios e de ter coragem de vencer as dificuldades, tal como são. Sem pessimismo, nem optimismo: com determinação. (…)”
Ramalho Eanes – “(…) Para que a situação não venha a dar razão aos pessimistas, para que respondamos à nossa responsabilidade social inabdicável, para que invertamos a decadência em que o país escorrega, necessário será: que à Sociedade Civil portuguesa seja dita a verdade, toda a verdade, sobre a situação actual e suas consequências, não só previsíveis mas próximas já; que não caiamos na endémica tentação de encontrar um bode expiatório, que nos afaste da responsabilidade conjunta – Sociedade Civil e poder político – de responder, com coragem, com competente trabalho, com austero consenso, com preocupado aforro, à crise, pois, perante ela, não há inocentes (…). Indispensável, também, é, subsequentemente, estabelecer a arquitectura de um grande propósito colectivo possível e mobilizante, e estabelecer as estratégias para o alcançar, definir os métodos, instrumentos e meios para as realizar, e apresentar os mecanismos, do Estado e da Sociedade Civil, para controlar a eficácia da sua execução. (…) Difícil é o desafio, mas grandes são, também, agora, as oportunidades de nos reencontrarmos com a verdade do que realmente somos, do que é o país. (…)”

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

O deslumbramento, segundo Carrilho

Manuel Maria Carrilho. "Será o deslumbramento uma política?". Diário de Notícias: 30.Set.2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Que presente é este? (II)

O país que, em diversas vezes, ouviu o comentário de que se estava a sair do momento de crise, de que as coisas não seriam tão graves quanto isso e de que se estava bem quando uma decimazinha nos alegrava o ego, acaba de assistir a um plano de cortes radicais e de durezas várias. Afinal, tem-se andado a falar de quê? Estaremos num país de diferentes velocidades? Ou tudo isto resulta de um discurso consoante a oportunidade... que, esta sim, vai sendo cada vez menor? Não teremos o direito de sentir que a verdade não foi total ou, pelo menos, que as previsões e as afirmações deixaram muito a desejar quanto ao rigor?

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Que presente é este?

Perguntei-lhe pela neta, nascida há meses, e lá me disse que ia estando bem, que se ia afeiçoando ao mundo, que os pais estavam muito contentes, mas que não iriam para o segundo filho e, assim, não havia esperanças de ter também um neto. “A vida está difícil, cada vez mais difícil…Sabe que eu e o meu marido já nem vemos televisão quando é tempo de notícias?”
Fartaram-se de ver e de ouvir notícias, vozes, opiniões alarmistas, duras, rígidas, pairando pouca verdade. “Nada sabemos ao certo, parece que ninguém quer dizer o que realmente interessa, só se desmentem e nada corresponde ao que sentimos todos os dias”, explicou. “Não vê o que se passou com os medicamentos? Numa semana, iam descer não sei quanto e, na semana seguinte, já se dizia que as comparticipações iam acabar e iam ficar mais caros a quem deles precisar… Mal de quem precisa, não é? Dantes, as notícias eram um chorrilho de calamidades, de desastres, de azares… agora, é só economia, dinheiro, intriga e nós a termos cada vez menos… Deixámos mesmo de ver notícias… Não acreditamos…”
Há quem meta a cabeça na areia, há quem se revolte e manifeste essa revolta de forma visível, há quem se revolte e se remeta ao silêncio. Não será ainda desespero o sinal máximo, não. Mas é a desesperança que nos está a invadir, qual onda de areia que tudo vai secando e impedindo que o olhar sorria para o futuro.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Synapsis, em Setúbal

Synapsis é o nome de um novo grupo de “intervenção cultural e cívica” que vai apresentar-se publicamente na noite de hoje, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal.
Música, poesia e pintura serão as três artes que vão integrar este programa, animado por Nuno David, Salvador Peres, João Completo, Alexandre Murtinheira, Diná Lopes Peres e Carlos Medeiros. Alguns dos temas musicais acompanharão poemas de David Mourão-Ferreira (“A Secreta Viagem”) e de Sebastião da Gama (“Quem me quiser amar” e “Soneto do tempo perdido”).

Tolstoi: Guerra e Paz em edição comemorativa

Com o Público de ontem foi posto em distribuição o primeiro volume de Guerra e Paz, de Lev Tolstoi, com ilustrações de Júlio Pomar e prefácio de António Lobo Antunes, em tradução a partir do russo devida a Nina Guerra e a Filipe Guerra.
A obra, que vai ter uma dezena de volumes e assinala o centenário da morte do escritor russo, reproduz as ilustrações que Júlio Pomar fez para uma outra edição, em 1956-1958, com a particularidade de reproduzir também os estudos que as originaram. Em nota introdutória, o ilustrador considera que este romance “é declaradamente uma obra em aberto, (…) com a desmesurada ambição de pensar o mundo, característica maior dos grandes frescos de toda a literatura.”
António Lobo Antunes, que contextualiza o aparecimento e a recepção de Guerra e Paz (publicado em folhetins entre 1865 e 1869), conclui o prefácio com afirmações poderosas, considerando-o um “livro pantagruélico, devorador, desigual, (…) uma assombrosa manifestação da grandeza do espírito humano, produto de um canibal de génio que tudo engole e transforma segundo as suas leis pessoais”. Muito mais do que um “bom” romance, Lobo Antunes defende que o leitor está perante “a viagem indispensável ao interior de nós mesmos, pela mão de uma criatura tirânica e implacável, o espelho desmesurado e frequentemente arbitrário da nossa condição”.
Uma excelente oportunidade para o leitor acompanhar as campanhas napoleónicas e um retrato da Rússia oitocentista, pois!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Do professor de Português

"Do professor de Português espera-se que contribua para o desenvolvimento de uma sensibilidade perceptiva e de um potencial criador que contribuam para a compreensão do comportamento humano e para o desenvolvimento de formas de relacionamento plurais com a criação cultural."
Conceição Coelho, na secção "Auto-retrato de professora", no suplemento "JL - Educação" ontem publicado (com o JL)

Preocupações de escola segundo Manuel Esperança (e segundo muitos outros)

O suplemento "JL - Educação", que integrou a edição do JL de ontem, contém uma entrevista feita por Maria João Martins a Manuel Esperança, director da Escola Secundária José Gomes Ferreira e presidente recém-eleito do Conselho Nacional de Escolas. Quando a jornalista lhe perguntou quais as preocupações mais imediatas sentidas na escola, Manuel Esperança traçou um retrato a que não se pode ficar indiferente... porque é verdadeiro. A entrevista vale ser lida na totalidade, mas transcrevo essa resposta que contém o lote das preocupações:
"Incomoda-me pensar que esta sociedade ainda não parou de descer e que devíamos todos pensar em assegurar qualidade e rigor. Não tenhamos dúvidas de que esta geração de jovens nos vai acusar de termos sido demasiado permissivos. Digo sempre aos professores aqui da escola que não podemos entrar na onda de facilitar por facilitar. Não trabalho para a estatística. Não se pode ceder a essa tentação nem pensar que, neste caso, o tempo é bom conselheiro. Os problemas da escola têm de ser resolvidos na hora. Por outro lado, estou preocupado com o ambiente que as escolas vão ter este ano com a segunda fase da avaliação de professores. Creio que vai ser outra vez um ano complicado, não gostava de reviver o ambiente que se viveu aqui na escola há dois anos. Na verdade, há muita gente que se importa realmente de ser avaliada e que fica muito tensa com esta situação. O que fatalmente se reflecte nas condições de trabalho. Por outro lado, a questão dos agrupamentos de escolas e do reordenamento da rede também não é simples. Eu não estou contra a figura dos agrupamentos de escolas, mas em alguns é uma completa loucura. Qualquer decisão na matéria deveria implicar uma participação das famílias, das autarquias e, de uma forma transparente, sem interesses partidários ao barulho."