segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Imagem de Courbet leva à apreensão de livros

A agência LUSA noticiou e a edição online do Público reproduziu: “PSP apreende livros por considerar pornográfica capa com quadro de Courbet”. A história: numa feira de livros de saldo, em Braga, um livro sobre pintura reproduz na capa o quadro “L’origine du monde” (1866), de Courbet (1819-1877); a PSP vê e apreende alguns exemplares; segundo o livreiro, no auto terá constado que os livros continham “imagens pornográficas expostas publicamente”.
Muito pudico anda o país: há dias, foi uma história semelhante ligada ao Carnaval de Torres Vedras; hoje, foi a capa de um livro. Recordo-me de, há uns anos, na montra de uma livraria de Setúbal, ter estado o livro O amor é fodido (Lisboa: Assírio & Alvim, 1994), de Miguel Esteves Cardoso, com o título cuidadosamente escondido por um papel que anunciava tratar-se de um título eventualmente chocante… algo que já não se via desde as tarjas que rotulavam os filmes como contendo “cenas eventualmente chocantes”!...
Chocado fiquei eu com a atitude censória na altura. Mas, agora, não sei se chega a ser choque: é estranho, muito estranho, todo este pudor, todo este excesso de pudor. Quem ficou verdadeiramente incomodado com as imagens?
Provavelmente, o modelo de Courbet deveria ser vestido com as “EU panties” como Tanja Ostojic apresentou no poster de 2005!... Só que aí já não seria uma história da pintura o pretexto, mas uma história das políticas… e, na altura, como se sabe, também a censura agiu.
[foto: "Musée d'Orsay - l'Origine du monde - Courbet", a partir de www.reymond.com]

Francisco Queirós, director de escola, entre as dúvidas e as esperanças

No Público de hoje, duas páginas são dedicadas ao novo modelo de gestão das escolas públicas, assente na figura do director, numa gestão unipessoal. As duas páginas lêem-se e percebe-se que nem tudo vai bem - há escolas em que o processo tendente à condução para o novo modelo está parado, há sítios em que surgem discordâncias entre as autarquias e o Ministério da Educação, há alheamentos, há esperanças, há reservas. Francisco Queirós é, desde meados de Janeiro, o director da Escola Secundária de Paredes e, como tal, foi entrevistado pelo jornal, que, depois de contar a história da sua candidatura, lhe deu a palavra para falar das dúvidas e das esperanças no modelo. Tudo dependerá, afinal, das pessoas. E daquilo que elas queiram fazer no lugar ou pela comunidade ou pela escola. Se essa é uma promessa, é também um risco. Fica, pois, a explicação de Francisco Queirós.
«(...) Questionado sobre se a criação da figura do director não ameaça precisamente beliscar a democraticidade nas escolas, Francisco Queirós responde que depende. "Se é possível que o director de uma escola se transforme num pequeno ditador, é. Se vai haver politização, em muitos casos vai. Mas também vai haver exemplos bons e temos que acreditar que são estes que vão fazer a diferença, porque a alternativa é continuarmos a ter um poder central que, a partir de Lisboa, decide o que é que as pessoas numa aldeia de Trás-os-Montes vão poder fazer."
Nesse sentido, este responsável diz que o novo regime de autonomia, administração e gestão das escolas - que, além da figura do director, cria os Conselhos Gerais, onde professores, autarquias, pais e representantes locais são chamados a pronunciar-se sobre a escola - se aproxima "vagamente desta ideia de comunidade educativa local". Para que tal aconteça, porém, seria preciso que o Estado abdicasse de algum do seu poder.
"O Estado não pode tomar conta de tudo", acusa, considerando que "as escolas estão reféns da legislação que diariamente é lançada" para regulamentar desde os planos de estudos ao mobiliário das bibliotecas.
Do mesmo modo, Francisco Queirós critica a regulação ao minuto do tempo dos professores. "O Governo olha para os professores como funcionários e, pior do que isso, como funcionários de quem se desconfia." Um sintoma disso é a obrigatoriedade de os professores explicarem os critérios de avaliação, mesmo a alunos com sete anos de idade. "A imagem que passa é que eles podem fiscalizar as decisões dos professores. E isso abala a relação de respeito que tem que haver." Apesar disso, continua a acreditar. Sustentado na sua ideia de escola. E porque acredita que o movimento de Conselhos Executivos que começou em Santarém vai conseguir alterar o modo de funcionamento das escolas. "Há uma má imagem dos Conselhos Executivos porque as pessoas decentes que estão nestes órgãos compõem uma maioria silenciosa que está agora a começar a falar. Aliás, ficou claro nos encontros que existe uma vontade grande de agregar os Conselhos Executivos numa associação nacional de escolas, à semelhança do que acontece com os municípios. No quadro legislativo actual, o meu espaço de manobra é reduzido, mas eu estou convencido de que esta associação nacional pode dar o mote para alterar este estado de coisas", confia.
(...)»

O Carnaval de Torres Vedras, o "Magalhães", a anedota e Miguel Gaspar

«(...) Surpreende que uma magistrada dê uma ordem com urgência para a remoção de algo que não chegara sequer a ver, apesar de a "obra" estar exposta na via pública há duas semanas. Surpreende também que horas depois a mesma magistrada diga daquilo que mandara tirar que afinal de contas podia ficar. Surpreende ainda que não se tenha sabido com base em que lei foi mandado substituir o falso ecrã do Magalhães. E surpreende pelo caminho que o procurador-geral Pinto Monteiro, instado a pronunciar-se sobre a magna questão do Entrudo de Torres, tenha dito que a imagem final montada no "computador" era diferente da que fora mandada retirar.
Que grande trapalhada! E tudo por causa do que parece ser uma precipitação de uma magistrada por conta de uma vulgar brincadeira de Carnaval. Quando o autarca socialista de Torres Vedras saudou a magistrada e o queixoso pela publicidade que tinham dado ao Carnaval, estava escrito um final feliz, à altura desta história sem pés nem cabeça. É que ficou provado, pela primeira vez, que um Carnaval português até pode ter graça. Basta que em vez de tentar ridicularizar os outros, o Carnaval passe a ser ele próprio ridículo. É uma das lições de toda esta insólita e absurda história.
Há todo um Portugal de anedota que se revela aqui. Da juíza que remove com urgência e sem ver o que estava exposto há 15 dias, à autoglorificação dos promotores do corso, promovidos em importância pelo gesto censório, acabando na restauração em festa das moças no Magalhães, após uma curta tarde fascista, ficou demonstrado como a piada do Carnaval era o próprio Carnaval.
E no meio deste barulho todo, ninguém explicou o essencial, ou seja, como é que tudo isto foi possível. Não é que seja muito importante. Mas eu fiquei sem perceber e gostava de saber com base em quê, afinal de contas, um tribunal pode mandar retirar uma paródia de Carnaval. É que isso, dando de barato o ridículo do episódio, não tem graça. Mesmo no Carnaval.»
Miguel Gaspar. "O Magalhães, censurado". Público: 23.Fevereiro.2009

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Memória: Lagoa Henriques (1923-2009)

"O segredo", obra de 1972, de Lagoa Henriques, em Lisboa, no Jardim Amália Rodrigues

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Política caseira (4) - Fernando Negrão não se candidata pelo PSD a Setúbal

O Setubalense: 20.Fevereiro.2009

Marcelo Rebelo de Sousa explica aos jovens o conflito na educação

Três jovens, leitores da Forum Estudante em idade de ensino secundário, entrevistaram Marcelo Rebelo de Sousa, trabalho que teve publicação na revista de Fevereiro. A conversa abordou temas como a juventude, o estudo, a política, as Associações de Estudantes, os professores e também facetas do entrevistado. No final, os jovens entrevistadores testemunharam sobre o seu interlocutor nos seus dotes de comunicação, humor e clareza, vertentes que alunos da minha escola puderam testemunhar há cerca de um ano, quando Marcelo Rebelo de Sousa aqui esteve para falar da Europa, numa sessão que acabou por ser também sobre a vida, sobre a política, sobre o futuro, com muita pedagogia, ensinamentos e recomendações para o público. E os jovens estudantes da minha escola, população do ensino secundário, encantaram-se também com o discurso e com as recomendações feitas.
A revista está por aí disponível. A entrevista apela à responsabilidade social que os jovens também têm. E, como não podia deixar de ser, a educação foi também tema, mesmo pela origem dos entrevistadores... Quando Maria da Cunha, estudante do 12º ano do Colégio São João de Brito, perguntou qual a avaliação do papel da Ministra da Educação relativamente aos professores e aos alunos, a resposta de Marcelo Rebelo de Sousa foi: «O caso da Ministra da Educação foi um pouco surpreendente. Era uma pessoa desconhecida, não vinha do universo político, portanto uma pessoa com competência técnica interessada em resolver problemas urgentes do ensino em Portugal. A Ministra prometeu muito, avançou com algumas boas ideias. O pior é que ao lado dessas boas ideias se instalou, desde o início, uma ideia muito errada de tentar conquistar a opinião pública à custa do ataque aos professores, o que é uma coisa muito sedutora, mas muito perigosa. As pessoas aderiram, porque andavam sempre à procura de um bode expiatório e o 'bode expiatório' dos professores foi boa ideia, porque não podiam ser os pais (apesar de, em muitos casos, cada vez menos ligarem aos filhos), nem podiam ser os alunos (apesar de, nalguns casos, eles estudarem cada vez menos). A ideia de serem os professores repetida à saciedade, dramatizada e exagerada com manifesta injustiça teve várias consequências, sendo a primeira delas afastar os professores, colocando-os praticamente desde o início contra a Ministra. Os próprios pais começaram a cair em si e a achar a explicação de que a culpa era dos professores uma explicação muito simplista e que às tantas deixou de justificar tudo o que se faz e o que se deixa de fazer. O que é facto é que os alunos também se sentiram muito desmotivados pelo clima de guerrilha que se instalou nas escolas, porque a partir de certa altura o confronto não foi apenas com os professores, foi com os alunos e com uma parte dos encarregados de educação.»
Estas consequências de que fala Marcelo Rebelo de Sousa não passaram ainda, como se sabe. E teria sido importante, desde sempre, um pensamento como o que, hoje, a propósito de negociações com os enfermeiros e com os médicos, a Ministra da Saúde expressou: é que o ambiente de guerrilha não é bom para o exercício de uma profissão. Nem para o progresso do país, claro.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Saúde na escola?

Helena Matos, no artigo "Lista de assuntos a discutir com paixão" saído no Público de hoje, sugere quatro temas para discussão, habituados que andamos a acaloradas discussões, apesar do frio, sobre assuntos da maior importância, correndo mesmo o risco de cairmos no rol dos "obscuros" se nesta discussão não participarmos... Humor, eu sei, que brinca com esta herança dualista de termos que ser uma coisa ou outra, isto é... progressistas ou reaccionários! Onde e há quanto tempo a gente já ouviu isto?
Que podemos então discutir, discutir, discutir? Segundo Helena Matos, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, os direitos dos animais, a educação sexual nas escolas e a eutanásia. Tudo, tudinho, temas de suma importância para uma visão pessoal da vida, já sabemos.
Vou deixar três deles para essa discussão a vir ou que já vai andando por aí. Vou chamar para aqui, transcrevendo, aquilo que Helena Matos diz sobre a educação sexual nas escolas, uma coisa que deveria passar por cuidados mais evidentes na área da saúde, por exemplo, na educação para a saúde, com técnicos nas escolas para resposta. Recordo-me de, numa das escolas em que estudei e onde fiz o meu ensino secundário, haver o gabinete médico e de, de vez em quando, haver lá um técnico, provavelmente médico (não lembro bem), para responder ou aconselhar; recordo-me também de uma escola inaugurada há poucos anos, construída de raiz segundo um projecto que contemplava um gabinete médico, cujo Presidente da Comissão Instaladora da altura se teve que impor por ter recebido indicações no sentido de ocupar aquele gabinete para um outro fim, algo parecido com espaço de arrumações... A questão é que a saúde na escola - chamem-lhe educação para a saúde ou saúde escolar ou outra coisa qualquer - não tem sido muito contemplada, apesar de todos os problemas que esta civilização, por que também somos responsáveis, tem criado à saúde.
Vem isto a propósito do comentário de Helena Matos sobre educação sexual nas escolas, que faz todo o sentido e que, por essa razão, aqui reproduzo.
«(...) Os professores efectivos reformam-se em catadupa; começam-se reformas curriculares como a da Língua Portuguesa que ninguém sabe em quê e onde pára; a violência banalizou-se e chama-se agora a polícia para impor a crianças aquele mínimo de ordem que os professores e funcionários já não conseguem, não podem e também desistiram de tentar que exista nos estabelecimentos escolares; as alterações ao estatuto dos professores levaram a uma situação de bloqueio... mas nós, portugueses, se esta lista-propaganda funcionar, vamos discutir nos próximos meses, graças aos bons ofícios da JS, algo de tão importante e crucial quanto a educação sexual nas escolas. E como o que tem de ser tem muita força e a propaganda ainda mais força tem, será importante começarmos por perceber o que se entende por educação sexual nas escolas. Até agora tem vigorado nesta área uma perspectiva muito "Ciências da Natureza/funcionamento do corpo humano" que não satisfaz a JS e sobretudo aqueles que, através desta temática, pretendem fazer proselitismo ideológico nas escolas, tanto mais que se prevê que estes conteúdos passem a ser ministrados por membros de organizações não-governamentais que certamente da Opus Dei à Maçonaria se farão representar. Como é óbvio, não cabe no espírito libertador da JS que os cidadãos tenham outras opiniões sobre aquilo que realmente precisam na escola. Por exemplo, que achem que a Educação Sexual é um dos vários assuntos que os alunos poderiam ver abordados de forma muito mais eficaz por técnicos nos infelizmente desactivados gabinetes médicos das escolas. A população adolescente, que já não vai ao pediatra e ainda não vai ao médico de família, acaba por ter pouco acompanhamento clínico. Seria excelente integrar na rotina das escolas gabinetes com técnicos de saúde - e não activistas de ONG regra geral tão activos quanto incultos - onde os alunos, além de informações sobre planeamento familiar, doenças sexualmente transmissíveis e outras questões da sexualidade, pudessem também ser acompanhados de modo a detectarem-se distúrbios alimentares, problemas de crescimento, má audição ou os casos de abusos e maus tratos. Claro que nada disto em termos de propaganda rende o material telegénico de um Dia da Educação Sexual por período, como propõe a JS, mas como são os contribuintes que vão pagar tanto activismo, terá a JS de aceitar que alguns de nós tenhamos dificuldades em passar cheques em branco. (...)»

Máximas em mínimas (43)

Moderno
"Todos nós transportamos cruzes modernas, suportamos o insuportável num corpo destinado ao comércio, num corpo que já não nos pertence. Tudo o que não tem marca não existe. Os jovens empenham o cérebro e a alma num pequeno crocodilo verde, em três faixas pretas, numa vírgula horizontal: fora disso, não existem. Lacoste, Adidas e Nike tornaram-se a trindade de uma religião oca, cada dia mais cheia de santos, e que condena os homens a mascarar-se de hamburguer para ganhar a vida. Ganhar a vida, mas que vida?"
Philippe Claudel. Desisto. Porto: Edições ASA, 2009 (ed. orig.: J'abandonne, 2006)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Rostos (110)

Rostos de trabalho - painel cerâmico de Júlio Santos (1956), no edifício do INATEL, em Setúbal