segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

António Lobo Antunes - anunciar o fim em vésperas de livro novo?

João Céu e Silva publica no Diário de Notícias de hoje o que ficou de uma entrevista com António Lobo Antunes. Dois destaques: o próximo livro e o fim anunciado (?) da publicação.
Quanto ao próximo título, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, o tom de Lobo Antunes deixa o desafio: "É um livro óptimo para dar um trabalhão à crítica. Eu queria fazer um romance à maneira clássica, que destruísse todos os romances feitos desse modo." Quanto ao futuro da obra… alguns excertos:
ACABAR - «(…) Vou publicar este livro que acabei agora e escrever um último livro para arredondar a obra. Essa é a minha ideia. Depois, nessa altura, quando sair esse livro que arredonda, que eu penso que me levará dois anos de trabalho - se conseguisse começá-lo este ano -, acabam os romances, acabam as crónicas, acaba tudo e não publico mais nada. A minha voz falada ou escrita já não se ouvirá mais. (…)»
APANHAR - «(…) Eu fui apanhado por toda esta engrenagem editorial, de agentes, disto tudo que era um mundo inimaginável quando o meu primeiro livro saiu. Não conhecia ninguém, nada, nem um único escritor e a maior parte dos meus amigos - os meus camaradas na guerra - nem sequer sabiam que eu escrevia. (…)»
ESCREVER - «(…) Eu escrevo porque se não escrever a minha vida fica sem nexo e sentido. Parece que me construí a mim mesmo para isto. Não era para publicar, era para escrever e fui apanhado por uma engrenagem. (…)»
CALAR - «(…) Há já muito tempo que penso em voltar a calar-me e fazer como na adolescência: escrevia as coisas, corrigia, corrigia e depois destruía. Depois fazia outro, corrigia e destruía… E andei nisto anos. (…)»

domingo, 15 de fevereiro de 2009

OUTROS DIZERES - Daniel Sampaio e a escola a tempo inteiro

Contra a escola-armazém
«Merece toda a atenção a proposta de escola a tempo inteiro (das 7h30 às 19h30?), formulada pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Percebe-se o ponto de vista dos proponentes: como ambos os progenitores trabalham o dia inteiro, será melhor deixar as crianças na escola do que sozinhas em casa ou sem controlo na rua, porque a escola ainda é um território com relativa segurança. Compreende-se também a dificuldade de muitos pais em assegurarem um transporte dos filhos a horas convenientes, sobretudo nas zonas urbanas: com o trânsito caótico e o patrão a pressionar para que não saiam cedo, será melhor trabalhar um pouco mais e ir buscar os filhos mais tarde. (...)
Não estaremos a remediar à pressa um mal-estar civilizacional, pedindo aos professores (mais uma vez...) que substituam a família? Se os pais têm maus horários, não deveriam reivindicar melhores condições de trabalho, que passassem, por exemplo, pelo encurtamento da hora do almoço, de modo a poderem chegar mais cedo, a tempo de estar com os filhos? Não deveria ser esse um projecto de luta das associações de pais?
Importa também reflectir sobre as funções da escola. Temos na cabeça um modelo escolar muito virado para a transmissão concreta de conhecimentos, mas a escola actual é uma segunda casa e os professores, na sua grande maioria, não fazem só a instrução dos alunos, são agentes decisivos para o seu bem-estar: perante a indisponibilidade de muitos pais e face a famílias sem coesão onde não é rara a doença mental, são os promotores (tantas vezes únicos!) das regras de relacionamento interpessoal e dos valores éticos fundamentais para a sobrevivência dos mais novos. Perante o caos ou o vazio de muitas casas, os docentes, tantas vezes sem condições e submersos pela burocracia ministerial, acabam por conseguir guiar os estudantes na compreensão do mundo. A escola já não é, portanto, apenas um local onde se dá instrução, é um território crucial para a socialização e educação (no sentido amplo) dos nossos jovens. Daqui decorre que, como já se pediu muito à escola e aos professores, não se pode pedir mais: é tempo de reflectirmos sobre o que de facto lá se passa, em vez de ampliarmos as funções dos estabelecimentos de ensino, numa direcção desconhecida. Por isso entendo que a proposta de alargar o tempo passado na escola não está no caminho certo, porque arriscamos transformá-la num armazém de crianças, com os pais a pensar cada vez mais na sua vida profissional.
A nível da família, constato muitas vezes uma diminuição do prazer dos adultos no convívio com as crianças: vejo pais exaustos, desejosos de que os filhos se deitem depressa, ou pelo menos com esperança de que as diversas amas electrónicas os mantenham em sossego durante muito tempo.
Também aqui se impõe uma reflexão sobre o significado actual da vida em família: para mim, ensinado pela Psicologia e Psiquiatria de que é fundamental a vinculação de uma criança a um adulto seguro e disponível, não faz sentido aceitar que esse desígnio possa alguma vez ser bem substituído por uma instituição como a escola, por melhor que ela seja. Gostaria, pois, que os pais se unissem para reivindicar mais tempo junto dos filhos depois do seu nascimento, que fizessem pressão nas autarquias para a organização de uma rede eficiente de transportes escolares, ou que sensibilizassem o mundo empresarial para horários com a necessária rentabilidade, mas mais compatíveis com a educação dos filhos e com a vida em família.
Aos professores, depois de um ano de grande desgaste emocional, conviria que não aceitassem mais esta "proletarização" do seu desempenho: é que passar filmes para os meninos depois de tantas aulas dadas - como foi sugerido pelos autores da proposta que agora comento - não parece muito gratificante e contribuirá, mais uma vez, para a sua sobrecarga e para a desresponsabilização dos pais.»
Daniel Sampaio. "Contra a escola-armazém". Público ("Pública"): 15.Fev.2009

sábado, 14 de fevereiro de 2009

No "Correio de Setúbal", ontem

Diário da Auto-Estima – 94
Onde está? – Desde o início do ano que ando à procura do Correio de Setúbal. É sabido: teve a interrupção natalícia e retomou a saída com novo formato e distribuição gratuita. E onde está? Dizem-me que no sítio tal e também no sítio xis. Mas um e outro são distantes. Mas não está onde sempre esteve – na loja onde me dirijo há anos para comprar jornais ou revistas e onde adquiria o Correio de Setúbal. Questão de hábitos, eu sei. Mas tenho que os mudar? Entretanto, vou ouvindo lamentos de outros leitores com vícios semelhantes… Espero, pois, que o jornal regresse aos sítios habituais. Por compromisso com os leitores, independentemente de ser pago ou de ser oferecido.
Escola – Triste, cada vez mais triste, vai sendo o ambiente dentro das escolas. Onde havia relações profissionais com considerável dose de familiaridade e de partilha há agora afastamentos e individualismos. Foi isto que se produziu. Até ao momento, ainda não vi que da transformação adviessem melhorias para o sistema educativo ou, para ser mais claro, para os alunos. A responsabilidade não pode ser apenas do neo-liberalismo, que ninguém conhece. Nem da crise, que veio depois. Nem da globalização, que é boa ou má consoante o que queiramos.
Política – Cada vez mais discutida na praça pública. Desinteressante. Com muita gente a dizer que não vai participar nos actos eleitorais. Também triste. E duas notas: as promessas governamentais à classe média (fantástico, não é?) e Ramalho Eanes a chamar a atenção para o facto de as campanhas eleitorais terem de deixar a folclorice. E uma outra: localmente reproduz-se, com frequência, o modelo nacional. Não porque seja bom, mas pelo folclore.
Palavras – “Hoje em dia, toda a gente evita chamar as coisas pelos nomes: um cego é um invisual, um animador de televisão um artista, os mortos em breve serão não-vivos.” (Philippe Claudel, Desisto, 2006, em tradução portuguesa de 2009). Poderíamos acrescentar a expressão “politicamente correcto”, que serve para impedir o murro que por vezes apetece dar na mesa.
Adenda: Já depois de escrita a crónica, fui informado de que poderia ler o Correio de Setúbal, assim como os outros títulos do grupo (Sem Mais Jornal e Jornal Concelho de Palmela), na net, em pdf. Basta clicar para aqui.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Rostos (109)

Charles Darwin, em Coimbra (Universidade)

Charles Darwin
200 anos
(12.Fev.1809 - 12.Fev.2009)

Exemplar da 1ª ed. de On the origin of species (Nov.1859)
[fotos: lusodinos.blogspot.com e http://www.rinr.fsu.edu/]

As histórias de Caidé, o cão que António Torrado contou

Chama-se Caidé e relata as suas memórias. É o herói de Caidé – Aventuras de um cão de sala contadas pelo próprio, obra de António Torrado que teve segunda edição em 1998 (Porto: Livraria Civilização Editora), quando passavam 15 anos sobre a sua primeira apresentação, com ilustrações de Manuel Mouta Faria.
A história, contada na primeira pessoa, leva o leitor a assistir às aventuras que Caidé lembra com prazer – “o mistério da mala desaparecida”, “o naufrágio do veleiro”, “à beira da glória”, “rei dos animais” e “cão prodigioso e o menino prodígio”, todas desenvolvidas em torno da personagem que as recorda, ora com humor, ora jogando com palavras, ora mostrando o mundo segundo um ponto de vista distante do dos humanos. “O meu livro é um registo de confidências (aliás, cão fidências). Tenho de ser sincero até ao fim, nem que pelo meio me custe um bocado.” Tal é a intenção inicial do narrador, mantendo-se fiel a uma pretensa escrita memorialística…
É um cão que vive com os seus donos. Domesticado. Que sabe viver na cidade, mas, no campo, a correr à descoberta da toca de um coelho, fica a olhar o perseguido, deixando-o ir embora por ter pena da história que lhe é contada… Conhece os jardins da cidade, participa em concursos de canídeos, põe-se ao serviço das crianças enquanto resgata brinquedos e posa para um retrato. Percebe os homens, mas age com as regras e as medidas do mundo dos cães – “A quinta do Doutor Aldo era muito maior do que o jardim público, defronte da nossa casa. Para aí umas quinze mijas mais, calculo eu. Para quem não souber, esclareço que mija é uma medida de comprimento de exclusivo uso canino. Os homens usam metros, léguas, milhas. Nós, mijas. Compreende-se. Quando virem um canídeo em posição selecta, a alçar a perna para uma árvore, não julguem que ele está só a aliviar-se das águas. Está também em cálculos de medição. Não o interrompam. Não o distraiam.”
As histórias correm, contadas com prazer. “Pelo-me por aventuras”, diz. Pelas suas aventuras, coisas insignificantes aos olhos dos outros, mas coisas importantes aos olhos de um cão, deste cão, de Caidé. Do lado de cá, o ouvinte ou o leitor estão sempre presentes, numa interpelação contínua – “Espero, no fim, os vossos juízos”. E o leitor sente-se compelido a seguir atento para poder ajuizar. Pelo menos, foi esse o desafio. Mas, no final, a conclusão é apresentada pelo protagonista – “Se, depois destas narrativas, alguma conclusão querem tirar, fiquem-se com esta: nós, os cães, somos todos uns heróis ao lado dos homens, de quem aprendemos a língua, as vontades e até os caprichos. Já era altura de os homens começarem a perceber-nos mais um poucochinho. O que é que acham?” E Caidé acaba o seu discurso.
Afinal, o pequeno cocker, que, no início, “dava tudo para ser um desses cães felizardos que passam o tempo a correr e a ladrar, de uma ponta à outra do écran da televisão (…), sempre a saltarem às canelas dos bandidos, a combaterem com ursos, a escalarem montanhas, a avisarem de fogos, a salvarem gente”, tem uma história recheada de acção, assente nas aventuras do quotidiano, grandes para um cão de companhia.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Política caseira - Setúbal, Catarino Costa, Teresa de Almeida e o PS (parte II)

A notícia é do Setubalense de hoje. Depois dos comentários do socialista Catarino Costa na semana passada... aí está aquilo que já era esperado.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

História a partir de "Poesia de Angola" (um livro que não estava perdido mas que foi reencontrado)

Há uns anos – bastantes, talvez 15! –, a Adelina foi minha aluna numa disciplina em que se estudavam as literaturas africanas de expressão portuguesa. As aulas passaram por autores como Francisco José Tenreiro, Pepetela, Baltasar Lopes, Manuel Rui, entre muitos outros (pois os alunos puderam ainda escolher autores, lê-los e trabalhá-los). E também por contos tradicionais africanos. E ainda por poemas diversificados (quanto às épocas, às nacionalidades dos autores e aos temas).
A Adelina deixou-se levar pelo entusiasmo com que se falava de todas estas coisas e, um dia, trouxe-me um livro para eu ver. Era Poesia de Angola (Luanda: Ministério da Educação e Cultura, 1976). Era também a poesia da sua Angola, das suas raízes. Perante o meu interesse, deixou-me ficar o livro para ler. A título de empréstimo, claro.
No entanto, as aulas acabaram e eu deixei aquele estabelecimento de ensino. Perdi o contacto da Adelina e o livro, depois de lido, foi repousando, à espera de um encontro casual ou de qualquer outra possibilidade que o levasse até à origem.
Passaram anos. Um dia, no Centro de Saúde de Palmela, por mera coincidência, encontrei a Adelina. Houve troca de contactos e conversa sobre o livro. Havíamos de ter um encontro e a devolução seria efectuada.
Mais um ano passou, no entanto. E, numa manhã de Dezembro passado, lia o seguinte mail: «Caro João, será que se lembra de mim? tudo bem? Daqui Adelina, sua ex aluna (…). Estivemos juntos no hospital de Palmela há tempo. Sim, a aluna que há mais de 12 anos emprestou-lhe um livro de poemas de escritores angolanos, relíquia do meu adorado e falecido pai. Por favor e, encarecidamente, peço-lhe de volta o meu livro. É exactamente nesta quadra festiva que que mais falta sinto dele, gostaria de poder dedicar ao meu filho os belos poemas que o meu estimado cota recitava em família. Por favor joão da-me este presente de Natal.”
Senti a urgência de lhe devolver o livro. Palavras tocantes, sentimentos, poemas… tudo se misturava. Tivemos encontro marcado para antes do Natal. Impossível, por posteriores compromissos dela.
Remarcámos e encontrámo-nos hoje, com a alegria de qualquer reencontro, acrescida do motivo. Fiquei a saber que os pais dela se tinham conhecido através da poesia - o pai recitava poemas para a mãe. Depois, o pai lera-lhe poemas de autores angolanos e oferecera-lhe o livro. Agora, com um filho de 10 anos, queria ler ao rebento os poemas do encantamento que o pai lhe transmitira. Agarrou o livro como a melhor prenda. Ou como a tábua de salvação de uma viagem pelo imaginário. Ia cumprir-se a tradição. Ia cumprir-se o encontro com as raízes, a identidade. Fiquei feliz pelo reencontro e por esta história. Vulgar, eu sei (há tantos livros "desaparecidos" e, por vezes, reencontrados!...). Mas forte!
Poesia de Angola tem prefácio assinado por António Jacinto, à data Ministro da Educação angolano, que assim fazia valer a força dos poetas do seu país: «Literatura da clandestinidade, cantada na clandestinidade, ressurge, à luz clara do dia, nas Escolas. Literatura de revolta, de afirmação combativa, de luta, de guerrilha, irá cumprir uma missão didáctica. (...)"
Esta era apenas uma impressão. O livro pretendia fazer face ao programa de Literatura Angolana, dividindo-se em três partes: "Poesia tradicional", "Precursores da poesia angolana" e "Geração moderna (anos 40-70)". Quem passava por estas páginas? Um povo e uma identidade, é claro. A tradição, também. E, entre os precursores: José da Silva Maia Ferreira, J. Cândido Furtado, Eduardo Neves, Cordeiro da Matta, Lourenço do Carmo Ferreira e Jorge Rosa. No período dos anos 40-70 do século XX: Tomás Vieira da Cruz, Maurício de Almeida Gomes, Aires Almeida Santos, Viriato da Cruz, António Jacinto, Agostinho Neto, Tomás Jorge (filho do citado Tomás Vieira da Cruz), Alda Lara, Alexandre Dáskalos, António Cardoso, Arnaldo Santos, Costa Andrade, Ernesto Lara (Filho), Henrique Guerra, João Abel, Deolinda Rodrigues, Emanuel Corgo, Nicolau Spencer, Ngudia Wendel, Rui de Matos, Sá Cortez, Joffre Rocha (pseudónimo de Roberto de Almeida), Ruy Duarte Carvalho,João Maria Vilanova, David Mestre, Manuel Rui Monteiro, Jorge Macedo, Samuel de Sousa e Adriano Botelho de Vasconcelos. Acima de três dezenas de nomes, pois. Que cantavam a guerra, o amor, a infância, o combate, o lirismo. Poesia, é evidente.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Carlos Reis e os novos programas de Língua Portuguesa do Ensino Básico

Os programas de Português têm merecido críticas por muitas razões. Em curso está a discussão de proposta para os novos programas de Língua Portuguesa. As propostas para os 1º, 2º e 3º ciclos estiveram a cargo de uma equipa coordenada por Carlos Reis, nome ligado à investigação e ao ensino de literatura portuguesa e reitor da Universidade Aberta, que hoje dá uma entrevista ao Público, peça de que sublinho alguns excertos (com subtítulos meus).
Entre a língua e a pedagogia – «(…) Há muitos professores - não só, mas principalmente os que saíram dos institutos politécnicos - que foram formados à luz de uma concepção... eu diria... muito desenvolta, muito expedita do que é falar e escrever em português. (…) Quando falo dos politécnicos, refiro-me ao facto de nos últimos 20 a 30 anos se ter dado uma importância excessiva à componente pedagógica pura e dura. Não nego a sua relevância, mas teve um desenvolvimento e um peso que puseram em causa a dimensão científica. Esqueceu-se o óbvio: eu não posso ser um bom professor de Física se não souber Física, não posso ser um bom professor de Português se não tiver um conhecimento aprofundado e sistemático da língua. (…)»
Entre o facilitismo e o erro – «(…) Em relação aos alunos o programa é muito claro no combate a uma cultura de facilitismo e de tolerância ao erro, também ela relacionada com determinadas concepções pedagógicas. (…) Aquela coisa de "se o menino erra tem de se valorizar o erro, a expressividade...". Sou completamente contra isso. Um erro é um erro, em Português como em Matemática. Se no discurso corrente, quotidiano, o sujeito não concorda com o predicado, isso é um erro. (…)»
A medida da gramática – «(…) Os novos programas revalorizam aquilo a que os especialistas chamam o conhecimento explícito da língua e, dentro dele, o domínio da gramática, que durante anos foi, por assim dizer, marginalizada. Não pretendemos martirizar ninguém, mas sim que a língua mantenha alguma coesão. Porque a gramática não é um fim em si mesmo, é um instrumento fundamental para que possamos, justamente, ter a noção do erro. (...)»
Entre os textos e a leitura – «(…) Actualmente, os poucos textos literários apresentados aos alunos são utilizados como textos ilustrativos de coisas que têm pouco a ver com a literatura. Usar um soneto de Camões para explicar o que é o discurso argumentativo, por exemplo, é matar o soneto de Camões. Ele tem de ser percebido pelos alunos como uma grande peça lírica, que representa e modeliza uma emoção, uma visão do mundo, um sentimento. Mas, mais uma vez, esse não será um objectivo fácil de atingir sem, paralelamente, fazermos os possíveis e os impossíveis para que os professores sejam grandes leitores. (...)»
Entre a leitura e a política – «(…) Para termos alunos que gostem de ler são precisos professores que gostem de ler, que entendam a literatura como um domínio de representação cultural com uma grande dignidade e com uma enorme capacidade de nos enriquecer do ponto de vista humano. Claro que isto ultrapassa, em muito, a esfera de actuação de quem prepara programas de Português, e está intimamente relacionado com a actual crise das Humanidades. (...)»
O “Magalhães” ajuda? – «(…) Está à vista que a hipervalorização, às vezes até um bocadinho provinciana, das tecnologias traz consigo lacunas consideráveis na forma de olharmos para o outro, de pensarmos no que é justo ou injusto, no que é solidário e não o é, no que é bonito e no que é feio - e que encontramos na Literatura, na História, na Filosofia.... A recuperação do atraso científico e tecnológico não deve ser feita à custa da desqualificação - política, até - de outras componentes da nossa cultura. (…) [A distribuição dos Magalhães pelas crianças] éum esforço muito interessante, mas que se arrisca a pôr em causa outros tipos de saberes. Quero acreditar no argumento de alguns - o de que o Magalhães permite o primeiro acesso à leitura por parte de muitos miúdos que não têm livros em casa. Mas, ainda assim, não deixa de ser necessário contrabalançar esta hipervalorização do computador com outras medidas. Com o investimento no Plano Nacional de Leitura, a criação de bibliotecas... (…)»

domingo, 8 de fevereiro de 2009

"Serra-Mãe", poema com 66 anos

Em 8 de Fevereiro de 1943, Sebastião da Gama, então a caminho dos 19 anos, compôs um dos seus poemas mais conhecidos, que, dois anos depois, teria como título de livro. Falo de "Serra-Mãe", texto que teve primeira publicação no jornal montijense Gazeta do Sul, na sua edição de 21 de Março desse ano (nº 637), onde saiu apenas com o título de "Poesia" (de que reproduzo o respectivo recorte) e assinado pelo pseudónimo Zé d'Anicha, construção artística de homenagem à formação geológica que do azul das águas espreita a Arrábida.
Dois anos depois, em 1945, era publicado o seu primeiro livro, Serra-Mãe, com a chancela da Portugália, ainda que custeado pela família. Nesse momento, o poema que escrevera dois anos antes, recebia o título homónimo do livro - "Serra-Mãe".

Sebastião da Gama (cujo 57º aniversário de falecimento passou ontem) colaborou no semanário montijense durante quase três anos, entre 1940 e 1943, com cerca de duas dezenas de textos.

Política caseira - Setúbal, Catarino Costa, Teresa de Almeida e o PS

O Setubalense: 06.Fev.2009 (apenas lido agora)