quarta-feira, 23 de julho de 2008

Rostos (72)


Estátuas da Fonte do Centenário, em Setúbal (Av. Luísa Todi)
A "Fonte do Centenário", erigida por altura do primeiro centenário de Setúbal como cidade, em 1960, só viria a ter as esculturas em meados de 1971, peças do canteiro Fernando Marques Esteves sobre trabalho do escultor Arlindo Gonçalves da Rocha.

terça-feira, 22 de julho de 2008

José Saramago - "A consistência dos sonhos"

O segundo dia de férias deu-me a possibilidade de fazer uma coisa que vinha a ser sucessivamente adiada: visitar a exposição sobre José Saramago, no Palácio Nacional da Ajuda, produzida pela Fundação César Manrique. Assim, numa ida a Lisboa, depois de resolver compromisso já assumido, rumei com o filho para a Ajuda, na mira de uma "Consistência dos Sonhos", que assim se intitula a exposição. Havia também a ajudar o facto de esta mostra estar quase no seu termo, que sucederá em 27 deste mês...
Gostei. Pudemos ver demoradamente, saboreando o tempo e os instantes, degustando a história de um português que se fez escritor e se fez Nobel. Histórias de livros, de relações culturais, de trajectos, de uma vida. História em retrospectiva de uma formação literária e de um homem que, num dia de 1994, escreveu: "O meu compromisso é com o meu tempo". Muitos manuscritos, muitos dactiloscritos, muitos livros, muita documentação do que é tornar-se escritor; obras inéditas, algumas incompletas, entre as crónicas e os poemas, entre as cartas e o teatro, entre o romance e a intervenção, entre os apontamentos e as provas revistas, entre a investigação para a escrita e a tradução.
Indispensável. Pelo menos, indispensável. E, no final, se se quiser trazer para casa um pouco do que foi a sensação experimentada na visita, há possibilidades de compras - de livros, obviamente, mas também de outros registos. Como elemento bibliográfico saramaguiano, é de todo útil o documento resultante desta exposição, redigido por Fernando Gómez Aguilera - José Saramago: A consistência dos sonhos - Cronobiografia (Lisboa: Caminho, 2008). É uma outra maneira de ler Saramago. E de vermos a sua obra.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Sobre heróis (de ontem e não de hoje...)

Na habitual rubrica “Viagens na história” que assina na revista Tempo Livre, João Aguiar escolheu para título deste mês “Como o tempo passa!” (Tempo Livre. Lisboa: INATEL, nº 195, Julho/Agosto.2008, pg. 54). O texto foi escrito em época das euforias do Euro 2008 e pretende falar de heróis…
Nuno Álvares Pereira (séc. XIV), Luís de Camões (séc. XVI), Luís da Câmara Pestana (1863-1899), Aníbal Augusto Milhais (mais conhecido por “soldado Milhões”, 1895-1970) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952) são os cinco heróis portugueses escolhidos por João Aguiar, homens que, “nos seus diversos domínios, conseguiram realizar obras verdadeiramente importantes que marcaram o rumo da nossa História”, cada um deles por uma boa razão – pela genialidade estratégica e pelo misticismo, pela poesia e pelo aventureirismo, pela luta contra a peste bubónica, pela acção na 1ª Grande Guerra e pelo prestígio na cultura, respectivamente.
E que tem isto tudo a ver com o Euro 2008? Eis a conclusão, de necessária leitura para rejeitarmos os excessos que nos foram impingidos, com a ajudinha costumeira da comunicação social, em tempo de simultaneidade de crise e de construção de heróis:

Poderá já vir um pouco fora de tempo, porque a época do Euro 2008 já passou… Mas esta opinião ajuda a perceber a grandeza dos desgostos assim como os excessos a que aderimos!

domingo, 20 de julho de 2008

Rostos (71)

Adamastor, por Jorge Colaço, no Palace Hotel de Buçaco (1907)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Um poema para o aeroporto, que já foi da Ota, de Lisboa e de Rio Frio

São cinco sextilhas que constituem a letra do "Vira da Ota", um poema a propósito de aviões, de obras, de sítios, de escolhas, de Portugal, da autoria de Francisco Pratas, acabado de publicar em O Canto dos Poetas, do Núcleo de Poesia do Grupo Desportivo "Independente" (Setúbal: nº 14, Julho/Setembro de 2008).

Rostos (70)

Eça de Queirós e a Verdade, em Lisboa, no Largo Barão de Quintela

O monumento actual é réplica de um outro, em pedra, de Teixeira Lopes, inaugurado em Novembro de 1903, que foi levado para o Museu da Cidade [de Lisboa] devido aos sucessivos actos de vandalismo. Está legendado com uma máxima da obra queirosiana A Relíquia - "Sob a nudez forte da Verdade o manto diáfano da Fantasia". A homenagem a Eça resultou de uma comissão à frente da qual estava o Conde de Arnoso, mas a forma como o monumento foi encarado não se revelou pacífica, pois os costumes levaram contestatários a manifestarem-se contra o desnudamento, como o fez um leitor do Correio Nacional em finais de Novembro de 1903: "Achei aquela obra por tal forma provocadora e lasciva, que entendo ficar mal a uma cidade consenti-la numa das suas praças. (...) Uma mulher de peregrina beleza, quase nua e naquela posição de lascívia pode, se quiserem, representar a Verdade, mas essa Verdade é daquelas que nem o decoro nem a polícia permitem que se descubram e a seriedade exige que se tapem com pano mais denso que o véu diáfano da fantasia."

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Rostos (69a)

Monumento à geminação de culturas tradicionais, por Kim Prisu, em Pinhal Novo
OBS: Depois de ter publicado fotografia mostrando parte deste monumento, respondo a pedidos no sentido de aparecer o monumento em figura completa.

Marcelo Rebelo de Sousa em entrevista

A revista Magazine - Grande Informação alusiva aos meses de Julho-Agosto (nº 24) contém entrevista com Marcelo Rebelo de Sousa, que, em jeito rápido, responde às perguntas, mantendo o estilo que lhe conhecemos do seu programa semanal de comentador ou dos seus escritos de análise. Eis alguns excertos. onde se nota a valorização do saber, a crítica directa, a preocupação com a educação, a força da auto-imagem, a ausência de complexos na política:
«(...) Se não fosse português, gostaria de ser o quê? Português. Só em terceiro lugar moçambicano. E em quarto brasileiro. Sempre lusófono.
Quais as semelhanças entre Salazar e Cunhal? Tinham ideais, lutavam por eles e essa luta persistente, teimosa, obstinada deixava a sensação de os fins legitimarem os meios. (…)
Qual a notícia que gostaria de ver a abrir o próximo telejornal? Último relatório de PISA dá a educação portuguesa a subir, em qualidade, para um dos cinco primeiros lugares da OCDE. (…)
Acha que os políticos em Portugal são mal pagos? Há-os bem demais. E há-os mal demais. Mas, em geral, deveriam ter estatuto correspondente às suas responsabilidades. E também responsabilidade bem maior do que a que se lhes exige. (…)
Parece-lhe que o processo Casa Pia irá morrer na praia? Que morrerá tarde, parece óbvio. Quando poucos se lembrarão já do início. Se, além disso, for na praia, que desprestígio para a Justiça portuguesa!
Pensa que o comum dos mortais tem razões para confiar nos nossos tribunais? Em termos de celeridade da Justiça, não. Em termos de Justiça no conteúdo das decisões, sim. Ainda. Apesar de denas evitáveis (e lamentáveis) de protagonismos excessivos ou de querelas entre os hoje (mal) chamados operadores judiciários. (…)
Acha-se com capacidade para um dia ser Presidente da República? Capacidade, sim. Condições objectivas, veremos. É uma hipótese possível. Não é uma inevitabilidade. E muito menos uma obsessão. A vida não acaba nem começa em Belém. Para o mal e para o bem. Para o mal – a recandidatura de Mário Soares. Para o bem – a sua pedagogia da Europa, os cargos internacionais de Jorge Sampaio e, mais singularmente, o doutoramento de Ramalho Eanes. (...)»

terça-feira, 15 de julho de 2008

Como a "pen drive" da Maia anda a agitar o mundo

A crónica intitula-se "O mundo inteiro numa pen drive", é assinada por Nuno Pacheco e vem no Público de hoje:
«Se julgavam que o último grito em matéria educativa eram os artifícios para simplificar os exames de Matemática e fazer de todo o aluno um génio em potência, esqueçam. Há mais e bem melhor do que isso. Na Maia, um sistema revolucionário vai permitir aos mais tenros rebentos em idade escolar andarem mais leves e deixarem de vez aquelas terríveis mochilas que os fazem parecer turistas de inter-rail. Além do mais, é simples e conciso. Basta pôr tudo numa pen drive. E a dita cuja no bolso. O velho Caderno Diário do tempo dos avós dará, assim, lugar a um novo Caderno Digital. A heróica tarefa tem já data de arranque e no próximo ano lectivo a felicidade invadirá o básico. Pelo menos os lugares (além da Maia) onde a tal pen drive substituir os pesados livros e cadernos.
Para quem não sabe o que é uma pen drive, digamos que é uma espécie de disco rígido de computador disfarçado de caneta. É pequena e tem vindo a ganhar memória, como se fosse uma esponja ou uma amiba. No curto espaço de escassos centímetros armazena-se hoje o que há 30 anos exigiria salas inteiras. É o progresso. E como deixar as crianças longe dele? De modo algum. Assim, tira-se-lhes peso das costas e põe-se-lhes tudo no bolso. "Menino, onde estão os trabalhos de casa?" "Tá tudo aqui na pen drive, stôr." E os cadernos? E os apontamentos da aula de ontem? Pen drive, claro. E os conteúdos, perdão, os livros? Na pen drive, onde haviam de estar? O projecto tratará do assunto.
E as canetas, os lápis, as borrachas, aquelas coisas que servem para escrever, para apagar, para rascunhar e escrever de novo? No museu. Porque agora há a pen drive. Escrever é só no computador, com teclas. À mão cansa. E a caneta pesa. E não cabe na pen drive.
Neste dilema revolucionário, os alunos vão começar a atirar para a pen drive tudo o que puderem. Até o lanche há-de um dia, miraculosamente, ser-lhes servido numa pen drive. Exagero? Esperem pelo futuro. Até lá, porque as coisas são assim mesmo, há que pensar em que ranhura vão os pequenos estudantes encaixar a respectiva pen drive. Terão um computador para cada um, certo? Ou vão fazer fila no computador único da aula, para descarregar a "mala" enquanto os outros ficam a ver? Dúvidas ridículas. Certamente que os autores do projecto pensaram em tudo. Como tornar produtivo tal sistema, como evitar que as crianças não tragam na pen drive o que habitualmente trazem (jogos, fotos, brincadeiras, etc.), como fazer disto tudo uma coisa eficaz e responsável. Sim, porque até os professores já trazem tudo o que precisam em pen drives. Eles e os gestores, os empresários, os corretores da bolsa. As pastas que trazem na mão é só para disfarçar. Na verdade, tudo aquilo de que realmente necessitam já vem no bolso, no disco de plástico.
Os anos que perdemos numa confusão de papéis! Agora, o admirável mundo novo das pen drives, além das maravilhas na redução de peso, trará conteúdos didácticos, quadros interactivos, jogos pedagógicos. Trará até interfaces da escola com a autarquia. E da escola com os pais. E de todos uns com os outros, que é para isso que estas coisas servem.
Se trará ou não melhores alunos é o que ninguém consegue ainda saber. Mas isso é porque ainda não conseguem metê-los em pen drives, embora o desejassem. Há-de chegar o dia e, nessa altura, serão mais portáteis. Em lugar das carrinhas para levá-los até à escola, bastará um distribuidor de pen drives. E com um saco bem pequeno. Quando finalmente dermos cabo do mundo, podemos deixar as sobras numa pen drive. Assim, os extraterrestres não terão dificuldade em encontrá-lo. Desde que tragam com eles um laptop, claro. Nas viagens intergalácticas, há que andar sempre prevenido.»

"+Museu", de Palmela

Já está em distribuição o nono número do boletim semestral +Museu, do Museu Municipal de Palmela, publicação simpática, coerente, útil, bem apresentada, em meu entender um dos melhores produtos culturais (em publicações) da Câmara Municipal de Palmela.
Preocupada com a história e a memória local, esta publicação apresenta dois trabalhos de fundo: por um lado, dá continuidade ao estudo e apresentação do espólio do Ferreiro Faria (a propósito da oficina de António Teixeira de Faria) iniciado no número anterior, elaborado por Maria Teresa Rosendo, que não se limita a uma síntese descritiva dos utensílios, mas historia e problematiza a profissão; por outro, em “Bandeiras de Adiafa”, Cristina Prata escreve sobre a prática festiva que marca o fim das vindimas, socorrendo-se de vários testemunhos orais, numa história reconstruída de memórias. Como separata, o boletim contém ainda o trabalho “Pinhal Novo em imagens pela máquina de Manuel Giraldes da Silva” (1898-1974), a pretexto do 80º aniversário da criação da freguesia de Pinhal Novo, com registo biográfico do autor por Maria Teresa Rosendo e reprodução de um dezena de fotografias dos anos 20 do século passado alusivas a Rio Frio e ao Pinhal Novo, por onde passam gentes, trabalhos e momentos festivos (recorde-se que foi a partir de fotografias de Giraldes da Silva, falecido no Montijo, que foram criados alguns dos painéis de azulejo que decoram a estação ferroviária de Pinhal Novo e o palácio de Rio Frio).
O conteúdo do boletim é, pois, aliciante para a história local, abre uma imensidão de propostas para a acção pedagógica e enriquece a memória.