segunda-feira, 14 de julho de 2008

A Oriente, António Manuel Couto Viana

Em Março de 2007, António Manuel Couto Viana proferiu uma conferência na Delegação Económica e Comercial de Macau, em Lisboa, cujo texto foi agora publicado, sob o título O Poeta no Oriente do Oriente (Col. “Mosaico”, Instituto Internacional de Macau, 2008).
Este texto assume um cariz autobiográfico, ainda que a partir de uma história que é contada na 3ª pessoa, protagonizada por uma personagem apenas designada como “Poeta”, mas a que, num poema a pretexto da gruta de Camões, acrescenta o nome próprio como identificação: “António sou (tenho o teu nome) / E escravo, também, da poesia. / Para ela é que estendo, em cada dia, / A mão à minha fome.” Mas o cunho autobiográfico aparece logo no título, ao associar a personagem a uma das obras do próprio poeta.
São quatro os títulos de poesia que António Manuel Couto Viana dedicou ao Oriente: No Oriente do Oriente (1987), Não há outro mais leal e Até ao longínquo China navegou (ambos de 1991) e Orientais (1999), conjunto que, neste texto, serve como referência para explicar o fascínio desde cedo sentido por essa região e para apresentar o seu roteiro iniciático pelo Oriente a partir da sua poesia e de outros poetas portugueses nela evocados, em cuja linhagem Couto Viana se integra.
Convidado para trabalhar no âmbito do teatro em Macau em 1985, Couto Viana deixou-se arrastar pelo apelo do Oriente que já se exercia desde a infância – “O fascínio do Oriente distante e sortílego exercera-se logo sobre o seu espírito, recém-saído do colo materno e do hesitante tem-tem, surpreendendo, pelas salas da casa familiar, um ou outro móvel de exótico fabrico (…); um ou outro prato de faiança delicada e ornado de rosas e aves de comprido pescoço; o azul cantonês dos pagodes (…); a caixa de charão lustroso (…); a lata de chá com figuras estranhas de rabicho e cabaia (…)”. Houve ainda as histórias contadas pelo pai, vindas através de um amigo que conviveu com Camilo Pessanha, e a própria actividade do avô, em cujo comércio havia peças japonesas, “graças às diligências de Wenceslau de Morais”. Houve ainda a descoberta de Macau através da mão (e dos ensinamentos) de Monsenhor Manuel Teixeira e o prazer de redescobrir o Oriente com marcas de portugueses, sobretudo escritores, aqui se mencionando Pessanha, Camões, Bocage, Osório de Castro, António Patrício. E há também uma poesia que se nutre do ambiente das ruas povoadas, das paisagens, do clima, do folclore, da história, das mulheres, dos tufões, do encanto de Á-Má. O poeta vive intensamente o seu tempo macaense: “”Mergulho-me na vida, na voz deste bazar / Com lojas, tendas, vendedores de rua: / É um rio de rumor e cor, tentacular, / que flui, reflui e, de repente, estua.”
Em 1988, Couto Viana regressava a Portugal, vindo de Macau, onde assumiu um papel “de enamorado e pedagogo”. Foi um regresso sentido e difícil. Mas, passados quase vinte anos, é ainda forte o enamoramento por esse Oriente que viveu. Nesta palestra, tudo fica muito próximo do “breve roteiro lírico de Macau”, texto em prosa com que abriu o seu livro No Oriente do Oriente: “Chegas por mar. (…) E, neste primeiro instante, quase lamentas não ter aportado aqui, muitos séculos atrás, ao asilo da praia acolhedora, penetrado de lenda, trajando uns trapos sujos de cabaia do pescador que, por suprema felicidade, transportara no seu junco a divindade de A-Má (…).”
O Poeta no Oriente do Oriente é, assim, a palavra que revisita as terras e o tempo do fascínio, numa peregrinação em que a memória escrita e poética é uma forte aliada.

A diferença nem sempre é para melhor...

sábado, 12 de julho de 2008

Farol do Cabo Espichel em selo

Os faróis voltaram a ser tema numa emissão filatélica dos CTT (em circulação desde 19 de Junho), depois de, em 1987, já o terem sido a partir de desenhos de Maluda. Desta vez, a série é constituída por doze selos, com outros tantos faróis portugueses, sendo 10 do Continente (Montedor, Leça, Penedo da Saudade, Esposende, Santa Marta, Cabo Espichel, Cabo da Roca, Bugio, Cabo Sardão e Cabo de São Vicente), um da Madeira (Ponta do Pargo) e outro dos Açores (Arnel), em desenhos do atelier Acácio Santos / Hélder Soares.
O farol do Cabo Espichel, na zona de Sesimbra, tem construção datada de 1790, com reformulações várias ao longo dos séculos XIX e XX. Com uma altura de 32 metros, o farol tem um alcance de 26 milhas. Em escrito de 1872, Francisco Maria Pereira da Silva apresentou-o desta forma: “A luz deste farol é fixa e branca produzida por dezassete candeeiros de Argand com reflectores parabólicos, distribuídos na respectiva árvore em três ordens horizontais, formando um sector iluminado de 260º, com seis candeeiros na primeira ordem, cinco na segunda e seis na terceira, tendo um alcance de 13 milhas. A lanterna que abriga o aparelho tem 6,80 m de altura com seis faces de 1,30 m cada uma de largo. A cúpula tem uma chaminé no vértice que dá suficiente tiragem ao fumo; mas faltam-lhe em roda tubos para a ventilação e não tem pára-raios. O edifício em que assenta a lanterna é uma torre hexagonal formada de três corpos construídos de grossas paredes de alvenaria (…) A altura de todo o edifício, desde a base da torre até ao vértice da lanterna, é de 30,7 metros. (…) Para o serviço deste farol há só um faroleiro, que tem um homem a quem paga para o coadjuvar, o que bem mostra a necessidade de haver ali mais outro faroleiro para se alternarem naquele serviço, principalmente de noite.”
Na pagela que acompanha esta série, escreve J. Teixeira de Aguilar [também ele autor de uma obra como Onde a terra acaba – História dos faróis portugueses (Pandora, 2005)] que, “diferentemente do que sucede com os mareantes, que neles vêem sobretudo uma ajuda à navegação, os faróis são para o observador desinteressado ou ocasional uma fonte de mistério, que facilmente convoca toda a espécie de mitos e lendas”. Com efeito, o viajante sabe que onde há um farol há uma paisagem para deslumbrar, seja por aquela noção de que se chegou ao fim de uma linha, seja porque a costa se apresenta agressiva na sua natureza, seja porque a nossa imaginação se refugia na solidão e no silêncio deste ponto em que a terra acaba… O Cabo Espichel e o seu farol já foram, de resto, cenário privilegiado para uma história de mistério destinada ao público juvenil, quando Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada resolveram escrever Uma aventura na falésia (Lisboa: Caminho, 1983). Suscitando a aventura ou o mistério ou não, continua Aguilar, “a verdade é que se trata de construções humanas, cuja vida foi desde o início votada a preservar a de quem anda no mar – ontem por necessidade apenas, hoje também por prazer.”

"O estado da nação", por Vasco Pulido Valente

No Público de hoje:
«O"Estado da Nação"? Basta olhar para a Assembleia, quieta e calada, para se perceber o "Estado da Nação". Em nenhum parlamento da "Europa" subsiste um partido como o Partido Comunista Português, que não deixou ainda a "guerra fria" e vê Portugal como o via em 1960. Com uma certa razão. O PCP não é, por assim dizer, o artifício de um fanatismo inexplicável e ridículo: é o produto arcaico de uma economia arcaica e de um Estado autoritário e monstruoso. Num país moderno não existiria; na eterna "modernização" de Portugal prospera. Exactamente como o Bloco, que vem do mundo dúbio da heterodoxia marxista e se alimenta da pobreza letrada e de uma velha história, que só neste ermo, esquecido e miserável, continua. O PC e o Bloco são, segundo as sondagens, 20 por cento do eleitorado.
Fora isto, que já chega, há o "debate" entre os presuntivos representantes da democracia "burguesa". De facto, não há debate - de qualquer espécie. A oposição fala do atraso e da insuficiência do país, que naturalmente quase não varia, e atribui ao Governo a culpa dessa interminável desgraça. O Governo devolve a culpa à oposição, que já foi governo, e gaba os méritos das duas ou três coisas, que no meio da balbúrdia conseguiu fazer. Nunca, em tempo algum, se sai daqui. Assistir a uma sessão é assistir a todas. Nem as personagens mudam; e a realidade, essa, não penetra em S. Bento. Para os participantes neste ritual, a substância de uma questão ou de um argumento não contam. "Ganhar" é a afirmação de uma simples superioridade teatral ou da "esperteza" bronca e bruta, que "apanha" o próximo e que o indígena tanto estima.
Em 1975, a Assembleia ainda sabia gramática e usava com alguma eficiência a língua portuguesa. Hoje papagueia sem vergonha os lugares-comuns da propaganda partidária ou perora num calão administrativo e "técnico", que se destina habilidosamente a esconder a verdade ou o vácuo. A tradição oratória, até a salazarista, desapareceu. Não há memória de um discurso organizado e claro, que tenha tido sobre a opinião pública um efeito profundo e duradouro. A Assembleia é um clube privado que, de quando em quando, a televisão mostra a um país mais do que indiferente.
O "debate" sobre o "Estado da Nação" da última quinta-feira exibiu involuntariamente o país como ele é: a indigência intelectual, a mesquinhez de propósito, a irresponsabilidade política. Daquela gente não se pode esperar nada.»

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Minudências (24)

Notas & Notas
Os resultados dos exames do Ensino Secundário e do Ensino Básico, sobretudo os da disciplina de Matemática (mas também outros), têm alimentado uma discussão um tanto pacóvia e bem à portuguesa. Se os resultados tivessem sido maus (de preferência pior do que os do ano anterior), seria feito o gosto aos catastrofistas, que desancariam a escola, as condições, o Governo e mais mil e uma coisas; como os resultados foram melhores em termos globais, os catastrofistas alimentam a própria catástrofe, duvidando dos resultados, e o Governo explica que o êxito se deveu ao trabalho dos professores e dos alunos e a programas implementados.
Reconheço que o grau de dificuldade de algumas provas foi mais baixo do que em anos anteriores; os próprios alunos o notaram. Reconheço que este quase louvor ao trabalho dos professores é algo estranho, sobretudo depois de toda a ideia que o poder ajudou a criar sobre o trabalho dos professores até há uns meses atrás (pessoalmente, não me agrada este trajecto entre a desconfiança e a confiança tão subitamente implementado). Mas também reconheço que partir dos resultados deste ano para atirar foguetes ou para exagerar nas tintas do facilitismo... não passa de exageros e daquele opinar da mesma maneira sobre tudo e especialmente sobre educação, em que alguns teimam que está tudo cada vez pior.
É fácil fazer demagogia com a educação, seja ela a favor do poder ou contra o poder. É fácil, reconheço. Temo-lo visto. O futuro dirá se houve acasos ou propósitos. Mas também seria necessário que os que se assumem como duvidosos e os que se apresentam como certos e defensores dos métodos se situassem um pouco mais próximos da virtude...

Rostos (69)

Monumento à geminação de culturas tradicionais, por Kim Prisu, em Pinhal Novo

Em Azeitão, nesta noite

A lua subia em Azeitão, onde estão a decorrer as Festas da Arrábida e Azeitão, que vão até ao dia 13. Antes, actuara o Grupo Coral da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, num concerto que entusiasmou. A lua mostrou-se para aplaudir, que o Grupo bem mereceu!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Rostos (68)

Busto de António Feijó, em Ponte de Lima

Máximas em mínimas (30)

Poesia
“As pessoas lêem poesia porque fazem parte da raça humana e a raça humana arde de paixão! Medicina, direito, a banca… Estas coisas são necessárias à vida. Mas poesia, romance, amor, beleza? São estas coisas que nos mantêm vivos! (...) Se toda a gente fosse poeta, o planeta morreria à fome! Mas a poesia tem de existir, e nós temos de reparar nela, reconhecê-la na mais ínfima, na mais insignificante das coisas, ou teremos perdido e deixado passar muito do que a vida tem para nos oferecer.” – afirmações do professor Keating aos seus alunos nas aulas de Inglês.
N. H. Kleinbaum. O Clube dos Poetas Mortos.
Col. “Os Livros do Cinema” (4). Lisboa: “Diário de Notícias”, 2004.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Rostos (67)

"Maternidade", por Fernando Botero (1999), em Lisboa (ao cimo do Parque Eduardo VII)