segunda-feira, 7 de julho de 2008

Em formação

A avaliação do desempenho docente e o facto de ter cargos com ela relacionados levaram-me a uma acção de formação hoje iniciada. E quanto mais penso sobre o assunto mais me convenço de que a inquinação deste processo de avaliação foi grande: depois de tudo o que foi dito, depois dos avanços e recuos, depois do ambiente criado, eis que surge formação – agora – para explicar a filosofia do processo, para o aprofundar… quando muitas escolas e professores já investiram no aprofundamento e apropriação das regras e depois de muitos erros terem sido cometidos, incluindo nos sítios onde mais à frente se quis ir. Esta formação vem fora de tempo útil para um processo que tem que arrancar em Setembro, vem pôr de novo as pessoas a trabalhar à pressa para um processo que vai ser de avaliação. Já devia ter acontecido há muito, logo que o sistema começou a ser montado. Ter-se-iam evitado erros, desgastes e deslizes, independentemente de se concordar ou não com este método de avaliação. Esta formação, no mínimo, já deveria ter acontecido há muito, repito, mesmo para que as pessoas se apropriassem dos princípios e sobre eles reflectissem, optimizando o possível.
[imagem a partir de: www.renascenca.br]

domingo, 6 de julho de 2008

Ensimesmados

Um amigo, que viveu fora de Portugal durante cerca de oito meses e aqui regressou por um tempo de quinze dias, dizia-me no reencontro, no meio de uma conversa sobre o que somos: “É incrível como se chega a um espaço de livros como a fnac e tudo é diferente do que ali vi há oito meses!...” Neste caso, acompanha-se o ritmo das publicações que já mede os livros editados por dia e não por mês ou por semana… Forçosamente, o panorama tinha que ser diferente! “Mas também acho que o país está triste, quase sinto o retrato de um povo deprimido. Quando saí, não se sentia isso assim!...” Vejo-me a concordar com ele. E este resultado não é dado por estatísticas vindas de um organismo estrangeiro que diz que os portugueses são dos povos mais tristes do mundo no presente, não! O país não está na mesma quanto ao seu estado de espírito. Eça teria de arranjar um final diferente para Os Maias, pois não conseguiria pôr Carlos a olhar para uma sociedade que se mantinha igual ao que fora uns anos antes, com os “mesmos” hábitos, a “mesma” vida, as “mesmas” figuras nos “mesmos” sítios da “mesma” maneira e com o “mesmo” ar, sobretudo quando olhasse o vulgar cidadão da rua…

sábado, 5 de julho de 2008

Rostos (66)

Elemento do conjunto escultórico "Onde o tempo passa 1", de Manuel Seita,
em Almodôvar (área de serviço da A2, no sentido sul-norte)

Hoje, no "Correio de Setúbal"

DIÁRIO DA AUTO-ESTIMA – 82
Futebol – O desempenho da Selecção Nacional foi o que foi e os resultados são o que são. Teria sido bom que a equipa portuguesa tivesse ido mais longe; mas teria sido muito melhor que essa mesma equipa não tivesse sido transformada (como foi) na poção milagrosa que anestesiou o país por uns tempos. Ainda antes de o campeonato europeu começar, já se apontava Portugal como um provável vencedor, gesto que nos vem dessa mania de que tudo é fácil perante a nossa força e que nos leva a subestimar o empenho dos concorrentes que estão ao nosso lado. Felizmente, o filme acabou e a vida passou a ser mais próxima da realidade – com dificuldades, com agruras, com dores e com alegrias também. Regressávamos de uma anestesia ou de uma ficção como aquelas que vamos construindo para nos alhearmos da dureza quotidiana? Somos um povo de excessos de que a publicidade se vai aproveitando mas com os quais pouco ganhamos. E tem sido muitas vezes assim. Só que teimamos em não aprender…
Sair – Uma boa sugestão para quem viva por Setúbal ou aqui venha é uma ida ao Parque Urbano de Albarquel, recentemente inaugurado. É um passeio alegre, descontraído, higiénico. Longe dos ruídos citadinos (ainda que à saída da cidade), com uma paisagem de cenário feliz, com árvores que vestem a paz, com brisas que nos cumprimentam à passagem. A gente vê e sente e pensa: de que tem Setúbal estado à espera para que haja espaços destes? O que impede que a cidade se volte para as pessoas? A existência daquele espaço leva-nos a pensar que é triste não haver outros idênticos na longa frente que a cidade tem para o Sado, que todos temos andado a desperdiçar tempo de costas voltadas para a beleza que rodeia a cidade. Lamentavelmente. Vale a pena um passeio a este parque também para se ver o que não temos aproveitado.
Ver – Para quem goste de fotografia, aliás, para quem aprecie os momentos do tempo associados aos fragmentos do dia e à vida dos sentidos, uma outra proposta: Fragmentos de Emoção (Lisboa: Editorial Minerva, 2008), antologia de quase meia centena de fotógrafos amadores e amantes dos instantes em que se repara no que está. No total, quase centena e meia de fotografias, por onde perpassa a cor e o preto-e-branco, as coisas e as pessoas, a paisagem e o mundo próximo, os sentimentos e o outro, a luz e a recriação, a vida e a descoberta, o dia e os reflexos, o fascínio e a sensibilidade, a aventura e os afectos. O livro vê-se e lê-se com gosto, assim como num assomar às janelas do mundo para espreitar a energia dos momentos.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Rostos (65)

À moda da Nazaré, na Nazaré

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Viriato Soromenho-Marques: uma autobiografia que reconhece os amigos e assenta na reflexão

Desde há uns anos, o JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias – tem dedicado a sua última página a um género literário específico: o autobiográfico, convidando personalidades de diversas áreas à partilha com os leitores das suas “autobiografias”. Esta, como muitas outras razões, pode ser uma boa causa para o exercício da escrita autobiográfica. Na edição desta quinzena (nº 985, 2.Julho.2008, pg. 44), o mergulho na narrativa do eu dá-se pela pena do setubalense Viriato Soromenho-Marques, que a inicia da seguinte forma: “Aos 50 anos já é possível fazer essa narrativa, sempre parcial e omissa de rigor, que se traduz numa meditação autobiográfica. Trata-se de contar como a nossa vida tocou e foi tocada por outras vidas.”
Assim explicado o género (porque de uma explicação ou justificação se trata), Soromenho-Marques cumpre escrupulosamente as consequências do arrazoado, povoando o seu registo com uma dose qb de reflexão e com uma maior dose de inscrição dos amigos. Partindo da raiz, não apenas geográfica, mas sobretudo familiar, para cada uma das seis partes que desenvolvem o texto, há pistas de reflexão e de crenças, há notações de experiências e de percursos e há os amigos que a propósito dessas áreas entraram no caminho.
Que reflexões? Sobre “Mar e montanha”: “A minha relação com o mar foi sempre directa, sem a mediação de barcos, pranchas ou fatos de mergulho”. Sobre “Livros”: “De certo modo os livros têm sido para mim uma prática de orientação. Cristalização de ordem, num fluxo erosivo e em constante mudança. Marcos miliários assinalando rumos e estados do mundo.” Sobre “Guerra e paz”: em 1983 (estava Soromenho-Marques na Alemanha), “a guerra nuclear surgia como o típico risco ontológico da nossa era. (…) Vencer a guerra-fria permitiria, assim o julgava, ganharmos tempo para combater outro risco ontológico, o da crise global do ambiente.” Sobre “Estudar”: “Talvez a paixão maior. Dentro e fora do espaço Escola. A aprendizagem é o diálogo organizado e disciplinado.” Sobre “Grandeza”: “Não concebo um mundo habitável sem grandeza. Ela é o equivalente ético do sublime natural. É um bem escasso, numa era de mercado em que tudo se troca.”
Mas este registo autobiográfico de Soromenho-Marques não se fica pelo passado, como frequentemente acontece neste género de escrita. Numa curta última parte, intitulada “Futuro”, há uma mensagem que não é apenas para os outros, mas é sobretudo uma convicção própria: “O futuro antes estava garantido, hoje temos de lutar por ele. Pelo presente dos nossos filhos. A morte de cada um só é definitiva se toda a memória for abolida. A nossa civilização corre para um colapso, que, contudo, ainda pode ser evitado. Teremos a coragem de encontrar no serviço do futuro um critério de valor para as nossas vidas?”
Um texto que vai falando da relação do eu com os outros e com o mundo termina a falar de um “nós”, em que, por razões de consciência cívica, o eu se insere porque o futuro e o seu desafio são colectivos.

Rostos (64)

"O segredo" (pormenor), de Lagoa Henriques (1972), em Lisboa (Jardim Amália Rodrigues)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Associação Cultural Sebastião da Gama - "Boletim" nº 5

O quinto número do Boletim Informativo da Associação Cultural Sebastião da Gama, datado de Junho, já está em distribuição. Publicação semestral, com 16 páginas nesta edição, por lá passam títulos como: “A propósito de uma caricatura…” (sobre o livro de curso da licenciatura do poeta), “10 de Abril de 2008 – O primeiro Dia Municipal da Arrábida” (relato dos acontecimentos dessa celebração, com comunicações, discursos e fotografias), “Sebastião da Gama em Lamego e em Moimenta”, “Sebastião da Gama na Secundária de Caneças” e “Em Pegões, na Escola, com alunos e com Sebastião da Gama” (registos de acções levadas a cabo pela Associação nas respectivas escolas), “Sebastião da Gama estudado por Alexandre Santos em investigação de mestrado” (sobre provas de mestrado que tiveram a obra do poeta de Azeitão como objecto de estudo, prestadas na Universidade Aberta), “Relatório de Actividades e contas referentes aos anos de 2006 e de 2007”, “Pintores em homenagem a Sebastião da Gama” (sobre exposição promovida pela Associação), “Sebastião da Gama na Vila Faia” (a presença do monumento a Sebastião da Gama na telenovela), “O poeta beija tudo…” (sobre reportagem divulgada na net alusiva a Sebastião da Gama), “In memoriam” (a propósito dos falecimentos de Artur Pascoal Cardoso, de Manuel Pereira Pires e de Maria Alice Botelho Moniz, respectivamente familiar, aluno e colega de Sebastião da Gama), “A Serra da Arrábida” (texto da mais jovem associada da Associação, com 12 anos), “Sebastião da Gama oferecido ao Concurso Nacional de Leitura do Distrito de Setúbal”, “Sebastião da Gama e os brinquedos” (sobre livro alusivo aos brinquedos populares editado pelas Câmaras de Fundão, Marinha Grande, Montemor-o-Novo e Vila Real de Santo António), “A proximidade da poesia” (a propósito de antologia organizada por Alice Vieira), “António Osório lembra Sebastião da Gama” (a partir de livro de memórias de outro poeta de Azeitão, que conheceu Sebastião da Gama), “Matilde Rosa Araújo celebra aniversário com novo livro para crianças” (sobre evento recentemente ocorrido) e “Já temos uma sede” (sobre as instalações da Associação, em Azeitão).
O Boletim, de distribuição gratuita, teve tiragem de 2000 exemplares e pode ser pedido à Associação Cultural Sebastião da Gama (Praça da República, 37 – 1º Esq, em Azeitão) ou ao responsável por este blogue (utilizando o e-mail indicado em cabeçalho).

União ibérica em torno do futebol

Este é o cartoon que Luís Afonso publica no Público de hoje. Humor qb, claro! Também diz muito de nós... e dos outros, resumindo a história do europeu de futebol ao início e ao final, porque pelo meio ficou todo o espectáculo (bom e menos bom, exagerado e supérfluo) a que assistimos.

Les uns... et les autres

Um professor de Setúbal, António Galrinho de seu nome, vê, no Público de hoje, uma sua carta publicada na rubrica "Cartas ao Director". O tema é, no mínimo, actual - o que une polícias, professores e juízes, aliás, o que distingue estes mesmos grupos profissionais? Um indicador a partir das agressões de que uns e outros têm sido vítimas... E ainda: qual o papel dos políticos para este estado de coisas?
«Os polícias sempre ganharam mal e sempre trabalharam sem as condições que a sua actividade exige. Contudo, seria de esperar que, pelo menos, fossem respeitados pelos cidadãos e pelos governantes, mas isso não acontece. Manifestam-se, mas não lhes dão ouvidos. São agredidos e não podem utilizar a força para se defender. A autoridade está desprovida de autoridade. Polícias agredidos (às dezenas!) "são casos isolados"; diz quem nos governa que não há caso para alarme. Os professores deixaram de ter a consideração devida por serem transmissores de conhecimentos para as novas gerações se prepararem para o futuro, que se quer sempre melhor. Quem governa trata-os por bandidos, assim como alguns fazedores de opinião. Manifestam-se, mas quem devia não lhes dá ouvidos. Também são desrespeitados e agredidos (às centenas, no mínimo!), quer por alunos, quer por encarregados de educação. Diz quem nos governa que "são casos isolados", nada que possa gerar preocupação. Recentemente, foram agredidos dois juízes (só dois!). Aqui sim, a coisa apresenta-se feia! Juízes agredidos... é coisa impensável, que não pode acontecer num estado de direito. Mas, quem trata os polícias e os professores como tem tratado não se devia admirar com as agressões aos juízes, até porque são só dois "casos isolados". Ironia, claro!Que dirá quem nos governa quando os políticos forem alvo de agressões idênticas? Provavelmente vai dizer que os polícias não garantem segurança, que os professores não sabem educar e que os juízes não sabem aplicar a justiça, e que tal se reflecte na sociedade. Não está mal pensado, não senhor. Quem semeia ventos, está à espera de colher o quê?»