sábado, 3 de janeiro de 2009

As marcas que o "Magalhães" vai deixando...

São José Almeida. "O ano do Magalhães". Público: 03.Janeiro.2009

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Memória: Maria de Jesus (1893-2009)

Morreu Maria de Jesus, a portuguesa de Ourém que, desde 26 de Novembro, era a mulher mais idosa do mundo, com 115 anos. O título, que lhe deu entrada no Livro Guinness de Recordes, adveio-lhe por ter nessa data falecido Edna Parker, americana. Agora, é outra americana, Gertrude Baines, com quase 115 anos, a que o Gerontology Research Group apresenta como a pessoa mais idosa do mundo, na sua lista de supracentenários (que, há dois dias, incluía 83 mulheres e 9 homens).
Maria de Jesus, nascida em 10 de Setembro de 1893, em Urqueira (Ourém), viveu da agricultura. Segundo o Público, de 28 de Novembro, a senhora teve uma família constituída por 6 filhos (três deles já falecidos), 11 netos, 16 bisnetos e 3 trinetos. Na altura dessa reportagem, Maria Madalena, a filha de 86 anos com quem Maria de Jesus vivia, atribuía a longevidade ao facto de a mãe “nunca ter bebido álcool nem café”…
A lista do GRG apresenta ainda mais um português entre os supracentenários, Augusto Moreira de Oliveira, nascido em 6 de Outubro de 1896, de Espinho, ocupando na ordem dos idosos do mundo o 27º lugar.
[foto: Público, 28.Nov.2008]

Palmela destaca-se nos vinhos

A notícia é do Barlavento online e diz que Palmela recebeu a distinção, atribuída pela primeira vez, de “Cidade do Vinho 2009”, iniciativa da responsabilidade da Associação de Municípios Portugueses do Vinho. E acrescenta: «Segundo o secretário-geral da AMPV, José Arruda, a candidatura de Palmela foi a “melhor fundamentada e preparada” tendo em conta a organização de vários eventos ligados ao vinho, distribuindo “melhor as iniciativas no tempo”. Com o título de Cidade do Vinho 2009, Palmela organizará “diversos eventos ligados ao vinho”, cuja programação, com feiras e concursos, vai ser apresentada durante o mês de Janeiro.»

A mensagem do Presidente e a partilha de 2009

O discurso de Ano Novo do Presidente da República não esteve com paliativos: partiu de um quadro de dificuldades, lembrando quem, ao longo de 2008, mais as sentiu e mais as sofreu, para chegar à ainda maior dificuldade do que vai ser gerir 2009, não só em termos nacionais, mas também em termos individuais – foi, aliás, significativo, ainda que conjugado com a quadra, que o início da mensagem do Presidente invocasse todos os que sentiram as dificuldades agravadas, num discurso de proximidade para desempregados, jovens à procura de primeiro emprego, pequenos comerciantes e agricultores, não faltando sequer o recurso a uma questão essencial (ainda que nem sempre lembrada) como a identidade colectiva.
Falou de economia, como não podia deixar de ser, num tempo em que “crise” é a palavra mais ouvida e que condicionou os votos de bom ano para todos. Falou de economia e reiterou a esperança nas melhoras, com a capacidade dos portugueses, não sem chamar a atenção para o facto de que “as ilusões se pagam caras”, não sem acentuar que “há que prestar uma atenção acrescida à relação custo-benefício dos serviços e investimentos públicos”.
E falou de política, com recados à direita e à esquerda, defendendo uma ética política de compromisso com a verdade e com os portugueses – “Devo falar verdade. A verdade é essencial para a existência de um clima de confiança entre os cidadãos e os governantes. É sabendo a verdade, e não com ilusões, que os portugueses podem ser mobilizados para enfrentar as exigências que o futuro lhes coloca.” E, quanto aos partidos e aos políticos, o recado foi directo: “Mas, na situação em que o País se encontra, especiais responsabilidades impendem sobre as forças políticas. Os portugueses gostariam de perceber que a agenda da classe política está, de facto, centrada no combate à crise. As dificuldades que o País enfrenta exigem que os agentes políticos deixem de lado as querelas que em nada contribuem para melhorar a vida dos que perderam o emprego, dos que não conseguem suportar os encargos da prestação das suas casas ou da educação dos seus filhos, daqueles que são obrigados a pedir ajuda para as necessidades básicas da família. Não é com conflitos desnecessários que se resolvem os problemas das pessoas. Nesta fase da vida do País, devemos evitar divisões inúteis. Vamos precisar muito uns dos outros.”
Sei que tudo isto não passa de um discurso e que dele não depende o caminho melhor que todos desejaríamos. Mas não ignoro também que ele contém linhas que nos apelam a uma partilha comum, bem distantes dos actos propagandísticos com que temos sido enleados. Provavelmente, o Governo virá dizer que as linhas são idênticas, que a concordância é absoluta; mas não posso deixar de ver nesta mensagem a expressão do contraditório e, perante as duas opções, prefiro a mais realista, ainda que seja mais dura. Em prol da credibilidade da democracia e da valorização das pessoas. Em prol da partilha da responsabilidade também.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Na saída de 2008...


...bom 2009 para todos os leitores!

Rostos (103)

" O homem do leme", por Moisés Preto Paulo, em Sesimbra

Sobre "O barulho das chaves", de Philippe Claudel

Comecemos pelo fim. “A pequena frase que fazia sonhar todos os reclusos que seguiam as minhas aulas, porque ela abria todas as portas, frase que proferi milhares de vezes frente aos intercomunicadores: ‘Claudel, professor…’, frase que, doravante, não voltarei a proferir.” É o último parágrafo de O Barulho das Chaves, curta narrativa de Philippe Claudel (Alfragide: Edições ASA, 2008 – ed. orig.: Le bruit des trousseaux, 2006), que, à boa maneira da escrita autobiográfica, acaba por identificar o narrador, nunca nomeado ao longo da história, com a personagem que une todas as pequenas histórias que vão sendo contadas e com o autor, sobrepondo-os.
Narrativa autobiográfica, onde se acumulam memórias de momentos, de encontros, de histórias, de um período ao longo do qual Claudel foi professor de francês num estabelecimento prisional, onde, ao longo de 11 anos, se deslocou três vezes por semana. O título é sugestivo e recorda o som inconfundível do molho de chaves que se agita na abertura das portas gradeadas. O livro revela a vida da prisão, em jeito fragmentado, vista e sentida por alguém que lá convive e a quem a prisão esmaga.
Logo no início, a primeira reacção de quem sai da prisão pela primeira vez que a visita: “No passeio, na primeira vez que saí da prisão, não consegui começar a caminhar de imediato. Deixei-me estar, alguns minutos, imóvel. Pensava que, se quisesse, podia deslocar-me para a esquerda, ou para a direita, ou ainda sempre em frente, e que ninguém teria nada a dizer. Pensava ainda que, se quisesse, podia ir beber uma cerveja, um Ricard, ou ainda um cappuccino num qualquer café, ou então regressar a casa e tomar um duche, dois duches, três duches, tantos duches quantos quisesse. Compreendi nesse momento que fruíra até então de uma liberdade da qual ignorava a extensão e as aplicações mais comuns, ou mesmo a exacta e quotidiana dimensão.” Este início confronta o leitor com a sua capacidade de ser livre, com as pequenas liberdades que, no quotidiano, se nos apresentam e de que usufruímos, insignificantes, não notadas, de banais. Mas confronta-o também com a riqueza de poder decidir, graças a essa mesma liberdade, aqui valorizada pelo que se viu dentro das grades, onde tudo surge controlado, visado, calculado, com regras próprias.
Depois, as histórias. “Cenas isoladas”, que não demoram mais do que um parágrafo. Muitas, telegráficas, incisivas. E sempre o confronto com a liberdade – “Terminado o meu tempo, saía da prisão. Não saía de prisão. Nunca senti tão intensamente que a presença ou a ausência de um simples artigo definido abrisse ou fechasse tão imensas perspectivas numa língua.”
No final, depois de passar por histórias humanas e de expressar sentimentos relativamente ao visto, o narrador justifica o termo do livro, quase em jeito de desculpa por não ter levado a experiência da prisão até à exaustão e para, simultaneamente, não lhe ser retirado crédito ao vivido: “Enfim, creio ter dito tudo. Dito tudo o que sabia, o que fixei. Pode ser um testemunho, ou mais exactamente um falso testemunho, pois falta-me um coisa essencial para falar da prisão: ter passado uma noite lá dentro. No fundo, não sei se será possível falar da prisão sem nunca lá ter dormido. As horas que passei dentro daquelas paredes formam dias, sim, mesmo meses, mas nenhuma noite, nem uma. Além disso, o que reforça o meu falso testemunho é o facto de ter conhecido apenas um dos lados da prisão.”
Frases vivas
1.A prisão é o lugar onde se dita o que é correcto, admissível, incorrecto, inadmissível. (…) A prisão não elimina as diferenças. Não é de modo nenhum igualitária: o rico continua a ser rico. O pobre é muito pobre. Mas a prisão estabelece a relação entre seres que, em liberdade, nunca se veriam nem falariam.
2. As cores da prisão, raramente alegres ou vivas. As paredes eram pintadas frequentemente mas pareciam sempre sujas, talvez por a própria tinta ser encardida. Lembro-me de amarelos pálidos, de cinzentos um pouco azulados, de beges a tender para o castanho desbotado. A própria luz parecia trabalhada nestas direcções, alimentando uma leve penumbra que nos obrigava a fixar o olhar para distinguir os rostos.
3. Na prisão encontram-se representadas quase todas as idades da vida: bebés nas celas com as mães; velhos, mulheres e homens maduros, adolescentes, vocês, eu. A gravidade dos delitos não depende da idade. Lembro-me de uma rapariga de catorze anos presa por ter estrangulado uma colega da escola, de rapazes da mesma idade à espera de serem julgados por violação colectiva, de um velho, um padre, acusado de pedofilia. A prisão contraria todas as estatísticas, estereótipos, colunas de números tranquilizadores, Limita-se a reflectir o mundo. Muda com ele.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Máximas em mínimas (39)

Silêncio
“Os silêncios são um ritmo, uma respiração. Acrescentam um significado suplementar ao que é dito. Eles ajudam a suportar a enorme violência do que é, por vezes, dito. Permitem continuar a proferir palavras. São o momento da troca de olhares.”
Philippe Besson. Em tempos de guerra (2008) [orig.: En l'absence des hommes, 2001]

Rostos (102)

Composições sobre azulejo, de Jorge Colaço, Palácio de Rio Frio (Pinhal Novo)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma noite com Luiz Pacheco

São cerca de três dezenas os textos que compõem Raio de luar (Lisboa: Oficina do Livro, 2003), conjunto de “artigalhada” produzida para jornais, em que revemos Luiz Pacheco na sua força e na sua coerência, apetecendo dizer com Rui Zink (que prefacia o livro): “Já fiz mais-valia com a leitura de Luiz Pacheco. Tradução: já ganhei muito com a sua leitura. E garanto que, nestes tempos cinzentos, não é coisa pouca, encontrar livros que nos dêem mais-valia.”
Pelas páginas de Raio de luar perpassam memórias e olhares sobre o mundo e sobre a cultura portuguesa, ao mesmo tempo que vai ficando um rasto autobiográfico assumido. Pacheco escreve sobre os outros para também falar de si. A variedade temática é grande, ocupando destacado e principal lugar a literatura, seja pelos nomes que são invocados, seja pelos assuntos trazidos (censura e liberdade, epistolografia, movimentos, vida editorial), seja pelas leituras que vão sendo acusadas.
A ironia e o riso surpreendem em muitas ocasiões, numa escrita que acompanha o gesto do próprio “escriba” – “onde o destempero das duas manas me deu enorme vontade de rir, foi quando a Clarinha revelou que tem medo do futuro. Medo de ficar sem emprego. É boa!” Mas também a pedagogia entra neste conjunto de textos, haja em vista a história de uma consulta no hospital de S. José, contada em “Granito? Não, obrigado”, que bem poderia constituir um texto de importância para o atendimento hospitalar… ainda que conclua com a promessa de, numa próxima consulta, transportar “uma moca tipo riomaior”…
Embora falando preferencialmente do que vê e lê, não esquece também as pequenas histórias do que viveu, em muitas ocasiões deixando que o eu se exponha – pelos sítios que frequenta (entre Palmela, no lar, e Setúbal, nas livrarias e na Biblioteca, por exemplo), pelo ambiente do seu quotidiano (o olhar sobre os companheiros de residência), pelas considerações quanto ao que lhe falta (“em Palmela, há um castelo, mas livrarias, que é delas?”, “Setúbal, cidade sob vários aspectos periférica em termos culturais”), pelas identificações (“o que mais me encanta neste livro é a alegria que ali julgo surpreender no acto da escrita”, dirá a propósito de O manto, de Agustina), pelas memórias agradáveis guardadas de alguns professores (Câmara Reys, que lhe indicou leituras, Vitorino Nemésio, o “labioso volúvel” que apreciava, ou António Gedeão, aliás Rómulo de Carvalho, verdadeiro “exemplo do humano”), pelo recuo até à infância alentejana (a propósito de uns poemas de Manuel Alegre), pelos “fait-divers” (como a sua entrada no filme Conversa acabada), pelo seu gosto e orgulho enquanto editor (“se há coisa que me encha de cagança é essa minha actividade de Editor, a qual excede de longe a de Autor e lanço daqui mesmo um desafio: não pode haver em Portugal nenhuma bibliotecazinha decente que não tenha lá um livro editado por mim – poesia ou teatro, cinema, ficção, ensaio”) e pela sua exposição do que considera ser um “escritor maldito” (título com que o cognominaram) em texto que encerra o livro.
Raio de luar lê-se de seguida, que o difícil é parar. E por essa escrita vai passando o tom oralizante de Pacheco, quase como se numa conversa estivéssemos… mas apenas ouvindo-o. Lendo-o, aliás.