sábado, 9 de fevereiro de 2008

Hoje, no "Correio de Setúbal"

DIÁRIO DA AUTO-ESTIMA – 76
Sem resposta – No final de Janeiro, o Público noticiou que “dois terços das perguntas dos deputados ao Governo estão sem resposta”, explicando que, “desde 1 de Setembro do ano passado, os partidos fizeram 501 questões, mas o executivo ainda só deu resposta a pouco mais de um terço (169)” e que, “dos dois terços que ficaram por responder, 130 ainda estão dentro do prazo - 30 dias, como fixa o Regimento”. Mas, “descontadas estas, o Governo deixou definitivamente sem resposta, nos últimos quatro meses, duas centenas de perguntas feitas pelos partidos com assento parlamentar.” Mais acrescentava que, “nas duas sessões legislativas anteriores (Setembro de 2005 a Setembro de 2007), cujas estatísticas já estão fechadas, 1787 dos 6831 requerimentos apresentados ficaram sem resposta, o que equivale a 26 por cento.” Se a Assembleia da República tem capacidade para decidir pelos portugueses (e essa foi uma justificação apresentada para a ratificação do Tratado de Lisboa sem recurso a referendo), as perguntas saídas da Assembleia da República, independentemente do seu emissor e do seu destinatário, são também perguntas feitas pelos portugueses ou, se se preferir, cujas respostas interessam aos portugueses. Que respeito merecemos, pois?
Suspensão – Ainda relacionado com a Assembleia da República, o Correio da Manhã informou também que “quando ainda falta mais de um ano para o termo da actual legislatura, mais de metade da composição inicial de deputados na Assembleia da República já mudou”, pois “de um total de 230 parlamentares eleitos em Fevereiro de 2005, 117 já suspenderam o mandato e 37 abandonaram mesmo o Parlamento”. De que serve então aos partidos esforçarem-se por arranjar “cabeças de lista” que sejam convincentes para os eleitores? Como defendeu Manuel Alegre, em considerações sobre o assunto no mesmo jornal, deveria “haver um período de nojo” para os deputados que suspendem ou renunciam às suas actividades no Parlamento. O que está em causa é o prestígio da instituição, é verdade, mas também a confiança que as listas merecem aos eleitores. Vale a pena acreditar nas figuras em quem (também) se vota?
Clássicos – O semanário O Sol começou a editar uma colecção de autores clássicos da literatura portuguesa em versão adaptada para crianças. O primeiro dessa dúzia de títulos foi Os Maias, de Eça de Queirós, em adaptação feita por José Luís Peixoto. A ideia é simpática e insere-se numa tradição que no nosso país existe de captação do público infanto-juvenil para a leitura dos clássicos – bastará lembrar o êxito de adaptações feitas por Adolfo Simões Muller, por João de Barros, por Jaime Cortesão ou por Aquilino Ribeiro ou mesmo em banda desenhada por José Ruy, para só referir alguns exemplos rápidos –, mas a edição de Os Maias não é feliz em tudo: se o início da história e a descoberta de que a relação entre os protagonistas não poderia continuar devido ao incesto estão bem urdidas, o mesmo cuidado não houve no tratamento de algumas situações decorrentes do uso da língua portuguesa, como algum abuso na utilização pronominal, gestão difícil no uso de formas verbais e uma ou outra construção que não abona muito a sonoridade da língua – estou a lembrar-me da cacofonia em “tinha ouvido contar acerca dela e acerca do pai dela”. Tudo isto nos chama a atenção para a necessidade de a edição infanto-juvenil ser mais cuidada no que respeita ao tratamento da língua portuguesa, porque, como me escrevia há tempos um aluno, “se não formos nós a tratar da língua que falamos, quem a preserva?”

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Rostos (27)

Sebastião da Gama, em Vila Nogueira de Azeitão (escultura de Francisco Salter Cid) - Deixou a vida, legando a obra,
em 7 de Fevereiro de 1952, com 27 anos (faria 28 em Abril)
[foto: Cília Costa, no dia de inauguração do monumento (9 de Junho de 2007)]

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Presidir ou dignificar, eis a questão

O Decreto Regulamentar 4/2008, que “define a composição e o modo de funcionamento do conselho científico para a avaliação de professores”, foi publicado em 5 de Fevereiro. No espírito do normativo, “a criação deste conselho vem contribuir para o fortalecimento, nas escolas, de uma cultura de avaliação, responsabilização e prestação de contas, em contextos de autonomia”. Por outro lado, “este conselho é concebido como um órgão consultivo dotado de autonomia técnica e científica, e actua na inter-relação de diferentes actores e saberes, com uma estrutura leve e flexível”.
Logo no primeiro artigo, é estabelecido que este Conselho é um “órgão consultivo do Ministério da Educação, dotado de autonomia técnica e científica” e, no artigo seguinte, como prática de actuação, é dito que deve o conselho seguir bases em que estejam presentes “a imparcialidade, a objectividade, a audição e a interacção”. No momento em que é definida a composição do Conselho (presidente, cinco professores titulares em exercício efectivo de funções, cinco individualidades em representação das associações pedagógicas e científicas de professores, sete individualidades de reconhecido mérito no campo da educação e três representantes do Conselho de Escolas), é também estabelecido que “o membro do Governo responsável pela área da educação pode participar nas reuniões do CCAP, a convite do presidente ou por sua iniciativa, caso em que assume as funções de presidente”.
Uma questão surge: um Conselho Científico deve ser presidido pelo membro do Governo responsável pela área de acção em que esse Conselho actua? Esta legislação vem dizer que sim, isto é: um Conselho Científico pode estar sujeito à política, pode ser presidido por alguém que tem funções políticas e não científicas ou técnicas.
Esta verificação levou o Correio da Manhã de ontem a titular uma sua notícia da seguinte forma: “Ministra preside a avaliação”. Lido o texto, fica-se a saber o que já antes disse: que o Conselho Científico “pode, em qualquer uma das suas reuniões, ser liderado pela Ministra da Educação ou por um dos seus Secretários de Estado”.
O mesmo diário voltou a trazer o assunto para a edição de hoje e, pela voz do Secretário de Estado Jorge Pedreira, não há “qualquer intenção do Governo participar nas deliberações”. Mais explicou que a possibilidade de o membro do Governo presidir ao Conselho se destina a “emprestar dignidade à eventual participação dos membros do Governo em reuniões”.
Na verdade, será sensato que, participando um membro do Governo numa reunião, lhe seja dada a presidência, como sinal de dignidade. Mas terá a tal dignidade que ser feita por Decreto Regulamentar? Além de que o decreto diz muito mais do que possa ser essa tal conferência de dignidade à participação – diz que “pode participar por sua iniciativa, caso em que assume as funções de presidente”. Não é, portanto, uma questão de dignidade; é uma questão normativa.
Numa altura em que se fala tanto sobre a autonomia a ser atribuída à escola, será esta uma forma de ela ser exercida, ainda por cima num órgão que se justifica pelo seu cunho eminentemente “científico”?

Rostos (26)


Monumento à Família, em Ayamonte (inaugurado em 10 de Junho de 2007)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Acabei de descobrir...

... por um mundo melhor . Foi através do terrear. Vim de lá há pouco. Gostei do que li e pressenti. E o último postal publicado toma por título algo que deve fazer parte da condição de ser professor, algo que estaria bem no nosso código deontológico - não podemos andar distraídos! Utilizem a chave e entrem nesse mundo...

Sobre a "fúria" de legislar... (2)

Em O Primeiro de Janeiro de hoje, Maria Manuela Aguiar escreve sobre as "Reformas apressadas no país adiado", opinião de que transcrevo a parte alusiva à educação, por serem reais os problemas levantados em torno da legislação recentemente publicada em torno dos apoios especializados.
"Os portugueses sofrem, nos tempos incertos que atravessamos, o peso de reestruturações em sectores cruciais para o seu bem-estar, como são os da saúde, da segurança social, da educação. Uns sofrem em silêncio, outros manifestam-se ruidosamente. Até agora, nessas áreas, não conseguiram mais do que a cabeça do ministro da saúde sem garantias de que a mudança dos políticos implique a melhoria das políticas.
Não duvidamos de que o país precisa de reformas, de boas reformas, na substância e no timing. Porém, o que vem acontecendo é a falha de um ou outro desses requisitos – quando não dos dois – cuja simultaneidade é condição do seu sucesso (conditio sine qua non).
Por vezes, os objectivos parecem correctos, mas são mal executados. A desconformidade entre meios e fins é coisa corrente…Vejamos um exemplo muito recente: a nova regulamentação do ensino especial, já no ano de 2008. A lei visa – e bem – promover uma rápida integração das crianças e dos jovens que frequentam, por dificuldades de aprendizagem, esse tipo de ensino, no ensino regular. E, para tal, estatui que as escolas passem a acolhê-los com o acompanhamento necessário. Em nome do princípio da não discriminação, da superação de estigmas e preconceitos, do alargamento de horizontes e de oportunidades de socialização.
Com o princípio todos estaremos de acordo!O pior é que o legislador acredita demais no sortilégio da lei como impulsionadora dos ventos de mudança e de regeneração de anacronismos da nossa sociedade, como se a solução para apagar as marcas do país adiado fosse lançá-lo em reformas apressadas – que podem significar, na prática, o contrário do que se quer. Neste caso, menos igualdade e mais discriminação para aqueles que pretende favorecer. Muitas escolas não vão estar preparadas para os receber, para lidar com deficiências de natureza muito diversa. Precisariam de mais especialistas, mais efectivos, e parece que vão até dispor de menos… Assim, a sua missão é praticamente impossível! Não é com um professor especializado, por escola, que se conseguirá apoiar jovens afectados por uma enorme variedade de problemas de aprendizagem – surdez, cegueira (hipóteses particularmente equacionadas no normativo, mas que constituem menos de 5% do total…), deficiências mentais de género e grau diferentes, dislexias múltiplas (que, só à sua conta, podem exigir a colaboração de uma equipa interdisciplinar…).
Com excepções felizes – quando a deficiência específica do aluno é tratada pelo professor certo – a consequência previsível do corte abrupto com o universo do ensino especial é o abandono da maioria destes jovens à sua sorte. O insucesso escolar… Seria bem mais sensato mantê-los onde estão, enquanto não forem criadas, escola a escola, as condições para a transição. Sem artificialismos, sem demagogia, sem fazer de conta que se cumpre o escopo, não cumprindo… A lei, ela própria deveria prever uma aplicação gradual. (...)"

Sobre a "fúria" de legislar... (1)

Chama-se Maria Luísa Abreu, é de Lisboa e teve o seu comentário publicado nas "Cartas ao Director" do Público de hoje, sob o título "A diarreia legislativa do Ministério da Educação". Transcrevo porque muitas das questões levantadas são universalmente sentidas, com a agravante de não ter havido explicações atempadas para dúvidas que foram levantadas...
"Este título não é metafórico, é a tradução literal do que se passa hoje em dia em matéria legislativa na educação.
Todos os dias (em sentido literal) chegam às escolas novos e extensos diplomas: decretos, normas regulamentares, portarias e toda a espécie de documentos para serem implementados 'ontem'. Perante as páginas e páginas que urge conhecer, os professores e professoras, em vez de prepararem o seu trabalho e de dedicarem o seu tempo aos seus alunos e alunas, dedicam hoje a maior parte do seu tempo a tentar interpretar leis confusas e desconexas, que não encaixam no puzzle total. (...)
O melhor e mais recente exemplo vindo dos gabinetes é a famosa 'republicação' do Estatuto do Aluno. A meio de um ano lectivo (ninguém parece saber se é ou não de aplicação imediata, o que é particularmente elucidativo), surge este famoso documento, modificando o antigo, que era efectivamente menos mau que este - é pior a emenda que o soneto.O caso é tão grave que, no que diz respeito ao regime de faltas, é literalmente impossível aplicar o que está estipulado na lei. Corre-se o risco de ficar totalmente paralisado, dadas as implicações que as faltas acarretam. Se o objectivo é impedir que alguns alunos percam o ano por excesso de faltas, o que só acontecia em casos raros, com a existência de uma prova de recuperação obrigatória o processo complica-se inevitavelmente e não se compadece com o horário lectivo habitual de alunos e professores. Ou então é um mero artifício formal, isto é, o faz de conta à maneira bem portuguesa.
Perante este estado de coisas, só nos resta, a nós professores e professoras, fazer um apelo aos pais deste país para que reivindiquem o direito de ser informados da letra e das consequências de uma lei que penalizará por igual, na prática, tanto o aluno desleixado e preguiçoso como o aluno doente que faltou à escola por motivos de força maior. Este mesmo princípio penalizador se aplica já no regime de avaliação dos professores. A cegueira jurídica actual comprova mais uma vez a nossa tradição de campeões na feitura de leis, mas pouco eficazes na sua aplicação.
Neste momento chegou-se ao mais alto grau de produção legislativa descontrolada em matéria educativa, uma verdadeira diarreia jurídica que está a matar lentamente mesmo os mais motivados e verdadeiramente dedicados à escola. Os outros, os que não sentem e vivem a escola, já morreram há muito para a causa da educação.
"

Padre António Vieira, 400 anos – Um louvor à Rainha Santa

Em Lisboa, em 6 de Fevereiro de 1608, passados hoje os 400 anos, nasceu António Vieira, nome que ficou conhecido na história religiosa e literária portuguesa, como jesuíta e autor de numerosos sermões e cartas. As biografias existem disponíveis, os estudos sobre a sua obra, a sua oratória, a sua teatralidade, também. Deixo aqui um excerto do Sermão da Rainha Santa Isabel, pregado em Roma, na Igreja dos Portugueses, em 1674. Nele está muito do que do estilo vieiriano se sabe: a organização impecável do discurso, os argumentos fortes, a chamada de atenção e a representação para os ouvintes, a incursão pela pluralidade de leituras, a defesa de princípios e de dogmas, a linguagem elaborada e convincente, o engenho e a arte do discurso, a pedagogia e o ensinamento para todos, especialmente para os grandes do mundo… Aqui deixo, pois, um excerto da obra que pretendeu enaltecer a rainha Isabel, casada com o rei Dinis, protagonista do conhecido “milagre das rosas”, que ganhou o cognome de Rainha Santa.

A uma Rainha duas vezes coroada, coroada na Terra e coroada no Céu, coroada com uma das coroas, que dá a fortuna, e coroada com aquela coroa que é sobre todas as fortunas, se dedica a solenidade deste dia. O mundo a conhece com o nome de Isabel; a nossa Pátria, que lhe não sabe outro nome, a venera com a antonomásia de Rainha Santa. Com este título, que excede todos os títulos, a canonizou em vida o pregão de suas obras; a este pregão se seguiram as vozes de seus vassalos; a estas vozes, a adoração, os altares, os aplausos do mundo. Rainha e Santa. Este será o argumento e estes os dois pólos do meu discurso.
(…)
Ora eu andei buscando no nosso Evangelho alguma coroa e, ainda que Cristo nunca multiplicou tantas semelhanças e tantos modos de adquiri o Reino do Céu em diversos estados e ofícios, o de rei não se acha ali. Achareis um lavrador, um mercante, um pescador, um letrado, mas rei não. E porquê? Não são personagens os reis que pudessem entrar também em uma parábola e autorizar muito a cena com a pompa e majestade da púrpura? Claro está que sim. E assim o fez Cristo muitas vezes. Mas vede o que dizem as parábolas dos reis (…): reis que fazem bodas, que fazem banquetes, que fazem guerras, que mandam exércitos, que conquistam reinos da Terra, isso achareis no Evangelho; mas reis que se empreguem em adquirir o Reino do Céu parece que não é ocupação de personagens tão grandes. Ao menos Cristo disse que o Reino do Céu era dos pequenos (…). Tais são o lavrador no campo, o mercador na praça, o pescador no mar, o letrado na banca e sobre o livro. Mas nas cortes, nos palácios, nos tronos de debaixo dos dosséis, que achareis? Bodas, banquetes, festas, comédias e, por cobiça ou ambição, exércitos, guerras, conquistas. Eis aqui porque as coroas não são boa mercadoria, ao menos muito arriscada para negociar o Reino do Céu. Reis e belicosos, reis e políticos, reis e deliciosos, quantos quiserdes; mas reis e santos, muito poucos. Vede-o nas Letras divinas, onde só se pode ver com certeza. De tantos reis quantos houve no Povo de Deus, só três achareis santos: David, Ezequias, Josias. Houve naquele tempo grande quantidade de santos, grande sucessão de reis; mas reis e santos, santidade e coroa? Três.
E, se é coisa tão dificultosa ser rei e santo, muito mais dificultoso é ser rainha e santa. No mesmo exemplo o temos. De todos os reis de Israel e Judá, três santos; de todas as rainhas, nenhuma.
(…)
Na majestade, na grandeza, no poder, na adoração e em todas as outras circunstâncias que acompanham as coroas, concorrem todos os contrários que pode ter a virtude e a santidade. E a virtude conservada entre os seus contrários é dobrada virtude. Ouvi uma das mais notáveis sentenças de Santo Agostinho: (…) Oiçam todas as idades o que nunca ouviram, diz Agostinho. E que hão-de ouvir? Fala do parto virginal e (…) diz Santo Agostinho que Maria Santíssima, concebendo, parindo e ficando Virgem, não só conservou, mas dobrou a virgindade (…) Se falara de qualquer outra virtude, não tinha dificuldade esta doutrina. Mas da virgindade, parece que não pode ser, porque a virgindade consiste em indivisível, é uma inteireza perfeita, incorrupta, intemerata, que não pode crescer nem minguar, nem admite mais ou menos. Pois se esta virtude soberana e angélica não admite diminuição nem aumento, se quando é sempre é igual e sempre a mesma, como diz S. Agostinho que cresceu, que se aumentou e que se dobrou e foi dobrada no parto da Virgem? Porque foi virtude que se conservou inteira entre os seus contrários. A concepção, o parto, o ter filho, o ser Mãe são os contrários da virgindade e conservar-se Maria Virgem, sendo juntamente Mãe, foi ser dobrada Virgem (…). Tais foram as virtudes de Isabel. O maior contrário e o maior inimigo da virtude é uma grande fortuna e quanto maior fortuna tanto maior inimigo. A humildade, o desprezo do mundo, a moderação, a abstinência, a pobreza voluntária, na outra gente, são simples virtudes; mas estas mesmas, com uma coroa na cabeça, com um ceptro na mão, debaixo de um dossel e assentadas em um trono, são dobradas virtudes, porque são virtudes juntas com os seus contrários. A humildade junta com a majestade é dobrada humildade; a moderação junta com o supremo poder é dobrada moderação; o desprezo do mundo junto com o mesmo mundo aos pés é dobrado desprezo do mundo; a pobreza com a riqueza, a abstinência com a abundância, a mortificação com o regalo, a modéstia com a lisonja, é dobrada pobreza, é dobrada abstinência, é dobrada mortificação, é dobrada modéstia, porque é cada uma delas não uma rosa entre os espinhos, mas uma sarça verde entre as chamas. E porque a nossa negociante do Céu sabia que debaixo do risco está a ganância, por isso teve por maior conveniência não deixar senão ajuntar a coroa com a virtude, não deixar senão ajuntar a majestade com a santidade, para que, sendo rainha, e juntamente santa, fosse também maior santa, porque rainha.
(…)
Não digo (pois nem Deus o manda) que as cabeças ou testas coroadas façam o que fez Carlos Quinto convencido de uma só parte deste exemplo, nem que renunciem e se despojem, como ele se despojou, das coroas. O que só digo, e diz Deus a todos os reis, é que aprendam a não as perder e se perder, mas a negociar com elas, e que, com o exemplo canonizado de Isabel, Rainha e Santa, entendam que também podem ser santos sem deixar de ser reis e que então serão maiores reis quando forem santos. Não consiste a negociação do reinar em acrescentar o círculo às coroas da Terra, que, maiores ou menores, todas acabam, mas em granjear e assegurar e amplificar com elas a que há-de durar para sempre. Assim negociou com as suas duas coroas a nossa negociante do Reino do Céu, agora maior, mais poderosa e mais verdadeira Rainha; assim está reinando e reinará para sempre; assim goza e gozará sem fim os lucros incomparáveis da sua prudente e venturosa negociação: na terra, enquanto durar o mundo, sobre os altares e no Céu, por toda a eternidade em sublime trono de glória.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Lembrança: amanhã é dia de Vieira

Leitor de Vieira, Fernando Pessoa evocou-o na terceira parte de Mensagem (1934), no grupo “Os Avisos”:

O céu ‘strela o azul e tem grandeza.
Este, que teve a fama e à glória tem,
Imperador da língua portuguesa,
Foi-nos um céu também.

No imenso espaço seu de meditar,
Constelado de forma e de visão,
Surge, prenúncio claro do luar,
El-Rei D. Sebastião.

Mas não é, não é luar; é luz do etéreo.
É um dia: e, no céu amplo de desejo,
A madrugada irreal do Quinto Império
Doira as margens do Tejo.

Para os interessados: a edição de amanhã do Correio da Manhã é acompanhada pelo livro Padre António Vieira – O imperador da língua portuguesa, coordenado por José Eduardo Franco, assim apresentado: “conheça a vida e a obra de uma das personalidades mais importantes do século XVII, célebre pelos seus sermões, adágios, pelo uso da oratória, pelo domínio do português e a sua luta incessante pelos direitos humanos”.
[foto: "Padre António Vieira", de Theodoro Braga (1872-1953), datado de 1922, no Instituto Histórico de Alagoas, Maceió]

"Dicionário de newspeak empresarial"

"Excerto do Pequeno guia para uso dos trabalhadores durante a marcha gloriosa das vitórias da produtividade
O bem-estar dos trabalhadores é importante para nós: Vamos instalar vending machines no hall para não terem desculpas para ir ao café.
A segurança dos nossos trabalhadores é uma prioridade: Se essa porta não estivesse fechada vocês passavam o dia todo na rua a fumar.
A mobilidade é um imperativo da produtividade: Devemos ir para onde a mão-de-obra seja mais barata.
A deslocalização é um imperativo logístico: Os albaneses trabalham mais barato que vocês e ficam mesmo ao pé de Itália.
Na era da Internet a localização geográfica de uma empresa é irrelevante: Os chineses ainda trabalham mais barato que os albaneses.
Nesta empresa, o mais importante são as pessoas: Custa-me imenso despedi-los a todos.
Precisamos de libertar uma parte da nossa mão-de-obra: Vamos despedir 200 tipos.
Precisamos de reduzir os custos fixos: Vamos despedir 200 tipos.
Temos de apostar na flexibilidade: Vamos despedir 200 tipos e contratar uns brasileiros a recibo verde.
As promoções têm de ser fruto do mérito: As mulheres que engravidem podem esquecer a promoção.
Os imigrantes têm óptima formação e forte espírito de equipa: Como os ucranianos não estão legalizados não podem apresentar queixa.
Precisamos de apostar no outsourcing: Não temos dinheiro para pagar aos nossos técnicos.
Precisamos de vestir a camisola: Este ano não vai haver aumentos.
O esforço de reengenharia está apenas a dar os primeiros passos: Ainda não sabemos quantos empregados vamos despedir.
Vamos iniciar um processo profundo de reestruturação: É provável que sejam quase todos despedidos.
Estamos a encarar a possibilidade de downsizing nalguns sectores: A única maneira de continuarmos a ter dinheiro para pagar os salários dos gestores é fazer alguns despedimentos.
Precisamos de sangue novo: Como é que se chama aquela rapariga de mini-saia e óculos vermelhos que estava a sorrir para mim?
Temos uma forte consciência do papel social da nossa empresa: Estamos a tentar obter uns subsídios.
Precisamos de ideias novas: Vamos despedir as pessoas com os salários mais altos...
Precisamos de renovar a lógica de organização da empresa: Vamos mudar o nome dos departamentos.
Estamos a repensar a missão da empresa: Pagámos uma fortuna a uns consultores para desenhar um novo logótipo.
Devíamos fazer um brain storming: Não faço ideia.
Estou só a lançar ideias para cima da mesa: Não li o dossier.
Temos de pensar out of the box: Alguém tem uma ideia?
Temos de repensar o nosso core business: Tecnicamente estamos na falência.
Precisamos de aumentar o share of mind da nossa empresa: Ninguém sabe que nós existimos.
Fizemos um realinhamento estratégico: Pagámos uma fortuna a uns consultores que nos provaram que os consultores anteriores a quem tínhamos pago uma fortuna se tinham enganado redondamente.
"
O texto é de José Vítor Malheiros e vem no Público de hoje. Pode servir para alguém que não saiba como dizer coisas desagradáveis, mas deve servir para se entender o que alguém que se sirva desta cábula (ou de outra semelhante) quer dizer. Pertinente, pela actualidade e pelas metáforas que nos vão invadindo (muitas delas com intenção de nos ludibriarem)...