domingo, 13 de janeiro de 2008

Miguel de Castro, 83 anos, hoje

Em 1 de Junho de 1950, a partir da Arrábida, Sebastião da Gama escrevia uma carta a Vasco de Lima Couto, dizendo: “A Távola publicará esta semana o nº 6. Lê com atenção o Miguel de Castro, um rapaz espantosamente Poeta. É electricista e apareceu-me há três anos a mostrar uns versos para eu dizer se eram bons. Em geral, nem sabe quanto vale o que faz. E é hoje um menino querido de Setúbal, que, apesar de não querer saber de Literatura, terá destas carinhosas admirações". Esta colaboração de Miguel de Castro na revista Távola Redonda foi a primeira de três (participaria ainda no número 7 e no duplo 16/17).
Miguel de Castro prosseguiria o seu caminho poético, alicerçado em Sebastião da Gama, com o apoio e entusiasmo do qual publicou, em 1950, Fruto Verde, seguindo-se-lhe Mansarda, em 1953, dedicado aos pais e a Sebastião da Gama (que falecera no ano anterior). Colaborou em publicações como Bandarra e Colóquio-Letras e em jornais regionais e só voltaria a publicar em livro já na década de 90 – Terral (1990) e A sinfonia do cu (1993). O seu último livro, Os sonetos, data já de 2002.
Quando, em 1997, estudei o papel da revista Távola Redonda, pedi a Miguel de Castro um testemunho sobre Sebastião da Gama, que não demorou a chegar: “Aos primeiros versos que lhe mostrei, o Sebastião embandeirou em arco e garantiu-me que eu era Poeta, que nenhuma dúvida tinha, perante os versos que lhe mostrava. (...) Debaixo da sua orientação, fui melhorando a minha escrita, a minha poesia, (...) e, um dia, num memorável dia, disse-me para escolher alguns dos meus melhores poemas, a fim de serem publicados nas Folhas de Poesia Távola Redonda. Fiquei para morrer. Sebastião da Gama era muito exigente na escolha dos poemas para a Távola, (...) mas procurava saber, em primeiro lugar, da autenticidade do Poeta. Se ele era verdadeiro, o caminho estava aberto."
Este espanto resulta de um jovem, de formação autodidacta, que se dedicava às letras por sua conta e risco, ao mesmo tempo que prestava serviço na União Eléctrica Portuguesa. Quanto à sua poesia, quem melhor a definiu foi David Mourão-Ferreira, no prefácio para o livro de 1990: “Nítida e misteriosa, envolvente e evasiva, de sussurrada musicalidade, carregada de sugestões na sua sábia concisão, com mágicas zonas de sombra – e de assombro – a despeito da luz mediterrânea (ou quase) em que aparentemente se recorta: assim se me transmite e se me impõe, desde há cerca de quarenta anos, a poesia de Miguel de Castro.”
Miguel de Castro é o pseudónimo literário de Jasmim Rodrigues da Silva, a residir em Setúbal desde a juventude, mas nascido em Valadares em 1925. O poema que reproduzo é retirado do primeiro livro de Miguel de Castro e tem o título do próprio livro:

Fruto Verde

Nada me diz o fruto da tua boca.
Apenas as tuas mãos frias e calmas
roçam a minha face, na tristeza
inútil de se darem…

Mas a beleza adivinhada e pressentida
por mim, na tua boca que não sabe amar,
vai enchendo os momentos da minha vida
com promessas de luar!

Nada me diz o fruto da tua boca…
- Mas longe vem, ainda, a Primavera!


A propósito de Miguel de Castro, ainda na edição de ontem de Sem Mais Jornal, o actor setubalense Carlos Rodrigues (mais conhecido por "Manel Bola"), à pergunta "Há alguma figura regional que lhe mereça rasgos de elogios?" respondeu: "Sim, o poeta - infelizmente pouco conhecido - Miguel de Castro. É, sem dúvida, um dos maiores poetas setubalenses, a caminho dos 90 anos, que se encontra muito doente. Editou um livro de sonetos fantástico. Este homem merece uma homenagem." Palavras justas as de Carlos Rodrigues! Para já, parabéns a Miguel de Castro!

[fotografia de Miguel de Castro a partir de Guia de Eventos. Setúbal: CMS, Mar.2007, nº 29]

sábado, 12 de janeiro de 2008

Novo modelo de gestão das escolas públicas - Petição para discussão pública alargada

Já está disponível para assinatura a petição para o alargamento da discussão sobre o novo modelo de gestão, iniciativa que partiu de Paulo Guinote. A subscrição começou hoje. Vale a pena ler. E, se houver concordância, assinar.

Quatro textos (de fim-de-semana) sobre a pachecal figura (e mais um de silêncio)

1) António Guerreiro. “Pacheco comediante e livre”. Expresso (suplemento “Actual”). 12.Janeiro.2008 – “(…) Luiz Pacheco foi uma figura da irrisão, alguém que ocupou no meio literário um lugar de comediante, que constrói uma personagem que está para além da verdade e da falsidade. O seu olhar implacável, liberto de constrangimentos da moral social e da ‘bienséance’, reduziu o meio literário, muitas vezes, a uma desavergonhada Babel, povoada por gente vaidosa e pouco respeitável. O retrato é quase sempre de escárnio e caricatural. E como ninguém se salva, como todos os que o rodearam se sentiram potencialmente ou efectivamente vítimas, Luiz Pacheco ganhou o estatuto de inimputável, o homem de todas as traições. (…) Representou, à sua maneira, uma ideia de autonomia do escritor e da obra literária, e uma ideia crítica da literatura, que caducaram ou só resistem – ameaçadas – de modo muito minoritário. Para a posteridade, talvez esse exemplo seja até mais importante do que a obra escrita. (…)

2) João Pedro George. “Prefácio” a Crocodilo que voa (livro de entrevistas com Luiz Pacheco a sair brevemente). Expresso (suplemento “Actual”, em pré-publicação). 12.Janeiro.2008 – “(…) Luiz Pacheco sempre foi um crítico arrojado e um tipo singularmente divertido, um trocista desbragado, com um desplante e uma sem-cerimónia invulgares. Um homem que não leva a sério as regras consuetudinárias nem os convencionalismos da moral. Em suma, alguém que não faz parte da normalidade social, aquilo que as sociedades consideram um indivíduo ‘extravagante’ ou ‘excêntrico’. (…)

3) José Manuel dos Santos. “Luiz Pacheco”. Expresso (suplemento “Actual”). 12.Janeiro.2008 – “(…) Luiz Pacheco escrevia com a vida, fazendo da transgressão insolente e da provocação calculada um estilo literário. No Portugal morno de Salazar e, afinal, no de todos os regimes, a figura de Pacheco é tão inaceitável que a reacção mais comum foi a de a recalcar no que tinha de essencial e ‘infeccioso’, reduzindo-a a um acidental jocoso ou satírico. (…) Aprendi [nas visitas que fiz a Pacheco] a conhecer o método de Pacheco. Lia e escrevia todo o dia. Tinha uma grande cultura, antiga e actualizada, de Platão a Roland Barthes. Falava com uma inteligência violenta. Do que em Portugal se publicava, seguia tudo. Ouvi-lo era perceber como se pode desautorizar. (…) A sua morte tira relevo ao mundo. E mostra-o na sua melancólica verdade de hoje: uma extensa, conformista e normalizadora linha de produção em série de seres humanos, sem diferença, sem heresia, sem loucura. Apenas competitivos, deprimidos e nulos.

4) Ricardo Nabais / Vladimiro Nunes. “Não estou aqui a fazer poses” (última entrevista de Luiz Pacheco, feita em finais de Novembro). Sol (suplemento “Tabu”). 12.Janeiro.2008 – Luiz Pacheco no seu estilo inconfundível, em 12 páginas, dizendo sobre o momento que estava a viver [num lar montijense, onde residia havia poucos dias], como resposta à pergunta “A quem acha graça hoje em dia?”: “Agora acho muito pouca graça. E aqui então não se pode. Já mandei uma gaja aí à merda. Porque isto é um ambiente deprimente. Sexualmente isto é um desgosto. Mas aqui há namoros! É claro que vocês estão cá meia hora e depois arejam. Mas para a pessoa que cá fica… O que vale é que estou isolado… Também é muito cedo para dizer que estou mal. Ainda estou a experimentar. Em oito dias, só hoje é que fui conhecer o andar de cima. Ainda me desnorteia, não sei onde é o elevador. De resto, parece-me muito bom. É melhor do que eu supunha. Mas é difícil achar graça a alguma coisa com esta idade. Tenho 82 anos, porra! Há aquela coisa que é a PDI, a Puta Da Idade, o caruncho… E o velho, geralmente, é egoísta. Ou é mais egoísta do que o novo. Mas estou a falar de coisas muito tristes… (…)

5) O Setubalense. 7.Janeiro.2008; 9.Janeiro.2008; 11.Janeiro.2008 – Silêncio. Um jornal para que Luiz Pacheco trabalhou e onde publicou alguns textos, no suplemento literário “Arca do Verbo”, coordenado pelo poeta João Carlos Raposo Nunes.

Ora aí está uma (provável e por muitos esperada) boa medida... (que só pecará por tardia)!

Português e Matemática com mais horas
O Ministério da Educação vai reforçar o ensino da Língua Portuguesa e da Matemática no 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, admitindo aumentar a carga horária das duas disciplinas. Em declarações à Lusa, o secretário de Estado adjunto e da Educação, Jorge Pedreira, afirmou que o Governo está a preparar um reajustamento do currículo do ensino básico, "que terá de estar pronto até meados de Março ou Abril". Apesar de não adiantar pormenores, o secretário de Estado admitiu que a medida "poderá passar" por um aumento da carga horária das duas disciplinas. O reajustamento do currículo vai também abranger as chamadas áreas curriculares não disciplinares como a Formação Cívica, o Estudo Acompanhado e a Área de Projecto, que a tutela quer tornar "mais produtivas". O tempo dedicado àquelas áreas poderá servir para reforçar as componentes de Língua Portuguesa e Matemática, explicou.
[Público, 12.Janeiro.2008]

Hoje, no "Correio de Setúbal"

DIÁRIO DA AUTO-ESTIMA – 74
Luiz Pacheco I – “Gosto, como o Ellery Queen, de misturar o real com o imaginário, mas não (como ele e alguns neo-realistas, esses maçadores) de abusar da credulidade dos leitores, longe disso.” (Textos Sadinos, 1991)
Luiz Pacheco II – “Não somos nada nas mãos do acaso e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim?” (Carta a Fátima, 1992)
Luiz Pacheco III – Desta vez, o Luiz Pacheco foi-se mesmo. Várias vezes falou do medo de morrer e ia conseguindo fintá-la. Desta vez, o jogo acabou. A última vez que com ele estive foi no final de Julho de 2005. Pouco antes, tinha passado na televisão um documentário sobre si e a sua obra. Que não viu “para não se emocionar”. Nessa tarde, estava conselheiro (“ó pá, vocês façam, trabalhem, escrevam, porque, depois, com a falta de saúde e de vista, já o não podem fazer!”). Era assim o Luiz Pacheco: também humano, sensível, amigo. Gostei de o ter conhecido. Vou continuar a gostar de o ler.
Gestão – O novo modelo de gestão escolar tem passado um pouco ao lado da discussão na Escola, vá lá saber-se porquê. O documento, que está em apreciação pública, introduz um novo modelo de gestão nas escolas. O governo apresenta-o como “reforço” de algumas competências, nomeadamente dos pais, do meio social, dos parceiros da escola. Mas o projecto de diploma vai muito além do reforço, inaugura um outro caminho de gestão nas escolas, sem que se conheça se o que está em vigor teve uma avaliação. Há incongruências, nomeadamente quanto ao interesse e ao porquê do que é ser professor titular, neste projecto remetido para um papel elementaríssimo, depois de o governo justificar os professores titulares com o argumento de que a escola iria melhorar…
Europa – Se fosse a Europa do tratado do adjectivo, Portugal teria referendo; como é a Europa do complemento preposicional de nome, vai ter aprovação parlamentar. Tudo isto porque já se sabe (como?) que a grande maioria dos Portugueses está com o tratado de Lisboa. Uma União Europeia de certezas, pois. E os cidadãos europeus sem serem conquistados para a Europa…
Salto – A anterior crónica, por razões relacionadas com o espaço do jornal, não foi publicada no “Correio de Setúbal”, apenas no blogue de que sou editor. Daí que, entre a publicação da última e esta, haja um salto no jornal.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O "Diário" de Sebastião da Gama tem 59 anos, feitos no dia em que entra em vigor o Decreto Regulamentar 2/2008 visando a avaliação dos professores

"Janeiro, 11 [de 1949] - Para começar, o metodólogo falou connosco durante uma hora. De acordo com o que disse, vão ser as aulas de Português o que eu gosto que elas sejam: um pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente. E dentro dessa convivência, como quem brinca ou como quem se lembra de uma coisa que sabe e que vem a propósito, ir ensinando. Depois, esta nota importantíssima: lembrar-se a gente de que deve aceitar os rapazes como rapazes: deixá-los ser: 'porque até o barulho é uma coisa agradável, quando é feito de boa-fé.'
Houve nesta conversa uma palavra para guardar tanto como as outras, mais que todas as outras: 'O que eu quero principalmente é que vivam felizes'."
Sebastião da Gama. Diário (1958)

Em 11 de Janeiro de 1949, Sebastião da Gama tinha 24 anos. Licenciara-se em Filologia Românica, em Lisboa, cerca de um ano e meio antes, com a tese de licenciatura intitulada Apontamentos sobre a Poesia Social no Século XIX, com a classificação final de 17 valores. Três meses depois de obtida a licenciatura, em 14 de Outubro de 1947, Sebastião da Gama iniciava o seu percurso de professor em Setúbal, na Escola Industrial e Comercial de João Vaz (actual Escola Secundária Sebastião da Gama), onde era director o açoriano Armando Pereira Athayde de Medeiros. Nesta escola, leccionou como professor provisório entre 14 de Outubro de 1947 e 31 de Julho de 1948 e também no ano lectivo seguinte, entre 19 de Outubro de 1948 e 10 de Janeiro de 1949.
Em 11 de Janeiro de 1949, Sebastião da Gama tinha 24 anos, a licenciatura, a experiência lectiva de professor provisório na Escola João Vaz e vários textos publicados – os poemas saídos no jornal montijense Gazeta do Sul a partir de 1940; os livros de poemas Serra-Mãe, de 1945, e Cabo da boa esperança, de 1947, e umas Loas a Nossa Senhora da Arrábida, datadas de 1946, escritas em parceria com Miguel Caleiro.
Em 11 de Janeiro de 1949, Sebastião da Gama tinha 24 anos e iniciava o seu estágio de professor na Escola Veiga Beirão, em Lisboa, desse dia datando a primeira página do seu Diário, onde regista as observações do professor metodólogo, Virgílio Couto, que iam ao encontro do que Sebastião da Gama desejava que fossem as aulas.
Sebastião da Gama tinha bem a noção da razão de ser de um diário. Ao longo do texto, há várias referências ao que seriam as características de um diário, ainda que, na altura, esta forma de escrita não estivesse consignada com suficiente importância nos géneros literários. Mas torna-se evidente que este professor redigia um diário para ser o seu espaço e tempo de reflexão sobre a sua prática pedagógica durante o tempo de estágio, sobretudo numa área tão sensível como era a do ensino do Português, misto entre o estudo do funcionamento da língua e o conhecimento da literatura e da cultura portuguesas, não omitindo algumas confidências que bem integrariam uma espécie de diário “íntimo”:
a) em 18 de Março de 1949, estabelece a diferença entre um diário que podia ser de circunstância e o diário íntimo, não faltando mesmo alguma dose de ironia quanto à finalidade do diário como documento de verdade – “Bem haja o metodólogo por esta ideia do diário. A gente assim pode olhar para trás e ver vida – tempo enchido com coração em lugar de com fórmulas. (…) Com esta inovação, descobriu o nosso metodólogo nada mais nada menos do que a maneira de nos levar a fazer exame de consciência. E deixa-nos, ainda, um documento em que se regista o que está bem que se faça e o que está bem que se não torne a fazer. Além disso, como palavra puxa palavra, vou carreando para aqui coisas que me interessam (sombras da minha infância, luzes intensas dos meus últimos dias…) e o pó do tempo havia de velar um dia. Isto é quase um diário íntimo – e se digo que é quase, é porque, apesar de tudo, sei muito bem que outros, que não só eu, o vão ler, e isso, que não obsta a que sejam sinceras todas as minhas palavras e verdadeiras todas estas histórias, me impede de contar certas ‘coisas que terei pudor / de contar seja a quem for’. Outra vantagem do diário sobre o livro de ponto é esta: é que no livro de ponto a assinatura pode-se falsificar.
b) em 4 de Maio de 1949, assume o diário como possibilidade de criatividade e de imaginação, permitindo-se jogar com palavras – “A lição tratou do gerúndio, dos muitos e diferentes de sentido do emprego do gerúndio. E não pretendi que eles soubessem cantar: o gerúndio serve para isto, para aquilo, para aquelitro (passe o neologismo necessário e suficiente – isto é um diário íntimo)”.
c) acabado o ano lectivo de 1948-1949, no texto “Uma página de férias”, o diário pretende fugir àquilo que seria um simples exercício sugerido pelo metodólogo, abrindo mesmo espaço para o anedotário vivido com os alunos e caminho para uma ideia de diário enquanto lugar de confidência do eu consigo mesmo – “Ou isto é um diário íntimo ou não no é. Porque não hei-de guardar aqui meia dúzia de anedotas que têm o sabor único de as ter vivido eu, de as terem vivido os meus rapazes?
d) em 11 de Outubro de 1950, já na Escola Comercial e Industrial de Estremoz, professor com mais turmas do que aquelas que lhe foram atribuídas durante o estágio, Sebastião da Gama mantém ainda a ideia de continuar um diário de professor, confrontando-se com a necessidade de confiar a esta escrita uma parte da sua vida: “Está claro que não pode este diário ter a exacta feição dos dois primeiros volumes [alusivos aos anos lectivos de estágio, respectivamente, 1948-49 e 1949-50]. Pôr aqui todas as aulas? Era preciso que eu fosse um professor extraordinário; o professor que eles quase pensam que sou. Pois se eu estou atrapalhado!... Não sei por onde, não sei como começar. Ou me está a faltar a genica ou me está a faltar a imaginação. O diário vai então servir, como há dois anos em Setúbal, para guardar o melhor do que me for acontecendo.
Um livro indispensável. A ser lido por quem se preocupe com a educação, por quem nela trabalhe. Um livro que não se conforma com a poeira do tempo...

DISSERAM SOBRE O DIÁRIO DE SEBASTIÃO DA GAMA:
Hernâni Cidade: “Este Diário, que Sebastião da Gama deixou manuscrito, é o registo quotidiano das suas experiências de estagiário do Ensino Técnico, e seria, não se sabe até que altura, o programa da sua carreira de professor, se a Morte lhe não houvesse tão prematuramente posto termo. (…) Professor e poeta, afinal, mostra este documento como eram duas faces da mesma fisionomia espiritual, como se integravam na realidade concreta duma singularíssima alma, como em toda a minha longa vida de professor me não foi dado conhecer outra.” (“Prefácio”, in Diário. Lisboa: Ática, 1958).
Ramiro Marques: “A recusa da pedagogia tradicional é fruto, parece-me, mais de uma reflexão diária sobre a prática (a existência do Diário é prova disso) que do conhecimento estruturado das modernas correntes pedagógicas. A pedagogia em Gama toma forma com a experiência, o repensar dos êxitos e dos fracassos e subordina-se fundamentalmente à procura da felicidade. (…) O grande objectivo da educação é a felicidade. (…) Mas Gama, ao procurar a felicidade para os outros, não faz mais do que procurar a sua. (…) Todas as estratégias seguidas e meticulosamente registadas no Diário se subordinam a este objectivo. E, convenhamos, é nas estratégias utilizadas que reside muito da modernidade de Sebastião da Gama.” (in Modelos de ensino para a Escola Básica. Lisboa: Livros Horizonte, 1985).
Clara Rocha: “Se este diário é o registo duma comunhão do professor com os alunos, ele é-o também duma comunhão do eu com os outros. (…) A aula é uma transposição de vida. E nessa transposição simbólica reside o melhor deste diário. Estas páginas não nos revelam, literalmente, um professor comprazendo-se no registo dos seus sucessos pedagógicos ou auto-criticando-se quando não obteve os resultados desejados. Mostram-nos, isso sim, um ser disposto a fazer da sua vida, afinal breve, uma dádiva total aos outros. (…) Para Sebastião da Gama, a literatura não está tanto na forma, como na atitude espiritual. As palavras, para ele, são apenas o instrumento de que se serve para ofertar aos outros o próprio coração.” (in Máscaras de Narciso – Estudos sobre a literatura autobiográfica em Portugal. Coimbra: Almedina, 1992).
[Fotos de capas do Diário - 1ª ed (Ática, 1958), 7ª ed (Ática, 1986), 12ª ed (Arrábida, 2003), 13ª ed (Arrábida, 2005)]

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O Tintim faz anos

No dia de hoje de 1929, nasceu, pela pena e imaginação de Hergé, a personagem de bd Tintim, logo actuando, como "repórter do Petit Vingtième, no País dos Sovietes". O belga Georges Remi (nome real de Hergé) tinha então 22 anos e já trabalhava desde os 18 no serviço de assinaturas do diário Le Vingtième Siècle, passando, a partir do início de Novembro de 1928, por insistência do seu director, a coordenar um novo projecto do jornal destinado ao público infanto-juvenil. Estava lançada a ideia que iria conduzir a Tintim (e ao seu inseparável Milou) e a um percurso de 23 livros de aventuras do famoso jornalista, num tempo que durou até 1976. Tintim no País dos Sovietes estendeu-se por 69 edições do jornal.
Logo na primeira aventura veio o sucesso, tal como conta Carlos Pessoa: "No dia 8 de Maio de 1930 a história chega ao fim. Para festejar o acontecimento, é organizada uma chegada do herói à Gare du Nord, em Bruxelas. Lucien Pepermans, um escuteiro de 15 anos, é contratado para fazer de Tintim por 100 francos belgas e um ramo de flores. Na casa de banho da estação de caminhos-de-ferro de Lovaina veste-se de mujique e põe brilhantina no cabelo para manter firme o topete. Depois, apanha o comboio Colónia-Bruxelas com um fox-terrier. Uma multidão em delírio recebe os dois heróis da 'campanha da Rússia'. Tintim e Milu dirigem-se para a sede do jornal num Buick conduzido por um amigo de Hergé. Na varanda, o herói de carne e osso dirige a palavra às massas, mas ninguém o ouve, tão intensos são os aplausos." (in As aventuras de Tintim no 'Público'. Porto: "Público", 2004).

Tratado: entre o adjectivo e a preposição

Na Assembleia da República, o Primeiro-Ministro justificou a ratificação do Tratado europeu pelo Parlamento, apresentando três razões:
1) “Em primeiro lugar, não se justifica fazer um referendo quando há um consenso alargado na sociedade portuguesa quanto ao projecto europeu e quanto ao próprio Tratado de Lisboa. As principais instituições e forças políticas portuguesas estão de acordo com a ratificação deste Tratado. Mais de 90% dos deputados apoiam o Tratado de Lisboa. Não há motivo nenhum para duvidar de que o amplo consenso que existe nesta Assembleia, exprime, de facto, a vontade maioritária dos portugueses.” Ora, vemos que a sociedade portuguesa é, para o governo, o conjunto das “principais instituições e forças políticas portuguesas” com os “mais de 90% dos deputados”. O resto… o resto (que são os cidadãos) é paisagem!
2) “Em segundo lugar, não se justifica fazer um referendo porque a ratificação pelo Parlamento é tão legítima e democrática como a ratificação referendária. Mais: a realização de um referendo em Portugal iria pôr em xeque, sem qualquer fundamento, a plena legitimidade da ratificação pelos parlamentos nacionais que está a ser feita em todos os outros países europeus que, podendo escolher, optaram pela ratificação parlamentar considerando que o referendo não se justifica.” A questão não é, nunca foi, a da legitimidade ou da democracia. Vê-se que a questão é o conjunto dos outros, entendendo esses "outros" como os governos europeus, o que, aliás, surge explícito na continuidade do discurso: “fazer um referendo aqui em Portugal teria implicações noutros países e é justo dizer que, no mínimo, agravaria os riscos de o Tratado nunca entrar em vigor”. Afinal, onde reside o problema? Uma vez mais, a acreditar no que a imprensa tem dito, a ratificação parlamentar foi-nos imposta por políticos europeus que nos quiseram como primeiros responsáveis para que nos seus países também a ratificação seja por via parlamentar…
3) “Há, ainda, uma terceira razão pela qual o referendo não se justifica: o Tratado de Lisboa que temos hoje é diferente do antigo projecto de Tratado Constitucional. E – quero lembrar – o compromisso eleitoral para um referendo referia-se, expressamente, a esse Tratado Constitucional e não a outro qualquer. Para que não restem dúvidas, passo a ler o compromisso eleitoral do Partido Socialista. Dizia assim, página 154: «a prioridade do novo Governo será a de assegurar a ratificação do Tratado Constitucional». Repito: «ratificação do Tratado Constitucional». Foi a propósito desse Tratado que o Partido Socialista defendeu no seu Programa, e cito de novo, «que a aprovação e ratificação do Tratado deva ser precedida de referendo popular». Ora, como todos sabem, acontece que o projecto de Tratado Constitucional foi entretanto abandonado e já não existe.” Aqui, temos o poder dos adjectivos a que se verga o discurso… Afinal, a saída encontrada pelo governo deveu-se a um adjectivo. Não estivesse ele lá e não havia argumento!... Como é que ninguém deu por isso? Mas, seguindo o discurso, várias dúvidas se acentuam: o domínio do tal adjectivo foi, de facto, deposto? Note-se: “O Tratado, realmente, mudou. Certamente, foi possível manter muito do que vinha dos Tratados em vigor e até das novidades do projecto de Tratado Constitucional. Mas mudou. Mudou na sua natureza e no seu conteúdo. É um Tratado diferente. Um novo Tratado. E isto não pode deixar de provocar uma profunda alteração de circunstâncias. Foi, aliás, por representar uma mudança substancial que o Tratado de Lisboa obteve um acordo político, depois do fracasso do Tratado Constitucional. Se nada tivesse mudado, posso garantir-vos, a Europa não teria saído do impasse em que estava.” Ora, ainda bem que a substituição do adjectivo pelo complemento preposicional do nome (como reza a TLEBS) resolveu o problema!...
A verdade é que muita gente que defendia o referendo não o queria pelas razões de oposição que o Primeiro-Ministro apresentou, mas sim porque era uma boa oportunidade de aproximar a causa europeia dos cidadãos, de tornar a Europa mais comum, todos sabendo as regras de funcionamento, os direitos e os deveres. E esta foi uma oportunidade perdida. Para que a festa continue a ser feita só nos corredores da diplomacia e das políticas. A partir daqui, há o propósito do Primeiro-Ministro de promover “acções destinadas a informar os cidadãos sobre o conteúdo e as implicações do Tratado de Lisboa”, de forma “simples e acessível”. Obviamente, liofilizadas e servindo a propaganda europeia, mas não a discussão, que seria o que mais interessava! Obviamente, depois de, no seu discurso, ter apresentado um enredo para justificar a subtileza da mudança de opinião!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Há pouco mais de um quarto de milénio...

... em Setúbal, nascia uma criança que viria a receber o nome de Luísa Rosa de Aguiar. Aquela que se supõe ter sido a casa dos primeiros anos dessa menina ainda hoje existe, com lápide evocativa. Fica na zona de Tróino, na Rua da Brasileira, que, em 1753, data do nascimento da futura cantora, se chamava Rua de Coina.
O dia 9 de Janeiro desse ano foi o início do percurso para mais uma celebridade sadina, Luísa Todi. Entrava-se, aliás, num meio-século que viria a ser de ouro para Setúbal, devido às figuras que aqui surgiram e foram contempladas com a fama - dois anos antes, nascera o que viria a ser o poeta Santos e Silva; doze anos depois, era a vez de nascer o poeta Bocage; em 1785, começava a viver Teotónio Banha, militar e pintor; por aqui andou também, nesta época, o pintor José António Benedito Soares da Gama de Faria e Barros, que ficou conhecido por "Morgado de Setúbal" (que, tendo nascido em Mafra em 1752, passaria parte significativa da sua vida na cidade do Sado, onde faleceu em 1809).
Voltando a Luísa Todi, cuja casa tem sido objecto de notícias como futuro museu dedicado à diva, o seu percurso biográfico pode ser conhecido através de três importantes estudos: Luísa Todi - Estudo Crítico, de Joaquim de Vasconcelos (2ª ed. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1929); Luísa Todi, de Mário Moreau (Lisboa: Hugin Editores, 2002); Luísa Todi - A voz que vem de longe, de Victor Luís Eleutério (Lisboa: Montepio Geral, 2003). Para os mais novos, em biblioteca, pode ainda ser encontrada obra A vida fascinante de Luísa Todi, de Maria Isabel Mendonça Soares (Lisboa: Verbo, 1967).
[foto: na Pastelaria "Bambu", em Setúbal, na Fonte Nova]

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Porque muda a gestão das escolas?

A resposta a esta pergunta é dada no Público de hoje, no título da crónica de Santana Castilho: "Porque sim!" Sabemos o que significa o argumento "porque sim" - pouco vale em termos de discussão, uma vez que remete os arrazoados para o prazer pessoal ou para uma aparente ausência de razão. "Porque sim" significa que não há que apresentar razões, quer dizer que se trata de algo que não carece de demonstrações, envolve a nossa vontade pessoal e independente do interesse que possa daí advir para o outro. Daí que neste blogue também escreva... porque sim, como é dito no cabeçalho, isto é: porque gosto de dizer. (E, já agora, se gostarem de me ler, tanto melhor... porque sim!)
O título que Santana Castilho escolheu para o seu artigo - "Porque muda a gestão das escolas? Porque sim!" - é revelador do estado de espírito e da falta de argumentos que pairam quanto à necessidade destoutro modelo anunciado, nunca explicados, nunca expostos, nunca avaliados. Independentemente de haver concordância ou discordância relativamente ao modelo, interessaria conhecer o porquê da sua necessidade e a relação que ele pode ter com as dificuldades que a educação atravessa, que, como se sabe, não assentam no modelo de gestão das escolas.
A dado passo da opinião de Santana Castilho, o estilo envereda por uma quase "carta aberta" dirigida ao Primeiro-Ministro sobre as questões da coerência deste modelo e da política da educação. Não reproduzo o texto na totalidade porque o essencial do pensamento está no excerto que apresento, em análise resultante do normativo em vigor e da proposta de normativo que anda em discussão.
"1. Os dois diplomas apregoam autonomia mas castram toda e qualquer livre iniciativa das escolas. Nada muda. Apenas se refina o cinismo, na medida em que muito do anteriormente facultativo (o pouco que não estava regulamentado) passa agora a obrigatório. Não há uma só coisa que seja importante na vida da escola que o órgão de gestão possa, autonomamente, decidir. Um e outro são uma ode ao centralismo asfixiante.
2. O novo diploma diminui o peso dos professores da escola nos órgãos de gestão dessa escola. Esclareço a aparente redundância trazida pela insistência no vocábulo 'escola' na construção deste parágrafo. É que o novo diploma torna possível que um professor de qualquer escola, mesmo que seja privada, concorra a director de qualquer outra, pública, mediante 'um projecto de intervenção na escola'. Que estranho conceito de escola daqui emana! Como pode alguém que não viveu numa escola, que não se envolveu com os colegas e com os alunos dessa escola, que não sofreu os seus problemas nem respirou o seu clima, conceber 'um projecto de intervenção na escola'? (…)
Mas que está por baixo do celofane? A 'abertura' é uma falácia. O Conselho Geral, com a participação da comunidade, já existe, com outro nome. Chama-se Assembleia. Porém, os casos em que esta participação teve relevância são raros. E quem está nas escolas sabe que não minto. Ora não é por mudar o nome que mudam os resultados. A participação da comunidade não se decreta. Promove-se. Se as pessoas acreditarem que podem mudar algo, começam a interessar-se. Mas o despotismo insaciável que este Governo trouxe às escolas não favorece qualquer tipo de participação. Para que as pessoas possam participar, há décadas que Maslow deu o tom: têm que ter necessidades básicas resolvidas. Aqui, as necessidades básicas são não terem fome, terem tempo e terem uma cultura mínima. (…)
Lideranças fortes? Deixe-me rir enquanto não proíbe o riso. O senhor que só quer uma liderança forte, a sua, que até o seu partido secou e silenciou, quer lideranças fortes nas escolas? É falso o que digo? Prove-o! Surpreenda uma vez e permita que professores independentes discutam publicamente o deserto em que está a transformar a Escola Pública e para que este diploma é o elo que faltava.
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A propósito do tal "projecto de intervenção na escola", hoje, conversava com colegas sobre o assunto e veio à lembrança uma prática do passado recente do nosso país... Recordam-se da época em que foram constituídas empresas para construir para os seus clientes projectos candidatos a verbas oriundas da União Europeia?
Esta proposta de modelo está em discussão até final do mês. Noto que muitos colegas estão à margem da discussão. Mas seria bom que ela se fizesse. Em elaboração está um manifesto que pode ser lido aqui e que irá recolher assinaturas. Era bom que houvesse mais envolvimento!