Entre os leitores que escreveram a Sebastião da Gama a propósito do seu primeiro livro, Serra-Mãe, contam-se também os testemunhos de Hernâni Cidade (1887-1975), António Botto (1897-1959) e Bertil Maler (1910-1980). Em carta datada da “Ante-véspera de Natal de 1945”, Cidade (que também foi professor do jovem poeta) reagia, logo após a leitura do livro: “Agradeço-lhe a hora gratíssima que me deu à alma. À alma, muito mais do que aos sentidos, que a sua Poesia é toda tocada de transcendente e, em si, o folhado, como a maresia, como tudo com que encanta os sentidos a sua Mãe-Serra, tudo acorda ressonâncias fundas de alma eleita, da linhagem de Frei Agostinho, tão famintas de Infinito que só pairando sabem cantar, como as cotovias.” Uns dias depois, em 5 de Janeiro, era o poeta António Botto que enviava curta mensagem, a exigir mais do escritor que se iniciara: “Este seu pequeno volume de versos podia ser, se você quisesse, uma verdadeira grinalda de Poeta! Há umas notas muito bonitas, mas um propósito tão acentuado de brincadeira ou ironia, que parece uma rapaziada à margem dessa divina arte maravilhosa!...” Também o hispanista sueco Maler (que publicou estudos sobre literatura portuguesa), em 21 de Agosto de 1946, cerca de um mês depois de regressar de Lisboa a Estocolmo, enviava missiva para Sebastião da Gama, dizendo-lhe que lera o seu livro durante o período de descanso da viagem, fora da capital — “Li e reli os seus belos poemas. Não se devem ler no barulho das capitais, é a solidão da serra - que muito se parece ao campo sueco - que lhes convém.” E acrescentava: “A leitura do seu livro deu-me um verdadeiro prazer. Não só um prazer estético causado pela beleza da forma e do ritmo, mas ainda um prazer emocional. (...) A simplicidade sublime - algumas linhas até me deixaram uma impressão como se estivesse a ler os salmistas -, o sentimento da Natureza, a profunda religiosidade, eis o que retenho dos seus poemas.”
Além das opiniões chegadas via epistolar, a imprensa foi um meio importante para a divulgação de Serra-Mãe, quase desde o momento em que apareceu — saído o livro em 18 de Dezembro de 1945, a recepção crítica manteve-se a um ritmo constante até Outubro do ano seguinte. Logo dois dias depois do seu aparecimento, Álvaro Salema (1914-1991), no Jornal do Comércio, na rubrica “Horizonte”, dizia da obra que vinha “revelar ao nosso estreito meio literário uma personalidade vigorosa de lírico e de místico, arrebatado em visões interiores e em ansiedades que constituem riqueza profunda de uma alma”, apresentando como sendo “um notável poeta este moço de alma perturbada, talento literário de forte inspiração, inquieto pesquisador de imagens.” Salema voltaria a escrever sobre o livro na Vida Mundial Ilustrada, em 10 de Janeiro seguinte, afirmando que “Sebastião da Gama é, inegavelmente, um artista de grandes possibilidades”, embora “o esplêndido ritmo de que se mostra capaz” se quebre “inutilmente, muitas vezes, por exageros de modernidade formal que pouco significam”.
O mês de Dezembro de 1945 viu mais duas notas de leitura a propósito de Serra-Mãe — sob o título “Carta ao Poeta Sebastião da Gama”, Luís Filipe Lindley Cintra escrevia no Diário Popular (26 de Dezembro): “Tu sabes que discordei do título do teu livro. Hoje arrependo-me. Fizeste bem em conservá-lo. Era preciso que todos soubessem que o Poeta em ti nasceu da Arrábida, dessa Arrábida de que tu fazes parte, que eu não posso conceber sem ti. (…) A Serra existe para ti como tu existes para a Serra. Tinha de ser assim.”; e, quase a terminar o ano, em 29 de Dezembro, José Noronha Gamito (1922-2011) apreciava no periódico setubalense A Indústria: “Em Sebastião da Gama, quando o tom descritivo aparece não é já aquele descritivo com fulcro no exterior, aquela conformidade primária com a perspectiva que obriga à narração daquilo que está patente aos olhos do corpo, mas antes o especial descritivo interior, que se desenvolve inteiramente sobre aquela outra paisagem íntima, subjectiva, complexo pessoal de imagens, sentimentos e ideias. (…) Sebastião da Gama descreve-nos a Arrábida espiritual, subjectiva, gigantesca e especial na intimidade de cada homem que sabe pensar o que vê.”
* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1675, 2026-01-14, pg. 10.
Foto: Sebastião da Gama contemplando a Arrábida, 1943 (Arquivo Associação Cultural Sebastião da Gama)


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