domingo, 19 de abril de 2009

Alunos apresentaram Sebastião da Gama

85 anos teria feito Sebastião da Gama neste mês de Abril (no dia 10), 60 anos passam neste 2009 desde que o seu Diário (de professor) teve início (em 11 de Janeiro de 1949). Estas duas efemérides justificam que o mês de Abril tenha sido o tempo de várias actividades em Setúbal ligadas à memória e leitura do “poeta da Arrábida”.
Uma delas aconteceu na noite de ontem, no Clube Setubalense, intitulada “Sonhos em Sebastião da Gama”, promovida por Ermelinda Capoulas, professora na Escola Secundária Sebastião da Gama, e por um grupo de alunos das turmas B e F de 8º ano da mesma Escola, com o apoio da Associação Cultural Sebastião da Gama e da Câmara Municipal de Setúbal. O público era maioritariamente constituído pelos familiares dos jovens participantes.
Por ali passaram poemas vários e muitos excertos do Diário, numa selecção preparada e apresentada pelos alunos. E foi interessante ver o entusiasmo e o deslumbramento com que todos intervieram no desvendar e no partilhar de textos e de emoções. Simultaneamente, houve entrevista sobre o poeta e o professor, com perguntas a privilegiar a prática do professor que Sebastião da Gama foi – métodos, forma de disciplinar, relações com os alunos, percurso e especificidade da sua forma de agir – e houve o piano de Rui Serôdio a pontuar a musicalidade das palavras. A segunda parte foi integralmente ocupada com a intervenção do grupo coral da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, num reportório diversificado por onde passaram as toadas populares, a poesia de José Gomes Ferreira ou os espirituais.
No final, foi agradável notar o prazer dos alunos por terem conseguido partilhar o fruto do seu trabalho. Mas não menos interessante foi sentir o entusiasmo dos familiares, alguns surpreendidos com a capacidade do que o grupo conseguiu transmitir. E dizia-me um pai, que tinha sido aluno na Escola Secundária Sebastião da Gama, que foi bom ter vindo ali porque não imaginava a importância do patrono da Escola, porque não sabia quase nada sobre ele… e tinha sido graças à participação da filha que tinha acedido a um bocadinho desse saber.
Fosse pelo facto de ser professor, por ter sido poeta, por chamar a Arrábida para as suas mensagens ou por qualquer outra razão, certo é que os jovens envolvidos nesta actividade demonstraram acentuado entusiasmo com a obra de Sebastião da Gama, talvez a dar razão ao que um dia escreveu Arnaldo Saraiva (“Sebastião da Gama – Poeta da Arrábida e da juventude”. Horizonte – Revista Portuguesa de Cultura: Guarda, nº 49, Abril 1958) sobre este poeta: “A sua obra é a sua autobiografia, é a sua vida, ora mística, ora terrena; ora infantil e inocente, ora amadurecida e grave; ora fácil e feliz, ora dura e dolorosa; a sua vida simples, sincera, despretensiosa, mas sempre adolescente.”

sábado, 18 de abril de 2009

José Carlos Barros, o 12º Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama

José Carlos Barros foi o autor galardoado na 12ª edição do Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, promovido pelas Juntas de Freguesia de Azeitão (S. Lourenço e S. Simão), certame de organização bienal que, neste ano, teve o concurso de 144 obras.
O nome de José Carlos Barros não é propriamente desconhecido neste prémio, uma vez que já foi o vencedor na edição de 1990 com o trabalho Uma abstracção inútil (Évora: Declives, 1991).
José Carlos Barros (n. 1963) é natural de Boticas, arquitecto e autor de vários outros livros, entre os quais se conta O dia em que o mar desapareceu (2003).
A anterior edição do Prémio, que aconteceu em 2007, teve como galardoado o poeta Amadeu Baptista com a obra O bosque cintilante.

Ética e responsabilidade chamadas pelo Presidente da República

«A responsabilidade ética e social das empresas, dos empresários e dos gestores é uma questão que tem vindo a adquirir uma relevância crescente, devendo ser reconhecida e tratada como um dos elementos centrais de qualquer processo de desenvolvimento. (…)
É hoje seguro afirmar que, na génese da crise financeira e económica que o mundo enfrenta, muito pesaram a violação de normas éticas e a adopção de comportamentos de risco cujo impacto sobre o sistema financeiro e o bem-estar das populações não foi devidamente ponderado. (…)
Por detrás das estatísticas e dos gráficos que identificam a crise estão trabalhadores que perderam o emprego e investidores que perderam as poupanças de uma vida e cujos projectos e ambições foram destruídos num ápice.
Quando os benefícios são exclusivos de alguns mas a contrapartida é uma provável socialização das perdas, exige-se que sejam impostas condições muito rigorosas à tomada de riscos e que se adopte uma vigilância determinada sobre a gestão desses riscos – por parte dos reguladores, mas também por parte das próprias instituições financeiras.
Creio que faltou vontade política e económica para questionar o caminho que estava a ser seguido e que há muito suscitava reservas. É legítimo, por isso, dizer que a ausência de valores nos mercados, na política e nas instituições financeiras terá sido uma das razões de fundo explicativas desta crise. (…)
Seria um erro muito grave, verdadeiramente intolerável, que, na ânsia de obter estatísticas económicas mais favoráveis e ocultar a realidade, se optasse por estratégias de combate à crise que ajudassem a perpetuar os desequilíbrios sociais já existentes ou que hipotecassem as possibilidades de desenvolvimento futuro e os direitos das gerações mais jovens. Este é um risco efectivo. Muitos dos agentes que beneficiaram do status quo – e que tiveram um papel activo nesta crise financeira – continuam a ser capazes de condicionar as políticas públicas, quer pela sua dimensão económica quer pela sua proximidade ao poder político.Acresce que, num cenário de dificuldades, e sob a pressão da necessidade urgente de agir, as decisões nem sempre são ponderadas devidamente, acabando por abrir espaço para o desperdício de recursos públicos ou para a concentração desses recursos nas mãos de uns poucos, precisamente aqueles que detêm já maior influência junto dos decisores. (…)
Seria um erro, no entanto, pensar que a obrigação de acautelar os princípios de justiça, de equidade e de coesão recai apenas sobre os decisores políticos. É nas empresas e no diálogo entre elas e dentro delas que começa esta responsabilidade.Nos últimos anos, assistiu-se, em muitos países desenvolvidos, a uma crescente fragilização do tecido social, resultado de uma enorme complacência face às desigualdades de rendimentos e de direitos e aos ganhos desproporcionados auferidos por altos dirigentes de empresas.Este é um quadro insustentável e que urge alterar. Seria política e socialmente perigoso e eticamente condenável que a crise fosse aproveitada para acentuar esta fragilidade, repercutindo os custos da actual situação económica sobre os mais desprotegidos. Pelo contrário, este momento deve ser assumido como um ponto de viragem. Mudaram a percepção e o juízo que os cidadãos fazem daqueles que comandam a política, a economia e a finança. Sem uma liderança clara na projecção e defesa de um sistema de valores, muito dificilmente será recuperada a confiança necessária para vencer a crise.
É preciso ter coragem de, em vários domínios, começar de novo.É urgente que os decisores reajustem as prioridades e corrijam as injustiças e os erros que a crise desmascarou. Devem fazê-lo com sentido de humildade. É urgente colocar no topo da agenda, ao lado da liberdade, a responsabilidade, a solidariedade e a coesão sociais, e compreender a importância que a verdade, a transparência e os princípios éticos têm no bom funcionamento de uma economia e no desenvolvimento de uma sociedade.
Valores como o humanismo, a justiça, a generosidade e o espírito público fundaram o pensamento económico pioneiro de Adam Smith. Neste momento, é crucial que os empresários e gestores, primeiros beneficiários deste pensamento, não esqueçam a sua lição. (…)
Este é um período em que se pede ao Estado um maior activismo.No entanto, esta não é altura para intervencionismos populistas ou voluntarismos sem sentido. Os recursos do País são escassos e é muito o que há ainda por fazer. É preciso garantir o máximo de transparência na utilização dos dinheiros públicos. Desde logo, por uma questão de respeito para com os contribuintes.
Não podemos desperdiçar recursos em respostas que mais não fazem do que deixar tudo na mesma ou tornar ainda mais apertado o caminho do nosso desenvolvimento futuro. Pelo contrário, é crucial que a intervenção pública seja ponderada e rigorosa, visando claramente a resolução de problemas concretos e a preparação dos desafios futuros.Este é também um tempo em que às empresas portuguesas se exige rigor económico, visão estratégica e, igualmente, clarividência social.É importante que a responsabilidade das empresas não se esgote na sua área específica de negócio e inclua a promoção da justiça, da equidade e da valorização humana.Há que aproveitar as potencialidades do diálogo no interior da empresa, entre gestores e trabalhadores, no sentido de promover respostas articuladas à crise e de aproveitar ao máximo os recursos humanos disponíveis. (…)
O caminho passa por acudir àqueles que mais sofrem com a crise, mas também pela preparação do Portugal que queremos para o futuro.Há que actuar sobre os factores que são críticos para o nosso crescimento futuro e preparar o País para estar na primeira linha da recuperação da economia mundial. Isto exige políticas públicas adequadas, mas também uma atitude responsável e competente por parte das empresas. (…)
O pior que nos poderia acontecer era a crise acentuar a tendência, bem nociva para o País, de algumas empresas procurarem a protecção ou o favor do Estado para a realização dos seus negócios.Empresários e gestores submissos em relação ao poder político não são, geralmente, empresários e gestores com fibra competitiva e com espírito inovador. Preferem acantonar-se em áreas de negócio protegidas da concorrência, com resultado garantido.É crucial que os empresários e gestores percebam que a sua autonomia em relação ao poder político é, a médio prazo, decisiva para o seu sucesso e garantam que as suas empresas sejam inovadoras à escala global e não apenas aproveitadoras das oportunidades existentes no mercado português. (…)Não ignoro que Portugal pode vir a enfrentar um período de contracção ou estagnação económica e de aumento do desemprego mais prolongado do que muitos pensariam no início da crise. Esta é uma possibilidade para a qual devemos estar preparados e que exige uma atenção por parte dos empresários, gestores e responsáveis públicos que deve ir muito além do mero desempenho empresarial ou pessoal.Trata-se, sobretudo, de um desafio de natureza ética, agora com exigência acrescida.A responsabilidade social das empresas não pode ser um conceito vão ou uma estratégia de conveniência. É pela interiorização e aplicação desta ideia, de par com o reforço dos valores na vida pública, que passa a resposta aos desafios do presente e a construção do futuro de Portugal.»
Excertos do discurso do Presidente da República na Sessão de Abertura do 4º Congresso
da Associação Cristã de Empresários e Gestores (ACEGE), ontem

Ética na política - o contributo de Jacinto Gonçalves

Expresso: 18.Abril.2009, pg. 37.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da Auto-Estima – 98
Perdidos – Na recepção de um parque de diversões destinado a famílias, surge uma inscrição sobre fundo metálico a dizer: “Pais perdidos, perguntem aqui pelas vossas crianças.” Assim, de repente, parece que o mundo se inverte: pais perdidos? Exactamente. A frase envia os leitores em várias direcções: num tal parque, todos os utilizadores se confrontam com a criança que há dentro de si e vão atrás dos apelos da fantasia; a infância define a sua orientação no parque; aquele que não se envolver com uma dose de infância qb sentir-se-á perdido; os pais devem andar atentos aos filhos e por isso ser responsabilizados. Assim, não serão as crianças que se perdem, mas os progenitores. Pelo menos, do ponto de vista emocional e da responsabilização. O mundo, numa tal situação, ficará, de facto, ao contrário. Mais vale não experimentar!
Estacionamento – Em Setúbal, no troço da Avenida Luísa Todi entre o mercado e o quartel do 11, em ambos os sentidos, o automóvel perdeu lugares de estacionamento, seja pela configuração atribuída ao novo estacionamento e ao arruamento, seja pela quantidade de lugares privados atribuídos. Neste tipo de decisões, se era pretendido que lá não houvesse carros, que se assumisse isso, transformando a Avenida em lugar de passagem apenas. Ir à “baixa” da cidade e frequentar o seu comércio tornou-se mais complicado. Não admira, pois, que a movimentação das pessoas se faça noutras direcções…
Dicionário – O leitor já imaginou as implicações sociais e culturais de um dicionário? Já pensou que o próprio conceito de definição sofre os efeitos dos tempos? O que diria de um dicionário que lhe definisse “acordar” como “tornar a cogitar acabando o sono”, “bigode” como “duas torcidas da barba”, “bilha” como “vaso que faz o som bil bil no vasar”, “cabra” como “animal de pêlo”, “carneiro” como “ovelha macha”, “cuecas” como “panos do cu”, “gaiola” como “vaso furado para ter pássaros”, “macaco” como “animal de trejeitos delirantes”, “vértebra” como “dobradiças das costelas” ou “vertigens” como “rodadura do cérebro”? Pois esse dicionário existe. Deixo a sua história para a próxima crónica, porque espaço é coisa que não sobra por estes lados…

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sebastião da Gama e Ary dos Santos num encontro através da poesia

É possível que Sebastião da Gama e José Carlos Ary dos Santos se tenham encontrado em Vila Nogueira de Azeitão variadíssimas vezes. Com efeito, Ary dos Santos visitou frequentemente Azeitão, de onde sua mãe era natural.
Nascido em 1936, era cerca de 12 anos mais novo do que Sebastião da Gama. Mas, se não há registo de encontro entre os dois, há, pelo menos, registo de convívio poético entre ambos, conforme o prova a publicação Horizonte – Revista de Cultura e Arte, editada em Évora entre Março de 1951 e Setembro de 1952 e dirigida por Manuel Madeira.
No seu nº 3 (Julho-Agosto.1951), colaboraram com poemas nomes como Luís Amaro, Natércia Freire, António de Navarro e Sebastião da Gama, entre outros, enquanto Lima de Freitas, Túlio Espanca e Sant’Anna Dionísio participaram com textos ensaísticos sobre arte. De Sebastião da Gama seria publicado o poema “Crepuscular”, datado de Estremoz (“1951, pelo São José”), postumamente inserido no seu livro Pelo sonho é que vamos (1953). No final da revista, na rubrica “Intercâmbio cultural” (dedicada a respostas a cartas dos leitores), um novíssimo (para a época) poeta se revelava, de seu nome José Carlos Ary dos Santos, que escrevera de Lisboa, referindo a revista: “Envia-nos este amigo uma carta em que se mostra interessado por Horizonte, animado pela nossa chamada aos novos. Conta apenas 14 anos e credencia-se com dois sonetos e um poema.”
Assim apresentada a novidade, seguia-se um breve comentário: “Ficámos surpreendidos, não porque um jovem de 14 anos fizesse versos, mas pela transcendência e preocupação dos temas, sobretudo os dois sonetos que não nos dizem nada dos catorze anos do poeta. Nota-se uma facilidade no tão difícil soneto, um fecho excelente, remate tão exigido neste género, que ficamos suspensos augurando a este poeta de catorze anos o melhor futuro na poesia, se não enveredar por maus caminhos.” Depois, o organizador da secção transcrevia apenas dois versos do poema “Cântico ao Sol” (de que gostara menos) e reproduzia na íntegra os dois sonetos – “Altíssimus!” e “Cruz”. Estes dois poemas seriam, no ano seguinte, incluídos no primeiro livro de Ary dos Santos, Asas (Lisboa, 1952), obra que foi prefaciada por Ramiro Guedes de Campos.
Excluindo os textos de cunho escolar, os dois mais antigos poemas de Sebastião da Gama são também sonetos, que se mantêm ainda inéditos: “Meu amor” (de 29 de Junho de 1939) e “Conselho” (de Julho do mesmo ano), ambos datados de quando o poeta de Azeitão tinha 15 anos.
Num e noutro poeta, a adolescência lançou pistas sobre o destino de ambos…
Uns bons anos mais tarde, Ary dos Santos encontrar-se-ia de novo com a poesia de Sebastião da Gama: em 1960, num recital de poesia organizado pela Casa do Pessoal da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, os textos de Sebastião da Gama foram lidos por Ary dos Santos e por Germana Tânger (dessa sessão se reproduz foto, onde ainda se pode ver Joana Luísa da Gama, esposa do poeta de Azeitão).

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Memória: José Franco (1920-2009)

O oleiro José Franco, o homem que edificou a miniatura da aldeia saloia no Sobreiro (Mafra) e que produziu peças de barro a que muita gente se rendeu, deixou-nos ontem para sempre. Recordo os momentos de encantamento que senti em muitas deslocações ao Sobreiro nos intervalos do serviço militar em Mafra e noutros momentos em que lá fui com os filhos para verem aquela obra. E recordo o ar acolhedor com que autografou o opúsculo A aldeia saloia de José Franco, de João Osório de Castro e Diogo Batalha (Elo, 2000), registando “Um grande abraço do amigo José Franco. Que Deus os ajude. 1-8-2002” e acrescentando a impressão digital autenticada com o barro. Fica a saudade e o prazer de o ter conhecido (e admirado).

Rostos (114)



Monumento aos Poetas do Carvalhal (pormenores), em Carvalhal (Grândola)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Soeiro Pereira Gomes, a propósito do centenário e de uma personagem (ou três livros que se cruzam)

Hoje, na aula, falava-se do Pedro, o herói do conto “A Estrela”, de Vergílio Ferreira (Contos. 2ª ed. Amadora: Livraria Bertrand, 1976, pp. 191-203). Personagem arrojada, determinada, impaciente, corajosa, assustadiça. Criança de sete anos, ágil, franzina. Tudo bem quanto à caracterização psicológica e física. E socialmente? Quase silêncio. Uns olhares para este, para aquele, para o livro, para o ar, para o professor. Não lhes diz nada o facto de Pedro, à noite, ir para fora de casa descalço? Ou a linguagem usada? Ou o cordel que lhe ata as calças?
Descalço? À noite, no quarto, com pijama, é lógico que está descalço… Cordel? É aquilo que serve para prender as calças do pijama… Não repararam. Pedro foi para a rua, usando a sua vestimenta de todos os dias. Então ele não ia à escola? Escola?! Mas onde se fala de escola?
As aprendizagens deste Pedro vinham do trepar às árvores a espreitar ninhos, da corrida pelos montes, do jogo da vida… Realidades outras que estavam longe do mundo de agora. Invoquei outras crianças a propósito. Sabem que faz hoje cem anos que nasceu Soeiro Pereira Gomes? Escritor, que se remeteu à clandestinidade por pensar diferente, autor de Esteiros (1941), o livro dedicado “aos filhos dos homens que nunca foram meninos”, outros parecidos com o Pedro de “A Estrela”? Homens que nunca foram meninos? Mas…
Sim, é um interessante livro para lerem. Pode ser pretexto para ficha de leitura. Alguns anotaram a referência. Houve uma que disse que já tinha visto o livro lá por casa. Pode ser que…
À tarde, de visita a uma livraria, um título surpreende-me: Banquete de textos, de Madalena Santos (Quinta do Conde: Contra-Margem, 2009). São emoções que ficam de livros lidos. E um deles é Esteiros. E diz a autora: “Esteiros. Há esteiros no Tejo. São pequenos canais na margem do rio, cheios de lama e de lixo e junco, onde nunca deixaremos os nossos filhos meninos, a brincar. Mas outras crianças fizeram dos esteiros florestas e buscaram brinquedos perdidos, que nunca acharam. Como o Gineto, o Sagui, o Maquineta, o Gaitinhas, o Malesso (…). Os esteiros existem e o Gineto também. A personagem inspirou-se na vida dos miúdos pobres, que viviam em Alhandra e em Baptista Pereira, o português que atravessou a nado o Canal da Mancha. A vida valeu-lhe estas duas glórias: a travessia difícil, uma proeza da natação que aprendeu no Tejo, quando por necessidade ou por instinto, se atirava ao rio e o atravessava margem a margem, bem como ser inspiração dum escritor, para uma obra literária de vulto.”
Coincidências. Espero bem que haja algum que escolha Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, para ler e fazer ficha de leitura. Pela história, pela literatura, pela memória, pela infância vivida e escrita. Se assim não for, tenho pelo menos a certeza de que, quando ouvirem falar em crianças descalças ou com cordel à cintura a segurar as calças, não associarão ao conforto do pijama apenas, mas pensarão também na possibilidade do desconforto que as vidas têm… e nas crianças que nunca viveram uma infância.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Máximas em mínimas (46)

No restaurante, o empregado, brasileiro, olhou a miúda que ajudava o irmão a acabar de comer. Pelos 10 anos, ela; por metade dessa idade, o pequeno. E o empregado não resistiu...
-Gosto muito do que estou vendo, menina... Muito bonito, mesmo!
Ela sorriu e continuou na sua função. Passados minutos, o empregado regressou à mesa.
- Muito lindo, mesmo! É que existe ex-mulher, ex-marido, ex-prefeito, ex-presidente... mas não há ex-irmão, nem ex-pai, nem ex-mãe...