sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

"A educação tornou-se uma fábula", diz Lídia Jorge

Educação: os critérios da excelência
A titularidade foi dada a professores bons, excelentes, maus e muito maus. Não premiou nada, porque baralhou tudo
1.Ficarão por muito tempo célebres os braços-de-ferro que Margaret Thatcher manteve com os sindicatos do Reino Unido, como conseguiu vencê-los, e como à medida que os humilhava, mais ia ganhando o eleitorado do seu país. Na altura a primeira-ministra britânica era a voz da modernidade liberal, criou discípulos por toda parte, e ainda hoje, apesar do negrume da sua era, há quem se refira à sua coragem como protótipo da determinação governativa. Mas neste diferendo que opõe professores e Governo, está enganado quem associa o seu perfil ao de Maria de Lurdes Rodrigues. Se alguma associação deve ser feita - e só no plano da determinação -, é bom que o faça directamente com a pessoa do primeiro-ministro.
De facto, a equipa deste Ministério da Educação tem-se mantido coesa, iniciou reformas aguardadas há décadas, soube transferir para o plano da realidade as mudanças que em António Guterres foram enunciadas como paixão, conseguiu que o país discutisse a instrução como assunto de primeira grandeza, fez habitar as escolas a tempo inteiro, fez ver aos professores que o magistério não era mais uma profissão de part-time, arrancou crianças de espaços pedagógicos inóspitos, e muitos de nós pensámos que a escola portuguesa ia partir na direcção certa. Quando José Sócrates saía com todos os ministros para a rua, nos inícios dos anos lectivos, via-se nesse gesto uma determinação reformista que augurava um caminho de rigor. Não admira que o primeiro-ministro várias vezes tenha falado do óbvio - que era necessário determinar quem eram, na escola portuguesa, os professores de excelência. Era preciso identificá-los, promovê-los, responsabilizá-los, outorgar-lhes credenciais de liderança. Era fundamental que se procedesse à sua escolha. Mas a sua equipa legislou sobre o assunto e infelizmente errou.
2.Errou ao criar, de um momento para o outro, duas categorias distintas, quando a escola portuguesa não se encontrava preparada para uma diferenciação dual. A escola portuguesa tinha o defeito de não diferenciar, mas tinha a virtude de cooperar. O prestígio do professor junto dos alunos e dos colegas não era contabilizado, mas era a medida da sua avaliação. Pode dizer-se que era uma escola artesanal que necessitava de uma outra sofisticação. Mas, para se proceder a essa modificação com êxito, era preciso compreender os mecanismos que a sustentavam há décadas, e tomar cuidado em não humilhar uma classe deprimida, a sofrer dia a dia o efeito de uma erosão educacional que se faz sentir à escala global. Só que em vez da aplicação cuidadosa e gradual de um processo de mudança, a equipa do Ministério da Educação resolveu criar um quadro de professores titulares, a esmo, à força e à pressa. No afã de encontrar a excelência, em vez de se aplicar critérios de escolha pedagógica e científica, aplicaram-se critérios administrativos, de tal modo aleatórios que deixaram de fora grande percentagem de professores excelentes, muitas vezes os responsáveis directos pelo êxito pedagógico das escolas.
O alvoroço que essa busca de um quadro de excelência criou está longe de ser descrito devidamente. Basta visitar algumas escolas para se perceber como a titularidade está distribuída a professores bons, excelentes, mas também a maus e muito maus, e foi negada a professores competentes. Isto é, criou-se um esquema que não premiou nada, porque baralhou tudo. Os erros foram detectados por muita gente de boa fé, em devido tempo, mas o processo avançou, a justiça não foi reposta, nem sequer a nível da retórica política. Pelo contrário, aquilo que a razão mostrava à evidência foi sendo desmentido, adiado, ridicularizado, ou desviado para o campo da luta sindical dita de inspiração comunista.
3.O segundo instrumento ao serviço da excelência não teve melhor sorte. Era preciso inaugurar nas escolas uma cultura de responsabilidade que até agora fora relegada para determinismos de vária ordem, menos os estritamente pedagógicos, o que era um vício da escola portuguesa, pelo menos até à publicação dos rankings. Mas aí, de novo, a equipa do Ministério da Educação funcionou mal. Se os campos de avaliação do desempenho dos professores estão mais ou menos fixados, e começam a ser universais, os parâmetros em questão foram pensados por mentes burocráticas sem sentido da realidade, na pior deturpação que se pode imaginar em discípulos de Benjamin Bloom, porque um sistema que transforma cada profissional num polícia de todos os seus gestos, e dos gestos de todos os outros, instaura dentro de cada pessoa um huis clos infernal de olhares paralisantes. Ninguém melhor do que os professores sabe como a avaliação é um logro sempre que a subjectividade se transforma em numerologia. Claro que não está em causa a tentativa de quantificação, está em causa um método totalitário que se transforma num processo autofágico da actividade escolar. Aliás, só a partir da divulgação das célebres grelhas é que toda a gente passou a entender a razão da pressa na criação dos professores titulares - eles estavam destinados a ser os pilares dessa estrutura burocrática de que seriam os pivots. Isto é, quando menos se esperava, e menos falta fazia, estavam lançadas as bases para uma nova desordem na escola portuguesa. Como ultrapassá-la?
4.Não restam muitos caminhos. Ultimamente, almas de boa fé falam de cedência de parte a parte. Negociação, bondade, comissões de sábios. A questão é que não há, neste campo, nenhuma justiça salomónica a aplicar. O objecto em causa não é negociável. Tendo em conta uma erosão à vista, só a Maria de Lurdes Rodrigues, que sabe que foi longe de mais, competiria dizer "Não matem a criança, prefiro que a dêem inteira à outra", mas já se percebeu que não o vai fazer. Obcecada pela sua missão, que começou tão bem e está terminando mal, quererá ir até ao fim, mesmo que do papel dos mil quesitos que alguém engendrou para si só reste um farrapo. É pena. Depois de ter tido a capacidade de pôr em marcha uma mudança estrutural indispensável para a modernização do ensino, acabou por não ser capaz de ultrapassar o desprezo que desde o início mostrava ter em relação aos professores. E, no entanto, numa política de rosto humano, seria justo voltar atrás, reparar os estragos, admitir o erro sem perder a face. Ou simplesmente passar o mandato a outros que possam reiniciar um novo processo.
De facto, em Portugal existem vários vícios na ascensão ao poder. Um deles consiste em não se saber entrar no poder. Pessoas sem perfil técnico, ou humano, aceitam desempenhar cargos para os quais não foram talhados. Parece que toda a gente gosta de um dia dizer ao telefone, no telejornal, "Papá, sou ministro!", com o resultado que se conhece. Outro é não se saber sair do poder. Houve um tempo em que Mário Soares ensinou ao país como os políticos saem no tempo certo, para retomarem, quando voltam a ser úteis. Os grandes políticos conhecem a lei do pousio. E o objecto da disputa deve ser sempre mais alto do que a própria disputa. É por isso estranho e desmedido o que está a acontecer.
5.José Sócrates deverá estar a pensar que pode ter pela frente um golpe de sorte - Margaret Thatcher teve a guerra das Falklands - e até pode vir a ter uma maioria absoluta outra vez. Aliás, pelo que se ouve e vê, a frase da ministra da Educação "Perco os professores mas ganho o país", cria efeitos de grande admiração junto duma população ansiosa por ver braços-de-ferro no ar, sobretudo se eles vierem do corpo de uma mulher. Não falta quem faça declarações de admiração à sua coragem, como se a coragem prescindisse da razoabilidade. E até é bem possível que a Plataforma Sindical um dia destes saia sorridente da 5 de Outubro com um acordo qualquer debaixo do braço, como já aconteceu.
Mas a verdade é que, a insistir-se neste plano, despropositado, está-se a fomentar uma cadeia de injustiças e inoperâncias que só a alternância democrática poderá apagar. Se José Sócrates pediu boas soluções e lhe ofereceram estas, foi enganado, e deveria repensar nos seus contratos. Mas se ele mesmo acredita neste processo kafkiano, é uma desilusão, sobretudo para os que confiaram na sua capacidade de ajudar o país a mudar. Neste momento, entre nós, a educação tornou-se uma fábula.
Lídia Jorge. "Educação: os critérios da excelência". Público: 09.01.2009.

O "Diário" de Sebastião da Gama quase nos 60 anos

Em Setembro, passaram 50 anos sobre a publicação póstuma do Diário de Sebastião da Gama. Agora, em 11 de Janeiro, passam 60 anos sobre a data em que a mesma obra começou a ser redigida.

“Janeiro, 11 – Para começar, falou connosco durante uma hora o senhor Dr. Virgílio Couto. De acordo com o que disse, vão ser as aulas de Português o que eu gosto que elas sejam: um pretexto para estar a conviver com os rapazes, alegremente e sinceramente. E dentro dessa convivência, como quem brinca ou como quem se lembra de uma coisa que sabe e vem a propósito, ir ensinando. Depois, esta nota importantíssima: lembrar-se a gente de que deve aceitar os rapazes como rapazes; deixá-los ser: «porque até o barulho é uma coisa agradável, quando é feito de boa-fé». Houve nesta conversa uma palavra para guardar tanto como as outras, mais que todas as outras: «O que eu quero principalmente é que vivam felizes».”

É este o primeiro registo que o leitor pode encontrar no Diário. E logo aqui surgem as personagens da vida real que vão protagonizar todas as narrativas do livro: o professor (Sebastião da Gama, de seu nome), o professor metodólogo (Virgílio Couto) e os rapazes que constituíam uma turma da Escola Veiga Beirão, em Lisboa.
O Diário, começado a ser redigido em 11 de Janeiro de 1949, foi concluído em Março de 1950, data a partir da qual Sebastião da Gama ficou a aguardar a colocação para o ano lectivo seguinte, que não foi em Setúbal, como ele gostaria (já tinha leccionado na Escola João Vaz antes de ter entrado para o estágio), mas na Escola Industrial e Comercial de Estremoz.
O Diário surgiu por recomendação do próprio professor metodólogo, apresentado como um exercício de reflexão da prática lectiva. E Sebastião da Gama respeitou a sugestão e usou-a a rigor: por estas páginas, passa o mais impressionante de um ano da relação de um professor com uma turma, as reflexões de um docente, a palavra dos alunos (que aqui têm voz própria, são transcritos e referidos), uma formação humanista extraordinária, uma cultura vastíssima, um conhecimento da literatura alargado, a discussão de práticas e a adopção de modelos, uma sensibilidade espantosa para a causa educativa, muitas reflexões pessoais.
O Diário, de Sebastião da Gama, é um poema pedagógico e mantém, volvidas seis décadas, toda a frescura da juventude de um professor e dos seus alunos, toda a crença na formação humana, todo o respeito pelo outro, ambos comungando numa vida de sinceridade e de aprendizagem do mundo. Ainda hoje se torna pertinente lê-lo e, provavelmente, a sua leitura ajudaria a encontrar soluções para muitos dos problemas de que a educação enferma no presente.
Ao longo de 2009, vão começar a ser publicadas as “Obras Completas” de Sebastião da Gama, escritor, professor e poeta da Arrábida e português. O primeiro volume da colecção será precisamente o Diário, que será pela primeira vez publicado na sua versão integral. Este projecto confirmará a Sebastião da Gama o lugar merecido na divulgação, na memória e na cultura portuguesa.
“O que eu quero principalmente é que vivam felizes” bem poderia ser o lema a adoptar para a área da educação nos tempos que correm. Este desafio é, simultaneamente, a chave que convida para a leitura e para a apreciação de uma obra cujo conhecimento se afigura incontornável, apesar dos seus 60 anos, sobretudo para quem tenha interesse na causa da educação, independentemente da função que aí desempenha.
[foto: capa da 1ª edição de Diário (Lisboa: Ática, 1958)]

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Quando D. Manuel Martins fala...

Foi no programa radiofónico “O Caminho de Emaús” no domingo passado. O entrevistado, uma personalidade bem conhecida em Setúbal, em Portugal mesmo: D. Manuel Martins, bispo na cidade do Sado desde 1975 até 1998, hoje Bispo Emérito de Setúbal. Da sua conversa, de pouco mais de dez minutos, quatro registos, todos eles fortes, uns por emoção, outros pela mensagem, outros ainda pela convicção.
Bispo de Setúbal – “Deus deu-me a graça de incarnar naquela terra. Procurei viver os problemas daquela gente. Ali passei 23 anos.”
Missão da Igreja – “A igreja tem como missão evangelizar. (…) Na evangelização há também uma missão profética e a igreja tem a missão essencial de proclamar a dignidade da pessoa humana. A igreja deve estar mergulhada até ao pescoço na vida dos homens.”
Direitos do Homem – “Falta tudo [para ser cumprida a Declaração Universal dos Direitos do Homem]. Muito do que é fundamental está a ser esquecido. Não vou mais longe. Falo só no que diz respeito ao trabalho e, se quiser, ainda afunilo mais e digo no chamado código do trabalho.”
Direitos – “A igreja deve incitar as pessoas a que reconheçam a sua dignidade, os seus direitos. Aqueles que têm responsabilidade estejam muito atentos para se evitar uma sublevação social onde tudo pode acontecer.”

Umas quantas perguntas que deveriam ter resposta... a bem da educação e da escola

Há mais vida para lá da avaliação
Para que serve o sistema educativo? Para promover o conhecimento ou para explorar o seu valor económico?
Que poderia eu dizer, em jeito de balanço de 2008, que não tivesse já dito? Não seria pura perfídia fazer bons votos para um 2009 que, todos sabemos, não pode ser bom? Falemos então da vida que está para lá da avaliação. A evolução dos sistemas educativos das sociedades democráticas jamais dependerá da vontade exclusiva dos governos. A eficácia das transformações que aí se produzam será sempre função da capacidade de gerir os dinamismos que relacionam uma multiplicidade de actores: professores, alunos, pais, sindicatos, partidos políticos, empresas e comunicação social, entre outros. Quando se avança (ou recua, segundo a perspectiva) sem que os movimentos sejam precedidos de suficiente debate social, a sua duração é efémera. Apesar de submersos em mudanças, os sistemas educativos podem, então, regredir. Quando se estudam os processos de desenvolvimento dos países mais ricos e industrializados, é fatal que se evidencie uma correlação positiva entre esses processos e a melhoria do nível de educação das respectivas populações. Mas quando se estudam os processos de desenvolvimento dos seus sistemas educativos, a dificuldade de apreensão das suas enormes complexidades brinda-nos com mais hipóteses que evidências. Em todo o caso, a persistência na análise permitirá verificar que, em todos eles, houve um momento importante de debate social visando encontrar respostas que legitimem as decisões políticas. Nas democracias adultas, as questões que se seguem foram sempre alvo desse debate. Para que serve o sistema educativo? Para promover o valor intrínseco do conhecimento ou para explorar o valor instrumental do conhecimento? Deve ter por objectivo a formação das mulheres e dos homens, em obediência a um quadro de referência concebido pela sociedade que o paga? Ou deve ter por objectivo o desenvolvimento de cada ser, em todas as suas dimensões, por forma a tentar transformar em acto as potencialidades diferentes de cada um, sem sujeição a quadros de chegada? Deve dar prioridade ao desenvolvimento igual de todos ou deve-se orientar para a selecção e formação de elites?
Que fazer para democratizar os sistemas educativos, sendo certo que factores exteriores continuam a influenciar de forma determinante os percursos dos estudantes? Que fazer para injectar qualidade na quantidade?
Como se combatem o insucesso e o abandono escolares, os sentimentos de perda e falhanço, sem diminuir a exigência e o rigor? Como interiorizar, em todos, que a corrida, a qualquer preço, aos diplomas e a falsos resultados não promove a verdadeira realização pessoal a que os alunos têm direito, nem gera a eficácia colectiva de que as economias carecem?
Que valorizar mais na formação dos professores? O conhecimento científico ou os métodos para os transmitir aos alunos? As dimensões psicológica e pedagógica ou a dimensão estritamente disciplinar? Como mantê-los actualizados ao longo da carreira? Como motivá-los em permanência? Como compatibilizar a tendência para tudo pedir à Escola com os limites humanos dos seus profissionais? O que podem os critérios administrativos impor a um professor sem ferir a sua indispensável autonomia intelectual e pedagógica?
Que esforço de financiamento está a sociedade disponível para fazer pela sua Escola, que esforço é legítimo esperar que ela faça, no cotejo com os outros sistemas vitais para o bem-estar colectivo?
Amanhã vota-se na Assembleia da República a suspensão da avaliação do desempenho dos professores. No dia 19 há de novo greve. Gastámos um ano perfazendo um círculo de conflitos violentos. Encerrámo-lo, rodeados de cacos, no ponto de partida. Entramos 2009 como passámos 2008, sem atender a que há mais vida para lá da avaliação. Um dia acordaremos. E seja em que ano for, esse será um bom ano!
Santana Castilho. "Há mais vida para lá da avaliação". Público: 7 de Janeiro de 2009.

E como se constrói a diferença?

2009 e a escola portuguesa
Neste novo ano, o país deveria assumir como prioridade o combate sem tréguas à indisciplina e a promoção de uma cultura de exigência nas nossas escolas. No nosso sistema de ensino, são estes os problemas credores de uma resposta imediata.
Não se ignoram as deformações estruturais do "sistema": o centralismo burocrático castrador de diversidade e inovação, os programas e currículos desfasados ou a insustentável taxa de abandono escolar. Do que aqui se pretende tratar hoje é, porém, do curto prazo. Da "crise", do impasse, da angústia que se vive nas nossas escolas.
Se quisermos encontrar atenuantes para o aumento do número de casos de desrespeito, indisciplina e até violência, não nos faltarão munições. Ele é o contexto familiar, as dificuldades de integração, a exclusão social ou até a influência dos videojogos. Contudo, a crescente pressão do lado das "causas externas à escola" só deve ampliar a responsabilidade daqueles de quem se espera que defendam, sem tibiezas, que a escola é um espaço de formação cívica e não um recreio para delinquentes. Exige-se uma atitude diferente, de intransigência, de pais e professores. Mas, em primeira instância, impõe-se uma inversão da complacência que tem caracterizado o ministério. A desvalorização permanente dos casos mais mediáticos é um factor reprodutor de indisciplina nas salas de aula.
O país tem assistido à imposição ideológica de uma cultura de facilitismo. A coberto da "escola inclusiva", despreza-se o esforço, desincentiva-se o mérito e alarga-se a distância entre os que podem recorrer a outras fontes (familiares e privadas) e os que têm de se resignar à decrepitude do ensino estatal. Este Governo tem horror a exames, fomenta os "diplomas" a granel e rejeita reprovações de "potenciais excluídos", isto é, de quem pouco ou nada sabe. Esta política pode criar rosadas ilusões, mas conduz o país para uma mediocridade que as novas gerações pagarão a um preço elevado. Portugal precisa do oposto: de uma aposta na exigência, trabalho, mérito, conhecimento, nas competências e na qualidade de ensino. Não há outra via para o sucesso. É por isso que é incompreensível a obsessão governativa na imposição de um modelo de avaliação de professores que só tem causado instabilidade, desmotivação e perda de autoridade dos professores.
O Governo tem exibido uma confrangedora impotência para ultrapassar o impasse em que se atolou. É hora de acabar com esta teimosa e insuportável guerrilha e de encontrar uma solução equilibrada que garanta que os professores passarão a ser avaliados, com um modelo justo e fazível. Só falta vontade política.
Enquanto não há arte e engenho para dar este simples passo, o ambiente nas escolas degrada-se e o Governo vai perdendo força e energia para se concentrar nas questões verdadeiramente relevantes e complexas do nosso modelo de ensino. Um novo ano pode ser um bom pretexto para uma nova atitude.
Pedro Duarte. "2009 e a escola portuguesa". Público: 7 de Janeiro de 2009.
Tudo bem. E como se poderá construir a diferença? É que votar no Parlamento uma moção a favor ou contra, defendendo a permanência ou exigindo a suspensão, é algo que depende do número de votos, que nem sempre das opiniões, isto é, depende, em muitos casos, do jogo político, como se tem estado a ver. E as consequências? E as alternativas? Umas devem ser medidas (e nem sempre o são), outras devem ser apresentadas (é para isso que as diferenças existem no Parlamento e entre as pessoas). O debate tem que primar por mais incisão, informação e coerência.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Dia de Reis

Conta o evangelista Mateus (2: 1-12) que os Reis Magos vieram do Oriente, seguindo uma estrela que lhes indicaria o caminho até à gruta em que estava a Sagrada Família com o Menino recém-nascido. Depois, vieram pormenores que o tempo se foi encarregando de adornar, assim enriquecendo a trama da história.
A tradição baptizou-os como Baltasar, Gaspar e Belchior (ou Melchior), cada qual representante de uma raça, todos representantes de tronos. Idades não se sabem, apesar de já ter havido quem as atribuísse a cada uma das três personagens. Na visita, cada Rei levou o seu presente: ouro, a cargo de Belchior; incenso, pelas mãos de Gaspar; mirra, ofertada por Baltasar. A cada um destes elementos têm sido atribuídas simbologias diversas.
Simpáticos, os Reis Magos têm lugar marcado na toponímia portuguesa, como consta num lugar da freguesia de Barroselas (distrito de Viana do Castelo). O calendário regista também que 6 de Janeiro é o seu dia, supostamente dando ideia do tempo que mediou entre o nascimento de Cristo e a chegada destes visitantes. Na cidade brasileira de Natal, tiveram direito a fixação num monumento. A literatura tradicional da época natalícia não os esquece e Sophia de Melo Breyner Andresen deu-lhes guarida na narrativa “Os três reis do Oriente”, inserida em Contos Exemplares (1962).

domingo, 4 de janeiro de 2009

Professores que (nos) marca(ra)m

D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, 60 anos, é o entrevistado na última edição da revista Tempo Livre (Lisboa: Fundação Inatel, Dezembro.2008, nº 199), em trabalho conduzido por Eugénio Alves. Entre os muitos assuntos abordados, também a educação passou pela conversa. É esse extracto que apresento.
Tempo Livre: Em Agosto passado, e a propósito do início do novo ano escolar, afirmou que ‘o futuro da educação, dentro e fora de Portugal, estará mais do lado dos educadores e dos educandos do que das matérias em si mesmas’…
Manuel Clemente: Todos sabemos isso, graças aos professores que nos marcaram. Claro que as matérias também eram importantes. Mas marcaram-nos porque eram realmente grandes professores. Aquela matéria não era debitada, saía-lhes da vida e do seu próprio pensamento. Isso é que dá a riqueza do ensino. O resto podemos fazer em casa com o computador.
TL: Aí está um tema bem quente na sociedade portuguesa…
MC: O que notamos, até devido a essa mobilidade de pessoas e professores, é que há muito pouca integração comunitária. Se o ensino é basicamente transmissão de cultura intergeracional isso exige alguma estabilidade de agentes e profissionais. É um problema muito complicado.
TL: Os professores sentem-se muito maltratados…
MC: Se eles se queixam, alguma razão hão-de ter. E não se trata apenas destas questões correntes. Mas também se queixam de outras coisas que têm a ver precisamente com esse diálogo intergeracional ou falta dele. Sei de vários colegas que assim que puderam reformar-se não hesitaram, antes de mais porque estavam fartos, sentiam-se desgastados.

E havia esperanças de que fosse de outra maneira?

Escola: mais do mesmo
No início de 2009, nada de novo ou estimulante existe na escola portuguesa. Terminou o ano com mais do mesmo: falta de entendimento entre professores e Ministério da Educação (ME), alunos sem participação activa no quotidiano escolar, pais desinteressados da escola e só raramente integrados em associações de encarregados de educação. Uma iniciativa correcta do ME - a atribuição do Prémio ao melhor Professor do ano - não suscitou qualquer interesse na opinião publicada ou pública, arriscando tornar-se em mais uma operação rotineira sem qualquer impacte na vida da escola.
Os acontecimentos de uma escola do Porto, em que um aluno apontou um revólver de plástico a uma professora, foram de imediato desvalorizados por dirigentes do ME e classificados de "brincadeira de mau gosto". Parece que o facto de ser uma arma a brincar tranquilizou a tutela, na linha de outras declarações oficiais em que a indisciplina é sempre vista separada da violência e como tal considerada de menor importância. O risco é evidente: se não valorizarmos o pequeno incidente de indisciplina, se não respondermos de imediato com medidas correctivas de responsabilização, a desordem cresce dia após dia. Sabe-se hoje que a degradação do clima na escola progride por estádios, desde a recusa de regras na turma e pouco trabalho, até actos graves de delinquência (agressão a professores, destruição de material escolar), com etapas intermédias de pequenos delitos, comportamentos provocatórios e desafios à autoridade que denunciam uma violência latente. Ora a pistola de plástico insere-se num estádio intermédio de provocação que prenuncia momentos em que as regras podem passar a ser a dos grupos violentos e intimidatórios, em vez de serem construídas na sala de aula, a partir de um regulamento da escola organizado com a participação de todos.
O ME deveria criar as condições mínimas de funcionamento das salas de aula, dando aos professores força para combater a indisciplina, através da co-responsabilização de docentes, alunos e pais. Para isso o professor, amparado nas estruturas da escola (com particular realce para o Conselho de Turma), deveria ter poder para, de imediato, conseguir actuar no controlo disciplinar. Se o comportamento causador de perturbação for cedo diagnosticado, a medida correctora impõe-se com coerência e será apoiada pela maioria dos alunos e seus pais.
Concretizando: se a escola trabalhar o mais possível com a família, se os professores formarem um grupo coeso - a partir de acções de formação dirigidas à prática pedagógica com turmas heterogéneas e na consequência do trabalho no Conselho de Turma - se os alunos forem ouvidos com respeito sobre o funcionamento desejável na sala de aula, se o comportamento mínimo de indisciplina for logo detectado e respondido com medidas definidas previamente para aquele comportamento, o clima escolar poderá melhorar. Se, pelo contrário, tudo for remetido para o burocrático e aborrecido "Estatuto do Aluno" ou para o Ministério Público (não se vislumbra, até agora, qualquer sucesso na prometida e muito propagandeada acção desta estrutura), nada poderá melhorar.
Noutra perspectiva, interessa sempre a história relacional do incidente. Não é por acaso que aquela turma e aquele aluno escolheram o momento: todo o comportamento indisciplinado tem atrás de si a construção/destruição de uma relação pedagógica, só possível de compreender através de uma análise detalhada do que se passou com os diversos intervenientes. Por que razão as coisas correm mais ou menos bem com uns docentes e decorrem em catástrofe com outros? Por que motivo alguns professores sinalizam certos alunos como problemáticos em termos disciplinares e outros não concordam? Pela razão de que os mestres com sucesso ganharam tempo, no início do ano, a construir uma relação de respeito recíproco com os seus alunos.
Em derradeira análise, o episódio da pistola de plástico é mais um exemplo de como este ME se concentrou no acessório: enquanto se discutem grelhas de avaliação tornadas cada vez menos exigentes pela pressão dos protestos, os professores são deixados sozinhos e sem meios perante a indisciplina crescente.
Ficará para a história da educação em Portugal esta oportunidade desperdiçada e este arrastar da degradação até... às próximas eleições.
Daniel Sampaio. "Escola. mais do mesmo". Público (“Pública”): 04.01.2009

sábado, 3 de janeiro de 2009

Intervalo (11)

Crise em 2009
Mulher (entrando na peixaria): Bom dia, sr. Manel ! Tem jaquinzinhos?
Manel: Tenho sim, minha senhora!
Mulher: Dê-me então duas postinhas do meio, por favor!!!
(Acabada de receber, enviada por uma amiga)

Afinal, havia mais gente a querer dizer o que o Presidente disse...

«(...) Quem ler a reacção do porta-voz do PS, Vitalino Canas, à mensagem de Ano Novo do Presidente da República fica com a certeza de que com um pouco de rins todos os textos podem ser lidos ao sabor das conveniências. "Foi um discurso importante e realista, que fala dos tempos difíceis que aí vêm, mas também cria confiança. Existe, por isso, uma grande convergência entre o discurso do Presidente da República e o do Governo", afirmou o dirigente socialista. Convergência, quando Cavaco Silva denuncia "vulnerabilidades sérias" na economia portuguesa, enquanto dias antes José Sócrates se esforçara por garantir que o Governo está agora em condições de "responder melhor às dificuldades económicas que nos chegam"? Convergência, quando o Presidente reclama "uma atenção acrescida à relação custo-benefício dos serviços e investimentos públicos", dando suporte aos avisos que chegam via PSD ou de outros sectores da vida pública? Convergência quando (...) o discurso presidencial refere por diversas vezes a necessidade de "falar verdade" sobre a crise?
Apesar do uso ponderado de palavras ou expressões para não alimentar conflitos com o Governo, o discurso de Cavaco Silva trouxe a exigência da verdade para o centro de gravidade da vida política, lembrando que a verdade é uma condição imprescindível para "para a existência de um clima de confiança entre os cidadãos e os governantes". Ou, por outras palavras, "não é com ilusões que os portugueses podem ser mobilizados para enfrentar as exigências que o futuro lhes coloca". Com este argumento, Cavaco cola-se claramente às denúncias que a oposição em bloco, e principalmente o PSD, têm feito em relação ao que consideram ser a "propaganda" do Governo. E desvaloriza os recursos de que José Sócrates diz dispor para "ajudar as famílias, os trabalhadores e as empresas a superarem as dificuldades". (...)
O que o Presidente disse é que o país não pode continuar a viver a normalidade displicente dos últimos anos. Se as crises não surgem nem se sentem de um dia para o outro, estão à nossa frente todos os sinais de que desta vez os seus efeitos vão ser duros e que, pelo menos, todos sentiremos os efeitos do agravamento do desemprego ou da exclusão social. Por muito que o Governo nos tente tranquilizar com a folga orçamental - que é verdadeira -, saibamos também pela voz do Presidente que a vulnerabilidade do país impõe a recuperação de níveis de endividamento aceitáveis para a nossa realidade. Convergência nos discursos? Só se for nos apelos à energia e coragem dos portugueses para lidar com a dureza dos tempos que se anunciam. Apelos que fazem falta, desde que não nos levem a acreditar que, com a mão do Governo e uma boa dose de improviso, a crise será uma miragem. Falar verdade é responder a esta crença com um rotundo não.»
Manuel Carvalho. "Falar verdade". Público: 03.01.2009