quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Visitar a Arrábida em 1903 (1)

 


Intitula-se Uma Excursão à Serra da Arrábida o opúsculo editado em Lisboa pela Academia de Estudos Livres em 1903, conjunto de três textos assinados por outros tantos autores: J. Cardoso de Sousa Gonçalves (1864-1946), responsável pelo primeiro capítulo, “Notícia histórica”; Francisco Luís Pereira de Sousa (1870-1931), que apresenta uma “Ideia muito geral da Geologia da Serra da Arrábida”; Guilherme A. Vidal Júnior, que estabelece o “Roteiro de Lisboa a Setúbal”.

Fundada em 1889, através da loja maçónica “Simpatia e União”, a Academia de Estudos Livres propunha-se desenvolver entre os seus membros “o gosto pelo estudo e pela ciência”, organizando conferências e visitas de estudo em prol da divulgação cultural e publicando os textos de algumas sessões e os roteiros de algumas visitas, de que são exemplos títulos como O Castelo de Palmela - Breve Notícia Histórica (1903) ou Joaquim Silvestre Serrão e a Música Religiosa (1906), para mencionar apenas os que cobrem esta região.

Dos três textos que integram Uma Excursão à Serra da Arrábida, o mais extenso é o primeiro, que apresenta a serra, sobretudo na sua dimensão cultural, e motiva o leitor para fazer a visita, aliciando-o com a paisagem e com as histórias ligadas à Arrábida. Rapidamente procede à localização do promontório e menciona as espécies florestais que o povoam (alfarrobeira, sobreiro, azinheiro e medronheiro), deixando de lado a explicação do nome “Arrábida” com uma desculpa de quem não se quer meter em discussões alegadamente pouco proveitosas — “sobre a etimologia da palavra ‘Arrábida’, perdem-se os autores em conjecturas diversíssimas, cada uma obedecendo, mais ou menos, à fantasia. Ocioso nos parece, portanto, perder tempo em divagações sobre o assunto.” Assim resolvida a questão, é o tempo descritivo aproveitado para motivar o visitante através da paisagem, em dois parágrafos de observador rendido — “O panorama que se avista de vários pontos da serra é incomparável de beleza e pitoresco e só ele vale a canseira da ascensão e os incómodos da viagem. Poucas vezes a Natureza foi tão pródiga de perspectivas encantadoras como neste recanto da nossa terra, tão esquecido dos viageiros e abandonado dos conchegos da civilização.”

Depois deste olhar geral, segue-se a contemplação sobre mais específicos recantos: “Para qualquer lado que nos debrucemos do cume da serra, o espectáculo é fantástico, soberbo. Para o norte, são os frescos vergéis da formosa Azeitão, a fidalga Sintra do sul, os pitorescos grupos de aldeias, fechadas no cinto do copado arvoredo, o Tejo, faiscante de luz; ao longe, e ao fundo, a casaria de Lisboa, tão grandiosa, estendida preguiçosamente pelas suas sete colinas; para o sul e sudoeste, o vasto estuário do Sado, as ruínas de Tróia, as planícies do Alentejo, a vastidão do oceano, épico campo de luta da nacionalidade portuguesa. Dêem agora a estes vários quadros, cheios de brilho, a cor, a vida, a animação duma natureza em festa, emprestem-lhes os mil cambiantes de pintor de génio, e terão o motivo porque nos sentimos subjugados, porque nunca esquecemos a impressão recebida nos píncaros da serra, quando da primeira vez lá subimos...” A extensão da referência é considerável, mas vale por este olhar em círculo, ora para perto, ora para a distância, tanto para o pormenor como para o conjunto, numa tentativa de compor uma tela pela utilização da palavra, num desenho que vale como convite ou como desafio experimentado, haja em vista a marca pessoal que ficou no autor quando subiu a serra pela primeira vez.

Segue a apresentação da Arrábida pela narrativa do episódio do mercador Hildebrando, que, no século XIII, salvo da iminência de um naufrágio ao largo da Arrábida, vai originar o culto de Nossa Senhora da Arrábida a partir da chamada Ermida da Memória, virando a serra marco de religiosidade que Sousa Gonçalves acha que se fortificou no século XVI, quando o primeiro Duque de Aveiro, D. João de Lencastre (1501-1571), a abriu ao andaluz Frei Martinho de Santa Maria, que ali chegou com diversos companheiros, originando a fundação do Convento (1542). Passadas estas histórias, misturando-se a primeira com a lenda, ao leitor (ou visitante) é dada a conhecer a escultura em mármore “que se encontra encostada à frontaria do mosteiro”, ali mandada erigir em 1622 pelo terceiro Duque de Aveiro, D. Álvaro de Lencastre (1540-1626) — e não em 1662 pelo quarto Duque, como Sousa Gonçalves refere —, representando Frei Martinho “preso à cruz da mortificação. Os olhos estão fechados para a vaidade do mundo, a boca cerrada por cadeado, mostrando quanto era avaro de palavras, o peito com uma fechadura para que nele não entrem pensamentos terrenos. Numa das mãos sustenta uma tocha, a fé alumiando as consciências; na outra, as disciplinas com que se flagela.” Toda a simbologia remete para a austeridade e rigor que a comunidade arrábida punha no seu quotidiano, considerando o autor que ela “se tornou notável pelo rigor das privações que se impôs.” 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1680, 2026-01-21, pg. 10.


sábado, 17 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (6)

 


Entre os leitores que escreveram a Sebastião da Gama a propósito do seu primeiro livro, Serra-Mãe, contam-se também os testemunhos de Hernâni Cidade (1887-1975), António Botto (1897-1959) e Bertil Maler (1910-1980). Em carta datada da “Ante-véspera de Natal de 1945”, Cidade (que também foi professor do jovem poeta) reagia, logo após a leitura do livro: “Agradeço-lhe a hora gratíssima que me deu à alma. À alma, muito mais do que aos sentidos, que a sua Poesia é toda tocada de transcendente e, em si, o folhado, como a maresia, como tudo com que encanta os sentidos a sua Mãe-Serra, tudo acorda ressonâncias fundas de alma eleita, da linhagem de Frei Agostinho, tão famintas de Infinito que só pairando sabem cantar, como as cotovias.” Uns dias depois, em 5 de Janeiro, era o poeta António Botto que enviava curta mensagem, a exigir mais do escritor que se iniciara: “Este seu pequeno volume de versos podia ser, se você quisesse, uma verdadeira grinalda de Poeta! Há umas notas muito bonitas, mas um propósito tão acentuado de brincadeira ou ironia, que parece uma rapaziada à margem dessa divina arte maravilhosa!...” Também o hispanista sueco Maler (que publicou estudos sobre literatura portuguesa), em 21 de Agosto de 1946, cerca de um mês depois de regressar de Lisboa a Estocolmo, enviava missiva para Sebastião da Gama, dizendo-lhe que lera o seu livro durante o período de descanso da viagem, fora da capital — “Li e reli os seus belos poemas. Não se devem ler no barulho das capitais, é a solidão da serra - que muito se parece ao campo sueco - que lhes convém.” E acrescentava: “A leitura do seu livro deu-me um verdadeiro prazer. Não só um prazer estético causado pela beleza da forma e do ritmo, mas ainda um prazer emocional. (...) A simplicidade sublime - algumas linhas até me deixaram uma impressão como se estivesse a ler os salmistas -, o sentimento da Natureza, a profunda religiosidade, eis o que retenho dos seus poemas.” 

Além das opiniões chegadas via epistolar, a imprensa foi um meio importante para a divulgação de Serra-Mãe, quase desde o momento em que apareceu — saído o livro em 18 de Dezembro de 1945, a recepção crítica manteve-se a um ritmo constante até Outubro do ano seguinte. Logo dois dias depois do seu aparecimento, Álvaro Salema (1914-1991), no Jornal do Comércio, na rubrica “Horizonte”, dizia da obra que vinha “revelar ao nosso estreito meio literário uma personalidade vigorosa de lírico e de místico, arrebatado em visões interiores e em ansiedades que constituem riqueza profunda de uma alma”, apresentando como sendo “um notável poeta este moço de alma perturbada, talento literário de forte inspiração, inquieto pesquisador de imagens.” Salema voltaria a escrever sobre o livro na Vida Mundial Ilustrada, em 10 de Janeiro seguinte, afirmando que “Sebastião da Gama é, inegavelmente, um artista de grandes possibilidades”, embora “o esplêndido ritmo de que se mostra capaz” se quebre “inutilmente, muitas vezes, por exageros de modernidade formal que pouco significam”.

O mês de Dezembro de 1945 viu mais duas notas de leitura a propósito de Serra-Mãe — sob o título “Carta ao Poeta Sebastião da Gama”, Luís Filipe Lindley Cintra escrevia no Diário Popular (26 de Dezembro): “Tu sabes que discordei do título do teu livro. Hoje arrependo-me. Fizeste bem em conservá-lo. Era preciso que todos soubessem que o Poeta em ti nasceu da Arrábida, dessa Arrábida de que tu fazes parte, que eu não posso conceber sem ti. (…) A Serra existe para ti como tu existes para a Serra. Tinha de ser assim.”; e, quase a terminar o ano, em 29 de Dezembro, José Noronha Gamito (1922-2011) apreciava no periódico setubalense A Indústria: “Em Sebastião da Gama, quando o tom descritivo aparece não é já aquele descritivo com fulcro no exterior, aquela conformidade primária com a perspectiva que obriga à narração daquilo que está patente aos olhos do corpo, mas antes o especial descritivo interior, que se desenvolve inteiramente sobre aquela outra paisagem íntima, subjectiva, complexo pessoal de imagens, sentimentos e ideias. (…) Sebastião da Gama descreve-nos a Arrábida espiritual, subjectiva, gigantesca e especial na intimidade de cada homem que sabe pensar o que vê.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1675, 2026-01-14, pg. 10.

Foto: Sebastião da Gama contemplando a Arrábida, 1943 (Arquivo Associação Cultural Sebastião da Gama)


quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (5)

 


Quando Serra-Mãe saiu, Sebastião da Gama empenhou-se na sua divulgação, quer nas ofertas aos amigos e aos mais próximos, quer no envio para quem pudesse ser o seu leitor crítico. Uma das primeiras dedicatórias (talvez a primeira) terá sido para Joana Luísa da Gama, quando, tendo como data o Natal de 1945, o poeta autografou: “Para Ti, Amor, porque sabes ler os meus versos com uma voz que já se não distingue da minha.” Outras dedicatórias autógrafas existem, mas não datadas, ainda que se pense que serão do tempo entre a saída do livro e o ano seguinte — Mário Beirão (1890-1965) recebeu exemplar dedicado com traços da serra (“Para Mário Beirão, alma inquieta provida de clarões, a quem, na Arrábida, desceu a sombra de Agostinho a dar as boas-vindas”); no exemplar que seguiu para Miguel Torga (1907-1995), era manifestada a admiração pela obra já publicada do escritor e médico (“Ao Poeta admirável das Odes e de tudo o mais que me faz ser seu”); Luís Amaro (1923-2018), o amigo que conhecera no espaço da editora, teve o valor da amizade a iluminar a dedicatória (“Para o Luís Amaro: Nada mais me trouxera a Serra-Mãe do que a tua amizade e já tinha valido a pena”).

No mesmo dia 18 de Dezembro de 1945 (data em que o livro apareceu na montra da livraria, em Lisboa), Sebastião da Gama fez seguir um exemplar para José Régio (1901-1969), mas não terá havido resposta imediata, pelo que, em 7 de Fevereiro de 1946, o poeta azeitonense escrevia de novo para Portalegre: “É tão grande o interesse em que leia os meus versos e me diga, sem receio de melindrar-me se lhe não agradarem, o que pensa deles que me atrevi a vir pedir-lhe isso mesmo, contando com a sua benevolência.” Três meses depois, em 25 de Maio, era Teixeira de Pascoaes (1877-1952) o destinatário de uma carta em que o jovem poeta se apresentava: “Deixe-me dizer-lhe quem sou, para me perdoar um pouco a sem-cerimónia que tomei: sou um rapazola de vinte e dois anos que aprendeu a ser Poeta na Serra da Arrábida. Ali fui medrando entre moitas de alecrim e rochas penduradas sobre o Mar – e no Dezembro passado dei ao público o meu primeiro livro – Serra-Mãe. (...) Agora gostaria que lesse os meus versos com um bocadinho de carinho. E, se eles o merecessem, que me mandasse algumas palavras, que hão-de ser sinceras como as árvores, sobre o que sente da Serra-Mãe.”

Em data que não se consegue precisar, Régio respondeu, em jeito de explicação e de apreciação: “Devo dizer que terá tido influência em tal demora a perplexidade que me tolhe ao ter de pronunciar qualquer juízo sobre uma obra como a sua. Claro que esse juízo pode enganar-se ou errar — mas nunca deixar de ser sincero. Perante o meu Amigo, perante as gentilezas que me tem dirigido, e sobretudo pela influência que sinto das minhas coisas literárias no seu livro, a minha situação é ainda mais delicada. Creio que o seu livro é uma obra de hesitação e promessa, na qual o talento literário se torna incontestavelmente visível, como visíveis se tornam as influências várias. (…) É um livro que já promete muito e nos deixa à espera.” De Coimbra, Miguel Torga responderia, em 18 de Maio de 1946: “Nem posso medir o feito nem adivinhar o que está por fazer, louvo o que entendo e espero o porvir de boa-fé. Ora é isso o que me acontece agora com o seu livro. Não gosto de muita coisa que lá vem, e tenho dificuldade em vislumbrar os seus caminhos futuros. Mas estou em presença de um Poeta que escreveu: ‘Pequeno Poema’, ‘Nós’, etc. Resta-me, pois, festejar o que me parece conseguido, que é muito, e dar tempo ao tempo.”

De Amarante, Pascoaes não terá enviado resposta, mesmo apesar de nova insistência saída do Portinho da Arrábida em 6 de Agosto de 1946 — “Há talvez três meses mandei-lhe uma carta e o meu livro Serra-Mãe; sei que não é o senhor desses poetas que se calafetam dentro das suas torres de louros e não abrem a mínima frincha para falarem por ela a um camarada mais novo: por isso mesmo, lhe mandei o livro; e por isso mesmo tenho estranhado o seu silêncio. (...) Gostaria de saber qual o eco, se o tiveram, que os meus versos tiveram nuns e noutros.” Mesmo com esta persistência, parece não ter havido reacção de Pascoaes, uma opinião tanto mais importante para Sebastião da Gama quanto o poeta do Marão tinha já escrito sobre a Arrábida e sobre Frei Agostinho da Cruz. Aquando da sua viagem ao Norte, em meados de Setembro de 1951, acompanhado por Joana Luísa (sua esposa desde Maio desse ano), Sebastião da Gama marcou encontro com Pascoaes, relatado em crónica que publicou no Jornal do Barreiro, em 11 de Outubro de 1951 — da leitura de tal texto se conclui, como apontou António Mateus Vilhena (em ensaio sobre a correspondência de Gama para Pascoaes publicado em 2019), que “um dos assuntos que polarizou o diálogo (...) foi seguramente a Arrábida”. E, de toda a conversa, uma frase de Pascoaes impressionou o visitante: “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.” Não contendo estas afirmações uma apreciação ao livro inaugural do jovem, reforçam, pelo menos, o sentido de oportunidade da obra Serra-Mãe como um momento importante para o canto e para o louvor da Arrábida, pelo que terá sido, talvez, a melhor apreciação que Pascoaes poderia ter feito à obra...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1670, 2026-01-07, pg. 9.