quarta-feira, 22 de novembro de 2023

José Gardeazabal e a literatura como porquê (2)



A personagem central de A mãe e o crocodilo, de José Gardeazabal, este operário da fábrica de reciclagem, fica. Mas fica transformado, assim como a sua vida. Vai havendo um progressivo apagamento da mãe, no caminho do esquecimento (“esquecer é uma viagem de adeus”), até chegar o seu último momento ou despedida, num tempo em que já não há segredos de família que alimentem Vladimir. Neste caminho, há também a descoberta da identidade do pai e da razão da separação, revelação que coincide com o final de vida da mãe. Há também a despedida do crocodilo, largado num rio que chegará à Alemanha - o animal de companhia silencioso, pesadelo sempre descrito, de presença obrigatória mas alheio, que Vladimir acreditara ter sido trazido por um missionário (mas que a mãe corrigia, dizendo ter sido um mercenário, mais tarde vindo a perceber-se o porquê desta designação antipática), e que, no final do livro, surge anulado - “Ao Benito, nunca mais o vi, desapareceu. Naufragou, afogou-se? O crocodilo pode não ter existido.” A perda desta companhia é ainda responsável pela incerteza de Vladimir no termo da história, oscilando entre a probabilidade de reencontrar Noor e rumar para Paris e o sonho em que se vê impossibilitado de entrar na Alemanha “por coxear da perna esquerda”...

Esta segregação (ou momento impeditivo) colide com a perfeição e com a história dos tempos, com a construção da identidade e com o sentimento de humanidade. Se, por um lado, “os países não passam de variações de uma mesma coisa”, por outro, a Alemanha, o território desejado, significa a diferença, uma distância que não é apresentada como positiva - “A Alemanha devia poupar nas surpresas, algumas das piores surpresas foram alemãs, é da história”. Poderá Vladimir sonhar com um tempo melhor?

No último capítulo, ao olhar os outros, os que com ele trabalharam e que ele foi descobrindo, não nota que o tempo lhes tenha dado melhores condições ou suficientes alterações, antes parecendo que cristalizaram naquilo que já se adivinhava sobre o destino de todos. Nesse mesmo capítulo, uma das derradeiras revelações da mãe mostra-lhe a violência exercida sobre a sociedade a que pertencia a família, numa história que circulava na família, desde a avó de Vladimir: “Os soldados estavam de pé, de cada um dos lados da fila de homens. Tinham já acontecido muitos mortos quando a minha avó viu dois prisioneiros a avançar, sem estrelas ao peito. Toda a gente os viu. (...) Trouxeram dois triângulos cor-de-rosa e penduraram os triângulos ao peito dos homens, mas por pouco tempo, porque os homens iam morrer. Mandaram-nos tirar a roupa e descer para o fundo da vala e eles desceram de mãos dadas e depois morreram. Foram mortos. Warum?” E a passagem deste testemunho pela mãe continua: “O que a tua avó viu nesse dia fê-la prometer não ter um filho. Até ao meu nascimento. Eu nasci menina, sou a tua mãe. Até eu nascer, a tua avó teve a vida prisioneira daqueles dois homens nus a desaparecerem.”

Esta revelação não é absoluta novidade, pois Vladimir crescera a ouvir uma história que se repetia nas gerações. Ainda antes da chegada de Noor, ele reflecte sobre a vida, qualificando-a com um adjetivo forte - “parada”. Uma vida parada, portanto. E, depois, retrospectiva: “Histórias de família. Bisavó: a vida não era fácil em 1942, nem em 1946. Avó: a vida não era fácil em 1968. Mãe: a vida não foi fácil em 1995 nem em 2001. Apesar disso, eu nasci. Ouço isto desde criança. A vida foi sempre difícil, as datas são aproximadas.” A dificuldade repetida, repisada, de geração para geração, e o resultado a ser sempre o mesmo. E rapidamente associamos os tempos de crise (para usar uma palavra eufemística) em que a morte campeou pela Europa (com particular incidência na Europa de Vladimir) e pelo mundo, em que o medo se implantou, em que as incertezas tiveram livre circulação.

Este romance não apresenta nada de ingénuo, como se tem visto. Poderemos ainda falar das remissões sugeridas pelos nomes - Vladimir torna-se evidente, tal como Benito, o crocodilo (para quem ainda chegam a ser sugeridos sobrenomes como Adolfo ou Iosef, também eles plenos de referência) ou o de Lazarus (o patrão da fábrica que chegou a parecer morto e foi salvo por uma refugiada que sabia de enfermagem). Com que linhas se cose a diversidade europeia, que identidade europeia é possível, qual a relação de forças entre aproximações e dissemelhanças, que formas há para que a história não se repita nos seus aspectos mais perniciosos - eis um leque de desafios que por aqui passam, fazendo deste um romance forte nas vias que vai traçando para eventuais descobertas ou reflexões em torno dos quotidianos e das diferenças, dos direitos e do sofrimento. Se a literatura não pode mudar o mundo, pode, pelo menos, pensá-lo e inquietá-lo, porque, como pensa Vladimir na sua última conversa com a mãe, “a vida precisa de porquês”.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1192, 2023-11-22, pg. 5.

 

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