quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (1)

 


Em 11 de Dezembro de 1945, uma terça-feira, Sebastião da Gama (1924-1952) escrevia uma carta para a namorada, Joana Luísa (1923-2014), comunicando-lhe a saída do seu primeiro livro, notícia não desprovida de entusiasmo: “Hoje devem dar-me a gravura e amanhã começam a fazer a capa. Só sexta ou sábado teremos o nosso livro. Meu Amor!...” Feitas as contas, o livro estaria pronto a 14 ou a 15 desse mês, ali bem próximo do Natal. Não sabemos exactamente se o livro ficou pronto num desses dois dias; mas, numa carta de 18 de Março de 1946, Sebastião da Gama lembrava à namorada: “Faz hoje três meses que a Serra-Mãe saiu a lume. Estou a lembrar-me da minha comoção quando eram já onze horas da noite, e a vi na montra da Portugália, 18 de Dezembro — havemos (sim, Amor?) de ensinar esta data aos nossos filhos.”

Desde essa data, o livro Serra-Mãe tem feito um percurso em louvor da Arrábida e o seu título tem servido outras artes — a Serra, pela força transmitida pela paisagem, é constantemente motivo artístico, na fotografia, na pintura (no início da década de 1940, Hélène Beauvoir registou o Portinho na tela, imagem muito divulgada nas publicações de carácter turístico da época; hoje, pintores como Rogério Chora ou Nuno David, entre outros, cultivam a Serra como tema), na música (lembremos a composição Caminhos da Arrábida, de Rui Serodio, de 2001, ou a de Agostinho Caineta, que tomou o epíteto de Sebastião da Gama para título de uma composição que a Banda Filarmónica Perpétua Azeitonense gravou em 2000) ou na escrita (são inúmeros os poetas que têm dedicado as suas métricas à Arrábida, como ainda recentemente aconteceu com Alexandrina Pereira, ao publicar o seu Arrábida - Entre a Cor e o Verso). Mas a designação “Serra-Mãe” foi ainda mais longe e emprestou o seu nome a uma marca de vinho (produzido na SIVIPA) ou, mais recentemente, à Unidade de Saúde Familiar azeitonense (USF Serra-Mãe).

A fortuna identitária desta designação metafórica e afectiva que Sebastião da Gama atribuiu à Arrábida levou mesmo a que o título da obra fosse considerado na toponímia (facto não muito vulgar, apesar de, em Portugal, serem conhecidos os casos de Os Lusíadas, em várias ruas de diversas localidades, e de Amor de Perdição, um largo no Porto), uma iniciativa apresentada por António Cunha Bento à Associação Cultural Sebastião da Gama e à Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão no início de 2016, dois meses depois aprovada pela Câmara Municipal de Setúbal (23 de Março), com descerramento de placa de identificação toponímica em 30 de Abril seguinte, assim se assinalando, na altura, os 70 anos sobre a publicação desta obra (sublinhando-se na placa tratar-se da “1.ª obra de Sebastião da Gama, 1945”). A designação “Rua Serra-Mãe” só podia ter aplicação num espaço que tivesse ligação com a Arrábida e com o poeta azeitonense, dando nome à rua por onde se acede ao Portinho da Arrábida, a partir da Estrada Nacional 379-1.

A construção da obra Serra-Mãe demorou quase tanto tempo quanto a vida do seu autor. Com efeito, a Arrábida desde cedo impressionou o jovem Sebastião da Gama — lembrava sua mãe, Ana Cardoso, que, ainda em criança, ele terá acompanhado alguém num passeio na Serra e, ao chegar, disse-lhe que fizera uma quadra: “Fui passear / à serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia.” Coincidência ou não, certo é que a ideia da serra e da maternidade se conjugariam uns anos depois para dar título a um poema e ao primeiro livro, como é certo que a Arrábida desde cedo pontuou nos versos de Sebastião da Gama — o mais antigo poema em que a menciona data de Julho de 1939 e, sob o título “Conselho”, recomenda ao irmão que fuja com a amada “p’ra serra Arrábida chamada / cuj’ alecrim belo perfume emana”... Ainda do mesmo ano, de Dezembro, é o mais antigo poema em que a serra surge como motivo — intitulado “Arrábida” (o nome da serra aparece apenas no título), a primeira estrofe diz-nos que “Portugal (...) / num local / ‘scondidinho / um canteir’ abençoado / tem, que pasma toda a gente”; na seguinte, há uma descrição da paisagem, como “linda serra, / a seus pés / estende-se o mar muito calmo / verde, azul e prateado”; a última faz a apologia da beleza da paisagem, recorrendo à contemplação e à comparação favorável à Arrábida, ao dizer que “tod’ a vista / que encerra / encanta muit’ e deslumbra; / do panorama a beleza, / que é mista / - mar e serra - / deixa Sintra na penumbra.”

*João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1652, 2025-11-26, pg. 10.


quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sabores e histórias de Sesimbra

 


A identidade local ou regional também é feita do que se cozinha e se come — se dúvidas houvesse, bastaria lembrar a quantidade de receitas (de carne, de peixe ou de doçaria) que, no nome, trazem associado o nome da localidade onde foram criadas (mesmo que recorrendo ao trivial “à moda de”), busca ainda mais interessante se folhearmos o Cancioneiro Popular Português, recolhido por José Leite de Vasconcelos (1858-1941), só publicado entre 1975 e 1983, e lermos a quantidade de versos dedicados às comidas locais, por onde passam os ingredientes (ervas, legumes), os animais (terrestres, aquáticos ou voadores), o pão (e os cereais), as frutas ou as bebidas (alcoólicas e não alcoólicas) característicos de muitas localidades do país, uma recolha que vive da literatura oral e constitui um extraordinário retrato etnográfico.

A gastronomia sesimbrense ganhou um registo interessante de histórias e de receitas ao ser publicado o livro A que sabe Sesimbra - Quando os sabores diferenciam um território (Junta de Freguesia do Castelo, 2025), obra resultante da pesquisa e coordenação de Maria Manuel Gomes, que, em texto introdutório, refere: “Ao longo deste livro, convidamos os leitores a descobrirem os sabores que definiram a identidade de Sesimbra, a conhecer os produtos típicos da região, como o peixe fresco, o pão, os queijos, a doçaria, e a saborear as tradições que perduram, resistindo ao passar dos anos.” O desafio posto aos leitores sentiram-no também muitos naturais das freguesias do Castelo e de Santiago, que, como é dito em nota final, “em conversas de café, entrevistas demoradas, através das redes sociais ou até em simples contactos telefónicos, (...) abriram as portas das suas memórias”, partilhando “os segredos culinários de família, aqueles que passam de geração em geração e que dão verdadeira alma a cada prato.” 

São quinze os capítulos que organizam esta colectânea de sabores, sempre apelando para a reunião dos convivas através da expressão “à mesa”, ordenados de acordo com o momento das refeições diárias (pequeno almoço, lanche), com os ingredientes predominantes (ovos, sopas e legumes, peixe, marisco, carne, caça), com o calendário festivo (santos populares, festas religiosas), com produtos regionais (doçaria, fruta, mel, vinho) ou com situações específicas (doença), apresentando um conjunto próximo da centena e meia de receitas.

Associada às várias receitas, aparece, frequentemente, uma rápida alusão à preservação do património local, como acontece ao mencionar as papas de abóbora (“são hoje memória viva de uma gastronomia popular, marcada por ingredientes locais, sazonalidade, e uma forte ligação à terra”, representando “um património imaterial que merece ser valorizado, não apenas no seu valor nutritivo, mas também pelo testemunho que dão de um modo de vida simples, resiliente e profundamente enraizado na cultura rural portuguesa”), assim como se reaviva a memória de passados recentes, como no exemplo da batata frita do Zé Tucha (“era junto às rampas de acesso à praia ou à saída do autocarro que levava os jovens para o antigo Colégio Costa Marques que o encontrávamos a vendê-las, sendo quase impossível resistir ao cheiro que se espalhava no ar”), ou se insiste nas marcas identitárias que construíram o quotidiano, servindo de exemplo o que é dito sobre os rabos de sardinha cozidos em água e sal (“um alimento com história, feito da relação íntima entre o mar, o trabalho e a mesa”) e também sobre a farinha torrada sesimbrense (“alimento energético levado pelos pescadores para o mar ou pelos trabalhadores para o campo, servindo como reforço alimentar nos longos dias de faina”).

Por esta recolha passam também apontamentos curiosos, construtores da identidade, como: o episódio da encomenda de 660 empadas de piscos (que exigiam 2304 pássaros) pelo Marquês de Tancos em 1770 ao sesimbrense  Fonseca Pacheco; a utilização do cozido à portuguesa para a celebração de determinados momentos, como na Festa das Chagas; a crença na utilidade da mioleira de borrego com ovo (“acreditava-se que, por ser ‘comida de cérebro’, ajudava no desenvolvimento e na inteligência dos mais pequenos”); o hábito, na vila de Sesimbra, de, “ainda antes do casamento, os noivos oferecerem pratos de bolos aos vizinhos e familiares que não participariam directamente na cerimónia”; ou a prática do leilão das fogaças, em Alfarim, no dia de Natal, após a missa, cujo “valor angariado com a venda revertia para as festas locais e para obras de beneficência da Capela” local. A memória dos sabores encontra também, por vezes, um momento de sensibilidade poética, como quando se referem os malacuecos, mistura de açúcar e de muitas cores que alimentavam a delícia das crianças — “estes matacões coloridos não eram apenas guloseimas: eram pequenas alegrias de bolso, símbolos de infância e de um tempo em que um simples caramelo podia encher o dia de doçura e fantasia”...

Para que o leitor não se sinta excluído, além de ter a possibilidade de experimentar as sugestões, no final, há ainda uma dúzia de páginas em branco com o sugestivo título “Lembra-se de mais alguma receita?”, convite para que cada um entre no livro e o complete à sua maneira, listando ingredientes e prescrevendo a confecção ou lembrando histórias associadas à alimentação...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1647, 2025-11-19, pg. 9.


quarta-feira, 12 de novembro de 2025

O diário do exilado Manuel Vinhas

 


Entre 10 de Dezembro de 1974 e 31 de Dezembro do ano seguinte, Manuel Vinhas (1920-1977) escreveu um diário, publicado em 1976 sob o título Profissão Exilado, com prefácio de Agostinho da Silva (de quem foi amigo) e testemunho de Luiz Pacheco (de quem foi protector).

Manuel Vinhas, empresário, teve, no final de Setembro de 1974, de fugir, depois de ter sido alertado sobre eventual prisão, motivada por alegado envolvimento nos acontecimentos políticos ocorridos dias antes. Em Madrid, em 10 de Dezembro (o primeiro registo), recorda o testemunho que lhe chegou sobre o momento em que as milícias o procuraram “de metralhadoras em punho, obrigando os meus filhos a saírem da cama de madrugada, interrogando-os com ameaças, despejando garrafas de vinho, roubando as espingardas de caça. Como não me encontraram, repetiram a ‘visita’ na noite seguinte; beberam mais vinho — o que tomei como homenagem ao meu critério selectivo — e roubaram um automóvel”. Razões para esta invasão? “Disseram-me depois que a razão de me quererem prender era a de estar incluído na lista de reféns do partido comunista, e a ‘honrosa’ escolha baseava-se em desfrutar de certa popularidade entre os que para mim trabalhavam, e ser, assim, um empecilho para manobras que se preparavam.”

É em nota prévia que o autor justifica o seu livro: “A razão principal deste livro é mostrar a vida de um homem na diversidade do quotidiano.”, observação que vai ao encontro de Agostinho da Silva, que assim conclui o seu prefácio: “quaisquer que tenham sido as dificuldades que a aventura trouxe a Manuel Vinhas, estou contente com ela: os negócios o afastavam de si próprio (...); faltava-lhe cumprir o dever primordial de nós todos: sermos o que somos.”

Com efeito, Manuel Vinhas vai dando nota dessa ‘descoberta’, que assume, como quando escreve que “nestas páginas trato de coisas da minha vida, e assim também de pessoas com quem tenho convivido” (11 de Junho) ou ao relembrar que “tomei o compromisso de me mostrar nestas páginas como sou; não para que me sejam reconhecidas qualidades, mas para evidenciar características” (5 de Agosto), acompanhando o leitor o itinerário do autor por Espanha, França e Brasil (onde já se encontra em Janeiro), primeiro no Rio de Janeiro e, depois, na Baía (Salvador e Itapoã), havendo ainda três deslocações à Europa (em Abril, Junho e Outubro).

A variedade das observações é intensa: o sentido da ligação ao mundo da arte (Vieira da Silva e Arpad, Manuel Cargaleiro, Millor Fernandes, Carybé, Júlio Pomar, entre outros), mas também da política (António de Spínola, Adriano Moreira, Américo Tomás, Marcelo Caetano, por exemplo), partilhando conversas e contactos; a preocupação com a família (em que ganha peso a distância geográfica, doendo-lhe a impossibilidade de ter estado no casamento do filho, mas também o caminho feito no sentido de a reunir, como vai acontecendo gradualmente); o rumo que a política levava em Portugal e em Angola (cuja independência defendeu desde cedo), ainda que percepcionado pelos relatos que lhe faziam chegar (vai vendo que a espera é demasiado longa e o ideal se vai perdendo — é em tom irónico e decepcionante que termina o seu diário, em 31 de Dezembro: “Estou cada dia mais atento ao balançar dos coqueiros e menos interessado na multiplicação das chaminés fabris. Obrigado, revolução. Revolução em que pus a maior esperança e me trouxe as maiores desilusões.”); as dificuldades em que viviam muitos portugueses em fuga (“Todos os dias, mas todos os dias, pessoalmente, pelo correio ou pelo telefone, contacto portugueses que partiram ou vão partir de Portugal, de Angola, de Moçambique. Uns animados, com ocupação garantida ou pecúlio transferido, outros desesperados, sem amanhã assegurado e sem terem podido salvar nada do que tinham juntado com muito trabalho e esforço.”); algumas notas curiosas, como a da razão que levou à não-permissão da marca “Coca-Cola” em Portugal, decidida pelos governantes (Salazar “não queria ceder na sua obstinada recusa dentro da natural antipatia que tinha por ‘americanices’, mas necessitava de encontrar uma boa desculpa”, construída por Jorge Jardim — “partindo de que a palavra ‘Coca’ é diminutivo que em português é sinónimo de cocaína, (...) concluía pela ilegalidade da produção em Portugal, pois, ou continha cocaína, o que não era permitido pela Lei, ou não continha e induzia o público em erro, o que a lei também não poderia autorizar.”); ou as considerações sobre a gastronomia, as festas, as caçadas, o convívio, a arte.

Os momentos de poesia povoam também este diário, como se evidencia na declaração amorosa que faz à mulher, Concha, em 8 de Dezembro (“Gostam os meus olhos das rugas do teu rosto, cicatrizes de uma vida comum”), ou no encanto decorrente de um instante, como quando vê o passar de uma gaivota (“Voa a gaivota branca, o seu destino é voar. No ar desenha arabescos que fazem sombras no mar”, 23 de Abril).

Com razão, Luiz Pacheco, crítico insuspeito, considerou que, nesta obra, não dever ser esquecido “o desfasamento temporal a que estão sujeitos os exilados”, o que condiciona a análise dos acontecimentos, ao mesmo tempo que a viu como conjunto de “páginas soberbas, pequenas aguarelas ricas de colorido e sentido de observação, (...) um livro cheio de movimento e comovente de vida.”

João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1642, 2025-11-12, pg. 10.


sábado, 8 de novembro de 2025

Quando os alunos escrevem sobre Camilo - “CREscendo”



Camilo Castelo Branco (1825-1890) nem sempre tem sido bem tratado nos programas de estudo do ensino secundário — por vezes omitido, outras vezes enormemente fragmentado, aparecendo mais como um autor de segundo plano, que até pode ser apenas possibilidade. O facto de estar a passar o segundo centenário sobre o seu nascimento tem sido um bom pretexto para uma quase “redescoberta” deste autor.

CREscendo é o título de um jornal digital (que há dias foi vencedor do Concurso Nacional de Jornais Escolares, promovido pelo Público), publicado pela Escola Secundária de Sampaio (Sesimbra), coordenado por Catarina Labisa, professora. Com três números editados no ano lectivo passado, o segundo, saído em Abril, dedicou meia centena de páginas (metade da edição) ao génio e obra camilianos, em trabalhos elaborados por alunos do 11.º ano, decisão assim justificada no editorial: “É tempo de comemorar o escritor mais prolífico da literatura portuguesa, alguém que escreveu como quem come, ou mesmo quando não comia, como quem respira. (...) Camilo Castelo Branco (...) viveu muito e em circunstâncias tantas vezes apertadas, acossadas, dramáticas, e essa vivência torrencial foi transposta para páginas que podem hoje parecer algo pueris, ao bom tom romântico, mas que nunca prescindem do humor, pois, como dizia o autor, só se consegue uma boa página de tragédia depois de destilar tudo o que existe de comédia na vida.”

Nove obras camilianas são abordadas (Amor de PerdiçãoOnde está a Felicidade?Doze Casamentos FelizesMemórias do CárcereNoites de LamegoO EsqueletoO Retrato de RicardinaA Mulher Fatal e Novelas do Minho) por dezassete alunos e por dois professores, em leituras muito abertas, dando azo a que os trabalhos dos estudantes, além de apresentarem um resumo das narrativas, sejam enriquecidos pelo recurso à citação da obra em apreço e pela opinião crítica de leitor, maioritariamente virada para a possível “actualidade” que essa obra possa ter ou para a importância que ela alcançou no trajecto camiliano, não esquecendo também as “releituras” que algumas delas tiveram, fosse noutros autores (como Agustina Bessa-Luís ou Aquilino Ribeiro) ou noutras artes (como no cinema).

Muito interessante é o texto de abertura, assinado pela professora responsável e por Maria Carolina Livramento (aluna), que, traçando um percurso biográfico de Camilo, o fazem assentar sobre marcas autobiográficas que perpassam na obra (em No Bom Jesus do MonteAmor de Salvação ou Duas Horas de Leitura, por exemplo), dando destaque à forte possibilidade que associa Camilo à história local de Sesimbra — o facto de sua mãe, Jacinta Rosa, ser originária de família de pescadores sesimbrense, ligação defendida desde 1944 a partir das páginas do jornal O Sesimbrense, recurso bem presente neste ensaio (a relação amorosa dos pais de Camilo, iniciada em Sesimbra, já passou para a ficção, como aconteceu no romance Senhora Menina, de Augusto da Costa, publicado em 1952). Curiosa também é a abordagem feita a Amor de Perdição por Maria Ramos e por Nídia Carvalho, inserindo esta obra na tradição do amor impossível, aproximando o destino dos amantes ao Romeu e Julieta shakespeariano, ambos momentos de um trajecto que poderia recuar até Tristão e Isolda e que se tem prolongado no tempo...

Ao longo dos vários textos, os alunos-autores vão dando nota de aprendizagens para a vida, como acontece, por exemplo: com Leonor Severo, quando, depois de ler Onde está a Felicidade?, nos diz que Camilo “mostra que a felicidade talvez nunca seja perfeita, mas pode estar mais perto do que imaginamos, se estivermos dispostos a reconhecê-la”; com João Silva, que, a propósito de Doze Casamentos Felizes, considera que se idealizam “às vezes as relações conjugais, mas as tensões entre as pessoas, as convenções que as condicionam e a hipocrisia social podem destruir muito do que o ideal construiu”; ou com Mariana Santos, sobre o conto “Maria Moisés”, quando refere a sua importância “por nos conseguir tocar tão profundamente que nos faz questionar os valores que eram aceites naquela época, alguns dos quais ainda ressoam nos dias de hoje, como a desigualdade de género, os tabus relativos à sexualidade e o peso diferenciado que é dado ao homem e à mulher no que toca à liberdade sexual”.

O estilo camiliano não escapa às observações, como mencionam, por exemplo, Leonor Sotero e Marta Garcia ao referir as histórias de Noites de Lamego (“todas com um sabor de realidade e fantasia, de romance e de crítica, boas para ler ao serão e deixar-se prender pela extraordinária arte de Camilo para nos levar a conhecer personagens originais e enredos intrincados que ele fundou na sua observação, na sua experiência e na sua imaginação”) ou Matilde Pinheiro, ao classificar “A Morgada de Romariz” (“uma obra muito feliz, que tem um bocadinho de tudo o que faz uma boa narrativa: personagens peculiares, sentimentos muito humanos, problemas familiares, crítica social e comédia quanto baste para aliviar a seriedade de algumas cenas mais cortantes”).

As apreciações que alimentam esta edição de CREscendo constituem outras tantas motivações para o convívio com Camilo, afinal uma maneira de formular um convite para esse gesto de o lermos... e é muito bom que esse convite venha da parte da juventude!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1637, 2025-11-05, pg. 10.