sábado, 25 de abril de 2026

Proibido por inconveniente (3)



Os serviços da censura actuavam também sobre obras cuja finalidade principal era a criação literária, agindo de forma igualmente implacável, como pode ser visto numa parte da exposição “Proibido por inconveniente”, que mostra peças do Arquivo Ephemera na Escola Superior de Educação até 30 de Abril.

Em 21 de Março de 1962, José Vilhena (1927-2015) via proibida a sua obra Branca de Neve e os 700 Anões— “faz abertamente propaganda comunista, achincalha com diatribes dissolventes a família, a ordem social e a religião católica, é escrito com linguagem desbragada, tem passagens da mais baixa obscenidade, ilustrações imorais e tão maciça é a sua inconveniência que ocioso se torna fazer citações”, dizia o censor. Em jeito de parênteses, associe-se este tipo de argumentação sobre a defesa dos valores morais e familiares às razões que levaram à proibição, em 30 de Maio de 1952, da obra Harmonia e Desarmonia Conjugais, de A. César Anjo (1915-1969): “Trata-se de uma ‘porcaria’ desmoralizadora e desmoralizante, encapada no disfarce pum pseudo-cientismo técnico que só pode enganar primários ou muito incautos. Julgo de proibir rigorosa e urgentissimamente, por se estar a vender na Feira do Livro com toda a força, numa sementeira maléfica de todas as horas.” Ainda na década de 1960, Luandino Vieira (n. 1935) teve o seu livro Vidas Novas apreciado em 6 de Dezembro de 1967 por um censor que registou: “Este livro é constituído por uma série de oito contos de natureza subversiva escritos pelo ‘terrorista’ angolano que foi notabilizado por ter sido objecto da escandalosa atribuição do grande prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (...) Em todos estes contos se nota uma acentuada tendência anti-portuguesa e agressividade contra a PIDE. Propõe-se a sua proibição.”

Já na década seguinte, de 26 de Fevereiro de 1970 é o parecer sobre O Libertino Passeia por Braga, de Luiz Pacheco (1925-2008), defendendo a proibição porque “é um livro pornográfico e politicamente inconveniente”. Em 25 de Maio de 1972, era lavrado o parecer sobre Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno (1939-2016), Maria Teresa Horta (1937-2025) e Maria Velho da Costa (1938-2020), título “que preconiza sempre a emancipação da mulher em todos os seus aspectos”, com alguns excertos entendidos como “uma ofensa aos costumes e à moral vigente no país”, razões suficientes para propor a proibição e para o livro ser enviado “à Polícia Judiciária para efeitos de instrução de processo-crime”.

Outras obras tiveram “leituras” mais permissivas, provavelmente pela aceitação que os autores tinham junto do público... Vindima, de Miguel Torga (1907-1995), apreciado em 29 de Outubro de 1953, apesar de fomentar “o desrespeito social”, foi autorizado, mas com uma restrição: “As obras deste autor não devem ser consentidas em agremiações operárias, por razões óbvias.” Em 25 de Maio de 1960, dizia o censor sobre a obra Novelas Eróticas, de Manuel Teixeira-Gomes (1860-1941), que continha algumas passagens com “aspecto de imoralidade”, mas era “obra literária de alto mérito”, pelo que propunha a autorização, mas “sob a condição de apenas ser publicado em tiragem fora do mercado”.

Fácil será imaginar o estado de espírito que a acção da censura gerava nos autores e no público e a forma como ela condicionava o saber, obediente que estava a princípios como a repressão política ou o controlo dos espíritos. O papel que a proibição pode ter na descoberta de alternativas não foi descurado no tempo em que a censura agia — como se pode ler no roteiro disponível na exposição, houve várias formas de resistência e de contorno da situação: as jurídicas (reclamações, pedidos de revisão, abaixo-assinados) e o recurso “a truques como o uso de pseudónimos, o evitar referências a nomes perigosos, o estabelecimento de circuitos directos ou camuflados de edição e circulação de obras”, sempre visando “romper a cortina que ocultava o país real e os problemas e as lutas que nele ocorriam”.

Mas, se o público continuava a procurar, às escondidas, o que era proibido, também se teve de contar com a presença da auto-censura, que muitos autores se impuseram, não para dizerem o contrário do que pensavam, mas para o afirmarem de maneira controlada. Mário Dionísio, na obra já citada, Passageiro Clandestino, questionava-se se se devia ignorar a censura quando ela estava sempre presente e lembrava uma história — “ainda há pouco, uma romancista portuguesa, para vincar esta triste limitação, dizia, na República, que escrevera todo o seu último romance com o retrato do Director da Censura em cima da sua secretária”... E, sobre o mesmo fenómeno, Ruben A. (1920-1975, que teve problemas com o regime salazarista) bem testemunhou no sexto volume de Páginas (1970): “O que sinto mais terrível de tudo é o eu próprio fazer a primeira censura, quando escrevo já estou a fazer-me censuras, a ver se passa, equilibrar a prosa, falar nas entrelinhas, mentir. Esta censura mental, esta rede que coloco no pensamento é que é o verdadeiro drama.”

A tal inconveniência que levava à proibição pode hoje ser vista nas suas próprias fragilidades e contradições, mas ela vivia sobretudo para condenar a criação, o saber, a informação e... o acto de pensar.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1743, 2026-04-22, pg. 10.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Proibido por inconveniente (2)

 


A conversa de Mário Dionísio com o director adjunto dos serviços de censura (que referimos na crónica anterior) acabou bem para o texto que tinha tido publicação interdita por esses serviços — com efeito, David dos Santos (que exerceu este cargo entre 24 de Abril de 1953 e 1 de Julho de 1957), depois de uma hora e meia de conversa, em que Dionísio descodificou o que queria dizer naquele seu estudo sobre arte e esclareceu quem eram os autores que citava, acabou a autorizar a publicação integral do artigo, justificando que a prosa era “muito hermética” e os agentes tinham “muitas vezes dificuldade em percebê-la totalmente.” Tais dificuldades não impediam a proibição nem procuravam esclarecimento — a solução imediata era em defesa do silêncio, não fosse o vocabulário transportar uma ameaça ao regime!...

As proibições decretadas pelos serviços de censura em Portugal, que funcionaram entre Junho de 1926 e 25 de Abril de 1974, visando interditar o “inconveniente”, foram profícuas no mundo do livro. Se, em muitos casos, tais interdições foram eficazes, essa eficácia foi frequentemente posta em causa por um comércio clandestino que conseguia viver até ao momento da apreensão dos livros — contrariamente à imprensa, que tinha “exame prévio”, os livros só eram “analisados” depois de publicados, o que originava ainda graves prejuízos para os autores e para os editores. Relações dessas edições proibidas foram já publicadas em obras como Livros Proibidos no Regime Fascista (1981) e Obras Proibidas e Censuradas no Estado Novo (2022), contendo esta última alguns excertos das fichas de “apreciação” dos censores.

Na exposição “Proibido por inconveniente”, que até 30 de Abril pode ser visitada no átrio da Escola Superior de Educação de Setúbal, iniciativa que tem a colaboração da Associação Ephemera, podem ser vistas algumas dessas obras, com as respectivas fundamentações censórias.

Vale a pena parar na leitura de algumas apreciações justificativas das proibições para se avaliar o que “orientava” tais leitores, tão preocupados em silenciar os textos como em silenciar as pessoas, misturando os argumentos sobre o texto com o retrato desfavorável sobre o autor, como se pode ver nos registos sobre várias obras das áreas da sociologia ou dos estudos históricos.

Em 18 de Agosto de 1941, era proibida a obra Educação Cívica, de António Sérgio (1883-1969), assim fundamentada: “Qualquer obra ou escrita de A. Sérgio, por enquanto, por mais inocente e mais nacionalista que pareça, por melhor disfarce que use, é uma Bandeira contra a situação. (...) Parece-me inconveniente a publicação desta obra que é mal-intencionada e corrosiva.” De 8 de Outubro de 1963 é o relatório sobre a obra Memórias do Capitão, de João Sarmento Pimentel, em que o leitor-censor manifesta as razões para a proibição: “Trata-se de um livro de memórias do conhecido revolucionário esquerdista, hoje emigrado no Brasil e ao serviço da oposição Delgado. Além do uso abusativo (sic) de palavreado imoral ou escatológico, há, por quase toda a obra referências ou insinuações políticas inconvenientes. Mas há mais, ou pior: os capítulos ‘No tempo de Sidónio’ e ‘A caminho da Revolução’.” Já no final dessa década, Álvaro Cunhal via a sua obra A Questão Agrária em Portugal proibida em 3 de Maio de 1969. Razão? “A personalidade do autor, português renegado, a sua nefasta actuação política e os dizeres apresentados nas orelhas da capa são suficientes para impor a proibição deste livro” era o início do relatório, que assinalava tratar-se de um “pseudo-estudo sobre a sociologia e a economia política portuguesas”, pois “não é uma pesquisa científica, mas um escrito difamatório de uma política honesta e grandiosa” e concluía de forma peremptória que “propor a proibição deste livro é um dever”. 

Os primeiros anos da década seguinte mantiveram a orientação e, em 25 de Abril de 1970, era a vez da obra As Histórias Dramáticas da Emigração, de Waldemar Monteiro, conjunto de contos sobre as vivências emigrantes em França, em que o censor anotava que a sua divulgação “até elucidará muita gente sobre o El Dorado estrangeiro, porventura servindo de travão à emigração e à exploração do emigrante”, mas um conto em que surge a apologia da CGT, “o sindicato comunista de França”, e outro em que é dito que “a entrada de divisas em Portugal permite a continuação das guerras coloniais e de outras aventuras” ou outro que “insinua perseguições da polícia portuguesa a certos emigrantes em França” constituíam razão para a interdição da obra “por inconveniência política”. Em 5 de Janeiro de 1972, a proibição recaía sobre o livro Questões sobre o Movimento Operário Português e a Revolução Russa de 1917, de José Pacheco Pereira (n. 1949), justificando o censor: “Trata-se de uma compilação de textos do partido comunista português do período de 1917 e 1923. Os textos estão escritos de forma bastante acessível e, como todas as proclamações de princípios, são aliciantes, sobretudo para espíritos pouco preparados. Trata-se, assim, de um livro de propaganda susceptível de grande difusão e efeitos. Sou de parecer que se proíba a circulação no País do livro em referência.” 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1738, 2026-04-15, pg. 10.

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Proibido por inconveniente (1)



Foi o escritor estónio Eduard Vilde (1865-1933) quem questionou, no seu romance O leiteiro de Mäeküla (1916): “Não é humano desejar o fruto proibido?” A pergunta, retórica, contém em si mesma a resposta, sendo verdade há muito sabida esta de o fruto proibido ser o mais apetecido, pelo que as proibições, quando impostas por razões ideológicas, acabam por funcionar como motivação para as transgressões, para o desafio, para a procura, para a luta contra essa mesma proibição, para a construção do caminho da esperança. Na obra memorialística O mundo de ontem (1942), Stefan Zweig (1881-1942) testemunhava sobre esta relação com a proibição: “só o que se proíbe exacerba o desejo e quanto menos os olhos vêem e os ouvidos ouvem, tanto mais os pensamentos sonham.” Tornam-se assim certas proibições num despertar para causas de interesse universal, subvertendo-se o princípio por que foram instauradas... embora lutar contra este poder tenha riscos.

Vêm estas considerações a propósito de uma exposição que pode ser vista até 30 de Abril no átrio da Escola Superior de Educação, em Setúbal, sujeita ao título “Proibido por inconveniente”, iniciativa realizada com o Arquivo Ephemera, incidindo sobre materiais da censura, máquina atroz que, durante a sua existência, apenas produziu proibições... em prol da propaganda. O título da mostra, curto, é eficaz, porque evidencia duas coisas: a primeira, o acto de proibir a publicação, a edição, a expressão, muitas vezes apenas para esconder factos e tentar abafar ideias, legitimando o silêncio e a negação, frequentemente primando por tentar controlar o incontrolável; a segunda, a da inconveniência, ideia que vai ao encontro de muitas justificações para a proibição, transportando o vazio dos argumentos e dando azo a uma vasta rede de frágeis motivos para a proibição.

A censura do quase meio século que a Ditadura Nacional e o Estado Novo alimentaram alojou-se em várias organizações e teve muitos agentes, assumindo nomes, por vezes, de crueza metafórica, como foram os sinistros “exame prévio”, “lápis azul” ou “corte da censura”, por exemplo. Daí, o destaque que o diário República deu, no fundo da sua primeira página, a toda a largura, na edição saída em 25 de Abril de 1974, à frase “Este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura”... Era o primeiro periódico a publicar-se nesse dia sem ter sido sujeito à prévia leitura e a sublinhados do lápis azul (e dele pode ser visto um exemplar na exposição).

E o que é que se proibia? Ou, por outras palavras, o que era “inconveniente”? Paremos em algumas das muitas histórias que podemos ler nesta mostra. Numa entrevista com Manuel dos Santos Cabanas (1902-1995) para a publicação Algarve Ilustrado, a sair em 30 de Setembro de 1970, o censor não apreciou uma referência ao Almirante Cabeçadas — Manuel Cabanas contava: “Quem me dizia a mim, rapaz de 18 anos, que este homem simples, que era um herói nacional, havia de um dia ser meu amigo?”; o lápis azul cortou a relativa “que era um herói nacional”...  Outras histórias: o boletim 59 da Comissão de Censura de Lisboa informava, em Maio de 1933, que, no jornal República, na reportagem dos acontecimentos alusivos ao Primeiro de Maio, “foi cortada a parte referente ao ‘ferimento dum operário pela polícia no Largo do Chafariz de Dentro’”, e, quanto ao jornal Revolução, de 4 de Maio, numa informação sobre Alcácer do Sal, era dito que, “no subtítulo de notícia sobre uma sessão de propaganda Nacional-Sindicalista, foi cortada a parte final que diz ‘ter o chefe do N.S. afirmado a um público de operários e rurais ser o seu movimento a revolta dos escravos’.” E mais uma história: o boletim da Direcção dos Serviços de Censura de 24 de Janeiro de 1962 mostrava-se preocupado com as notícias sobre as greves estudantis e prescrevia: “São de autorizar as notícias anunciando ou referindo greves no estrangeiro e os seus motivos. Devem as mesmas notícias ser expurgadas, porém, de pormenores que incitem à luta de classes ou à subversão social. (...) Não é permitido o noticiário de qualquer greve no nosso País, onde o direito à greve é proibido.”

Se as notícias eram condicionadas, o mesmo acontecia com a criatividade artística. Uma nota de serviço “confidencial”, de 28 de Setembro de 1965, informava: “Por determinação superior, procedeu a autoridade policial competente à apreensão dos discos do dr. José Afonso que contêm as canções ‘Menino do Bairro Negro’, ‘Os Vampiros’ e ‘Ó Vila de Olhão’ (...) por as mesmas serem de carácter subversivo. Recomenda-se, portanto, o maior cuidado para que os referidos trechos não sejam transmitidos nos programas da Emissora Nacional.” Muitas vezes, fica-se na dúvida se a interdição era pelos dizeres ou pelos autores, ainda que alegando razões de conteúdo. Mário Dionísio (1916-1993) registou no seu diário em 29 de Dezembro de 1953 (publicado sob o título Passageiro Clandestino, em 2021) que, após ter visto proibido um artigo seu sobre arte para a revista Vértice, decidiu ir à Comissão de Censura para falar com o director, pois considerava injusto eliminarem o fruto de duas semanas de trabalho e estava convencido de que o seu artigo nem tinha sido compreendido. Atendido pelo sub-director, a dada altura da conversa, ouviu esta explicação: “Sabe o senhor M. D., nós temos aqui muita consideração pela sua obra e limitamo-nos a uma atitude puramente legal. Mas estamos sempre de pé atrás com os seus escritos. Às vezes, uma palavra, uma citação pode querer dizer mais do que parece. E, então, um corte pode ser mais pelo que se receia que o artigo diga do que...”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1733, 2026-04-08, pg. 10.


terça-feira, 7 de abril de 2026

Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (2)

 


Todo o trabalho levado a cabo por Álvaro Arranja ao longo dos anos em torno dos acontecimentos ocorridos em Setúbal nas greves do início da República justifica que Diogo Ferreira abra esta obra, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia), com uma saudação “em memória do professor Álvaro Arranja”, justificando que foi o “historiador que contribuiu para que os trágicos acontecimentos narrados nesta obra fossem preservados na memória coletiva”.

Neste trabalho, a investigação vai até ao ponto de quase nos fazer a reportagem circunstanciada do que aconteceu naquele 13 de Março, bem como nos fornece uma completa identificação das vítimas, trabalho possível pela consulta atenta de arquivos, pela leitura comparada dos relatos e opiniões transmitidos pela imprensa da época, fosse ela local ou nacional, e pela procura de documentos relacionados com os eventos, por vezes com interpretações divergentes. Para o leitor, fica a fita do tempo, mais ou menos circunstanciada, ilustrada com recortes jornalísticos e com documentação fotográfica diversa, além do recurso ao traço do pintor Nuno David, que idealiza o cenário do acontecimento e faz corresponder a imagem aos retratos escritos então feitos. 

O leitor conhece os antecedentes, dados pelo ambiente vivido no seio da indústria conserveira, assim como contacta com o ambiente político na cidade — greve iniciada em 21 de Fevereiro, reclamando aumentos salariais, denunciando abusos sexuais sobre as jovens trabalhadoras e dando a conhecer as duras condições de trabalho; polémica que envolveu Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira na condenação desta greve e no esvaziamento do seu sentido, mesmo por interesses particulares, pois uma das fábricas pertencia a uma irmã de Paulino de Oliveira; descontentamento com a nomeação para administrador do concelho de alguém que ocupara o mesmo cargo na fase final da Monarquia; intensa acção dos representantes sindicais e da imprensa sindicalista. Depois, é apresentada a reconstrução dos acontecimentos, possibilitada pelo cruzamento das diversas informações publicadas, bem como são identificados os feridos e fornecidas informações biográficas sobre os mortos. Finalmente, o leitor contacta com os acontecimentos dos dias seguintes, sobretudo as manifestações de protesto “contra as fatalidades ocorridas à beira do Sado”, lê o relatório da sindicância realizada para averiguar as responsabilidades envolvidas nos trágicos acontecimentos, conhece a opinião complacente do Ministro do Interior António José de Almeida e as consequências resultantes do apuramento de responsabilidades.

Com este trabalho, divulgado quando passam 115 anos sobre os acontecimentos relatados, Diogo Ferreira vai mostrando como fez a investigação, não só porque indica as referências de que partiu, mas também porque mapeia os caminhos que percorreu, quer nas perguntas que motivaram a investigação, quer nas dúvidas que se mantiveram ao longo desse caminho, assumindo a descoberta de algumas respostas e a falta de algumas explicações. Aspecto notável é o cruzamento das informações, venham elas da imprensa (seja generalista ou politicamente comprometida, seja local ou nacional), partindo dos textos noticiosos (ora cautelosos, ora pormenorizados) ou dos artigos de opinião, ou venham dos documentos oficiais ou de relatos de memórias entretanto publicados ou recolhidos. Fica o leitor com a sensação de estar perante a reportagem que faltava, trabalho que noticia, questiona, comenta, lança pistas de interpretação e deixa espaço para a formulação de opinião, sendo-lhe ainda permitido conviver com algumas das fontes, visitando documentos importantes do processo, que ajudam a contar toda esta história.

A história, sobretudo a história local, muito se enriquece com esta investigação, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres, de Diogo Ferreira, um útil contributo para o avivar da memória, quer pela dimensão pedagógica sobre o método no trabalho do investigador, não escondendo as dificuldades do caminho e as pequenas descobertas que vão fazendo um todo, convidando mesmo o leitor a participar na investigação pelas perguntas que vai pondo, quer pelo conhecimento que traz e partilha. Uma boa forma, também, de assinalar os 115 anos!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1729, 2026-04-01, pg. 10.


Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (1)

 


Se houvesse “palavra do ano” em 1911, a designação “fuzilamento” poderia constar no leque das palavras a concurso, de tal forma os jornais contaram o que se passou em Setúbal nesse 13 de Março de 1911 — a expressão “Fuzilamentos de Setúbal” circulou, de resto, na altura, na imprensa, escolhida não por acaso, mas para assinalar a brutalidade da repressão sobre os movimentos grevistas, que levou à morte de António Mendes e de Mariana Torres. A opção pela palavra “fuzilamento” não foi ingénua, pois pressupõe execução sumária ou eliminação do opositor quase sem defesa, não sendo de estranhar, por isso, que esta prática esteja ligada a períodos históricos de conflitos armados, de revoluções e de regimes autoritários, momentos em que a instabilidade social dita as regras. A história do que se passou foi agora reavivada por Diogo Ferreira no livro Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 - A História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia).

Se recorrermos à edição de 16 de Março de 1911 do jornal Germinal, que se publicava em Setúbal, percebemos bem o que significou para o movimento operário da altura a morte destas duas figuras, mortas à luz do dia, à vista de todos, e enterradas de madrugada, para evitar a agitação popular: “O sangue que em Setúbal correu impetuoso, saindo em borbotões dos corpos de filhos do povo, não se perdeu. As suas gotas lançadas à terra, vermelhas e fortes, fecundarão heróis sublimes, de alma revolta e corações simples, com o espírito erguido para o futuro numa evocação à aurora de justiça que vai despontar.” Este tom metafórico, visando transformar as duas vítimas em heróis reconhecidos, desaparecia no final do artigo, quando se referiam os “instigadores” da acção — “os que feriram, como os soldados, e os que provocaram, como os industriais e o administrador” do concelho —, desafiando-os a suicidarem-se, com uma explicação provocatória: “o suicídio não os reabilitaria, mas tornava-os esquecidos, a terra consumiria os seus corpos e da sua memória ficava apenas uma vaga lembrança. Só assim provariam que eram homens, criaturas normais, moralmente completas.”

O caso foi muito comentado e marcou intensamente o debate, sobretudo porque a República fora instituída cinco meses antes e era uma esperança para as mudanças, e Setúbal, tendo sido um dos primeiros locais a acompanhar a revolta, viu, naquele momento, o regime republicano a virar-se contra o desejo de melhoria de vida do operariado, contra a prática da greve e contra o direito de manifestação. De tal forma foi significativo o acontecimento das mortes em Setúbal nesse 13 de Março que, pouco mais de três décadas depois, em 1945, Alves Redol mencionava o assunto na conversa entre personagens do seu romance Os Reinegros, obra que o autor esteve impedido de publicar durante quase trinta anos, pois só foi dada a ler ao público, já como obra póstuma, em 1972 (Redol falecera em 1969), narrativa que gira entre 1907 e 1918,  em torno do desmoronamento das esperanças que a República poderá ter significado — numa loja, no Bairro Alto, vários amigos conversavam sobre os acontecimentos, perguntando um, ironicamente: “Quando se pede pão, dão-se balas? Está certo? Duas mortes e não sei quantos feridos...” Logo a seguir, outro acrescentava: “A República já foi. Durou dois dias na Rotunda e pouco mais.” Este último comentário expressava bem a decepção que chegara com a falta de cumprimento das promessas dos revolucionários...

Na história local, o caso das mortes de António Mendes e Mariana Torres mereceu durante muito tempo referência fugaz, mas tornou-se objecto de investigação mais aprofundada a partir do momento em que o historiador Álvaro Arranja (1960-2025) publicou, em 2009, a obra Anarco-Sindicalistas e Republicanos — Setúbal na I República, ou o ensaio com que contribuiu, em 2010, para o livro Setúbal — Roteiros Republicanos, coordenado por Albérico Afonso, e, sobretudo, quando, em 2011, divulgou o estudo Mataram Mariana... — Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, um título que sintetiza o divórcio entre a política e os populares, na sequência da insatisfação resultante da repressão sobre as formas de manifestação levadas a cabo pedindo melhorias nas condições de vida e de trabalho. Álvaro Arranja iniciava, de resto, este seu estudo, chamando a atenção para a importância que esse facto teve, apesar de pouco se saber: “Quase nada sabemos sobre Mariana Torres e António Mendes, os dois operários mortos em 13 de Março de 1911, em Setúbal, pelas balas da recém-criada Guarda Republicana. Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi (...) foram um acontecimento marcante para a relação entre a República e o operariado e a própria evolução histórica da Primeira República.”

A investigação de Álvaro Arranja constituiu um importante contributo para a memória desse tempo e várias manifestações se sucederam a partir daí para alimentação da memória, designadamente, a construção da escultura que evoca Mariana Torres, da autoria de Jorge Pé-Curto, inaugurada no Largo da Fonte Nova há uma década, em Março de 2016.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1724, 1016-03-25, pg. 10.

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (11)

 


As críticas ao livro Serra-Mãe, desde a sua publicação, em meados de Dezembro de 1945, até outubro do ano seguinte, de uma maneira geral, enalteceram o aparecimento da obra e do novo poeta, ao mesmo tempo que recomendaram a construção de um caminho mais pessoal, a necessidade de as influências literárias não se sentirem como imitação e a busca de uma linguagem mais elaborada; simultaneamente, desafiavam o jovem Sebastião da Gama a dar continuidade ao percurso encetado e mostravam-se esperançosas no crescimento do poeta. 

As influências mencionadas apontam para nomes como Frei Agostinho da Cruz (1540-1619), António Nobre (1867-1900), Fernando Pessoa (1888-1935), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), José Régio (1901-1969) e Teixeira de Pascoaes (1877-1952), alguns deles citados diversas vezes nas obras de Sebastião da Gama. Entre os 62 poemas que constituem o livro Serra-Mãe, os críticos dessa época assinalaram 36 como sendo das suas preferências, num registo de escolhas em que há repetições e, em vários casos, apenas uma menção — os poemas mais citados são “Rebentação” (por Lindley Cintra, João Pedro de Andrade, Amorim de Carvalho, Carlos Relvas, David Mourão-Ferreira e Armando Ventura Ferreira), “Serra-Mãe” (por António Quadros, A. Pinto de Carvalho, João Pedro de Andrade, Maria de Lourdes Belchior, Vitorino Nemésio, João Ameal e A. Russinho) e “Vida” (por Manuel Antunes, José Noronha Gamito, Maria de Lourdes Belchior, Amorim de Carvalho, Carlos Relvas e Armando Ventura Ferreira). Os outros poemas valorizados nas críticas são, por ordem alfabética: “A corda tensa”, “A meus irmãos”, “Aceitação”, “Alegria”, “Canção”, “Céu”, “Claridade”, “Cortina”, “Diário de bordo”, “Do meu Amor”, “Elegia breve”, “Elegia desta manhã”, “Em que se fala do Menino Jesus”, “Eternidade”, “Harpa”, “Itinerário”, “Minuto”, “Nevoeiro”, “Nós”, “Oração da tarde”, “Oração de todas as horas”, “Para que tu não chores”, “Pequeno poema”, “Poema da minha esperança”, “Poesia”, “Presença”, “Remoinho”, “Ressurreição”,  “Romântico”, “Teimosia”, “Versos para eu dizer de joelhos”, “Versos quase tristes” e “Vontade”.

Pela voz de todos os críticos deste primeiro momento de recepção da obra Serra-Mãe passa a ligação à Arrábida como tema predominante, uma forma de olhar o outro, o mundo ou a vida personificados na serra, uma referência que, como já visto, foi crucial para Sebastião da Gama, não só como motivo literário, mas também como motivação local, como fascínio, como espaço de vida.

A produção literária do jovem poeta prosseguiu, em 1947, com a publicação de Cabo da Boa Esperança, o que iniciou um novo ciclo de recepção da sua obra. Contudo, Serra-Mãe viria, ao longo dos tempos, a ser tema de abordagem, na imprensa ou em livro, pelo olhar crítico de muitos nomes, de que se destacam Alexandre Ferreira dos Santos, Alexandre Ogino Sartório (que lhe dedicou uma tese de mestrado em 2021, Linda longa melodia imensa: Poesia e Mística em ‘Serra-Mãe’, de Sebastião da Gama, apresentada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), António Manuel Couto Viana (1923-2010), António Cândido Franco, António José Borges, António Mateus Vilhena, Artur Portela (1901-1959), Daniel Pires, Fernando Eloy do Amaral (1922-2008), Guilherme d’Oliveira Martins, João Maia (1923-1999), José do Carmo Francisco, Luciano Pereira, M. Gonçalves Martins, Manuel de Campos Pereira (1906-1981), padre Manuel Marques (1921-2007), Ruy Ventura, Virgínia Motta (1909-??) e Viriato Soromenho-Marques.

Apesar de o ano de 1947 ter tido um novo impulso na obra de Sebastião da Gama com um novo título, a verdade é que esse foi também o ano em que o jovem poeta de Azeitão interveio civicamente em favor da Arrábida, alertando vários jornais e personalidades para a iniciada destruição da Mata do Solitário. É conhecido o teor da carta enviada de Azeitão em 23 de Agosto desse ano, dirigida ao engenheiro Miguel Neves: “Socorro! Socorro! Socorro! O José Júlio da Costa começou (e vai já adiantada) a destruição de metade da Mata do Solitário que lhe pertence. Peço-lhe que trate imediatamente. Se for necessário, restaure-se a pena de morte. Socorro!” O tom da carta era exagerado, obviamente, mas intencional — urgia defender a Serra. Chegada a missiva ao conhecimento de Carlos Baeta Neves (1916-1992), ela foi o início de um processo que levou à criação da Liga para a Protecção da Natureza (LPN) em 1948, organização que viria a ter influência na preservação da Serra e, mais tarde, na constituição do respectivo Parque Natural. A Arrábida continuaria a ser tema de apresentação e de convite à descoberta no opúsculo A Região dos Três Castelos, editado em 1949, concebido para a empresa Transportadora Setubalense.

Quanto à obra literária de Sebastião da Gama, Serra-Mãe foi, na verdade, o início de um ciclo — Alexandre Ferreira dos Santos defendeu, em Sebastião da Gama: Milagre de Vida em Busca do Eterno (2008), a existência de uma trilogia evolutiva na obra ântuma do poeta, iniciada com Serra-Mãe, constituído por poemas produzidos até 1945, correspondentes a uma época de “adolescência poética”; uma segunda fase, “contra o derrotismo e o triste fado lusitano”, com os poemas produzidos entre 1945 e 1947, que alimentaram Cabo da Boa Esperança (1947); finalmente, a terceira fase, de “maturidade poética”, com textos escritos entre 1948 e 1951, que compõem Campo Aberto (1951). Esta explicação faz sentido e vai ao encontro da opinião que defende serem os poemas mais tardios os melhores de Sebastião da Gama. No entanto, para o poeta, Serra-Mãe foi, apesar de todas as considerações críticas, a obra que mais peso terá tido no seu trajecto. Livro organizado e composto durante o período em que estudava em Lisboa, quando concluiu a licenciatura (1947, tempo em que já preparava o segundo livro), escreveu à amiga Maria dos Remédios Castelo-Branco (1929-2024), que o tinha felicitado por já ser “Poeta, Prosador e... Doutor”, afirmando: “Doutor. É cómico, sabes? O que me interessa na vida, o que, a meus olhos, me dá importância social e individual, aquilo, ainda, por que tudo sacrificaria — é isto de ser Poeta. A minha verdadeira licenciatura foi a Serra-Mãe. (...) E vou agora de cabeça erguida para o Cabo da Boa Esperança.” O primeiro livro era, assim, a carta de apresentação que obrigava a prosseguir o trajecto, tal como a obtenção da licenciatura se lhe afigurava como um instrumento para fazer o caminho...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1719, 2026-03-18, pg. 10.


domingo, 15 de março de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (10)

 


Entre os meses de Junho e Outubro de 1946, Sebastião da Gama pôde ainda ler mais cinco comentários ao seu livro Serra-Mãe, publicados na imprensa, assinados por Dinis da Luz (1915-1988), António Russinho (?-década de 1990), Manuel Antunes (1918-1985), Carlos Relvas (pseudónimo de Armando Filipe Cerejeira Pereira Bacelar, 1919-1998) e Joel Serrão (1919-2008).

Na edição do jornal A Voz, de 10 de Junho, Dinis da Luz reconhecia que Sebastião da Gama ainda estaria “à espera de poiso”, detentor de “uma bela e sonora lira”, que denota “uma independência afoita, sinal de viva personalidade numa idade em que a ousadia dificilmente se furta à tutela dos grandes”, apesar de reconhecer que, de vez em quando, “José Régio sai-lhe ao caminho”. Quanto às marcas de Frei Agostinho da Cruz, o crítico considerava serem “variações modernas, originais, em novas medidas, de uma inspiração antiga”, concluindo o artigo cheio de esperança: “O poeta tem alma suficiente para uma família de cultores da poesia.”

Cerca de duas semanas depois, em 23, no albicastrense Reconquista, A. Russinho interpelava: “Quem conhece o recente livro de poemas Serra-Mãe, com que o jovem poeta Sebastião da Gama se estreou?” Depois, apresentava-o: “Pois este rapaz de 21 anos, aluno da Faculdade de Letras, acaba de gravar o seu nome na já longa lista dos nossos poetas. (...) Nos seus olhos, nas suas palavras, na requintada sensibilidade, enfim, na sua maneira de ser, nota-se que há nele aquele dom com que Deus costuma premiar as grandes almas.” Para cimentar a sua opinião, concluía o artigo com citações das apreciações entretanto publicadas por António Quadros (no jornal Victoria, em Dezembro de 1945) e por Vitorino Nemésio (no Diário Popular, em Fevereiro de 1946).

Na edição da revista Brotéria do mês de Junho, era a vez de o jesuíta e crítico literário Manuel Antunes apontar linhas de leitura da obra iniciática de Sebastião da Gama, cuja voz poética apresentava como “o eco já remoto, mas ainda nítido, da voz lírica e religiosa de Fr. Agostinho da Cruz”, com “muitos e belos cantos, impregnados da mais pura religiosidade”. Elogiando poemas como “Harpa”, “Vida”, “Oração da Tarde”, “Ressurreição” e “Oração de Todas as Horas”, a obra era vista como de um “poeta de vincada personalidade”, que “não se limita a ser o eco, embora remoto, de vozes alheias”, pois “aos motivos, que recebeu de outrem, imprimiu tonalidades próprias”. A obra Serra-Mãe surgia como a de “um poeta de real valor”, eivada de “profundeza e certa originalidade de concepção, um rico e variado poder expressional, feito de ritmo espontâneo, de imagens frescas, rescendentes ainda ao perfume silvestre da Arrábida, e entretecido, a revezes, de belos achados formais”. A concluir o artigo, Manuel Antunes confessava que leu o livro “várias vezes” e que lhe ficou “a grata impressão de que uma nova estrela de brilho invulgar se acendera no céu atormentado da poesia portuguesa dos últimos anos”.

Ainda no mês de Junho, a edição da revista Vértice, pela mão de Carlos Relvas, dedicava texto a Serra-Mãe, numa opinião que assinalava alguns pontos menos positivos: a quantidade de versos inspirados em José Régio (dando exemplos dos poemas “Vida” e “Rebentação”); a serra apresentada como “apenas um ‘suporte’ material para toda a espécie de idealizações do autor”, o que lhe concedia um estatuto de algum “artificialismo literário”; o tom “confessional” utilizado, que não parecia aquele que “mais se coaduna com o temperamento do escritor”. No entanto, Relvas reconhecia nesta obra “inegáveis qualidades de expressão poética que só é pena que não sejam orientadas num sentido mais humano, nem se apresentem mais depuradas pelo senso crítico do autor dos excessos de linguagem”. Reconhecendo as influências dos autores presencistas e de Fernando Pessoa, o crítico admitia, a finalizar, que, “com este livro, fica em aberto se terá qualidades de expressão poética original”.

Igualmente reservada quanto ao sucesso do poeta foi a opinião de Joel Serrão vinda a público na revista Aqui e Além, em Outubro de 1946 (publicação de que Sebastião da Gama foi colaborador, inclusive nesta edição). Num longo artigo, Serrão começava por dizer que este livro “sugere maior número de reservas do que de louvores”, afirmação justificada porque “a maior pecha de quase todos os poemas de Sebastião da Gama é o eles ficarem-se nessa região intermediária entre a expressão pessoal e a expressão poética, que, sendo pessoal, transcende o sujeito que canta”. Confesso admirador do texto “Pequeno Poema”, o crítico reconhecia ao autor “evidente sensibilidade de poeta”, mas ainda sem “uma expressão poética adequada à riqueza do seu mundo emotivo”, apesar de a sua “linguagem poética sobejamente nos evidenciar um poeta pleno de coisas para nos dizer”. No final, Joel Serrão confessava: “A sua poesia interessou-me. (...) Sebastião da Gama revela-se sem dúvida um poeta, independentemente de não ter conquistado ainda a mestria artística sem a qual a poesia dificilmente transborda cá para fora.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1714, 2026-03-11, pg. 2.


sexta-feira, 6 de março de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (9)

 


Duas das críticas mais contundentes a Serra-Mãe apareceriam em Maio de 1946: uma, assinada por Jorge de Sena (1919-1978); outra, por João Gaspar Simões (1903-1987).

No jornal Mundo Literário, de 18 de Maio, Sena intitula o seu longo artigo como “Alguma Poesia e outras considerações desagradáveis”, nele abordando, entre outros, o livro Serra-Mãe, de Sebastião da Gama, parte que se inicia em tom acutilante sobre os novos poetas portugueses — “Há, nitidamente, na mais jovem poesia portuguesa, um retrocesso. Tenho observado, com mágoa, a infinita suficiência destes livros. Quer formal, quer intimamente, estamos na época da ‘Maria-vai-com-as-outras’. E tudo serve: as descobertas ou hábitos formais dos outros, o grande destino do homem (que merecia mais meditação e menos declamação), até a própria habilidade rítmica. Tudo serve, desde que seja possível o indivíduo convencer-se, e aos seus pares, de que é poeta.” O comentário prossegue, em tom mais ou menos metafórico, para criticar a busca das influências nos novos autores, algo que Sena qualifica como uma “miopia extrema”, percebendo-se que as considerações são também para os críticos, sobre quem escreve: “Nunca se publicaram tantas críticas, e nunca, suponho eu, se leram tantos metros de prosa, impressionista, didáctica ou erudita, falando de tudo, menos da essência da obra criticada.” Talvez estas palavras se dirigissem aos que já tinham escrito sobre Serra-Mãe, porque, para Sena, louvar este livro apresentava-se como uma fragilidade: “Aplaudir, hoje, o Sebastião da Gama de Serra-Mãe, sem denunciar que quase sempre repete outros maiores (repetir é diferente de encorporar na própria expressão); aplaudi-lo como, há anos, se aplaudiu um Marques Matias — e deixar rodeado de silêncio um José Régio, que terá muitos defeitos menos o de repetir Sebastião da Gama... — é enganar o poeta de Serra-Mãe.”

Embora Sena enalteça poemas como “Céu”, “Nós”, a primeira metade de “Cortina”, “Elegia desta Manhã” e “Poesia”, o tom das suas observações afigura-se exagerado nos comentários ao uso da sinestesia ou de outras construções e à aproximação à poesia mística: “Observo-lhe que, para ser na Arrábida um poeta místico, não é necessário um misticismo topográfico-literário, que eleva ou abaixa Fr. Agostinho da Cruz à categoria de ‘genius loci’. Que para falar de amor ou dulcificar a voz, não é preciso escrever com ‘soluços do sol’, ‘beijos na alma’, ‘carícias azuis’, ‘luz de seda’, etc.”

Uma dúzia de anos depois, em 1958, ao publicar a terceira série da antologia Líricas Portuguesas, por si organizada e anotada, Jorge de Sena incluía nove poemas de Sebastião da Gama e comentava que “a personalidade de Sebastião da Gama, o seu nobre carácter, a sua simplicidade pessoal, a frescura do seu juvenil e fraterno amor da vida, o seu destino cruel e malogrado, têm complicado muito — com o comovido culto que suscitaram — uma justa apreciação de uma produção poética vasta e irregular como a sua.” Relativamente à evolução dessa obra, acrescentava emergir “pouco a pouco, (...) apesar da tendência do poeta para ver-se como um ser infantil, ignorante, aberto sem discernimento a todas as solicitações da sentimentalidade, uma voz lírica de excepcional frescura, capaz de uma singela concentração expressiva, capaz também de uma fina transcendência do convencionalismo burguês, e fundamente sensível às coisas naturais e ao ar livre”.

A apreciação de João Gaspar Simões apareceu no jornal Sol, em 25 de Maio, também ela eivada de considerações sobre o que a crítica dizia a propósito de Serra-Mãe. Simões, recorde-se, tinha sido um primeiro leitor de Serra-Mãe, a quem o jovem azeitonense entregou os textos para apreciação quanto a publicação pela casa Portugália e, se ignoramos qual foi o comentário exarado, sabemos que a editora não assumiu a publicação. As considerações de Gaspar Simões não terão andado longe do que ficou registado nas páginas de Sol, onde, depois de elogiar o poema de abertura, “Harpa”, considera que, em vários poemas do volume, “a expressão não passa de um penoso exercício literário, onde o mau gosto se espoja correndo parelhas com o pior verbalismo”; que, quanto à religiosidade, “uma das coisas que mais concorre para esfriar qualquer entusiasmo pela poesia de Serra-Mãe é o despropósito com que se lançam súplicas místicas e se fazem protestos de humildade e devoção numa linguagem alheia a qualquer mero sentimento religioso”; que as marcas de Pascoaes, Régio e Sá-Carneiro são “falsas inspirações na sua adequação ao estro exuberantemente verbal que nos parece ser o de Sebastião da Gama.” E termina, entre a decepção e o que se diz sobre o livro: “O certo é que de um verdadeiro poeta ou não, o livro Serra-Mãe é livro que não passa despercebido no nosso movimento literário.”

Estes dois comentários não passaram ao lado para Sebastião da Gama, que, se não deu resposta pública, enviou ao seu amigo David Mourão-Ferreira um poema datado de 26 de Maio de 1946 (o dia seguinte à apreciação de Simões e pouco mais de uma semana depois das palavras de Sena), intitulado “Versos fora dos eixos”: “Estou-me matando prós críticos. / Hei-de cantar o que muito bem me apeteça, / hei-de sentir, hei-de pensar, hei-de berrar o que muito bem me apeteça. / Um grande raio que os parta mais às suas sentenças. // Se me der na maluca desato para aí a dizer palavrões / ou a escrever sonetos de Camões / começados do fim prò princípio / e com os acentos todos trocados. / Ou então (e que têm eles com isso?) não faço nada / senão olhar os Astros, de cócoras, / e fazer certa coisa para eles todos. // (...) // Deixem-me cá sossegado a fazer versos / marrecos ou escorreitos ou anémicos ou cheios de sangue na guelra / mas de toda a maneira versos / — uma coisa melhor que todas as suas pretensões, / todas as suas ciências, todas as suas opiniões, / e que mais belo do que eles só uma flor encarnada a nascer em cima de um telhado / sem se importar de saber se olham pra ela ou não...” 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1709, 2026-03-04, pg. 10.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (8)

 

            

Em 5 de Março de 1946, no jornal Diário da Manhã, João Ameal (1902-1982) iniciava assim a sua coluna “Rumos do Espírito - As Ideias e os Autores”: “A todo o momento ouvimos dizer que na vida moderna há cada vez menos lugar para os poetas. Terá razão quem o afirma? Vive o Mundo, nesta hora, entre receios e desconfianças. Vive, também, sob o signo dos ódios desencadeados pelo imenso fratricídio que há pouco terminou — e sob a opressão de uma paz inquieta, cheia de perspectivas alarmantes.” Este arranque é intenso no seu lamento e na sua esperança — a Guerra Mundial acabara meses antes e tornava-se nítida a procura da pacificação e a valorização da humanidade. Mas este introito servia também para Ameal chegar ao principal do que pretendia dizer: apresentar um novo poeta, Sebastião da Gama, através do seu primeiro livro, Serra-Mãe. E a primeira observação é de simpatia — “Sente-se que vive na montanha, mas na montanha em frente do mar - porque se conjugam, na sua sensibilidade, a força e o equilíbrio da grandeza estável e o tumulto febril do movimento sem fim”, sendo isso que “dá aos seus versos um curioso sabor de ‘ansiedade contida’, de impulso capaz de dominar-se e disciplinar-se.” A preferência do crítico recai sobre alguns poemas, concluindo com uma observação promissora sobre o novo poeta “com a sua personalidade ainda em esboço, mas já segura e clara, para além da indecisa nebulosa das simples promessas”, que “soube construir o ‘seu’ mundo e soube mostrar-nos que vive, dentro dele, uma vida mais alta e mais pura”.

Duas semanas depois, em 19 de Março, era a vez de, no República, Alfredo Guisado (1891-1975) opinar sobre o novo livro: apesar de considerar que, por vezes, “a sua inspiração não o acompanha”, afirma estar perante um autor “que é sincero no que sente e no que escreve”. Recomenda depois Guisado que o novo poeta se não deixe “envaidecer com elogios” da imprensa e termina com uma síntese sobre esta novidade: “Tem ritmo, não descuida as rimas, tem bastantes imagens felizes e, deixando-se embalar pela escola modernista, não se deixa por completo absorver pelos que lhe serviram de modelo”, pois “começa mesmo a ter personalidade, o que é muito de apreciar num poeta e ainda mais num estreante”. E, para que dúvidas não ficassem no leitor, afirma, quase no final, ser “mesmo uma das melhores estreias que me têm aparecido desde que estou neste fraco ponto de observação”.

As réplicas da leitura de Serra-Mãe acabariam o mês de Março com a recensão assinada por Ruy d’Almeida no jornal Aléo, saído no dia 30, que se surpreende porque “não constrói Sebastião da Gama os seus poemas no signo da inspiração amorosa”, mas “verte o poeta em ilha dos amores o lugar em que está”, a serra da Arrábida. A opinião de Almeida, contudo, é de reserva, pois entende que o poeta “não nos revela neste livro as possibilidades definidas da sua personalidade”, apesar de considerar estar perante alguns poemas de “expressão lírica” de qualidade. 

Na edição da revista Portucale referente ao mês de Abril de 1946, Amorim de Carvalho (1904-1976) reconhecia, em curta nota, que Serra-Mãe apresentava “sugestões de poetas como Sá Carneiro, Pessoa e Régio”, mas distanciava-se da valorização das influências para procurar “o melhor do livro”: uma “fina ironia”, a expressão da dor, uma “ânsia de ser, de existir, que busca penetrar na intimidade essencial da vida e do eu” que se “consubstancia com Deus, através de um estado de graça inefável e heróico”. Ponto alto desta apreciação surge quando é dito que este livro “tem atitude mental e filosófica, pondo o problema do Homem em Deus”, marca que lhe dá “uma personalidade poética original”, destacando diversos poemas cujo valor “o acreditam como poeta”.

No primeiro número de Abril da revista Seara Nova, datado de 6, Armando Ventura Ferreira (1920-1987) abordava também a primeira obra de Sebastião da Gama, confessando não haver “dúvidas de que temos perante nós um poeta”, mas acusando o papel dominante das influências — “lemos o seu livro e sentimos que a maioria dos seus poemas já nos é familiar”, encostando esta poesia a António Nobre, Sá-Carneiro e Régio, sobretudo a este último. No entanto, Ventura Ferreira realça o tom religioso da poesia de Gama, em que Deus se apresenta “como uma entidade concreta”, contrariando a interrogação metafísica que Deus é para Régio. O facto de Serra-Mãe ser visto como um conjunto muito próximo das influências leva o crítico a considerar não haver “símbolos em quantidade, nem em qualidade, tão-pouco uma dialéctica discursiva fluente”, existindo algumas “abstracções confusas, de pobre relevo poético”, pelo que aconselha, para futuro, que “Sebastião da Gama deve interrogar-se mais sobre a vida do nosso tempo e ser um poeta original do que glosar temas já suficientemente debatidos.”

A última apreciação de Abril de 1946 deve-se a Jaime Brasil (1896-1966), que, na edição do dia 17 de O Primeiro de Janeiro, em nota muito breve, acentua o tom místico de alguns poemas, dizendo serem gerados “naquela poesia que também inspirou Frei Agostinho da Cruz”. 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1704, 2026-02-25, pg. 10.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (7)



Ainda em 1945, quase no findar do ano, o livro Serra-Mãe foi objecto de apreciação por António Quadros (1923-1993) no jornal lisboeta Victoria (28.Dez.1945), que assim iniciava a sua crónica: “Sebastião da Gama - jovem poeta que se estreia - escreveu estes poemas na bela serra da Arrábida. Um temperamento sensível em contacto com a grandeza de um quadro natural como aquele, não podia deixar de originar um poeta.” Defendendo que “a poesia de Sebastião da Gama está profundamente impregnada de misticismo, filho do ambiente, filho da Serra-Mãe”, António Quadros considerava estar este livro repleto de poesia que “não é descritiva, nem simbólica, porque é, principalmente, oração”. Embora Serra-Mãe esteja dividido em seis partes, o articulista organizava a temática de Gama em três áreas, motivadas, respectivamente, pela serra, por Deus e pela “vida de todos os dias”. A crónica finalizava com um comentário que apontava para um bom início — “os poemas de Sebastião da Gama possuem qualquer coisa de superior à técnica e à própria imaginação: poesia. O que é mais do que suficiente como ponto de partida” —, depois de ter reparado que o “principal defeito” do jovem poeta “é ter pouca imaginação poética”, pois “repisa os mesmos temas” e “canta muitas vezes os mesmos ideais”.        

A recepção crítica de que Serra-Mãe foi objecto prolongou-se por quase todo o ano de 1946. Logo em 6 de Janeiro, eram publicados dois artigos, ambos assinados por A. Pinto de Carvalho: no jornal O Sesimbrense e no jornal Novidades. No primeiro, o autor associava esta obra do poeta azeitonense à de Frei Agostinho da Cruz pela motivação comum da Arrábida, afirmando que “a poesia de Sebastião da Gama reflecte uma ânsia insatisfeita à procura dum complemento” e que “a monotonia silenciosa e imponente da serra” lhe “afinou as cordas da lira”; no segundo, eram apresentadas as características da Arrábida que podiam constituir motivos poéticos (“os segredos dos seus recantos escarpados, das suas bouças e arvoredo”, o “convívio íntimo da Serra e do Mar” e “a serra com os seus encantos e surpresas, com a sua tristeza rude e monótona, com a sua amplidão a um tempo dolente e grandiosa”), era retomada a aproximação a Frei Agostinho da Cruz e surgia uma apreciação global sobre o livro “de versos, singelos, sim, os mais deles, daquela singeleza peculiar da vegetação serrana, mas esmaltados de onde em onde por fulgurações de imaginação criadora que deixam entrever no foco donde irradiam o estofo de um verdadeiro poeta.”

David Mourão-Ferreira (1927-1996), um dos primeiros leitores do amigo Sebastião da Gama, fez a sua apreciação no dia em que o livro apareceu na montra, mas o texto só foi publicado em 7 de Janeiro, no Jornal de Elvas: “O estilo de Sebastião da Gama é muito pessoal e tem um curioso cunho de originalidade. Aproveita-se das liberdades métricas introduzidas pela poesia moderna, mas sem as exagerar. (…) Podemos notar em muitos versos de Sebastião da Gama a sombra de Pascoaes e de Régio, mas especialmente deste último.”

Do final do mês é o comentário de João Pedro de Andrade (1902-1974), que assinava no Diário de Lisboa de 30 de Janeiro: “A poesia é, principalmente, uma atitude perante a vida. (…) Serra-Mãe é o testemunho iniludível duma individualidade pujantemente poética. (…) Afirma, na sua linguagem poética, uma segurança no tom, no estilo, nas imagens, que me parecem as manifestações sinceras da tal atitude perante a vida que revela o poeta.”

No número 18 de Universitárias - Revista de Cultura, de Janeiro de 1946 (abrangendo os meses de Janeiro a Abril), Maria de Lourdes Belchior (1923-1998) escrevia artigo de duas páginas sobre Serra-Mãe, a primeira obra do seu amigo Sebastião, teorizando, numa primeira parte, sobre o valor da palavra poética e sobre a sinceridade e originalidade em poesia, para, depois, afirmar que “estes poemas de S. Gama são poemas de um homem que a Serra gerou” e que “a palavra e o homem são apenas o eco da voz que Deus pôs nas coisas criadas”, razão por que, “também nas coisas pequenas, nos nadas que não têm em si aparentemente uma estrutura de grandeza, S. Gama descobre o poético que transforma, ao captar a ressonância misteriosa que as sublima.” Lourdes Belchior concluía o seu artigo afirmando esperar “ainda mais de um poeta que procura os seus caminhos” e, a propósito das marcas regianas presentes em alguns poemas de Serra-Mãe, aconselhando que o jovem poeta “se liberte de influências” e procure “caminhos numa conquista serena e forte.”

A opinião de Vitorino Nemésio (1901-1978) apareceria ainda em Fevereiro, em 13, no Diário Popular: “Em Serra-Mãe, palpita todo o autêntico alvoroço de uma consciência que desperta sob o duplo signo da Mística e da Poesia. (…) Sebastião da Gama, inebriado pelas cores da sua Serra, aproveita-as apenas como matéria para compor a sua própria aparência; as formas são nele puro pretexto de exultação. (…) A Poesia exprime-se por si; o poeta é seu lugar-onde. (…) A sua fraseologia é livremente agostiniana e pascoalesca.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1699, 2026-02-18, pg. 20.