sábado, 25 de abril de 2026

Proibido por inconveniente (3)



Os serviços da censura actuavam também sobre obras cuja finalidade principal era a criação literária, agindo de forma igualmente implacável, como pode ser visto numa parte da exposição “Proibido por inconveniente”, que mostra peças do Arquivo Ephemera na Escola Superior de Educação até 30 de Abril.

Em 21 de Março de 1962, José Vilhena (1927-2015) via proibida a sua obra Branca de Neve e os 700 Anões— “faz abertamente propaganda comunista, achincalha com diatribes dissolventes a família, a ordem social e a religião católica, é escrito com linguagem desbragada, tem passagens da mais baixa obscenidade, ilustrações imorais e tão maciça é a sua inconveniência que ocioso se torna fazer citações”, dizia o censor. Em jeito de parênteses, associe-se este tipo de argumentação sobre a defesa dos valores morais e familiares às razões que levaram à proibição, em 30 de Maio de 1952, da obra Harmonia e Desarmonia Conjugais, de A. César Anjo (1915-1969): “Trata-se de uma ‘porcaria’ desmoralizadora e desmoralizante, encapada no disfarce pum pseudo-cientismo técnico que só pode enganar primários ou muito incautos. Julgo de proibir rigorosa e urgentissimamente, por se estar a vender na Feira do Livro com toda a força, numa sementeira maléfica de todas as horas.” Ainda na década de 1960, Luandino Vieira (n. 1935) teve o seu livro Vidas Novas apreciado em 6 de Dezembro de 1967 por um censor que registou: “Este livro é constituído por uma série de oito contos de natureza subversiva escritos pelo ‘terrorista’ angolano que foi notabilizado por ter sido objecto da escandalosa atribuição do grande prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (...) Em todos estes contos se nota uma acentuada tendência anti-portuguesa e agressividade contra a PIDE. Propõe-se a sua proibição.”

Já na década seguinte, de 26 de Fevereiro de 1970 é o parecer sobre O Libertino Passeia por Braga, de Luiz Pacheco (1925-2008), defendendo a proibição porque “é um livro pornográfico e politicamente inconveniente”. Em 25 de Maio de 1972, era lavrado o parecer sobre Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno (1939-2016), Maria Teresa Horta (1937-2025) e Maria Velho da Costa (1938-2020), título “que preconiza sempre a emancipação da mulher em todos os seus aspectos”, com alguns excertos entendidos como “uma ofensa aos costumes e à moral vigente no país”, razões suficientes para propor a proibição e para o livro ser enviado “à Polícia Judiciária para efeitos de instrução de processo-crime”.

Outras obras tiveram “leituras” mais permissivas, provavelmente pela aceitação que os autores tinham junto do público... Vindima, de Miguel Torga (1907-1995), apreciado em 29 de Outubro de 1953, apesar de fomentar “o desrespeito social”, foi autorizado, mas com uma restrição: “As obras deste autor não devem ser consentidas em agremiações operárias, por razões óbvias.” Em 25 de Maio de 1960, dizia o censor sobre a obra Novelas Eróticas, de Manuel Teixeira-Gomes (1860-1941), que continha algumas passagens com “aspecto de imoralidade”, mas era “obra literária de alto mérito”, pelo que propunha a autorização, mas “sob a condição de apenas ser publicado em tiragem fora do mercado”.

Fácil será imaginar o estado de espírito que a acção da censura gerava nos autores e no público e a forma como ela condicionava o saber, obediente que estava a princípios como a repressão política ou o controlo dos espíritos. O papel que a proibição pode ter na descoberta de alternativas não foi descurado no tempo em que a censura agia — como se pode ler no roteiro disponível na exposição, houve várias formas de resistência e de contorno da situação: as jurídicas (reclamações, pedidos de revisão, abaixo-assinados) e o recurso “a truques como o uso de pseudónimos, o evitar referências a nomes perigosos, o estabelecimento de circuitos directos ou camuflados de edição e circulação de obras”, sempre visando “romper a cortina que ocultava o país real e os problemas e as lutas que nele ocorriam”.

Mas, se o público continuava a procurar, às escondidas, o que era proibido, também se teve de contar com a presença da auto-censura, que muitos autores se impuseram, não para dizerem o contrário do que pensavam, mas para o afirmarem de maneira controlada. Mário Dionísio, na obra já citada, Passageiro Clandestino, questionava-se se se devia ignorar a censura quando ela estava sempre presente e lembrava uma história — “ainda há pouco, uma romancista portuguesa, para vincar esta triste limitação, dizia, na República, que escrevera todo o seu último romance com o retrato do Director da Censura em cima da sua secretária”... E, sobre o mesmo fenómeno, Ruben A. (1920-1975, que teve problemas com o regime salazarista) bem testemunhou no sexto volume de Páginas (1970): “O que sinto mais terrível de tudo é o eu próprio fazer a primeira censura, quando escrevo já estou a fazer-me censuras, a ver se passa, equilibrar a prosa, falar nas entrelinhas, mentir. Esta censura mental, esta rede que coloco no pensamento é que é o verdadeiro drama.”

A tal inconveniência que levava à proibição pode hoje ser vista nas suas próprias fragilidades e contradições, mas ela vivia sobretudo para condenar a criação, o saber, a informação e... o acto de pensar.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1743, 2026-04-22, pg. 10.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Proibido por inconveniente (2)

 


A conversa de Mário Dionísio com o director adjunto dos serviços de censura (que referimos na crónica anterior) acabou bem para o texto que tinha tido publicação interdita por esses serviços — com efeito, David dos Santos (que exerceu este cargo entre 24 de Abril de 1953 e 1 de Julho de 1957), depois de uma hora e meia de conversa, em que Dionísio descodificou o que queria dizer naquele seu estudo sobre arte e esclareceu quem eram os autores que citava, acabou a autorizar a publicação integral do artigo, justificando que a prosa era “muito hermética” e os agentes tinham “muitas vezes dificuldade em percebê-la totalmente.” Tais dificuldades não impediam a proibição nem procuravam esclarecimento — a solução imediata era em defesa do silêncio, não fosse o vocabulário transportar uma ameaça ao regime!...

As proibições decretadas pelos serviços de censura em Portugal, que funcionaram entre Junho de 1926 e 25 de Abril de 1974, visando interditar o “inconveniente”, foram profícuas no mundo do livro. Se, em muitos casos, tais interdições foram eficazes, essa eficácia foi frequentemente posta em causa por um comércio clandestino que conseguia viver até ao momento da apreensão dos livros — contrariamente à imprensa, que tinha “exame prévio”, os livros só eram “analisados” depois de publicados, o que originava ainda graves prejuízos para os autores e para os editores. Relações dessas edições proibidas foram já publicadas em obras como Livros Proibidos no Regime Fascista (1981) e Obras Proibidas e Censuradas no Estado Novo (2022), contendo esta última alguns excertos das fichas de “apreciação” dos censores.

Na exposição “Proibido por inconveniente”, que até 30 de Abril pode ser visitada no átrio da Escola Superior de Educação de Setúbal, iniciativa que tem a colaboração da Associação Ephemera, podem ser vistas algumas dessas obras, com as respectivas fundamentações censórias.

Vale a pena parar na leitura de algumas apreciações justificativas das proibições para se avaliar o que “orientava” tais leitores, tão preocupados em silenciar os textos como em silenciar as pessoas, misturando os argumentos sobre o texto com o retrato desfavorável sobre o autor, como se pode ver nos registos sobre várias obras das áreas da sociologia ou dos estudos históricos.

Em 18 de Agosto de 1941, era proibida a obra Educação Cívica, de António Sérgio (1883-1969), assim fundamentada: “Qualquer obra ou escrita de A. Sérgio, por enquanto, por mais inocente e mais nacionalista que pareça, por melhor disfarce que use, é uma Bandeira contra a situação. (...) Parece-me inconveniente a publicação desta obra que é mal-intencionada e corrosiva.” De 8 de Outubro de 1963 é o relatório sobre a obra Memórias do Capitão, de João Sarmento Pimentel, em que o leitor-censor manifesta as razões para a proibição: “Trata-se de um livro de memórias do conhecido revolucionário esquerdista, hoje emigrado no Brasil e ao serviço da oposição Delgado. Além do uso abusativo (sic) de palavreado imoral ou escatológico, há, por quase toda a obra referências ou insinuações políticas inconvenientes. Mas há mais, ou pior: os capítulos ‘No tempo de Sidónio’ e ‘A caminho da Revolução’.” Já no final dessa década, Álvaro Cunhal via a sua obra A Questão Agrária em Portugal proibida em 3 de Maio de 1969. Razão? “A personalidade do autor, português renegado, a sua nefasta actuação política e os dizeres apresentados nas orelhas da capa são suficientes para impor a proibição deste livro” era o início do relatório, que assinalava tratar-se de um “pseudo-estudo sobre a sociologia e a economia política portuguesas”, pois “não é uma pesquisa científica, mas um escrito difamatório de uma política honesta e grandiosa” e concluía de forma peremptória que “propor a proibição deste livro é um dever”. 

Os primeiros anos da década seguinte mantiveram a orientação e, em 25 de Abril de 1970, era a vez da obra As Histórias Dramáticas da Emigração, de Waldemar Monteiro, conjunto de contos sobre as vivências emigrantes em França, em que o censor anotava que a sua divulgação “até elucidará muita gente sobre o El Dorado estrangeiro, porventura servindo de travão à emigração e à exploração do emigrante”, mas um conto em que surge a apologia da CGT, “o sindicato comunista de França”, e outro em que é dito que “a entrada de divisas em Portugal permite a continuação das guerras coloniais e de outras aventuras” ou outro que “insinua perseguições da polícia portuguesa a certos emigrantes em França” constituíam razão para a interdição da obra “por inconveniência política”. Em 5 de Janeiro de 1972, a proibição recaía sobre o livro Questões sobre o Movimento Operário Português e a Revolução Russa de 1917, de José Pacheco Pereira (n. 1949), justificando o censor: “Trata-se de uma compilação de textos do partido comunista português do período de 1917 e 1923. Os textos estão escritos de forma bastante acessível e, como todas as proclamações de princípios, são aliciantes, sobretudo para espíritos pouco preparados. Trata-se, assim, de um livro de propaganda susceptível de grande difusão e efeitos. Sou de parecer que se proíba a circulação no País do livro em referência.” 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1738, 2026-04-15, pg. 10.

 

terça-feira, 21 de abril de 2026

Proibido por inconveniente (1)



Foi o escritor estónio Eduard Vilde (1865-1933) quem questionou, no seu romance O leiteiro de Mäeküla (1916): “Não é humano desejar o fruto proibido?” A pergunta, retórica, contém em si mesma a resposta, sendo verdade há muito sabida esta de o fruto proibido ser o mais apetecido, pelo que as proibições, quando impostas por razões ideológicas, acabam por funcionar como motivação para as transgressões, para o desafio, para a procura, para a luta contra essa mesma proibição, para a construção do caminho da esperança. Na obra memorialística O mundo de ontem (1942), Stefan Zweig (1881-1942) testemunhava sobre esta relação com a proibição: “só o que se proíbe exacerba o desejo e quanto menos os olhos vêem e os ouvidos ouvem, tanto mais os pensamentos sonham.” Tornam-se assim certas proibições num despertar para causas de interesse universal, subvertendo-se o princípio por que foram instauradas... embora lutar contra este poder tenha riscos.

Vêm estas considerações a propósito de uma exposição que pode ser vista até 30 de Abril no átrio da Escola Superior de Educação, em Setúbal, sujeita ao título “Proibido por inconveniente”, iniciativa realizada com o Arquivo Ephemera, incidindo sobre materiais da censura, máquina atroz que, durante a sua existência, apenas produziu proibições... em prol da propaganda. O título da mostra, curto, é eficaz, porque evidencia duas coisas: a primeira, o acto de proibir a publicação, a edição, a expressão, muitas vezes apenas para esconder factos e tentar abafar ideias, legitimando o silêncio e a negação, frequentemente primando por tentar controlar o incontrolável; a segunda, a da inconveniência, ideia que vai ao encontro de muitas justificações para a proibição, transportando o vazio dos argumentos e dando azo a uma vasta rede de frágeis motivos para a proibição.

A censura do quase meio século que a Ditadura Nacional e o Estado Novo alimentaram alojou-se em várias organizações e teve muitos agentes, assumindo nomes, por vezes, de crueza metafórica, como foram os sinistros “exame prévio”, “lápis azul” ou “corte da censura”, por exemplo. Daí, o destaque que o diário República deu, no fundo da sua primeira página, a toda a largura, na edição saída em 25 de Abril de 1974, à frase “Este jornal não foi visado por qualquer comissão de censura”... Era o primeiro periódico a publicar-se nesse dia sem ter sido sujeito à prévia leitura e a sublinhados do lápis azul (e dele pode ser visto um exemplar na exposição).

E o que é que se proibia? Ou, por outras palavras, o que era “inconveniente”? Paremos em algumas das muitas histórias que podemos ler nesta mostra. Numa entrevista com Manuel dos Santos Cabanas (1902-1995) para a publicação Algarve Ilustrado, a sair em 30 de Setembro de 1970, o censor não apreciou uma referência ao Almirante Cabeçadas — Manuel Cabanas contava: “Quem me dizia a mim, rapaz de 18 anos, que este homem simples, que era um herói nacional, havia de um dia ser meu amigo?”; o lápis azul cortou a relativa “que era um herói nacional”...  Outras histórias: o boletim 59 da Comissão de Censura de Lisboa informava, em Maio de 1933, que, no jornal República, na reportagem dos acontecimentos alusivos ao Primeiro de Maio, “foi cortada a parte referente ao ‘ferimento dum operário pela polícia no Largo do Chafariz de Dentro’”, e, quanto ao jornal Revolução, de 4 de Maio, numa informação sobre Alcácer do Sal, era dito que, “no subtítulo de notícia sobre uma sessão de propaganda Nacional-Sindicalista, foi cortada a parte final que diz ‘ter o chefe do N.S. afirmado a um público de operários e rurais ser o seu movimento a revolta dos escravos’.” E mais uma história: o boletim da Direcção dos Serviços de Censura de 24 de Janeiro de 1962 mostrava-se preocupado com as notícias sobre as greves estudantis e prescrevia: “São de autorizar as notícias anunciando ou referindo greves no estrangeiro e os seus motivos. Devem as mesmas notícias ser expurgadas, porém, de pormenores que incitem à luta de classes ou à subversão social. (...) Não é permitido o noticiário de qualquer greve no nosso País, onde o direito à greve é proibido.”

Se as notícias eram condicionadas, o mesmo acontecia com a criatividade artística. Uma nota de serviço “confidencial”, de 28 de Setembro de 1965, informava: “Por determinação superior, procedeu a autoridade policial competente à apreensão dos discos do dr. José Afonso que contêm as canções ‘Menino do Bairro Negro’, ‘Os Vampiros’ e ‘Ó Vila de Olhão’ (...) por as mesmas serem de carácter subversivo. Recomenda-se, portanto, o maior cuidado para que os referidos trechos não sejam transmitidos nos programas da Emissora Nacional.” Muitas vezes, fica-se na dúvida se a interdição era pelos dizeres ou pelos autores, ainda que alegando razões de conteúdo. Mário Dionísio (1916-1993) registou no seu diário em 29 de Dezembro de 1953 (publicado sob o título Passageiro Clandestino, em 2021) que, após ter visto proibido um artigo seu sobre arte para a revista Vértice, decidiu ir à Comissão de Censura para falar com o director, pois considerava injusto eliminarem o fruto de duas semanas de trabalho e estava convencido de que o seu artigo nem tinha sido compreendido. Atendido pelo sub-director, a dada altura da conversa, ouviu esta explicação: “Sabe o senhor M. D., nós temos aqui muita consideração pela sua obra e limitamo-nos a uma atitude puramente legal. Mas estamos sempre de pé atrás com os seus escritos. Às vezes, uma palavra, uma citação pode querer dizer mais do que parece. E, então, um corte pode ser mais pelo que se receia que o artigo diga do que...”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1733, 2026-04-08, pg. 10.


terça-feira, 7 de abril de 2026

Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (2)

 


Todo o trabalho levado a cabo por Álvaro Arranja ao longo dos anos em torno dos acontecimentos ocorridos em Setúbal nas greves do início da República justifica que Diogo Ferreira abra esta obra, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia), com uma saudação “em memória do professor Álvaro Arranja”, justificando que foi o “historiador que contribuiu para que os trágicos acontecimentos narrados nesta obra fossem preservados na memória coletiva”.

Neste trabalho, a investigação vai até ao ponto de quase nos fazer a reportagem circunstanciada do que aconteceu naquele 13 de Março, bem como nos fornece uma completa identificação das vítimas, trabalho possível pela consulta atenta de arquivos, pela leitura comparada dos relatos e opiniões transmitidos pela imprensa da época, fosse ela local ou nacional, e pela procura de documentos relacionados com os eventos, por vezes com interpretações divergentes. Para o leitor, fica a fita do tempo, mais ou menos circunstanciada, ilustrada com recortes jornalísticos e com documentação fotográfica diversa, além do recurso ao traço do pintor Nuno David, que idealiza o cenário do acontecimento e faz corresponder a imagem aos retratos escritos então feitos. 

O leitor conhece os antecedentes, dados pelo ambiente vivido no seio da indústria conserveira, assim como contacta com o ambiente político na cidade — greve iniciada em 21 de Fevereiro, reclamando aumentos salariais, denunciando abusos sexuais sobre as jovens trabalhadoras e dando a conhecer as duras condições de trabalho; polémica que envolveu Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira na condenação desta greve e no esvaziamento do seu sentido, mesmo por interesses particulares, pois uma das fábricas pertencia a uma irmã de Paulino de Oliveira; descontentamento com a nomeação para administrador do concelho de alguém que ocupara o mesmo cargo na fase final da Monarquia; intensa acção dos representantes sindicais e da imprensa sindicalista. Depois, é apresentada a reconstrução dos acontecimentos, possibilitada pelo cruzamento das diversas informações publicadas, bem como são identificados os feridos e fornecidas informações biográficas sobre os mortos. Finalmente, o leitor contacta com os acontecimentos dos dias seguintes, sobretudo as manifestações de protesto “contra as fatalidades ocorridas à beira do Sado”, lê o relatório da sindicância realizada para averiguar as responsabilidades envolvidas nos trágicos acontecimentos, conhece a opinião complacente do Ministro do Interior António José de Almeida e as consequências resultantes do apuramento de responsabilidades.

Com este trabalho, divulgado quando passam 115 anos sobre os acontecimentos relatados, Diogo Ferreira vai mostrando como fez a investigação, não só porque indica as referências de que partiu, mas também porque mapeia os caminhos que percorreu, quer nas perguntas que motivaram a investigação, quer nas dúvidas que se mantiveram ao longo desse caminho, assumindo a descoberta de algumas respostas e a falta de algumas explicações. Aspecto notável é o cruzamento das informações, venham elas da imprensa (seja generalista ou politicamente comprometida, seja local ou nacional), partindo dos textos noticiosos (ora cautelosos, ora pormenorizados) ou dos artigos de opinião, ou venham dos documentos oficiais ou de relatos de memórias entretanto publicados ou recolhidos. Fica o leitor com a sensação de estar perante a reportagem que faltava, trabalho que noticia, questiona, comenta, lança pistas de interpretação e deixa espaço para a formulação de opinião, sendo-lhe ainda permitido conviver com algumas das fontes, visitando documentos importantes do processo, que ajudam a contar toda esta história.

A história, sobretudo a história local, muito se enriquece com esta investigação, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres, de Diogo Ferreira, um útil contributo para o avivar da memória, quer pela dimensão pedagógica sobre o método no trabalho do investigador, não escondendo as dificuldades do caminho e as pequenas descobertas que vão fazendo um todo, convidando mesmo o leitor a participar na investigação pelas perguntas que vai pondo, quer pelo conhecimento que traz e partilha. Uma boa forma, também, de assinalar os 115 anos!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1729, 2026-04-01, pg. 10.


Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (1)

 


Se houvesse “palavra do ano” em 1911, a designação “fuzilamento” poderia constar no leque das palavras a concurso, de tal forma os jornais contaram o que se passou em Setúbal nesse 13 de Março de 1911 — a expressão “Fuzilamentos de Setúbal” circulou, de resto, na altura, na imprensa, escolhida não por acaso, mas para assinalar a brutalidade da repressão sobre os movimentos grevistas, que levou à morte de António Mendes e de Mariana Torres. A opção pela palavra “fuzilamento” não foi ingénua, pois pressupõe execução sumária ou eliminação do opositor quase sem defesa, não sendo de estranhar, por isso, que esta prática esteja ligada a períodos históricos de conflitos armados, de revoluções e de regimes autoritários, momentos em que a instabilidade social dita as regras. A história do que se passou foi agora reavivada por Diogo Ferreira no livro Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 - A História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia).

Se recorrermos à edição de 16 de Março de 1911 do jornal Germinal, que se publicava em Setúbal, percebemos bem o que significou para o movimento operário da altura a morte destas duas figuras, mortas à luz do dia, à vista de todos, e enterradas de madrugada, para evitar a agitação popular: “O sangue que em Setúbal correu impetuoso, saindo em borbotões dos corpos de filhos do povo, não se perdeu. As suas gotas lançadas à terra, vermelhas e fortes, fecundarão heróis sublimes, de alma revolta e corações simples, com o espírito erguido para o futuro numa evocação à aurora de justiça que vai despontar.” Este tom metafórico, visando transformar as duas vítimas em heróis reconhecidos, desaparecia no final do artigo, quando se referiam os “instigadores” da acção — “os que feriram, como os soldados, e os que provocaram, como os industriais e o administrador” do concelho —, desafiando-os a suicidarem-se, com uma explicação provocatória: “o suicídio não os reabilitaria, mas tornava-os esquecidos, a terra consumiria os seus corpos e da sua memória ficava apenas uma vaga lembrança. Só assim provariam que eram homens, criaturas normais, moralmente completas.”

O caso foi muito comentado e marcou intensamente o debate, sobretudo porque a República fora instituída cinco meses antes e era uma esperança para as mudanças, e Setúbal, tendo sido um dos primeiros locais a acompanhar a revolta, viu, naquele momento, o regime republicano a virar-se contra o desejo de melhoria de vida do operariado, contra a prática da greve e contra o direito de manifestação. De tal forma foi significativo o acontecimento das mortes em Setúbal nesse 13 de Março que, pouco mais de três décadas depois, em 1945, Alves Redol mencionava o assunto na conversa entre personagens do seu romance Os Reinegros, obra que o autor esteve impedido de publicar durante quase trinta anos, pois só foi dada a ler ao público, já como obra póstuma, em 1972 (Redol falecera em 1969), narrativa que gira entre 1907 e 1918,  em torno do desmoronamento das esperanças que a República poderá ter significado — numa loja, no Bairro Alto, vários amigos conversavam sobre os acontecimentos, perguntando um, ironicamente: “Quando se pede pão, dão-se balas? Está certo? Duas mortes e não sei quantos feridos...” Logo a seguir, outro acrescentava: “A República já foi. Durou dois dias na Rotunda e pouco mais.” Este último comentário expressava bem a decepção que chegara com a falta de cumprimento das promessas dos revolucionários...

Na história local, o caso das mortes de António Mendes e Mariana Torres mereceu durante muito tempo referência fugaz, mas tornou-se objecto de investigação mais aprofundada a partir do momento em que o historiador Álvaro Arranja (1960-2025) publicou, em 2009, a obra Anarco-Sindicalistas e Republicanos — Setúbal na I República, ou o ensaio com que contribuiu, em 2010, para o livro Setúbal — Roteiros Republicanos, coordenado por Albérico Afonso, e, sobretudo, quando, em 2011, divulgou o estudo Mataram Mariana... — Dos Fuzilamentos de Setúbal à Ruptura Operariado-República em 1911, um título que sintetiza o divórcio entre a política e os populares, na sequência da insatisfação resultante da repressão sobre as formas de manifestação levadas a cabo pedindo melhorias nas condições de vida e de trabalho. Álvaro Arranja iniciava, de resto, este seu estudo, chamando a atenção para a importância que esse facto teve, apesar de pouco se saber: “Quase nada sabemos sobre Mariana Torres e António Mendes, os dois operários mortos em 13 de Março de 1911, em Setúbal, pelas balas da recém-criada Guarda Republicana. Porém, essas mortes (cinco meses após o 5 de Outubro) e a imagem das indefesas operárias conserveiras baleadas na Avenida Luísa Todi (...) foram um acontecimento marcante para a relação entre a República e o operariado e a própria evolução histórica da Primeira República.”

A investigação de Álvaro Arranja constituiu um importante contributo para a memória desse tempo e várias manifestações se sucederam a partir daí para alimentação da memória, designadamente, a construção da escultura que evoca Mariana Torres, da autoria de Jorge Pé-Curto, inaugurada no Largo da Fonte Nova há uma década, em Março de 2016.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1724, 1016-03-25, pg. 10.