sábado, 20 de outubro de 2012

Memória: Manuel António Pina (1943-2012)


HOMENAGEM A MANUEL ANTÓNIO PINA

Uma nuvem carregada de palavras escuras, negra sombra ao cabeçalho do jornal, 
Um poeta morreu, palavras secas, o negro do céu num amarelo triste como o entardecer, pálido,
Quando um poeta morre secam-se fontes, murcham as flores silvestres, e as outras, calam-se os pássaros,
Carrega-se o céu de chumbo e a alma de tristeza, fogem os anjos, tapam-se as musas de luto de inverno,
Choram as crianças e não sabem porquê, os velhos sentem-se mais sós, vê-se o amor pelo fio líquido caído pelo rosto, 
Está morto, o poeta, e as suas palavras caminham pelas bocas e arrepiam as nucas, percorrem-nos os fios de cabelo, até por onde o pensamento as levou, 
Cegam-nos o interior ilusório e não nos deixam sonhar, porque quando morre um poeta, morrem com ele todos os sonhos dos nossos mundos fingidos,
Órfãs, as palavras do poeta recolhem-se ao cunho eterno do vento soprado pelas bocas com fome das outras palavras que lhe faltaram, ao poeta, escrever,
Baú vazio, repleto de páginas negras, por nelas, o poeta, jamais poder de novo pousar a sua pena, porque morreu, reflectindo a nossa outra pena, a pesarosa, a que com ele repousa, da treva a prosa.
José Nobre

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

No estado a que Portugal chegou, é difícil encontrar melhor...

Concordo com Henrique Monteiro na sua crónica "Vamos falar a sério do próximo governo". Com efeito, já basta de falta de habilidade política, de massacre sobre as consciências dos portugueses, de derivas e desnortes, de incompetência na liderança, de avanços e recuos, de soluções impensáveis porque impraticáveis, de demagogia (seja ela oriunda da política, da finança ou de outra área qualquer). Já fizeram terramotos que chegassem. Já desmotivaram e desmoralizaram qb. Há que optar por outra solução porque a presente já não merece que se acredite.
Das várias encenações inventariadas por Henrique Monteiro, a última parece-me também a menos má. Por isso, a transcrevo:
«Remodelação do Governo atual - É, claramente, a minha opção preferida. Melhor ainda se o Presidente da República conseguir um acordo entre os três partidos subscritores da troika para a reforma do Estado (extinção de autarquias, institutos, observatórios e etc.), a relação com as PPP, revisão constitucional e uma política orçamental estruturada naquilo que foi aprovado (2/3 pelo lado da despesa e 1/3 pelo lado da receita). Para isto, apenas basta que saiam do Governo alguns ministros (como Relvas) que são mais problema do que solução, entrando outros com mais peso político. Seria também necessário que o Presidente usasse a sua influência positivamente, que o primeiro-ministro soubesse governar sem impor e que o líder do PS se sentisse à vontade para entrar neste jogo, controlando a deriva demagógica de alguma esquerda do seu partido. Devido a estas exigências de responsabilidade, é provavelmente a solução mais difícil.»

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Entre os avanços e os recuos... e o respeito que merecemos

Avançar e recuar... Avançar e recuar...
Percebo que, como truque de jogo, possa funcionar para ludibriar o adversário. Não entendo que os governantes o andem a fazer com os governados. É certo que os "erros" se devem corrigir; mas não é menos certo que haver Primeiro-Ministro e Ministros que anunciam coisas publicamente, em hora de grande audiência, com as implicações e os pesos conhecidos, para, no(s) dia(s) seguinte(s), retrocederem... ou é trabalho de casa mal feito ou é imaturidade ou é levar o descrédito ao máximo ou é querer gerar instabilidade social ou é banalizar as comunicações oficiais ou é tudo junto. Os governantes não se podem pôr na pele de comentadores nem conjugar os verbos do "achismo"; exige-se-lhes outra responsabilidade e outra forma de sentir que seja para os governados que lhes pagam e que os mantêm lá.
O pior é que esta crise dos "avanços" e "recuos" tende a alastrar a muitas áreas. Veja-se o que aconteceu, por exemplo, com as matérias dos exames do 12º ano!... Não eram necessários mais grãos de areia na engrenagem, não eram!
Tantas coisas que os governantes têm dito e que, depois, desdizem, ainda que sob a forma de "recuo", de "progressão", de...
Esta mania de tornar o sério banal; esta falta de pensar, de sentir os portugueses, de amadurecer, de decidir contando com o número máximo de variantes... tudo tem feito naufragar a confiança ou que resta (ou podia restar) dela!
Somos um povo que, como os outros povos, merece respeito! Só!
 

sábado, 6 de outubro de 2012

Bandeira nacional ao contrário, um sinal dos tempos?

Há uns meses, em Lisboa, na Praça dos Restauradores, apareceu um sinal informativo com a indicação "Portugal" escrita de pernas para o ar. Fenómeno estranho aquele!... Ontem, foi a bandeira nacional, pela mão de duas personagens importantes no contexto do país, a ser içada ao contrário.
Não me interessa saber o porquê de tal ter acontecido. Interessa-me a simbologia dos tempos, talvez movida pelo acaso: uma imagem de país e uma "vingança" do que fizeram (ou vão fazer) ao feriado do 5 de Outubro (quando podiam ter sido omitidos, suprimidos ou suspensos outros feriados)!
A propósito: ficam indiferentes quando ouvem os responsáveis por esta supressão a falar da ética republicana e da comemoração do 5 de Outubro no futuro? Que ética é essa?

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O último feriado de 5 de Outubro?

Um poder que omite, suprime ou suspende o feriado que assinala a fundação do seu regime político (quando poderia ter optado por outros feriados) ou um poder que omite, suprime ou suspende o feriado que assinala o início da independência do país e do povo que governa (quando poderia ter optado por outros feriados) respeita os fundamentos histórico-culturais do país que dirige?

Dia Mundial dos Professores 2012


“Os professores (…) definem (…) a nossa capacidade coletiva para inovar, para inventar, para encontrar soluções rumo ao futuro. Nada substituirá nunca um bom professor. Nada é mais importante do que apoiá-los.” (Irina Bokova, directora-geral da UNESCO, mensagem para este dia)

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Do discurso do Ministro das Finanças


O Ministro das Finanças de Portugal deu hoje conferência de imprensa que ouvi na rádio. Apreciei o tom académico, técnico, que utilizou. Não duvido da eficácia deste tipo de discurso perante os seus pares. Não duvido sequer da sua competência na área. Duvido da sua capacidade política porque, queira-se ou não, um ministro tem de ser um político também. E, no caso do Ministro das Finanças, não foram as alusões à liberdade e ao princípio da independência com que concluiu o seu discurso que salvaram o tom tecnocrático e elaborado (mesmo com metáforas da economia), nada vocacionado para os contribuintes saberem, afinal, umas coisas simples: quanto vão ter de pagar mais, o que resolvem estes aumentos, quais foram os erros cometidos nos princípios que têm vigorado, o que fica para fazer, por quanto tempo a situação vai ser esta de nos confrontarmos com aumentos de impostos, com aumentos de impostos, com aumentos de impostos, o que vai ser feito para não se repetirem eventuais erros, quais as razões que levam a sacrificar a educação, a segurança social e a segurança interna?
Nada disto foi dito. Nenhum português pode pensar, depois da conferência de imprensa, na forma como vai gerir a sua casa, a sua família, a sua vida. Nenhum. Apenas se sabe que é uma carga “enorme” (adjectivo do Ministro), mas isso não basta para fazer contas nem para se adivinhar em nome de quê. Rematar com a liberdade, a democracia e a independência é poético, mas não é objectivo. E a esses remates já o Almada Negreiros respondia no célebre Manifesto anti-Dantas

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Uma visita ao tempo da Romanização, incluindo passagem por Tróia (aqui, na margem esquerda do Sado)


Um passeio no quotidiano da Romanização é o que nos propõe o mais recente número da revista Visão – História (nº 17, Setembro.2012), saído na semana passada, sujeito ao tema “Portugal no tempo dos Romanos”.
Por uma centena de páginas, o leitor tem imagens de reconstituição de espaços e de cidades, uma introdução que analisa vários vectores desse período histórico (não faltando uma tabela cronológica) e três partes respectivamente intituladas “A chegada” (com a sugestiva apresentação “O ‘Portugal’ que os Romanos vieram encontrar”), “A civilização” (entrando por áreas como a cidade, o campo, a religião, a economia, o quotidiano, entre outras) e “Os locais” (com visitas a Conímbriga, Braga – Bracara Augusta –, Chaves, São Cucufate, Algarve e Tróia).
Neste último grupo, destaque-se o roteiro sobre a história de Tróia, intitulado “A grande fábrica”, numa alusão ao complexo de produção de salga de peixe que ali existiu e de que hoje se podem ver os restos, assinado por Inês Vaz Pinto, Ana Patrícia Magalhães e Patrícia Brum, arqueólogas responsáveis pelas ruínas de Tróia. Um espaço que mereceu visita régia, que teve o patrocínio da primeira sociedade arqueológica portuguesa (século XIX) e que tem passado por fases muito diversas no interesse que lhe é votado!

Dizer que este é um número indispensável torna-se redundante pois todos os números que esta revista tem publicado se revestem desse elevado grau de interesse. Podem-se, no entanto, destacar como motivos determinantes a acessibilidade da linguagem e a quantidade de informação, bons ingredientes para esta viagem a um tempo anterior à Nacionalidade de que ainda hoje existem muitas memórias…