quarta-feira, 30 de maio de 2012

Urbano Tavares Rodrigues homenageado

No final da tarde de hoje, houve uma homenagem a Urbano Tavares Rodrigues promovida pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Não estive lá, mas, ao saber a notícia, lembrei-me do professor e recordei uma homenagem que, em Setúbal, lhe foi feita na livraria Culsete, em Janeiro de 2003. O Manuel Medeiros fez questão que eu testemunhasse sobre Urbano Tavares Rodrigues, uma vez que tinha sido seu aluno. E fi-lo com muito gosto. É uma versão abreviada do meu testemunho lido nessa altura que aqui apresento. Em jeito de participação na homenagem que em Lisboa hoje lhe foi prestada.


Não sei de quando vem o meu contacto com Urbano Tavares Rodrigues, mas sei que vem de muito longe, desde quando ainda nem pensava que viria a licenciar-me em Letras, muito menos imaginando que o iria ter como professor. Também não sei qual foi o primeiro livro que dele li – talvez A Noite Roxa, que me lembro de me ter sido emprestado por um amigo e que, mais tarde, adquiri para nele reler uma interessantíssima narrativa como “Escombros”, quase retrato de uma geração, e para nele fazer uns sublinhados que me tinham impressionado nessa leitura sobre a vida e a arte... Talvez o primeiro livro que li de Urbano não tenha sido este, mas tenha sido uma recolha literária sobre Estremadura, nessa quase indispensável colecção que é a “Antologia da Terra Portuguesa”, testemunho da indispensabilidade que a literatura se torna para dizer a terra, para dizer o homem, antologia, aliás, onde creio que tive um dos primeiros contactos com Sebastião da Gama, que topou e mostrou a alma arrábida em toda a sua maravilha... Ou talvez a minha primeira leitura de Urbano Tavares Rodrigues tenha sido outra. Recordo, no entanto, estas duas como as mais antigas que dele conheço.
Em 1979, entrei para uma licenciatura na Faculdade de Letras, ingresso já tardio porque me era necessário trabalhar, mas atempado porque pôde ser no curso que queria e na Faculdade que me ficava mais à mão, em horário cumprido depois das 17 horas. Lembro-me de várias pessoas que tive como professores e pelas quais senti uma admiração grande desde logo.
Uma das coisas que me fascinou na minha licenciatura foi o facto de ter conhecido escritores enquanto professores, podendo assim usufruir da sua experiência enquanto artistas e criadores e do seu estatuto enquanto professores, intelectuais e cidadãos intervenientes, que eram vários. O professor Urbano Tavares Rodrigues não fugiu a este quadro. E, se foi apaixonante a forma como nos fez ouvir a solidariedade e o social presentes em Germinal, se foi suave a maneira como nos fez entrar nos domínios do erotismo de La Motocyclette, se foi a tocar o fascínio que nos falou de uma obra como Le Ravissement de Lol V. Stein, certo é que todos estes predicados se construíram como metáforas dele próprio, isto é, a delicadeza do discurso, a singeleza das práticas, a simpatia da disponibilidade, o aprofundar permanente no cruzamento da literatura estudada com as múltiplas e incansáveis referências advindas da sua experiência de escritor, o sorriso disponível numa atitude de quem parecia tudo oferecer fazendo passar o universo literário numa relação constante de tu-cá-tu-lá para um degrau de contínua admiração pela arte... enfim, tudo isto nos foi transmitindo, tudo isto foi partilhando, porque o todo das suas aulas se nos afigurava também como uma partilha de reflexões e de angústias da estética e do sentir.
A permanente abertura do professor Urbano Tavares Rodrigues nunca lhe deixou escorregar um “não”. Recordo que, mesmo perante trabalhos ou observações de qualidade menos desejada, a sua atitude era de tentar dar a volta de forma subtil, não negando a pouca pertinência do resultado (ou, muitas vezes, a sua impertinência) e incluindo no seu comentário as pistas de orientação que o estudante deveria aproveitar ou explorar.
Habituei-me, assim, a olhar o professor Urbano Tavares Rodrigues como uma personagem dedicada, disponível e atenta, como uma personagem participante (frequentemente trocando opinião connosco sobre posições públicas a propósito de questões culturais e de ensino), como alguém sempre pronto a incentivar os voos de quem quisesse ir mais longe ou de quem precisasse da sua ajuda. Recordo que, no último ano da licenciatura, estudei a autobiografia em José Gomes Ferreira, a propósito do seu livro A Memória das Palavras, para a cadeira de Teoria da Literatura, leccionada por Lucília Gonçalves Pires. Ser-me-ia útil falar com Gomes Ferreira, mas ele estava a passar um mau momento de saúde, pela sua debilidade de 80 anos. Foi, aliás, o professor Urbano que me pôs ao corrente do estado de saúde de Gomes Ferreira, mas, logo que soube das suas melhoras temporárias, falou-lhe e pôs-nos em contacto, assim me tendo sido proporcionado um encontro de cerca de três horas com esse “poeta militante”, na sua casa da rua Rio de Janeiro, em que quase me limitei a ouvi-lo e em que grande parte da sua conversa não foi sobre poesia, mas foi poesia. Passadas cerca de duas semanas, o professor Urbano encontrou-me na Faculdade, perguntou-me pelo andamento do trabalho, tendo-lhe eu dito que o mesmo já tinha sido apresentado e avaliado. Quis vê-lo, porque, argumentou, “acho que tenho alguma responsabilidade nesse trabalho”. Dei-lhe uma cópia e, volvidos uns dias, propôs-me que o texto fosse publicado no “Suplemento Cultural” do Diário. Respondi que sim, meio sem jeito. Soube depois que era sua prática corrente incentivar os alunos à publicação de trabalhos e mesmo à edição.
Concluída a licenciatura, abandonei também o trabalho que tinha e passei para o ensino. Em 1985, estando em Beja – onde confesso que aprendi a gostar do Alentejo –, ao rebuscar numas prateleiras já esquecidas e poeirentas de uma livraria da cidade, encontrei um livro sobre Urbano Tavares Rodrigues, intitulado Escritor da Fraternidade, da autoria de Pires Campaniço. Já não contactava o professor havia cerca de dois anos, depois que saíra da Faculdade. Comprei o exemplar por uma bagatela e li as suas 130 páginas – fortemente ideologizadas – nesse mesmo dia, mais no sentido de ter um ponto de contacto com alguém que me impressionara fortemente. O livro lembrou-me o professor, sobretudo, e pareceu-me que o título escolhido, ao eleger a fraternidade para caracterizar o escritor, tinha acertado no ponto. Fraternidade, como quem diz solidariedade, como quem afirma disponibilidade... são lógicas de atributos que resultam bem se aplicados a Urbano Tavares Rodrigues.
Fui, entretanto, descobrindo também a sua faceta de ensaísta na área da literatura e de escritor de viagens, sempre encostando as obras abordadas a referentes culturais importantes ou as viagens a itinerários não menos sentidos (talvez sentimentais), como descobri num relato seu sobre Santiago de Compostela, publicado em 1949, verdadeira peregrinação no espaço e no eu, na busca de outras artes e do conhecimento do mundo.
Encontrámo-nos depois em diversas situações mais ligadas à literatura (por exemplo, na sua defesa da tese de doutoramento sobre Teixeira-Gomes, ou na apresentação de Violeta e a Noite aqui neste mesmo espaço da Culsete), sempre relembrando tempos da vida de estudante.
E o que nos tem unido? Para lá de tudo, o professor Urbano Tavares Rodrigues sempre me falou, de imediato, do tempo da Faculdade e da lembrança das suas aulas. Ao fim e ao cabo, um tempo marcante, de aprendizagem e também de conhecimento, lados ambos de uma mesma estrada. Mantenho o gosto por Urbano Tavares Rodrigues enquanto escritor múltiplo e multifacetado, mas quero preservar também esta recordação feliz de um Urbano Tavares Rodrigues professor e mestre, dedicado, sabedor, atento, delicado e prestável, fazendo da literatura uma forma de criação e do ensino uma via de reflexão... ou talvez, e sobretudo, conjugando os dois percursos no rumo da disponibilidade para uma vivência de transformar a arte em cidadania. Não resisto sem ler quatro linhas de um seu escrito de cunho autobiográfico, publicado sob o título de “Apontamentos e Confissões”, no livro de ensaios sobre O Tema da Morte: “Já na minha adolescência desejava ser escritor, embora outras profissões me seduzissem, tais a de médico e a de professor: no fundo, aquelas que me permitissem ancorar e sentir-me útil.” É uma justificação simples, claro. Mas testemunho que, na sua simplicidade, a senti. E vivo bem com essa lembrança e exemplo.

N'«O Setubalense» de hoje - José Luís Neto e a identidade pela arqueologia


«Depois desta provocação, comecemos então a discussão». Assim se conclui a obra Túbal te fez – Arqueologia, património e cultura periférica, de José Luís Neto, recentemente aparecida (Setúbal: Prima Folia, 2012), que, ao longo de uma introdução e de uma dúzia de capítulos, se passeia por questões da identidade sadina, num percurso que decorre entre 1721, registo de nascimento da Academia Problemática e Obscura de Setúbal, e 2007, data do aparecimento da Prima Folia.
O contributo para esta identidade ressalta do mundo da arqueologia, área e saber problematizado que ajuda a questionar verdades que foram deixando de o ser ao longo do tempo porque também na arqueologia há correntes, caminhos, modas.
José Luís Neto não esconde na nota introdutória a sobrevalorização da perspectiva arqueológica que dominará o livro, seja porque confessa analisar os arqueólogos que foram descobrindo Setúbal (e a sua obra), seja porque decide criar uma teia em que a arqueologia se emaranha com os poderes e com os cidadãos, seja porque segue o princípio de que esta área de investigação concilia dois tempos – o passado sobre que se investiga e o presente sob que se analisa.
Da junção de tais ingredientes ou princípios, só pode sair uma leitura airosa e arejada sobre o que em Setúbal tem feito história, questionando métodos, confrontando limites, passando os movimentos à lupa, destacando as figuras que têm tentado descobrir a identidade setubalense, insistindo na inscrição, necessária para que haja memória.
O título da obra parte, aliás, de uma tentativa de interpretação das origens – Túbal, a personagem bíblica, associada à arca e ao dilúvio. Não é que José Luís Neto vá por aí, mas é a associação de vários saberes que não podem ser confrontados no sentido de uns anularem os outros, antes de todos se complementarem. E pelo caminho vem também a história de Cetóbriga, acentuada, de resto, com as escavações do século XIX. Duas interpretações que não colidem, antes são apresentadas como sinais dos tempos em que foram geradas como sinais de leitura explorados à saciedade.
Compreender o que tem sido a história desta terra sadina ajuda a explicar os fenómenos de sucesso temporário, bem como os tempos de insucesso que se lhes seguem, uma rotina que não é de agora, que não é recente, que já polvilha as margens do Sado desde que é possível fazer história, aí se mesclando indústria, comércio, religião, política, internacionalizações, auges e declínios, algo que ajuda a compreender ainda a miscigenação de populações que têm construído Setúbal desde sempre, não faltando símbolos, sejam eles vultos da cultura local (Todi e Bocage são incontornáveis) ou marcas deixadas na pedra e no património construído (igualmente imprescindível é o Convento de Jesus, além de outros sítios como a Fonte Nova, a Anunciada, Fontainhas, entre outros).
Esta leitura é um passeio pelas formas de problematizar e fazer a história, algo que José Luís Neto só claramente diz quase no final, assumindo reflectir «sobre a história da arqueologia sadina», sobre «conceitos como o da identidade local», embora andando na companhia de nomes importantes na área da colecção de saberes ou da descoberta, como sejam os de Almeida Carvalho, Arronches Junqueiro, Marques da Costa, Tavares da Silva e muitos outros.
Túbal te fez é um contributo importante para se ler a história de Setúbal, obra a ser vista para que haja entendimento, não tanto certezas mas ligações das histórias em que Setúbal navega àquelas que fazem mover o mundo, apesar de uma apresentação gráfica que necessitaria de mais cuidado, de uma capa que pode induzir em leituras pouco consentâneas com a riqueza de pensamento que por esta centena de páginas se nos dá e de algumas informações que carecem de correcção ou, pelo menos, de explicação (o Centro de Estudos Bocageanos, CEB, não nasceu do MAEDS, Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal, como é dado a entender, antes promoveu algumas das suas actividades no espaço daquele Museu; a LASA, Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, não pode ter nascido do Museu de Setúbal, como é dito, uma vez que a LASA foi criada em 1955 e o Museu de Setúbal foi instituído em 1961).

Os mega-agrupamentos, essa ideia peregrina...


É duro, mas é verdade… 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Memórias de António Manuel Couto Viana em conversa com Ricardo de Saavedra



António Manuel Couto Viana (1923-2010), nome para sempre ligado à poesia portuguesa e ao teatro, foi exímio memorialista dos outros, servindo-se de uma prodigiosa memória para contar sobre poetas e autores, lidos e conhecidos, sobre épocas e personagens que no seu caminho se cruzaram. Pena seria que a sua vida extremamente preenchida não desse origem a um volume de memórias, contando o seu trajecto sempre diversificado, absolutamente dominado por uma dinâmica que nunca lhe permitiu a paragem na escrita, tendo mesmo, na fase final da sua vida (a partir de 2004), encetado o caminho do conto. É assim de saudar o aparecimento da obra assinada por Ricardo de Saavedra, intitulada António Manuel Couto Viana – Memorial do coração (Conversa a quatro mãos), recentemente editada (Lisboa: Quetzal Editores, 2012).
O título informa-nos sobre a organização da obra: é, com efeito, uma entrevista, uma longa entrevista, edificada sobre onze capítulos e cerca de cinco centenas de páginas, resultante de um tempo de conversas de aproximadamente cinco anos (desde Março de 2005), tendo o entrevistado ainda tido a oportunidade de conhecer grande parte da versão escrita.
O que impressiona neste texto é a fidelidade de Ricardo de Saavedra ao tom de conversa de Couto Viana, quase sendo dada a possibilidade ao leitor de “assistir” a este diálogo entre os dois, viajando na memória, por vezes alterando a ordem cronológica, sempre contando histórias da vida ou a propósito dos momentos por que vai passando a revisitação. Bem marcante é o poder descritivo e a ordem narrativa de Couto Viana, conversador e nato contador de histórias, nunca deixando que a sua história ande apenas em redor de si, antes mostrando a sua vida na relação com os outros, na dedicação às artes – da literatura e da representação – e aos prazeres – gastronomia, leitura, viagens – e na luta pela sua independência e pelo seu caminho.
O nível de linguagem é sempre elevado, culto, com observações de uma nobreza de sentimentos e de saberes que impressionam, não só pela forma airosa como todo o seu trajecto é partilhado, como pela meticulosidade posta numa memória que deve ser um contributo para a história. São de ternura evidente as palavras que deixa sobre a sua “cidadezinha”, Viana do Castelo, e sobre o ambiente e experiências ali vividas, ponto de eterno retorno que sempre o chamou; são de realização assumida as entradas pela memória da sua vida dedicada ao teatro, enquanto actor, empresário, autor, cenógrafo, criador de companhias, num périplo que passa pelo Teatro-Estúdio do Salitre, Teatro da Mocidade, Teatro da Campanha Nacional de Educação de Adultos, Teatro do Gerifalto, Oficina de Teatro da Universidade de Coimbra, Grupo Português de Teatro (de Macau), entre outros, percebendo-se que a história do teatro português da segunda metade do século XX não estará completa se o nome de Couto Viana for omitido; são quase fílmicas as lembranças da chegada a Lisboa (em 1946) e os contactos com os escritores que sempre lera e de quem se ia tornando amigo ou com aqueles que, tal como ele, se iniciavam na aventura literária, atingindo especial elevação as referências àqueles que foram amigos de sempre, como David Mourão-Ferreira ou Fernando de Paços, por exemplo; é contributo para a história literária o seu esmiuçar pelas revistas e publicações em que participou ou a associação que faz de muitos momentos da vida a outros tantos instantes de poesia; é prestação para a história do teatro a dinamização a que procedeu no âmbito do teatro infantil, na “descoberta” de actores, no gesto de levar o teatro aos mais diversos recantos do país; é retrato de desolação a lembrança dos momentos menos bons provocados por uma remissão para o esquecimento a partir de 1974, com o consequente abandono por parte de muitos amigos, ou por um jogo de influências movido em Macau que lhe deixou feridas e desgosto, mesmo na apreciação destes casos não se vislumbrando linguagem menos nobre, antes exprimindo-se o lamento, ao mesmo tempo que a literatura se anuncia como contínua tábua de salvação.
António Manuel Couto Viana diz-se na alegria do reencontro com a sua obra, longa viagem que também o transportou ao oriente de Camões, deixando-se o leitor levar por um guia que entra na China e noutras orientais paisagens, vivamente descritas, quase se estando mais perante uma recriação literária do que na presença de algo que se diz de memória, de tal forma a riqueza das cores, das sensações, das emoções pulsa por estas páginas de reconstituição de uma vida, o mesmo se podendo dizer a propósito do pormenor na narração e na descrição do encontro com Savimbi na Jamba. O próprio entrevistador tem momentos em que interrompe a conversa para, apreciativamente, elogiar a memória do entrevistado, registo que se destinará também ao leitor, desta forma desperto – ou lembrado – quanto à realidade deste livro, que não é uma ficção, antes o retrato de uma vida.
Preocupações máximas de Couto Viana são a sua obra, os seus amigos e os seus lugares. Da obra vai falando enquanto mostra o regulador que ela foi da sua vida, com o verso sempre a renovar-se e o lirismo continuamente no seu caminho; dos amigos tem a preocupação de registar os nomes e os traços, às vezes em escassas referências, mas sempre querendo inscrevê-los no seu percurso e por vezes pedindo antecipadamente desculpa de qualquer omissão; os espaços, vai-os revisitando, com uma ternura particular sobre Viana do Castelo, berço da vida e da obra sobre o qual diz: “Viana influencia toda a minha obra! A infância marca, para sempre, a vida de um poeta e a minha foi toda passada em Viana, que continua a ser uma cidade sedutora. A timidez aguçou-me o sentido de observação e toda a minha meninice e juventude foi plena de motivos de interesse, rica de momentos inesquecíveis, vivida num ambiente familiar que muito contribuiu para estimular o meu crescente gosto pelas artes. Muitos dos meus escritos narram tudo isto, decorrem deste acumular de sensações e sentimentos, com raiz nos tempos em que cresci em Viana. E a raiz nasce no coração.”
O final do ciclo de conversas coincide com o termo da vida de Couto Viana, cujas últimas palavras para o entrevistador constituem um pedido para que o livro não esmoreça, para que o livro exista, para que a memória perdure. Um derradeiro capítulo mostra o sentimento de perda de um amigo que se tornará presente pela sua obra, extensa obra, de poeta, que António Manuel Couto Viana se chamava, nome que constitui “um decassílabo perfeito”, como Ricardo de Saavedra faz questão de lembrar logo na primeira frase do volume.
O leitor encontra ainda quarenta páginas, em dois cadernos, a constituírem um álbum fotográfico, disperso por geografias, por tempos e por amizades. E, no final, uma exaustiva lista de bibliografia activa ordenada por modos de escrita e por assuntos (poesia, teatro, contos, ensaios, memórias, gastronomia, traduções e adaptações, antologias, prefácios e apresentações), uma circunstanciada resenha da teatrologia e um índice onomástico (a que ainda poderia ter sido acrescentado um índice de títulos). A fechar, na lista dos “agradecimentos”, Ricardo de Saavedra relembra a construção do livro – desde a primeira reunião dos dois já velhos amigos, em 18 de Março de 2005, com a intenção de se contar esta vida, foi sendo construído “um livro nascido de conversas, registos avulsos e papéis dispersos, que cresce[u] ao sabor dos temas sem cuidar de cronologias, confiado quase exclusivamente na memória elefantina do interlocutor.”
Umas boas memórias de António Manuel Couto Viana. Num memorial também do coração!

Para a agenda: Os 50 anos da Crise Académica de 1962 em Setúbal, na Culsete

Mais um evento Culsete para sábado, 2 de Junho, pelas 16h30. O cinquentenário da Crise Académica de 1962 vem a Setúbal pela voz e pelo testemunho de José Medeiros Ferreira e com as participações de Onésimo Teotónio Almeida e de Mário Mesquita. E com livros, que são registos de memória.
Serve de convite.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Máximas em mínimas (86) - Luiz Milhafre

Teias & organizações
“Quem nos salva dos homens, alguém me pode explicar? expliquem-me, quem nos salva de partidos e afins fundados por homens que escolhem outros homens por voto, a seguir vêm outros homens que votam neles, depois homens e homens e homens que votam nesses que já vêm votados, são esses mais tarde que fazem resoluções, leis, decretos-lei ou nem tanto, portarias e porcarias complicadas, que espanto, que admiração, há então os homens que julgam que sabem isso tudo, os que sabem isso tudo mas não dizem, outros que julgam os que julgam que sabem e os que sabem.”
(Luiz Milhafre. "Bus". Novos Talentos FNAC Literatura 2011. Lisboa: FNAC / Teodolito, 2011)

domingo, 27 de maio de 2012

Da presença de Urbano Bettencourt em Setúbal hoje



A livraria sadina Culsete brindou o seu público de hoje com uma excelente sessão a propósito do livro África frente e verso do escritor português e açoriano Urbano Bettencourt (Letras Lavadas, 2012).
Foi bom estar presente numa sessão como esta, onde se pôde ver e ouvir pessoas e manifestações tão interessantes como: o actor Fernando Guerreiro e a sua leitura emocionada; o actor José Nobre e a excelência da sua leitura dramatizada; o livreiro Manuel Medeiros e a sua comoção literária, açoriana e amiga; o muito bom texto de apresentação sobre o livro em discussão lido pela Fátima Medeiros; o bom dizer da açorianidade conjugado com a literatura portuguesa na voz de Olegário Paz; a simplicidade e espontaneidade certeira e madura na apreciação de Eduíno de Jesus; a singeleza e a força literária de Urbano Bettencourt; a presença da palavra escrita e genuína de Onésimo Teotónio Almeida, fisicamente ausente mas a sobrevoar com a sua argúcia e o seu humor no que à literatura e à vida diz respeito.
Muito bom ambiente, muito boa literatura, muito bom serviço à causa e ao fascínio literário foi este que o Manuel e a Fátima Medeiros prestaram através da Culsete!
E quanto a Urbano Bettencourt não há dúvidas de que se está perante um muito bom escritor, com excelente trabalho sobre o equilíbrio da palavra, a merecer destaque e reconhecimento indispensável a nível nacional. O livro apresentado é uma boa prova disso, sobretudo agora que passam quatro décadas sobre o início do percurso de escrita do autor, detentor de assinalável bibliografia, iniciada em Setúbal, na primavera de 1972, com Raiz de mágoa.
[na foto: Fátima Medeiros, Fernando Guerreiro, Urbano Bettencourt, Olegário Paz e José Nobre.]

Depois do prémio que Horácio deu...


Há poucas horas, a TVI apresentou curta reportagem a propósito do aluno português, António Gil, estudante na Escola Secundária Rodrigues de Freitas, que, em Itália, ganhou o concurso internacional “Certamen Horatianum”, que ocorreu em Venosa, terra natal do poeta Horácio. Interessante a sensibilidade e a humildade do jovem vencedor! Interessante a forma como ele, na reportagem, transformou o latim em língua falada, saudando e apresentando-se aos telespectadores! Jovem a felicitar, sem dúvida, sobretudo num país que se encarregou de abandonar o estudo do latim e de dar ao estudo das humanidades o pouco interesse que neste momento existe.
Justamente por estas razões é que fiquei triste com o desabafo do jovem no final da conversa: já tinha recebido felicitações de muita gente, mas do Ministério da Educação… não! Que dizer? Haverá provavelmente boas razões para que tal (não) tenha acontecido, mas aposto que se o latim se escrevesse com os pezinhos, se desse golos e tivesse gente da que aparece todos os dias a dizer coisas por vezes certas e por vezes duvidosas, se aprender latim fosse um jogo (fosse do que fosse)… não faltariam parabenizações e longas entrevistas e reportagens a propósito. Como terá registado Horácio, o patrono do concurso: “Quem não souber viver com pouco será sempre um escravo”. Ou, melhor ainda: “Nada é feliz sob todos os aspectos.”
Parabéns ao António Gil! E aos seus professores também!

sábado, 26 de maio de 2012

Rostos (175) - Urbano Bettencourt


Urbano Bettencourt, no "Passeio dos Poetas", em Praia da Vitória (Terceira, Açores), por Ramiro Botelho

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Para a agenda: Urbano Bettencourt em Setúbal


Na Culsete, em Setúbal, Urbano Bettencourt vem apresentar África frente e verso. É em 27 de Maio, domingo, pelas 16h00. Associe-se o feito dos 40 anos de escrita literária do poeta, que foram iniciados em Setúbal com a obra Raiz de mágoa (Setúbal: ed. Autor, 1972). Os actores Fernando Guerreiro e José Nobre vão ler textos.
É um convite...