quarta-feira, 16 de maio de 2012

Para a agenda: Dia Internacional dos Museus, em Setúbal

O Dia Internacional dos Museus tem amplo catálogo em Setúbal, aqui se mostrando a programação dos Museus Municipais (Museu do Trabalho, Museu Sebastião da Gama, Museu de Setúbal e Casa Bocage) e do Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal.



terça-feira, 15 de maio de 2012

Vasco Graça Moura apresenta "Os Lusíadas" a "gente nova"


Imaginemos a explicação da estrutura externa do poema épico de Camões apresentada da seguinte forma: “Para o fazer, Camões usou a oitava / Que é feita de oito versos a rimar. / Até ao sexto as rimas alternava, / Nos dois finais a rima vai a par. / Com oitavas assim, organizava / Essa história que tinha de contar / Em cantos que são dez e a nós, ao lê-los, / Espanta como pôde ele escrevê-los.” Fácil é ver que essa estrutura é explicada numa oitava, com versos decassílabos, seguindo o esquema rimático que nela explicado – os seis versos em rima alternada e os dois últimos em rima emparelhada. Mais acrescenta que a obra se apresenta em dez cantos, associando o espanto perante tal maravilha artística, operação estética de engenharia da palavra.
Quem apresenta Os Lusíadas desta maneira não pode ser poeta menor, sobretudo se se souber que, em centena e meia de páginas, ao longo de 383 estâncias, numa estrutura que compreende dez cantos e uma introdução, aquilo com que o leitor se confronta é com uma apresentação adaptada da epopeia camoniana. Seu autor é Vasco Graça Moura e a obra intitula-se ‘Os Lusíadas’ para gente nova (Lisboa: Gradiva, 2012).
Mais uma adaptação do épico? Sim, mais uma adaptação do épico, sem dúvida. Mas uma adaptação diferente, que dialoga com o poema camoniano permanentemente, que não esconde a voz do poeta renascentista nem se lhe sobrepõe, que não a distorce num exagero de simplificação, que não lhe retira nem belisca o ritmo em que o verso se embala, uma edição a pensar na “gente nova”, seja o destinatário definido pelo escalão etário ou por uma outra predisposição para embarcar na viagem a ver o que Camões dá.
Em nota introdutória, Vasco Graça Moura expõe as intenções, depois de dedicar o escrito aos netos: como motivação para este trabalho, “a confrangedora desvalorização dos clássicos”, “a impreparação de muitos professores”, a complexidade da “matéria verbal do poema”, a extensão da epopeia e uma certa “renitência enfadada” para com os autores portugueses; como trabalho sobre Camões, “a ideia de preparar ‘uns’ Lusíadas para os mais novos, reduzindo-lhes a extensão em cerca de dois terços, estruturando os episódios mais conhecidos em termos bastante simplificados, enfim procurando explicar, comentar, interpretar em termos muito acessíveis as passagens principais da epopeia, mas fazendo-o também em oitava rima de matriz camoniana, de modo a que os leitores mais novos, digamos entre os 12 e os 15 anos, possam ‘entrar’ mais fácil e amenamente na matéria do poema.”
Logo as primeiras dezoito estrofes, sob o título de “Sabemos muito pouco de Camões”, brotam como uma introdução ao poema e ao próprio poeta, abordando itens como a escassez biográfica de Camões e o destaque merecido pela sua obra, o conteúdo histórico do poema, o conceito de epopeia e de herói colectivo, a estrutura externa do poema, a apresentação das partes que constituem um poema épico, os planos narrativos, a contextualização histórica, a justificação do uso da mitologia, o contributo camoniano para o enriquecimento da língua portuguesa, as influências clássicas e o assunto que vai dominar o poema. Interessante é a aproximação feita aos tempos de hoje para se explicar o conceito de herói ou esse enlaçar entre os humanos e os deuses ou as ninfas – “Parece hoje uma banda desenhada / E afinal a gente não estranha / Que o Super-Homem voe, e nos agrada / O Senhor dos Anéis, o Homem-Aranha, / E tantos divertindo a criançada / Com repentina e mágica façanha, / Usando seus poderes sensacionais, / Batman, Harry Potter, muitos mais…” [Quando os meus alunos passearam nesta série das dezoito estrofes iniciais, o resultado foi interessante – afinal, em verso também se pode falar de coisas mais prosaicas, a linguagem é acessível, é preciso ser um grande artista para escrever isto! Palavras deles…]
Depois, o leitor entra nos cantos, oscilando esta adaptação entre versos e estrofes camonianos (impressos em itálico) e outros da lavra de Graça Moura, em redondo. Actualização e simplificação da linguagem, adequação da fraseologia, mas também explicação e remissões para outros saberes que associam a história e outras artes – repare-se na chamada de atenção para a descrição de Tritão, no canto sexto: “Notai como Camões logo o retrata / Juntando várias criaturas / Marinhas cujas formas ele engata, / Umas mais pegajosas, outras duras; / Arcimboldo, o pintor, andava à cata / Desse processo de pintar figuras, / E é nesse estilo que Camões desenha / Dando a Tritão uma aparência estranha.” Bastará ler a adaptação de Graça Moura, tomando palavras de Camões para a apresentação de Tritão nas estrofes que sucedem a esta ou, então, recorrer a Os Lusíadas (VI, 17-19) para se ver um retrato digno da pintura de Arcimboldo construído a partir da tela em que se oferecem as palavras de Camões!
Os versos de Graça Moura surgem frequentemente como a ponte para um acesso fácil à genialidade do épico – atente-se, por exemplo, nos sublinhados que surgem no final do episódio dos Doze de Inglaterra (onde até se recorre ao nascimento do futebol), afirmando-se que “Camões descreve a luta e dá-lhe cor, / E som, e movimento e um certo humor”, ou ao longo do episódio da tempestade, quando se diz que “São versos geniais: o movimento / Dos vagalhões e o rasgar das velas, / Os rugidos do mar, a chuva, o vento, / Os mastros a quebrar, mais as cautelas / Dos homens num esforço violento”; atente-se ainda no ambiente de sensualidade sugerido pelo episódio da Ilha dos Amores, convenientemente explicado como imaginado, onde as ninfas desfilam num jogo de atracções e de desnudamento, já que “Iam deixando então cair as suas / Roupagens pelo chão, aqui, ali, / E ao fazerem assim ficavam nuas / Ou quase, descuidando-se de si, / Maminhas a saltar duas a duas, / Belos rabinhos, bocas de rubi, / Cabelos de oiro, a pele como cetim / E grinaldas de rosas e jasmim.”
Da mesma forma que o início desta adaptação recorre às duas estrofes que abrem Os Lusíadas também os dois últimos versos desta adaptação são de Camões – “De sorte que Alexandre em vós se veja, / Sem à dita de Aquiles ter inveja.” Uma forma respeitosa de subordinar esta apresentação do épico à sua própria palavra, ao seu próprio dizer, dando-lhe a primazia na abertura e no encerramento do poema narrativo!
Mas o gesto de Vasco Graça Moura na admiração pelo pulsar da palavra camoniana vai mais longe ao ter escolhido este título para assinalar o seu 50º aniversário como autor (desde que, em 1963, publicou o volume de poesia Modo mudando), justa homenagem a um outro poeta, à obra maior da literatura portuguesa e à língua portuguesa. Se a adaptação d’Os Lusíadas feita por João de Barros nos anos 30 do século passado tem sido vista como a grande divulgadora da epopeia camoniana até hoje, não me custa admitir que este arranjo de Vasco Graça Moura alcance idêntico patamar, tal é o engenho com que foi concebido, tal é a sensibilidade que apresenta Camões como trunfo para o convívio com os leitores do século XXI!

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Para a agenda: "Estranhões e Bizarrocos" em 6 sessões do TAS


Estranhões e Bizarrocos e outros seres sem exemplo...
O imaginário infantil e os prodígios todos que cabem nos sonhos das crianças, reunidos em estórias para adormecer anjos. De uma imensa beleza poética, a força das palavras de José Eduardo Agualusa constitui o suporte ideal para objectivar a necessidade que sentimos de apresentar teatro para os mais novos. É pleno de conteúdo imagético, original do ponto de vista das ideias e bastante interessante para aprofundar e desenvolver. Foi o que fizemos, juntámos uma série de pessoas criativas e inventámos, com Jácome, um universo de coisas impossíveis: formigas mecânicas, pássaros a vapor, sapatos voadores, aparelhos de produzir espirros, estranhões e bizarrocos. Inutensílios muito importantes.
Através de experiências espontâneas, dadas por impulsos e tensões interiores, associadas à exteriorização de movimentos e gestos encarados como linguagem, criámos uma espécie partitura formada pelos vínculos que se estabelecem entre o texto verbal e gestual, compreendendo a narrativa e o movimento coreográfico. O resultado desta sistematização abriu as perspectivas da linguagem dramática propriamente dita, numa adaptação que conjuga a essência do acto teatral na forma e no conteúdo, uma feliz aproximação ao modelo de teatro que pretendemos fazer evoluir no tempo e que se manifestou adequado à realidade presente.
FICHA TÉCNICA:
ESTREIA: 01/03/2008 – AUTOR: José Eduardo Agualusa – ADAPTAÇÃO E ENCENAÇÃO: Miguel Assis – DIRECÇÃO DE PROJECTO: Célia David – ACTORES: Isabel Ganilho, Maria Simões, Sónia Martins e Susana Brito – COREOGRAFIA: Iolanda Rodrigues – ILUSTRAÇÕES E FIGURINOS: Zé Nova – CENOGRAFIA: Mia Lucas e Zé Nova – CONSTRUÇÃO CENOGRÁFICA E CONTRA-REGRA: João Carlos – DESIGN GRÁFICO: Filipe Blanquet – SONOPLASTIA: José Santos – LUMINOTECNIA: António Rosa – FOTOGRAFIA: Rita Monteiro – SECRETARIADO: Ângela Rosa – AGRADECIMENTOS: Carlos Prado, Elsa Cara Nova, José Teófilo Duarte e Mercedes Lança
Sessões em: 20 e 27 de Maio e 3, 10, 17 e 24 de Junho, no auditório Charlot, em Setúbal
[Informação fornecida pelo TAS (Teatro Animação Setúbal)]

domingo, 13 de maio de 2012

Para a agenda: "O cerco de Leninegrado", pelo Teatro Estúdio Fontenova


Sinopse: Este espectáculo é uma criação baseada no olhar, na acção e nas memórias de duas mulheres que vivem encerradas num velho teatro, lutando e nunca se rendendo, contra a sua demolição anunciada. “Teatro” como metáfora para tudo o que se desmorona e que tem o fim anunciado por imposições tecnocratas e economicistas.
Ficha técnica e artística: Texto: José Sanchis Sinisterra | Encenação, Dramaturgia e Desenho de Luz: José Maria Dias| Interpretação: Graziela Dias e Sara Costa Banda Sonora: Hugo Moreira | Design Gráfico: Maria Ramos | Fotografia: Pedro Soares | Direcção de Produção: Graziela Dias | Montagem e Assistência Técnica: Júlio Mendão.
Estreia: 17 de Maio. Em cena até 27 de Maio (quinta a sábado, às 21h30, e domingo, às 16h30), no Espaço Fontenova | Rua Dr. Sousa Gomes nº11 Setúbal.
[informações fornecidas pelo Teatro Estúdio Fontenova]

Pelo feriado de 1 de Dezembro - Ribeiro e Castro e a afirmação da independência


A questão dos feriados a suprimir, definitiva ou temporariamente, anda na berra. E talvez não pelas melhores razões. Já sabemos que a crise tem as costas largas e a “troika” idem. Assim como sabemos que muitas decisões são tomadas a partir de impressões que, depois, não voltam atrás… Foi o caso com os feriados.
Em primeiro lugar, é duvidoso que a história dos feriados a suprimir ou a suspender integre o que seja uma revisão do código laboral. Verdade lapaliciana é que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa!... Ou seja: uma coisa é decidir se há folga nos feriados ou não; outra coisa é decidir que dias podem conter o estatuto de feriados. Creio que isto é nítido… Assim o não entende a política portuguesa, que mistura tudo para baralhar, recorrendo às costas largas já mencionadas.
José Ribeiro e Castro, do CDS, tem-me impressionado pelas posições que toma em defesa da cultura. Fê-lo enquanto eurodeputado; tem-no feito como deputado. Foi corajoso o seu acto de se opor à revisão do código de trabalho por causa da misturada feita, assim como foi corajoso o seu gesto de, em discurso e em livro, vir encetar uma luta pela identidade, a reposição da verdade do feriado do 1º de Dezembro.
Quando a polémica estalou, discutia com amigos a oportunidade do corte da lista dos feriados do 1º de Dezembro, dizendo um amigo meu, da área da História, que achava muito bem tal corte, porque era um dos feriados criados pelo regime fascista, etc., etc., etc. Erro, claro! Foi o primeiro feriado republicano, criado uma semana depois da implantação da República, logo em Outubro de 1910. Mais: o respeito por tal data teve o seu primeiro manifesto de defesa em 1861, assinado por nomes tão insuspeitos como Alexandre Herculano, Anselmo José Braamcamp, António da Silva Túlio, Inocêncio Francisco da Silva, Luís Augusto Rebelo da Silva ou Pedro de Brito Aranha, num conjunto de quatro dezenas de subscritores.
Lê-se o livro de José Ribeiro e Castro (1 de Dezembro – Dia de Portugal. Cascais: Principia, 2012) e não podemos ficar indiferentes. É uma machadada que está a ser dada na identidade portuguesa ao suprimir-se o feriado de 1 de Dezembro, que pode ser considerada a data refundadora da independência portuguesa. Sem dúvidas, apesar de, tenuemente, os políticos virem a dizer que, dentro de não sei quantos anos, esses feriados podem vir a ser repostos! Ridículo! Apenas ridículo!
Num regime republicano como o nosso, estranho é que as duas datas ligadas à independência e à criação do regime republicano caminhem para a supressão de feriado! Falta de poder de inscrição, falta de memória, falta de saber… chame-se-lhe o que se quiser.
Por falta de alternativas? Não, por certo. Porque não transpor outros feriados para domingos, por exemplo? Porque não abdicar dos feriados municipais e transformá-los nos dias do município a serem celebrados em fim de semana? Ou, mais corajoso ainda: porque não impedir as “pontes”, essas sim verdadeiras causas desta fúria anti-feriado, por vezes construídas com a conivência dos governos e aproveitadas numa operação meticulosa de cálculo para transformar o tempo de férias num calendário de mais cinquenta por cento?
Lamento que a memória portuguesa ande tão por baixo. Lamento que a memória esteja a ser tratada como se fosse a culpada pela situação para que nos atiraram. É triste que uma data como o 1º de Dezembro, não dependendo das vontades políticas da esquerda ou da direita ou de outras forças de pressão, acentuada pela ideia da independência, seja exactamente aquela que cai! Talvez para provar que não se pode ser independente… Memória pobre, triste memória!
E, voltando ao livro de Ribeiro e Castro (que deve ser lido para informação e visto como forma de intervenção e de partilha, recolhendo vários testemunhos e os diversos textos que o autor escreveu sobre esta questão), valeria a pena recomendar a leitura da sua “introdução”, verdadeira e forte declaração de interesses do que deve ser um político, do que deve ser a sua função, do que deve ser a aliança entre a sua consciência e a cultura. O mal é que a maioria dos políticos que temos não passam por estes crivos, infelizmente, como se tem visto desde há muito!

sábado, 12 de maio de 2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Memória: Fernando Lopes (1935-2012)


Recordo-lhe a delicadeza com que falava de cinema e a igual delicadeza das imagens. Relembro filmes como Uma abelha na chuva (1972), Crónica dos bons malandros (1984) ou O delfim (2002), todos adaptações da literatura, de Carlos de Oliveira, de Mário Zambujal ou de Cardoso Pires. E opto por ver um deles. Gesto frágil, é certo, mas em jeito de homenagem e de respeito.

terça-feira, 1 de maio de 2012

É isto normal?


O que levou o grupo Jerónimo Martins a promover as suas vendas da forma que o fez hoje, com 50% de desconto em compras iguais ou superiores a 100 euros? Só a empresa o saberá, mas o retrato - também por ser no dia de hoje - não é bonito…
Em primeiro lugar, o Pingo Doce não deu nada a ninguém; em segundo lugar, contribuiu para alguma inquietação social; em terceiro lugar, não podemos considerar que tenha sido seguido o princípio da formação do consumidor ou de um consumo responsável, como deveria ser apanágio deste tipo de distribuidores; em quarto lugar, é grave que, como dizem as notícias, as lojas tenham tido de encerrar mais cedo “por razões de segurança”.
Poder-se-á argumentar que foram a necessidade e a poupança que levaram a esta corrida todos os clientes… poderá, ainda que não fique provado que necessidade e poupança sejam irmãs gémeas das compras descontroladas, adquirindo-se aquilo de que se precisa e aquilo de que não se precisa…
Cada vez gosto menos de hipermercados. Os consumidores têm sido explorados até ao tutano por essas catedrais de consumo. Agora, que o tempo é o que é, apresentam-se como alguém que dá uma prenda aos carenciados que todos somos, levando já os primeiros (ou os últimos) euros do mês. Incongruências de um regime que agride continuamente cada pessoa…
Leia-se a reportagem surgida na edição online do Público e pense-se…
É isto normal?

Máximas em mínimas (84) - António Mota


Sonho – “Muitas vezes a imaginação é mais importante que a realidade. (…) Os sonhos, às vezes, ganham raízes dentro de nós.” (in “O violão”)
Natureza – “A Natureza ainda é a melhor amiga.” (in “Os melhores amigos”)
Idade – “Contar os anos é uma coisa muito complicada. Até dez, conta-se bem.  Entre dez e quinze demora muito tempo a contar. Mas depois é uma grande confusão.” (in “Como se fossem lenços de mão”)
António Mota. O lobisomem (1994)