segunda-feira, 30 de abril de 2012

Sobre "Cântico primaveril", de Ilídio Gomes


Cântico primaveril é o quarto livro de Ilídio Gomes a viver de poesia (Setúbal: ed. Autor, 2012). Com esta obra, o autor pretende, nas suas próprias palavras, “fechar um círculo”, mesmo correndo o risco “de uma qualquer deficiente verbalização”, com humildade mas com satisfação, liricamente sentido.
Ressalta desta nota inicial do autor a ideia de missão, de compromisso com a palavra e consigo mesmo, numa atitude de veneração pela poesia, construção que lhe preenche espaços, muitos espaços, da vida.
Ao quarto livro, que Ilídio Gomes sugere ser o último, o título remete-nos para o período da criação, a Primavera, curiosamente numa ordem que apenas a poesia pode permitir. Se olharmos a sequência de títulos publicados, vemos que o Outono antecedeu esta Primavera, já que, em 2005, tinha saído Cântico outonal e, sete anos passados, surge Cântico primaveril.  A habitual ordem das estações do ano, que nos habituámos a decalcar das idades da vida e do pulsar do calendário, foi aqui subvertida, numa lógica de que a palavra é instrumento de criação e de que a poesia não se deixa limitar por barreiras de outra ordem que não os momentos do sujeito poético. Fechar o ciclo com a Primavera é acreditar na criação!
Apresenta-se este livro como um conjunto de “crónicas e poesia”, uma e outra partes com contornos imprecisos, mas ambas sujeitas a fortes epígrafes.
Comecemos pela primeira, pedida emprestada a Sebastião da Gama: “Que importa, meus versos, que vos tomem / (e eu vos tome também) por chaves falsas / se vós me abris as portas verdadeiras?” O que se afirma é a vontade do poeta, a capacidade que a palavra tem de ser uma chave que resolve os mistérios apresentados pelo mundo – chave, no sentido da decifração; chave, enquanto abertura possível para seguir a rota do desvendar dos máximos segredos e revelações.
A segunda epígrafe é de Miguel Torga e diz: “Não há espelho mais transparente que uma página escrita.” E temos a mensagem poética na sua função especular, a revelar o poeta ao mundo, a devolver ao leitor o descobridor de segredos.
Ambas as citações, que Ilídio Gomes colocou a abrir as duas partes do livro, contribuem para justificar esta voz que se ouve em Cântico primaveril. Por cerca de uma centena de textos passam procuras, verdades, descobertas, crenças. Intervalam-se quadros do longe com motivos da proximidade, numa oscilação entre a partida, em viagens de ausência quase sempre feliz, e o estar aqui, em momentos de regresso, para evocar quadros de vida, lembranças, aprendizagens, onde não faltam o Sado, a Arrábida, a cidade ou os seus jardins.
Tudo passa pela partilha através da palavra – “hei-de escrever / todos os versos que a Musa me ditar / e dá-los-ei ao Mundo para os ler!” Tal comunhão vive das convicções (“sempre fiz da razão a única força da verdade”), da descoberta do valor do tempo e da vida (“sempre gostei de falar da vida, / tema que guardo serenamente / no meu vocabulário, em palavras / de silêncio, que guardo avidamente / por respeito à memória dos tempos”), da fixação em momentos de paisagem, acompanhando, por exemplo, o voo da gaivota (“sei que depois voltas calma, serenamente, / à cidade no teu voo de asas brancas, / a deitar luz sobre as águas mansas do Sado”) ou o sulcar de um veleiro (“navega cortando as brumas e as vagas, / numa marcha firme, sempre mais audaz, / meu veleiro branco que larga o cais / com rumo traçado em busca de paz”).
Por estes poemas passam também valores, chaves outras de orientação e da vida, de que destaco dois: a energia que pode jorrar da humildade (“é muito provável que ninguém saiba / por ser segredo / que a força da humildade / contraria a escuridão do nosso medo”) e um forte sentido do que é ser homem e senhor do destino, em liberdade (“sou eu quem guia o meu caminho, / não há mares, rios, oceanos, / ventos ou tempestades / que consigam transformar o meu querer”).
Dizer poético é esta mensagem de Ilídio Gomes, através de um cântico que louva a vida, dele não sendo alheias marcas da dureza que a constrói, num esforço preocupado de encontrar a essência que caracteriza o homem e que define uma vida! São esses momentos que a palavra poética transforma em Cântico primaveril
[Na apresentação da obra, no sábado, em Setúbal.]

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Máximas em mínimas (83) - Alice Vieira


Sonho – “Os sonhos são recados dos deuses.”
Bondade – “Quem tem um coração de oiro nunca envelhece, mesmo que viva até aos cem anos.”
Infinito – “O que não tem fim não se pode medir.”
Palavra – “Às vezes, há palavras que matam muito mais depressa do que uma valente espadeirada.”
Chegada – “Estamos sempre a chegar e sempre a partir.”
Adulação – “Às vezes, os reis só têm ouvidos para as palavras da lisonja e da mentira.”
Amar – “Quem ama não deve pedir nada em troca desse amor.”
Alice Vieira. Leandro, rei da Helíria, 1991.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Memória: Miguel Portas (1958-2012)

Admirei-lhe a coerência e a convicção. Há uns meses, veio à minha Escola para falar da Europa e do seu futuro. Foi um discurso aberto, afável, construído sobre convicções, esclarecedor, sem demagogia. Os alunos que assistiram, mesmo os mais novos, apreciaram a força dos argumentos e a clareza, logo o distanciando dos políticos que todos os dias invadiam (invadem) os media. Era dono de uma voz que nos vai fazer falta.

Dina Barco: "Diário de Sara, a Verde"


“Mãe, tens muitos diários cá em casa?”, quis saber Sara, um dia. Pensando nos seus diários da juventude, a mãe confessou que já os destruíra, mas a adolescente logo corrigiu a pontaria – “Não é desses que estou a falar. Quero saber de diários como o de Anne Frank e o outro que andaste a ler!” E a mãe procedeu a rápido inventário do que podia ser encontrado nas estantes lá de casa: Miguel Torga, Sebastião da Gama, José Saramago. Mais tarde, nessa sexta-feira, Sara registaria: “Pelos vistos, a moda dos diários-livros não é coisa recente. Não sei se foi a Anne Frank que começou, embora involuntariamente, coitada, porque duvido que isso a preocupasse enquanto vivia escondida dos nazis. O certo é que, uns anos mais tarde, no meio de outra guerra, a Anne serviu de inspiração à Zlata Filipovic. Depois apareceram a Joana (da Lua), a Sofia (& Cª) e uma tal Bridget Jones (…) Agora há diários para todos os gostos: cruzados, secretos, de bananas, de totós, de vampiros…” E logo veio a decisão da jovem: “Mesmo assim, resolvi experimentar a receita para ver se acabo com as crises financeiras cá de casa. Se os outros escrevem, porque não eu, que até tenho sempre boas notas a Português?”
Está encontrado o pretexto para este Diário de Sara, a Verde, de Dina Barco (Ilustr.: Raquel Barco. Setúbal: ed. Autor, 2011), volume de oitenta páginas, corrido no tempo de um ano escolar, entre o primeiro de Setembro e o 25 de Junho. O género é a forma de escrita diarística juvenil sobre uma história ficcionada e os modelos são vários, como referido acima.
De leitura bastante acessível, transmitindo os sentires de Sara, uma jovem do 6º ano, que vive com a mãe, na cidade do Sado, neste Diário vai a protagonista partilhando com o leitor as preocupações da idade – as amizades, os amores, as zangas, a cumplicidade com a mãe, a escola, o espírito de grupo, a família, as descobertas, a ausência do pai, a identidade…
Por este caminho passam, sobretudo, as aprendizagens e os olhares de uma adolescente atenta à vida – sobre a amizade (“Sabe tão bem fazermos os outros felizes!”), sobre as dificuldades dos outros (ao saber a história de Fábio, desabafa: “deve ser horrível andar a viver daquela maneira, empurrado duns sítios para os outros, sem um único adulto em condições que se preocupe com ele… Como é que eu seria se tivesse uma vida assim?”), sobre os rapazes (“Parece que nem vives neste mundo. Então não sabes que quando os rapazes coram é porque estão apaixonados?”, ensinou-lhe a Inês), sobre o apoio da mãe (“Não ganha muito e portanto também não podemos ter luxos, mas eu não trocava a minha vida por nada! Damo-nos bem, divertimo-nos juntas, fazemos programas interessantes… Ela não sabe, mas é a pessoa que eu mais admiro no mundo.”), sobre os efeitos da paixão (“quando aparecem paixões pelo meio é normal que as amizades se ressintam um pouco”), sobre o primeiro beijo (“depois os lábios dele tocaram os meus e senti uma onda de calor que me deixou literalmente a flutuar”), sobre o sentido das aprendizagens (“já percebi que dentro e fora da escola a vida é assim mesmo, feita de mudanças que nos estão sempre a pôr à prova e a fazer aprender mais qualquer coisa”). E passam também as preocupações sociais (o custo de vida, a solidariedade, a amizade, as cautelas no uso da net, cuidados ambientais), as imagens sadinas (Arrábida, Teatro Animação de Setúbal, Coral Luísa Todi, Coral Infantil de Setúbal, Vitória Futebol Club, Parque Urbano de Albarquel, Museu Oceanográfico, Lapa de Santa Margarida, José Afonso, Casa da Baía), a pedagogia sobre a saúde (alimentação).
Quanto ao cognome “a Verde”, Sara adquiriu-o graças a um projecto que desenvolveu na escola, assumindo uma perspectiva crítica quanto às práticas pouco amigas do ambiente levadas a cabo no meio escolar. A sua forma de afirmação, o seu espírito crítico e a sua convicção granjearam-lhe simpatias e constituíram mesmo um passo determinante para o encontro com o rapaz de quem gostava, assinalando um momento de tal crescimento que, num registo de Junho, a levará a escrever: “Faltam só duas semanas para vermos terminado o ano lectivo mais feliz da minha vida!”
O final do livro é de encontros: apaixonada, Sara consegue reconhecer que a mãe estava perante o mesmo sentimento. E, perante as dúvidas de como poderia ser a sua relação com o namorado da mãe e com a filha dele, a Sara revela-se ainda um outro segredo que lhe traz alegria: o destino das duas jovens já se tinha cruzado, ainda que nenhuma delas o soubesse.
Diário de Sara, a Verde é livro de leitura fácil, que pode suscitar diálogos e momentos de escrita. Não sabe o leitor se Sara deu cumprimento à última promessa que deixou exarada na derradeira página do diário – perante o entusiasmo da descoberta final, que Sara conta já tarde, “cansada e com muito sono”, conclui o texto, dizendo: “Agora vou dormir. Feliz. O resto fica para depois.” Se o “resto” for a continuação do trajecto de Sara, pode ser que, um dia, o leitor se cruze com ele… Não se perderia nada, tanto vale a pena haver retratos de jovens felizes com as suas descobertas!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

No Dia Mundial do Livro, a "Oración al libro", de Rafael Heliodoro Valle



Danos, Señor, el libro nuestro de cada día, tenemos sed de justicia: es nuestro vino; nos morimos de hambre de amor: es nuestro pan.
Danos labios puros para leerlo, manos limpias para tocarlo, candor para merecerlo. Está hecho también para que los hombres malos lo lean, porque él es agua clara en que se purifican las almas sucias, aroma fina para todas las llagas.
Danos el libro que todos pueden leer, el que sea para todos como el sol y todos lo entiendan como el agua. El que nos alumbre en este largo camino que se llama vida: queremos luz; el que nos levante de esta tierra en que nos arrastramos: queremos alas.
Lo queremos suave de corazón, lleno de cantos como un árbol, y que descanse en nuestras rodillas como un niño. No importa que sea humilde, con tal que se ofrezca a la mano como un fruto: o que sea débil en aparencia, con tal que llene un nido.
Le haremos su casa, para que en ella viva con decencia; lo defenderemos de las manos pérfidas que lo acechan, para que sirva a todos; lo levantaremos del suelo cuando se caiga, para que otros no lo ultrajen; lo vestiremos, si está desnudo, con la seda de nuestra devoción contenida. En él viven almas que tuvieron el dolor de nuestro mismo llanto, sufrieron en carne viva otras ideas, se desesperaron por otros ensueños; pero él no estará quieto en su casa, porque fue hecho con la inquietud, con el dolor y el amor de cada día, y por eso, cuando sea más oscura la noche y el camino más pavoroso de peligros, él saldrá a dar el pan y el vino a los que tienen sed de justicia, hambre de amor.
Los niños ricos lo leerán y los de los pobres lo amarán, porque los hombres lo hicieron para todos los hombres. Irá, de mano en mano, como la buena semilla de tierra en tierra, y ha de ser tierno como el nido; delicioso, entero como el fruto.
Cuando todos los hombres lo lean, se apagará la llama horrible de la guerra, el rico no explotará al pobre, y habrá riso y buena acción en el mundo, canción en la tarea, y no se odiarán más los hombres de buena voluntad. Ni habrá niños descalzos, niños que alzen las manos para pedir sino para dar. Todos creerán en un mismo Diós; ni el arte, ni la ciencia, ni la religión serán el privilegio de los unos, y la vida tendrá entonces su más alto sentido.
Danos, Señor, el libro que trae llamas en la frente como el profeta que nos bajó del cielo. Este no es el barco cañonero que trae gente armada; este barco trae libros para los niños o los sabios y los que tienen hambre de conocimiento, sed de misericordia.
Danos, Señor, el libro del Norte y del Sur, y el que está escrito con espíritu, y el que sabe a la amargura más íntima del corazón. Los hombres buenos — que son más que los hombres malos — salen a recibirlo con los brazos abiertos. Danos, Señor, el libro antena, aquél en que repercuta el grito de los otros hombres, el que copia el paisaje de las otras lontananyas. Y deja, Señor, que él nos alumbre en este largo viaje de la vida y nos sea claro como el torrente, generoso como el fruto, blando como el nido; y que solo se nos caiga cuando llegue la muerte.

O texto é do hondurenho Rafael Heliodoro Valle e li-o transcrito por Sebastião da Gama no seu Diário no conjunto de “páginas de férias”, de 1949. Heliodoro Valle (1891-1959) passou a viver no México desde cedo. Professor universitário, desempenhou também o cargo de embaixador do seu país nos Estados Unidos. Foi autor de obras como El rosal del ermitaño (1911), El perfume de la tierra natal (1917), Ánfora sedienta (1922), El espejo historial (1937), Cronología de la cultura (1939), Unísono amor (1940), Poemas (1954), Flor de Mesoamerica (1955) e Historia de las ideas contemporáneas en Centro-América (1960), entre outras.

domingo, 22 de abril de 2012

Máximas em mínimas (82) - André Domingues


Doença – “As doenças não pedem licença para exercer em nós o seu laborioso domínio.”
Tempo – “O tempo é a grande ratoeira do infinito.”
André Domingues. "Sine die". Novos Talentos FNAC Literatura 2011. Lisboa: FNAC / Teodolito, 2011

sábado, 21 de abril de 2012

Para a agenda: Ricardo Saavedra biografa António Manuel Couto Viana

É de Ricardo Saavedra a primeira biografia sobre António Manuel Couto Viana. De Ricardo Saavedra e do biografado, já que o texto resulta de longa entrevista e não menos longas conversas entre os dois. Daí, um livro a quatro mãos este António Manuel Couto Viana - Memorial do Coração, a ser editado pela Quetzal e com apresentação pública marcada para 4 de Maio, na Feira do Livro de Lisboa. Ler mais aqui >>>

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Para a agenda: "Livros que tomam partido - A edição política em Portugal no período 1968-1982"

Decorrerá no próximo dia 21 de Abril, às 16:00 horas, no espaço da livraria Culsete, em Setúbal, a apresentação da conferência «Livros que tomam partido: a edição política em Portugal no período 1968-1982», apresentada por Flamarion Maués, investigador da Universidade de São Paulo e do Instituto de História Contemporânea da UNL. A conferência será comentada por Nuno Medeiros, especialista em sociologia e história do livro e da edição.
Portugal assistiu, desde 1968, mas principalmente após o derrube da ditadura em 25 de Abril de 1974, a uma explosão do que podemos chamar de edição política, ou seja, a publicação de livros de caráter político, sobretudo de obras vinculadas ao pensamento de esquerda, dentro de um movimento mais amplo de liberação política e cultural decorrente do fim da opressão ditatorial.
O historiador brasileiro Flamarion Maués vem desenvolvendo ampla e pioneira investigação sobre a edição política em Portugal, focalizando as editoras de livros de caráter político que publicaram no período entre 1968 e 1982, procurando perceber e interpretar o seu papel.
Ao convidar este investigador, a Livraria Culsete pretende assinalar a passagem dos 38 anos da Revolução de Abril, chamando a atenção para uma questão até agora esquecida, mas de importância crucial no aprofundamento histórico e cultural da edição e do livro.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Antero de Quental, 170 anos, hoje

Antero de Quental, em banco, no jardim, na Praça das Amoreiras, em Lisboa