sexta-feira, 13 de abril de 2012

Para a agenda - Centro de Investigação Manuel Medeiros

Hoje, em Setúbal, no auditório da Biblioteca Municipal, a cerimónia de fundação do Centro de Investigação Manuel Medeiros, no âmbito da UNISETI.
O patrono, açoriano e livreiro em Setúbal, poeta (Resendes Ventura), autor de blogue ("Chapéu e Bengala"), vai falar sobre "Temáticas setubalenses e conquista de cidadania activa". A não perder, pelas 15h00.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

N'«O Setubalense» de ontem - Professor

Antes de mais, uma declaração de interesses: sou professor. Por gosto, por prazer, por necessidade de aprender cada vez mais. Tenho de muitos dos meus professores gratas recordações, porque com eles aprendi muito, porque me ajudaram a ter do professor a imagem que tenho, positiva. Recordo muitos deles, sejam da escola primária (era assim que se chamava), do ensino secundário ou do ensino superior. Recordo-os com boas lembranças e, quando os encontro, faço também questão de lhes mostrar essa ligação. De alguns fiquei amigo, de convívio frequente; de outros, sei deles pela memória.
De igual forma, tenho tido alunos que me têm lembrado a importância de nos termos encontrado. Como haverá outros que nem se lembram ou que quiseram esquecer rapidamente. Leis da vida e das conjunturas, pois educar e ensinar não é simples, embora seja uma área sobre a qual é fácil dar palpites, talvez porque todos temos algo a ensinar ou a aprender. Sebastião da Gama dizia isso mesmo aos seus alunos, conforme o recorda no Diário: «Não sou, junto de vós, mais do que um camarada um bocadinho mais velho. Sei coisas que vocês não sabem, do mesmo modo que vocês sabem coisas que eu não sei ou já esqueci. Estou aqui para ensinar umas e aprender outras.» Revolucionário para a época, em Janeiro de 1949? Não, apenas natural, como continua a ser natural hoje, mas com sabor a aprendizagem e a ensinamento.
Vem tudo a propósito de um texto que vi escrito num saco. É verdade: num saco. Começou o período da apresentação de manuais escolares e, há dias, numa sessão promovida pela Porto Editora, por facilidade de arrumação, os vários componentes dos respectivos projectos eram entregues dentro de um saco, em cujo corpo se podia ler o seguinte texto, dirigido aos professores: “Pela sua paixão, pela sua dedicação e pela sua coragem. Por nos mostrar o mundo. Por nos abrir os olhos. Por nos fazer pensar, imaginar e sonhar. Por cada aula. Pelas letras e pelos números. Pelos pensadores, pelos construtores e pelos inventores. Por nos mostrar o caminho e por caminhar ao nosso lado. Por ensinar as nossas crianças. Por abrir horizontes a Portugal. Obrigado.”
Poder-se-á dizer que a mensagem corresponde à dimensão poética do que pode conter o texto publicitário; poder-se-á dizer que é a boa promoção de uma marca. Certo. Mas não é menos certo que, depois do que tem sido, nos últimos anos, a forma de tratar este grupo profissional, sabe bem ler isto. Todos nós, professores, nos sentimos perto do que esta mensagem diz, às vezes; noutros momentos, sentimos a distância porque não conseguimos chegar ali. Contingências de sermos humanos…
De ser professor gostaria de ter uma recordação como aquela que George Steiner enunciou uma vez, quando lhe perguntaram qual a recompensa possível para um professor: «A recompensa suprema é a de encontrar um aluno muito mais dotado que nós mesmos, que vai avançar mais do que nós, que vai criar a obra que um futuro professor vai ensinar.»

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Sebastião da Gama: poemas para os amigos

Muitos dos poemas que Sebastião da Gama escreveu tiveram dedicatórias para amigos, sobretudo nos manuscritos – são cerca de quatro dezenas os poemas publicados nos três livros por si editados (Serra Mãe, 1945; Cabo da boa esperança, 1947; Campo aberto, 1951) que, não tendo dedicatória nos livros, foram dedicados em manuscrito. A prática era normal em Sebastião da Gama, que gostava de se apresentar como poeta: partilhar poemas com os amigos, não só a dádiva por ouvirem o texto acabado de surgir, mas também a entrega do documento escrito, de que o poeta fazia várias cópias para ofertar.
Há, no entanto, cerca de trinta poemas que tiveram destinatário especificado, motivados que foram por essa prática do livro de curso a encerrar o tempo universitário de uma licenciatura. Sebastião da Gama escreveu para vários amigos e em várias dessas publicações. Cerca de três dezenas é o número de poemas nessas circunstâncias que conseguimos apurar até agora. Dessa produção quase não ficou registo e existem escassos manuscritos desses mesmos testemunhos de afecto. >>> Continuar a leitura >>>

Máximas em mínimas (81) - Horácio Bento de Gouveia

Adolescência – “Abstracção vive-se, sim, na adolescência, na qual os olhos vêem com matizes que só a ela pertencem o mundo em torno.”
Vivido – “Procurar reproduzir a experiência vivida é o mesmo que evocar, em presença da fotografia, a realidade humana que não se vê mas existiu.”
Imaginação – “Se não fora a imaginação, a vida seria de uma realidade cruenta.”
Olhar – “O exterior é o primeiro conhecimento dos olhos.”
Beleza – “A beleza também embriaga. A reflexão nunca desmente o êxtase que a consciência viveu.”
Horácio Bento de Gouveia. Alma negra e outras almas. Funchal: ed. Autor, 1972

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Em La Lys, na Flandres, há 94 anos

Na obra Notas do Cativeiro – Memórias dum Prisioneiro de Guerra na Alemanha [Lisboa: J. Rodrigues & Cª (depositário), 1919], Adelino Delduque ocupa o primeiro capítulo, intitulado “De Cense de Raux a Salomé-La Bassée”, transmitindo a visão do que ficou do 9 de Abril, dia da batalha de La Lys.
Datado de “Rastatt, Abril de 1918”, este texto é a memória do momento em que o narrador e camaradas seus (entre os quais o então tenente-coronel Craveiro Lopes) foram feitos prisioneiros pelos alemães em 9 de Abril. Depois da descrição do saque produzido pelos soldados inimigos aos souvenirs (“termo extremamente singelo e não sei se quase carinhoso, à sombra do qual fomos ficando sem as coisas que lhes iam apetecendo e que para nós em não sei quantos casos tinham além do seu valor intrínseco o da recordação que representavam”) que eram os objectos de uso pessoal (artigos de toilette, relógio, carteira, casaco e outros), torna-se forte a impressão causada pela destruição, pela ruína – dos homens e dos sítios:
«(…) A barragem de artilharia, essa música ensurdecedora e horrível de nove horas consecutivas, ouve-se já a maior distância. (…) Agora vamos ao longo da rua du Bois, antiga estrada que atravessava as linhas e que entre elas estava quase desaparecida. (…) A todo o longo há um horroroso espectáculo de carnificina. Jazem a um e outro lado numa verdadeira igualdade, nesta que só nestas condições é verdadeiramente igual, soldados nossos e inimigos. Há-os desfigurados, disformes, contorcidos, despedaçados, as mãos crispadas, o rosto profundamente contraído, mostrando bem o horror do sofrimento em que se debateram e em que morreram. Lutaram como soldados e diz-nos o aspecto que nos últimos momentos em que os rostos da lucidez lhe avivaram memórias que não falham, sentimentos que se não perdem, lutaram ainda desesperadamente para viver. (…) Foi por entre este horrível espectáculo que atravessámos as linhas. (…) O efeito do nosso bombardeamento íamo-lo encontrando a cada passo. Havia muitos cavalos mortos, muitas viaturas em destroços. Infelizmente, porém, não fora o bastante. (…)»

Adelino Delduque da Costa (10.Jun.1889-25.Jun.1953), natural de Viana do Castelo, foi oficial do Exército. Passou à situação de reserva como coronel em 1948. Participou no CEP, tendo sido feito prisioneiro em 9 de Abril; leccionou no Instituto dos Pupilos do Exército e no colégio Militar; foi Chefe do Estado-Maior do Estado da Índia e Governador do distrito de Damão. Pertenceu ao Instituto Vasco da Gama e à Comissão de Arqueologia do Estado da Índia. Foi autor de Notas do Cativeiro – Memórias dum Prisioneiro de Guerra na Alemanha (1919), Diu – Breve notícia histórica e descritiva (1928) e Os Portugueses e os Reis da Índia (1933).

domingo, 8 de abril de 2012

Páscoa

Na igreja paroquial de Queijas (Oeiras), pintura de Victor Lages

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Nuno Gomes Garcia, "Arame farpado - As peripécias de um soldado republicano"

Sabino nasceu em 29 de Fevereiro de 1892, em Lisboa, e à data foi associado algum espírito de maldição. O trajecto de Sabino, Casimiro Sabino, lisboeta de Alfama, personagem complexa, ocupa a história de Arame farpado – As peripécias de um soldado republicano, de Nuno Gomes Garcia (Corroios: Edi 9, 2011).
O subtítulo ajuda a desvendar algumas marcas da história, sobretudo a da condição militar e a do momento histórico, contextos que se estendem pelos vinte capítulos, com o leitor a acompanhar a personagem até Janeiro de 1926, data em que o narrador conclui a sua história, quando se sente “perdido na quietude gelada do manto branco que cobre as estepes da Ásia”.
É uma história construída sobre analepses, outros tantos momentos de memórias, conjugadas com momentos históricos com os quais a vida da personagem se cruzou – o regicídio em Lisboa, a barricada na Rotunda, o 5 de Outubro, as incursões couceiristas em Trás-os-Montes, o ataque alemão ao posto moçambicano de Maziúa, a preparação do Corpo Expedicionário Português em Tancos, a participação portuguesa na Flandres e a batalha de La Lys. Estes momentos dão-nos, de resto, a geografia em que a história decorre – entre Lisboa, Vinhais, Moçambique, Brest, Flandres.
O tempo preponderante é o das trincheiras na Flandres (com episódios da vida na trincheira bem reconstruídos), que ocupa metade dos capítulos da história, surgindo todos eles intervalados pelos capítulos que evocam outros momentos da história da personagem, num trajecto de reconstrução da memória de Sabino, um misto de soldado e de crítico, sempre sentindo a maldição sobre si, gostando de viver no caos, construindo o seu próprio caos, determinado pela procura dos sítios e dos momentos de maior desagregação (“Desde cedo, compreendi a ligação umbilical entre a república e o caos. A república precisava do caos, por isso, eu necessitava da república.”).
O percurso de Sabino, revolucionário, degredado, desertor, vendedor ambulante de livros, leitor, trabalhador na morgue, soldado, solitário, permanentemente preocupado em guardar o seu segredo (ainda que escrevendo-o), constrói-se no encontro com outras personagens, algumas delas figuras da história portuguesa da época (Machado dos Santos, general Tamagnini ou Aníbal Milhais, o famoso soldado “Milhões”, entre outros) e sobre uma linguagem crítica, fortemente irónica (“Os guerreiros portugueses lá se arrebanhavam nas valas, mascarados de ovelhas em plena véspera de natal, tal qual figurantes de um aberrante presépio.”; “os ingleses não conseguiam tolerar a pontualíssima meia hora de atraso lusitana.”) e sarcástica, muitas vezes (“Ninguém nos sabia dizer se o Manelinho tinha ido ou não ao encontro do seu augusto paizinho. Mal por mal, o reizinho, doravante, já saberia como é difícil viver numa casa sem teto.”, observação referente ao momento em que, tendo sido bombardeado o palácio das Necessidades, se ignorava o destino de D. Manuel).
Acompanhar Sabino no período de uma década (entre 1908 e 1918) é testemunhar o absurdo de uma personagem que esmaga os sentimentos dos outros e corre em busca de uma normalidade que não encontra, transformando-se num símbolo de crise.
Marcadores
Paraíso – “O paraíso é efémero e tende, tal como aconteceu na génese da humanidade, a terminar abruptamente.”
Esperança – “A esperança infundada é a grande responsável pelos maiores logros e desastres.”
Aparência – “Uma gravata é o melhor meio de queimar etapas no sentido de uma vertiginosa ascensão social.”
Espera – “Todas as esperas são dolorosas.”
Tempo – “Talvez não haja nada mais longo no tempo do que a perpetuidade.”
Justiça – “A justiça e a paridade não são luxos, são direitos universais.”

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Hélia Correia na "Ler"

A entrevista que Carlos Vaz Marques fez a Hélia Correia e que o número deste mês da revista Ler (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores, nº 112, Abril 2012) publica é peça a considerar.
No próprio e excelente estilo de Vaz Marques, o pretexto da conversa é a publicação recente do poema A terceira miséria (Relógio d’Água) de Hélia Correia, perpassando pelas suas oito páginas o retrato da entrevistada, uma tela cheia de originalidade, iniciada com os ensinamentos recebidos dos gatos e da Grécia e finalizada com uma confissão resultante de um tratamento que acabou por rejeitar porque… “estive quase a ser normal, imagine.”
Fala-se da Grécia e da cultura grega, da poesia, do “mundo” literário, da escrita, da leitura, da vida. Uma entrevista a alguém que faz o seu mundo e que faz o mundo seu. Peça a ler.
E, sobre o presente, uma (longa) citação a reter, quando todos andamos preocupados com os valores em que nos movimentamos: “Não há nada que escape ao escândalo que o ser humano criou para os dias de hoje. As pessoas falam muito de valores mas eu não gosto muito de falar de valores porque isso implica um sistema moral que se considera mais perfeito do que o dos outros. Não falo, por isso, da falta de valores, hoje. Até porque há grandes valores, por exemplo entre os jovens. Há o valor maravilhoso da amizade, que está muito implantado. Se eles não têm outras virtudes é também porque não podem, porque estão lançados na arena dos gladiadores e têm de lutar até à morte para não serem mortos. Aí, não pode haver virtude nenhuma. Também não gosto nada da palavra ‘virtude’, que é romana e própria dos homens: é a qualidade do homem. Como é que se pode tipificar este escândalo? É o completo voltar de costas à vida e ao louvor da vida. Sendo que para mim a vida é a natureza e todos os seres que ela contém.”

terça-feira, 3 de abril de 2012

Andersen no dia de ontem

Ontem foi o Dia Internacional do Livro Infantil, caído em 2 de Abril por ser esse o dia em que, em 1805, nasceu Hans Christian Andersen, o contista dinamarquês universalmente conhecido, que foi também viajante e andou por Portugal em 1866 (passará, dentro de quatro anos, o 150º aniversário dessa viagem), dessa experiência tendo deixado relato.
Setúbal foi um ponto de poiso nessa longa jornada e foi nesta terra que lhe surgiu a ideia para um conto como “O sapo” (“Skrubtudsen”, no original), narrativa que homenageia o sonho de ir mais além, apesar dos riscos.
O fascínio dos contos de Andersen, na sua totalidade traduzidos para português por um setubalense, João José Pereira da Silva Duarte (1918-2011), mantém-se sobre os seus leitores, independentemente das latitudes ou das gerações.
Há poucos meses, a M. C., minha aluna de 7º ano, leitora compulsiva, fazia-se acompanhar do livro Os contos, de Andersen, numa edição devida a esse espantoso divulgador e amante da obra do seu conterrâneo que é Niels Fischer, feita em 2005 (aquando do bicentenário do nascimento de H. C. Andersen). Pedi-lhe uma opinião sobre a sua leitura e a resposta deu para conversa em parte significativa de uma aula: “Os contos de Andersen não são tão felizes na escrita como aparecem nos filmes, dizia, mas são muito mais bonitos e encantadores, mais surpreendentes, na leitura do que nas versões que nos mostram.”
É claro que, perante uma observação destas, uma parte considerável da turma quis saber as razões que levavam a M. C. a falar assim e quiseram saber a opinião do professor. Daí o tempo que, em aula, se gastou a falar de Andersen… com a consequente recomendação de leitura de “O sapo”, que tinha sido gerado em Setúbal, e com olhares atentos para uma (re)descoberta de Andersen graças à M. C.
Quanto a “O sapo”, o início é nas profundezas, enquanto o final é nas alturas. Assim começa:
“O poço era fundo, por isso a corda era comprida. A roldana rodava com dificuldade quando se puxava o balde com água para a borda do poço. O sol nunca conseguia descer para se espelhar na água, por muito clara que fosse, mas até onde chegava o seu brilho, crescia a erva entre as pedras. (…)”

Victor Hugo: "Les misérables" com 150 anos

Charles Baudelaire considerou a obra “un livre de charité, un étourdissement rappel à l’ordre d’une société trop amoureuse d’elle-même et trop peu soucieuse de l’immortelle loi de fraternité”.
Referia-se a Les misérables, de Victor Hugo, onde se conta a epopeia de Jean Valjean, já várias vezes adaptada a outras formas de arte. A primeira edição desta obra apareceu faz hoje 150 anos. Um dos livros a não perder e de que se reproduz o início:
“En 1815, M. Charles-François-Bienvenu Myriel était évêque de Digne. C’était un vieillard d’environ soixante-quinze ans; il occupait le siège de Digne depuis 1806. Quoique ce détail ne touche en aucune manière au fond même de ce que nous avons à raconter, il n’est peut-être pas inutile, ne fût-ce que pour être exact en tout, d’indiquer ici les bruits et les propos qui avaient couru sur son compte au moment où il était arrivé dans le diocèse. Vrai ou faux, ce qu’on dit des hommes tient souvent autant de place dans leur vie et surtout dans leur destinée que ce qu’ils font. (…)”