sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mendes de Carvalho e um "país à beira-mar plantado"

Foi por meados da década de 1970 que, numa carrinha das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian, conheci a sátira de Mendes de Carvalho (1927-1988), através do livro Poemas de Ponta & Mola. Ficou-me sempre este título pela expressividade, pela imagem adequada ao tom satírico utilizado.
Hoje, passeando o olhar por uma banca de livros em segunda mão, prendeu-me a atenção uma antologia da sua obra, Satírica (Lisboa: Círculo de Leitores, 1974), que reúne os livros Camaleões & Altifalantes (1963) e Cantigas de Amor & Maldizer (1966), com alguns poemas, à data inéditos, do que viria a ser Poemas de Ponta & Mola (1975).
Num relance, revivi o prazer com que, há três décadas, descobri Mendes de Carvalho e atirei-me ao livro, ainda por cima a preço de pechincha.
Não pude, claro, deixar de visitar esta escrita. E, porque estamos em maré de pensar o país que somos, ainda que com laivos de emigração à mistura, trago para aqui o “País à beira-mar plantado”, saído no segundo dos livros indicados. Vale a pena ler, é um (bom) retrato…

Mendes de Carvalho, in Cantigas de Amor & Maldizer (1966)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Eduardo Lourenço: a Europa, a esperança, a aldeia

A propósito da atribuição do Prémio Pessoa, a revista “Atual”, do Expresso saído na 6ª feira, publicou entrevista a Eduardo Lourenço, conduzida por Rosa Pedroso Lima e por Valdemar Cruz. Nos seus 88 anos, Eduardo Lourenço continua a reflectir sobre o nosso mundo, sobre o nosso mundo que nos cerca. São excertos dessa entrevista que se reproduzem.
Crise – “A Humanidade tem muitas maneiras de se definir. Ninguém pode viver sem esperança. A esperança é uma componente do que é cada ser humano. Sempre tivemos uma visão muito eurocêntrica, mas agora estamos a entrar num pessimismo em relação à Europa. É a famosa crise. Todo o discurso, na componente económica ou financeira, é da ordem do apocalíptico. Estamos à beira do abismo. É verdade que a situação não é boa, mas este continente ainda hoje é o de maior bem-estar em todo o globo. Não há razão para que os europeus desatem a autoflagelar-se.”
Europa – “A Europa comunitária foi construída sob pressupostos negativos: a ideia de servir de tampão entre os EUA e o Bloco de Leste. Uma ideia dos EUA que nos deixou entre parêntesis. No dia em que Muro de Berlim saltou, a Europa ficou sem projecto. (…) A Europa não tem nenhuma espécie de ideologia que a mova para que lhe possa fornecer um sentido do seu próprio projecto.”
Virtual – “Pela primeira vez, vivemos num mundo ao mesmo tempo mais materialista no sentido antigo do termo e mais virtual. A novidade, agora, é que a virtualidade é mais importante que a materialidade. Nesse capítulo, continua a ser um mundo humano. Só os homens são capazes de inventar algo que não existe.”
Juventude – “Neste momento, o problema crucial do mundo é que uma parte da juventude, pela primeira vez, não tem esperança. Não chega a entrar na vida. Pode sair dela sem ter entrado na vida. Isto é novo no Ocidente. Isto é espantoso.”
Aldeia – “Só há aldeias. Porque mesmo as pessoas que vivem nos grandes meios escolhem sempre um canto que lhes serve de aldeia. A aldeia é um conjunto de casas. E no meio das casas há a casa. E nós só precisamos de viver numa casa. O problema é aqueles que sabem isso e que não têm casa.”

António Oliveira e Castro: "Tambwe" ou o mundo pelos olhos de Eugénio

O mais recente romance de António Oliveira e Castro, Tambwe – A unha do leão (Lisboa: Gradiva, 2011), com ilustrações de Nuno David, é uma história que prende o leitor ao trajecto de uma personagem como Eugénio, figura que, ora procura a morte, ora assume o seu trajecto sozinho, ora peregrina até às raízes. A história é intensa e o leitor é convidado a passar por paisagens diversas, europeias (Portugal, França) ou africanas (Angola), por corredores diversificados de uma sociedade que nem sempre se rege pelos melhores princípios, convivendo com figuras da baixa política, com revolucionários, com mercenários, e tendo momentos de paragem, também fortes, em pensares de tempos de solidão ou em reflexão com figuras que constroem e se alojam na identidade.
É uma história dramática, em que o narrador dialoga com o leitor, tentando convencê-lo da verosimilhança das situações e levando-o a pensar a actualidade, o papel da política, o encaminhamento do mundo, o ser cidadão. É uma história dolorosa, com desvios e demandas, mortes e utopias, caos e ordem, poesia e horror, em que a liberdade e a prisão coexistem e a fragilidade do mundo e dos sistemas é posta à prova. É a história de uma solidão sempre e sempre testada, numa fuga ao tormento.
Sublinhados
Palavras – “As palavras, por maior que seja o seu conteúdo, não têm peso, sustentam-se de aparentes levezas, da aragem dos êxtases.”
Mistério – “Nem sempre o universo do homem se pode resumir ao encontro com a razão, na equação entram outras incógnitas, indecifráveis e misteriosas.” 
Faltas – “O que mais há na terra é paisagem e o que mais falta é o amor.”
Escrever – “Nenhum escritor escreve sobre acontecimentos insignificantes, procura sempre o lado sombrio, sujo, sanguinolento, colérico e escondido do Homem; descreve os campos de batalha onde se fuzilam os inocentes e assinam acordos de paz com os generais; o artífice da palavra relata, com a emoção de que é capaz, a loucura dos heróis, o medo dos cobardes; leva-nos até aos que jazem, na agonia da morte, debruçados sobre a terra que lhes escuta o lamento; faz-nos tropeçar nos corpos dilacerados que se espalham sobre os degraus dos edifícios em ruínas.”
Amor – “O amor é um fenómeno muito mais complexo que a morte; enquanto um regenera, o outro remete para o esquecimento.”
Vida – “Mesmo a vida mais verdadeira não passa do resultado do acaso, a que só a fé dos homens confere normalidade.”
Gerações – “O mundo acaba apenas para velhos que já não são capazes de se transformar, continua para os jovens generosos e sonhadores, que precisam de mudança.”
Futuro – “Nada, nada mesmo, obedece à lógica; apenas a aventura, o perigo, o risco, o sucesso imprevisto comandam o futuro.”
Castigo – “Os castigos são sempre subjectivos. Dependem de quem está no poder. Herói se vencer, traidor se for derrotado.”
História – “A história despreza os seus actores, reescreve-lhes o drama a seu bel-prazer; a qualquer instante pode matar num jogo de contradições, de paradoxos, de ironias, de injustiças; oportunista, caminha sobre uma estrada de cadáveres.”
Guerra – “A guerra não distingue os homens; tanto se lhe dá que sejam honestos ou assassinos, jovens ou velhos, pouco lhe importa que se encontrem exaustos ou frescos. Aliás, a violência tem especial predilecção pelos mais incautos, pelos mais fracos.”
Actor – “Apenas quando encarnam personagens que um qualquer dramaturgo inventou, os actores são belos, sedutores, insuspeitos, assim que abandonam o palco e a ribalta regressam à miserável condição humana que os agasalha.” 
Pátria – “Para que precisamos de nações? Os cidadãos precisam é de paz!”
Povo – “A história dos povos tem as suas regras, o seu tempo lento, mas as mudanças são muito mais definitivas quando a violência da guerra se torna conselheira da razão e das emoções.”
Trincheira – “Nas trincheiras, sempre morreram os jovens crédulos, cadáveres  condecorados com a crueldade do martírio. Indiferentes à hecatombe, os proprietários da pátria, latifúndio com milhares de hectares, que fazem crer ser também nossa, oferecem-nos o privilégio de lhes amanharmos o solo, de lhes produzirmos a riqueza.”
Horizonte – “A dimensão dos homens vê-se para onde olham, se para o umbigo, se para a montanha.”
Ambição – “Os homens, quando guiados apenas pela ambição, perdem a noção da realidade, escutam o umbigo quando tudo à volta se desmorona.”

sábado, 24 de dezembro de 2011

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Quando os políticos se "marimbam"... ou a nova face da piadola

Num jantar em Castelo de Paiva, o deputado socialista Pedro Nuno Santos terá apresentado pérolas como esta, transcrita da edição online do Público: “Estou a marimbar-me que nos chamem irresponsáveis. Temos uma bomba atómica que podemos usar na cara dos alemães e franceses. Essa bomba atómica é simplesmente não pagarmos”. Ou esta: “Se não pagarmos a dívida e se lhes dissermos as pernas dos banqueiros alemães até tremem”. Ou ainda esta: “A primeira responsabilidade de um primeiro-ministro é tratar do seu povo. Na situação em nós vivemos, estou-me marimbando para os credores e não tenho qualquer problema enquanto político e deputado de o dizer. Porque em primeiro lugar, antes dos banqueiros alemães ou franceses, estão os portugueses”.
Todos percebemos que este discurso cheira a demagogia que tresanda e o deputado tornou-se célebre por estas tiradas que uma rádio local captou e a que as cadeias nacionais deram eco. Coisas normais depois de uma refeição com amigos, mas não tão próprias quando se trata de alguém com responsabilidades políticas num partido que teve (tem) responsabilidades nacionais e na situação a que se chegou e que, ainda por cima, invoca o seu estatuto para afirmar “não ter qualquer problema em dizer” o que disse…
Mas mais ridículo é ouvir o deputado a explicar na rádio que não foi aquilo que disse, que o que quis dizer foi que Portugal tinha de exigir a negociação da dívida, etc., etc., etc., e que aqueles minutos de “marimbamento” eram apenas um excerto de mais longo discurso que daria para entender que não se estaria a marimbar assim tanto… E ainda mais rebuscada foi a explicação de literatice que o líder da bancada socialista, Carlos Zorrinho, veio dar – aquilo foi “uma imagética forte para expressar de forma caricatural a ideia de que devemos pagar a dívida obviamente”!
Detesto que nos queiram fazer passar por parvos e estas explicações são ainda mais ridículas à medida que se sobrepõem… Digam ao senhor que as declarações foram infelizes, que o seu estatuto lhe permite a liberdade (a nós também) mas não lhe permite liberdadezinhas e que, de facto, um deputado não se pode “marimbar” para tudo o que o senhor disse que se “marimbava”… Imagino já os banqueiros a tremerem ou a rirem-se da piadola!...

Orfeu, a livraria portuguesa de Bruxelas

A edição da revista Tempo Livre deste mês (Lisboa: Inatel, Dezembro.2011, nº 232) traz, com a assinatura de Humberto Lopes, a história da livraria Orfeu, "a única livraria portuguesa na região do Benelux", com sede em Bruxelas, actualmente gerida por Joaquim Pinto da Silva. A peça conta a intervenção cultural que tem sido marca daquela livraria, um projecto que foi começado há 25 anos por Fernando Gandra, escritor que adoptou Setúbal para se fixar.



António Oliveira e Castro em entrevista

O Setubalense: 14.dezembro.2011

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Luiz Pacheco biografado

Encontrei-me no final do dia com esta biografia de Luiz Pacheco (Puta que os Pariu - A Biografia de Luiz Pacheco. Lisboa: Tinta-da-China, 2011), devida a João Pedro George. Trouxe-a, ansioso por nela entrar. Ainda só li a "Introdução", mas fiquei à espera de assunto sério, de um percurso como o Pacheco merece, mesmo pela literatura, sobretudo pela literatura. Será uma leitura para estes dias, entre outras, pelo meio de outras.
A "Introdução" abre com uma verdade perfeita sobre o biografado: "Luiz Pacheco era capaz das loucuras mais desapiedadas, mas também de actos de grande generosidade. Pessoa cheia de contrastes, de oscilações e de incoerências, tinha uma enorme facilidade para relacionar-se com os outros e, depois, para cortar relações."
Polémico, sempre polémico, era assim Luiz Pacheco. Conheci amigos dele nas circunstâncias desta abertura. Tive a sorte de o ter conhecido para além da escrita e de termos construído cavaqueira em várias tardes. Também por isso o quero reencontrar.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Rui Serodio homenageado em poemas

Já cerca de um mês e meio passa sobre o desaparecimento de Rui Serodio (1937-2011), o compositor, pianista e maestro que Setúbal se habituou a ouvir numa interpretação musical fora do comum, associada a um feitio, atenção e disponibilidade exemplares. Já palavras foram ditas, já sentimentos se atropelaram na reflexão sobre a vida, sobre a amizade e sobre a memória, vindos a propósito deste homem que legou marcas de apreço e de gosto nos passos que deu.
Uma homenagem mais surgiu, desta vez partindo dos alunos da Oficina de Poesia da UNISETI, num opúsculo antológico intitulado Homenagem ao Maestro Serodio, que reúne vinte e quatro colaborações, quase totalmente poéticas, assinadas por Alexandrina Pereira, Eduarda Gonçalves, Alberto Dias, Anna Netto, Arnaldo Ruaz, Beatriz Estrela, Berta Duarte, Carmo Branco, Carmo Súcia, Célia Peixinho, Conceição Portela, Custódia Procópio, Francisco Pratas, Henrique Mateus, João Santiago, Kina Viegas, Lucinda Neves, Maria de Fátima Santiago, Maria Filomena Lopes, Maria Helena Barata, Maria Helena Freire, Maria Sol, Suzete Pereira e Viriato Horta.
Em comum, todos estes poetas cultivam a saudade, a dor da ausência, a lembrança dos momentos felizes, o afecto das sonoridades, a eloquência da música do homenageado, a marca humana que ficou. Em comum, muitos dos poetas se remetem para um próximo encontro enquanto outros tentam adivinhar uma forma de estar no paraíso, maneira de estender o afecto até ao além. É uma homenagem em palavras como podia ser em notas ou acordes ou apenas numa conversa com a eternidade.
A título de exemplo, aqui fica o sentir de Maria Helena Barata:

O rio enfureceu-se.
O céu chorou.
As gaivotas soluçaram.
A música não mais parou
e lá estavam os arcanjos
soletrando os acordes
que o Maestro preparou.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Para a agenda - António Oliveira e Castro: um convite para se saber o que andava o herói a fazer por Paris e por outros lados do planeta

A dado passo da narrativa, regista: “Nenhum escritor escreve sobre acontecimentos insignificantes, procura sempre o lado sombrio, sujo, sanguinolento, colérico e escondido do Homem; descreve os campos de batalha onde se fuzilam os inocentes e assinam acordos de paz com os generais; o artífice da palavra relata, com a emoção de que é capaz, a loucura dos heróis, o medo dos cobardes; leva-nos até aos que jazem, na agonia da morte, debruçados sobre a terra que lhes escuta o lamento.”
E, num outro passo, o leitor pergunta qual o sentido da personagem em Paris, vagueando sem ser em passeio, refugiando-se, escondendo-se, procurando-se… numa história intensa, num viajar na personagem até ao âmago, acompanhando, de novo, o narrador, que exige a nossa conivência: “Apenas nós sabemos que Eugénio é um homem imprevisível, contra quem resulta infrutífera qualquer táctica, falível a mais elaborada estratégia; apenas nós sabemos (…) que mesmo a vida mais verdadeira não passa do resultado do acaso, a que só a fé dos homens confere normalidade.”
Personagem de sonhos, de contrastes, de forças e de tempos este Eugénio que surpreende em cada página de Tambwe – A Unha do Leão (Lisboa: Gradiva, 2011), de António Oliveira e Castro!
No sábado, 3 de Dezembro, na Culsete, em Setúbal, o autor e esta obra vão ser apresentados por Fernando Gandra, enquanto o actor José Nobre lerá excertos da narrativa. É um bom pretexto para se sentir convidado!

António Oliveira e Castro (n. 1951), a residir em Setúbal, teve já a sua incursão pela poesia, de que é exemplo o título Houve mesmo um dia de desespero em que se cultivaram campos de cicuta (Col. “Caminho da Poesia”. Lisboa: Editorial Caminho, 1985), mas, nos últimos anos, é a faceta de contador de histórias que o tem atraído, tendo publicado o romance A especiaria (Col. “Tempos Modernos”. Lisboa: Guerra e Paz, 2008) e este que agora vai ser apresentado.