domingo, 16 de outubro de 2011

Máximas em mínimas (73) - Regina Samagaio

Muito e pouco - "Quem não tem muito para oferecer, o pouco que vem à tona é uma preciosidade a lapidar."

Corrida - "A gente não consegue viver. Quer correr, chegar primeiro à meta, não olha para a paisagem ao redor dos passos."

Elogio - "Enaltecer os outros é uma boa forma de os atrair. O elogio é uma teia de aranha, cativante e discreta no propósito. (...) É a vitamina principal dos relacionamentos humanos."

Regina Samagaio. "Entrevistas de Emprego". Novos Talentos FNAC Literatura 2011. Lisboa: FNAC / Teodolito, 2011.

sábado, 15 de outubro de 2011

Manuel da Fonseca - "Tejo que levas as águas", por Adriano Correia de Oliveira

Em 1975, Adriano Correia de Oliveira dava a conhecer o disco Que Nunca Mais, colectânea que reunia poesia de Manuel da Fonseca (“Tejo que levas as águas”, “O senhor gerente”, “As balas”, “No vale escuro”, “Tu e eu meu amor”, “Recado a Helena”, “Dona abastança”, “Cantiga de Montemaior” e “Prá frente”) musicada pelo próprio Adriano. Aqui fica “Tejo que levas as águas”, pescado no youtube.

No centenário de Manuel da Fonseca - "Aldeia"


Aldeia

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

Planície (1942)

De Manuel da Fonseca e do Neo-Realismo

Manuel da Fonseca faria hoje 100 anos. Ainda neste ano, em 29 de Dezembro, passarão também os 100 anos do nascimento de Alves Redol. E já neste ano, em 7 de Agosto, passaram os 100 anos do nascimento de Políbio Gomes dos Santos. Três nomes ligados ao neo-realismo literário português, três nomes a não serem esquecidos nas escolhas de leituras que se devem fazer.
Uma boa sensibilização para estes nomes e para o que foi a importância do neo-realismo pode partir do dossiê “O neo-realismo ainda conta?” que a revista Os Meus Livros deste mês (nº 103) publicou. Por lá passam abordagens destes três autores; lá se fala da importância de títulos como a colecção “Novo Cancioneiro” ou os periódicos O Diabo, Sol Nascente ou Vértice; ali se evoca ainda Mário Dionísio e Carlos de Oliveira, bem como se podem ver as ligações de Júlio Pomar ou de Manuel Ribeiro de Pavia ao movimento. Por ali vogam as palavras de escritores de hoje como Urbano Tavares Rodrigues (para quem o neo-realismo levou adiante “esse empenho em ser verdadeiro, em mostrar como se é, porque se é”), Paulo Vieira (que rejeita a necessidade de “a literatura doutrinar o leitor”), David Machado (que associa o neo-realismo à datação) ou Valter Hugo Mãe (com as preferências pela poesia de Carlos de Oliveira). Por lá ressaltam também as palavras de David Santos, director do Museu do Neo- Realismo vilafranquense, a requerer estudos críticos e equilibrados sobre a época, bem como as de Maria Alzira Seixo, que, sobre Manuel da Fonseca, diz que “nada [na sua obra] é simplista” e que “cumpre todos os parâmetros de análise literária para ser considerado um autor que não merece não ser lido”.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Rogério Fernandes em Palmela

Hoje, Rogério Fernandes faria 78 anos. Coincidentemente, hoje, em Palmela, no cine-teatro S. João, foi inaugurada a exposição “Rogério Fernandes – Vida e Obra – 1933/2010”, integrada no programa da Recepção à Comunidade Educativa, promovido pela Câmara Municipal de Palmela.
A exposição, resultante de parceria entre a Universidade Lusófona e a Fundação Calouste Gulbenkian, perpassa pelas diversas áreas de intervenção em que Rogério Fernandes ficou conhecido: a literatura, o jornalismo, o ensaísmo, a educação, a intervenção cívica e política e a investigação. Além dos painéis concebidos por Henrique Cayatte, o visitante poderá ainda apreciar considerável número de espécimes bibliográficos da obra de Rogério Fernandes nas áreas da investigação, da literatura e da tradução. A abertura da exposição teve ainda a participação de Daniel Pires, do Centro de Estudos Bocageanos, que traçou o perfil do homenageado, abordando não apenas o percurso biográfico, mas também o seu legado, sobretudo na afirmação da Seara Nova.
Recordo o que se passou há pouco mais de 31 anos, quando, em 27 de Maio de 1980, com mais três colegas, entrei no gabinete de Rogério Fernandes, ali para os lados de Picoas. Andávamos às voltas com um trabalho sobre o conto “Idílio Rústico”, de Trindade Coelho, destinado a uma cadeira da Faculdade de Letras orientada pela professora Fátima Freitas Morna. Entre a bibliografia de que obtivemos informação, constava o Ensaio sobre a Obra de Trindade Coelho, de Rogério Fernandes (Lisboa: Portugália Editora, 1961). A rapariga que integrava o grupo obteve o contacto do local de trabalho de Rogério Fernandes e resolvemos telefonar-lhe a pedir um encontro para nos falar sobre o autor transmontano. Acedeu e marcou-se data. Quando lá chegámos, nesse dia 27, Rogério Fernandes recebeu-nos com a oferta de um exemplar da obrinha para cada um de nós, já previamente autografado e com dedicatória individualizada. Fiquei impressionado e comovido com o gesto, porque, estudante universitário que era, ainda no início da licenciatura, não esperava tão especial atenção de um autor, que conhecia já de nome… Mais entusiasmado fiquei depois com a conversa – durante quase duas horas, conversámos sobre Trindade Coelho, sobre a universidade, sobre participação. Rogério Fernandes desfez-se em bonomia, em atenção, em generosidade, em empenho e pediu que, depois, lhe fizéssemos chegar uma cópia do nosso trabalhito…
Cruzei-me mais duas vezes com Rogério Fernandes – uma vez, numa reunião em que se debateu o papel da Inspecção-Geral de Educação, promovida por Marçal Grilo, então Ministro da Educação; outra vez, em Setúbal, em 2005, quando Rogério Fernandes aqui veio palestrar no programa do segundo centenário da morte de Bocage. Em ambas as ocasiões lhe relembrei o fascínio que o seu gesto de 1980 tinha exercido sobre mim e a conversa era acompanhada de um sorriso de bonomia, não sei se por lembrança, se por contentamento de ver a memória do meu fascínio, se porque o relacionamento deve ser apenas assim.
Hoje, tive de lembrar estes fragmentos de vida que me deixaram saudade. E houve uma frase patente no catálogo da exposição que me revelou parte do quase mistério daquele sorriso – “educar é aceitar e respeitar a pessoa, ajudando-a a criar a sua felicidade e a participar na felicidade dos outros.” Na memória, agradeci, uma vez mais, a Rogério Fernandes o privilégio daqueles momentos.
Por tudo o que foi o percurso de Rogério Fernandes, esta exposição não pode passar em vão. Ela pode ser vista naquele espaço até 15 de Dezembro.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Do discurso de Jardim

O senhor Jardim voltou a garantir o seu lugar de presidente no governo regional da Madeira. O discurso de vitória foi confrangedor, mesmo com aquela rábula dos óculos que lhe faltavam… Leu o discurso – triste discurso – com as armas apontadas a Lisboa. Sem novidade. Continua igual a si mesmo…
Questiono-me como é que um homem que terá dito que se arrependeu de não ter feito ainda mais dívida, que chama vigaristas aos governantes nacionais, que lhes garante luta e oposição por uma Madeira que é a sua e não a portuguesa, que os acusa de facadas nas costas… continua a merecer a confiança político-partidária.
Não me venham com questões de estilo e outras que tais! É apenas uma questão de decência democrática e de respeito pelos portugueses, inclusive os madeirenses (todos os madeirenses, que é impossível que vejam o continente com o tom grotesco com que o senhor Jardim o descreve!); o que se lhe tem ouvido é tanga!

Face da terra (5)

Na Lapa de Santa Margarida, na Arrábida

domingo, 9 de outubro de 2011

Rostos (167)

João Baptista Machado (mártir), em vitral, na Sé de Angra do Heroísmo (Terceira, Açores)

sábado, 8 de outubro de 2011

António Damásio entre Shakespeare e Fitzgerald

Uma fotografia de António Damásio faz a capa da última edição do JL, saída na quarta-feira, abrindo porta para uma entrevista assinada por Maria Leonor Nunes e Luís Ricardo Duarte. Ciência, cultura e um percurso pessoal dão as mãos nesta conversa, de onde ressaltam as ligações com a literatura. Num trajecto entre a representação e a alma humana, entre Shakespeare e Fitzgerald, entre Hemingway e Hamlet.
Shakespeare – “Não tenho um autor preferido. Se tivesse que ter um ele seria, possivelmente, Shakespeare. (…) [Ele] foi muito mais longe no campo da observação do humano. Será nesse sentido o autor mais importante de todos os que li. E é especial, porque sendo um dramaturgo acaba também por no ser representado.”
Alma humana – “Todos os grandes escritores lidam com a mente e são capazes de fazer muitas observações interessantes e descobrir muito sobre os seres humanos. Mas não creio que mais profundas do que aquelas que fez Shakespeare ou quem quer que seja que escreveu aquelas peças.”
Hemingway – “Hoje olho para Hemingway e já não o acho espectacular como aos 16 anos. Vejo muito mais as limitações da pessoa e dos cenários em que trabalhou. Estive mais do que uma vez na sua casa, onde se suicidou, até experimentei a sua máquina de escrever. E pensando na cor das paredes, horrorosa, teria sido impossível para mim escrever em salas com aquela cor. Tudo isso pesa muito nos juízos que acabamos por fazer ao longo dos anos sobre os homens que achávamos extraordinários. Mas também tem que ver com a profundidade das obras. Há 40 anos, Hemingway era para mim mais interessante do que Fitzgerald. Hoje, é precisamente o contrário.”
Hamlet – “Só há uma personagem de ficção sobre a qual podemos reflectir a vida inteira: Hamlet. Aliás, grandes actores têm desempenhado o papel, dirigidos por grandes encenadores, e com tantas interpretações possíveis. O último Hamlet de Peter Brook e o mais antigo são muito diferentes. Porque Brook mudou e os actores são diferentes. O Hamlet de Christoph Clark não tem nada a ver com o de Lawrence Olivier, ou de Tony Richardson ou de Richard Burton. Tudo depende das personalidades que estão em jogo.”
Representar – “Tanto o teatro como o cinema são metáforas muito poderosas em relação ao que se passa na mente. Só que os filmes que se projectam no ecrã, tal como uma representação num palco, por melhores que sejam, são sempre incompletos em relação ao ser humano. Porque lhes falta o corpo. Ou seja, aplicam-se bem ao espírito humano, à maneira como o cérebro analisa o mundo exterior, assim como certos aspectos do interior, mas falta-lhes a ressonância que só pode vir de um corpo vivo. Aquilo que nós somos é muito mais completo. (…) O ser humano é o mais completo cinema possível, enquanto que o cinema propriamente dito é uma pálida representação do espírito humano.”