terça-feira, 13 de setembro de 2011

Rostos (163)

Natália Correia, no "Passeio dos Poetas", na Praia da Vitória (Terceira, Açores), por Ramiro Botelho

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Lembrar Raul Brandão a propósito da sardinha (que, assada, passou a ser uma das 7 maravilhas gastronómicas portuguesas)

[foto: O Setubalense, de hoje]

Para a cidade do Sado, a sardinha tem servido como passaporte e o facto de ter havido grande envolvimento na promoção da sardinha para o concurso das sete maravilhas da gastronomia portuguesa é disso prova recente. Mas podemos lembrar outros eventos: por finais de Julho de 2001, Setúbal esteve presente na quarta edição do festival "Les Arts Dînent à l'Huile", que se realizou na cidade francesa de Douarnenez, na Bretanha, um evento que foi divulgado pela organização sob o lema "se as sardinhas pudessem falar, elas descreveriam os portos do mundo...". Refira-se a propósito que Douarnenez (apresentada por Noel Graveline como a primeira cidade francesa "a querer preservar o património marinho do tempo dos antepassados") e Setúbal apresentam pontos de aproximação devidos às pescas: tal como a cidade do Sado, a cidade bretã teve porto e indústria pesqueira desde a época da romanização e esteve ligada à produção do "garum", forma de conserva da época que também era exportada da região de Setúbal para a península itálica. Tendo também sentido o quase desaparecimento da sardinha no início do século XX, Douarnenez intitula-se hoje como a "capital europeia da conserva de peixe".
Mais recentemente, em finais de Maio do ano passado, foi a ideia da mega-sardinhada, que trouxe ao Largo José Afonso cerca de 10 mil apreciadores que se encarregaram de saborear, no tempo de oito horas, cerca de seis toneladas de sardinha.
O louvor da sardinha setubalense tem vários ecos na literatura portuguesa, mas é o nome de Raul Brandão que deve ser destacado a propósito.
A cidade de Setúbal atribuiu já o nome do escritor a uma rua, próxima de outras em que constam também nomes de autores portugueses, no Bairro Humberto Delgado. Além de nome importante na escrita, Brandão deixou alguns registos sobre Setúbal, especialmente no seu livro Os Pescadores, publicado pela primeira vez em 1923, e também na obra Portugal Pequenino, escrita em co-autoria com sua mulher, Maria Angelina, datada de 1929.
Aquilo que cativou Brandão para as paragens em Setúbal foi algo que faz parte da história da cidade desde há muito: o rio, o mar, a pesca e a sardinha, bem como as formas de vida que daí decorrem.
Na descrição da paisagem e das pessoas, a situação dos mais desfavorecidos foi tónica brandoniana - mesmo num texto de pendor impressionista e descritivo como aquele que domina o livro Os Pescadores, não pôde deixar de enviar "farpas" a uma administração pouco ecológica e pouco preocupada com a vida dos homens do mar: as queixas quanto à falta de sardinha eram muitas pelos anos 20, fenómeno que Brandão atribuía aos "vapores de arrasto", às traineiras que matavam "a dinamite", aos "barcos estrangeiros" utilizadores do carboneto, à falta de fiscalização e ao incumprimento dos regulamentos. Desiludido, ironizava: "Nós só temos um sistema bem organizado - o da destruição". Sem esperança, acrescentava, em tom apocalíptico: "é de prever que dentro de cinquenta anos não haverá uma escama nas fertilíssimas águas portuguesas". E ironizava, novamente: "Fartem-se enquanto é tempo".
[Raul Brandão]

Pelo meio do texto de Brandão, ficava a apologia da sardinha, desse pequeno peixe que, na designação taxionómica, recebe o nome de Clupea Pilchardus. Com efeito, em jeito de retrato completo e ainda que sendo longa a citação, deixou escrito o autor da Foz do Douro: "O cardume, que foi força e vida misteriosa, que formou um só corpo e passou obedecendo não sei a que instinto ou a que inteligência superior, cai sobre Lisboa - como vem de Setúbal, do Algarve e das praias ignoradas de toda a costa lusitana, das grandes armações e dos pequenos barcos. É espalhada pelo país. Comem-na assada na brasa os trabalhadores da estrada e os homens esfaimados do campo com um pedaço seco de broa. De Inverno é magra, mas pelo S.João pinga no pão. No norte o lavrador espera-a para o jantar: é o seu melhor conduto. Os pobres fregem-na numa gota de azeite, e salgada ou saltando no cesto, fresquinha da barra, viva de Espinho, gorda, antes da desova, sem cabeça e escruchada, com a guelra em sangue, ou laivos amarelos de salmoura, constitui um manjar para pobres e para ricos. Entra em todas as casas. Há quem goste dela de caldeirada e quem a prefira simplesmente assada deixando cair no lume a gordura que rechina. Há os que só saboreiam a grande, de lombo gordo e preto, e os que acham muito melhor a miúda, que se chama petinga e que se devora com escama e tudo, afirmando com uma convicção respeitável que a mulher e a sardinha quer-se da pequenina...".
Em Setúbal, ao longo dos tempos, não passou ao lado a preservação da sardinha. Na primeira década do século XX, numa política concorrencial na área das conservas, países como a Noruega, os Estados Unidos e o Japão chegaram a comercializar conservas de outras variedades de peixe como sendo conservas de sardinha. No entanto, os conserveiros franceses lutaram pela delimitação da variedade e, em 1912, um organismo como a Associação Comercial e Industrial de Setúbal apelava aos conserveiros nacionais para se juntarem "aos seus colegas franceses na luta por tão importante campanha", como refere Maria da Conceição Quintas.
No capítulo "A Pesca da Sardinha" do livro "Os Pescadores", Raúl Brandão enalteceu a sardinha, referindo que, ao chegarem, os batéis "despejam nas pedras os montes viscosos de prata" e que, ao tirarem-na da água, os pescadores se deparam com "uma onda de prata que sai da tinta azul". As tonalidades que Brandão utiliza para descrever o mar são diversas, dependendo da luz e da cor. Mas o mar que o fascinou foi o de Setúbal...
Depois de percorrer toda a costa e de ter contemplado o mar a partir de muitos ângulos, escreveu Brandão: "Onde ele atinge a perfeição é em Setúbal. Em Setúbal é imaterial. Sonha ao pé da estrada que vai a Outão, e reflecte na água cismática a sombra avermelhada dos montes, a grande curva voluptuosa com a Arrábida por pano de fundo. Ali sente-se que a água anda presa à baiazinha, a Outão e à serra. Contemplam-se e não se podem deixar. O mar não tem consistência: não é o verde do norte, não é o caldo azul do Algarve - é poeira e luz. Para os lados do Sado, a baía é ilimitada... Um clarão. E há uma época do ano em que a serra se veste de roxo, e então é que é vê-la desdobrada nesta água que é sonho e adormecimento ao mesmo tempo."
Qualquer viajante que passeasse sobre o cais podia seguir o olhar de Raúl Brandão nesse início da década de 20: "Em Setúbal, partem todos os dias os barcos para o mar. O movimento redobra. Setúbal e Olhão são os dois grandes portos de pesca. Sardinha - sardinha - sardinha... Esta península da Outra Banda, limitada por duas baías, devia ser um paraíso, pelo seu excepcional clima e pela sua luz admirável, e bastante, só ela, para, terra e mar, alimentar duas ou três vezes a população de Lisboa, se terra e mar fossem convenientemente cultivados."
Meia dúzia de anos depois de ter publicado Os Pescadores (que teve quatro edições no espaço de um ano), Raúl Brandão era autor, com a esposa, de Portugal Pequenino, título sob o qual duas personagens, o Russo e a Pisca, viajam no país, metamorfoseando-se em animais, em gotas de água ou em penedos, de forma a darem uma visão matizada e rápida: do alto, "pareciam veias os rios azulados, o Minho fronteiriço, o Douro entre montanhas, o Mondego que desce da Serra, o Tejo correndo na planície fértil até ao vasto estuário, o Sado, que passa em Setúbal, o Guadiana lá em baixo..."; do alto, "viram tudo, voaram ao acaso, andaram na baía de Setúbal, que é uma maravilha"; do alto, aprenderam que a sardinha se pesca "em toda a costa, em Lisboa, na Caparica, em Sesimbra e Setúbal", que "Setúbal e Olhão são os dois grandes portos de pesca", que, como a sardinha, "nenhum peixe dá mais dinheiro e poucos têm mais préstimo, pois ocupa o terceiro lugar na escala da alimentação e está muitos furos acima do bacalhau".
A sardinha e Setúbal davam assim as mãos através de um dos mais importantes escritores portugueses do século XX, característica apontada a Raul Brandão logo pelo jornal O Setubalense, de 6 de Dezembro de 1930, ao noticiar o seu falecimento com 63 anos: "A morte acaba de roubar às letras portuguesas o notável escritor e publicista Raul Brandão. Romancista admirável e vigoroso jornalista, Raul Brandão deixa uma enorme obra literária. Companheiro e amigo do Dr. António José de Almeida, foi chefe de redacção do jornal República na sua primeira fase e era actualmente assíduo colaborador de Seara Nova, a cujo agrupamento pertencia, afirmando com brilhantismo a sua fé de republicano".

domingo, 11 de setembro de 2011

Outra lembrança de 11 de Setembro - Antero de Quental

Alertado para um outro significado deste 11 de Setembro pelo Manuel Medeiros, aqui deixo o registo da homenagem que Ponta Delgada prestou a Antero de Quental, passando hoje 120 anos sobre a sua morte.
Em 1942, foi a inauguração do monumento a Antero, segundo um projecto do escultor açoriano Canto da Maia. Incompleto, o memorial viria a ser concluído em 1995, com esculturas laterais de Soares Branco, seguindo a ideia de Canto da Maia.
É a parte central do memorial que aqui se reproduz.

11 de Setembro, 10 anos

Dez anos sobre o 11 de Setembro, a data que arrecadou a marca da mudança no mundo, sobretudo no plano das relações entre povos e sistemas políticos, acentuada por sofrimento desmesurado.
É difícil escolher uma das memórias que retrataram esse dia, mas sempre me impressionou a fotografia captada por Richard Drew do homem em queda nas torres gémeas de Nova Iorque. Ainda ontem, num programa da SIC, o correspondente Luís Costa Ribas evocava essa fotografia para questionar o que teria pensado aquele homem, bem como todos os outros que tomaram idêntica decisão… Talvez a opção por uma corrida escolhida para a morte depois de se ter visto num beco sem saída, talvez o encontro da paz, numa fuga ao inferno, talvez... Mas fica também o sofrimento individual, o desespero, no meio da amálgama, sentido numa queda a velocidade vertiginosa num percurso de 400 metros, antecipadamente sabendo que a saída não seria para a salvação. E fica a figura humana, superior aos destroços, às alturas, aos conflitos… mas frágil e sempre vítima!
Nesse 11 de Setembro as vítimas foram quase três mil!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Teatro em Setúbal: duas propostas do TAS

O Príncipe Sapo, Irmãos Grimm - Sábado e Domingo, 11h00, Auditório Municipal Charlot
No Meio de Mil Dores (a partir de Mariana Alcoforado) - 15 de Setembro, 21h30, Claustros do Convento de Jesus


domingo, 4 de setembro de 2011

José Leon Machado, "Fluviais"

Se há justificação para um título como Fluviais, que reúne 37 narrativas, ela só pode ter relação com o que é a suposta vida de cada personagem, um corredor que, desde o nascimento à foz, é povoado por intrigas e problemas. Fluviais (Porto: Campo das Letras, 2001), de José Leon Machado, congrega, assim, quase quatro dezenas de caudais, uns mais tempestuosos do que outros – camilianos alguns deles –, mas todos no encalço de personagens mais ou menos misteriosas e detentoras de um segredo que a escrita vai desvendando.
Os contos estão divididos por dois grupos – “À sombra sob as parras”, com 21 histórias, e “Ao sol sobre as fragas”, com 16. O que separa uma e outra é a geografia em que as personagens se movem – no Minho, a primeira, em Trás-os-Montes, a segunda, ambas as regiões metonimicamente apresentadas por cenários como as “parras” ou as “fragas”, que as identificam; na primeira, girando as vidas na proximidade de Braga; na segunda, circulando entre Valpaços e a raia, com entradas na Galiza.
Por estes contos passam figuras que são os heróis das suas próprias vidas, por vezes com finais infelizes, num ambiente rural, em que a tasca é, frequentemente, centro – a do Canhoto, na primeira parte, a do Riqueto, na segunda – e em que convivem as infidelidades, as vinganças, as experiências de vida difíceis, a embriaguez, os amores contrariados, o contrabando, a emigração, as relações de vizinhança, a solidão.
Há personagens que se aproximam dos mitos – “De pé à ré, o pau como remo, em gestos lentos de quem está senhor do rio e do barco, parecia um deus”, referindo o tio Né, barqueiro, no conto “A Máscara da Ninfa” – e outras que vão construindo os seus próprios ditados, formulados à medida das suas necessidades e vícios – “Sem vinho não há alegria e antes alegria que tristeza; (…) tristeza bastava a que carregamos no lombo desde o berço”, pensava o Farra, no conto a que dá nome. Há personagens que se confrontam com questões intensas, como a descoberta da morte, no conto “O Armador” e há crítica de práticas habituais – “O que mais o espantava é que as pessoas, à frente de uma imagem por pintar, dificilmente se ajoelhariam e pronunciariam uma prece. Mas perante uma imagem pintada, imaginavam-se perante uma encarnação do santo”, reflecte Mestre Paulo em “Lascas de Cal”. E há o amor, curiosamente a determinar a abertura e o fecho do livro – idealizado, no início, em “A Máscara da Ninfa”, sugerindo a descoberta de uma ilha dos amores, e instintivo e realizado, no último conto, “A Professora Nova”, com o apelo do corpo a determinar a relação.
Contos breves são estes de Fluviais, que nos apresentam um modo de viver e de pensar longe de toda a globalização e constroem uma quase arqueologia do sentir humano, em que o instinto e a reacção a quente vencem, muitas vezes deixando o leitor desarmado perante finais inesperados ou rumos das histórias subitamente alterados.

Rostos (162)

Almeida Garrett, em calçada portuguesa, no Jardim Duque da Terceira (Angra do Heroísmo)

sábado, 3 de setembro de 2011

Máximas em mínimas (70)

“A morte brutal ceifa as belas almas, mas conserva-as. É essa a sua verdadeira grandeza. Não podemos lutar contra isso.”
Philippe Claudel. Almas Cinzentas. Porto: ASA Editores, 2004, pg. 32.

Memória: Gonçalo Freire dos Santos (1983-2011)

Na noite de 31 de Agosto para 1 de Setembro, num acidente na A2, ali para os lados do Fogueteiro, num despiste seguido de atropelamento, o Gonçalo despedia-se da vida. Aos 27 anos.
Desaparecia o sorriso com que recebia as pessoas e acabava-se o modo de ser interessado e atento a tudo. Findava um trajecto dinâmico e uma alegria que contagiava. Terminava uma relação boa com a vida.
Impressionante foi o testemunho do padre José Gusmão, pároco de S. Paulo (Setúbal), ao relembrar a inquietação do Gonçalo, há uns anos, perante a morte de um jovem, um final semelhante ao seu; mais impressionante foi o testemunho do irmão nas cerimónias fúnebres de hoje. Marcos Santos assinalou a juventude, a utopia, a alegria, as convicções e a boa disposição do irmão, elementos cativantes e cinzeladores do seu trajecto, levando todos os participantes a sentirem a memória de um modo feliz, antevista na “Oração de Santo Agostinho” – “Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho. Já verás, tudo está bem. Redescobrirás o meu coração e nele redescobrirás a ternura mais pura. Seca as tuas lágrimas e, se me amas, não chores mais.”
E que dizer das palmas que irromperam à passagem do carro fúnebre? Uma saudação à memória, por certo, mas também um acto de agradecimento pelo testemunho que a vida terá sido. O gesto de aclamar foi instantâneo e rapidamente se alastrou, numa onda de solidariedade. Exemplar maneira de assinalar a memória!

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Rostos (161)

Maria da Fonte, em Póvoa de Lanhoso, de Jorge Coelho (1996)